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Introduo experincia intelectual de Theodor Adorno

Curso Introduo experincia intelectual de Theodor Adorno

14 aulas

Primeiro semestre de 2013

Professor: Vladimir Safatle

Ministrado no Departamento de Filosofia

Universidade de So Paulo

Para introduzir a experincia intelectual de Theodor AdornoAula 1

Ao final de um dia de esperana brutal e de profunda depresso: eu estava ao ar livre, sob um cu de escurido indescritvel e furiosamente carregado. Ele portava a expresso de uma catstrofe iminente. De repente, uma luz, como um relmpago, aparece em um ponto e desaparece rapidamente abaixo ou acima das nuvens. Digo: a tempestade, e algum me confirma. Segue um longo barulho indescritvel, mais prximo de uma exploso do que de um trovo; no acontece nada mais do que isto. Pergunto: tudo? e isto tambm me foi confirmado. Ainda sob grande emoo, mas ao mesmo tempo tranqilizado, acordo. Estvamos no meio da noite. Retomei tranquilamente meu sono.

Adorno tinha o hbito de anotar alguns de seus sonhos. Este um deles, datado de 24 de janeiro de 1956. A sua maneira, ele descreve algo de fundamental na experincia intelectual deste que , sem dvida, um dos filsofos mais importantes do sculo XX. Gilles Deleuze tinha o hbito de afirmar que o verdadeiro pensamento era sempre solidrio de um acontecimento que nos fora a pensar, algo que tem a fora de nos retirar do solo seguro do senso comum a fim de nos levar confrontao com o que no se submete aos esquemas categorias que colonizam nossa linguagem ordinria. No seria difcil mostrar como esta concepo do pensar como resposta ao choque do acontecimento est na raiz da experincia intelectual adorniana.

Neste sonho, h um choque. Na verdade, um choque que aqui no deixa de se servir da figura romntica da potncia colossal da natureza, fora monumental capaz de colocar o pensar diante do que produz uma certa violncia contra o poder esquematizador da imaginao. A contemplao da tempestade furiosa, portadora de escurido indescritvel e de um longo barulho aterrador sem forma uma figura privilegiada que encontramos quando Kant fala do sublime dinmico da natureza. Fora sublime que, ao ser contemplada de um ponto seguro, nos faz descobrir uma potncia de resistncia (Vermgen zu widerstehen) capaz de elevar as foras da alma (Seelenstrke) para alm da onipotncia aparente da natureza (scheinbaren Allgewalt der Natur). Pergunto: tudo?, diz Adorno; um pouco como quem diz: ento posso me colocar diante de tal fora sem me destruir!? No deixa de ser desprovido de interesse lembrar aqui desta passagem da Odissia, to cara a Adorno, onde Ulisses pede a seus marinheiros que o atem ao mastro de seu navio para que ele possa ouvir o canto das sereias sem com isto deixar-se afogar em busca da beleza. Como se o verdadeiro pensar fosse isto: uma aproximao arriscada com o que parece ter a fora de nos destruir, de destruir uma certa imagem do que o homem :

As aventuras de que Ulisses sai vitorioso so todas elas perigosas sedues que desviam o Eu da trajetria de sua lgica. Ele cede sempre a cada nova seduo, experimenta-a como um aprendiz incorrigvel e at mesmo, s vezes, impelido por uma tola curiosidade, assim como um ator experimenta insaciavelmente os seus papis. Mas onde h perigo, cresce tambm a salvao: o saber em que consiste sua identidade e que lhe possibilita sobreviver tira sua substncia da experincia de tudo aquilo que mltiplo, que desvia, que dissolve, e o sobrevivente sbio ao mesmo tempo aquele que se expe mais audaciosamente ameaa da morte, na qual se torna duro e forte para a vida.Digamos pois que vale para Adorno aquilo que ele mesmo escreveu sobre Ulisses: a verdadeira experincia (e que no poderia deixar de dizer respeito tambm a toda experincia filosfica verdadeira) a experincia do sobrevivente, deste que se expe mais audaciosamente a uma certa forma de ameaa. Experincia daquele que ainda sob grande emoo, mas ao mesmo tempo tranqilizado pode retomar seu sono porque sabe que o sono no ser mais fundado sob o esforo obsessivo em tentar calar um saber a respeito do qual nos seria insuportvel assumir. A filosofia e seus exteriores

Estas colocaes iniciais podem ser teis para balizar uma discusso sobre o sentido do que poderamos chamar de experincia intelectual ou, mais propriamente, de experincia filosfica (philosophischer Erfahrung): termo que ser objeto maior da Introduo Dialtica negativa; talvez o livro mais importante de Adorno, juntamente com a Teoria esttica. Pois devemos comear dizendo que uma experincia filosfica a modulao incessante e rigorosa de uma nica questo desdobrada em todas as suas conseqncias. Faamos nossa a afirmao de Deleuze: Na verdade, uma teoria filosfica uma questo desenvolvida e nada mais que isto: por ela mesma, nela mesma, ela consiste, no em resolver um problema, mas em desenvolver at o fim as implicaes necessrias de uma questo formulada. Ou seja, cada filosofia animada por uma forma de questo capaz de gerar tanto uma srie determinada de problemas quanto uma dimenso de pressupostos tacitamente implcitos e no-problematizados que fornece o campo de enunciao de uma problemtica filosfica. Por trs de seus inumerveis desenvolvimentos e escritos, um filsofo no fundo sempre trabalha uma s questo.

Esta questo, por sua vez, pode ser avaliada. Ela pode ser boa ou m, o que indica que ela passvel de qualificao. Podemos fornecer uma proposio provisria a afirmar que uma questo filosfica ser boa ou m quando mensurada ao contedo de verdade do acontecimento que a gera. Toda questo filosfica necessariamente vinculada a um acontecimento histrico, ela a ressonncia filosfica de um acontecimento. Assim, a filosofia cartesiana solidria do impacto filosfico da fsica moderna. A filosofia hegeliana, por sua vez, pode ser vista como fruto das aspiraes emancipadoras da Revoluo Francesa. Mas, e a filosofia adorniana? Qual a questo e qual o acontecimento que geram a filosofia adorniana?

Antes de responder tais perguntas, vale a pena lembrar como o problema da unidade da experincia filosfica adorniana guarda dificuldades suplementares. Pois poucos foram os filsofos do sculo XX que se aplicaram de maneira to sistemtica em embaralhar os limites da filosofia como disciplina universitria. Uma rpida passada de olhos por suas Obras completas indica uma configurao extremamente peculiar. De vinte volumes, oito dizem respeito a textos sobre esttica musical, dois sobre crtica cultural e literatura, dois estritamente sobre sociologia. Esta aparente disperso de interesse j foi objeto de vrias tentativas em privilegiar certos momentos da experincia intelectual adorniana afirmando, por exemplo, que os textos filosficos tm predominncia em relao aos textos musicais, que a guinada sociolgica teria permitido Teoria Crtica instalar-se em um para alm da filosofia, entre outras interpretaes inumerveis.

De minha parte, gostaria de partilhar um postulado fundamental de leitura: uma verdadeira experincia filosfica radicalmente una na multiplicidade de suas vozes. Neste sentido, absolutamente incorreto ler um filsofo da mesma maneira que um aougueiro olha para um boi, ou seja, pensando inicialmente em como separar as partes e quebrar as juntas. Devemos l-lo respeitando a necessidade de todos os seus momentos, perguntando-se pelas articulaes internas entre textos que parecem pertencer a reas to diversas entre si quanto podem ser, no caso de Adorno, a pesquisa social emprica, a esttica musical, a reflexo sobre a tradio filosfica, a crtica literria, o estudo das mdias e a sociologia das idias.

Este um ponto importante se quisermos levar em conta o regime de recepo do pensamento de Adorno no Brasil. Data do comeo dos anos setenta o comeo do interesse pela Escola de Frankfurt no Brasil. Colaborou para isto a tradio marxista solidamente implantada na universidade brasileira e a acolhida restrita que o marxismo francs de Althusser teve entre ns. A Escola de Frankfurt aparecia como uma corrente no dogmtica do marxismo ocidental, com larga fora de influncia no campo da crtica da cultura e da anlise das sociedades do capitalismo tardio. Por outro lado, tal recepo ocorreu no momento em que a universidade brasileira passava pela constituio de suas estruturas de mestrado e doutorado. Como resultado, alguns campos de saberes, como os estudos de comunicao, institucionalizaram-se ao mesmo tempo que a Escola de Frankfurt fazia sua entrada no meio universitrio. Desta forma, ela se transformou rapidamente em referncia importante para a vida acadmica nacional.

No entanto, a disponibilizao dos textos de Adorno para o pblico brasileiro ainda limitada. Alm da ausncia de tradues de obras centrais, como a A personalidade autoritria, Jargo da autenticidade, Trs ensaios sobre Hegel, Para uma metacrtica da teoria do conhecimento, devemos lembrar que a quase totalidade dos textos e monografias sobre msica at hoje no foram traduzidos. Isto tende a produzir uma recepo que acaba por privilegiar certos momentos e questes devido, entre outras coisas, dificuldade de acesso a certas partes da produo adorniana. Por outro lado, estudar algum como Adorno, cuja multiplicidade de campos de anlise est articulada, de maneira peculiar, em um projeto comum, exige a reconstruo sistemtica de tal articulao, sob a pena de ignorarmos, por exemplo, como a esttica musical pode fornecer resposta para problemas que aparecem pela primeira vez nos textos de filosofia, como a teoria social organiza previamente o campo de intelegibilidade que ser colocado em operao na crtica literria, etc.

Tal caracterstica nos coloca diante de uma questo de mtodo da mais alta importncia. Pois possvel que Adorno nos mostre como h certas questes em filosofia que s podem ser abordadas de maneira adequada a partir do momento que somos capazes de forar a sistematicidade do discurso filosfico, a partir do momento que obrigamos tal discurso a deparar-se continuam