D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r ... ?· D a N a t u r e z a d o s D e u s…

Download D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r ... ?· D a N a t u r e z a d o s D e u s…

Post on 14-Dec-2018

213 views

Category:

Documents

0 download

TRANSCRIPT

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 1

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 2

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

Ccero

Da Natureza dos Deuses II (De Natura Deorum Liber II)

Traduo, Introduo e Notas

Willy Paredes Soares Doutor em Letras pela Universidade Federal da Paraba (UFPB/PPGL).

Professor Adjunto II da UFPB, Departamento de Letras Clssicas e Vernculas (DLCV).

Edio Bilngue

Latim/Portugus

Ideia Joo Pessoa 2018

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 3

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

Todos os direitos e responsabilidades sobre textos e imagens so do autor.

Capa/Diagramao: Magno Nicolau

Reviso Latim/Portugus: Jaynno Fernando Silva Lopes

_____________________________________________ C568n Ccero.

Da natureza dos deuses - Livro II / Willy Paredes Soares (tradutor do Latim para o Portugus). Bilingue. Joo Pessoa: Ideia, 2018.

192p. ISBN 978-85-463-0198-0 1. Latim - Portugus

CDU: 807.1

E D I T O R A

www.ideiaeditora.com.br ideiaeditora@uol.com.br

http://www.ideiaeditora.com.br/

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 4

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

Sumrio

Do Livro II .......................................................................... 5

Das Variaes Textuais no Livro II .............................. 10

DE NATVRA DEORVM LIBER II ........................... 17

DA NATUREZA DOS DEUSES LIVRO II ............. 17

Das Constelaes ........................................................... 191

Referncias ..................................................................... 192

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 5

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

Do Livro II

O livro II compe a exposio mais ampla do dilogo filosfico De Natura Deorum, proferida pelo

personagem Balbo, partidrio do estoicismo. Os seus dois primeiros pargrafos compem o exrdio, apresentado de

forma bem particular, no h propriamente a exposio de tudo que a causa contm, ou seja, as concepes sobre

natureza dos deuses, j que h a continuao do dilogo iniciado no livro I. Sendo assim o personagem Balbo fala

resumidamente sobre a exposio da causa de maneira bem particular atravs do dilogo com os outros dois

personagens, Veleio e Cota, e tenta prepar-los para o incio de seu discurso1.

Como o assunto j foi definido no livro I, est claro do que se trata, pode-se recorrer aos dizeres do Aristteles

sobre promio, para explicitar a preferncia do personagem por uma introduo discursiva to breve2. Assim o

personagem Balbo prefere ir direto narrao, pois o assunto foi claramente definido, porm demonstra certo receio

em explicitar sua tese, j que preferiria ouvir os ideais acadmicos do personagem Cota primeiramente.

Mesmo receando que o seu discurso seja refutado como aconteceu com o de Veleio, no livro I, o personagem

Balbo prepara os adversrios para o que viria a compor a sua narrao que se estende do pargrafo 3 ao 167. Sendo

assim, a narrao no pode ser considerada breve, pois compe o maior discurso entre os trs personagens, alm disso

apenas 4 pargrafos do livro II no esto includos nesta parte do discurso de Balbo, porm o personagem tenta

explicitar a doutrina estoica de uma maneira que delucida sit, seja clara, apresentando sua teoria organizada e em

sequncia, tentando evitar a digresso temtica e para garantir tal efeito de organizao, Balbo se utiliza de um

recurso que precede propriamente o incio narrao3.

1 De Natura Deorum, II, 1-2 2 Retrica, 1415a, 22-25 3 De Natura Deorum, II, 3

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 6

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

O discurso de Balbo se dispe conforme o enunciado pelo prprio personagem, mas preciso evidenciar que as

quatro partes que ele pretende abordar, duas so consideradas mais relevantes: o mundo governado pelos deuses; os

deuses se ocupam das coisas humanas.

Sobre o argumento de que os deuses existem, primeiramente demonstrado que o senso comum elevou a

deuses homens notveis pelos feitos e pela fama, como Hrcules, Castor e Plux, Esculpio e Rmulo4. Balbo leva

em considerao o senso comum, situa entre os deuses no apenas aqueles que so provenientes da unio de dois

deuses, conforme comum concepo de imortalidade. Seres, que so provenientes de um genitor mortal e de outro

imortal, no deveriam ser considerados imortais, como se observa em Hesodo5. Partindo desta definio os

semideuses seriam apenas metade deuses, no sendo totalmente providos das qualidades divinas, portanto

perecveis, como os prprios alimentos que ingerem.

Os deuses nomeados por Balbo parecem possuir caractersticas que contrariam os atributos divinos, sendo

assim do margem para possveis crticas: como considerar deuses, imortais, seres que ingerem alimentos perecveis,

no deveriam os deuses, segundo apontam os poetas picos, alimentarem-se de nctar, ambrosia e de matria

inorgnica? Claramente o representante do estoicismo se deixa conduzir pelo senso comum e no reflete sobre suas

afirmaes e sobre os que ele considera deuses, como Esculpio que foi, segundo a tradio, gerado pela unio do

deus Apolo e da mortal Cornis; Hrcules, de Zeus e da mortal Alcmena; Rmulo, de Marte e de Reia Slvia; Castor

e Plux, de Zeus e de Leda.

Balbo poderia ter criticado o senso comum, que se deixa conduzir por uma tradio que contraria evidentes

cultos e ritos, como nas oferendas a queima de gordura que era destinada aos deuses; deve-se perceber que no se

acreditava que os deuses se alimentavam dela, mas da fumaa produzida, que composta de matria inorgnica e no

perecvel, assim como seriam os deuses, j que so imortais.

Aps a demonstrao dos semideuses, considerados deuses e imortais, Balbo segue sua tentativa de definio

de quais seriam os deuses, retomando os mitos tradicionais divulgados pela tradio, principalmente pelos poetas

picos, e acrescentando uma elucidao etimolgica, na tentativa de explicar por que os deuses possuam tal ou tal

denominao6. Balbo tenta estabelecer uma conexo entre o nome da divindade, o termo que nomeia as aes

4 De Natura Deorum, II, 62 5 Trabalhos e Dias, v.159-160 6 De Natura Deorum, II, 64

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 7

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

naturais e os atributos associados divindade, como se percebe em Cronos, deus do tempo, cujo nome seria

proveniente de , tempo, termo que designa o tempo em grego; os mesmos princpios etimolgicos so aplicados a Saturn, divindade correspondente na mitologia romana ao deus , cujo nome proveniente do verbo latino saturo, alimentar-se, fartar-se, j que Saturno mitologicamente se alimenta dos filhos e, por extenso,

tambm se alimenta dos anos, do tempo; o nome do deus Jpiter, seria proveniente do verbo latino iuuo, ajudar,

auxiliar, ser til, ou seja, Jpiter iuuans pater, o pai que ajuda, que todos chamam a iuuando, para ajudar. O

mesmo raciocnio etimolgico empregado para explicitar os nomes dados a uma variedade de deuses, associados a

atributos naturais por comparao com as aes naturais e com as funes exercidas pelas divindades7.

Na terceira parte de sua narrao, Balbo defende que mundum administrari, o mundo governado, pelos

deuses e que os estoicos admitem que tal administrao pode ser demonstrada em trs argumentos:

Eamque disputationem tris in partes nostri fere diuidunt, quarum prima pars est, quae ducitur ab ea ratione, quae

docet esse deos; quo concesso confitendum est eorum consilio mundum administrari. Secunda est autem quae

docet omnes res subiectas esse naturae sentienti ab eaque omnia pulcherrume geri; quo constituto sequitur ab

animantibus principiis eam esse generatam. Tertius est locus, qui ducitur ex admiratione rerum caelestium atque

terrestrium. (De Natura Deorum, II, 75)

E os nossos geralmente dividem em trs partes esta dicusso, cuja primeira parte a que conduzida por aquela

razo, que ensina que os deuses existem; permitido isso, deve-se admitir que o mundo governado por seu

conselho. Porm, a segunda a que ensina que todas as coisas so sujeitas a uma natureza sensitiva e que por ela

tudo criado mais belamente; constitudo isso, segue que ela foi gerada por princpios animados. O terceiro

argumento o que conduzido a partir da admirao das coisas celestes e terrestres.

Baseando-se no argumento de que, alm de existirem, os deuses administram as coisas humanas, o personagem

afirma que no h nada mais superior do que uma divindade, uma vez que esta no obediente a nada, segue e rege

seus prprios princpios, que, ao invs de serem regidos pela natureza, regem-na.

7 De Natura Deorum, II, 66-70

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 8

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

Comenta-se que no se devem ignorar tais princpios de evidncia divina, de modo que os deuses devam ser

tratados com respeito e observados pelos humanos, pois haveria uma uis, fora, proveniente dos prprios deuses

que comanda no s a natureza, mas o princpio de inteligncia, o ensinamento do justo e do injusto, a prudncia e a

prpria concepo de mente, a partir da qual a fides, fides, a uirtus, virtude, e os principais fundamentos ticos

permanecem no gnero humano. No poderia um deus administrar as coisas da natureza, se no tivessem um

conhecimento mnimo de seu funcionamento e, segundo Balbo, isso no seria possvel, caso os deuses fossem

inferiores natureza e aos princpios que a regem8.

Na sequncia de seus argumentos, Balbo tenta elucidar que todas as coisas da natureza foram criadas por

princpios animados, sobre os quais certamente ele sobrepe os deuses, que, segundo o personagem, carregam em si

todo conhecimento para a administrao das coisas naturais, que no apresentam nenhuma casualidade, nem

desordem na organizao de seus elementos9. Alm disso, detm-se em explicitar por que os deuses consulere rebus

humanis, ocupam-se das coisas humanas. Aos ideais estoicos, os animais terrestres, aquticos e que voam teriam

sido criados para o benefcio humano, pois s os deuses se preocupariam em fornecer os subsdios necessrios aos

seres humanos para a sua perpetuao no mundo. Sendo assim, o personagem afirma que sempre houve um grande

cuidado com as coisas terrestres10 e que isso s poderia ter sido pensado e organizados, do modo como se conhece,

pelos deuses, pois todas as coisas teriam sido criadas e so administradas em funo dos homens. No haveria

sentido, segundo o personagem, na produo contnua da natureza e em sua renovao constante, se no existissem

seres capazes de perceber tal engenhosidade de organizao nos ciclos naturais.

O conceito de percepo desses ciclos defendido para garantir a exposio dos argumentos do personagem,

pois todo trabalho de criao e administrao das coisas terrestres no teriam fundamento sem a existncia de um ser

capaz de contempl-las, ser que desfrutasse de faculdades mentais semelhantes dos deuses, capaz de entender, na

medida do possvel, a complexidade do ciclo natural e sua reproduo. Sendo assim se afirma que os deuses criaram

os humanos ut deorum cognitionem caelum intuentes capere possent, para que, olhando atentamente o cu,

pudessem tomar conhecimento dos deuses11, o que comprova, nos ditos de Balbo, a capacidade do ser humano de

8 De Natura Deorum, II, 77 9 Idem, II, 83-84 10 Ibidem, II, 127 11 Ibidem, II, 140

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 9

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

contemplao da natureza, de seus ciclos, de sua gerao e perpetuao, e o que mais importante para os humanos a

identificao e a admirao dos seres divinos que foram capazes de tamanhas proezas criativas, fator pelo qual os

deuses precisam ser honrados e cultuados.

O discurso do estoico no situa os humanos como simples seres contemplativos e desprovidos de qualquer

mente ou razo. H a demonstrao de que o homem recebe os devidos cuidados dos deuses, pois estes, alm de

administrar toda sua criao, seja animal, mineral ou vegetal, tambm forneceram ao homem subsdios semelhantes

aos que os prprios deuses apresentam, ou seja, a mente, a razo, a prudncia, entre outros elementos que distinguem

os seres humanos dos demais animais presentes do mundo.

A partir desses exemplos, o personagem afirma que a natureza do homem ultrapassa a de todos os outros seres

animados e que se deve compreender que nem a forma, nem a posio dos membros, nem o raciocnio nos humanos

podem ter sido criados ao acaso, mas sim pelas divindades12, uma vez que o ser humano foi provido das mesmas

faculdades que esto presentes nos deuses, rationem, consilium, prudentia, razo, conselho, prudncia, no haveria

motivos para que Balbo no declarasse que o mundo o local de comum morada entre deuses e homens13.

As palavras de Balbo, no livro II, criticam sobretudo os conceitos de Pronoia e da teoria atmica que foi

desenvolvida por Veleio, no livro I, baseando-se na afirmao de que os epicuristas no teriam os conhecimentos

necessrios para falar acertadamente sobre a natureza divina, pois teriam lido apenas os escritos de Epicuro sobre o

assunto. Tais crticas poderiam ter garantido ao estoico a composio de uma exmia contra-argumentao, o que

vincularia ao discurso de Balbo explicaes mais detalhadas das ideias estoicas acerca do epicurismo na Roma do

sc. I a.C.

Aps a narrao, o personagem Babo finaliza o seu discurso e de forma bastante breve apresenta sua concluso,

composta apenas por um pargrafo14, em que se afirma que as coisas relevantes, que lhes chegaram mente e que

deveriam ser explicitadas, foram apresentadas, segundo os ideais do estoicismo.

12 De Natura Deorum, II, 147 13 Idem, II, 154 14 Ibidem, II, 168

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 10

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

Das Variaes Textuais no Livro II

O original latino utilizado na traduo basicamente o texto apresentado por Otto Plasberg, do ano de 1917

(), na edio: M. Tullius Cicero. De Natura Deorum. O. Plasberg. Leipzig. Teubner. 1917. Foram consultados tambm os seguintes textos latinos: Otto Plasberg, do ano de 1993 (), presente na edio: Cicerone. La Natura Divina; a cura de Cesare Marco Calcante, texto latino a fronte. 6.ed. Milano: BUR, 2007. Joannes Davisius, do ano

de 1723 (), presente na edio: M. Tulli Ciceronis. De Natura Deorum, Libri Tres; cum notis integris Paulli Manucii, Petri Victorii, Joachimi Camerarii et alii. Editio secunda. Cantabrigiae: typis academicis, MDCCXXIII.

Societ Editrice Dante Alighieri, do ano de 1984 (), presente na edio: M. Tullio Cicerone. De Natura Deorum; texto, costruzione versione letterale e note. 3.ed. Roma: Societ Editrice Dante Alighieri, 1984. No h indicao

nessa edio (1984) do manuscrito utilizado.

As edies e apresentam o dilogo filosfico De Natura Deorum dividido em trs livros, compostos por 44, 62 e 60 partes, respectivamente. As edies e apresentam-no em trs livros, compostos por 124, 168 e 95 partes, respectivamente.

Apesar da discrepncia entre o nmero de partes do dilogo, o texto apresentado tem a mesma extenso em

todas as edies consultadas. Tal discrepncia de partes observada devido preferncia das edies e em subdividirem os livros em sees maiores. Preferiu-se, como texto base, a edio , porm h vrias passagens presentes nas outras trs edies consultadas que divergem da .

As edies e so respectivamente de datas distintas (1917 e 1993) e apresentam, em se estabelecendo as devidas comparaes, algumas variaes entre os textos no mbito da pontuao, do vocabulrio, da grafia e da

fragmentao textual.

Divergncias vocabulares:

: et in animo quasi inscriptum esse deos. (II, 12) e : et in animo quasi insculptum esse deos. (II, 12); : quas perlucidas fecit (...) (II, 142) e : quas primum perlucidas fecit (...) (II, 142).

Divergncias de grafia:

: nisi diligenter adtenderis (...) (II, 149) e : nisi diligenter attenderis (...) (II, 149).

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 11

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

Divergncias de pontuao:

: nulli uiri uocantur, ex quo in procinctu testamenta perierunt (...) (II, 9), : nulli uiri uocantur, ex quo in procinctu testamenta perierunt. e : nulla, cum uiri uocantur, ex quo in procinctu testamenta perierunt.; : uel maximam aequabilitatem motus [constantissimamque] conuersionem caeli, solis lunae siderumque omnium

distinctionem, utilitatem (...) (II, 15), : uel maxumam, aequabilitatem motus, conuersionem caeli: solis, lunae, siderumque omnium distinctionem, uarietatem (...) e : uel maximam, aequabilitatem motus conuersionumque caeli, solis, lunae siderumque omnium distictionem, uarietatem (...); : tamen id ipsum rationibus physicis, id est naturalibus, confirmari uolo. (II, 23), : tamen id ipsum rationibus physicis confirmare uolo. e d: tamen id ipsum rationibus physicis confirmare uolo.; : ut ecum uehendi causa (...) (II, 37), : ut equum, uehendi caussa (...) e : ut equum, uehendi causa (...); : quae cum est aquilonia aut australis, in lunae (...) (II, 50), : quae tum aquilenta, tum australis. In lunae (...) e : quae tum est aquilonia, tum australis. Itaque in lunae (...); : diligenter retractarent et tamquam relegerent, [i] sunt dicti religiosi ex relegendo, [tamquam] elegantes ex eligendo, [tamquam]

[ex] diligendo diligentes (...) (II, 72), : diligenter retractarent et tamquam relegerent, sunt dicti religiosi ex relegendo, ut elegantes ex eligendo, ex tamquam a diligendo diligentes (...) e : diligenter retractarent et tamquam relegerent, sunt dicti religiosi ex relegendo, ut elegantes ex eligendo, ex diligendo diligentes (...); : quacumque enim imus qua mouemur (...) (II, 83), : quacumque enim imus, quacumque mouemur (...) e : quacumque enim imus, quacumque mouemur (...); : Sicut inciti atque alacres rostris perfremunt delphini Item alia multa Siluani melo consimilem ad aures cantum et auditum refert. (II, 89) e : Sicut inciti alacres rostris perfremunt dephini: item alia multa. Siluani melo consimilem ad aures cantum et auditum refert.; : Graiugena: de isto aperit ipsa oratio. (II, 91) e : Graiugena de isto aperit ipsa oratio.; : Propter quae Centaurus/ cedit Equi partis properans subiungere Chelis./ Hic dextram porgens, quadrupes qua uasta tenetur./ tendit et inlustrem truculentus

cedit ad Aram./ Hic sese infernis e partibus erigit Hydra,/ cuius longe corpus est fusum,/ in medioque sinu fulgens

Cretera relucet./ Extremam nitens plumato corpore Coruus/ rostro tundit, et hic Geminis est ille sub ipsis/ Ante

Canem, Procyon Graio qui nomine fertur. (II, 114) e : Propter quae Centaurus/ Cedit, Equi partis properans subiungere Chelis./ Hic dextram porgens, quadrupes qua uasta tenetur,/ Tendit, et inlustrem truculentus caedit ad

aram./ Hic sese infernis de partibus erigit Hydra: cuius longe corpus est susum. In medioque sinu fulgens Cratera

relucet./ Extremum nitens plumato corpore Coruus/ Rostro tundit: et hic Geminis est ille sub ipsis/ Ante Canem,

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 12

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

Procyon Graio qui nomine fertur.; : plenissumae terrae, artes denique innumerabiles (...) (II, 132), : plenissimae terrae: artes denique innumerabiles (...) e : plenissimae terrae, utilitates denique innumerabiles (...); : non egeremus, ut qui tamquam inuoluti quiescerent (...) (II, 143), : non egeremus, ut qui, tamquam inuoluti, quiescerent (...) e : non egeremus, tamquam inuoluti quiescerent (...).

Divergncias vocabulares:

: et in animo quasi inscriptum esse deos. (II, 12), : et in animo quasi insculptum, esse deos. e : et in animo quase insculptum esse deos.; : uel maximam aequabilitatem motus [constantissimamque] conuersionem caeli, solis lunae siderumque omnium distinctionem, utilitatem (...) (II, 15), : uel maxumam, aequabilitatem motus, conuersionem caeli: solis, lunae, siderumque omnium distinctionem, uarietatem (...) e : uel maximam, aequabilitatem motus conuersionumque caeli, solis, lunae siderumque omnium distictionem, uarietatem (...); : quorum aliud a terra sumpsimus (...) (II, 18), : quod aliud a terra sumpsimus (...) e : quod aliud a terra sumpsimus (...); : autem conclusae rationis (...) (II, 20), : autem conclusae orationis (...) e : autem conclusae orationis (...); : nam solis calor et candor inlustrior (...) (II, 40), : Nam solis candor inlustrior (...) e : Nam solis et candor illustrior (...); : medioque tantum absit extremum, quo nihil fieri potest aptius (...) (II, 47), : medioque tantum absit extremum, quantum idem a summo: quo nihil fieri potest aptius. e : medioque tantum absit extremum, quantum idem a summo, quo nihil fieri potest aptius.; : quae cum est aquilonia aut australis, in lunae (...) (II, 50), : quae tum aquilenta, tum australis. In lunae (...) e : quae tum est aquilonia, tum australis. Itaque in lunae (...); : et oriuntur e terris, +Cui Proserpinam (...) (II, 66), : et oriantur e terris. Is rapuit Proserpinam (...) e : et oriuntur e terris. Cui nuptam dicunt Proserpinam (...); : Quos deos (...) (II, 71), : hos deos (...) e : hoc eos (...); : diligenter retractarent et tamquam relegerent, [i] sunt dicti religiosi ex relegendo, [tamquam] elegantes ex eligendo, [tamquam] [ex] diligendo diligentes (...) (II, 72), : diligenter retractarent et tamquam relegerent, sunt dicti religiosi ex relegendo, ut elegantes ex eligendo, ex tamquam a diligendo diligentes

(...) e : diligenter retractarent et tamquam relegerent, sunt dicti religiosi ex relegendo, ut elegantes ex eligendo, ex diligendo diligentes (...); : quacumque enim imus qua mouemur (...) (II, 83), : quacumque enim imus, quacumque mouemur (...) e : quacumque enim imus, quacumque mouemur (...); : Utque ille apud Accium pastor (...) (II, 89), : Atqui ille apud Attium pastor (...) e : Atqui ille apud Accium pastor (...); :

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 13

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

Cuius/ propter laeum genum/ Vergilias. (II, 112), : At propter laeuum genus omni ex parte locatas/ Paruas Vergilias. e : Cuius propter laeuum genus omni ex parte locatas/ Paruas Vergilias.; : Propter quae Centaurus/ cedit Equi partis properans subiungere Chelis./ Hic dextram porgens, quadrupes qua uasta tenetur./

tendit et inlustrem truculentus cedit ad Aram./ Hic sese infernis e partibus erigit Hydra,/ cuius longe corpus est

fusum,/ in medioque sinu fulgens Cretera relucet./ Extremam nitens plumato corpore Coruus/ rostro tundit, et hic

Geminis est ille sub ipsis/ Ante Canem, Procyon Graio qui nomine fertur. (II, 114) e : Propter quae Centaurus/ Cedit, Equi partis properans subiungere Chelis./ Hic dextram porgens, quadrupes qua uasta tenetur,/ Tendit, et

inlustrem truculentus caedit ad aram./ Hic sese infernis de partibus erigit Hydra: cuius longe corpus est susum. In

medioque sinu fulgens Cratera relucet./ Extremum nitens plumato corpore Coruus/ Rostro tundit: et hic Geminis

est ille sub ipsis/ Ante Canem, Procyon Graio qui nomine fertur.; : cursu leones (...) (II, 127), : morsu leones (...) e : morsu leones (...); : plenissumae terrae, artes denique innumerabiles (...) (II, 132), : plenissimae terrae: artes denique innumerabiles (...) e : plenissimae terrae, utilitates denique innumerabiles (...); : a corde tractae et profectae (...) (II, 139), : a corde tracti et profecti (...) e : a corde tracti et profecti (...); : Quae primum oculos membranis tenuissimis uestiuit et saepsit; quas perlucidas fecit (...) (II, 142), : quas primum perlucidas fecit (...) e : quas primum perlucidas fecit (...); : nisi diligenter adtenderis (...) (II, 149), : nisi diligenter adtenderis (...) e : si diligenter attenderis (...); : deorum prudentia (...) (II, 162), : deorum prouidentia (...) e : deorum prouidentia (...);

Divergncias de grafia:

: Eundem equidem mallem audire Cottam (...) (II, 2), : Eudem equidem mallem audire Cottam (...) e : Eudem equidem malim audire Cottam (...); : nulli uiri uocantur, ex quo in procinctu testamenta perierunt (...) (II, 9), : nulli uiri uocantur, ex quo in procinctu testamenta perierunt. ed: nulla, cum uiri uocantur, ex quo in procinctu testamenta perierunt.; : uel maximam aequabilitatem motus [constantissimamque] conuersionem caeli, solis lunae siderumque omnium distinctionem, utilitatem (...) (II, 15), : uel maxumam, aequabilitatem motus, conuersionem caeli: solis, lunae, siderumque omnium distinctionem, uarietatem (...) e : uel maximam, aequabilitatem motus conuersionumque caeli, solis, lunae siderumque omnium distictionem, uarietatem (...); : ut ecum uehendi causa (...) (II, 37), : ut equum, uehendi caussa (...) e : ut equum, uehendi causa (...); : nam

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 14

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

solis calor et candor inlustrior (...) (II, 40), : Nam solis candor inlustrior (...) e : Nam solis et candor illustrior (...); : Utque ille apud Accium pastor (...) (II, 89), : Atqui ille apud Attium pastor (...) e : Atqui ille apud Accium pastor (...); : Graiugena: de isto aperit ipsa oratio. (II, 91) e : Graiugena de isto aperit ipsa oratio.; : hoc caput hic paulum sese subitoque recondite () (II, 108), : Hoc caput hic paullum sese subitoque recondit. e : Hoc caput hic paulum sese subito aequore condit.; : Propter quae Centaurus/ cedit Equi partis properans subiungere Chelis./ Hic dextram porgens, quadrupes qua uasta tenetur./ tendit et inlustrem truculentus cedit ad

Aram./ Hic sese infernis e partibus erigit Hydra,/ cuius longe corpus est fusum,/ in medioque sinu fulgens Cretera

relucet./ Extremam nitens plumato corpore Coruus/ rostro tundit, et hic Geminis est ille sub ipsis/ Ante Canem,

Procyon Graio qui nomine fertur. (II, 114) e : Propter quae Centaurus/ Cedit, Equi partis properans subiungere Chelis./ Hic dextram porgens, quadrupes qua uasta tenetur,/ Tendit, et inlustrem truculentus caedit ad aram./ Hic

sese infernis de partibus erigit Hydra: cuius longe corpus est susum. In medioque sinu fulgens Cratera relucet./

Extremum nitens plumato corpore Coruus/ Rostro tundit: et hic Geminis est ille sub ipsis/ Ante Canem, Procyon

Graio qui nomine fertur.; : plenissumae terrae, artes denique innumerabiles (...) (II, 132), : plenissimae terrae: artes denique innumerabiles (...) ed: plenissimae terrae, utilitates denique innumerabiles (...).

Fragmentos nos textos:

: An Atti Naui lituus ille, quo ad inuestigandum suem regiones uineae terminauit, contemnendus est? (II, 9), : An Atti Naui lituus ille, quo ad inuestigandum suem regiones uineae terminauit, contemnendus est? e : An Atti Nauii lituus ille contemnendus est?; : tamen id ipsum rationibus physicis, id est naturalibus, confirmari uolo. (II, 23), : tamen id ipsum rationibus physicis confirmare uolo. e : tamen id ipsum rationibus physicis confirmare uolo.; : nam solis calor et candor inlustrior (...) (II, 40), : Nam solis candor inlustrior (...) e : Nam solis et candor illustrior (...); : medioque tantum absit extremum, quo nihil fieri potest aptius (...) (II, 47), : medioque tantum absit extremum, quantum idem a summo: quo nihil fieri potest aptius. e : medioque tantum absit extremum, quantum idem a summo, quo nihil fieri potest aptius.; : et oriuntur e terris, +Cui Proserpinam (...) (II, 66), : et oriantur e terris. Is rapuit Proserpinam (...) e : et oriuntur e terris. Cui nuptam dicunt Proserpinam (...); : diligenter retractarent et tamquam relegerent, [i] sunt dicti religiosi ex relegendo, [tamquam] elegantes ex eligendo, [tamquam] [ex] diligendo diligentes (...) (II, 72), : diligenter retractarent et tamquam relegerent, sunt

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 15

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

dicti religiosi ex relegendo, ut elegantes ex eligendo, ex tamquam a diligendo diligentes (...) e : diligenter retractarent et tamquam relegerent, sunt dicti religiosi ex relegendo, ut elegantes ex eligendo, ex diligendo diligentes

(...); : Cuius/ propter laeum genum/ Vergilias. (II, 112), : At propter laeuum genus omni ex parte locatas/ ParuasVergilias. e : Cuius propter laeuum genus omni ex parte locatas/ Paruas Vergilias.; : quin etiam a caulibus brassicae, si propter sati sint (...) (II, 120), : Quin etiam a caulibus, [brassicisque,] si propter sati sint (...) e : Quin etiam a caulibus, si propter sati sint (...); : Quae primum oculos membranis tenuissimis uestiuit et saepsit; quas perlucidas fecit (...) (II, 142), : quas primum perlucidas fecit (...) e : quas primum perlucidas fecit (...); : non egeremus, ut qui tamquam inuoluti quiescerent (...) (II, 143), : non egeremus, ut qui, tamquam inuoluti, quiescerent (...) e : non egeremus, tamquam inuoluti quiescerent (...).

Divergncias nos empregos verbais:

: quae efferuescunt subiectis ignibus. (II, 27), : quae efferuescunt subditis ignibus. e quae efferuescunt subditis ignibus.; : qui esset mundi pars, quoniam rationis esset particeps (...) (II, 32), : qui est mundi pars, quoniam rationis est particeps (...) e : qui est mundi pars, quoniam rationis est particeps (...); : Itaque nihil potest indoctius (...) (II, 48), : Itaque nihil potest esse indoctius (...) e : Itaque nihil potest esse indoctius (...); : quae cum est aquilonia aut australis, in lunae (...) (II, 50), : quae tum aquilenta, tum australis. In lunae (...) e : quae tum est aquilonia, tum australis. Itaque in lunae (...); : et oriuntur e terris, +Cui Proserpinam (...) (II, 66), : et oriantur e terris. Is rapuit Proserpinam (...) e : et oriuntur e terris. Cui nuptam dicunt Proserpinam (...); : hoc caput hic paulum sese subitoque recondite () (II, 108), : Hoc caput hic paullum sese subitoque recondit e : Hoc caput hic paulum sese subito aequore condit; : quae Constant (...) (II, 136), : quae constat (...) e : quae constat (...).

Divergncias sintticas:

: uel maximam aequabilitatem motus [constantissimamque] conuersionem caeli, solis lunae siderumque omnium distinctionem, utilitatem (...) (II, 15), : uel maxumam, aequabilitatem motus, conuersionem caeli: solis, lunae, siderumque omnium distinctionem, uarietatem (...) e : uel maximam, aequabilitatem motus

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 16

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

conuersionumque caeli, solis, lunae siderumque omnium distictionem, uarietatem (...); : quae cum est aquilonia aut australis, in lunae (...) (II, 50), : quae tum aquilenta, tum australis. In lunae (...) e : quae tum est aquilonia, tum australis. Itaque in lunae (...).

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 17

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

DE NATVRA DEORVM

LIBER II

[1] Quae cum Cotta dixisset, tum Velleius Ne ego

inquit incautus, qui cum Academico et eodem rhetore

congredi conatus sim. Nam neque indisertum

Academicum pertimuissem nec sine ista philosophia

rhetorem quamuis eloquentem; neque enim flumine

conturbor inanium uerborum nec subtilitate

sententiarum, si orationis est siccitas. Tu autem, Cotta,

utraque re ualuisti; corona15 tibi et iudices defuerunt.

Sed ad ista alias, nunc Lucilium, si ipsi commodum

est, audiamus.

15 Crculo de ouvintes, assembleia.

DA NATUREZA DOS DEUSES

LIVRO II

Como Cota tivesse falado essas coisas16, ento Veleio

disse: No sou imprudente eu, que tenho me

preparado para discutir com um acadmico e com

aquele retrico. Pois eu no tivesse receado um

acadmico pouco eloquente nem, sem semelhante

filosofia, um retrico de fato eloquente; pois nem sou

perturbado por uma corrente de palavras vazias, nem

pela sutileza de sentenas, se h pobreza de estilo. Tu,

porm, Cota, foste vigoroso em ambas as coisas;

faltaram-te os ouvintes e os juzes. Mas contra essas

ouamos outras coisas, agora Luclio, se lhe

cmodo.

16 Quae.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 18

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[2] Tum Balbus: Eundem equidem mallem audire

Cottam17, dum, qua eloquentia falsos deos sustulit,

eadem ueros inducat. Est enim et philosophi et

pontificis et Cottae de dis inmortalibus habere non

errantem et uagam ut Academici, sed ut nostri stabilem

certamque sententiam. Nam contra Epicurum satis

superque dictum est; sed aueo audire, tu ipse, Cotta,

quid sentias.

An inquit oblitus es, quid initio dixerim, facilius

me, talibus praesertim de rebus, quid non sentirem,

quam quid sentirem posse dicere?

17 : Eudem equidem mallem audire Cottam (...).

: Eudem equidem malim audire Cottam (...).

Ento Balbo disse: Na verdade preferiria ouvir o

prprio Cota, desde que introduza os verdadeiros

deuses com a mesma eloquncia com a qual aboliu os

falsos. possvel que haja do filsofo, e do potfice, e

de Cota sobre os deuses imortais uma sentena no

inconstante e vaga como a do acadmico, mas estvel

e certa como a nossa. Pois contra Epicuro foi falado

suficiente e abundantemente, mas desejo muito ouvir o

que tu mesmo pensas, Cota.

Disse: Por acaso te esqueceste do que eu disse no

incio, principalmente sobre tais argumentos, mais

fcil que eu possa dizer o que no penso do que o que

penso?

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 19

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[3] Quod si haberem aliquid, quod liqueret, tamen te

uicissim audire uellem, cum ipse tam multa dixissem.

Tum Balbus: Geram tibi morem et agam, quam

breuissume potero; etenim conuictis Epicuri erroribus

longa de mea disputatione detracta oratio est. Omnino

diuidunt nostri totam istam de dis inmortalibus

quaestionem in partis quattuor. Primum docent esse

deos, deinde quales sint, tum mundum ab his

administrari, postremo consulere eos rebus humanis.

Nos autem hoc sermone, quae priora duo sunt,

sumamus; tertium et quartum, quia maiora sunt, puto

esse in aliud tempus differenda.

Minime uero inquit Cotta nam et otiosi sumus et his

de rebus agimus, quae sunt etiam negotiis

anteponenda.

Pois, se eu tivesse algo que fosse claro, porm

desejaria te ouvir, por sua vez, j que eu mesmo disse

muitas coisas.

Ento Balbo disse: Mostrarei e te levarei a maneira o

mais breve que puder, pois com os erros refutados de

Epicuro, h um discurso tirado de uma longa discusso

minha. Os nossos separam toda essa questo sobre os

deuses imortais inteiramente em quatro partes.

Primeiro, ensinam que os deuses existem; em seguida,

quais so; alm disso, que o mundo governado por

eles; finalmente, que eles se ocupam das coisas

humanas. Ns, porm, neste discurso, adotamos as

duas que so mais importantes; a terceira e a quarta,

porque so maiores, considero que devem ser

divulgadas em outro momento.

Cota disse: De modo algum, pois tanto somos ociosos

quanto tratamos sobre aquelas coisas que devem ser

antepostas aos negcios.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 20

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[4] Tum Lucilius Ne egere quidem uidetur inquit

oratione prima pars. Quid enim potest esse tam

apertum tamque perspicuum, cum caelum suspeximus

caelestiaque contemplati sumus, quam esse aliquod

numen praestantissimae mentis, quo haec regantur?

Quod ni ita esset, qui potuisset adsensu omnium dicere

Ennius aspice hoc sublime candens, quem inuocant

omnes Iouem illum uero et Iouem et dominatorem

rerum et omnia motu regentem et, ut idem Ennius,

patrem diuumque hominumque et praesentem ac

praepotentem deum? Quod qui dubitet, haud sane

intellego, cur non idem, sol sit an nullus sit, dubitare

possit;

Ento Luclio disse: A primeira parte nem mesmo

parece ter necessidade de um discurso. O que, pois,

pode ser to claro e to evidente quando olhamos o

cu e contemplamos as coisas celestes quanto haver

alguma vontade de uma mente superior, pela qual estas

coisas so governadas? Porque, se no fosse assim,

como nio poderia dizer com o consentimento de

todos Olha isto que arde no alto, que todos chamam

de Jpiter com certeza chamam-no tanto de Jpiter,

quanto de soberano das coisas, como regente de todas

as coisas em movimento, e, como diria o mesmo nio,

pai dos deuses e dos homens, e deus presente e

poderoso? Por que ele duvida, no compreendo na

verdade, por que o mesmo no pode duvidar se h sol

ou no h;

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 21

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[5] qui enim est hoc illo euidentius? Quod nisi

cognitum conprehensumque animis haberemus, non

tam stabilis opinio permaneret nec confirmaretur

diuturnitate temporis nec una cum saeclis aetatibusque

hominum inueterare potuisset. Etenim uidemus ceteras

opiniones fictas atque uanas diuturnitate extabuisse.

Quis enim hippocentaurum fuisse aut Chimaeram

putat, quaeue anus tam excors inueniri potest, quae

illa, quae quondam credebantur apud inferos, portenta

extimescat? Opinionis enim commenta delet dies,

naturae iudicia confirmat. Itaque et in nostro populo et

in ceteris deorum cultus religionumque sanctitates

existunt in dies maiores atque meliores;

Como, pois, isto mais evidente do que aquilo?

Porque se no tivssemos conhecido e compreendido

na alma, no se conservaria uma opinio to estvel,

nem se firmaria com o passar do tempo, nem poderia

ter se tornado nico com os sculos e as geraes dos

homens. Pois vemos outras opinies falsas e vs

desaparecerem com o tempo. Quem, pois, pensa que

existiu um hipocentauro ou uma quimera; ou que velha

to insensata pode ser imaginada, que teme aqueles

pressgios que em certos momentos eram confiados

aos deuses inferiores? O tempo, pois, destri as

invenes de opinio, confirma os processos da

natureza. Assim tanto no nosso povo, quanto em

outros o culto dos deuses e as sanctitas das religies se

manifestam maiores e melhores com os dias;

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 22

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[6] idque euenit non temere nec casu, sed quod et

praesentes saepe di uim suam declarant, ut et apud

Regillum bello Latinorum, cum A. Postumius dictator

cum Octauio Mamillio Tusculano proelio dimicaret, in

nostra acie Castor et Pollux ex equis pugnare uisi sunt,

et recentiore memoria idem Tyndaridae Persem uictum

nuntiauerunt. P. enim Vatinius, auus huius

adulescentis, cum e praefectura Reatina Romam

uenienti noctu duo iuuenes cum equis albis dixissent

regem Persem illo die captum, [cum] senatui

nuntiauisset, primo quasi temere de re publica locutus

in carcerem coniectus est, post a Paulo litteris allatis,

cum idem dies constitisset, et agro a senatu et

uacatione donatus est. Atque etiam cum ad fluuium

Sagram Crotoniatas Locri maximo proelio deuicissent,

eo ipso die auditam esse eam pugnam ludis Olympiae

memoriae proditum est. Saepe Faunorum uoces

exauditae, saepe uisae formae deorum quemuis aut non

hebetem aut impium deos praesentes esse confiteri

coegerunt.

E isto no ocorreu sem ponderao nem por acaso,

mas porque frequentemente tanto os deuses que esto

presentes declaram sua fora, como tambm perto do

Regilo na guerra dos Latinos, quando o ditador Aulo

Postmio combatia na batalha com Otvio Mamlio

Tusculano, no nosso exrcito Castor e Plux foram

vistos lutar nos cavalos, e em lembrana mais recente

os mesmos Tindridas18 anunciaram que Perses foi

vencido. Pois Pblio Vatnio, av daquele adolescente,

quando vinha da provncia de Reate, durante a noite,

para Roma, dois jovens com cavalos brancos disseram

que o rei Perses tinha sido capturado naquele dia,

Pblio Vatnio anunciou ao senado; primeiro, como

que precipitadamente falasse da repblica, foi lanado

no crcere; depois, trazidas as cartas por Paulo, quando

findou o mesmo dia, tanto foi presenteado pelo senado

com um campo quanto com uma iseno de servio. E

tambm quando os habitantes de Locros venceram em

uma grandiosa batalha os habitantes de Crotona junto

ao rio Sagra, naquele mesmo dia foi relatado que

aquela luta foi ouvida nos jogos de Olmpia. Muitas

vezes as vozes ouvidas dos faunos, muitas vezes as

formas vistas dos deuses impeliram seja quem for, ou

sensvel ou mpio, a reconhecer que os deuses esto

presentes.

18 Filhos de Tndaro, Castor e Plux.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 23

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[7] Praedictiones uero et praesensiones rerum

futurarum quid aliud declarant nisi hominibus ea, quae

sint, ostendi, monstrari, portendi, praedici, ex quo illa

ostenta, monstra, portenta, prodigia dicuntur. Quod si

ea ficta credimus licentia fabularum, Mopsum,

Tiresiam, Amphiaraum, Calchantem, Helenum (quos

tamen augures ne ipsae quidem fabulae adsciuissent, si

res omnino repudiarent), ne domesticis quidem

exemplis docti numen deorum conprobabimus? Nihil

nos P. Clodi bello Punico primo temeritas mouebit, qui

etiam per iocum deos inridens, cum cauea liberati pulli

non pascerentur, mergi eos in aquam iussit, ut biberent,

quoniam esse nollent? Qui risus classe deuicta multas

ipsi lacrimas, magnam populo Romano cladem attulit.

Quid collega eius, [L.] Iunius, eodem bello nonne

tempestate classem amisit, cum auspiciis non

paruisset? Itaque Clodius a populo condemnatus est,

Iunius necem sibi ipse consciuit.

Na verdade as predies e os pressgios das coisas

futuras no declaram outras coisas aos homens a no

ser aquelas, que existem, que so manifestadas,

mostradas, anunciadas, preditas; a partir disso, elas so

chamadas de manifestaes, demonstraes,

anunciaes, predies. Por que se acreditamos

naquelas coisas criadas pela liberdade das fbulas,

Morpso, Tirsias, Anfiarau, Calcas, Heleno (estes

ugures19, porm, nem mesmo as prprias fbulas

reuniriam, se os acontecimentos rejeitassem

absolutamente), nem mesmo com os exemplos

familiares ns os sbios comprovaremos o poder dos

deuses? A nada nos conduzir a irreflexo de Pblio

Cludio na primeira guerra Pnica, o qual tambm

rindo dos deuses pelo escrnio, quando da gaiola os

animaizinhos soltos no apascentavam, mandou-os

serem submergidos na gua, para que bebessem, j que

no queriam comer? Esse riso, vencida a armada,

trouxe a ele muitas lgrimas, grande runa ao povo

romano. Por que seu colega, L. Jnio, na mesma

guerra no perdeu a armada, quando no se submeteu

aos aupcios? E assim Cldio foi condenado pelo povo,

o prprio Jnio se suicidou.

19 Quos augures.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 24

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[8] C. Flaminium Coelius religione neglecta cecidisse

apud Transumenum scribit cum magno rei publicae

uulnere. Quorum exitio intellegi potest eorum imperiis

rem publicam amplificatam, qui religionibus

paruissent. Et si conferre uolumus nostra cum externis,

ceteris rebus aut pares aut etiam inferiores reperiemur,

religione, id est cultu deorum, multo superiores.

Clio escreve que Caio Flamnio, tendo negligenciado

a religio, morreu junto ao Trasmeno com uma grande

aflio para a Repblica. Pela runa daqueles pode ser

entendido que a Repblica foi ampliada sob o

comando daqueles que se submetiam aos ritos

religiosos. E se desejamos comparar nossas coisas com

as estrangeiras, em outras coisas seremos descobertos

ou iguais ou tambm inferiores, na religio, isto , no

culto dos deuses, muito superiores.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 25

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[9] An Atti Naui lituus ille, quo ad inuestigandum

suem regiones uineae terminauit, contemnendus est?20

Crederem, nisi eius augurio rex Hostilius maxima bella

gessisset. Sed neglegentia nobilitatis augurii disciplina

omissa ueritas auspiciorum spreta est, species tantum

retenta; itaque maximae rei publicae partes, in is bella

quibus rei publicae salus continetur, nullis auspiciis

administrantur, nulla peremnia seruantur, nulla ex

acuminibus, nulli uiri uocantur, ex quo in procinctu

testamenta perierunt21; tum enim bella gerere nostri

duces incipiunt, cum auspicia posuerunt.

20 : An Atti Naui lituus ille, quo ad inuestigandum suem

regiones uineae terminauit, contemnendus est?

: An Atti Nauii lituus ille contemnendus est? 21 : nulli viri uocantur, ex quo in procinctu testamenta

perierunt.

: nulla, cum uiri uocantur, ex quo in procinctu testamenta

perierunt.

Por acaso deve ser desprezado aquele litus22 de Ato

Nvio, com o qual delimitou as regies de vinha, a

procurar um suno? Acreditaria se o rei Hostlio no

tivesse produzido grandes guerras com seu augrio.

Mas pela negligncia da nobreza a disciplina do

augrio foi abandonada, a verdade dos auspcios foi

desprezada, a aparncia to somente mantida; assim as

questes maiores da Repblica, nelas as guerras em

que se mantm o bom estado da Repblica por nenhum

auspcio so administradas, nenhum auspcio23

preservado, nenhum tirado das pontas das lanas,

nenhum homem chamado, a partir disso em campo

de batalha os testamentos pereceram; pois os nossos

comandantes comeavam a fazer guerras, quando

estabeleciam os auspcios.

22 Lituus uma espcie de basto recurvado de agoureiros. 23 Peremnia: auspcio tomado antes de atravessar um rio.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 26

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[10] At uero apud maiores tanta religionis uis fuit, ut

quidam imperatores etiam se ipsos dis inmortalibus

capite uelato uerbis certis pro re publica deuouerent.

Multa ex Sibyllinis uaticinationibus, multa ex

haruspicum responsis commemorare possum quibus ea

confirmentur, quae dubia nemini debent esse. Atqui et

nostrorum augurum et Etruscorum haruspicum

disciplinam P. Scipione C. Figulo consulibus res ipsa

probauit. Quos cum Ti. Gracchus consul iterum

crearet, primus rogator, ut eos rettulit, ibidem est

repente mortuus. Gracchus cum comitia nihilo minus

peregisset remque illam in religionem populo uenisse

sentiret, ad senatum rettulit. Senatus quos ad soleret,

referendum censuit. Haruspices introducti

responderunt non fuisse iustum comitiorum rogatorem.

Mas na verdade entre os mais antigos foi tamanha a

fora da religio que alguns comandantes tambm se

consagraram eles mesmos aos deuses imortais, com a

cabea coberta por determinadas palavras por causa da

Repblica. Posso mencionar muitas coisas dos

vaticnios da Sibila, muitas coisas das respostas dos

arspices com as quais confirmado aquilo, que a

ningum deve ser dbio. Entretanto, o prprio fato, em

relao aos cnsules Pblio Cipio e Caio Fgulo,

demonstrou tanto a disciplina dos nossos ugures,

quanto dos arspices etruscos. Quando o cnsul

Tibrio Graco os elegera pela segunda vez, o primeiro

rogator24, quando os restituiu, no mesmo lugar

subitamente morreu. Graco, quando finalizou, todavia,

as assembleias e sentiu que aquele fato entraria na

religio para o povo, remeteu ao Senado. O Senado os

derrubou, declarou que deveriam ser repetidas. Os

arspices introduzidos responderam que o rogator das

assembleias no foi justo.

24 Pessoa que solicita votos para um candidato.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 27

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[11] Tum Gracchus, ut e patre audiebam, incensus ira:

itane uero, ego non iustus, qui et consul rogaui et

augur et auspicato? an uos Tusci ac barbari

auspiciorum populi Romani ius tenetis et interpretes

esse comitiorum potestis? itaque tum illos exire iussit.

Post autem e prouincia litteras ad collegium misit, se

cum legeret libros recordatum esse uitio sibi

tabernaculum captum fuisse hortos Scipionis, quod,

cum pomerium postea intrasset habendi senatus causa,

in redeundo cum idem pomerium transiret auspicari

esset oblitus; itaque uitio creatos consules esse.

Augures rem ad senatum; senatus ut abdicarent

consules; abdicauerunt. Quae quaerimus exempla

maiora: uir sapientissimus atque haud sciam an

omnium praestantissimus peccatum suum, quod celari

posset, confiteri maluit quam haerere in re publica

religionem, consules summum imperium statim

deponere quam id tenere punctum temporis contra

religionem.

Ento, Graco, como eu ouvia de meu pai, foi

inflamado pela ira: Ser possvel, no sou justo eu,

que tanto como cnsul, quanto como ugure, como

consultando os auspcios, supliquei? Por acaso vs,

etruscos e brbaros, possuis o direito dos auspcios do

povo Romano e podeis ser os intrpretes das

assembleias? E assim ordenou que eles sassem.

Porm depois enviou da provncia uma carta aos

magistrados, quando lia livros, recordou-se que a tenda

do arspice25 tinha sido tomada pelo seu ultraje,

porque, quando entrou depois no pomrio a fim de

convocar o Senado, ao retornar aos jardins de Cipio,

quando atravessou o mesmo pomrio, esqueceu-se de

tomar os auspcios; e assim os cnsules foram eleitos

por um ultraje. Os ugures disseram o fato ao Senado,

o Senado disse que os cnsules abdicassem,

abdicaram. Estes grandes exemplos procuramos: um

homem muito sbio e no sei se o mais notvel de

todos preferiu reconhecer seu erro, que podia ser

ocultado, a prejudicar a religio na Repblica, os

cnsules preferiram depor imediatamente a suprema

autoridade a conserv-la por mais tempo contra a

religio.

25 Tabernaculum.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 28

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[12] Magna augurum auctoritas; quid haruspicum ars

nonne diuina? Haec [et] innumerabilia ex eodem

genere qui uideat nonne cogatur confiteri deos esse?

Quorum enim interpretes sunt, eos ipsos esse certe

necesse est; deorum autem interpretes sunt; deos igitur

esse fateamur. At fortasse non omnia eueniunt, quae

praedicta sunt. Ne aegri quidem quia non omnes

conualescunt, idcirco ars nulla medicina est. Signa

ostenduntur a dis rerum futurarum; in his si qui

errauerunt, non deorum natura, sed hominum

coniectura peccauit. Itaque inter omnis omnium

gentium summa constat; omnibus enim innatum est et

in animo quasi inscriptum esse deos26.

26 : et in animo quasi insculptum, esse deos.

: et in animo quasi insculptum esse deos.

: et in animo quase insculptum esse deos.

O particpio insculptum usado nas demais edies mais

coerente com essa passagem do texto do que inscriptum, usado

na edio , por isso houve a preferncia, na traduo, pelo uso de insculptum, ou seja, o que est gravado.

Grande a autoridade dos ugures; no verdade que

a arte dos arspices divina? Quem v essas coisas e

outras inumerveis do mesmo gnero, no verdade

que seja conduzido a reconhecer que os deuses

existem? Delas existem, pois, intrpretes, necessrio

certamente que eles mesmos existam; porm existem

intrpretes dos deuses; confessamos ento que os

deuses existem. Mas possivelmente no ocorrem todas

as coisas que foram preditas. Nem mesmo porque

todos os doentes no se recuperam, por isso no h

nenhuma arte na medicina. Os sinais das coisas futuras

so mostrados pelos deuses; nisto se alguns erraram,

no errou a natureza dos deuses, mas a conjectura dos

homens. Assim entre todos constam elevadas coisas de

todos os povos; pois para todos inato e est quase

como inscrito na alma que os deuses existem.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 29

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[13] Quales sint, uarium est, esse nemo negat.

Cleanthes quidem noster quattuor de causis dixit in

animis hominum informatas deorum esse notiones,

primam posuit eam, de qua modo dixi, quae orta esset

ex praesensione rerum futurarum; alteram, quam

ceperimus ex magnitudine commodorum, quae

percipiuntur caeli temperatione, fecunditate terrarum

aliarumque commoditatum complurium copia;

Quais so, incerto, ningum nega que existam. Nosso

Cleante certamente falou de acordo com quatro causas

que as noes dos deuses tm sido formadas nas almas

dos homens, ps em primeiro aquela que tem sido

gerada a partir das coisas futuras, sobre a qual ainda h

pouco falei; em segundo, aquela que temos recebido a

partir da grandeza dos benefcios, que so percebidos

da organizao do cu, da fecundidade das terras e da

abundncia de outras numerosas vantagens;

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 30

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[14] tertiam quae terreret animos fulminibus,

tempestatibus, nimbis, niuibus, grandinibus, uastitate,

pestilentia, terrae motibus et saepe fremitibus

lapideisque imbribus et guttis imbrium quasi cruentis,

tum labibus aut repentinis terrarum hiatibus, tum

praeter naturam hominum pecudumque portentis, tum

facibus uisis caelestibus, tum stellis is quas Graeci

, nostri cincinnatas uocant, quae nuper bello

Octauiano magnarum fuerunt calamitatum praenuntiae

, tum sole geminato, quod, ut e patre audiui, Tuditano

et Aquilio consulibus euenerat, quo quidem anno P.

Africanus, sol alter, extinctus est, quibus exterriti

homines uim quandam esse caelestem et diuinam

suspicati sunt;

em terceiro, aquela que aterrorizava os nimos com

raios, com tempestades, com nuvens, com neves, com

granizos, com devastaes, com pestes, com

movimentos de terra, tanto frequetemente com rudos e

com chuvas de pedras, quanto com gotas de chuva

como se fossem de sangue; por um lado, com runas ou

com repentinas aberturas de terras, por outro, com

pressgios alm da natureza dos homens e dos

animais; no s, com estrelas cadentes27 vistas nos

cus, mas tambm, com estrelas as que os gregos

chamam de 28, os nossos chamam de estrelas

cabeludas, que h pouco tempo na guerra de Otaviano

foram pressgios de grandes calamidades como com

um Sol duplicado, porque, como ouvi do meu pai,

tinha ocorrido outro sol nos consulados de Tuditano e

Aqulio, naquele ano certamente Pblio Africano foi

morto, apavorados com essas coisas os homens

suspeitaram de que havia alguma fora celeste e

divina;

27 Facibus. 28 Cometas.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 31

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[15] quartam causam esse eamque uel maximam

aequabilitatem motus [constantissimamque]

conuersionem caeli, solis lunae siderumque omnium

distinctionem, utilitatem29, pulchritudinem, ordinem,

quarum rerum aspectus ipse satis indicaret non esse ea

fortuita: ut, si quis in domum aliquam aut in

gymnasium aut in forum uenerit, cum uideat omnium

rerum rationem, modum, disciplinam, non possit ea

sine causa fieri iudicare, sed esse aliquem intellegat,

qui praesit et cui pareatur, multo magis in tantis

motionibus tantisque uicissitudinibus, tam multarum

rerum atque tantarum ordinibus, in quibus nihil

umquam inmensa et infinita uetustas mentita sit,

statuat necesse est ab aliqua mente tantos naturae

motus gubernari.

29 : uel maxumam, aequabilitatem motus, conuersionem caeli:

solis, lunae, siderumque omnium distinctionem, uarietatem (...).

: uel maximam, aequabilitatem motus conuersionumque caeli,

solis, lunae siderumque omnium distictionem, uarietatem (...).

ps como quarta causa que h tanto aquela mxima de

igualdade de movimento, quanto a constantssima

rotao do cu, do sol, da lua, como a distino, a

utilidade, a beleza, a ordem de todos os astros, dessas

coisas, o prprio aspecto indicava sufucientemente que

elas no so fortuitas: de modo que se algum tivesse

vindo a alguma casa, ou a um ginsio, ou a um frum,

quando visse a medida, a ordem, a disciplina de todas

as coisas no possa julgar que elas existem sem uma

causa, mas entende que existe algum que preside e ao

qual se submete, quanto mais em to grandes

movimentos e to grandes vicissitudes, nas ordens de

to numerosas e to grandes coisas, nas quais nunca

um imenso e infinito espao de tempo se imaginou,

necessrio estabelecer que tantos movimentos da

natureza so comandados por alguma mente.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 32

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[16] Chrysippus quidem, quamquam est acerrimo

ingenio, tamen ea dicit, ut ab ipsa natura didicisse, non

ut ipse repperisse uideatur. Si enim inquit est

aliquid in rerum natura quod hominis mens, quod ratio,

quod uis, quod potestas humana efficere non possit, est

certe id, quod illud efficit, homine melius; atqui res

caelestes omnesque eae, quarum est ordo sempiternus,

ab homine confici non possunt; est igitur id, quo illa

conficiuntur, homine melius. Id autem quid potius

dixeris quam deum? Etenim si di non sunt, quid esse

potest in rerum natura homine melius; in eo enim solo

est ratio, qua nihil potest esse praestantius; esse autem

hominem, qui nihil in omni mundo melius esse quam

se putet, desipientis adrogantiae est; ergo est aliquid

melius. est igitur profecto deus.

Crisipo certamente, embora seja de aguada

inteligncia, afirma, porm, isto, como ele parece ter

aprendido com a prpria natureza, no porque parea

ter descoberto. Disse: Se, pois, h na natureza das

coisas algo, que a mente dos homens, que a razo, que

a fora, que o poder humano no pode realizar,

certamente o que o realiza melhor do que o homem;

mas de qualquer modo as coisas celestes e todas

aquelas cuja ordem eterna, no podem ser realizadas

pelo homem; ento aquilo por que elas so realizadas,

melhor do que o homem. Isso, porm, chamars mais

de que seno de deus? Efetivamente se os deuses no

existem, o que pode haver na natureza das coisas

melhor do que o homem; pois s nele h razo, nada

pode ser mais notvel do que ela; porm de uma

arrogncia tola que exista homem que pense que em

todo mundo no h nada de melhor do que ele;

portanto, h algo melhor. , pois, certamente um deus.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 33

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[17] An uero, si domum magnam pulchramque uideris,

non possis adduci ut, etiam si dominum non uideas,

muribus illam et mustelis aedificatam putes: tantum

ergo ornatum mundi, tantam uarietatem

pulchritudinemque rerum caelestium, tantam uim et

magnitudinem maris atque terrarum si tuum ac non

deorum inmortalium domicilium putes, nonne plane

desipere uideare? An ne hoc quidem intellegimus

omnia supera esse meliora, terram autem esse

infimam, quam crassissimus circumfundat aer: ut ob

eam ipsam causam, quod etiam quibusdam regionibus

atque urbibus contingere uidemus, hebetiora ut sint

hominum ingenia propter caeli pleniorem naturam, hoc

idem generi humano euenerit, quod in terra hoc est in

crassissima regione mundi conlocati sint.

Caso tenhas visto uma casa grande e bela, no podes

por ventura ser certamente induzido a que julgues,

ainda que no vejas o dono, que ela foi construda por

ratos e doninhas: portanto, julgas to grande nmero

de ornamentos do mundo, to grande variedade e

beleza das coisas celestes, to grande fora e grandeza

do mar e das terras, se julgas como tua morada e no

dos deuses imortais, no verdade que pareas ter

perdido completamente o juzo? Ou nem mesmo

compreendemos que todas as coisas superiores so

melhores do que isto, a terra, porm, a mais baixa, a

qual um ar muito espesso envolve, como por esta

mesma causa, o que tambm vemos acontecer em

algumas regies e cidades, pois a inteligncia dos

homens muito rude perto da mais completa natureza

do cu, isto mesmo tem ocorrido ao gnero humano:

que fosse colocado na terra, isto , na regio mais

baixa do mundo.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 34

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[18] Et tamen ex ipsa hominum sollertia esse aliquam

mentem et eam quidem acriorem et diuinam existimare

debemus. Vnde enim hanc homo arripuit, ut ait apud

Xenophontem Socrates, quin et umorem et calorem,

qui est fusus in corpore, et terrenam ipsam uiscerum

soliditatem, animum denique illum spirabilem, si quis

quaerat, unde habeamus, apparet; quorum aliud a terra

sumpsimus30, aliud ab umore, aliud ab igni, aliud ab

aere eo, quem spiritum dicimus, illud autem, quod

uincit haec omnia, rationem dico et, si placet pluribus

uerbis, mentem, consilium, cogitationem, prudentiam,

ubi inuenimus, unde sustulimus? An cetera mundus

habebit omnia, hoc unum, quod plurimi est, non

habebit? Atqui certe nihil omnium rerum melius est

mundo, nihil praestantius, nihil pulchrius, nec solum

nihil est, sed ne cogitari quidem quicquam melius

potest. Et si ratione et sapientia nihil est melius,

necesse est haec inesse in eo, quod optimum esse

concedimus.

30 : quod aliud a terra sumpsimus (...).

: quod aliud a terra sumpsimus (...).

E, porm, a partir da prpria esperteza dos homens,

devemos pensar que h alguma mente, tanto mais

aguada certamente, quanto divina. De onde, pois, o

homem tirou esta mente? Como disse Scrates, em

Xenofonte, visvel que no saibamos de onde vem

tanto a umidade quanto o calor, que foi espalhado no

corpo, como a prpria solidez terrena das entranhas, e

por fim aquele nimo31 vital, se algum pergunta;

dessas coisas, uma recebemos da terra, outra da

umidade, outra do fogo, outra do ar, este que

chamamos de esprito, mas aquilo que vence tudo isto,

chamo de razo e, se apraz com muitas palavras, de

mente, de conselho, de pensamento, de prudncia,

onde encontramos, de onde tiramos? Ou o mundo ter

todas as outras coisas, no ter esta nica que mais

importante? Mas certamente nada de todas essas coisas

melhor do que o mundo, nada mais notvel, nada

mais belo, nem s no existe nada, mas nem mesmo

pode-se pensar em algo melhor. E se nada melhor do

que a razo e a sabedoria, necessrio que esteja nele

isto que concedemos ser melhor.

31 Animum: princpio pensante, vontade, desejo.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 35

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[19] Quid uero tanta rerum consentiens, conspirans,

continuata cognatio quem non coget ea, quae dicuntur

a me, conprobare? Possetne uno tempore florere, dein

uicissim horrere terra, aut tot rebus ipsis se

inmutantibus solis accessus discessusque solstitiis

brumisque cognosci. Aut aestus maritimi fretorumque

angustiae ortu aut obitu lunae commoueri, aut una

totius caeli conuersione cursus astrorum dispares

conseruari? Haec ita fieri omnibus inter se

concinentibus mundi partibus profecto non possent,

nisi ea uno diuino et continuato spiritu continerentur.

Por que certamente tamanha semelhana contnua,

consentida, concordada, entre as coisas, no levar

algum32 a comprovar o que foi dito por mim? Por

acaso poderia a terra em um s momento florescer,

depois inversamente definhar, ou em todas essas coisas

que se transformam, serem conhecidas a aproximao

e o afastamento do Sol nos solstcios de vero e de

inverno; ou serem movidas as agitaes do mar e dos

estreitos pelo nascimento ou distanciamento da lua, ou

em uma nica rotao de todo o cu serem

conservados os diversos cursos dos astros? Assim

essas coisas no poderiam certamente ocorrer em todas

as partes do mundo que esto em harmonia entre si, a

no ser que elas fossem conservadas por um nico e

contnuo esprito.

32 Quem.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 36

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[20] Atque haec cum uberius disputantur et fusius, ut

mihi est in animo facere, facilius effugiunt

Academicorum calumniam; cum autem, ut Zeno

solebat, breuius angustiusque concluduntur, tum

apertiora sunt ad reprendendum, nam ut profluens

amnis aut uix aut nullo modo, conclusa autem aqua

facile conrumpitur, sic orationis flumine reprensoris

conuicia diluuntur, angustia autem conclusae rationis33

non facile se ipsa tutatur. Haec enim, quae dilatantur a

nobis, Zeno sic premebat:

33 : autem conclusae orationis (...).

: autem conclusae orationis (...).

E essas coisas quando so discutidas mais abundante e

solidamente, como est no meu nimo fazer, escapam

mais facilmente da acusao dos acadmicos; quando,

porm, como costumava Zeno, so concludas mais

breve e concisamente, ento esto mais abertas

refutao, como, pois, um rio que corre, ou com

dificuldade ou sem ritmo, a gua parada, porm,

facilmente arruinada, assim as refutaes do crtico se

diluem no rio do discurso, porm a angstia de um

pensamento concludo no defendida facilmente por

si mesma. Pois estas coisas que so tratadas por ns,

Zeno expunha assim:

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 37

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[21] Quod ratione utitur, id melius est quam id, quod

ratione non utitur; nihil autem mundo melius; ratione

igitur mundus utitur, similiter effici potest sapientem

esse mundum, similiter beatum, similiter aeternum;

omnia enim haec meliora sunt quam ea, quae sunt his

carentia, nec mundo quicquam melius. Ex quo

efficietur esse mundum deum.

O que se utiliza da razo, isto melhor do que aquilo,

que no se utiliza da razo; nada, porm, melhor do

que o mundo, ento o mundo se utiliza da razo,

igualmente pode-se concluir que o mundo sbio,

igualmente beato, igualmente eterno; pois todas estas

coisas so melhores do que aquelas que so privadas

delas, no h nada melhor do que o mundo. A partir

disso, conclu-se- que o mundo um deus.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 38

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[22] Idemque hoc modo: Nullius sensu carentis pars

aliqua potest esse sentiens; mundi autem partes

sentientes sunt; non igitur caret sensu mundus. Pergit

idem et urguet angustius: Nihil, inquit quod animi

quodque rationis est expers, id generare ex se potest

animantem compotemque rationis; mundus autem

generat animantis compotesque rationis; animans est

igitur mundus composque rationis. Idemque

similitudine, ut saepe solet, rationem conclusit hoc

modo: Si ex oliua modulate canentes tibiae

nascerentur, num dubitares, quin inesset in oliua

tibicini quaedam scientia? Quid si platani fidiculas

ferrent numerose sonantes: idem scilicet censeres in

platanis inesse musicam, cur igitur mundus non

animans sapiensque iudicetur, cum ex se procreet

animantis atque sapientis?

E ele34 expunha deste modo: Nenhuma parte de nada

privado de sentido pode ser sensvel, porm as partes

do mundo so sensveis; ento o mundo no est

privado de sentido. Ele continua e insiste mais

concisamente, diz: Nada que desprovido de alma e

o que desprovido de razo, nada disto pode gerar de

si um ser animado e dotado de razo, porm o mundo

gera seres animados e dotados de razo; ento o

mundo animado e dotado de razo. E ele

semelhantemente, como sempre costuma, concluiu o

pensamento deste modo: Se a partir de uma oliveira

nascessem flautas que tocam melodiosamente, por

acaso duvidarias de que houvesse na oliveira alguma

cincia da arte da flauta? Porque, se os pltanos

produzissem pequenas liras harmoniosas em grande

nmero, tu mesmo pensarias certamente que haveria

msica nos pltanos, por que ento o mundo no

considerado animado e sbio, quando gera de si seres

animados e sbios?

34 Idem: Zeno.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 39

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[23] Sed quoniam coepi secus agere atque initio

dixeram (negaram enim hanc primam partem egere

oratione, quod esset omnibus perspicuum deos esse),

tamen id ipsum rationibus physicis, id est naturalibus,

confirmari uolo35. Sic enim res se habet, ut omnia,

quae alantur et quae crescant, contineant in se uim

caloris, sine qua neque ali possent nec crescere. Nam

omne quod est calidum et igneum cietur et agitur motu

suo; quod autem alitur et crescit motu quodam utitur

certo et aequabili; qui quam diu remanet in nobis, tam

diu sensus et uita remanet, refrigerato autem et

extincto calore occidimus ipsi et extinguimur.

35 : tamen id ipsum rationibus physicis confirmare uolo.

: tamen id ipsum rationibus physicis confirmare uolo.

Mas depois que comecei a tratar diferentemente como

dissera no incio (pois negara que esta primeira parte

tem necessidade de um discurso, porque estaria claro

para todos que os deuses existem), porm quero que se

confirme isto mesmo com argumentos fsicos, isto ,

naturais. Pois a coisa se conhece assim, como todas as

coisas, que so alimentadas e que crescem, contm em

si uma quantidade de calor, sem a qual no podem ser

alimentadas nem crescer. Pois tudo que quente e

gneo se move e se movimenta atravs de seu

movimento; porm o que alimentado e cresce,

utiliza-se de algum movimento determinado e

uniforme, tanto durante muito tempo permanece o

sentido e a vida, quanto o movimento36 durante muito

tempo permanece em ns, porm sendo resfriado e

sendo extinto o calor, ns mesmos morremos e somos

extintos.

36 Qui.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 40

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[24] Quod quidem Cleanthes his etiam argumentis

docet, quanta uis insit caloris in omni corpore: negat

enim esse ullum cibum tam grauem, quin is nocte et

die concoquatur; cuius etiam in reliquiis inest calor iis,

quas natura respuerit. Iam uero uenae et arteriae

micare non desinunt quasi quodam igneo motu,

animaduersumque saepe est, cum cor animantis

alicuius euolsum ita mobiliter palpitaret, ut imitaretur

igneam celeritatem. Omne igitur, quod uiuit, siue

animal, siue terra editum, id uiuit propter inclusum in

eo calorem, ex quo intellegi debet eam caloris naturam

uim habere in se uitalem per omnem mundum

pertinentem.

O que certamente Cleantes ensina tambm com estes

argumentos, quanta fora de calor se encontra em todo

corpo, pois nega haver algum alimento to pesado que

no seja digerido por eles de noite e de dia, h calor

tambm naqueles restos de alimento37, os quais a

natureza tem repelido. Agora certamente as veias e as

artrias no deixam de palpitar como que por certo

movimento gneo, e sempre foi percebido, quando

retirado o corao de qualquer ser animado palpitava

assim vivamente, como reproduzisse a rapidez do

fogo. Ento tudo que vive, ou animal, ou sado da

terra, isto vive por causa do calor posto nele, a partir

disto deve-se compreender que aquela natureza do

calor tem em si uma fora vital que se estende por todo

o mundo.

37 Cuius.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 41

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[25] Atque id facilius cernemus toto genere hoc igneo,

quod tranat omnia subtilius explicato. Omnes igitur

partes mundi (tangam autem maximas) calore fultae

sustinentur. Quod primum in terrena natura perspici

potest. Nam et lapidum conflictu atque tritu elici

ignem uidemus et recenti fossione terram fumare

calentem, atque etiam ex puteis iugibus aquam calidam

trahi, et id maxime fieri temporibus hibernis, quod

magna uis terrae cauernis contineatur caloris eaque

hieme sit densior ob eamque causam calorem insitum

in terris contineat artius.

E perceberemos isto mais facilmente em todo este

gnero gneo, tendo sido explicado, o qual passa mais

sutilmente atravs de tudo.

Ento, todas as partes firmes do mundo (pegarei,

porm, as maiores) sustentam-se pelo calor. O que

primeiramente pode ser visto na natureza terrena.

Vemos, pois, tanto o fogo ser produzido do encontro e

do atrito das pedras, quanto a terra ardente fumegar em

uma recente escavao e tambm de poos perenes ser

extrada gua quente, como vemos isto ocorrer,

sobretudo, nos invernos, porque uma grande

quantidade de calor est contida nas cavidades da terra

e aquela no inverno mais densa, e por tal causa,

contm mais estreitamente o calor introduzido na terra.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 42

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[26] Longa est oratio multaeque rationes, quibus

doceri possit omnia, quae terra concipiat, semina

quaeque ipsa ex se generata stirpibus infixa contineat

ea temperatione caloris et oriri et augescere. Atque

aquae etiam admixtum esse calorem primum ipse

liquor aquae declarat et fusio, quae neque conglaciaret

frigoribus neque niue pruinaque concresceret, nisi

eadem se admixto calore liquefacta et dilapsa

diffunderet; itaque et aquilonibus reliquisque

frigoribus adiectis durescit umor, et idem uicissim

mollitur tepefactus et tabescit calore. Atque etiam

maria agitata uentis ita tepescunt, ut intellegi facile

possit in tantis illis umoribus esse inclusum calorem;

nec enim ille externus et aduenticius habendus est

tepor, sed ex intumis maris partibus agitatione

excitatus, quod nostris quoque corporibus contingit,

cum motu atque exercitatione recalescunt. Ipse uero

aer, qui natura est maxime frigidus, minime est expers

caloris;

Longo o discurso e muitos os argumentos, com os

quais se pode ensinar que todas as sementes, que a

terra produz, e aquelas que ela mesma contm, geradas

a partir de si, fixadas pelas razes, nesta mistura de

calor tanto nascem quanto crescem. E tambm a

prpria fluidez da gua demonstra que o calor foi

primeiramente misturado gua e a difuso, que no

se congelava com o frio, nem se condensava com a

neve e nem com a geada, a no ser que a mesma,

misturando-se com o calor, se espalhasse liquefeita e

derretida; assim tanto o lquido se endurece com a

aproximao do Aquilo38 e das demais frentes frias,

quanto o mesmo, ao contrrio, aquecido amolece e se

derrete com o calor. E tambm os mares agitados pelos

ventos se aquecem assim como facilmente pode ser

percebido que o calor foi includo naqueles tantos

lquidos, pois nem aquele calor moderado deve ser

considerado externo e adventcio, mas estimulado pela

agitao das mais profundas partes do mar, o que

chega tambm aos nossos corpos, quando se aquecem

com movimento e o exerccio. O prprio ar,

certamente, que por natureza , sobretudo, frio, no

est isento de calor;

38 Vento do Norte.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 43

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[27] ille uero et multo quidem calore admixtus est: ipse

enim oritur ex respiratione aquarum; earum enim quasi

uapor quidam aer habendus est, is autem existit motu

eius caloris, qui aquis continetur, quam similitudinem

cernere possumus in his aquis, quae efferuescunt

subiectis ignibus39. Iam uero reliqua quarta pars

mundi: ea et ipsa tota natura feruida est et ceteris

naturis omnibus salutarem inpertit et uitalem calorem.

39 : quae efferuescunt subditis ignibus.

: quae efferuescunt subditis ignibus.

na verdade, ele foi certamente misturado tambm com

muito calor; pois o mesmo nasce a partir da

evaporao das guas; o ar, pois, deve ser considerado

por assim dizer certo vapor delas, mas este surge do

movimento daquele calor que est contido nas guas,

tamanha semelhana podemos perceber nestas guas

que entram em ebulio quando so submetidas ao

fogo. Agora, certamente, a quarta parte que resta do

mundo, tanto ela toda ardente pela prpria natureza,

quanto partilha com todas as outras naturezas um calor

salutar e vital.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 44

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[28] Ex quo concluditur, cum omnes mundi partes

sustineantur calore, mundum etiam ipsum simili

parique natura in tanta diuturnitate seruari, eoque

magis, quod intellegi debet calidum illud atque igneum

ita in omni fusum esse natura, ut in eo insit procreandi

uis et causa gignendi, a quo et animantia omnia et ea,

quorum stirpes terra continentur, et nasci sit necesse et

augescere.

A partir disto, conclui-se que, como todas as partes do

mundo se sustentam com o calor, tambm o prprio

mundo conservado por semelhante e igual natureza

em tamanha durao, e mais do que isso, o40 que deve

ser entendido como clido e gneo, tem sido difundido

assim em toda natureza, porque h nisso uma fora de

procriar e uma causa de gerar, pelo qual41 necessrio

tanto nascerem quanto crescerem todos os seres

animados e aquelas coisas, cujas razes esto contidas

na terra.

40 Illud. 41 O calor.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 45

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[29] Natura est igitur, quae contineat mundum omnem

eumque tueatur, et ea quidem non sine sensu atque

ratione. Omnem enim naturam necesse est, quae non

solitaria sit neque simplex sed cum alio iuncta atque

conexa, habere aliquem in se principatum, ut in

homine mentem, in belua quiddam simile mentis, unde

oriantur rerum adpetitus; in arborum autem et earum

rerum, quae gignuntur e terra, radicibus inesse

principatus putatur, principatum autem id dico, quod

Graeci uocant, quo nihil in quoque

genere nec potest nec debet esse praestantius, ita

necesse est illud etiam, in quo sit totius naturae

principatus, esse omnium optumum omniumque rerum

potestate dominatuque dignissimum.

Existe, pois, uma natureza que conserva todo o mundo

e o protege, e ela certamente no sem sentido e sem

razo. necessrio, pois, que toda a natureza, que no

isolada nem simples, mas ligada e unida a outro,

tenha em si certo princpio, como a mente no homem,

algo de semelhante mente no animal, de onde nasce o

desejo das coisas; porm, nas razes das rvores e

daquelas coisas, que nascem da terra, considera-se que

existe princpio, porm afirmo como princpio o que os

gregos chamam de , nada em nenhum

gnero no pode, nem deve ser mais notvel do que

ele, assim necessrio que tambm aquilo, em que h

o princpio de toda natureza, seja o melhor de tudo e o

mais digno da autoridade e do domnio de todas as

coisas.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 46

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[30] Videmus autem in partibus mundi (nihil est enim

in omni mundo, quod non pars uniuersi sit) inesse

sensum atque rationem. in ea parte igitur, in qua mundi

inest principatus, haec inesse necessest, et acriora

quidem atque maiora. Quocirca sapientem esse

mundum necesse est, naturamque eam, quae res omnes

conplexa teneat, perfectione rationis excellere, eoque

deum esse mundum omnemque uim mundi natura

diuina contineri.

Vemos, porm, que h sentido e razo nas partes do

mundo (nada, pois, h em todo mundo que no seja

parte do universo). Ento naquela parte, na qual h o

princpio do mundo, necessrio que haja essas

coisas, e certamente mais aguadas e maiores. Por

conseguinte, necessrio que o mundo seja inteligente,

e que aquela natureza, que se mantm envolvendo

todas as coisas, exceda pela perfeio da razo, e assim

que o mundo seja um deus e que toda fora do mundo

esteja contida na natureza divina.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 47

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[31] Atque etiam mundi ille feruor purior perlucidior

mobiliorque multo ob easque causas aptior ad sensus

commouendos quam hic noster calor, quo haec, quae

nota nobis sunt, retinentur et uigent. Absurdum igitur

est dicere, cum homines bestiaeque hoc calore

teneantur et propterea moueantur ac sentiant, mundum

esse sine sensu, qui integro et libero et puro eodemque

acerrimo et mobilissimo ardore teneatur, praesertim

cum is ardor qui est mundi non agitatus ab alio neque

externo pulsu sed per se ipse ac sua sponte moueatur;

nam quid potest esse mundo ualentius, quod pellat

atque moueat calorem eum, quo ille teneatur.

E tambm aquele ardor do mundo mais puro, mais

transparente, e muito mais instvel, e por essas causas

mais apto para comover os sentidos do que este nosso

calor, atravs do qual so conservados e vigoram estas

coisas que foram verificadas por ns. Ento absurdo

dizer que j que os homens e as bestas so mantidos

por este calor e, por causa disto, se movam e sintam

o mundo existe sem sentido, que seja mantido por um

inteiro, e livre, e puro, e do mesmo modo por

agudssimo e mobilssimo calor, principalmente

quando aquele calor que do mundo se move, no

excitado por outro nem por impulso externo, mas por

ele mesmo e por sua vontade, pois o que pode haver de

melhor do que o mundo, pois impele e move aquele

calor pelo qual ele mantido.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 48

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[32] Audiamus enim Platonem quasi quendam deum

philosophorum; cui duo placet esse motus, unum

suum, alterum externum, esse autem diuinius, quod

ipsum ex se sua sponte moueatur quam, quod pulsu

agitetur alieno. Hunc autem motum in solis animis esse

ponit, ab isque principium motus esse ductum putat.

Quapropter, quoniam ex mundi ardore motus omnis

oritur, is autem ardor non alieno inpulsu, sed sua

sponte mouetur, animus sit necesse est; ex quo efficitur

animantem esse mundum. Atque ex hoc quoque

intellegi poterit in eo inesse intellegentiam, quod certe

est mundus melior quam ulla natura. Vt enim nulla

pars est corporis nostri, quae non minoris sit quam

nosmet ipsi sumus, sic mundum uniuersum pluris esse

necesse est quam partem aliquam uniuersi. Quod si ita

est, sapiens sit mundus necesse est, nam ni ita esset,

hominem, qui esset mundi pars, quoniam rationis esset

particeps42, pluris esse quam mundum omnem

oporteret.

42 : qui est mundi pars, quoniam rationis est particeps (...).

: qui est mundi pars, quoniam rationis est particeps (...).

Escutemos, pois, Plato, quase um deus dos filsofos,

ao qual apraz que existam dois movimentos, um

prprio, outro externo, porm mais divino o que

move a si mesmo, a partir de si por sua vontade do que

o que movido por impulso alheio. Considera, porm,

que este movimento esteja nas almas apenas, e pensa

que o princpio do movimento foi conduzido por elas.

Por isso, todo movimento surge, pois, a partir do calor

do mundo; aquele calor, porm, move-se no por

impulso alheio, mas por sua vontade, necessrio que

exista uma alma, a partir disso se demonstra que o

mundo animado. E a partir disto tambm poder se

compreender que nele h inteligncia, porque

certamente o mundo melhor do que qualquer

natureza. Como, pois, no h nenhuma parte de nosso

corpo, que no seja menor do que ns mesmos somos,

assim necessrio que todo o mundo seja maior do

que uma parte do todo. Porque se assim, necessrio

que o mundo seja inteligente, pois se no fosse assim,

seria necessrio que o homem, que parte do mundo,

j que participante da razo, fosse mais do que todo o

mundo.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 49

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[33] Atque etiam si a primis incohatisque naturis ad

ultimas perfectasque uolumus procedere, ad deorum

naturam perueniamus necesse est. Prima enim

animaduertimus a natura sustineri ea, quae gignantur e

terra, quibus natura nihil tribuit amplius quam, ut ea

alendo atque augendo tueretur.

E tambm, se desejamos proceder desde as primeiras e

iniciadas naturezas at s ltimas e realizadas,

necessrio que cheguemos at natureza dos deuses.

Primeiramente, pois, notamos que aquelas coisas so

sustentadas pela natureza, as quais nascem da terra, s

quais a natureza no concedeu nada de mais

abundante, para que ela, alimentando e fazendo

crescer, protegesse.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 50

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[34] Bestiis autem sensum et motum dedit et cum

quodam adpetitu accessum ad res salutares a pestiferis

recessum, hoc homini amplius, quod addidit rationem,

qua regerentur animi adpetitus, qui tum remitterentur,

tum continerentur. Quartus autem est gradus et

altissimus eorum, qui natura boni sapientesque

gignuntur, quibus a principio innascitur ratio recta

constansque, quae supra hominem putanda est deoque

tribuenda, id est mundo, in quo necesse est perfectam

illam atque absolutam inesse rationem.

s bestas, porm, deu sentido e movimento e, com

algum instinto, acesso s coisas salutares, repugnncia

s perniciosas, algo a mais ao homem, porque

acrescentou a razo, pela qual so comandados os

desejos da alma, que ora so acalmados, ora so

reprimidos. H, porm, uma quarta categoria e a mais

elevada daquelas, que pela natureza so geradas boas e

sbias, nas quais desde o princpio nasce uma razo

reta e constante, que deve ser considerada acima do

homem e atribuda a um deus, ou seja, ao mundo no

qual necessrio que exista aquela perfeita e absoluta

razo.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 51

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[35] Neque enim dici potest in ulla rerum institutione

non esse aliquid extremum atque perfectum, ut enim in

uite, ut in pecude, nisi, quae uis obstitit, uidemus

naturam suo quodam itinere ad ultimum peruenire,

atque ut pictura et fabrica ceteraeque artes habent

quendam absoluti operis effectum, sic in omni natura

ac multo etiam magis necesse est absolui aliquid ac

perfici. Etenim ceteris naturis multa externa, quo

minus perficiantur, possunt obsistere, uniuersam autem

naturam nulla res potest impedire propterea, quod

omnis naturas ipsa cohibet et continet. Quocirca

necesse est esse quartum illum et altissimum gradum,

quo nulla uis possit accedere.

Pois no se pode dizer que em algum mtodo das

coisas no haja algo de extremo e de perfeito; porque

como na videira, como no animal, exceto se alguma

fora tenha impedido, vemos que a natureza, atravs

de algum caminho seu, chega at o ltimo grau, e

como a pintura e a arquitetura e outras artes contm

certo resultado de obras perfeitas, assim em toda

natureza e certamente muito mais necessrio que

algo seja terminado e aperfeioado. Na verdade, s

outras naturezas podem-se opor muitas coisas

externas, por isso so menos aperfeioadas; nada,

porm, pode impedir toda a natureza por causa disto,

pois ela mesma retm e contm todas as naturezas. Por

conseguinte, necessrio que haja aquela quarta e

mais elevada categoria, qual nenhuma fora pode

chegar.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 52

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[36] Is autem est gradus, in quo rerum omnium natura

ponitur; quae quoniam talis est, ut et praesit omnibus

et eam nulla res possit inpedire, necesse est

intellegentem esse mundum et quidem etiam

sapientem. Quid autem est inscitius quam eam

naturam, quae omnis res sit conplexa, non optumam

dici, aut, cum sit optuma, non primum animantem

esse, deinde rationis et consilii compotem, postremo

sapientem. Qui enim potest aliter esse optima? Neque

enim, si stirpium similis sit aut etiam bestiarum,

optuma putanda sit potius quam deterruma. Nec uero,

si rationis particeps sit nec sit tamen a principio

sapiens, non sit deterior mundi potius quam humana

condicio. Homo enim sapiens fieri potest, mundus

autem, si in aeterno praeteriti temporis spatio fuit

insipiens, numquam profecto sapientiam consequetur;

ita erit homine deterior. Quod quoniam absurdum est,

et sapiens a principio mundus et deus habendus est.

Porm h aquela categoria em que posta a natureza

de todas as coisas, a qual43, pois, tal que, tanto

comanda todas as coisas, quanto nada pode impedi-la,

necessrio que o mundo seja inteligente e certamente

sbio tambm. Porm que absurdo maior h do que

aquela natureza, que reuniu todas as coisas, no ser

dita tima ou, j que tima, no ser primeiramente

um ser animado, em seguida que possui razo e

opinio, por fim que sbia. Pois como pode ser tima

de outra maneira? Pois, se fosse semelhante aos

vegetais ou tambm aos animais, no deveria ser

considerada tima mais do que pssima. Nem

certamente se fosse participante da razo, nem fosse,

porm, sbia desde o princpio, no haveria uma

condio mais inferior no mundo do que a humana.

Pois o homem pode-se tornar sbio, porm o mundo,

se no eterno espao de tempo transcorrido foi

insipiente, certamente nunca conseguir a sabedoria,

assim ser inferior ao homem. Isso, pois, absurdo, o

mundo deve ser considerado desde o princpio tanto

sbio, quanto um deus.

43 Natura.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 53

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[37] Neque enim est quicquam aliud praeter mundum

quoi nihil absit quodque undique aptum atque

perfectum expletumque sit omnibus suis numeris et

partibus. Scite enim Chrysippus, ut clipei causa

inuolucrum uaginam autem gladii, sic praeter mundum

cetera omnia aliorum causa esse generata, ut eas fruges

atque fructus, quos terra gignit, animantium causa,

animantes autem hominum, ut ecum uehendi causa44,

arandi bouem, uenandi et custodiendi canem; ipse

autem homo ortus est ad mundum contemplandum et

imitandum - nullo modo perfectus, sed est quaedam

particula perfecti.

44 : ut equum, uehendi caussa (...).

: ut equum, uehendi causa (...).

Pois no h alguma outra coisa alm do mundo qual

nada falte e que sob todos os aspectos seja provida, e

perfeita, e completa em todos os seus nmeros e

partes. Habilmente, pois, Crisipo disse que como o

invlucro para o escudo, a bainha, porm, para a

espada, assim, com exceo do mundo, todas as outras

coisas foram geradas para outras; como aqueles cereais

e frutos, que a terra gera para seres animados, os seres

animados, porm, para os homens; como o cavalo para

transportar, o boi para arar, o co para caar e

proteger; porm o prprio homem foi criado para

contemplar e imitar o mundo de nenhum modo

perfeito, mas uma pequena parte do perfeito.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 54

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[38] Sed mundus quoniam omnia conplexus est neque

est quicquam, quod non insit in eo, perfectus undique

est; qui igitur potest ei desse id, quod est optimum?

Nihil autem est mente et ratione melius; ergo haec

mundo deesse non possunt. Bene igitur idem

Chrysippus, qui similitudines adiungens omnia in

perfectis et maturis docet esse meliora, ut in equo

quam in eculeo, in cane quam in catulo, in uiro quam

in puero; item quod in omni mundo optimum sit, id in

perfecto aliquo atque absoluto esse debere;

Mas j que o mundo reuniu tudo e no existe algo que

no esteja nele, sob todos os aspectos perfeito; como

ento pode lhe faltar o que timo? Porm nada h de

melhor do que a mente e a razo; portanto estas coisas

no podem faltar ao mundo. Bem, ento, o mesmo

Crisipo, que acrescentando semelhanas, ensina que

tudo melhor nos coisas perfeitas e desenvolvidas,

como melhor no cavalo do que no potro, no co do

que no cozinho, no homem do que na criana; do

mesmo modo ensina que, o que seja timo em todo

mundo, isso deve haver em algo perfeito e absoluto;

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 55

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[39] est autem nihil mundo perfectius, nihil uirtute

melius; igitur mundi est propria uirtus. Nec uero

hominis natura perfecta est, et efficitur tamen in

homine uirtus; quanto igitur in mundo facilius; est ergo

in eo uirtus. Sapiens est igitur et propterea deus. Atque

hac mundi diuinitate perspecta tribuenda est sideribus

eadem diuinitas; quae ex mobilissima purissimaque

aetheris parte gignuntur neque ulla praeterea sunt

admixta natura totaque sunt calida atque perlucida, ut

ea quoque rectissime et animantia esse et sentire atque

intellegere dicantur.

nada, porm, mais perfeito do que o mundo, nada

melhor do que a virtude; ento a virtude prpria do

mundo. No , na verdade, a natureza do homem

perfeita; a virtude, entretanto, realiza-se no homem;

como ento se realiza mais facilmente no mundo,

ento a virtude est nele. Assim, sbio e

conquentemente um deus. E tendo sido observada esta

divindade do mundo, deve ser atribuda a mesma

divindade aos astros, que nascem da parte mais mvel

e pura do ter, e, alm disso, no foram misturados a

nenhuma natureza e todos so ardentes e muito

luminosos, de modo que dizem muito acertadamente

que tambm eles tanto so seres vivos quanto sentem e

compreendem.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 56

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[40] Atque ea quidem tota esse ignea duorum sensuum

testimonio confirmari Cleanthes putat, tactus et

oculorum. Nam solis calor et candor inlustrior45 est

quam ullius ignis, quippe qui inmenso mundo tam

longe lateque conluceat, et is eius tactus est, non ut

tepefaciat solum, sed etiam saepe comburat, quorum

neutrum faceret, nisi esset igneus. Ergo inquit cum

sol igneus sit Oceanique alatur umoribus (quia nullus

ignis sine pastu aliquo possit permanere) necesse est

aut ei similis sit igni, quem adhibemus ad usum atque

uictum, aut ei, qui corporibus animantium continetur.

45 : Nam solis candor inlustrior (...).

: Nam solis et candor illustrior (...).

E Cleante considera certamente que pelo testemunho

de dois sentidos, tato e viso, confirmado que todos

eles so gneos. Pois o calor e claridade do Sol mais

brilhante do que qualquer fogo, visto que ele no

imenso mundo resplandea em tamanha extenso e

largura, e tal seu toque que no s aquece, mas

tambm sempre queima, dessas no faria nem uma

nem outra coisa, se no fosse gneo. Portanto disse

j que o Sol gneo e alimentado pela umidade do

Oceano (porque nenhum fogo pode permanecer sem

alimento algum) necessrio que ou seja semelhante

quele fogo, que adotamos ao uso e ao alimento, ou

quele que est contido nos corpos dos seres vivos.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 57

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[41] Atqui hic noster ignis, quem usus uitae requirit,

confector est et consumptor omnium idemque,

quocumque inuasit, cuncta disturbat ac dissipat; contra

ille corporeus uitalis et salutaris omnia conseruat, alit,

auget, sustinet sensuque adficit. Negat ergo esse

dubium horum ignium sol utri similis sit, cum is

quoque efficiat, ut omnia floreant et in suo quaeque

genere pubescant, quare, cum solis ignis similis eorum

ignium sit, qui sunt in corporibus animantium, solem

quoque animantem esse oportet, et quidem reliqua

astra, quae oriantur in ardore caelesti, qui aether uel

caelum nominatur.

Entretanto, este nosso fogo, que o uso da vida exige,

destruidor e dissipador de tudo e ele, qualquer lugar

que invada, dispersa e consome tudo; ao contrrio

aquele fogo corpreu, vital e salutar, tudo conserva,

nutre, faz crescer, sustm e dispe de senso. Nega,

portanto, que haja dvida de que o Sol seja semelhante

queles fogos, uma vez que tambm ele faz com que

tudo floresa e cada um cresa em seu gnero, por

isso, como o fogo do sol semelhante queles fogos

que esto nos corpos dos seres animados, preciso

tambm que o sol seja animado e certamente os demais

astros, que nascem no ardor celeste, que chamado

ter ou cu.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 58

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[42] Cum igitur aliorum animantium ortus in terra sit,

aliorum in aqua, in aere aliorum, absurdum esse

Aristoteli uidetur in ea parte, quae sit ad gignenda

animantia aptissima, animal gigni nullum putare.

Sidera autem aetherium locum optinent; qui quoniam

tenuissimus est et semper agitatur et uiget, necesse est,

quod animal in eo gignatur, id et sensu acerrumo et

mobilitate celerrima esse. Quare cum in aethere astra

gignantur, consentaneum est in his sensum inesse et

intellegentiam, ex quo efficitur in deorum numero

astra esse ducenda. Etenim licet uidere acutiora

ingenia et ad intellegendum aptiora eorum, qui terras

incolant eas, in quibus aer sit purus ac tenuis, quam

illorum, qui utantur crasso caelo atque concreto.

Como ento o nascimento de alguns seres animados

seja na terra, de outros na gua, de outros no ar, para

Aristteles parece ser absurdo pensar que nenhum ser

vivo nasa naquela parte que a mais apropriada para

gerar os seres animados. Os astros, porm, ocupam o

lugar etreo, que , pois, muito tnue, tanto sempre

est em movimento quanto tem vigor; necessrio

que, pois o ser vivo gerado nele46, ele47 tenha tanto

senso muito enrgico quanto mobilidade muito veloz.

Por isso, como os astros surgem no ter, adequado

que nestes haja senso e inteligncia, a partir disto se

conclui que os astros devem ser estimados no nmero

dos deuses. Pois possvel ver que os engenhos

daqueles, que habitam aquelas terras, nas quais o ar

puro e tnue, so mais agudos e mais aptos para

compreender do que daqueles que se servem de um

cu denso e concreto.

46 Aetherium locum. 47 Animal.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 59

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[43] Quin etiam cibo, quo utare, interesse aliquid ad

mentis aciem putant. Probabile est igitur praestantem

intellegentiam in sideribus esse, quae et aetheriam

partem mundi incolant et marinis terrenisque umoribus

longo interuallo extenuatis alantur. Sensum autem

astrorum atque intellegentiam maxume declarat ordo

eorum atque constantia (nihil est enim, quod ratione et

numero moueri possit sine consilio), in quo nihil est

temerarium, nihil uarium, nihil fortuitum. Ordo autem

siderum et in omni aeternitate constantia neque

naturam significat (est enim plena rationis) neque

fortunam, quae amica uarietati constantiam respuit.

Sequitur ergo, ut ipsa sua sponte, suo sensu ac

diuinitate moueantur.

Porm pensam como alimento, de que te sirvas, que h

algo para agudeza da mente. ento provvel que haja

uma inteligncia superior nos astros, que tanto ocupam

a parte etrea do mundo quanto se alimentam das

tnues umidades marinhas e terrenas, em um longo

intervalo. A ordem e a constncia, porm, demonstra

sobretudo o senso e a inteligncia dos astros (nada h,

pois, que possa se mover com razo e com ordem sem

prudncia), nisso nada h de impudente, nada de

inconstante, nada de fortuito. Porm, a ordem e a

constncia dos astros em toda eternidade no

demonstra a natureza (pois plena de razo) nem a

fortuna que, amiga da diversidade, recusa a constncia.

Segue, ento, que por sua prpria vontade se movam

por seu senso e divindade.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 60

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[44] Nec uero Aristoteles non laudandus in eo, quod

omnia, quae mouentur, aut natura moueri censuit aut ui

aut uoluntate; moueri autem solem et lunam et sidera

omnia; quae autem natura mouerentur, haec aut

pondere deorsum aut leuitate in sublime ferri, quorum

neutrum astris contingeret propterea, quod eorum

motus in orbem circumque ferretur; nec uero dici

potest ui quadam maiore fieri, ut contra naturam astra

moueantur (quae enim potest maior esse?); restat

igitur, ut motus astrorum sit uoluntarius. Quae qui

uideat, non indocte solum, uerum etiam impie faciat, si

deos esse neget. Nec sane multum interest, utrum id

neget, an eos omni procuratione atque actione priuet;

mihi enim, qui nihil agit, esse omnino non uidetur.

Esse igitur deos ita perspicuum est, ut, id qui neget, uix

eum sanae mentis existimem.

Na verdade no se deve elogiar Aristteles naquilo,

porque afirmou que todas as coisas, que se movem,

movem-se ou pela natureza, ou pela fora, ou pela

vontade; que se movem, porm, o sol e a lua e todos os

astros; porm estas coisas, que se movem por natureza,

so levadas ou pelo peso para baixo, ou pela leveza

para cima, dessas nem uma nem outra coisa alcanaria

os astros, por isso que o movimento deles se lanava

em rbita e em crculo; na verdade, no se pode dizer

que se fazia por alguma fora maior, de modo que os

astros se movam contra natureza (o que pode ento ser

maior?); ento resta que o movimento dos astros seja

voluntrio. Quem v isso, age no s indouta, mas

tambm impiamente, se nega que os deuses existem.

Certamente, no importa muito se nega isto ou priva-

os de toda administrao e ao; pois, para mim, quem

no faz nada, no parece existir absolutamente. Ento

assim est claro que os deuses existem, pois

dificilmente julgo com uma mente s aquele que nega

isto.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 61

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[45] Restat, ut qualis eorum natura sit, consideremus;

in quo nihil est difficilius quam a consuetudine

oculorum aciem mentis abducere. Ea difficultas

induxit et uulgo imperitos et similes philosophos

imperitorum, ut nisi figuris hominum constitutis nihil

possent de dis inmortalibus cogitare; cuius opinionis

leuitas confutata a Cotta non desiderat orationem

meam. Sed cum talem esse deum certa notione animi

praesentiamus, primum ut sit animans, deinde ut in

omni natura nihil eo sit praestantius, ad hanc

praesensionem notionemque nostram nihil uideo quod

potius accommodem quam ut primum hunc ipsum

mundum, quo nihil excellentius fieri potest,

animantem esse et deum iudicem.

Resta que consideremos qual seja a natureza deles;

nisso nada mais difcil do que separar a agudeza da

mente do costume dos olhos. Essa dificuldade levou

tanto os ignorantes do povo, quanto os filsofos

semelhantes aos ignorantes a que no pudessem pensar

nada sobre os deuses imortais, a no ser constitudos

de aparncias de homens; cuja leveza de opinio

refutada por Cota no requer meu discurso. Mas como

pressentimos que tal deus exista com certa noo de

nimo primeiramente, para que seja animado; em

seguida, para que nada seja mais notvel do que ele em

toda natureza em relao a esta ideia e noo nossa,

no vejo nada que se ajuste mais do que,

primeiramente, se julgue que este mesmo mundo, em

relao ao qual nada pode-se fazer de mais excelente,

seja animado e um deus.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 62

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[46] Hic quam uolet Epicurus iocetur, homo non

aptissimus ad iocandum minimeque resipiens patriam,

et dicat se non posse intellegere qualis sit uolubilis et

rutundus deus, tamen ex hoc, quod etiam ipse probat,

numquam me mouebit. Placet enim illi esse deos, quia

necesse sit praestantem esse aliquam naturam qua nihil

sit melius. Mundo autem certe nihil est melius; nec

dubium, quin, quod animans sit habeatque sensum et

rationem et mentem, id sit melius quam id, quod is

careat.

Neste ponto Epicuro zomba o quanto quer, homem no

muito apto para zombar e que no tem coisa alguma de

sua ptria, e diz que ele no pode compreender o que

um deus mvel e redondo, porm nunca me afastar

disto que ele mesmo aprova tambm. A ele, pois,

agrada que os deuses existam, porque necessrio que

haja alguma natureza excelente, em relao qual

nada h de melhor. Porm certamente nada melhor

do que o mundo, nem h dvida de que aquilo que

animado e tem senso, e razo, e mente, seja melhor do

que aquilo que est privado disto.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 63

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[47] Ita efficitur animantem, sensus mentis rationis

mundum esse compotem; qua ratione deum esse

mundum concluditur. Sed haec paulo post facilius

cognoscentur ex is rebus ipsis, quas mundus efficit.

Interea Vellei noli quaeso prae te ferre uos plane

expertes esse doctrinae. Conum tibi ais et cylindrum et

pyramidem pulchriorem quam sphaeram uideri, nouum

etiam oculorum iudicium habetis. Sed sint ista

pulchriora dumtaxat aspectu quod mihi tamen ipsum

non uidetur; quid enim pulchrius ea figura, quae sola

omnis alias figuras complexa continet, quaeque nihil

asperitatis habere, nihil offensionis potest, nihil

incisum angulis nihil anfractibus, nihil eminens nihil

lacunosum; cumque duae formae praestantissimae sint,

ex solidis globus (sic enim interpretari

placet), ex planis autem circulus aut orbis, qui

Graece dicitur, his duabus formis contingit

solis ut omnes earum partes sint inter se simillumae a

medioque tantum absit extremum, quo nihil fieri potest

aptius48

48 : medioque tantum absit extremum, quantum idem a summo:

quo nihil fieri potest aptius.

: medioque tantum absit extremum, quantum idem a summo,

quo nihil fieri potest aptius.

Assim se conclui que o mundo animado, provido de

senso, de mente, de razo; por tal razo se conclui que

o mundo um deus. Mas isto um pouco mais tarde se

reconhecer mais facilmente a partir daquelas prprias

coisas que o mundo realiza. Enquanto isso, Veleio,

peo-te que no queiras propor que vs sois

completamente privados de uma doutrina. Dizes que

para ti o cone, e o cilindro, e a pirmide parecem mais

belos do que a esfera, tambm tendes um novo juzo de

olhos. Mas sejam estas coisas mais belas at no

aspecto o que, porm, no me parece o mesmo; pois

o que h de mais belo do que aquela figura, que

sozinha contm todas as outras figuras reunidas e que

no pode ter nenhuma aspereza, nenhuma aresta,

nenhum inciso dos ngulos, nada com sinuosidades,

nada saliente, nada lacunoso; e como duas so as

formas mais notveis: dos slidos, o globo (pois

prefervel traduzir assim 49); dos planos,

porm, o crculo ou a rbita, que em grego se diz 50, nestas duas formas apenas sucede que

todas as suas partes sejam semelhantes entre si e tanto

o extrema est distante do meio, quanto o meio do

extremo51, em que nada se pode realizar de melhor

49 Esfera. 50 Crculo. 51 Quantum idem a summo, presente nas edies e .

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 64

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[48] sed si haec non uidetis, quia numquam eruditum

illum puluerem attigistis, ne hoc quidem physici

intellegere potuistis, hanc aequabilitatem motus

constantiamque ordinum in alia figura non potuisse

seruari? Itaque nihil potest indoctius52 quam, quod a

uobis adfirmari solet. Nec enim hunc ipsum mundum

pro certo rutundum esse dicitis, nam posse fieri, ut sit

alia figura, innumerabilesque mundos alios aliarum

esse formarum.

52 : Itaque nihil potest esse indoctius (...).

: Itaque nihil potest esse indoctius (...).

mas se no vedes isto, porque nunca alcanastes aquele

p erudito, fsicos, no pudestes compreender nem

mesmo isto: que aquela regularidade de movimento e

constncia de ordem no pde ser conservada em outra

figura? Pois nada pode ser mais indouto do que aquilo

que costuma ser afirmado por vs. Pois no dizeis

categoricamente que este mesmo mundo redondo,

que pode, pois, acontecer que haja outra figura e que

h inumerveis outros mundos de outras formas.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 65

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[49] Quae si bis bina quot essent didicisset Epicurus

certe non diceret; sed dum palato quid sit optimum

iudicat, caeli palatum, ut ait Ennius, non suspexit.

Nam cum duo sint genera siderum, quorum alterum

spatiis inmutabilibus ab ortu ad occasum commeans

nullum umquam cursus sui uestigium infleclat, alterum

autem continuas conuersiones duas isdem spatiis

cursibusque conficiat, ex utraque re et mundi

uolubilitas, quae nisi in globosa forma esse non posset,

et stellarum rutundi ambitus cognoscuntur. Primusque

sol, qui astrorum tenet principatum, ita mouetur ut,

cum terras larga luce compleuerit, easdem modo his

modo illis ex partibus opacet; ipsa enim umbra terrae

soli officiens noctem efficit. Nocturnorum autem

spatiorum eadem est aequabilitas quae diurnorum.

Eiusdemque solis tum accessus modici tum recessus et

frigoris et caloris modum temperant.

Se tivesse aprendido quanto duas vezes dois, o que

certamente Epicuro no diria; mas enquanto julga o

que seja melhor ao cu da boca, no olhou, como diz

nio, a abboda do cu. Pois, como existem dois

gneros de astros, dos quais um viajando pelos espaos

imutveis, desde o nascimento at a queda, no se

desvia em nenhum momento de seu curso; o outro,

porm, realiza duas contnuas revolues nos mesmos

espaos e percursos, a partir de ambos os movimentos

tanto o movimento giratrio do mundo, que no pode

existir seno na forma de globo, quanto os circuitos

redondos das estrelas so conhecidos. E primeiramente

o sol que detm a supremacia dos astros, move-se

assim de modo que, quando tenha enchido as terras

com larga luz, torne sombria as mesmas, ora desta

parte, ora daquela; pois a prpria sombra da Terra,

impedindo o sol, produz a noite. Porm a igualdade

dos espaos noturnos a mesma que a dos diurnos. E

ora as moderadas aproximaes do mesmo sol, ora os

distanciamentos moderam a medida tanto do frio,

quanto do calor.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 66

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

Circumitus enim solis orbium quinque et sexaginta et

trecentorum quarta fere diei parte addita conuersionem

conficiunt annuam; inflectens autem sol cursum tum

ad septem triones tum ad meridiem aestates et hiemes

efficit et ea duo tempora, quorum alterum hiemi

senescenti adiunctum est alterum aestati: ita ex

quattuor temporum mutationibus omnium, quae terra

marique gignuntur, initia causaeque ducuntur.

Pois os 365 giros das rbitas do sol, acrescidos

geralmente de uma quarta parte de dia, formam uma

revoluo anual; porm o sol, desviando o curso, ora a

norte, ora a sul, produz as estaes, tanto os invernos,

quanto aquelas duas estaes, uma das quais est junto

ao inverno acabando, outra do vero, assim a partir das

mudanas de todas as quatro estaes so conduzidos

os princpios e as causas, do que nasce na terra e no

mar.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 67

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[50] Iam solis annuos cursus spatiis menstruis luna

consequitur, cuius tenuissimum lumen facit proximus

accessus ad solem, digressus autem longissimus

quisque plenissimum. Neque solum eius species ac

forma mutatur tum crescendo tum defectibus in initia

recurrendo, sed etiam regio; quae cum est aquilonia aut

australis, in lunae53 quoque cursu est et brumae

quaedam et solstitii similitudo, multaque ab ea manant

et fluunt, quibus et animantes alantur augescantque et

pubescant maturitatemque adsequantur, quae oriuntur

e terra.

53 : quae tum aquilenta, tum australis. In lunae (...).

: quae tum est aquilonia, tum australis. Itaque in lunae (...).

J a lua realiza em espaos mensais os cursos anuais

do sol, uma chegada mais prxima ao sol faz mais

tnue a sua54 luz, mas cada afastamento mais longo,

mais plena. No s se muda o seu aspecto e forma

ora crescendo, ora voltando ao incio, com ausncias

de luz mas tambm o lugar; como este setentrional

ou austral, tambm no curso da lua h certa

semelhana com o solstcio de inverno e de vero, e

muitas coisas dela emanam e fluem, pelas quais tanto

os seres animados so nutridos e crescem quanto

chegam puberdade e conseguem a maturidade, as

quais nascem da terra.

54 Cuius.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 68

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[51] Maxume uero sunt admirabiles motus earum

quinque stellarum, quae falso uocantur errantes; nihil

enim errat, quod in omni aeternitate conseruat

progressus et regressus reliquosque motus constantis et

ratos. Quod eo est admirabilius in is stellis, quas

dicimus, quia tum occultantur tum rursus aperiuntur,

tum adeunt tum recedunt, tum antecedunt tum autem

subsecuntur, tum celerius mouentur tum tardius, tum

omnino ne mouentur quidem sed ad quoddam tempus

insistunt. Quarum ex disparibus motionibus magnum

annum mathematici nominauerunt, qui tum efficitur,

cum solis et lunae et quinque errantium ad eandem

inter se comparationem confectis omnium spatiis est

facta conuersio;

Certamente so admirveis sobretudo os movimentos

daquelas cinco estrelas que falsamente so chamadas

de errantes; pois no erra nada, que por toda a

eternidade mantm os avanos e regressos, e os outros

movimentos constantes e regulares. O que, por causa

disto, mais admirvel naquelas estrelas, das quais

falamos, porque ora se ocultam, ora se mostram de

novo, ora se aproximam, ora se retiram, ora se

antecedem, ora porm se seguem, ora se movem mais

rpido, ora mais lentamente, ora nem mesmo se

movem absolutamente, mas param em certo tempo. A

partir de seus desiguais movimentos, os matemticos

nomearam o grande ano, que ento se efetua, quando

realizada a revoluo do sol, e da lua, e das cinco

errantes at a mesma posio entre si, tendo-se

concludos os espaos de todos;

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 69

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[52] quae, quam longa sit, magna quaestio est, esse

uero certam et definitam necesse est. Nam ea, quae

Saturni stella dicitur que a Graecis

nominatur, quae a terra abest plurimum, XXX fere

annis cursum suum conficit, in quo cursu multa

mirabiliter efficiens tum antecedendo tum retardando,

tum uespertinis temporibus delitiscendo tum matutinis

rursum se aperiendo nihil inmutat sempiternis

saeclorum aetatibus, quin eadem isdem temporibus

efficiat, infra autem hanc propius a terra Iouis stella

fertur, quae dicitur, eaque eundem duodecim

signorum orbem annis duodecim conficit easdemque

quas Saturni stella efficit in cursu uarietates.

quo longa seja a revoluo, uma grande questo,

necessrio seguramente que seja certa e definida.

Aquela, pois, que chamada estrela de Saturno, e

pelos gregos nomeada 55, que est muito

afastada da terra, executa o seu curso

aproximadamente em 30 anos, neste curso muitas

coisas realizando admiravelmente, ora antecedendo,

ora retardando, ora se ocultando tarde, ora de novo se

mostrando pela manh, nada muda nos eternos tempos

dos sculos que no realiza as mesmas coisas no

mesmo tempo; porm abaixo desta, mais perto da

terra, gira a estrela de Jpiter, que dita 56, e

esta realiza o mesmo giro dos doze signos em doze

anos e as mesmas variaes que realiza a estrela de

Saturno em curso.

55 Brilhante. 56 Brilhante, planeta Jpiter.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 70

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[53] Huic autem proximum inferiorem orbem tenet

, quae stella Martis appellatur, eaque quattuor

et uiginti mensibus sex, ut opinor, diebus minus

eundem lustrat orbem quem duae superiores, infra

hanc autem stella Mercuri est (ea appellatur

a Graecis), quae anno fere uertenti signiferum lustrat

orbem neque a sole longius umquam unius signi

interuallo discedit tum anteuertens tum subsequens.

Infima est quinque errantium terraeque proxuma stella

Veneris, quae Graece Lucifer Latine

dicitur cum antegreditur solem, cum subsequitur autem

: ea cursum anno conficit et latitudinem

lustrans signiferi orbis et longitudinem, quod idem

faciunt stellae superiores, neque umquam ab sole

duorum signorum interuallo longius discedit tum

antecedens tum subsequens.

Porm, desta 57 tem a rbita inferior mais

prxima, que chamada estrela de Marte, e ela

percorre em menos de 24 meses e 6 dias a mesma

rbita que as duas superiores, como penso; abaixo

desta, porm, h a estrela de Mercrio (que chamada

pelos gregos de 58), que aproximadamente no

espao de um ano, percorre a rbita estrelada e nunca

se afasta do sol mais longe do que o intervalo de uma

estrela, ora chegando antes, ora seguindo. A mais

baixa das cinco errantes e a mais prxima da terra a

estrela de Vnus, que em grego dita 59,

em latim, Lcifer, quando precede o sol; 60,

porm, quando vem depois: ela realiza o curso em um

ano, percorrendo tanto a largura quanto o comprimento

da rbita estrelada, pois o mesmo fazem as estrelas

superiores, e nunca se afasta do sol mais longe do que

o intervalo de duas estrelas, ora precedendo, ora

seguindo.

57 De fogo. 58 Brilhante, planeta Mercrio. 59 Que traz a luz, planeta Vnus. 60 Estrela da noite.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 71

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[54] Hanc igitur in stellis constantiam, hanc tantam

tam uariis cursibus in omni aeternitate conuenientiam

temporum non possum intellegere sine mente ratione

consilio, quae cum in sideribus inesse uideamus, non

possumus ea ipsa non in deorum numero reponere.

Nec uero eae stellae, quae inerrantes uocantur, non

significant eandem mentem atque prudentiam, quarum

est cotidiana conueniens constansque conuersio, nec

habent aetherios cursus neque caelo inhaerentes, ut

plerique dicunt physicae rationis ignari; non est enim

aetheris ea natura, ut ui sua stellas conplexa

contorqueat, nam tenuis ac perlucens et aequabili

calore suffusus aether non satis aptus ad stellas

continendas uidetur;

No posso compreender ento esta constncia nas

estrelas, esta tamanha harmonia de tempo em to

diversos cursos em toda a eternidade, sem uma mente,

uma razo, um plano, como vemos que h isto nos

astros, no podemos no pr os mesmos no nmero

dos deuses. Certamente nem aquelas estrelas, que so

chamadas fixas, no indicam a mesma mente e

prudncia, das quais o curso habitual, conveniente e

constante, nem tem cursos celestes e nem inerentes ao

cu, como dizem muitos ignorantes da razo fsica;

pois no h aquela natureza do ter, quando abraando

pela sua fora faz girar as estrelas, pois o ter tnue e

transparente, e banhado por um calor igual, no parece

suficientemente preparado para conter as estrelas;

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 72

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[55] habent igitur suam sphaeram stellae inerrantes ab

aetheria coniunctione secretam et liberam. Earum

autem perennes cursus atque perpetui cum admirabili

incredibilique constantia declarant in his uim et

mentem esse diuinam, ut haec ipsa qui non sentiat

deorum uim habere is nihil omnino sensurus esse

uideatur.

ento as estrelas fixas tm sua esfera particular e livre

da ligao com o ter. Porm, seus cursos inalterveis

e perptuos com admirvel e inacreditvel constncia

demonstram nisto que h uma fora e mente divina,

porque o que no sente que aquelas mesmas tm a

fora de deuses, este parece que no haver de

perceber absolutamente nada.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 73

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[56] Nulla igitur in caelo nec fortuna nec temeritas nec

erratio nec uanitas inest contraque omnis ordo ueritas

ratio constantia, quaeque his uacant ementita et falsa

plenaque erroris, ea circum terras infra lunam, quae

omnium ultima est, in terrisque uersantur. Caelestem

ergo admirabilem ordinem incredibilemque

constantiam, ex qua conseruatio et salus omnium

omnis oritur, qui uacare mente putat is ipse mentis

expers habendus est.

Ento no cu no h nada nem fortuito, nem ao acaso,

nem em desvio, nem inconstante, e, ao contrrio, toda

ordem, verdade, razo, constncia e aquelas coisas,

inventadas e falsas, e cheias de erro, encontram-se em

torno da terra abaixo da lua, que a ltima de todos, e

na terra. Aquele que pensa, portanto, que a admirvel

ordem e incrvel constncia celeste, a partir da qual

nasce toda conservao e bom estado de tudo, seja

privada de mente, ele mesmo deve ser considerado

privado de mente.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 74

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[57] Haut ergo ut opinor errauero, si a principe

inuestigandae ueritatis huius disputationis principium

duxero. Zeno igitur naturam ita definit, ut eam dicat

ignem esse artificiosum ad gignendum progredientem

uia, censet enim artis maxume proprium esse creare et

gignere, quodque in operibus nostrarum artium manus

efficiat id multo artificiosius naturam efficere, id est ut

dixi ignem artificiosum magistrum artium reliquarum.

Atque hac quidem ratione omnis natura artificiosa est,

quod habet quasi uiam quandam et sectam quam

sequatur.

Portanto, como penso, no terei errado, se tiver trazido

o princpio de investigar a verdade desta discusso

desde o incio. Ento, Zeno define assim a natureza,

de modo que diz que ela um fogo engenhoso,

progredindo pela via de criar, pois julga que ,

sobretudo, prprio da arte criar e gerar, e o que a mo

realiza nas obras de nossas artes, isto faz a natureza

muito mais engenhosamente, isto , como disse, um

fogo engenhoso, mestre das demais artes. E certamente

por esta razo, toda a natureza engenhosa, pois tem,

por assim dizer, uma via e um princpio que segue.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 75

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[58] Ipsius uero mundi, qui omnia conplexu suo

coercet et continet, natura non artificiosa solum sed

plane artifex ab eodem Zenone dicitur, consultrix et

prouida utilitatum oportunitatumque omnium, atque ut

ceterae naturae suis seminibus quaeque gignuntur

augescunt continentur, sic natura mundi omnis motus

habet uoluntarios, conatusque et adpetitiones, quas

Graeci uocant, et is consentaneas actiones sic

adhibet ut nosmet ipsi qui animis mouemur et

sensibus. Talis igitur mens mundi cum sit ob eamque

causam uel prudentia uel prouidentia appellari recte

possit (Graece enim dicitur), haec

potissimum prouidet et in is maxime est occupata,

primum ut mundus quam aptissimus sit ad

permanendum, deinde ut nulla re egeat, maxume

autem ut in eo eximia pulchritudo sit atque omnis

ornatus.

Na verdade a natureza do prprio mundo, que contm

e conserva tudo com seu abrao, dita pelo prprio

Zeno no s engenhosa, mas absolutamente um

artfice, cuidadora e provedora de todas as utilidades e

oportunidades, e como outras naturezas nascem cada

uma de suas sementes, crescem, mantm-se, assim a

natureza de todo o mundo tem movimentos e impulsos

voluntrios, e desejos, que os Gregos chamam 61, e recorre assim s aes convenientes a eles

como ns mesmos que nos movemos por nimo e

sentidos. Ento, j que a mente do mundo tal e, por

esta causa, pode convenientemente ser chamada ou

prudncia, ou providncia (pois em grego chamada

de 62), prov principalmente estas coisas e

daquelas sobretudo est ocupada, primeiramente a fim

de que o mundo seja o mais apto possvel para

conservar, depois para que no tenha necessidade de

coisa alguma, mas sobretudo para que nele haja uma

exmia beleza e todo ornamento.

61 Impulso. 62 Providncia.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 76

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[59] Dictum est de uniuerso mundo, dictum etiam est

de sideribus, ut iam propemodum appareat multitudo

nec cessantium deorum nec ea quae agant molientium

cum labore operoso ac molesto. Non enim uenis et

neruis et ossibus continentur nec his escis aut

potionibus uescuntur, ut aut nimis acres aut nimis

concretos umores colligant, nec is corporibus sunt ut

casus aut ictus extimescant aut morbos metuant ex

defetigatione membrorum, quae uerens Epicurus

monogrammos deos et nihil agentes commentus est.

Illi autem pulcherruma forma praediti purissimaque in

regione caeli collocati ita feruntur moderanturque

cursus, ut ad omnia conseruanda et tuenda consensisse

uideantur.

Falou-se sobre o mundo inteiro, tambm se falou sobre

os astros, porque j aparece mais ou menos um grande

nmero de deuses que nem so ociosos, nem realizam

aquilo que fazem com trabalho operoso e penoso. Pois

no dependem de veias, e de nervos, e de ossos, nem

se alimentam destes alimentos ou bebidas, porque

renem lquidos ou muito acres, ou muito concretos,

nem tm aqueles corpos, de modo que temam os

acidentes, ou os choques, ou receiem as doenas de

fadiga dos membros, Epicuro temendo isto, imaginou

os deuses lineares63 e que no fazem nada. Porm

aqueles que foram ditos com a mais bela forma e

colocados na mais pura regio do cu, assim se

seguem e conduzem os cursos, de modo que paream

estar de acordo em conservar e proteger tudo.

63 Formados de linhas, sombras, sem corpo.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 77

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[60] Multae autem aliae naturae deorum ex magnis

beneficiis eorum non sine causa et a Graeciae

sapientissimis et a maioribus nostris constitutae

nominataeque sunt. Quicquid enim magnam utilitatem

generi adferret humano, id non sine diuina bonitate

erga homines fieri arbitrabantur, itaque tum illud quod

erat a deo natum nomine ipsius dei nuncupabant, ut

cum fruges Cererem appellamus uinum autem

Liberum, ex quo illud Terenti sine Cerere et Libero

friget Venus,

Porm muitas outras naturezas de deuses, a partir de

seus grandes benefcios, foram estabelecidas e

designadas, no sem motivo, tanto pelos mais sbios

da Grcia, quanto pelos nossos antigos. Pois o que

quer que tenha trazido uma grande utilidade ao gnero

humano, consideravam que isto no seria possvel para

com os homens sem a bondade divina, e assim ento

chamavam com o nome do prprio deus o que tinha

nascido do deus, como quando chamamos os cereais

de Ceres; o vinho, porm, de Lbero, a partir disso

aquele Terncio dizia sem Ceres e sem Lbero gela

Vnus,

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 78

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[61] tum autem res ipsa, in qua uis inest maior aliqua,

sic appellatur ut ea ipsa uis nominetur deus, ut Fides ut

Mens, quas in Capitolio dedicatas uidemus proxume a

M. Aemilio Scauro, ante autem ab [A.] Atilio Calatino

erat Fides consecrata. Vides Virtutis templum uides

Honoris a M. Marcello renouatum, quod multis ante

annis erat bello Ligustico a Q. Maxumo dedicatum.

Quid Opis quid Salutis quid Concordiae Libertatis

Victoriae; quarum omnium rerum quia uis erat tanta ut

sine deo regi non posset, ipsa res deorum nomen

optinuit. Quo ex genere Cupidinis et Voluptatis et

Lubentinae Veneris uocabula consecrata sunt,

uitiosarum rerum neque naturalium quamquam

Velleius aliter existimat, sed tamen ea ipsa uitia

naturam uehementius saepe pulsant.

porm, por outro lado, a prpria coisa, na qual h

alguma fora maior, chamada assim, de modo que

aquela prpria fora chamada de deus, como a Fides,

como a Mente, as quais no Capitlio vemos muito

prximo de serem consagradas por M. Emlio Scauro,

porm antes a Fides fora consagrada por Atlio

Calatino. Vs o templo de Virtude, vs o de Honra

restaurado por M. Marcelo, que muitos anos antes na

guerra da Ligria fora dedicado por Q. Mximo. O64

templo de pis, o de Salvao, o de Concrdia, o de

Liberdade, o de Vitria, porque a fora de todas essas

coisas era tanta que no podia ser regida sem um deus,

a prpria coisa obteve nome de deuses. A partir de tal

gnero foram consagrados os vocbulos de Cupido, e

de Voluptuosidade, e de Vnus Libentina, coisas

viciosas e artificiais embora Veleio pense

diferentemente, no entanto aqueles prprios vcios

sempre excitam mais fortemente a natureza.

64 Quid retoma templum.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 79

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[62] Vtilitatum igitur magnitudine constituti sunt ei di

qui utilitates quasque gignebant, atque is quidem

nominibus quae paulo ante dicta sunt quae uis sit in

quoque declaratur deo. Suscepit autem uita hominum

consuetudoque communis ut beneficiis excellentis

uiros in caelum fama ac uoluntate tollerent, hinc

Hercules hinc Castor et Pollux hinc Aesculapius hinc

Liber etiam (hunc dico Liberum Semela natum, non

eum quem nostri maiores auguste sancteque Liberum

cum Cerere et Libera65 consecrauerunt, quod quale sit

ex mysteriis intellegi potest; sed quod ex nobis natos

liberos appellamus, idcirco Cerere nati nominati sunt

Liber et Libera, quod in Libera seruant, in Libero non

item) hinc etiam Romulum, quem quidam eundem

esse Quirinum putant. Quorum cum remanerent animi

atque aeternitate fruerentur, rite di sunt habiti, cum et

optimi essent et aeterni.

65 Proserpina.

Ento, pela grandeza da utilidade foram construdos

aqueles deuses que produziam cada utilidade, e,

certamente, com aqueles nomes, que pouco antes

foram ditos, mostra-se qual fora esteja em cada deus.

Porm a vida dos homens e o hbito comum admitiram

que elevassem ao cu homens excelentes em bons

feitos pela fama e vontade; por um lado, Hrcules, por

outro, Castor e Plux; de um lado Esculpio, de outro

tambm Lber (digo o Lber nascido de Smele, no

aquele Lber que nossos antigos consagraram augusta e

santamente com Ceres e Lbera, pois qual seja, pode

ser entendido a partir dos mistrios; mas porque

chamamos de filhos, os nascidos de ns, por isto os

nascidos de Ceres foram chamados Lber e Lbera, o

que observam em Lbera, no observam do mesmo

modo em Lber66) por outro lado, tambm Rmulo

que alguns pensam certamente ser o prprio Quirino.

Como as suas almas permanecessem e gozassem da

eternidade, religiosamente foram considerados deuses,

uma vez que eram tanto timos quanto eternos.

66 H o uso de radicais semelhantes liber- para explicitar a

significao das palavras, liberos (filhos), Liber (Lber) e Libera

(Lbera).

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 80

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[63] Alia quoque ex ratione et quidem physica magna

fluxit multitudo deorum, qui induti specie humana

fabulas poetis suppeditauerunt, hominum autem uitam

superstitione omni referserunt. Atque hic locus a

Zenone tractatus post a Cleanthe et Chrysippo pluribus

uerbis explicatus est. Nam uetus haec opinio Graeciam

oppleuit, esse exsectum Caelum a filio Saturno,

uinctum autem Saturnum ipsum a filio Ioue:

E tambm a partir de outra razo, certamente, uma

multido de deuses fluiu da grande natureza, os quais

revestidos com aspecto humano forneceram fbulas

aos poetas, porm submeteram a vida dos homens a

toda superstio. E este argumento foi tratado por

Zeno, depois foi explicado por Cleante e por Crisipo

com mais palavras. Pois esta antiga opinio encheu a

Grcia: o Cu ter sido mutilado pelo filho Saturno,

porm o prprio Saturno ter sido vencido pelo filho

Jpiter:

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 81

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[64] physica ratio non inelegans inclusa est in impias

fabulas. Caelestem enim altissimam aetheriamque

naturam id est igneam, quae per sese omnia gigneret,

uacare uoluerunt ea parte corporis quae coniunctione

alterius egeret ad procreandum. Saturnum autem eum

esse uoluerunt qui cursum et conuersionem spatiorum

ac temporum contineret, qui deus Graece id ipsum

nomen habet: enim dicitur, qui est idem

id est spatium temporis. Saturnus autem est

appellatus quod saturaretur annis; ex se enim natos

comesse fingitur solitus, quia consumit aetas

temporum spatia annisque praeteritis insaturabiliter

expletur. uinctus autem a Ioue, ne inmoderatos cursus

haberet, atque ut eum siderum uinclis alligaret, sed

ipse Iuppiter, id est iuuans pater, quem conuersis

casibus appellamus a iuuando Iouem, a poetis pater

diuomque hominumque dicitur, a maioribus autem

nostris optumus maxumus, et quidem ante optimus id

est beneficentissimus quam maximus, quia maius est

certeque gratius prodesse omnibus quam opes magnas

habere

uma razo fsica, que no grosseira, foi includa nas

mpias fbulas. Pois quiseram que uma elevada e

etrea natureza celeste, isto , gnea, que gerava por si

todas as coisas, estivesse vazia daquela parte do corpo

que necessitava da unio de outra para procriar. Porm

quiseram que Saturno fosse aquele que conservava o

curso e a revoluo dos espaos e dos tempos, deus

que na Grcia tem este nome prprio: chamado, pois,

de 67, que o mesmo 68, isto , o

espao de tempo. Porm foi chamado de Saturno

porque se alimenta dos anos; pois representado

acostumado a devorar os nascidos de si, porque a idade

consome os espaos de tempo e se farta

insaciavelmente com os anos passados. Porm foi

vencido por Jpiter para que no tornasse os cursos

infinitos e para que o amarrasse com os vnculos dos

astros, mas o prprio Jpiter, isto , o pai que ajuda,

que chamamos de Jpiter por ajudar nos casos

imprevistos, pelos poetas dito pai dos deuses e dos

homens, porm pelos nossos antigos, timo,

mximo, e, na verdade, antes timo, isto , mais

benfico do que mximo, porque maior e

certamente mais agradvel servir a todos do que ter

grandes recursos -

67 Cronos, nome do deus. 68 Chronos, tempo.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 82

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[65] hunc igitur Ennius, ut supra dixi, nuncupat ita

dicens aspice hoc sublime candens, quem inuocant

omnes Iouem planius quam alio loco idem cui quod

in me est exsecrabor hoc quod lucet quicquid est;

hunc etiam augures nostri cum dicunt Ioue fulgente

tonante: dicunt enim caelo fulgente et tonante.

Euripides autem ut multa praeclare sic hoc breuiter:

uides sublime fusum immoderatum aethera, qui

terram tenero circumiectu amplectitur: hunc summum

habeto diuum, hunc perhibeto Iouem.

Ento nio o designa, como eu disse anteriormente69,

dizendo assim: Olha isto que arde no alto, que todos

chamam de Jpiter, o mesmo mais ntido do que em

outro lugar para o que est em mim, execrarei aquilo

que ilumina tudo que existe; isto tambm designam

nossos ugures, quando dizem: Por Jpiter brilhante,

trovejante; pois dizem: Pelo cu brilhante e

trovejante. Porm Eurpides como disse muitas coisas

claramente, assim disse concisamente isto: Vs no

alto o ter difuso, infinito, que abraa a Terra em um

tenro invlucro; considera-o como sumo deus, chama-

o de Jpiter.

69 II, 4.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 83

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[66] Aer autem, ut Stoici disputant, interiectus inter

mare et caelum Iunonis nomine consecratur, quae est

soror et coniux Iouis, quod [ei] et similitudo est

aetheris et cum eo summa coniunctio. Effeminarunt

autem eum Iunonique tribuerunt, quod nihil est eo

mollius. Sed Iunonem a iuuando credo nominatam.

Aqua restabat et terra, ut essent ex fabulis tria regna

diuisa. Datum est igitur Neptuno alterum, Iouis ut

uolumus fratri, maritimum omne regnum, nomenque

productum ut Portunus a porta sic Neptunus a nando,

paulum primis litteris immutatis. Terrena autem uis

omnis atque natura Diti patri dedicata est, qui diues ut

apud Graecos , quia et recidunt omnia in

terras et oriuntur e terris, +Cui Proserpinam70 (quod

Graecorum nomen est, ea enim est quae

Graece nominatur) quam frugum semen esse uolunt

absconditamque quaeri a matre fingunt.

70 : et oriantur e terris. Is rapuit Proserpinam (...).

: et oriuntur e terris. Cui nuptam dicunt Proserpinam (...).

Porm o ar, como discutem os estoicos, situado entre o

mar e o cu, consagrado com o nome de Juno, que

irm e esposa de Jpiter, porque tanto h uma

semelhana, quanto uma suma unio com ele. Porm

efeminaram-no e atriburam a Juno, porque no h

nada mais suave que ele71. Mas creio que Juno foi

nomeada por ajudar. Restava a gua e a terra, porque

segundo as fbulas havia trs reinos separados. Ento

todo o reino martimo foi dado a Netuno, como

queremos o irmo de Jpiter, e o nome produzido,

como Portuno proveniente de porta, assim Netuno

proveniente de nadar, mudadas um pouco as primeiras

letras. Porm toda fora da terra e a natureza foi

consagrada ao pai Dite72, que opulento, de modo que

entre os gregos dito 73, porque todas as

coisas tanto retornam as terras, quanto nascem das

terras, +com o qual dizem casada74 Prosrpina (que

um nome dos gregos, pois aquela que em grego

chamada 75, que querem que seja a

semente dos cereais e a representam escondida, sendo

procurada pela me.

71 O ar. 72 Pluto. 73 Idem. 74 : com o qual dizem casada Prosrpina. 75 Persfone.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 84

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[67] Mater autem est a gerendis frugibus Ceres

tamquam geres, casuque prima littera itidem immutata

ut a Graecis; nam ab illis quoque quasi

nominata est. Iam qui magna uerteret

Mauors, Minerua autem quae uel minueret uel

minaretur. Cumque in omnibus rebus uim haberent

maxumam prima et extrema, principem in sacrificando

Ianum esse uoluerunt, quod ab eundo nomen est

ductum, ex quo transitiones peruiae iani foresque in

liminibus profanarum aedium ianuae nominantur. Nam

Vestae nomen a Graecis (ea est enim quae ab illis

dicitur); uis autem eius ad aras et focos pertinet,

itaque in ea dea, quod est rerum custos intumarum,

omnis et precatio et sacrificatio extrema est.

Porm a me Ceres por gerar os gros como geres

e casualmente a primeira letra foi mudada do mesmo

modo como entre os gregos, pois por aqueles foi

chamada tambm de 76 quase 77. J

o que destrua grandes coisas, Marte; porm Minerva,

a que ou reduzia ou ameaava. E como em todas as

coisas os princpios e os fins tivessem uma fora

grandiosa, desejaram que Jano fosse o primeiro ao

sacrificar, porque o nome foi trazido de andar, a partir

do qual as passagens acessveis so chamadas de

arcos78 e a entrada nas soleiras das casas profanas,

portas79. H pois o nome de Vesta entre gregos ( pois

a que por eles dita 80); sua fora, porm, se

estende aos altares e aos lares, assim para com essa

deusa, porque a guardi das coisas ntimas, mais

extrema tanto toda splica quanto o sacrifcio.

76 Demter. 77 Terra me. 78 Iani. 79 Ianuae. 80 stia.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 85

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[68] Nec longe absunt ab hac ui di Penates, siue a penu

ducto nomine (est enim omne quo uescuntur homines

penus) siue ab eo quod penitus insident; ex quo etiam

penetrales a poetis uocantur. Iam Apollinis nomen est

Graecun, quem solem esse uolunt, Dianam autem et

lunam eandem esse putant, cum sol dictus sit uel quia

solus ex omnibus sideribus est tantus uel quia cum est

exortus obscuratis omnibus solus apparet, luna a

lucendo nominata sit; eadem est enim Lucina, itaque ut

apud Graecos Dianam eamque Luciferam sic apud

nostros Iunonem Lucinam in pariendo inuocant, quae

eadem Diana Omniuaga dicitur non a uenando sed

quod in septem numeratur tamquam uagantibus;

No se afastam muito daquela fora os deuses Penates,

tendo o nome trazido ou de penus81 (pois penus tudo

por que os homens so nutridos), ou disto, porque

esto postos profundamente82; a partir disto tambm

so chamados pelos poetas de penetrales. J o nome de

Apolo grego, que querem que seja o sol, porm

pensam que Diana e a Lua sejam a mesma, enquanto o

Sol tenha sido dito, ou porque sozinho entre todos os

astros to grande, ou porque quando surge,

abscurecidos todos, aparece sozinho, a Lua tenha sido

nomeada por luzir; pois a mesma Lucina, assim

como entre os gregos invocam Diana e aquela

Lucfera, assim entre os nossos, ao parir, invocam Juno

Lucina, que dita a mesma Diana Errante, no por

caar, mas porque enumerada entre as sete estrelas

como que errantes;

81 Viveres, dispensa, coisas comestveis. 82 Penitus.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 86

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[69] Diana dicta quia noctu quasi diem efficeret,

adhibetur autem ad partus, quod i maturescunt aut

septem non numquam aut ut plerumque nouem lunae

cursibus, qui quia mensa spatia conficiunt menses

nominantur; concinneque ut multa Timaeus, qui cum

in historia dixisset qua nocte natus Alexander esset

eadem Dianae Ephesiae templum deflagrauisse,

adiunxit minime id esse mirandum, quod Diana quom

in partu Olympiadis adesse uoluisset afuisset domo.

Quae autem dea ad res omnes ueniret Venerem nostri

nominauerunt, atque ex ea potius uenustas quam

Venus ex uenustate.

chamada Diana, porque noite produzia quase o dia;

porm chamada aos partos, porque eles amadurecem

ou em sete, s vezes, ou na maior parte em nove cursos

da lua, que so chamados meses, porque completam os

espaos mensais; e engenhosamente como muitas

coisas, Timeu, que como disse na histria que na

mesma noite em que nasceu Alexandre foi incendiado

o templo de Diana de feso, acrescentou que isso no

deveria ser admirado, porque Diana como quis estar

presente no parto de Olmpias83, afastou-se de casa. A

deusa, porm, que vinha a todas as coisas, os nossos

nomearam de Vnus, e a elegncia vem dela, mais que

Vnus, da elegncia.

83 Filha de Neoptlemo e me de Alexandre Magno.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 87

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[70] Videtisne igitur ut a physicis rebus bene atque

utiliter inuentis tracta ratio sit ad commenticios et

fictos deos. Quae res genuit falsas opiniones

erroresque turbulentos et superstitiones paene aniles.

Et formae enim nobis deorum et aetates et uestitus

ornatusque noti sunt, genera praeterea coniugia

cognationes, omniaque traducta ad similitudinem

inbecillitatis humanae. Nam et perturbatis animis

inducuntur: accepimus enim deorum cupiditates

aegritudines iracundias; nec uero, ut fabulae ferunt,

bellis proeliisque caruerunt, nec solum ut apud

Homerum cum duo exercitus contrarios alii dei ex alia

parte defenderent, sed etiam ut cum Titanis ut cum

Gigantibus sua propria bella gesserunt. Haec et

dicuntur et creduntur stultissime et plena sunt

futtilitatis summaeque leuitatis.

Vedes ento como de fenmenos fsicos, bem e

oportunamente descobertos, tenha sido tirada a razo

relativa aos deuses imaginrios e inventados? Tal coisa

produziu falsas opinies e erros turbulentos, e

supersties quase de velhas. E, pois, foram

conhecidas por ns as formas dos deuses, e as idades, e

as roupas, e os ornamentos, alm disso, os gneros, os

casamentos, os parentescos e todas as coisas trazidas

semelhana da debilidade humana. Pois tambm so

conduzidos por nimos perturbados: entendemos, pois,

os desejos dos deuses, as doenas, as cleras;

certamente nem como relataram as fbulas,

ausentaram-se de guerras e de combates, nem apenas

como em Homero, quando alguns deuses defenderam

dois exrcitos adversrios de algum lado, mas tambm

como com os Tits, como com os Gigantes, fizeram

suas prprias guerras. Estas coisas tanto so ditas,

quanto so acreditadas tolamente, como so cheias de

futilidades e de suma leviandade.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 88

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[71] Sed tamen is fabulis spretis ac repudiatis deus

pertinens per naturam cuiusque rei, per terras Ceres per

maria Neptunus alii per alia, poterunt intellegi qui

qualesque sint quoque eos nomine consuetudo

nuncupauerit. Quos deos84 et uenerari et colere

debemus, cultus autem deorum est optumus idemque

castissimus atque sanctissimus plenissimusque pietatis,

ut eos semper pura integra incorrupta et mente et uoce

ueneremur. Non enim philosophi solum uerum etiam

maiores nostri superstitionem a religione separauerunt.

84 : hos deos (...).

: hoc eos (...).

Mas mesmo rejeitadas e desprezadas estas fbulas, um

deus se estendendo pela natureza de cada coisa, Ceres

pelas terras, Netuno pelos mares, outros por outras,

podero ser compreendidos quais sejam tais e tambm

com qual nome o costume os nomeou. Tais deuses

tanto devemos venerar quanto cultuar, porm o culto

dos deuses timo e tambm muito virtuoso e

santssimo, e todo cheio de pietas, de modo que

sempre os veneramos tanto com uma voz quanto com

uma mente pura, ntegra, imperecvel. Pois no s os

filsofos, mas tambm os nossos antigos separaram a

superstio da religio.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 89

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[72] Nam qui totos dies precabantur et immolabant, ut

sibi sui liberi superstites essent, superstitiosi sunt

appellati, quod nomen patuit postea latius; qui autem

omnia quae ad cultum deorum pertinerent diligenter

retractarent et tamquam relegerent, [i] sunt dicti

religiosi ex relegendo, [tamquam] elegantes ex

eligendo, [tamquam] [ex] diligendo diligentes85, ex

intellegendo intellegentes; his enim in uerbis omnibus

inest uis legendi eadem quae in religioso. Ita factum

est in superstitioso et religioso alterum uitii nomen

alterum laudis. Ac mihi uideor satis et esse deos et

quales essent ostendisse.

85 : diligenter retractarent et tamquam relegerent, sunt dicti

religiosi ex relegendo, ut elegantes ex eligendo, ex tamquam a

diligendo diligentes (...).

: diligenter retractarent et tamquam relegerent, sunt dicti

religiosi ex relegendo, ut elegantes ex eligendo, ex diligendo

diligentes (...).

Pois aqueles que todos os dias invocavam e

sacrificavam para que seus filhos fossem salvos por

eles, foram chamados de supersticiosos, porque o

nome se mostrou depois mais abrangente; porm

aqueles que diligentemente retratavam e, por assim

dizer, reliam todas as coisas que se referiam ao culto

dos deuses, eles foram chamados de religiosos, a partir

de reler; tanto quanto elegantes de eleger, como

diligentes de diligenciar, inteligentes de inteligir; pois

em todas estas palavras h a mesma fora de ler que h

em religioso. Assim se formou em supersticioso e em

religioso um nome de vcio, outro de louvor. E me

parece suficientemente ter mostrado que os deuses

existem e quais sejam.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 90

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[73] Proximum est, ut doceam deorum prouidentia

mundum administrari. Magnus sane locus est et a

uestris Cotta uexatus, ac nimirum uobiscum omne

certamen est. Nam uobis Vellei minus notum est,

quem ad modum quidque dicatur; uestra enim solum

legitis uestra amatis, ceteros causa incognita

condemnatis, uelut a te ipso hesterno die dictumst

anum fatidicam a Stoicis induci, id est

Prouidentiam. Quod eo errore dixisti, quia existumas

ab is prouidentiam fingi quasi quandam deam

singularem, quae mundum omnem gubernet et regat.

Resta to somente que ensine que o mundo

governado pela providncia dos deuses. um

argumento certamente grandioso e atacado pelos

vossos, Cota, e seguramente toda a disputa convosco.

Pois por vs, Veleio, quase nada foi verificado, da

mesma forma que cada coisa dita; pois ledes somente

vossas coisas, amais vossas coisas, condenais os outros

por causa desconhecida, como por ti prprio no dia de

ontem foi dito que uma velha profetisa, , foi

introduzida pelos esticos, isto , a providncia. O que

disseste com aquele erro, porque julgas que por eles a

providncia seja imaginada como uma deusa nica,

que governa e rege todo o mundo.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 91

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[74] Sed id praecise dicitur: ut, si quis dicat

Atheniensium rem publicam consilio regi, desit illud

Arii pagi, sic, cum dicimus prouidentia mundum

administrari, deesse arbitrato86 deorum, plene autem

et perfecte sic dici existumato, prouidentia deorum

mundum administrari, ita salem istum, quo caret uestra

natio, in inridendis nobis nolitote consumere, et

mercule si me audiatis ne experiamini quidem; non

decet non datum est non potestis. Nec uero hoc in te

unum conuenit moribus domesticis ac nostrorum

hominum urbanitate limatum, sed cum in reliquos

uestros tum in eum maxime, qui ista peperit, hominem

sine arte sine litteris, insultantem in omnes, sine

acumine ullo sine auctoritate sine lepore.

86 Arbitror: arbitrato.

Mas isto dito brevemente: como se algum dissesse

que a Repblica dos atenienses regida pela

assembleia, falta aquele Arepago, assim, quando

dizemos que o mundo governado pela providncia,

julgue que faltam aqueles deuses, porm assim plena

e perfeitamente pense que dito que o mundo

governado pela providncia dos deuses, desse modo

com este gracejo, do qual carece o vosso povo, no nos

queirais consumir, rindo de ns, e, por Hrcules, se me

ouvisseis, nem mesmo experimenteis: no convm,

no se deu, no podeis. Na verdade isto no convm

somente a ti, educado pelos modos domsticos e pela

civilidade dos nossos homens, mas como aos vossos

outros, alm disso sobretudo quele, que criou isto, um

homem sem arte, sem letras, que insulta a todos, sem

nenhuma sutileza, sem autoridade, sem graa.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 92

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[75] Dico igitur prouidentia deorum mundum et omnes

mundi partes et initio constitutas esse et omni tempore

administrari. Eamque disputationem tris in partes

nostri fere diuidunt, quarum prima pars est, quae

ducitur ab ea ratione, quae docet esse deos; quo

concesso confitendum est eorum consilio mundum

administrari. Secunda est autem quae docet omnes res

subiectas esse naturae sentienti ab eaque omnia

pulcherrume geri; quo constituto sequitur ab

animantibus principiis eam esse generatam. Tertius est

locus, qui ducitur ex admiratione rerum caelestium

atque terrestrium.

Digo ento que o mundo e todas as partes do mundo

tanto foram constitudos no incio, quanto por todo

tempo so governados pela providncia dos deuses. E

os nossos geralmente dividem em trs partes esta

dicusso, cuja primeira parte a que conduzida por

aquela razo, que ensina que os deuses existem;

permitido isso, deve-se admitir que o mundo

governado por seu conselho. Porm, a segunda a que

ensina que todas as coisas so sujeitas a uma natureza

sensitiva e que por ela tudo criado mais belamente;

constitudo isso, segue que ela foi gerada por

princpios animados. O terceiro argumento o que

conduzido a partir da admirao das coisas celestes e

terrestres.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 93

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[76] Primum igitur aut negandum est esse deos, quod

et Democritus simulacra et Epicurus imagines

inducens quodam pacto negat, aut qui deos esse

concedant, is fatendum est eos aliquid agere idque

praeclarum; nihil est autem praeclarius mundi

administratione; deorum igitur consilio administratur.

Quod si aliter est, aliquid profecto sit necesse est

melius et maiore ui praeditum quam deus, quale id

cumque est, siue inanima natura siue necessitas ui

magna incitata haec pulcherrima opera efficiens, quae

uidemus;

Ento primeiramente ou se deve negar que os deuses

existem, porque tanto Demcrito nega os simulacros

quanto Epicuro, induzindo a certo pacto, nega as

imagens; ou, queles que concedem que os deuses

existem, deve-se admitir que eles fazem algo e que isto

notvel. Porm, nada mais notvel que a

administrao do mundo, pois governado pelo

conslio dos deuses; porque se fosse de outra maneira,

certamente seria necessrio que algo fosse melhor e

provido de uma fora maior do que um deus, o que

quer que seja isto, ou a natureza inanimada, ou uma

necessidade impelida por uma grande fora,

produzindo esta belssima obra que vemos;

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 94

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[77] non est igitur natura deorum praepotens neque

excellens, si quidem ea subiecta est ei uel necessitati

uel naturae, qua caelum maria terrae regantur, nihil est

autem praestantius deo; ab eo igitur mundum necesse

est regi; nulli igitur est naturae oboediens aut subiectus

deus; omnem ergo regit ipse naturam. Etenim si

concedimus intellegentes esse deos, concedimus etiam

prouidentes et rerum quidem maxumarum. Ergo utrum

ignorant, quae res maxumae sint quoque eae modo

tractandae et tuendae, an uim non habent, qua tantas

res sustineant et gerant? At et ignoratio rerum aliena

naturae deorum est, et sustinendi muneris propter

inbecillitatem difficultas minime cadit in maiestatem

deorum. Ex quo efficitur id, quod uolumus, deorum

prouidentia mundum administrari.

ento a natureza dos deuses no muito poderosa e

nem superior, se realmente ela foi submetida a esta

necessidade ou natureza pela qual so regidos o cu, os

mares, as terras, porm nada h de mais notvel do que

o deus; ento necessrio que o mundo seja regido por

ele; ento o deus no obediente ou submetido a

nenhuma natureza; portanto ele prprio rege toda a

natureza. Na verdade, se permitimos que os deuses

sejam inteligentes, tambm permitimos ainda

previdentes certamente das coisas maiores. Portanto,

se por acaso ignoram quais sejam as coisas maiores e

de que modo elas devem ser tratadas e observadas, por

acaso no tm uma fora atravs da qual mantm e

nutrem as coisas mais importantes? Mas tanto a

ignorncia das coisas alheia natureza dos deuses,

quanto a dificuldade de manter uma funo por causa

da debilidade no se aplica grandeza dos deuses. A

partir disto se mostra o que desejamos: o mundo ser

governado pela providncia dos deuses.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 95

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[78] Atqui necesse est, cum sint di (si modo sunt, ut

profecto sunt), animantis esse, nec solum animantes,

sed etiam rationis compotes inter seque quasi civili

conciliatione et societate coniunctos, unum mundum ut

communem rem publicam atque urbem aliquam

regentis.

Contudo, j que os deuses existem (se existem porm,

como certamente existem) necessrio que sejam

animados, no s animados, mas tambm que sejam

dotados de razo e unidos entre si, como em unio

civil e em sociedade, regentes de um nico mundo,

como uma repblica comum e alguma cidade.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 96

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[79] Sequitur, ut eadem sit in is quae humano in genere

ratio, eadem ueritas utrobique sit eademque lex, quae

est recti praeceptio prauique depulsio, ex quo

intellegitur prudentiam quoque et mentem a deis ad

homines peruenisse (ob eamque causam maiorum

institutis Mens Fides Virtus Concordia consecratae et

publice dedicatae sunt; quae qui conuenit penes deos

esse negare, cum eorum augusta et sancta simulacra

ueneremur: quod si inest in hominum genere mens

fides uirtus concordia, unde haec in terram nisi ab

superis defluere potuerunt?), cumque sint in nobis

consilium ratio prudentia, necesse est deos haec ipsa

habere maiora, nec habere solum, sed etiam his uti in

maxumis et optumis rebus.

Segue-se que neles h a mesma inteligncia que no

gnero humano, em ambas as partes h a mesma

verdade e a mesma lei que o ensinamento do justo e

o afastamento do injusto, a partir disso se compreende

tambm que a prudncia e a mente vieram dos deuses

aos homens (e por tal causa, segundo os hbitos dos

antigos, a Mente, a Fides, a Virtus, a Concrdia foram

consagradas e dedicadas publicamente; por que

convm negar que elas87 esto nos deuses, quando

veneramos seus augustos e santos simulacros? Porque

se no gnero humano h mente, fides, virtus,

concrdia, de onde elas puderam vir para a terra a no

ser dos deuses?) e como existem em ns conselho,

razo, prudncia; necessrio que os deuses tenham

estas mesmas coisas melhores, no s ter, mas tambm

usar delas nas maiores e melhores coisas.

87 Quae.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 97

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[80] Nihil autem nec maius nec melius mundo; necesse

est ergo eum deorum consilio et prouidentia

administrari. Postremo cum satis docuerimus hos esse

deos, quorum insignem uim et inlustrem faciem

uideremus, solem dico et Lunam et uagas stellas et

inerrantes et caelum et mundum ipsum et earum rerum

uim, quae inessent in omni mundo cum magno usu et

commoditate generis humani, efficitur omnia regi

diuina mente atque prudentia. Ac de prima quidem

parte satis dictum est.

Porm nada nem maior nem melhor do que o mundo,

portanto necessrio que ele seja administrado pelo

conselho e pela providncia dos deuses. Por ltimo,

como ensinamos satisfatoriamente que existem estes

deuses, cuja fora insigne e aspecto ilustre vamos,

digo que o Sol, e a Lua, e as estrelas errantes, e as no-

errantes, e o cu, e o prprio mundo, e a fora daquelas

coisas, que havia em todo o mundo com grande

utilidade e comodidade para o gnero humano,

demonstra-se que tudo regido pela mente e pela

prudncia divina. E sobre a primeira parte certamente

foi falado suficientemente.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 98

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[81] Sequitur, ut doceam omnia subiecta esse naturae,

eaque ab ea pulcherrime geri. Sed quid sit ipsa natura,

explicandum est ante breuiter, quo facilius id, quod

docere uolumus, intellegi possit. Namque alii naturam

esse censent uim quandam sine ratione cientem motus

in corporibus necessarios, alii autem uim participem

rationis atque ordinis tamquam uia progredientem

declarantemque, quid cuiusque rei causa efficiat, quid

sequatur, cuius sollertiam nulla ars, nulla manus, nemo

opifex consequi possit imitando; seminis enim uim

esse tantam, ut id, quamquam sit perexiguum, tamen,

si inciderit in concipientem conprendentemque

naturam nanctumque sit materiam, qua ali augerique

possit, ita fingat et efficiat in suo quidque genere,

partim ut tantum modo per stirpes alantur suas, partim

ut moueri etiam et sentire et appetere possint et ex sese

similia sui gignere.

Segue que eu ensine que todas as coisas so

submetidas natureza e que aquelas so regidas por

esta. Mas antes deve ser explicado brevemente o que

seja a prpria natureza para que mais facilmente possa

ser compreendido o que queremos ensinar. E, pois, uns

pensam que a natureza seja certa fora sem razo,

provocando os movimentos necessrios nos corpos,

porm outros que seja uma fora participante da razo

e da ordem como progredindo em um caminho e se

manifestando; para cada coisa realiza algo, faz algo,

cujo engenho nenhuma arte, nenhuma mo, nenhum

artista pode conseguir pelo imitar; pois pensam que a

fora da semente seja tanta que essa, embora seja

muito pequena, porm, se cair na natureza que faz

brotar e que retm, e encontrar uma matria com a qual

possa ser alimentada e crescer, assim modela e realiza

cada coisa no seu gnero, como em parte sejam

somente alimentadas atravs de suas razes, como em

parte possam tambm crescer, tanto sentir, quanto

alcanar como gerar a partir de si coisas semelhantes a

si mesma.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 99

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[82] Sunt autem, qui omnia naturae nomine appellent,

ut Epicurus, qui ita diuidit, omnium quae sint naturam

esse corpora et inane quaeque is accidant. Sed nos cum

dicimus natura constare administrarique mundum, non

ita dicimus ut glaebam aut fragmentum lapidis aut

aliquid eius modi nulla cohaerendi natura, sed ut

arborem ut animal, in quibus nulla temeritas sed ordo

apparet et artis quaedam similitudo.

Porm existem aqueles que chamam tudo pelo nome

de natureza, como Epicuro, que assim separa que a

natureza de tudo que h so os corpos e o vazio, e o

que lhes acontece. Mas ns, quando dizemos que o

mundo est estabelecido e administrado pela

natureza, no dizemos assim que nenhuma natureza

est ligada a terra ou a um pedao de pedra ou a algo

desse modo, mas que est ligada rvore, que est

ligada ao ser vivo, nos quais no h nenhuma

causalidade, mas aparece ordem e certa semelhana

com a arte.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 100

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[83] Quod si ea quae a terra stirpibus continentur arte

naturae uiuunt et uigent, profecto ipsa terra eadem ui

continetur arte naturae, quippe quae grauidata

seminibus omnia pariat et fundat ex sese, stirpes

amplexa alat et augeat ipsaque alatur uicissim a superis

externisque naturis; eiusdemque exspirationibus et aer

alitur et aether et omnia supera. Ita si terra natura

tenetur et uiget, eadem ratio in reliquo mundo est;

stirpes enim terrae inhaerent, animantes autem

adspiratione aeris sustinentur; ipseque aer nobiscum

uidet nobiscum audit nobiscum sonat, nihil enim

eorum sine eo fieri potest; quin etiam mouetur

nobiscum, quacumque enim imus qua mouemur88

uidetur quasi locum dare et cedere.

88 : quacumque enim imus, quacumque mouemur (...).

: quacumque enim imus, quacumque mouemur (...).

Porque se aquilo que mantido pelas razes vindas da

terra, vive e vigora pela arte da natureza, certamente a

prpria terra mantida pela mesma fora e pela arte da

natureza, porque tudo que fencundado pelas

sementes produz e espalha a partir de si, envolvendo as

razes, alimenta e faz crescer, e ela mesma por sua vez

alimentada pelas naturezas superiores e externas; e

de suas exalaes tanto o ar alimentado, quanto o

ter, como todas as coisas superiores. Assim se a terra

se mantm pela natureza e vigora, a mesma razo est

na restante do mundo, pois as razes esto fixadas na

terra, porm os seres animados so sustentados pela

aspirao do ar; e o mesmo ar v conosco, ouve

conosco, ressoa conosco, pois nada disso pode-se fazer

sem ele; alm disso se move tambm conosco, pois

aonde quer que vamos, por onde nos movemos, parece

quase dar e ceder lugar.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 101

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[84] Quaeque in medium locum mundi, qui est

infimus, et quae a medio in superum quaeque

conuersione rutunda circum medium feruntur, ea

continentem mundi efficiunt unamque naturam. Et

cum quattuor genera sint corporum, uicissitudine

eorum mundi continuata natura est. Nam ex terra aqua

ex aqua oritur aer ex aere aether, deinde retrorsum

uicissim ex aethere aer inde aqua ex aqua terra infima.

Sic naturis is ex quibus omnia constant sursus deorsus

ultro citro commeantibus mundi partium coniunctio

continetur.

E aquilo no centro do mundo, que mais inferior, e

aquilo do centro para a parte mais alta, e aquilo que

com movimento circular se move entorno do centro,

essas coisas formam uma nica e contgua natureza de

mundo. E como h quatro gneros de corpos, pela

sucesso deles, a natureza do mundo contnua. Pois

da terra nasce a gua; da gua, o ar; do ar, o ter,

depois reciprocamente, por sua vez, do ter, o ar; da a

gua; da gua, a terra mais inferior. Assim por essas

naturezas, das quais todas as coisas dependem,

circulando89 para cima e para baixo, para l e para c,

formada a unio das partes do mundo.

89 Commeantibus se refere a naturis.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 102

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[85] Quae aut sempiterna sit necessest hoc eodem

ornatu quem uidemus, aut certe perdiuturna,

permanens ad longinquum et inmensum paene tempus.

Quorum utrumuis ut sit, sequitur natura mundum

administrari. Quae enim classium nauigatio aut quae

instructio exercitus aut, rursus ut ea quae natura efficit

conferamus, quae procreatio uitis aut arboris, quae

porro animantis figura conformatioque membrorum

tantam naturae sollertiam significat quantam ipse

mundus? Aut igitur nihil est quod sentiente natura

regatur, aut mundum regi confitendum est.

Que ou necessrio que seja eterna com essa mesma

beleza que vemos, ou certamente que seja muito

durvel, permanecendo em um tempo longquo e quase

sem medida. Qualquer uma delas que seja, segue-se

que o mundo administrado pela natureza. Pois qual

navegao de esquadras, ou qual disposio de

exrcitos, ou, por outro lado, para que comparemos

com aquilo que a natureza produz, qual procriao de

videira ou de rvore, continuando, qual figura de ser

animado e disposio dos membros demonstra to

grande engenho da natureza quanto o prprio mundo?

Ento, ou no h nada que seja regido por uma

natureza sensvel, ou se deve reconhecer que o mundo

regido.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 103

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[86] Etenim qui reliquas naturas omnes earumque

semina contineat, qui potest ipse non natura

administrari; ut, si qui dentes et pubertatem natura

dicat existere, ipsum autem hominem cui ea existant

non constare natura, non intellegat ea quae ecferant

aliquid ex sese perfectiores habere naturas quam ea

quae ex his efferantur. Omnium autem rerum quae

natura administrantur seminator et sator et parens ut ita

dicam atque educator et altor est mundus omniaque

sicut membra et partes suas nutricatur et continet.

Quod si mundi partes natura administrantur, necesse

est mundum ipsum natura administrari. Cuius quidem

administratio nihil habet in se quod reprehendi possit;

ex his enim naturis quae erant quod effici optimum

potuit effectum est.

Pois ele90 contm todas as naturezas restantes e suas

sementes, pode ele mesmo no ser regido pela

natureza, como se ele dissesse que os dentes e a barba

nascessem da natureza, mas que o prprio homem, em

que essas coisas nascem, no dependesse da natureza,

no compreende que, aquilo que produz algo a partir

de si, tem naturezas mais perfeitas do que aquilo que

produzido dele91. Porm de todas as coisas que so

regidas pela natureza, o mundo o semeador, e

progenitor, e pai, por assim dizer, tambm educador, e

alimentador; e nutre e contm todas as coisas assim

como os membros e suas partes. Porque se as partes do

mundo so regidas pela natureza, necessrio que o

prprio mundo seja regido pela natureza, cuja

administrao certamente nada tem em si que possa ser

repreendido, pois a partir daquelas naturezas, que

existiam, o que de melhor pde ser feito, foi feito.

90 Qui. 91 Palavra ea em ea quae ecferant.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 104

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[87] Doceat ergo aliquis potuisse melius; sed nemo

umquam docebit, et si quis corrigere aliquid uolet aut

deterius faciet aut id quod fieri [non] potuerit

desiderabit. Quod si omnes mundi partes ita

constitutae sunt ut neque ad usum meliores potuerint

esse neque ad speciem pulchriores, uideamus utrum ea

fortuitane sint an eo statu quo cohaerere nullo modo

potuerint nisi sensu moderante diuinaque prouidentia.

Si igitur meliora sunt ea quae natura quam illa quae

arte perfecta sunt, nec ars efficit quicquam sine

ratione, ne natura quidem rationis expers est habenda.

Qui igitur conuenit, signum aut tabulam pictam cum

aspexeris, scire adhibitam esse artem, cumque procul

cursum nauigii uideris, non dubitare, quin id ratione

atque arte moueatur, aut cum solarium uel descriptum

uel ex aqua contemplere, intellegere declarari horas

arte, non casu, mundum autem, qui et has ipsas artes et

earum artifices et cuncta conplectatur consilii et

rationis esse expertem putare.

Ento algum ensina que pde ser melhor; mas

ningum nunca ensinar, e se algum quiser corrigir

algo, ou far pior, ou desejar o que no poderia ser

feito. Porque se todas as partes do mundo foram

constitudas assim, de modo que nem poderiam ter

sido melhores no uso nem mais belas no aspecto,

vejamos se elas so fortuitas ou se existem naquele

estado ao qual, de modo algum, poderiam estar

ligados, a no ser por um senso moderador e por uma

divina providncia. Ento, se aquelas coisas que foram

feitas pela natureza so melhores do que aquelas que

foram feitas pela arte, a arte no faz algo sem razo,

nem mesmo a natureza deve ser considerada privada

de razo. De tal modo ento convm saber que, quando

vires uma esttua ou uma tbua pintada, foi empregada

uma arte e convm, quando vires de longe o curso de

uma embarcao, no duvidar que ela seja movida por

razo e arte, ou convm, quando contemplaram a

clepsidra ou fixa ou de gua, compreender que as

horas so indicadas com arte, no por acaso, porm

convm pensar que o mundo, que compreende tanto

estas mesmas artes quanto seus artfices como tudo,

seja desprovido de sentido e de razo.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 105

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[88] Quod si in Scythiam aut in Brittanniam sphaeram

aliquis tulerit hanc, quam nuper familiaris noster

effecit Posidonius, cuius singulae conuersiones idem

efficiunt in sole et in luna et in quinque stellis

errantibus, quod efficitur in caelo singulis diebus et

noctibus, quis in illa barbaria dubitet, quin ea sphaera

sit perfecta ratione; hi autem dubitant de mundo, ex

quo et oriuntur et fiunt omnia, casune ipse sit effectus

aut necessitate aliqua an ratione ac mente diuina, et

Archimedem arbitrantur plus ualuisse in imitandis

sphaerae conuersionibus quam naturam in efficiendis;

praesertim cum multis partibus sint illa perfecta quam

haec simulata sollertius.

Porque se algum levasse para a Ctia ou para Britnia

esta esfera, que h pouco o nosso amigo Posidnio fez,

cujas rotaes singulares fazem, sobre o sol, e sobre a

lua, e sobre as cinco estrelas errantes, o mesmo que se

faz no cu a cada dia e noite, quem naquele pas

brbaro duvida que tenha sido feita aquela esfera pela

razo; porm estes duvidam do mundo, do qual tanto

nascem quanto so feitas todas as coisas, se por acaso

o mesmo tenha sido feito ou por alguma necessidade

ou por uma razo e mente divina, e julgam que

Arquimedes foi mais eficaz em imitar as rotaes da

esfera do que a natureza em executar; especialmente

porque em muitas partes aquelas teriam sido feitas

mais engenhosamente do que estas imitadas.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 106

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[89] Vtque ille apud Accium pastor92, qui nauem

numquam ante uidisset, ut procul diuinum et nouum

uehiculum Argonautarum e monte conspexit, primo

admirans et perterritus hoc modo loquitur:

tanta moles labitur

fremibunda ex alto ingenti sonitu et strepitu:

prae se undas uoluit, uertices ui suscitat,

ruit prolapsa, pelagus respergit, reflat;

ita dum interruptum credas nimbum uoluier,

dum quod sublime uentis expulsum rapi

saxum aut procellis, uel globosos turbines

existere ictos undis concursantibus

92 : Atqui ille apud Attium pastor (...).

: Atqui ille apud Accium pastor (...).

E como aquele pastor em cio, que nunca vira antes

uma nau, quando de longe olhou do monte o veculo

divino e novo dos Argonautas, primeiramente

admirando e apavorado, deste modo fala:

to grande massa desliza

estridente do alto mar com grande som e suspiro,

diante de si as ondas revolve, turbilhes com fora

ergue,

precipita-se escorregando, o mar borrifa, sopra;93

assim, ora uma nuvem entrecortada julgas ser arrolada,

ora o sublime rochedo, que foi expelido, ser arrastado

pelos ventos

ou pelas tempestades, ou redondos redemoinhos

surgirem perturbados pelas ondas correntes

93 Reflat soprar para trs, soprar em sentido contrrio.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 107

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

nisi quas terrestres pontus strages conciet

aut forte Triton fuscina euertens specus

subter radices penitus undanti in freto

molem ex profundo saxeam ad caelum eruit:

dubitat primo, quae sit ea natura, quam cernit ignotam;

idemque iuuenibus uisis auditoque nautico cantu:

Sicut inciti atque alacres rostris perfremunt delphini

Item alia multa Siluani melo

consimilem ad aures cantum et auditum refert.94

94 : Sicut inciti alacres rostris perfremunt dephini: item alia

multa. Silvani melo consimilem ad aures cantum et auditum

refert.

: No apresenta este trecho.

a menos que tais estragos terrestres o mar provoque

ou por acaso Trito com o tridente revolvendo as

grutas

debaixo das razes profundamente no agitado mar

uma massa ptrea do profundo mar ao cu destri.

duvida primeiramente qual seja aquela natureza, que

julga desconhecida; e o mesmo vistos os jovens e

tendo ouvido o canto nutico:

Assim os geis e risonhos golfinhos gritam pelos

focinhos

Bem como muitas outras coisas Semelhante

melodia de Silvano95, aos ouvidos traz o canto e o

som.

95 Divindade das florestas e matas.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 108

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[90] Ergo ut hic primo aspectu inanimum quiddam

sensuque uacuum se putat cernere, post autem signis

certioribus, quale sit id, de quo dubitauerat, incipit

suspicari, sic philosophi debuerunt, si forte eos primus

aspectus mundi conturbauerat, postea, cum uidissent

motus eius finitos et aequabiles omniaque ratis

ordinibus moderata inmutabilique constantia,

intellegere inesse aliquem non solum habitatorem in

hac caelesti ac diuina domo, sed etiam rectorem et

moderatorem et tamquam architectum tanti operis

tantique muneris. Nunc autem mihi uidentur ne

suspicari quidem, quanta sit admirabilitas caelestium

rerum atque terrestrium.

Ento como ele96, primeira vista, pensa que percebe

algo inanimado e desprovido de sentido, porm depois

de sinais mais seguros, comea a suspeitar o que seja

aquilo sobre o que tinha duvidado, assim os filsofos

se por acaso um primeiro aspecto do mundo os tivesse

perturbado, depois, quando tivessem visto os seus

movimentos finitos e iguais, e todas as coisas

reguladas por ordens calculadas e por uma imutvel

constncia deveriam compreender que no h apenas

um habitante nesta casa celeste e divina, mas tambm

um guia e regente e, por assim dizer, um arquiteto de

tamanha obra e de tamanho ofcio. Porm, agora me

parecem nem sequer suspeitar quo grande seja a

maravilha das coisas celestes e terrestres.

96 Hic: pastor.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 109

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[91] Principio enim terra sita in media parte mundi

circumfusa undique est hac animali spirabilique natura,

cui nomen est aer Graecum illud quidem, sed

perceptum iam tamen usu a nostris; tritum est enim pro

Latino. Hunc rursus amplectitur inmensus aether, qui

constat ex altissimis ignibus (mutuemur hoc quoque

uerbum dicaturque tam aether Latine, quam dicitur aer,

etsi interpretatur Pacuuius: hoc, quod memoro, nostri

caelum, Grai perhibent aethera quasi uero non

Graius hoc dicat. At Latine loquitur. Si quidem nos

non quasi Graece loquentem audiamus; docet idem

alio loco: Graiugena: de isto aperit ipsa oratio.97).

97 : Graiugena de isto aperit ipsa oratio.

: No apresenta este trecho.

Pois primeiramente a terra posta na parte central do

mundo foi envolvida em todas as partes por esta

natureza animada e respirvel, cujo nome ar esse

nome certamente grego, mas j compreendido,

porm, pelo uso por ns, pois foi usado em lugar do

latino. Por sua vez, quele abrange o imenso ter, que

composto de altssimos fogos (tomamos de

emprstimo tambm esta palavra e se diz tanto ter em

Latim, quanto se diz ar, embora Pacvio explique:

isto, como recordo, os nossos chamam de cu, os

gregos, de ter por assim dizer, na verdade, um grego

no diz isto, mas se diz em Latim. Se na verdade ns

quase no ouvimos falando em Grego; o mesmo ensina

em outro lugar: sobre isto, a prpria lngua grega

mostra).

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 110

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[92] Sed ad maiora redeamus. Ex aethere igitur

innumerabiles flammae siderum exsistunt, quorum est

princeps sol omnia clarissima luce conlustrans, multis

partibus maior atque amplior quam terra universa,

deinde reliqua sidera magnitudinibus inmensis. Atque

hi tanti ignes tamque multi non modo nihil nocent

terris rebusquc terrestribus, sed ita prosunt, ut, si moti

loco sint, conflagrare terras necesse sit a tantis

ardoribus moderatione et temperatione sublata.

Mas voltemos s coisas mais importantes. Ento, do

ter surgem inumerveis chamas de astros, dos quais o

principal o Sol, que ilumina todas as coisas com uma

luz muito brilhante, em muitas partes maior e mais

amplo do que toda a terra, em seguida so os outros

astros de imensa grandeza. E estes tantos e to

numerosos fogos no s em nada fazem mal para a

terra e para as coisas terrestres, mas tambm so teis,

pois, se se movessem de lugar, seria necessrio que se

inflamasse a terra por to grandes fogos, tendo sido

retiradas a moderao e o equilbrio.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 111

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[93] Hic ego non mirer esse quemquam, qui sibi

persuadeat corpora quaedam solida atque indiuidua ui

et grauitate ferri mundumque effici ornatissimum et

pulcherrimum ex eorum corporum concursione

fortuita? Hoc qui existimat fieri potuisse, non

intellego, cur non idem putet, si innumerabiles unius et

uiginti formae litterarum uel aureae uel qualeslibet

aliquo coiciantur, posse ex is in terram excussis

annales Enni, ut deinceps legi possint, effici; quod

nescio an ne in uno quidem uersu possit tantum ualere

fortuna.

Aqui eu no me espantaria de que houvesse algum

que se convencesse de que alguns corpos slidos e

indivisveis sejam levados pela fora e pela gravidade

e que o mundo se fizesse bem ornado e belssimo a

partir do encontro casual daqueles corpos? No

entendo quem pense que isto possa se fazer, porque o

mesmo no pensa que, se so lanadas por algum

inumerveis formas das vinte e uma letras, ou de ouro,

ou de qualquer outra espcie, possam se fazer a partir

daquelas letras lanadas para a terra os Anais de nio,

de modo que, em seguida, possam ser lidos; o que no

sei nem mesmo se em um nico verso possa resultar

tantum o acaso.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 112

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[94] Isti autem quemadmodum adseuerant ex

corpusculis non colore, non qualitate aliqua (quam

Graeci uocant), non sensu praeditis, sed concurrentibus temere atque casu mundum esse

perfectum, uel innumerabiles potius in omni puncto

temporis alios nasci, alios interire: quod si mundum

efficere potest concursus atomorum, cur porticum cur

templum cur domum cur urbem non potest, quae sunt

minus operosa et multo quidem faciliora. Certe ita

temere de mundo effuttiunt, ut mihi quidem numquam

hunc admirabilem caeli ornatum (qui locus est

proxumus) suspexisse uideantur.

Porm estes, por exemplo, afirmaram que o mundo

tenha sido feito de corpsculos sem cor, sem nenhuma

qualidade (que os gregos chamam de 98), desprovido de senso, mas se unindo irracional e

casualmente, ou que de preferncia inumerveis uns

nascem, outros morrem a todo instante: pois se a unio

dos tomos pode fazer um mundo, por que no um

prtico, um templo, uma casa, uma cidade, que so

menos trabalhosos e certamente muito mais fceis.

Com certeza falam assim sem pensar sobre o mundo,

de modo que certamente me parecem nunca ter

suspeitado deste ornamento admirvel do cu (que o

lugar mais prximo).

98 Qualidade.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 113

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[95] Praeclare ergo Aristoteles Si essent, inquit, qui

sub terra semper habitauissent bonis et inlustribus

domiciliis, quae essent ornata signis atque picturis

instructaque rebus his omnibus, quibus abundant i, qui

beati putantur, nec tamen exissent umquam supra

terram, accepissent autem fama et auditione esse

quoddam numen et uim deorum, deinde aliquo

tempore patefactis terrae faucibus ex illis abditis

sedibus euadere in haec loca, quae nos incolimus,

atque exire potuissent: cum repente terram et maria

caelumque uidissent, nubium magnitudinem

uentorumque uim cognouissent aspexissentque solem

eiusque cum magnitudinem pulchritudinemque, tum

etiam efficientiam cognouissent, quod is diem efficeret

toto caelo luce diffusa, cum autem terras nox

opacasset, tum caelum totum cernerent astris

distinctum et ornatum lunaeque luminum uarietatem

tum crescentis, tum senescentis, eorumque omnium

ortus et occasus atque in omni aeternitate ratos

inmutabilesque cursus quae cum uiderent, profecto et

esse deos et haec tanta opera deorum esse

arbitrarentur.

Ento muito claramente Aristteles diz: se existissem

os que sempre tivessem habitado sob a terra em boas e

ilustres moradas, que fossem adornadas com signos e

com pinturas e providas com todas aquelas coisas com

as quais transbordam aqueles que so considerados

beatos, porm nunca tivessem surgido sobre a terra,

mas tivessem aceitado que atravs da fama e do que se

ouve houvesse alguma vontade e fora dos deuses;

depois, com as crateras da terra abertas por algum

tempo, puderiam escapar e sair destas profundas

moradas para este lugar em que ns habitamos: quando

de repente vissem a terra, e os mares, e o cu,

conheceriam a magnitude das nuvens e a fora dos

ventos, e quando observassem o Sol e a sua magnitude

e beleza, ento conheceriam a sua potncia, porque ele

criou o dia difundindo a luz por todo o cu, porm

quando a noite escurecesse as terras, ento

perceberiam todo o cu marcado e ornado com astros,

e a diversidade das luzes da lua, ora crescente, ora

minguante, e todos os nascimentos, e os pores-do-sol,

e os cursos fixos e imutveis em toda a eternidade

quando vissem isto, certamente julgariam tanto que os

deuses existem quanto que estas tantas coisas so

obras dos deuses.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 114

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[96] Atque haec quidem ille; nos autem tenebras

cogitemus tantas, quantae quondam eruptione

Aetnaeorum ignium finitimas regiones obscurauisse

dicuntur, ut per biduum nemo hominem homo

agnosceret, cum autem tertio die sol inluxisset, tum ut

reuixisse sibi uiderentur: quod si hoc idem ex aeternis

tenebris contingeret, ut subito lucem aspiceremus,

quaenam species caeli uideretur? Sed adsiduitate

cotidiana et consuetudine oculorum adsuescunt animi

neque admirantur neque requirunt rationes earum

rerum, quas semper uident, proinde quasi nouitas nos

magis quam magnitudo rerum debeat ad exquirendas

causas excitare.

E certamente ele99 diz isso; ns, porm, pensemos

sobre tantas trevas100, que101, certas vezes, se dizem

que tm escurecido as regies vizinhas atravs da

erupo dos fogos do Etna, de modo que por dois dias

nenhum homem reconhecesse outro homem, porm,

quando no terceiro dia o Sol brilhasse, uma vez que

ento lhes pareciam reviver: por que se a partir das

trevas102 eternas ocorresse o mesmo, de modo que

vssemos subitamente a luz, qual pareceria o aspecto

do cu? Mas pela assiduidade cotidiana e pelo hbito

dos olhos, os nimos se acostumam e no se admiram

e nem procuram os motivos daquelas coisas que

sempre veem como se a novidade, por assim dizer,

mais do que a grandeza das coisas deva-nos excitar a

procurar as causas.

99 Aristteles. 100 Fuligem, fumaa produzida pelas cinzas da erupo vulcnica. 101 Quantae. 102 Escurido.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 115

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[97] Quis enim hunc hominem dixerit, qui, cum tam

certos caeli motus, tam ratos astrorum ordines tamque

inter se omnia conexa et apta uiderit, neget in his ullam

inesse rationem eaque casu fieri dicat, quae, quanto

consilio gerantur, nullo consilio adsequi possumus.

An, cum machinatione quadam moueri aliquid

uidemus ut sphaeram, ut horas, ut alia permulta, non

dubitamus, quin illa opera sint rationis, cum autem

impetum caeli cum admirabili celeritate moueri

uertique uideamus constantissime conficientem

uicissitudines anniuersarias cum summa salute et

conseruatione rerum omnium, dubitamus, quin ea non

solum ratione fiant, sed etiam excellenti diuinaque

ratione?

Quem, pois, tenha chamado de homem aquele que,

quando de um lado tenha visto os precisos movimentos

do cu, de outro as invariveis ordens dos astros e

ainda todas as coisas ligadas e reunidas entres si, nega

que haja alguma razo nisto e diz que sejam feitas por

acaso estas coisas, que so geradas por tamanho

projeto, sem nenhum projeto no podemos

compreender; ou quando vemos algo se mover com

certo mecanismo, como a esfera, como as horas, como

muitas outras coisas, no duvidamos de que elas no

sejam obras da razo, porm quando vemos o mpeto

do cu se mover com admirvel celeridade e girar com

bastante constncia, completando as sucesses

regulares anuais com elevada perfeio e conservao

de todas as coisas, duvidamos de que aquelas no s

sejam feitas por uma razo, mas tambm por uma

razo excelente e divina?

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 116

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[98] Licet enim iam remota subtilitate disputandi

oculis quodam modo contemplari pulchritudinem

rerum earum, quas diuina prouidentia dicimus

constitutas. Ac principio terra uniuersa cernatur locata

in media sede mundi, solida et globosa et undique ipsa

in sese nutibus suis conglobata, uestita floribus, herbis,

arboribus, frugibus, quorum omnium incredibilis

multitudo insatiabili uarietate distinguitur. Adde huc

fontum gelidas perennitates, liquores perlucidos

amnium, riparum uestitus uiridissimos, speluncarum

concauas altitudines, saxorum asperitates,

inpendentium montium altitudines inmensitatesque

camporum; adde etiam reconditas auri argentique

uenas infinitimamque uim marmoris.

Pois j possvel, afastada a sutileza do que se discute,

contemplar de certo modo com os olhos a beleza

daquelas coisas, que dizemos constitudas pela divina

providncia. E primeiramente se distingue toda a terra,

situada na parte mediana do mundo, slida e redonda,

e em si mesma, por todos os lados, reunida por sua

gravidade, revestida de flores, ervas, rvores, frutos, de

todas essas coisas, uma incrvel quantidade se

distingue por uma variedade insacivel. Junte a isto as

glidas perenidades das fontes, os lquidos

transparentes dos rios, as roupagens verdssimas das

margens, as profundidades cncavas das cavernas, as

asperezas das pedras, as elevaes dos montes

suspensos e as imensides dos campos; junte tambm

os veios escondidos de ouro e de prata, e a infinita

quantidade de mrmore,

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 117

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[99] Quae uero et quam uaria genera bestiarum uel

cicurum uel ferarum, qui uolucrium lapsus atque

cantus, qui pecudum pastus, quae uita siluestrium.

Quid iam de hominum genere dicam, qui quasi

cultores terrae constituti non patiuntur eam nec

inmanitate beluarum efferari nec stirpium asperitate

uastari, quorumque operibus agri, insulae litoraque

collucent distincta tectis et urbibus. Quae si, ut animis,

sic oculis uidere possemus, nemo cunctam intuens

terram de diuina ratione dubitaret.

e certamente aquelas to variadas espcies de animais,

ou domsticos, ou selvagens, aqueles voos e cantos das

aves, aqueles alimentos dos rebanhos, aquela vida dos

animais silvestres. O que direi agora sobre a espcie

dos homens que, estabelecidos como cultivadores da

terra, no permitem nem que ela se torne inspita pela

crueldade das feras, nem que seja devastada pela

aspereza das razes e com os seus103 trabalhos de

agricultura, as ilhas e as praias resplandecem distintas

das casas e das cidades. O que se, de modo que

pudssemos ver com a alma, assim como com os

olhos, ningum, contemplando toda a terra, duvidaria

de uma divina razo.

103 Quorum: refere-se a homens.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 118

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[100] At uero quanta maris est pulchritudo, quae

species uniuersi, quae multitudo et uarietas insularum,

quae amoenitates orarum ac litorum, quot genera

quamque disparia partim submersarum, partim

fluitantium et innantium beluarum, partim ad saxa

natiuis testis inhaerentium. Ipsum autem mare sic

terram adpetens litoribus eludit, ut una ex duabus

naturis conflata uideatur.

Mas certamente quo grande a beleza do mar, aquele

aspecto do universo, aquele grande nmero e

variedade de ilhas, aqueles encantos das costas e das

praias, quantos e to diferentes gneros de animais,

uns submersos, outros que flutuam e que nadam,

outros ainda que esto presos s pedras em conchas

naturais. Porm o prprio mar assim, aproximando-se

da terra, diverte-se com as praias, de modo que uma

natureza parea formada de duas naturezas.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 119

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[101] Exin mari finitimus aer die et nocte distinguitur,

isque tum fusus et extenuatus sublime fertur, tum

autem concretus in nubes cogitur umoremque colligens

terram auget imbribus, tum effluens huc et illuc uentos

efficit. Idem annuas frigorum et calorum facit

uarietates idemque et uolatus alitum sustinet et spiritu

ductus alit et sustentat animantes. Restat ultimus et a

domiciliis nostris altissimus omnia cingens et coercens

caeli conplexus, qui idem aether uocatur, extrema ora

et determinatio mundi, in quo cum admirabilitate

maxima igneae formae cursus ordinatos definiunt.

Em seguida o ar, vizinho ao mar, diferencia-se de dia e

de noite, e ele, ora espalhado e atenuado, levado s

alturas, ora, porm, condensa-se compacto nas nuvens

e, condensando a umidade, enche a terra com as

chuvas, ora escorrendo aqui e ali, produz os ventos.

Ele mesmo faz as variedades anuais de frios e de

calores, e o mesmo sutenta os voos dos pssaros e,

conduzido pelo vento, nutre e sustenta os seres

animados. Resta o ltimo e o mais afastado das nossas

casas, que envolve todas as coisas e que contm os

limites do cu, o mesmo que chamado de ter,

extrema margem e limiar do mundo, no qual com

mxima admirao formas gneas delimitam os cursos

ordenados.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 120

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[102] E quibus sol, cuius magnitudine multis partibus

terra superarur, circum eam ipsam uoluitur, isque

oriens et occidens diem noctemque conficit et modo

accedens, tum autem recedens binas in singulis annis

reuersiones ab extremo contrarias facit, quarum in

interuallo tum quasi tristitia quadam contrahit terram,

tum uicissim laetificat, ut cum caelo hilarata uideatur.

A partir deles104 o sol, por cuja magnitude a terra

superada em muitas partes, roda em torno da mesma, e

ele, nascendo e perecendo, produz o dia e a noite, e,

ora se aproximando, ora, porm, afastando-se, faz dois

giros contrrios a um extremo em cada ano; no

intervalo deles105 ora por assim dizer diminui a terra

com uma tristeza, ora alternadamente alegra, de modo

que parea alegrada com o cu.

104 Quibus: cursos ordenados. 105 Reuersiones: giros.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 121

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[103] Luna autem, quae est, ut ostendunt mathematici,

maior quam dimidia pars terrae, isdem spatiis vagatur,

quibus sol, sed tum congrediens cum sole, tum

degrediens et eam lucem, quam a sole accepit, mittit in

terras et varias ipsa lucis mutationes habet, atque etiam

tum subiecta atque opposita soli radios eius et lumen

obscurat, tum ipsa incidens in umbram terrae, cum est

e regione solis, interpositu interiectuque terrae repente

deficit. Isdemque spatiis eae stellae, quas vagas

dicimus, circum terram feruntur eodemque modo

oriuntur et occidunt, quarum motus tum incitantur, tum

retardantur, saepe etiam insistunt,

Porm a lua que , como demonstram os matemticos,

maior do que a metade da terra, vaga nos mesmos

espaos em que o sol, mas ora caminhando com o sol,

ora se afastando, tanto lana aquela luz, que recebeu

do sol, para as terras quanto tem ela mesma vrias

mudanas de luz, e tambm, ora estando sujeita e

oposta ao sol, oculta os seus raios e a luz, ora ela

mesma caindo na sombra da terra, quando est

afastada da regio do sol, pela interposio e

interpolao da terra repentinamente desaparece. E

naqueles mesmos espaos, aquelas estrelas, que

chamamos de errantes, movem-se ao redor da terra e

do mesmo modo, nascem e perecem; seus

movimentos, ora so acelerados, ora so retardados,

ora sempre persistem,

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 122

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[104] quo spectaculo nihil potest admirabilius esse,

nihil pulchrius. Sequitur stellarum inerrantium maxima

multitudo, quarum ita descripta distinctio est, ut ex

notarum figurarum similitudine nomina inuenerint.

Atque hoc loco me intuens Vtar, inquit, carminibus

Arateis, quae a te admodum adulescentulo conuersa ita

me delectant, quia Latina sunt, ut multa ex is memoria

teneam. Ergo, ut oculis adsidue uidemus, sine ulla

mutatione aut uarietate

cetera labuntur celeri caelestia motu

cum caeloque simul noctesque diesque feruntur,

nada pode ser mais admirvel do que este espetculo,

nada mais belo. Segue uma enorme quantidade de

estrelas errantes, cuja distino foi descrita assim, pois

receberam os nomes a partir da semelhana de figuras

conhecidas. E neste ponto observando-me, disse:

usarei versos de Arato106, que traduzidos por ti ainda

adolescente, tanto me deleitam, porque esto em latim,

que detenho muitos deles na memria. Ento, como

vemos incessantemente com os olhos sem nenhuma

mudana ou variao:

outros corpos celestes se movem com rpido

movimento

E com o cu simultaneamente tanto os dias quanto as

noites se movem,

106 Versos transcritos de dois poemas ou de dois fragmentos de

um poema de Arato: (Coisas Brilhantes) e (Pressgios).

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 123

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[105] quorum contemplatione nullius expleri potest

animus naturae constantiam uidere cupientis.

Extremusque adeo duplici de cardine uertex

dicitur esse polus.

Hunc circum Arctoe duae feruntur numquam

occidentes.

Ex his altera apud Graios Cynosura uocatur,

altera dicitur esse Helice,

cuius quidem clarissimas stellas totis noctibus

cernimus, quas

nostri Septem soliti uocitare Triones;

pela contemplao deles107 no se pode satisfazer o

nimo de ningum que deseje ver a constncia da

natureza.

E absolutamente o ponto mais alto do eixo duplo108,

diz-se ser o plo.

Em torno deste se movem as duas Ursas que nunca se

pem.

Sobre elas, uma, segundo os gregos, chamada de

Cinosura109, a outra se diz ser Hlice110,

cujas estrelas muito brilhantes percebemos certamente

todas as noites, que os nossos esto habituados a

chamar de Septentriones;

107 Corpos celestes. Vide Das Constelaes p. 191. 108 Em relao rotao e translao. 109 Ursa menor. 110 Ursa maior.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 124

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[106] paribusque stellis similiter distinctis eundem

caeli uerticem lustrat parua Cynosura.

Hac fidunt duce nocturna Phoenices in alto.

Sed prior illa magis stellis distincta refulget

et late prima confestim a nocte uidetur.

Haec uero parua est, sed nautis usus in hac est;

nam cursu interiore breui conuertitur orbe.

Et quo sit earum stellarum admirabilior aspectus,

has inter ueluti rapido cum gurgite flumen

toruus Draco serpit supter supraque reuoluens

sese conficiensque sinus e corpore flexos.

e com iguais estrelas ornadas semelhantemente, a

pequena Cinosura ilumina o mesmo ponto do cu.

Os fencios no alto mar confiam nesta guia noturna.

Mas ela mais ornada brilha primeiro do que as estrelas

e de longe vista logo no incio da noite.

Ela certamente pequena, mas para os marinheiros o

uso est nisto;

pois tendo um percurso mais perto do centro gira em

uma breve rbita.

Tambm por isso dentre aquelas estrelas tenha um

aspecto mais admirvel,

entre elas, como um rio com impetuoso turbilho,

o terrvel Drago avana por baixo e por cima se

enrolando

e fazendo a partir de seu corpo sinuosas curvas.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 125

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[107] Eius cum totius est praeclara species, tum in

primis aspicienda est figura capitis atque ardor

oculorum:

Huic non una modo caput ornans stella relucet,

uerum tempora sunt duplici fulgore notata

e trucibusque oculis duo feruida lumina flagrant

atque uno mentum radianti sidere lucet;

obstipum caput, ac tereti ceruice reflexum

optutum in cauda maioris figere dicas.

Por um lado, belssimo o aspecto daquele todo, por

outro, sobretudo, deve-se observar a aparncia da

cabea e o ardor dos olhos:

No s uma estrela brilha ornando-lhe a cabea,

mas as tmporas foram marcadas por duplo brilho

e dos olhos ferozes ardem duas chamas frvidas

e o queixo reluz como uma estrela brilhante;

dizes que a cabea inclinada e com pescoo

arredondado

fixa o olhar recurvado na cauda da Ursa maior.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 126

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[108] Et relicum quidem corpus Draconis totis

noctibus cernimus,

hoc caput hic paulum sese subitoque recondit111,

ortus ubi atque obitus parti admiscetur in una.

Id autem caput attingens

defessa uelut maerentis imago uertitur,

quam quidem Graeci

Engonasin uocitant, genibus quia nixa feratur.

Hic illa eximio posita est fulgore Corona.

Atque haec quidem a tergo, propter caput autem

Anguitenens,

111 : Hoc caput hic paullum sese subitoque recondit

: Hoc caput hic paulum sese subito aequore condit

E o resto do corpo do Drago certamente percebemos

todas as noites.

esta cabea ento se esconde um pouco e subitamente,

onde o nascimento e a morte se misturam em uma s

parte.

Porm tocando essa cabea

se volta como uma imagem fatigada de algo triste,

que os gregos certamente

Chamam de Engonasi112, porque se mostra apoiado

sobre os joelhos.

Ali foi colocada aquela Coroa de exmio brilho.

E certamente esta est atrs, porm prximo da cabea

est Serpentrio,

112 O ajoelhado ou Hrcules.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 127

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[109] quem claro perhibent Ophiuchum nomine

Graii.

Hic pressu duplici palmarum continet Anguem

atque eius ipse manet religatus corpore torto;

namque uirum medium Serpens sub pectora cingit.

Ille tamen nitens grauiter uestigia ponit

atque oculos urget pedibus pectusque Nepai.

Septentriones autem sequitur

Arctophylax, uulgo qui dicitur esse Bootes,

quod quasi temone adiunctam prae se quatit Arctum.

a que os gregos do o nome ilustre de Ophiucus113.

Ele segura com as duas mos apertadas a Serpente

E o mesmo se mantm ligado ao corpo sinuoso dela;

pois a Serpente sob o peito envolve ao meio o homem.

Porm ele brilhando pe pesadamente as pegadas

E aperta com os ps os olhos e o peito de Nepa.

Porm segue os Septentries

O Boieiro, que comumente se diz ser Bootes,

porque toca a sua frente a Ursa quase atrelada ao

timo.

113 Constelao de Serpentrio.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 128

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[110] Dein quae sequuntur: huic enim Booti

supter praecordia fixa uidetur

stella micans radiis, Arcturus nomine claro;

cuius [pedibus] subiecta fertur

Spicum inlustre tenens splendenti corpore Virgo.

Atque ita demetata signa sunt, ut in tantis

descriptionibus diuina sollertia appareat:

Et Natos Geminos inuisses sub caput Arcti;

subiectus media est Cancer, pedibusque tenetur

magnus Leo tremulam quatiens e corpore flammam.

Depois, estas coisas se seguem: nesse Bootes, pois,

debaixo do diafragma parece fixada

uma estrela brilhante com raios, com claro nome de

Arturo114,

prxima aos seus [ps] se mostra

Virgem de resplandecente corpo segurando a ilustre

espiga115.

E as constelaes foram to delimitadas que em tantas

divises se mostra a habilidade divina:

E sob a cabea da Ursa116 vers os nascidos Gmeos;

Cncer foi sobposto no meio, e nos ps tem-se

o Leo maior, lanando do corpo uma trmula chama.

114 Estrela de Bootes. 115 Estrela de Virgem. 116 Maior.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 129

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

Auriga

sub laeua Geminorum obductus parte feretur.

Aduersum caput huic Helice truculenta tuetur.

At Capra laeum umerum clara optinet.

[Tum quae sequuntur:]

Verum haec est magno atque inlustri praedita signo,

contra Haedi exiguum iaciunt mortalibus ignem.

Cuius sub pedibus

corniger est ualido conixus corpore Taurus.

Auriga

se mostrar posto sob a parte esquerda dos Gmeos.

Hlice ameaadora olha a sua117 cabea face a face118.

Mas a Cabra119 clara ocupa o ombro esquerdo.

[Ento, seguem-se estas coisas:]

Na verdade esta foi provida de uma grande e ilustre

constelao,

ao contrrio os Cabritos120 lanam uma modesta luz

aos mortais.

Sob seus ps

o corngero Touro apoiou o robusto corpo.

117 Huic: Auriga. 118 Aduersum. 119 Estrela de Auriga. 120 Estrelas e de Auriga.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 130

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[111] Eius caput stellis conspersum est frequentibus;

has Graeci stellas Hyadas uocitare suerunt

a pluendo enim est pluere , nostri imperite Suculas, quasi a subus essent, non ab imbribus

nominatae. Minorem autem Septentrionem Cepheus

passis palmis [post] terga subsequitur;

namque ipsum ad tergum Cynosurae uertitur Arcti.

Hunc antecedit

obscura specie stellarum Cassiepia.

Hanc autem inlustri uersatur corpore propter

Andromeda aufugiens aspectu maesta parentis.

A cabea dele foi aspergida com numerosas estrelas,

os gregos se habituaram a chamar estas estrelas de

Hyadas121

de chover pois significa chover , os nossos por impercia chamam de Suculas122, como se tivessem

sido nomeadas a partir de porcas, no de chuvas.

Porm Cefeu segue por trs com as mos estendidas a

Ursa Menor;

pois ele se volta para as prprias costas da Ursa

Cynosura.

Precede este

Cassiepia de estrelas com aparncia obscura.

Porm Andrmeda, fugindo triste do olhar da me,

se volta junto desta com ilustre corpo.

121 Enorme aglomerado com cerca de 200 estrelas. 122 De suculae: porquinhas.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 131

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

Huic Equos123 ille iubam quatiens fulgore micanti

summum contingit caput aluo, stellaque iungens

una tenet duplices communi lumine formas

aeternum ex astris cupiens conectere nodum.

Exin contortis Aries cum cornibus haeret.

Quem propter

Pisces, quorum alter paulum praelabitur ante

et magis horriferis aquilonis tangitur auris.

123 : huic equus.

O Cavalo124, sacudindo a crina com brilho reluzente,

toca-lhe o pice da cabea com o ventre, e uma

estrela125,

unindo-os, mantm duplas formas com uma luz

comum

desejando dar um n eterno nos astros.

Depois permanece imvel ries com os chifres

recurvos.

Junto do qual

esto Peixes, um dos quais nada um pouco prximo

e tocado pelos mais horrveis ares do aquilo.

124 Huic equus, conforme . 125 Estrela de Adrmeda, considerada de Pgasus.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 132

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[112] Ad pedes Andromedae Perseus describitur,

quem summa ab regione aquilonis flamina pulsant.

Cuius

propter laeum genum

Vergilias126 tenui cum luce uidebis.

Inde Fides leuiter posita et conuexa uidetur.

Inde

est ales Auis lato sub tegmine caeli.

Capiti autem Equi proxima est Aquari dextra totusque

deinceps Aquarius. Tum

gelidum ualido de pectore frigus anhelans

corpore semifero magno Capricornus in orbe;

quem cum perpetuo uestiuit lumine Titan,

brumali flectens contorquet tempore currum.

126 : At propter laeuum genus omni ex parte locatas/ ParuasVergilias.

: Cuius propter laeuum genus omni ex parte locatas/ Paruas

Vergilias.

Aos ps de Andrmeda descrito Perseus,

a quem da regio mais elevada agitam os ventos de

aquilo.

ao lado do seu127 joelho esquerdo

vers as Pliades128 com tnue luz.

De l a Lira vista levemente posta e covexa.

De l

h uma Ave alada sob a vasta abboda do cu.

Porm a mo direita de Aqurio est prxima cabea

do Cavalo e depois todo o Aqurio. Ento,

ofegando um glido frio do forte peito,

est Capricnio com corpo monstruoso no grande

crculo;

que Tit129 revestiu com uma luz perptua,

afastando-se, faz girar o carro no inverno.

127 Cuius: Perseus. 128 Enorme aglomerado com cerca de 250 estrelas na constelao

de Touro. 129 O Sol.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 133

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[113] Hic autem aspicitur

sese ostendens emergit Scorpios alte

posteriore trahens flexum ui corporis Arcum.

Quem

propter nitens pinnis conuoluitur Ales.

At propter se Aquila ardenti cum corpore portat.

Deinde Delphinus.

Exinde Orion obliquo corpore nitens.

Aqui, porm, visto

Escorpio, mostrando-se, emerge do alto,

contraindo com a fora de trs do corpo o Arco

curvado.

Junto do qual

uma Ave brilhante se enrosca com as penas.

Mas perto uma guia se porta com o corpo ardente.

Depois o Golfinho.

Depois rion brilhante com corpo oblquo.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 134

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[114] Quem subsequens

feruidus ille Canis stelarum luce

refulget. Post Lepus subsequitur

curriculum numquam defesso corpore sedans.

At Canis ad caudam serpens prolabitur Argo.

Hanc Aries tegit et squamoso corpore Pisces

Fluminis inlustri tangentem corpore ripas.

Quem longe serpentem et manantem aspicies

proceraque Vincla uidebis,

quae retinent Pisces caudarum a parte locata.

Inde Nepae cernes propter fulgentis acumen

Aram, quam flatu permulcet spiritus austri.

Seguindo-o,

com a luz das estrelas o Co

resplandece. Depois a Lebre se segue

nunca cessando a corrida apesar do corpo fatigado.

Mas junto da cauda do Co se move rastejando Argo.

ries cobre esta130, tambm Peixes com o corpo

escamoso,

Tocando com ilustre corpo as margens do rio.

Que ao longe rastejando e correndo olhars

e vers os grandes Laos,

que amarram os Peixes pela parte localizada nas

caudas.

De l distinguirs, junto da ponta do resplandecente

Nepa131,

Ara, que o sopro do austro acaricia com o vento.

130 Argo. 131 Escorpio.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 135

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

Propter quae Centaurus

cedit Equi partis properans subiungere Chelis.

Hic dextram porgens, quadrupes qua uasta tenetur.

tendit et inlustrem truculentus cedit ad Aram.

Hic sese infernis e partibus erigit Hydra,

cuius longe corpus est fusum,

in medioque sinu fulgens Cretera relucet.

Extremam nitens plumato corpore Coruus

rostro tundit, et hic Geminis est ille sub ipsis

Antecanem, Procyon Graio qui nomine fertur132.

132 : Propter quae Centaurus/ Cedit, Equi partis properans

subiungere Chelis./ Hic dextram porgens, quadrupes qua uasta

tenetur,/ Tendit, et inlustrem truculentus caedit ad aram./ Hic

sese infernis de partibus erigit Hydra: cuius longe corpus est

susum. In medioque sinu fulgens Cratera relucet./ Extremum

nitens plumato corpore Coruus/ Rostro tundit: et hic Geminis est

ille sub ipsis/ Ante Canem, Procyon Graio qui nomine fertur.

: No apresenta este trecho.

Junto disso Centauro

caminha, se apressando em juntar as suas partes de

Cavalo com os braos do Escorpio.

Este quadrpede, estendendo a mo direita, mantm-se

com ela vazia.

dirigi-se e caminha, feroz, para Ara ilustre.

Aqui Hydra se ergue das partes inferiores,

Cujo corpo ao longo foi espalhado,

e Cretera reluz resplandecente em meia curva.

Corvo brilhante com o corpo plumado o extremo da

Hydra

importuna com o pico, e aqui sob os prprios Gmeos

est

Procio, que chamado pelo nome grego de Procyon.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 136

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[115] Haec omnis descriptio siderum atque hic tantus

caeli ornatus ex corporibus huc et illuc casu et temere

cursantibus potuisse effici cuiquam sano uideri potest,

aut uero alia, quae natura mentis et rationis expers

haec efficere potuit, quae non modo, ut fierent, ratione

eguerunt, sed intellegi, qualia sint, sine summa ratione

non possunt? Nec uero haec solum admirabilia, sed

nihil maius, quam quod ita stabilis est mundus atque

ita cohaeret, ad permanendum, ut nihil ne excogitari

quidem possit aptius. Omnes enim partes eius undique

medium locum capessentes nituntur aequaliter.

Maxime autem corpora inter se iuncta permanent, cum

quasi quodam uinculo circumdato colligantur; quod

facit ea natura, quae per omnem mundum omnia mente

et ratione conficiens funditur et ad medium rapit et

conuertit extrema.

Toda esta descrio dos astros e este to grande

ornamento do cu podem parecer a algum so que

puderam ser feitos a partir de corpos correntes por

acaso e sem ordem aqui e ali, ou, na verdade, que outra

natureza privada de mente e de razo pde realizar

estas coisas, que no s tm tido necessidade de razo

para que se fizessem, mas tambm no podem ser

entendidas quais sejam sem uma suma razo? E, na

verdade, estas coisas no so apenas admirveis, mas

no h nada de maior do que aquilo que um mundo

tanto estvel que tambm est unido para se conservar,

de modo que nem mesmo se possa pensar nada de

mais conveniente. Pois todas as suas partes, tendendo

de todos os lados para o meio, se apoiam

uniformemente. Porm os corpos permanecem

maximamente unidos entre si, pois so ligados, por

assim dizer, por um vnculo posto em volta, o que

realiza aquela natureza, que em todo o mundo,

formando todas as coisas com mente e com razo, se

estabelece e arrasta e atrai para o meio as partes

extremas.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 137

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[116] Quocirca si mundus globosus est ob eamque

causam omnes eius partes undique aequabiles ipsae per

se atque inter se continentur, contingere idem terrae

necesse est, ut omnibus eius partibus in medium

uergentibus (id autem medium infimum in sphaera est)

nihil interrumpat, quo labefactari possit tanta contentio

grauitatis et ponderum. Eademque ratione mare, cum

supra terram sit, medium tamen terrae locum expetens

conglobatur undique aequabiliter neque redundat

umquam neque effunditur.

Por conseguinte, se o mundo esfrico e, por tal causa,

todas as suas partes proporcionais de todos os lados

esto elas mesmas contidas por si e entre si,

necessrio que o mesmo acontea a terra para que em

todas as suas partes convergindo ao meio (porm este

meio a parte mais baixa na esfera) nada interrompa,

ao ponto que possa ser enfraquecida tamanha tenso de

gravidade e de peso. E pela mesma razo o mar,

porque est sobre a terra, procurando, todavia, o centro

da terra, reunia-se de todos os lados uniformemente e

nunca transborda nem se espalha.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 138

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[117] Huic autem continens aer fertur ille quidem

leuitate sublimi, sed tamen in omnes partes se ipse

fundit; itaque et mari continuatus et iunctus est et

natura fertur ad caelum, cuius tenuitate et calore

temperatus uitalem et salutarem spiritum praebet

animantibus. Quem complexa summa pars caeli quae

aetheria dicitur, et suum retinet ardorem tenuem et

nulla admixtione concretum et cum aeris extremitate

coniungitur. In aethere autem astra uoluuntur, quae se

et nisu suo conglobata continent et forma ipsa

figuraque sua momenta sustentant; sunt enim rutunda,

quibus formis, ut ante dixisse uideor, minime noceri

potest.

Porm prximo a ele, move-se certamente o ar com

sublime leveza, porm ele mesmo se difunde por todas

as partes, assim tanto foi unido, quanto ligado ao mar,

como por natureza se eleva ao cu, com sua133 sutileza

e calor devidamente misturado oferece aos seres

animados um esprito vital e salutar. A parte mais alta

do cu que o134 abraa, que chamada de etrea, tanto

conserva o seu ardor tnue, quanto por nenhuma

mistura condensado, como se une extremidade do

ar. Porm no ter giram os astros, que tanto se

conservam em forma de globo por seu movimento

quanto com a prpria forma e aspecto mantm seus

movimentos, pois so redondos, por tais formas, como

antes pareo ter dito, minimamente pode ser

prejudicado135.

133 Cuius. 134 Quem. 135 Noceri potest: refere-se ao ter.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 139

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[118] Sunt autem stellae natura flammeae; quocirca

terrae maris aquarum [que reliquarum] uaporibus

aluntur is, qui a sole ex agris tepefactis et ex aquis

excitantur; quibus altae renouataeque stellae atque

omnis aether effundunt eadem et rursum trahunt

indidem, nihil ut fere intereat aut admodum paululum,

quod astrorum ignis et aetheris flamma consumat. Ex

quo euenturum nostri putant id, de quo Panaetium

addubitare dicebant, ut ad extremum omnis mundus

ignesceret, cum umore consumpto neque terra ali

posset nec remearet aer, cuius ortus aqua omni

exhausta esse non posset: ita relinqui nihil praeter

ignem, a quo rursum animante ac deo renouatio mundi

fieret atque idem ornatus oreretur.

Porm as estrelas existem pela natureza da chama,

porque so alimentadas por estes vapores da terra, do

mar, [e das demais] guas, que so provocados pelo

Sol a partir das terras e das guas aquecidas, com os

quais as estrelas so alimentadas e renovadas, e por

todo ter espalham-se estas coisas e de novo arrastam

do mesmo lugar para que nada perea ordinariamente

ou muito pouco perea, o que consome o fogo dos

astros e a chama do ter. A partir disso os nossos

julgam que h de vir aquilo de que diziam que Pancio

duvidava, que todo mundo se inflamaria ao mximo,

quando, tendo-se consumida a umidade, nem a terra

poderia ser alimentada nem voltaria a ser alimentado o

ar, cujo nascimento no poderia haver com toda gua

extinta: assim nada poderia ser deixado junto do fogo,

depois por este ser animado e pelo deus a renovao

do mundo seria feita e o mesmo ornamento surgiria.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 140

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[119] Nolo in stellarum ratione multus uobis uideri,

maximeque earum, quae errare dicuntur; quarum

tantus est concentus ex dissimillimis motibus, ut, cum

summa Saturni refrigeret, media Martis incendat, is

interiecta Iouis inlustret et temperet, infraque Martem

duae soli oboediant, ipse sol mundum omnem sua luce

compleat, ab eoque luna inluminata grauiditates et

partus adferat maturitatesque gignendi. Quae copulatio

rerum et quasi consentiens ad mundi incolumitatem

coagmentatio naturae quem non mouet, hunc horum

nihil umquam reputauisse certo scio.

No vos quero parecer prolixo sobre a razo das

estrelas, sobretudo, das que se dizem errar, cuja

harmonia dos movimentos diferentes to grande que

quando a rbita mais afastada de Saturno refrigera, a

rbita mdia de Marte aquece a de Jpiter, posta

entre elas, ilumina e modera, e abaixo de Marte duas

rbitas obedecem ao Sol, o prprio Sol enche todo o

mundo com sua luz, e a Lua iluminada por ele traz as

gestaes, e os partos, e as maturaes do que

gerado. H o encadeamento das coisas e, por assim

dizer, a combinao da natureza em conformidade com

a conservao do mundo, que no se move, sei que

certamente este nunca foi deste modo.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 141

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[120] Age ut a caelestibus rebus ad terrestres

ueniamus, quid est in his, in quo non naturae ratio

intellegentis appareat? Principio eorum, quae

gignuntur e terra, stirpes et stabilitatem dant his, quae

sustinent, et e terra sucum trahunt, quo alantur ea, quae

radicibus continentur; obducunturque libro aut cortice

trunci, quo sint a frigoribus et caloribus tutiores. Iam

uero uites sic clauiculis adminicula tamquam manibus

adprehendunt atque ita se erigunt ut animantes; quin

etiam a caulibus brassicae, si propter sati sint136, ut a

pestiferis et nocentibus refugere dicuntur nec eos ulla

ex parte contingere.

136 : Quin etiam a caulibus, [brassicisque,] si propter sati sint

(...).

: Quin etiam a caulibus, si propter sati sint (...).

Faz com que cheguemos das coisas celestes s

terrestres, h algo nestas em que no aparea a razo

de uma natureza inteligente? Primeiramente as razes

daquilo que nasce da terra tanto do a estabilidade

quelas, que sustentam, quanto trazem da terra a seiva

com a qual so alimentadas aquelas que so mantidas

pelas razes; e os troncos so cobertos pela casca ou

pelo crtice, com que esto mais protegidos do frio e

do calor. J as videiras certamente agarram assim os

apoios com as gavinhas como com mos e se levantam

assim como os seres animados; mas dizem que fogem

dos caules de couve, se forem plantados perto, como

de coisas perniciosas e nocivas, e nem os tocam de

nenhuma parte.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 142

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[121] Animantium uero quanta uarietas est, quanta ad

eam rem uis, ut in suo quaeque genere permaneat.

Quarum aliae coriis tectae sunt, aliae uillis uestitae,

aliae spinis hirsutae; pluma alias, alias squama

uidemus obductas, alias esse cornibus armatas, alias

habere effugia pinnarum. Pastum autem animantibus

large et copiose natura eum, qui cuique aptus erat,

comparauit. Enumerare possum, ad eum pastum

capessendum conficiendumque quae sit in figuris

animantium et quam sollers subtilisque descriptio

partium quamque admirabilis fabrica membrorum.

Omnia enim, quae quidem intus inclusa sunt, ita nata

atque ita locata sunt, ut nihil eorum superuacuaneum

sit, nihil ad uitam retinendam non necessarium.

H certamente tanta diversidade de seres animados,

tanta fora para aquela coisa, de modo que cada uma

permanea no seu gnero. Destas, umas foram cobertas

com couro, outras foram revestidas com pelo, outras

ainda foram eriados com espinhos; umas vemos

recobertas com plumas, outras com escamas, umas

foram armadas com chifres, outras tm evases de

asas. A natureza, porm, preparou larga e

abundantemente aos seres animados aquele pasto que

era apropriado a cada um. Posso enumerar: para

alcanar e consumir aquele pasto, a137 destribuio das

partes nos aspectos dos seres animados tambm to

hbil e sutil, e a fbrica dos membros to admirvel.

Pois tudo, que certamente foi includo no interior,

assim nasceu e assim foi posto, de modo que nada

daquilo seja intil, nada seja desnecessrio para

conservar a vida.

137 Quae.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 143

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[122] Dedit autem eadem natura beluis et sensum et

adpetitum, ut altero conatum haberent ad naturales

pastus capessendos, altero secernerent pestifera a

salutaribus. Tam uero alia animalia gradiendo, alia

serpendo ad pastum accedunt, alia uolando, alia nando,

cibumque partim oris hiatu et dentibus ipsis capessunt,

partim unguium tenacitate arripiunt, partim aduncitate

rostrorum, alia sugunt, alia carpunt, alia uorant, alia

mandunt. Atque etiam aliorum east138 humilitas, ut

cibum terrestrem rostris facile contingant.

138 : ea est.

Porm a mesma natureza deu aos animais tanto o senso

quanto o apetite para que com um tivessem o impulso

para procurar os pastos naturais, com outro

distinguissem os perniciosos dos salutares. Assim,

certamente uns seres animados andando, outros

rastejando, chegam ao alimento, uns voando, outros

nadando; e uns alcanam o pasto pela abertura da boca

e com os prprios dentes, outros agarram com a

tenacidade das unhas, outros ainda com a curvatura

dos bicos; uns sugam, outros arrancam, outros

devoram, outros ainda mastigam. E tambm h

aquela139 baixa estatura de outros para que alcancem

facilmente com os bicos o alimento da terra.

139 Ea est, conforme .

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 144

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[123] Quae autem altiora sunt, ut anseres, ut cycni, ut

grues, ut camelli, adiuuantur proceritate collorum;

manus etiam data elephantost140, quia propter

magnitudinem corporis difficiles aditus habebat ad

pastum. At quibus bestiis erat is cibus, ut aliis generis

escis uescerentur, aut uires natura dedit aut celeritatem.

Data est quibusdam etiam machinatio quaedam atque

sollertia, ut in araneolis aliae quasi rete texunt, ut, si

quid inhaeserit, conficiant, aliae autem ut * * ex

inopinato obseruant et141, si quid incidit, arripiunt

idque consumunt. Pina uero (sic enim Graece dicitur)

duabus grandibus patula conchis cum parua squilla

quasi societatem coit comparandi cibi; itaque cum

pisciculi parui in concham hiantem innatauerunt, tum

admonita a squilla pina morsu conprimit conchas: sic

dissimillimis bestiolis communiter cibus quaeritur;

140 : elephantis. 141 : aliae autem ex inopinato obseruant, et.

Porm existem aqueles mais altos, como os patos,

como os cisnes, como os grous, como os camelos, so

ajudados pelo alongamento dos pescoos; uma mo142

tambm foi dada ao elefante, porque, por causa da

grandeza do corpo, seria difcil o acesso ao alimento.

Mas queles animais havia o alimento, de modo que se

alimentassem de outros alimentos do gnero, ou a

natureza deu fora ou a rapidez. A alguns foi dado

tambm certo artifcio e habilidade como nas pequenas

aranhas, umas tecem, por assim dizer, uma rede, para

que, se algo ficar preso, consumam, porm outras

observam inesperadamente, e143, se algo cair, agarram

e o consomem. O largo marisco certamente (pois assim

dizem os gregos) com duas grandes conchas

juntamente com a pequena esquila144 forma quase uma

sociedade para obter alimento e assim, quando os

pequenos peixinhos nadam dentro da concha aberta,

ento o marisco, avisado pela esquila atravs de uma

mordida, contrai as conchas: assim o alimento obtido

em comum por animaizinhos to diferentes;

142 Tromba. 143 porm outras observam inesperadamente, e, conforme . 144 Tipo de peixe.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 145

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[124] in quo admirandum est, congressune aliquo inter

se an iam inde ab ortu natura ipsa congregatae sint. Est

etiam admiratio nonnulla in bestiis aquatilibus is, quae

gignuntur in terra; ueluti crocodili fluuiatilesque

testudines quaedamque serpentes ortae extra aquam,

simul ac primum niti possunt, aquam persequuntur.

Quin etiam anitum oua gallinis saepe subponimus; e

quibus pulli orti primo aluntur ab his ut a matribus, a

quibus exclusi fotique sunt; deinde eas relinquunt et

effugiunt sequentes, cum primum aquam quasi

naturalem domum uidere potuerunt: tantam ingenuit

animantibus conseruandi sui natura custodiam. Legi

etiam scriptum esse auem quandam, quae platalea

nominaretur; eam sibi cibum quaerere aduolantem ad

eas auis, quae se in mari mergerent; quae cum

emersissent piscemque cepissent, usque eo premere

earum capita mordicus, dum illae captum amitterent, in

quod ipsa inuaderet. Eademque haec auis scribitur

conchis se solere complere, eas, cum stomachi calore

concoxerit, euomere atque ita eligere ex his, quae sunt

esculenta.

nisso deve-se admirar que, atravs de algum acordo,

entre eles ou j desde o nascimento tenham sido unidos

pela prpria natureza. H tambm certa admirao

naqueles animais aquticos, que nascem na terra: como

os crocodilos, e as tartarugas fluviais, e certas

serpentes nascidas fora da gua, logo que podem pela

primeira vez se mover, procuram a gua. Porm,

frequentemente pomos debaixo das galinhas ovos de

patas, os filhotes nascidos a princpio so alimentados

por aquelas, como pelas mes, pelas quais foram

retirados dos ovos145 e aquecidos; depois as deixam e

fogem, seguindo, logo que tenham podido ver a gua

como morada natural: tamanha custdia para se

preservar a natureza faz crescer nos seres animados. Li

tambm ter sido escrito que certa ave, que chamada

de pelicano, procura o seu alimento, voando ele at

aquelas aves, que submergem no mar, quando elas146

submergem e capturam peixe, aperta suas cabeas,

mordendo a tal ponto que elas deixam escapar a presa

qual ele mesmo se lana. E est escrito que esta

mesma ave est habituada a se encher com conchas,

quando as tem cozido com o calor do estmago,

vomita e assim separa delas o que comestvel.

145 E quibus. 146 Quae.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 146

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[125] Ranae autem marinae dicuntur obruere sese

harena solere et moueri prope aquam; ad quas quasi ad

escam pisces cum accesserint, confici a ranis atque

consumi. Miluo est quoddam bellum quasi naturale

cum coruo; ergo alter alterius, ubicumque nanctus est,

oua frangit. Illud uero (ab Aristotele animaduersum, a

quo pleraque) quis potest non mirari: grues cum loca

calidiora petentes maria transmittant, trianguli efficere

formam; eius autem summo angulo aer ab is aduersus

pellitur, deinde sensim ab utroque latere, tamquam

remis, ita pinnis cursus auium leuatur; basis autem

trianguli, quam efficiunt grues, ea tamquam a puppi

uentis adiuuatur; eaeque in tergo praeuolantium colla

et capita reponunt; quod quia ipse dux facere non

potest, quia non habet, ubi nitatur, reuolat, ut ipse

quoque quiescat; in eius locum succedit ex his, quae

adquierunt, eaque uicissitudo in omni cursu

conseruatur.

Porm se diz que as rs marinhas esto habituadas a se

esconderem na areia e a se moverem perto da gua;

quando os peixes se aproximam delas como de uma

isca, so mortos e devorados pelas rs. Para o

milhafre147 h uma guerra quase natural com o corvo,

pois um destri os ovos do outro, onde quer que

encontre. Isto certamente (foi percebido por

Aristteles, pelo qual a maior parte foi percebida)

quem pode no admirar: os grous, quando procurando

lugares mais quentes, atravessam os mares, formam

uma figura de tringulo; porm, no seu mais elevado

ngulo o ar tocado contrariamente por eles, depois

gradualmente pelos dois lados, assim com as asas o

curso das aves aliviado pelas asas como por remos;

porm a148 base do tringulo, que os grous formam,

ajudada pelos ventos como uma popa; e eles colocam

os pescoos e as cabeas nas costas dos que voam na

frente; o que, pois, no pode fazer o prprio

condutor149, porque no h onde se apoiar, voa para

trs para que ele tambm descanse; para o seu lugar

avana um daqueles que repousaram e essa alternncia

se conserva por todo o curso.

147 Ave de rapina. 148 Ea. 149 O grou que vai frente do tringulo.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 147

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[126] Multa eius modi proferre possum, sed genus

ipsum uidetis. Iam uero illa etiam notiora, quanto se

opere custodiant bestiae, ut in pastu circumspectent, ut

in cubilibus delitiscant. Atque illa mirabilia, quod ea

quae nuper, id est paucis ante saeclis, medicorum

ingeniis reperta sunt uomitione canes, purgando

autem aluo se ibes Aegyptiae curant. Auditum est

pantheras, quae in barbaria uenenata carne caperentur,

remedium quoddam habere, quo cum essent usae non

morerentur, capras autem in Creta feras, cum essent

confixae uenenatis sagittis, herbam quaerere, quae

dictamnus uocaretur, quam cum gustauissent, sagittas

excidere dicunt e corpore;

Posso mostrar muitas coisas do mesmo modo, mas

vedes o mesmo gnero. E at tambm aquelas coisas

mais conhecidas, com quanto trabalho os animais se

protegem, como no pasto olham em torno de si, como

se escondem em tocas. E h aquelas coisas

extraordinrias, pois aquelas coisas que foram

descobertas pelos engenhos dos mdicos h pouco, isto

, poucos sculos antes os ces curam-se pelo

vmito, porm as bis de Egito purgando os intestinos.

Foi ouvido que as panteras, que nas terras brbaras

eram capturadas com carne envenenada, tinham algum

remdio, quando elas usavam-no150, no morriam;

porm as cabras selvagens de Creta, quando eram

trespassadas por flechas envenenadas, procuravam

uma erva que chamada de dictamno, que, quando a

comiam, dizem que as flechas caam do corpo;

150 Quo.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 148

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[127] ceruaeque paulo ante partum perpurgant se

quadam herbula, quae seselis dicitur. Iam illa

cernimus, ut contra uim et metum suis se armis

quaeque defendat: cornibus tauri, apri dentibus, cursu

leones151, aliae fuga se, aliae occultatione tutantur,

atramenti effusione saepiae, torpore torpedines, multae

etiam insectantis odoris intolerabili foeditate depellunt.

Vt uero perpetuus mundi esset ornatus, magna adhibita

cura est a prouidentia deorum, ut semper essent et

bestiarum genera et arborum omniumque rerum, quae

a terra stirpibus continerentur; quae quidem omnia eam

uim seminis habent in se, ut ex uno plura generentur.

Idque semen inclusum est in intuma parte earum

bacarum, quae ex quaque stirpe funduntur, isdemque

seminibus et homines adfatim uescuntur et terrae

eiusdem generis stirpium renouatione conplentur.

151 : morsu leones (...).

: morsu leones (...).

e os cervos pouco antes do parto se purgam com uma

pequena erva que chamada de sselis. J percebemos

aquelas coisas, como cada um se defende com suas

armas contra a fora e o medo: os touros com os

chifres, os javalis com os dentes, os lees com a

corrida, uns se protegem com a fuga, outros com a

ocultao; as sibas152 com a profuso de um lquido

negro, os torpedos153 com o entorpecimento, muitos

tambm afastam os perseguidores com um mau cheiro

insuportvel. Para que o ornamento do mundo na

verdade fosse perptuo, foi empregado um grande

cuidado pela providncia dos deuses, de modo que

existissem sempre tanto as espcies dos animais,

quanto das rvores e de todas as coisas, que fossem

sustentadas por razes na terra; todas essas coisas

certamente tm em si a fora de semente, de modo que

de apenas uma so geradas muitas. E aquela semente

foi includa na parte mais ntima daqueles frutos, que

nascem de cada raiz, e das mesmas sementes tanto os

homens se alimentam abundantemente, quanto as

terras se preenchem com renovao de razes do

mesmo gnero.

152 Saepia ou sepia uma espcie de peixe. 153 Torpedo uma espcie de peixe.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 149

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[128] Quid loquar, quanta ratio in bestiis ad perpetuam

conseruationem earum generis appareat? Nam primum

aliae mares, aliae feminae sunt, quod perpetuitatis

causa machinata natura est, deinde partes corporis et

ad procreandum et ad concipiendum aptissimae, et in

mari et in femina commiscendorum corporum mirae

libidines; cum autem in locis semen insedit, rapit

omnem fere cibum ad sese eoque saeptum fingit

animal; quod cum ex utero elapsum excidit, in iis

animantibus, quae lacte aluntur, omnis fere cibus

matrum lactescere incipit, eaque, quae paulo ante nata

sunt, sine magistro duce natura mammas adpetunt

earumque ubertate saturantur. Atque ut intellegamus

nihil horum esse fortuitum et haec omnia esse opera

prouidae sollertisque naturae, quae multiplices fetus

procreant, ut sues, ut canes, iis mammarum data est

multitudo, quas easdem paucas habent eae bestiae,

quae pauca gignunt.

O que falarei: quanta razo aparece nos animais para a

perptua conservao de seu gnero? Pois,

primeiramente, uns so machos, outros fmeas, o que a

natureza planejou para perpetuao; depois, h as

partes do corpo mais aptas tanto para procriar quanto

para conceber, tanto no macho, quanto na fmea, h

desejos admirveis de unir os corpos; porm quando a

semente est colocada no lugar, atrai quase todo

alimento para si e protegida por ele forma o animal;

quando ele154, dado a luz, cai, naqueles seres animados

que se alimentam de leite, quase todo o alimento das

mes comea a se transformar em leite, e aqueles que

foram gerados um pouco antes, sem mestre,

conduzindo a natureza, procuram alcanar as mamas e

se saciam com sua abundncia. E para que

compreendamos que nada destas coisas casual e que

todas estas coisas so obras de uma natureza prudente

e engenhosa, as quais geram mltiplos filhos, como os

porcos, como os ces, foi-lhes dada uma grande

quantidade de mamas, aqueles animais, que geram

pouco, tm tambm155 poucas mamas156.

154 Quod. 155 Easdem. 156 Quas.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 150

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[129] Quid dicam, quantus amor bestiarum sit in

educandis custodiendisque is, quae procreauerunt,

usque ad eum finem, dum possint se ipsa defendere.

Etsi pisces, ut aiunt, oua cum genuerunt, relinquunt,

facile enim illa aqua et sustinentur et fetum fundunt;

testudines autem et crocodilos dicunt, cum in terra

partum ediderint, obruere oua, deinde discedere: ita et

nascuntur et educantur ipsa per sese. Iam gallinae

auesque reliquae et quietum requirunt ad pariendum

locum et cubilia sibi nidosque construunt eosque quam

possunt mollissume substernunt, ut quam facillume

oua seruentur; e quibus pullos cum excuderunt, ita

tuentur, ut et pinnis foueant, ne frigore laedantur, et, si

est calor a sole, se opponant; cum autem pulli pinnulis

uti possunt, tum uolatus eorum matres prosequuntur,

reliqua cura liberantur.

O que direi: quanto amor de animais h em educar e

proteger aqueles que procriaram at quele momento

em que possam eles mesmos se defender. Se bem que

os peixes, como dizem, quando tm gerado as ovas,

abandonam, pois elas facilmente tanto so mantidas

pela gua quanto asseguram a cria; porm, dizem que

as tartarugas e os crocodilos, quando tm exposto o

parto na terra, escondem os ovos, depois se afastam:

assim tanto nascem quanto eles mesmos se educam. J

as galinhas e as outras aves tanto procuram um lugar

tranquilo para parir quanto constroem para si pequenas

tocas e ninhos, e os cobrem o quanto podem

delicadamente para que os ovos se conservem mais

facilmente; quando tiram deles os filhotes, protegem

de tal modo que tanto aquecem com as asas, para que

no se prejudiquem com o frio, quanto se interpem,

caso haja o calor do sol; porm, quando os filhotes

podem usar as pequenas asas, ento as mes

acompanham os seus voos, so libertados dos demais

cuidados.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 151

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[130] Accedit etiam ad non nullorum animantium et

earum rerum, quas terra gignit, conseruationem et

salutem hominum etiam sollertia et diligentia. Nam

multae et pecudes et stirpes sunt, quae sine

procuratione hominum saluae esse non possunt.

Magnae etiam oportunitates ad cultum hominum atque

abundantiam aliae aliis in locis reperiuntur. Aegyptum

Nilus inrigat, et cum tota aestate obrutam oppletamque

tenuit, tum recedit mollitosque et oblimatos agros ad

serendum relinquit. Mesopotamiam fertilem efficit

Euphrates, in quam quotannis quasi nouos agros

inuehit. Indus uero, qui est omnium fluminum

maximus, non aqua solum agros laetificat et mitigat,

sed eos etiam conserit; magnam enim uim seminum

secum frumenti similium dicitur deportare.

Acrescenta-se tambm conservao e sade dos

homens, de alguns seres animados e daquelas coisas,

que a terra produz, tambm a habilidade e a diligncia.

Pois h muitos, tanto animais, quanto razes, que no

podem ser salvas sem o cuidado dos homens. Tambm

outras grandes oportunidades para o cultivo e

abundncia dos homens so encontradas em outros

lugares. O Nilo irriga o Egito e embora o tenha

mantido por todo o vero coberto e cheio, retira-se

ento e deixa os campos macios e cobertos de limo

para semear. O Eufrates torna frtil a Mesopotmia,

qual traz por assim dizer novos campos todos os anos.

O Indo, certamente, que o maior de todos os rios, no

s torna frtil e amolece os campos com gua, mas

tambm os semeia, pois se diz que leva consigo uma

grande quantidade de sementes semelhantes a gros.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 152

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[131] Multaque alia in aliis locis commemorabilia

proferre possum, multos fertiles agros alios aliorum

fructuum. Sed illa quanta benignitas naturae, quod tam

multa ad uescendum tam uarie, tam iucunda gignit,

neque ea uno tempore anni, ut semper et nouitate

delectemur et copia. Quam tempestiuos autem dedit,

quam salutares non modo hominum, sed etiam

pecudum generi, is denique omnibus, quae oriuntur e

terra, uentos etesias; quorum flatu nimii temperantur

calores, ab isdem etiam maritimi cursus celeres et certi

diriguntur. Multa praetereunda sunt et tamen multa

dicuntur.

Posso mostrar muitas outras coisas memorveis em

outros lugares, muitos outros campos frteis de outros

frutos. Mas tamanha a benevolncia da natureza, pois

gera to numerosas, to variadas e to agradveis

coisas para se nutrir, e isto no em uma s estao do

ano, pois sempre somos agradados, tanto pela

novidade, quanto pela abundncia. Porm, deu os

ventos etsios to oportunos, to salutares no s ao

gnero dos homens, mas tambm ao dos animais,

enfim a todas aquelas coisas, que nascem da terra, com

o sopro deles se temperam os excessivos calores, pelos

mesmos tambm as navegaes martimas se

conduzem velozes e seguras. Muitas coisas devem ser

omitidas, porm muitas so ditas.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 153

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[132] Enumerari enim non possunt fluminum

oportunitates, aestus maritimi simul cum luna

accedentes et recedentes, montes uestiti atque

siluestres, salinae ab ora maritima remotissimae,

medicamentorum salutarium plenissumae terrae, artes

denique innumerabiles157 ad uictum et ad uitam

necessariae. Iam diei noctisque uicissitudo conseruat

animantes tribuens aliud agendi tempus, aliud

quiescendi. Sic undique omni ratione concluditur

mente consilioque diuino omnia in hoc mundo ad

salutem omnium conseruationemque admirabiliter

administrari.

157 : plenissimae terrae: artes denique innumerabiles (...).

: plenissimae terrae, utilitates denique innumerabiles (...).

Pois no podem ser enumeradas as vantagens dos rios,

a agitao dos mares, simultaneamente com a lua,

avanando e recuando, os montes cobertos e silvestres,

as salinas muito distantes da costa martima, as terras

plenas de medicamentos salutares, enfim as

inumerveis artes necessrias para o sustento e para a

vida. J a sucesso dos dias e das noites conserva os

seres animados, distribuindo um tempo para agir, outro

para descanar. Assim de todas as partes com toda

razo se conclui que todas as coisas neste mundo so

administradas admiravelmente para a sade e

conservao de tudo por uma mente e deliberao

divina.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 154

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[133] Sin quaeret quispiam, cuiusnam causa tantarum

rerum molitio facta sit arborumne et herbarum, quae,

quamquam sine sensu sunt, tamen a natura sustinentur:

at id quidem absurdum est; an bestiarum: nihilo

probabilius deos mutarum et nihil intellegentium causa

tantum laborasse. Quorum igitur causa quis dixerit

effectum esse mundum? Eorum scilicet animantium,

quae ratione utuntur; hi sunt di et homines; quibus

profecto nihil est melius; ratio est enim, quae praestet

omnibus. Ita fit credibile deorum et hominum causa

factum esse mundum, quaeque in eo mundo sint

omnia. Faciliusque intellegetur a dis inmortalibus

hominibus esse prouisum, si erit tota hominis

fabricatio perspecta omnisque humanae naturae figura

atque perfectio.

Mas se algum procurar saber por causa de que tenha

sido feita a construo de to grandes coisas se das

rvores e das ervas, que, ainda que sejam sem senso,

porm sejam mantidas pela natureza: mas isto

certamente absurdo; ou dos animais: em nada seja

mais provvel que os deuses tenham trabalhado tanto

por causa de seres mudos e nada inteligentes, ento

por causa deles, algum diria que o mundo tenha sido

criado? Certamente por causa daqueles seres animados

que se servem da razo; estes so os deuses e os

homens; certamente nada melhor do que eles; pois

a razo que superior a tudo. Assim se faz verossmil

que o mundo tenha sido feito por causa dos deuses e

dos homens, e tudo o que neste mundo exista. E mais

facilmente se compreender que tenha sido provido

aos homens pelos deuses imortais, se for observada

toda a estrutura do homem e todo o aspecto e a

perfeio da natureza humana.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 155

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[134] Nam cum tribus rebus animantium uita teneatur,

cibo, potione, spiritu, ad haec omnia percipienda os est

aptissimum, quod adiunctis naribus spiritu augetur,

dentibus autem in ore constructis manditur atque ab iis

extenuatur et mollitur cibus. Eorum aduersi acuti

morsu diuidunt escas, intimi autem conficiunt, qui

genuini uocantur; quae confectio etiam a lingua

adiuuari uidetur.

Pois, como a vida dos seres animados mantida por

trs coisas, por alimento, por bebida, por respirao,

para apanhar todas estas coisas a boca mais

apropriada, que, unidas as narinas, enche-se com a

respirao, porm com os dentes ordenados na boca o

alimento mastigado e quebrado, e amolecido por

eles. Com a mordida deles, os afiados da frente

dividem os alimentos, porm os do interior

complementam, os quais so chamados de molares; tal

ao parece tambm ser ajudada pela lngua.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 156

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[135] Linguam autem ad radices eius haerens excipit

stomachus, quo primum inlabuntur ea, quae accepta

sunt ore. Is utraque ex parte tosillas attingens palato

extremo atque intimo terminatur atque is agitatione et

motibus linguae, cum depulsum et quasi detrusum

cibum accepit, depellit. Ipsius autem partes eae, quae

sunt infra quam id, quod deuoratur, dilatantur, quae

autem supra, contrahuntur.

Porm o esfago, aderindo a suas razes, sucede a

lngua, atravs do qual passam primeiramente aquelas

coisas que foram recebidas pela boca. Ele de ambas as

partes tocando as amgdalas limitado pelo palato

mais afastado e profundo, e ele, com a agitao e os

movimentos da lngua, quando recebe o alimento cado

e quase lanado para baixo, expulsa. Porm as partes

do mesmo158, que esto mais abaixo do que

devorado, dilatam-se, porm aquelas que esto acima

contraem-se.

158 Esfago.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 157

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[136] Sed cum aspera arteria (sic enim a medicis

appellatur) ostium habeat adiunctum linguae radicibus

paulo supra quam ad linguam stomachus adnectitur,

eaque ad pulmones usque pertineat excipiatque

animam eam, quae ducta est spiritu eandemque a

pulmonibus respiret et reddat, tegitur quodam quasi

operculo, quod ob eam causam datum est, ne, si quid

in eam cibi forte incidisset, spiritus impediretur.

Mas como a traqueia-artria spera (pois assim

chamada pelos mdicos) tenha uma abertura junto s

razes da lngua um pouco acima dela, o esfago se

une lngua, e ela se estende at os pulmes e recebe o

nimo, que foi trazido com a respirao, e o respira

dos pulmes e exala, coberta quase por uma tampa,

que foi produzida para aquela causa, se algo de

alimento por acaso casse sobre ela, no impediria a

respirao.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 158

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

Sed cum alui natura subiecta stomacho cibi et potionis

sit receptaculum, pulmones autem et cor extrinsecus

spiritum ducant, in aluo multa sunt mirabiliter effecta,

quae constant159 fere e neruis; est autem multiplex et

tortuosa arcetque et continet, siue illud aridum est siue

humidum, quod recepit, ut id mutari et concoqui

possit, eaque tum adstringitur, tum relaxatur, atque

omne, quod accepit, cogit et confundit, ut facile et

calore, quem multum habet, et terendo cibo et

praeterea spiritu omnia cocta atque confecta in

reliquum corpus diuidantur. In pulmonibus autem inest

raritas quaedam et adsimilis spongiis mollitudo ad

hauriendum spiritum aptissima, qui tum se contrahunt

adspirantes, tum in respiratu dilatantur, ut frequenter

ducatur cibus animalis, quo maxime aluntur animantes.

159 : quae constat (...).

: quae constat (...).

Mas como a natureza de estmago posta abaixo do

esfago seja o receptculo de alimentos e de bebidas,

os pulmes e o corao, porm, conduzem a respirao

do exterior, muitas coisas foram feitas admiravelmente

no estmago, que se compe160 geralmente de nervos;

porm sinuoso e tortuoso, e retm e mantm, quer

seja seco, quer mido aquilo que recebe, de modo que

isto possa ser transformado e ser digerido, e ela161 ora

se contrai, ora relaxa, e rene e mistura tudo o que

recebe, de modo que facilmente, tanto pelo calor que

tem muito, quanto por triturar o alimento, como, alm

disso, pela a respirao todas as coisas digeridas e

consumidas so divididas para o restante do corpo.

Porm, nos pulmes h certa porosidade e

flexibilidade semelhante s esponjas, muito apta a

absorver a respirao, eles162 ora se contraem

aspirando, ora se dilatam ao respirar, para que

frequentemente se conduza o alimento no ser animado

com o qual, sobretudo, os seres animados se

alimentam.

160 De acorda com e . 161 Natura alui. 162 Qui: pulmes.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 159

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[137] Ex intestinis autem et aluo secretus a reliquo

cibo sucus is quo alimur permanat ad iecur per

quasdam a medio intestino usque ad portas iecoris (sic

enim appellantur) ductas et directas uias, quae

pertinent ad iecur eique adhaerent; atque inde aliae * *

pertinentes sunt, per quas cadit cibus a iecore dilapsus.

Ab eo cibo cum est secreta bilis eique umores, qui e

renibus profunduntur, reliqua se in sanguinem uertunt

ad easdemque portas iecoris confluunt, ad quas omnes

eius uiae pertinent; per quas lapsus cibus in hoc ipso

loco in eam uenam, quae caua appellatur, confunditur

perque eam ad cor confectus iam coctusque perlabitur;

a corde autem in totum corpus distribuitur per uenas

admodum multas in omnes partes corporis pertinentes.

Dos intestinos, porm, e do estmago, o suco separado

do resto do alimento, com o qual nos alimentamos,

chega ao fgado atravs da porosidade do intestino

mdio at as entradas do fgado (pois assim so

chamadas), vias condutoras e diretas, que se estendem

ao fgado e a ele se unem; e h outras que se estendem

de l, atravs das quais cai o alimento dissolvido pelo

fgado. Quando daquele alimento foi separada a blis e

aqueles lquidos que so produzidos a partir dos rins,

as outras se transformam em sangue e convergem para

as mesmas portas do fgado, s quais todas as suas vias

se dirigem; atravs delas o alimento cado neste

mesmo lugar se espalha por aquela veia, que

chamada de cncava, e atravs dela, j consumido e

digerido, chega ao corao; porm, pelo corao

distribudo certamente para todo o corpo atravs de

muitas veias, que se estendem a todas as partes do

corpo.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 160

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[138] Quemadmodum autem reliquiae cibi depellantur

tum astringentibus se intestinis, tum relaxantibus, haud

sane difficile dictu est, sed tamen praetereundum est,

ne quid habeat iniucunditatis oratio. Illa potius

explicetur incredibilis fabrica naturae: nam quae

spiritu in pulmones anima ducitur, ea calescit primum

ipso ab spiritu, deinde contagione pulmonum, ex eaque

pars redditur respirando, pars concipitur cordis parte

quadam, quam uentriculum cordis appellant, cui

similis alter adiunctus est, in quem sanguis a iecore per

uenam illam cauam influit. Eoque modo ex is partibus

et sanguis per uenas in omne corpus diffunditur et

spiritus per arterias; utraeque autem crebrae multaeque

toto corpore intextae uim quandam incredibilem

artificiosi operis diuinique testantur.

Como os restos do alimento, porm, so expulsos, ora

contrados os intestinos, ora relaxados, certamente no

difcil de dizer, no entanto deve ser omitido, para que

o discurso no tenha algo de desagradvel. Seja

explicado de preferncia aquele incrvel artifcio da

natureza: pois o nimo que levado pela respirao

aos pulmes, este primeiramente se torna quente pela

prpria respirao, depois atravs do contato com os

pulmes, e parte dele devolvida ao respirar, parte

recebida por alguma parte do corao, que chamam de

ventrculo do corao, ao qual foi unido outro

semelhante, no qual o sangue flui do fgado atravs

daquela veia cncava. E deste modo, a partir daquelas

partes163, tanto o sangue difundido atravs das veias

em todo o corpo, quanto a respirao atravs das

artrias; porm, umas e outras, numerosas e muitas,

entrelaadas em todo corpo, atestam uma potncia

incrvel de uma obra engenhosa e divina.

163 Ventrculos.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 161

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[139] Quid dicam de ossibus; quae subiecta corpori

mirabiles commissuras habent et ad stabilitatem aptas

et ad artus finiendos adcommodatas et ad motum et ad

omnem corporis actionem. Huc adde nervos, a quibus

artus continentur, eorumque inplicationem corpore toto

pertinentem; qui sicut venae et arteriae a corde tractae

et profectae164 in corpus omne ducuntur.

164 : a corde tracti et profecti (...).

: a corde tracti et profecti (...).

O que dizer sobre os ossos; que, postos abaixo do

corpo, tm maravilhosas junturas tanto aptas para a

estabilidade quanto apropriadas para estabelecer as

articulaes, tanto para o movimento quanto para toda

ao do corpo. A isto junte os nervos, pelos quais as

articulaes so contidas, e o seu entrelaamento que

se estende por todo o corpo; os quais se estendem

como veias e artrias provenientes e derivadas do

corao para todo o corpo.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 162

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[140] Ad hanc prouidentiam naturae tam diligentem

tamque sollertem adiungi multa possunt, e quibus

intellegatur, quantae res hominibus a dis quamque

eximiae tributae sint. Qui primum eos humo excitatos,

celsos et erectos constituerunt, ut deorum cognitionem

caelum intuentes capere possent. Sunt enim ex terra

homines non ut incolae atque habitatores, sed quasi

spectatores superarum rerum atque caelestium, quarum

spectaculum ad nullum aliud genus animantium

pertinet. Sensus autem interpretes ac nuntii rerum in

capite tamquam in arce mirifice ad usus necessarios et

facti et conlocati sunt. Nam oculi tamquam

speculatores altissimum locum optinent, ex quo

plurima conspicientes fungantur suo munere;

A esta providncia da natureza to diligente e to

engenhosa podem se juntar muitas coisas a partir dos

quais se compreende quantas e quo exmias coisas

foram concedidas aos homens pelos deuses. Eles165

primeiramente os166 criaram altos e eretos, levantados

da terra, para que, olhando atentamente o cu,

pudessem tomar conhecimento dos deuses. Pois os

homens so provenientes da terra no como habitantes

e moradores, mas quase espectadores das coisas

superiores e celestes, cujo espetculo a nenhum outro

gnero de seres animados se estende. Porm os

sentidos, intrpretes e mensageiros das coisas, tanto

foram feitos, quanto colocados na cabea, como se

estivessem magnificamente sobre a parte mais alta de

uma cidade para os usos necessrios. Pois os olhos

ocupam, como observadores, o lugar mais alto, de

onde observam muitas coisas, cumprem sua funo;

165 Qui: deuses. 166 Eos: homens.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 163

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[141] et aures, cum sonum percipere debeant, qui

natura in sublime fertur, recte in altis corporum

partibus collocatae sunt; itemque nares et, quod omnis

odor ad supera fertur, recte sursum sunt et, quod cibi et

potionis iudicium magnum earum est, non sine causa

uicinitatem oris secutae sunt. Iam gustatus, qui sentire

eorum, quibus uescimur, genera deberet, habitat in ea

parte oris, qua esculentis et posculentis iter natura

patefecit. Tactus autem toto corpore aequabiliter fusus

est, ut omnes ictus omnesque minimos et frigoris et

caloris adpulsus sentire possimus. Atque ut in

aedificiis architecti auertunt ab oculis naribusque

dominorum ea, quae profluentia necessario taetri

essent aliquid habitura, sic natura res similis procul

amandauit a sensibus.

e as orelhas, como devem perceber o som, que pela

natureza levado para o alto, justamente foram

colocadas nas partes altas dos corpos; e tambm o

nariz, j que todo cheiro levado para o alto,

justamente esto no alto e, j que importante o seu

julgamento de alimentos e de bebidas, no sem motivo

seguiram a vizinhana da boca. J o paladar, que

deveria sentir os gneros daquilo que comemos, tem

lugar naquela parte da boca, na qual a natureza abriu

um caminho aos alimentos e s bebidas. Porm o tato

foi distribudo uniformemente por todo o corpo para

que possamos sentir todos os golpes e todos os

mnimos contatos, tanto de frio, quanto de calor. E

como nos edifcios os arquitetos afastam dos olhos e

dos narizes dos donos aquelas coisas que

necessariamente haviam de ter algo de desagradvel

em abundncia, assim a natureza afastou coisas

semelhantes dos sentidos.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 164

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[142] Quis uero opifex praeter naturam, qua nihil

potest esse callidius, tantam sollertiam persequi

potuisset in sensibus? Quae primum oculos membranis

tenuissimis uestiuit et saepsit; quas perlucidas fecit167,

ut per eas cerni posset, firmas autem, ut continerentur.

Sed lubricos oculos fecit et mobiles, ut et declinarent,

si quid noceret, et aspectum, quo uellent, facile

conuerterent; aciesque ipsa, qua cernimus, quae pupula

uocatur, ita parua est, ut ea, quae nocere possint, facile

uitet; palpebraeque quae sunt tegmenta oculorum,

mollissimae, tactune laederent aciem, aptissime factae

et ad claudendas pupulas, ne quid incideret, et ad

aperiendas, idque prouidit ut identidem fieri posset

cum maxima celeritate.

167 : quas primum perlucidas fecit (...).

: quas primum perlucidas fecit (...).

: quas primum perlucidas fecit (...).

Qual artista certamente alm da natureza, nada pode

haver de mais hbil do que ela, teria podido dar aos

sentidos tanta habilidade? A natureza168 primeiramente

revestiu e cingiu os olhos com membranas muito

tnues, que fez transparentes, para que atravs delas se

pudesse ver, porm fortes, para que se conservassem.

Mas fez os olhos mveis e lbricos para que tanto se

afastem, se algo prejudicar, quanto facilmente vertam a

viso para o que quiserem; e a prpria faculdade da

viso com a qual vemos, que chamada de pupila,

assim pequena para que evite aquelas coisas que

podem prejudicar; e as plpebras, que so a cobertura

dos olhos, muito sensveis, para que com o toque no

prejudiquem a viso, feitas muito convenientemente,

tanto para fechar as pupilas, para que no caia nada,

quanto para abrir, e previu isto para que possa se fazer

vrias vezes com a mxima rapidez.

168 Quae.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 165

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[143] Munitaeque sunt palpebrae tamquam uallo

pilorum, quibus et apertis oculis, si quid incideret,

repelleretur, et somno coniuentibus, cum oculis ad

cernendum non egeremus, ut qui tamquam inuoluti

quiescerent169. Latent praeterea utiliter et excelsis

undique partibus saepiuntur. Primum enim superiora

superciliis obducta sudorem a capite et fronte

defluentem repellunt; genae deinde ab inferiore parte

tutantur subiectae leuiterque eminentes; nasusque ita

locatus est ut quasi murus oculis interiectus esse

uideatur.

169 : non egeremus, ut qui, tamquam inuoluti, quiescerent (...).

: non egeremus, tamquam inuoluti quiescerent (...).

E as plpebras foram munidas como de uma sequncia

de pelos, com os quais tanto com os olhos abertos, se

algo casse, repeliria, quanto com os olhos fechados

pelo sono, quando no precisssemos dos olhos para

ver, para que eles descanasem como se velados. Alm

disso, esto escondidos utilmente e de todas as partes

so cercados por partes mais elevadas. Pois

primeiramente as partes superiores que esto acima do

superclio repelem o suor da cabea e da testa; depois

as bochechas, que esto abaixo e suavemente se

elevam, protegem desde a parte inferior; e o nariz foi

assim colocado, de modo que parea quase ser um

muro situado entre os olhos.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 166

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[144] Auditus autem semper patet; eius enim sensu

etiam dormientes egemus; a quo cum sonus est

acceptus, etiam e somno excitamur. Flexuosum iter

habet, ne quid intrare possit, si simplex et directum

pateret; prouisum etiam, ut, si qua minima bestiola

conaretur inrumpere, in sordibus aurium tamquam in

uisco inhaeresceret. Extra autem eminent, quae

appellantur aures, et regendi causa factae tutandique

sensus, et ne adiectae uoces laberentur atque errarent,

prius quam sensus ab his pulsus esset. Sed duros et

quasi corneolos habent introitus multisque cum

flexibus, quod his naturis relatus amplificatur sonus;

quocirca et in fidibus testudine resonatur aut cornu, et

ex tortuosis locis et inclusis referuntur170 ampliores.

170 : soni referuntur.

Porm o ouvido est sempre aberto, pois tambm

dormindo, precisamos de seu sentido, pelo qual,

quando um som recebido, tambm somos

despertados do sono. Tem um percurso sinuoso, para

que nada possa entrar, se fosse aberto simples e direto;

provido tambm para que, se algum pequeno animal

tentasse entrar, se fixasse nas ceras dos ouvidos como

em um visgo. Porm fora se elevam aquelas que so

chamadas de orelhas, feitas tanto para reger e proteger

os sentidos, quanto para que os sons lanados no se

dispersem e nem se afastem antes que o sentido tenha

sido alcanado por eles. Mas tm aberturas duras e

quase como chifres e com muitas curvas, pois com esta

natureza, o som trazido amplificado; porque tanto

nas liras, no casco de tartaruga ou no chifre ressoa,

quanto em lugares sinuosos e fechados, os sons se

reproduzem171 mais amplos.

171 Soni referuntur, conforme .

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 167

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[145] Similiter nares, quae semper propter necessarias

utilitates patent, contractiores habent introitus, ne quid

in eas, quod noceat, possit peruadere; umoremque

semper habent ad puluerem multaque alia depellenda

non inutilem. Gustatus praeclare saeptus est; ore enim

continetur et ad usum apte et ad incolumitatis

custodiam. Omnesque sensus hominum multo

antecellunt sensibus bestiarum. Primum enim oculi in

his artibus, quarum iudicium est oculorum, in pictis,

fictis caelatisque formis, in corporum etiam motione

atque gestu multa cernunt subtilius; colorum etiam et

figurarum tum uenustatem atque ordinem et, ut ita

dicam, decentiam oculi iudicant, atque etiam alia

maiora: nam et uirtutes et uitia cognoscunt, iratum,

propitium, laetantem, dolentem, fortem, ignauum,

audacem timidumque cognoscunt.

Similarmente as narinas, que sempre esto abertas por

causa das necessrias utilidades, tm aberturas muito

estreitas, para que nada, que prejudique, possa penetrar

nelas; e tm sempre uma umidade til para expulsar a

poeira e muitas outras coisas. O paladar foi

nitidamente cercado, pois mantido na boca, tanto

para o uso de modo apropriado, quanto para a proteo

da conservao. E todos os sentidos dos homens

superam em muito os sentidos dos animais.

Primeiramente, pois, os olhos nestas artes cujo juzo

prprio dos olhos, nas formas pintadas, esculpidas e

gravadas, tambm no movimento e gesto dos corpos,

distinguem muitas coisas mais sutis; os olhos tambm

julgam tanto a beleza e a ordem das cores e das figuras

quanto, por assim dizer, a formosura, mas tambm

outras coisas mais importantes, pois reconhecem tanto

as virtudes quanto os vcios, reconhecem o irado e o

propcio, o que se alegra, o que se aflige, o forte, o

preguioso, o audaz e o tmido.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 168

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[146] Auriumque item est admirabile quoddam

artificiosumque iudicium, quo iudicatur et in uocis et

in tibiarum neruorumque cantibus uarietas sonorum,

interualla, distinctio, et uocis genera permulta,

canorum, fuscum, leue, asperum, graue, acutum,

flexibile, durum, quae hominum solum auribus

iudicantur. Nariumque item et gustandi et *parte

tangendi172 magna iudicia sunt. Ad quos sensus

capiendos et perfruendos plures etiam, quam uellem,

artes repertae sunt; perspicuum est enim, quo

conpositiones unguentorum, quo ciborum conditiones,

quo corporum lenocinia processerint.

172 : et gustandi pariter et tangendi.

E do mesmo modo prprio dos ouvidos um

admirvel e artificioso juzo, com o qual se julga tanto

nos cantos de vozes quanto nos de flautas e de cordas a

variedade dos sons, os intervalos, a separao e muitos

tipos de vozes, o harmonioso, o velado, o ligeiro, o

spero, o grave, o agudo, o flexvel, o duro, o que

julgado apenas pelos ouvidos dos homens. E do

mesmo modo so prprios dos narizes importantes

juzos, tanto para gostar, quanto igualmente173 para

tocar. Para alcanar e gozar daqueles sentidos, muitas

artes tambm, mais do que eu desejaria, foram

descobertas; , pois, evidente para produzir as

composies dos perfumes, para as preparaes dos

alimentos, para os enfeites dos corpos.

173 Pariter, conforme .

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 169

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[147] Iam uero animum ipsum mentemque hominis,

rationem, consilium, prudentiam qui non diuina cura

perfecta esse perspicit, is his ipsis rebus mihi uidetur

carere. De quo dum disputarem, tuam mihi dari

uellem, Cotta, eloquentiam. Quo enim tu illa modo

diceres, quanta primum intellegentia, deinde

consequentium rerum cum primis coniunctio et

conprehensio esset in nobis; ex quo uidelicet

iudicamus, quid ex quibusque rebus efficiatur, idque

ratione concludimus singulasque res definimus

circumscripteque conplectimur, ex quo scientia

intellegitur, quam uim habeat qualis[que] sit; qua ne in

deo quidem est res ulla praestantior. Quanta uero illa

sunt, quae uos Academici infirmatis et tollitis, quod et

sensibus et animo ea, quae extra sunt, percipimus

atque conprendimus;

J, na verdade, aquele que no percebe que a prpria

alma e a mente, a razo, o conselho, a prudncia do

homem foram criados pelo cuidado divino, este me

parece ser privado destas mesmas coisas. Enquanto

discutia sobre isto, queria que a tua eloquncia me

fosse dada, Cota. Pois deste modo tu dirias isto,

primeiramente quanta compreenso, depois unio e

percepo dos argumentos que se seguem desde o

incio; a partir disso certamente julgamos o que se

demonstra a partir de cada coisa, e conclumos isto

com razo, e definimos cada argumento, e abraamos

de modo preciso; a partir disto se compreende a

cincia, quanta fora tenha e qual seja; nem mesmo em

um deus h alguma coisa melhor do que ela. Quantas

so certamente aquelas coisas que vs, acadmicos,

refutais e destruis, porque tanto com os sentidos,

quanto com a alma percebemos e compreendemos

aquelas coisas que esto fora;

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 170

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[148] ex quibus conlatis inter se et conparatis artes

quoque efficimus partim ad usum uitae, partim ad

oblectationem necessarias. Iam uero domina rerum, ut

uos soletis dicere, eloquendi uis, quam est praeclara

quamque diuina. Quae primum efficit, ut et ea, quae

ignoramus, discere et ea, quae scimus, alios docere

possimus; deinde hac cohortamur, hac persuademus,

hac consolamur adflictos, hac deducimus perterritos a

timore, hac gestientes conprimimus, hac cupiditates

iracundiasque restinguimus; haec nos iuris, legum,

urbium societate deuinxit, haec a uita inmani et fera

segregauit.

do que reunis e comparais entre si, criamos tambm

artes necessrias em parte para o uso da vida, em parte

para a distrao. J, certamente, a fora de falar,

senhora das coisas, como vs costumais dizer, quanto

ilustre e quanto divina. Ela174 primeiramente faz

com que possamos, tanto aprender aquilo que

ignoramos, quanto ensinar aos outros aquilo que

sabemos; depois com ela exortamos, com ela

persuadimos, com ela consolamos os aflitos, com ela

retiramos do temor os que se apavoram, com ela

contemos os que gesticulam violentamente, com ela

extinguimos as paixes e as iras; ela175 nos tem unido

em relao justia, s leis, s cidades em sociedade,

ela tem afastado de uma vida cruel e feroz.

174 Quae. 175 Haec.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 171

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[149] Ad usum autem orationis incredibile est, nisi

diligenter adtenderis176, quanta opera machinata natura

sit. Primum enim a pulmonibus arteria usque ad os

intimum pertinet, per quam uox principium a mente

ducens percipitur et funditur. Deinde in ore sita lingua

est finita dentibus; ea uocem inmoderate profusam

fingit et terminat atque sonos uocis distinctos et

pressos efficit, cum et dentes et alias partes pellit oris;

itaque plectri similem linguam nostri solent dicere,

chordarum dentes, nares cornibus his, quae ad neruos

resonant in cantibus.

176 : nisi diligenter adtenderis (...).

: nisi diligenter attenderis (...).

: si diligenter attenderis (...).

Porm para o uso do discurso incrvel, a no ser que

tenhas prestado ateno diligentemente, quantas obras

a natureza executou. Primeiramente, pois, a traqueia-

artria dos pulmes se estende at o interior da boca,

atravs desta177 a voz, trazendo um princpio a partir

da mente, percebida e se difunde. Depois, na boca foi

colocada a lngua delimitada pelos dentes; ela178 molda

e delimita a voz profusa sem ordem e produz os sons

da voz distintos e precisos, quando tanto os dentes

quanto outras partes da boca toca; desta maneira os

nossos costumam dizer que a lngua semelhante ao

plectro179, os dentes s cordas, os narizes queles

chifres que nos cantos ressoam diante das cordas.

177 Quam. 178 Ea: lngua. 179 Plectrum: vara de marfim com que se tocava a lira.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 172

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[150] Quam uero aptas quamque multarum artium

ministras manus natura homini dedit. Digitorum enim

contractio facilis facilisque porrectio propter molles

commissuras et artus nullo in motu laborat. Itaque ad

pingendum, fingendum180, ad scalpendum, ad

neruorum eliciendos sonos, ad tibiarum181 apta manus

est admotione digitorum. Atque haec oblectationis, illa

necessitatis, cultus dico agrorum extructionesque

tectorum, tegumenta corporum uel texta uel suta

omnemque fabricam aeris et ferri; ex quo intellegitur

ad inuenta animo percepta sensibus adhibitis opificum

manibus omnia nos consecutos, ut tecti, ut uestiti, ut

salui esse possemus, urbes, muros, domicilia, delubra

haberemus.

180 : ad fingendum. 181 : ac tibiarum.

Certamente a natureza tem dado ao homem mos to

aptas e to servidoras de muitas artes. Pois a fcil

contrao e a fcil extenso dos dedos graas s moles

junturas e s articulaes no se esfora em

movimento algum. Assim, com o movimento dos

dedos, a mo est apta para pintar, modelar, para

esculpir, para tirar sons de cordas e de flautas182. E isto

para a distrao, aquilo para a necessidade, digo o

cultivo dos campos e as construes de casas, as

coberturas dos corpos, ou os tecidos, ou as costuras, e

toda a fabricao de bronze e de ferro; a partir disso se

compreende que, para as coisas criadas pela alma,

percebidas pelos sentidos, usadas as mos dos artfices,

ns alcanamos tudo, podemos tanto ser cobertos,

quanto vestidos, como salvos, temos cidades, muros,

domiclios, templos.

182Ac tibiarum, conforme .

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 173

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[151] Iam uero operibus hominum id est manibus cibi

etiam uarietas inuenitur et copia. Nam et agri multa

efferunt manu quaesita, quae uel statim consumantur

uel mandentur condita uetustati, et praeterea uescimur

bestiis et terrenis et aquatilibus et uolantibus partim

capiendo, partim alendo. Efficimus etiam domitu

nostro quadripedum uectiones, quorum celeritas atque

uis nobis ipsis adfert uim et celeritatem. Nos onera

quibusdam bestiis, nos iuga inponimus; nos

elephantorum acutissumis sensibus, nos sagacitate

canum ad utilitatem nostram abutimur; nos e terrae

cauernis ferrum elicimus, rem ad colendos agros

necessariam, nos aeris, argenti, auri uenas penitus

abditas inuenimus et ad usum aptas et ad ornatum

decoras. Arborum autem confectione omnique materia

et culta et siluestri partim ad calficiendum corpus igni

adhibito et ad mitigandum cibum utimur, partim ad

aedificandum, ut tectis saepti frigora caloresque

pellamus.

J, certamente, com os trabalhos dos homens, isto ,

com as mos, tambm criada variedade e abundncia

de alimentos. Pois tambm os campos produzem

muitas coisas colhidas com as mos, que ou

imediatamente se consomem ou se mastigam, tendo-se

conservado por longo tempo, e alm disso nos

nutrimos de animais, tanto terrestres, quanto aquticos,

como que voam, parte caando, parte criando. Com

nossa domesticao, realizamos tambm os transportes

com quadrpedes, cuja rapidez e fora d fora e

rapidez para ns mesmos. Ns pomos os pesos, os

jugos em alguns animais; ns usamos dos perspicazes

sentidos dos elefantes, da sagacidade dos ces para

nossa utilidade; ns extramos o ferro das aberturas da

terra, coisa necessria para cultivar os campos, ns

descobrimos veios plenamente cheios de bronze, de

prata, de ouro, tanto para o uso quanto para decorao.

Porm nos servimos do corte das rvores e de toda

madeira tanto cultivada quanto silvestre, parte para

aquecer o corpo, usando o fogo, e para aquecer o

alimento, parte para construir para que, protegidos

pelos tetos, afastemos o frio e o calor.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 174

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[152] Magnos uero usus adfert ad nauigia facienda,

quorum cursibus subpeditantur omnes undique ad

uitam copiae. Quasque res uiolentissimas natura

genuit, earum moderationem nos soli habemus, maris

atque uentorum, propter nauticarum rerum scientiam,

plurimisque maritimis rebus fruimur atque utimur.

Terrenorum item commodorum omnis est in homine

dominatus: nos campis, nos montibus fruimur, nostri

sunt amnes, nostri lacus, nos fruges serimus, nos

arbores; nos aquarum inductionibus terris fecunditatem

damus, nos flumina arcemus, derigimus, auertimus;

nostris denique manibus in rerum natura quasi alteram

naturam efficere conamur.

Certamente traz grandes utilidades para construir

navios, com cujas navegaes so fornecidos de todas

as partes todos os recursos para a vida. E ns sozinhos

temos o comando daquelas coisas, mares e ventos, que

a natureza criou muito violentas e graas ao

conhecimento das coisas nuticas usufrumos e

usamos de muitas coisas martimas. Todo o domnio

das comodidades terrestres h tambm para o homem:

ns usufrumos dos campos, ns usufrumos dos

montes, nossos so os rios, nossos os lagos, ns

semeamos os gros, ns semeamos as rvores; ns

damos fecundidade a terras com a induo de guas,

ns retemos, dirigimos, desviamos os rios; enfim com

as nossas mos tentamos quase criar outra natureza na

natureza das coisas.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 175

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[153] Quid uero hominum ratio non in caelum usque

penetrauit? Soli enim ex animantibus nos astrorum

ortus, obitus cursusque cognouimus, ab hominum

genere finitus est dies, mensis, annus, defectiones solis

et lunae cognitae praedictaeque in omne posterum

tempus, quae, quantae, quando futurae sint. Quae

contuens animus accedit ad cognitionem deorum, e

qua oritur pietas, cui coniuncta iustitia est reliquaeque

uirtutes, e quibus uita beata exsistit par et similis

deorum, nulla alia re nisi immortalitate, quae nihil ad

bene uiuendum pertinet, cedens caelestibus. Quibus

rebus expositis satis docuisse uideor, hominis natura

quanto omnis anteiret animantes. Ex quo debet

intellegi nec figuram situmque membrorum nec ingenii

mentisque uim talem effici potuisse fortuna.

Por que a razo dos homens no penetrou ainda at o

cu? Pois dos seres animados s ns conhecemos o

nascimento, a morte e o curso dos astros, pelo gnero

dos humano foi determinado o dia, o ms, o ano, os

eclipses do Sol e da Lua, conhecidos e previstos por

todo tempo vindouro, quais, quantos, quando havero

de ocorrer. Examinando isso, a alma chega ao

conhecimento dos deuses, a partir do qual surge a

pietas que est unida justia e a outras virtudes, a

partir das quais a vida beata existe igual e semelhante

dos deuses, em nenhuma outra coisa a no ser na

imortalidade, a que nada chega para se viver bem,

chegando s coisas celestes. Tendo exposto tais coisas,

pareo ter demonstrado suficientemente quanto a

natureza do homem ultrapassa todos os seres

animados. A partir disso deve-se compreender que

nem a forma e a posio dos membros nem tal fora de

inteligncia e da mente podem ter sido criadas pelo

acaso.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 176

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[154] Restat, ut doceam atque aliquando perorem

omnia, quae sint in hoc mundo, quibus utantur

homines, hominum causa facta esse et parata. Principio

ipse mundus deorum hominumque causa factus est,

quaeque in eo sunt, ea parata ad fructum hominum et

inuenta sunt. Est enim mundus quasi communis

deorum atque hominum domus aut urbs utrorumque;

soli enim ratione utentes iure ac lege uiuunt. Vt igitur

Athenas et Lacedaemonem Atheniensium

Lacedaemoniorumque causa putandum est conditas

esse omniaque, quae sint in his urbibus eorum

populorum recte esse dicuntur, sic, quaecumque sunt

in omni mundo, deorum atque hominum putanda sunt.

Resta que ensine e finalmente conclua que todas as

coisas que existem neste mundo, das quais os homens

se servem, tenham sido feitas e preparadas por causa

dos homens. No incio o prprio mundo foi feito por

causa dos deuses e dos homens, e aquelas coisas, que

esto nele, foram preparadas e inventadas para o

proveito dos homens. Pois o mundo por assim dizer a

morada comum dos deuses e dos homens ou a cidade

de ambos; pois ns somos os nicos, que se servem da

razo, vivem segundo o direito e a lei. Como ento se

deve pensar que Atenas e a Lacedemnia foram

fundadas por causa dos atenienses e dos lacedemnios,

e tudo que existe naquelas cidades, dizem seguramente

que so daqueles povos, assim qualquer coisa que

exista em todo o mundo deve ser considerada dos

deuses e dos homens.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 177

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[155] Iam uero circumitus solis et lunae reliquorumque

siderum, quamquam etiam ad mundi cohaerentiam

pertinent, tamen et spectaculum hominibus praebent;

nulla est enim insatiabilior species, nulla pulchrior et

ad rationem sollertiamque praestantior; eorum enim

cursus dimetati maturitates temporum et uarietates

mutationesque cognouimus. Quae si hominibus solis

nota sunt, hominum facta esse causa iudicandum est.

J certamente as rbitas do Sol, e da Lua, e dos outros

astros, ainda que sejam teis tambm para a conexo

do mundo, todavia oferecem tambm um espetculo

aos homens; pois nenhuma aparncia mais

insacivel, nenhuma mais bela e mais extraordinria

para a razo e para o engenho; pois conhecemos o

curso regulado deles, as ordens e as variedades e as

mudanas das estaes. Isso, se foi notado s pelos

homens, deve-se julgar que tenha sido feito por causa

dos homens.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 178

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[156] Terra uero feta frugibus et uario leguminum

genere, quae cum maxuma largitate fundit, ea

ferarumne an hominum causa gignere uidetur? Quid de

uitibus oliuetisque dicam, quarum uberrumi

laetissumique fructus nihil omnino ad bestias

pertinent; neque enim serendi neque colendi nec

tempestiue demetendi percipiendique fructus neque

condendi ac reponendi ulla pecudum scientia est,

earumque omnium rerum hominum est et usus et cura.

A terra certamente, cheia de frutos e de vrios gneros

de legumes, a qual produz com a mxima

generosidade, parece os produzir por causa dos

animais ou por causa dos homens? O que dizer sobre

as videiras e sobre os olivais, cujos frutos muito

abundantes e venturosos absolutamente em nada so

covenientes aos animais; pois no h nenhum

conhecimento nos animais para semear nem cultivar

nem colher oportunamente, nem para recolher os

frutos, nem para guardar e reservar, tanto o uso quanto

a administrao de todas aquelas coisas dos homens.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 179

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[157] Vt fides igitur et tibias eorum causa factas

dicendum est, qui illis uti possent, sic ea, quae dixi, is

solis confitendum est esse parata, qui utuntur, nec, si

quae bestiae furantur aliquid ex is aut rapiunt, illarum

quoque causa ea nata esse dicemus. Neque enim

homines murum aut formicarum causa frumentum

condunt, sed coniugum et liberorum et familiarum

suarum; itaque bestiae furtim ut dixi, fruuntur, domini

palam et libere;

Como, ento, deve-se dizer que a ctara e as flautas

foram feitas por causa daqueles que podem fazer uso

delas, assim deve-se reconhecer que o que eu disse foi

preparado apenas para aqueles que fazem uso, se tais

animais roubam algo deles ou furtam, no diremos que

aquilo foi gerado tambm por causa deles. Pois nem os

homens guardam os cereais por causa dos ratos ou das

formigas, mas dos cnjuges, e dos filhos, e dos seus

familares; assim, como eu disse, os animais usufruem

furtivamente, os senhores clara e abertamente;

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 180

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[158] hominum igitur causa eas rerum copias

comparatas fatendum est. Nisi forte tanta ubertas

uarietasque pomorum eorumque iucundus non gustatus

solum, sed odoratus etiam et aspectus dubitationem

adfert, quin hominibus solis ea natura donauerit.

Tantumque abest, ut haec bestiarum etiam causa parata

sint, ut ipsas bestias hominum gratia generatas esse

uideamus. Quid enim oues aliud adferunt, nisi ut

earum uillis confectis atque contextis homines

uestiantur; quae quidem neque ali neque sustentari

neque ullum fructum edere ex se sine cultu hominum

et curatione potuissent. Canum uero tam fida custodia

tamque amans dominorum adulatio tantumque odium

in externos et tam incredibilis ad inuestigandum

sagacitas narium, tanta alacritas in uenando quid

significat aliud, nisi se ad hominum commoditates esse

generatos.

ento se deve confessar que aquelas abundncias de

coisas foram reunidas por causa dos homens. A no ser

que, por acaso, tanta riqueza e variedade de frutos, e

no s o seu agradvel sabor, mas tambm o odor e o

aspecto, trazem a dvida de que a natureza tenha dado

aquelas coisas apenas aos homens. E tanta coisa

afasta-se de que isto tenho sido preparado tambm por

causa dos animais, pois vemos que os prprios animais

foram gerados por causa dos homens. Que outra coisa,

pois, produzem as ovelhas a no ser para os homens se

vestirem com suas peles preparadas e entrelaadas;

elas certamente nem poderiam se nutrir, nem se

sustentar, nem comer nenhum fruto de si mesma, sem

o cultivo e o cuidado dos homens. Certamente to fiel

proteo dos ces e to amorosa adulao dos donos, e

tamanha averso aos estrangeiros, e to incrvel

agudeza do olfato para investigar, tamanha vivacidade

para caar, que outra coisa revela, seno que tenham

sido criados para a comodidade dos homens.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 181

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[159] Quid de bubus loquar; quorum ipsa terga

declarant non esse se ad onus accipiendum figurata,

ceruices autem natae ad iugum, tum uires umerorum et

latitudines ad aratra * extrahenda. Quibus cum terrae

subigerentur fissione glebarum, ab illo aureo genere, ut

poetae loquuntur, uis nulla umquam adferebatur:

Ferrea tum uero proles exorta repentest

ausaque funestum primast fabricarier183 ensem

et gustare manu iunctum domitumque iuuencum184:

tanta putabatur utilitas percipi e bubus, ut eorum

uisceribus uesci scelus haberetur. Longum est

mulorum persequi utilitates et asinorum, quae certe ad

hominum usum paratae sunt.

183 As edies latinas usam a forma fabricarier para traduzir o

verbo grego : forjaram, fabricaram. 184 Versos transcritos do poema ,de Arato.

O que dizer dos bois, cujos prprios dorsos mostram

que eles no foram concebidos para receber uma carga,

porm os pescoos foram criados para o jugo, ento a

fora e a largura dos ombros para levar os arados. Com

os quais, quando as terras foram submetidas atravs do

cultivo dos solos por aquela raa de ouro, nunca era

feita nenhuma fora, como dizem os poetas:

Ento, certamente, de repente surgiu uma prole frrea

e ousou primeiramente fabricar a funesta espada

e provar um jovem touro atado e domado pela mo.

Tanta utilidade se pensava receber dos bois, de modo

que era considerado crime se alimentar de suas

vsceras. longo enumerar as utilidades das mulas e

dos asnos, que certamente foram preparados para o uso

dos homens.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 182

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[160] Sus uero quid habet praeter escam; cui quidem,

ne putesceret, animam ipsam pro sale datam dicit esse

Chrysippus; qua pecude, quod erat ad uescendum

hominibus apta, nihil genuit natura fecundius. Quid

multitudinem suauitatemque piscium dicam, quid

auium; ex quibus tanta percipitur uoluptas, ut interdum

Pronoea nostra Epicurea fuisse uideatur, atque eae ne

caperentur quidem nisi hominum ratione atque

sollertia; quamquam auis quasdam, et alites et oscines,

ut nostri augures appellant, rerum augurandarum causa

esse natas putamus.

O que verdadeiramente tem o porco alm do alimento;

a ele certamente Crisipo diz que a prpria alma foi

dada por causa do sal para que no se estragasse; a

natureza no produziu nada de mais fecundo do que

este animal, pois fora preparado para alimentar os

homens. O que dizer da quantidade e do sabor

agradvel dos peixes, o que dizer das aves; deles se

retira tanto prazer que algumas vezes a nossa Pronoia

parece ter-se tornado Epicurista, e estas coisas nem

sequer seriam alcanadas seno com a razo e a

habilidade dos homens; ainda que julguemos que

algumas aves, tanto aladas quanto scens185, como os

nossos ugures chamam, tenham sido criadas por

causa das coisas dos augrios.

185 Aves cujo canto servia de pressgio.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 183

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[161] Iam uero immanes et feras beluas nanciscimur

uenando, ut et uescamur is et exerceamur in uenando

ad similitudinem bellicae disciplinae et utamur domitis

et condocefactis, ut elephantis, multaque ex earum

corporibus remedia morbis et uulneribus eligamus,

sicut ex quibusdam stirpibus et herbis, quarum

utilitates longinqui temporis usu et periclitatione

percepimus. Totam licet animis tamquam oculis

lustrare terram mariaque omnia: cernes iam spatia

frugifera atque immensa camporum uestitusque

densissimos montium, pecudum pastus, tum incredibili

cursus maritimos celeritate.

J, certamente, encontramos caando os terrveis e

ferozes animais para que tanto nos alimentemos deles,

quanto nos exercitemos na caa semelhana da arte

blica, como usemos dos domesticados e adestrados,

como os elefantes, e tiremos de seus corpos muitos

remdios para as doenas e feridas, como de algumas

razes e ervas cujas utilidades conhecemos com o uso e

com a experincia de um longo tempo. possvel

examinar toda a terra e todos os mares com os nimos

como com os olhos: vers j os frteis e imensos

espaos dos campos e os muito densos revestimentos

dos montes, os pastos dos animais, alm disso, os

cursos martimos de incrvel rapidez.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 184

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[162] Nec uero supra terram, sed etiam in intumis eius

tenebris plurimarum rerum latet utilitas, quae ad usum

hominum orta ab hominibus solis inuenitur. Illud uero,

quod uterque uestrum arripiet fortasse ad

reprendendum, Cotta, quia Carneades lubenter in

Stoicos inuehebatur, Velleius, quia nihil tam inridet

Epicurus quam praedictionem rerum futurarum, mihi

uidetur uel maxume confirmare deorum prudentia186

consuli rebus humanis. Est enim profecto diuinatio,

quae multis locis, rebus, temporibus apparet cum in

priuatis rebus, tum maxume in publicis:

186 : deorum prouidentia (...).

: deorum prouidentia (...).

Na verdade no s sobre a terra, mas tambm nas suas

mais profundas trevas se enconde a utilidade de muitas

coisas que, criada para uso dos homens, descoberta

pelos homens. Isso certamente que cada um dos vs

talvez atacar para repreender: Cota, porque Carneade

com prazer se lanava contra os estoicos; Veleio,

porque Epicuro no ri de nada tanto quanto da

predio das coisas futuras; parece-me confirmar o

mximo possvel que atravs da prundncia dos deuses

se cuida das coisas humanas. H, pois, certamente uma

divinao que em muitos lugares, coisas, tempos,

mostra-se tanto nas coisas privadas quanto, sobretudo,

nas pblicas:

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 185

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[163] multa cernunt haruspices, multa augures

prouident, multa oraclis declarantur, multa

uaticinationibus, multa somniis, multa portentis;

quibus cognitis multae saepe res [ex] hominum

sententia atque utilitate partae, multa etiam pericula

depulsa sunt. Haec igitur siue uis siue ars siue natura

ad scientiam rerum futurarum homini profecto est nec

ali cuiquam a dis inmortalibus data. Quae si singula

uos forte non mouent, uniuersa certe tamen inter se

conexa atque coniuncta mouere debebant.

muitas coisas veem os arspices, muitas preveem os

ugures, muitas so declaradas pelos orculos, muitas

por vaticnios, muitas por sonhos, muitas por

pressgios; conhecido isso187, muitas coisas criadas188

sempre foram afastadas dos homens pela opinio e

pela utilidade, tambm muitos perigos. Ento ou esta

fora, ou a arte, ou a natureza para a cincia das coisas

futuras certamente foi dada ao homem, no a algum

outro, pelos deuses imortais. Cada uma destas coisas

se por acaso no vos move, porm certamente deviam

mover tudo ligado e unido entre si.

187 Quibus cognitis. 188 Partae.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 186

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[164] Nec uero uniuerso generi hominum solum, sed

etiam singulis a dis immortalibus consuli et prouideri

solet. Licet enim contrahere uniuersitatem generis

humani eamque gradatim ad pauciores, postremo

deducere ad singulos. Nam si omnibus hominibus, qui

ubique sunt quacumque in ora ac parte terrarum ab

huiusce terrae, quam nos incolimus, continuatione

distantium, deos consulere censemus ob has causas,

quas ante diximus, his quoque hominibus consulunt,

qui has nobiscum terras ab oriente ad occidentem

colunt.

Certamente no s a todo o gnero humano, mas

tambm a cada um costuma ser cuidado e provido

pelos deuses imortais. Pois possvel reunir a

totalidade do gnero humano e diminu-la

gradativamente a um pequeno nmero, finalmente a

um s. Pois se a todos os homens que esto por toda

parte, em qualquer regio e em parte das terras

distantes das redondezas desta terra, que ns

habitamos, pensamos que os deuses cuidam destas

causas, que dissemos antes, cuidam tambm destes

homens, que habitam conosco estas terras do oriente

ao ocidente.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 187

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[165] Sin autem consulunt, qui quasi magnam

quandam insulam incolunt, quam nos orbem terrae

uocamus, etiam illis consulunt, qui partes eius insulae

tenent, Europam, Asiam, Africam. Ergo et earum

partes diligunt, ut Romam, Athenas, Spartam,

Rhodum, et earum urbium separatim ab uniuersis

singulos diligunt, ut Pyrrhi bello Curium, Fabricium,

Coruncanium, primo Punico Calatinum, Duellium,

Metellum, Lutatium, secundo Maxumum, Marcellum,

Africanum, post hos Paulum, Gracchum, Catonem,

patrumue memoria Scipionem, Laelium; multosque

praeterea et nostra ciuitas et Graecia tulit singulares

uiros, quorum neminem nisi iuuante deo talem fuisse

credendum est.

Mas se cuidam, aqueles que habitam, por assim dizer,

uma grande ilha que ns chamamos de globo terrestre,

cuidam tambm daqueles que tm partes daquela ilha:

Europa, sia, frica. Ento, estimam tanto as suas

partes como Roma, Atenas, Esparta, Rodes, quanto

estimam geralmente cada um daquelas cidades sem

exceo, como na guerra de Pirro: Crio, Fabrcio,

Coruncnio; na primeira guerra Pnica: Calatino,

Dulio, Metelo, Lutcio; na segunda: Mximo;

Marcelo, o Africano; depois destes: Paulo, Graco,

Cato; ou na memria dos pais: Cipio, Lalio; alm

disso, tanto a nossa cidade, quanto a Grcia trouxe

muitos homens extraordinrios, nenhum deles deve se

julgar ter sido to importante, exceto o ajudando um

deus.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 188

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[166] Quae ratio poetas maxumeque Homerum inpulit,

ut principibus heroum, Vlixi, Diomedi, Agamemnoni,

Achilli certos deos discriminum et periculorum

comites adiungeret. Praeterea ipsorum deorum saepe

praesentiae, quales supra commemoraui, declarant ab

is et [in] ciuitatibus189 et singulis hominibus consuli;

quod quidem intellegitur etiam significationibus rerum

futurarum, quae tum dormientibus, tum uigilantibus

portenduntur; multa praeterea ostentis, multa in extis

admonemur multisque rebus aliis, quas diuturnus usus

ita notauit, ut artem diuinationis efficeret.

189 : et ciuitatibus.

Tal razo induziu os poetas e, sobretudo, Homero, a

que juntasse aos principais dos heris, Ulisses,

Diomedes, Agammnon, Aquiles, certos deuses

companheiros de riscos e de perigos. Alm disso,

sempre as presenas dos prprios deuses, tais como

falei acima, declaram que por eles se cuida tanto das

cidades190 quanto de cada homem; o que certamente se

compreende tambm sobre os sinais das coisas futuras,

que so anunciadas, ora aos que dormem, ora aos que

esto acordados; alm disso, muitas coisas por

pressgios, muitas nas vsceras e somos aconselhados

por muitas outras coisas, que o uso contnuo assim tem

mostrado, de modo que se criasse a arte da divinao.

190 Conforme .

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 189

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[167] Nemo igitur uir magnus sine aliquo adflatu

diuino umquam fuit. Nec uero ita refellendum est, ut,

si segetibus aut uinetis cuiuspiam tempestas nocuerit

aut si quid e uitae commodis casus abstulerit, eum, cui

quid horum acciderit, aut inuisum deo aut neglectum a

deo iudicemus. Magna di curant, parua neglegunt.

Magnis autem uiris prosperae semper omnes res,

siquidem satis a nostris et a principe philosophiae

Socrate dictum est de ubertatibus uirtutis et copiis.

Ento ningum nunca foi um grande homem sem

alguma inspirao divina. Nem certamente deve ser

refutado assim, como se uma tempestade prejudicasse

a terra semeada ou os vinhedos de algum, ou se o

acaso tirasse algo da comodidade da vida, julguemos

aquele191, a quem uma dessas coisas ocorreu, ou foi

desagradvel ao deus, ou abandonado pelo deus. Os

deuses cuidam das grandes coisas, abandonam as

pequenas. Porm aos grandes homens sempre todas as

coisas so prsperas, visto que satisfatoriamente foi

dito pelos nossos e pelo prncipe192 da filosofia

Scrates sobre o proveito da virtude e sobre a

abundncia.

191 Eum. 192 Princeps: o que vem frente, o primeiro, o mais importante.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 190

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

[168] Haec mihi fere in mentem ueniebant, quae

dicenda putarem de natura deorum. Tu autem, Cotta, si

me audias, eandem causam agas teque et principem

ciuem et pontificem esse cogites et, quoniam in

utramque partem uobis licet disputare, hanc potius

sumas eamque facultatem disserendi, quam tibi a

rhetoricis exercitationibus acceptam amplificauit

Academia, potius huc conferas. Mala enim et impia

consuetudo est contra deos disputandi, siue ex animo

id fit siue simulate.

Chegavam-me mente geralmente aquelas coisas que

eu pensava que devem ser ditas sobre a natureza dos

deuses. Porm tu, Cota, se me ouves, defende o mesmo

argumento e pensa que tu s tanto um importante

cidado quanto um pontfice como, j que vos

permitido discutir ambas as partes, assume de

preferncia esta e aquela faculdade de discutir que,

recebida por ti de exerccios retricos, a Acadmia

ampliou, traze aqui apressadamente. H, pois, um

hbito mal e mpio de discorrer contra os deuses, o que

se faz ou verdadeira ou dissimuladamente.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 191

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

Das Constelaes193

193 Imagens retiradas de Uranografia, vide Referncias.

D a N a t u r e z a d o s D e u s e s I I ( D e N a t u r a D e o r u m L i b e r I I ) | 192

ISBN 978-85-463-0295-6 SUMRIO

Referncias

Cicero, M. Tullius. De Natura Deorum. O. Plasberg. Leipzig. Teubner. 1917.

Cicerone. La Natura Divina; a cura de Cesare Marco Calcante, texto latino a fronte. 6.ed. Milano: BUR, 2007.

M. Tulli Ciceronis. De Natura Deorum, Libri Tres; cum notis integris Paulli Manucii, Petri Victorii, Joachimi

Camerarii et alii. Editio secunda. Cantabrigiae: typis academicis, MDCCXXIII.

M. Tullio Cicerone. De Natura Deorum; texto, costruzione versione letterale e note. 3.ed. Roma: Societ Editrice

Dante Alighieri, 1984.

Mouro, Ronaldo Rogrio de Freitas. Uranografia: descrio do cu com mapas e desenhos do autor. Rio de Janeiro:

Francisco Alves, 1989.

Recommended

View more >