cultura do estupro e machismo na índia em globalização

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  • SUR 22 - v.12 n.22 263 - 267 | 2015

    PALAVRAS-CHAVECapitalismo | Feminismo | ndia | Indias Daughter | Sexismo | Direitos das mulheres

    RESUMO

    Aps o estupro coletivo de uma mulher em Nova Dli em 2012, o centro das atenes se voltou aos direitos das mulheres na ndia. Um documentrio da BBC de 2014 reascendeu o debate, uma vez que este - e grande parte do debate internacional - rapidamente inferiu que esse ato violento e de dio contra as mulheres era uma expresso da cultura e tradio indiana. Neste artigo, a autora argumenta que essa explicao incorreta. Ao invs disso, Kavita Krishnan sugere que existem foras contemporneas mais complexas em jogo que operam ativamente para manter o papel subordinado da mulher na sociedade - especificamente, a casta, a poltica e o capitalismo.

    CULTURA DO ESTUPRO E MACHISMO NA NDIA EM GLOBALIZAO

    Kavita Krishnan

    Como a poltica, economia e ideologia de castas influenciam os direitos das mulheres na ndia

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  • Sur - Revista Internacional de Direitos Humanos

    CULTURA DO ESTUPRO E MACHISMO NA NDIA EM GLOBALIZAO

    Na ndia e no Ocidente, h uma tendncia de interpretar a violncia de gnero e a misoginia (dio contra as mulheres) na ndia como uma expresso cultural e de tradio. Esta uma forma imprecisa e distorcida para analisar a violncia de gnero e a misoginia.

    Em uma entrevista no documentrio de 2015, Indias daughter (Filha da ndia, em portugus), dirigido por Leslie Udwin, Mukesh Singh, um dos homens condenados pelo estupro coletivo e assassinato ocorrido em 16 de dezembro de 2012 em Nova Dli, justifica o estupro alegando que a vtima tinha ultrapassado os limites dos papis de gnero estabelecidos e da moralidade feminina. Seu advogado reproduziu os mesmos argumentos de responsabilizao da vtima, alardeando que queimaria sua filha viva se ela se comportasse de uma forma desonrosa. Essas entrevistas foram amplamente condenadas ao redor do mundo como expresses de uma cultura violenta e atrasada de estupros e crimes de honra. O filme em si explica tais atitudes como produtos da pobreza, privao e de uma cultura de privilgio masculino na ndia.

    Mukesh Singh e seu advogado Manohar Lal Sharma invocam a cultura indiana como fonte de seus argumentos de responsabilizao das vtimas. Uma srie de outras pessoas influentes e com autoridade na ndia, incluindo membros do parlamento e assembleias legislativas, lderes da direita poltica Hindu, representantes da maioria das religies e seitas, policiais e, at mesmo, a responsvel pela comisso nacional das mulheres, tambm expressaram opinies muito semelhantes quelas expressas pelo condenado pelo estupro e por seu advogado.1 E todas elas, sem exceo, invocaram a cultura indiana como fundamento de suas opinies, culpando a influncia ocidental pelo estupro.

    Apesar de suas afirmaes, seus comentrios de responsabilizao das vtimas no so uma expresso direta de uma cultura indiana ou tradio.

    Quando os polticos e outras personalidades influentes buscam definir a cultura indiana em termos de tradies misginas, eles no esto se referindo a uma cultura pr-existente, esto tentando criar e dar forma a tal cultura. um mito proferido para fins polticos.

    Os crimes de honra (as feministas preferem o termo assassinatos de custdia), especialmente o assassinato de mulheres e seus amantes ou maridos, so, muitas vezes, defendidos invocando a tradio. No entanto, a tradio dos assassinatos punitivos de casais que escolheram seus cnjuges autonomamente, na verdade, no um mero vestgio de uma tradio antiquada.

    Por exemplo, no estado Haryana na ndia, os denominados assassinatos de honra - ordenados por khaps (cls de castas dominantes) - so um fenmeno moderno. Eles so uma tentativa dos lderes do cl, que so proprietrios de terras, de invocar a tradio, a fim de manter o controle sobre a terra, propriedade, assim como da hegemonia poltica. Tal controle est sob presso por questionamentos feitos pelas castas oprimidas, bem como pelas mulheres jovens que esto fazendo reivindicaes por terras e propriedades.

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  • VOZESKAVITA KRISHNAN

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    Tradio e cultura so invocadas pelas classes polticas no poder para consolidar o apoio das classes dominantes, castas e religies. Mas tambm so invocadas para criar uma unidade fictcia entre homens em todas as classes. A diviso de classes entre a seo poderosa que detm propriedades e fbricas, e da classe trabalhadora sem-terra, disfarada por uma unidade da identidade de cl/casta. E uma das maneiras mais poderosas na qual essa identidade forjada pela noo de uma honra compartilhada baseada no controle sobre as irms e filhas.

    Portanto, uma cultura misgina no esttica e imutvel. Ela determinada por inquietaes modernas e motivos econmicos, sociais e polticos. A cultura indiana invocada aqui , portanto, um mito, narrado para unir a classe trabalhadora e homens sem-terra aos proprietrios de terras e capitalistas.

    O que precisamos questionar no Por que a cultura indiana to brutal com as mulheres e por que a ndia defende o estupro e assassinatos de honra, mas sim para os interesses de quem, e por meio de quais processos, uma cultura indiana est sendo produzida, uma cultura que, simultaneamente, culpa as mulheres pelos estupros, e justifica o controle e a negao da autonomia das mulheres em nome da proteo contra o estupro? Por que, na ndia (e tambm no resto do mundo), estamos observando pronunciamentos em voz alta de responsabilizao das vtimas e da cultura do estupro por parte de polticos influentes?

    O capitalismo precisa inserir as mulheres na fora de trabalho como mo de obra barata, mal remunerada, e tambm precisa do trabalho domstico no remunerado das mulheres para arcar com o nus da reproduo social (ter filhos, reabastecer diariamente a fora de trabalho, dando alimentos, cuidados e conforto psicolgico para o trabalhador esgotado, e cuidar do passado e futuro da fora de trabalho - crianas e idosos).

    Desta forma, a atual onda de machismo e da cultura de justificao do estupro e domnio sobre as mulheres na ndia, melhor explicada como um meio de disciplinar o trabalho das mulheres em uma economia capitalista neoliberal, e no como um mero vestgio de uma cultura atrasada.

    No final dos anos 80, a classe dominante indiana imps polticas econmicas neoliberais (popularmente chamadas de LPG - Liberalizao, Privatizao, Globalizao) na ndia.2 Os governantes alegaram, e ainda alegam, que essas polticas iriam tirar a ndia da pobreza, criar empregos e fortalecer as mulheres.

    Nas ltimas dcadas, vm crescendo o nmero de mulheres que buscam trabalho remunerado na ndia. No entanto, as taxas de participao feminina nos locais de trabalho ainda so baixas, e as mulheres ainda so majoritariamente empregadas nos chamados trabalhos 3-D (Dirty, Dangerous, Demeaning em ingls), isto , insalubres, perigosos e degradantes. Ao mesmo tempo em que as mulheres esto sendo incorporadas ao trabalho assalariado explorador, elas tambm so instadas a aguentar maiores cargas de trabalho domstico.

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    Ento, no so apenas as famlias opressoras que buscam manter as mulheres nesses papis. Os mesmos processos do capitalismo e da globalizao que buscam incorporar as mulheres ao trabalho assalariado, tambm buscam manter as mulheres em seus papis domsticos preservando a reproduo social.

    Atualmente, as ideologias da domesticidade e da famlia indiana esto sob tenso na ndia, graas s mulheres que esto sendo incorporadas ao trabalho assalariado e crescente afirmao da autonomia das mulheres em seus lares natais e matrimoniais. No entanto, esas ideologias continuam a ser invocadas pelo governo, bem como pelos proprietrios de fbricas que trabalham para o capital internacional.

    A ideologia de gnero, famlia e cultura nacional/religiosa invocada nas narrativas polticas, econmicas e sociais contemporneas na ndia para justificar divises de gnero, casta, classe e religiosas. por isso que a luta contra a violncia de casta, gnero e comunitria na ndia no pode ser apenas uma luta contra uma cultura atrasada ou mentalidades retrgradas, como ela popularmente entendida na grande mdia na ndia e no Ocidente. Essas batalhas, juntamente com as dos trabalhadores e camponeses na ndia, precisam se integrar umas com as outras e enfrentar o capitalismo e as polticas neoliberais; e batalhas tero de ser travadas em conjunto, para a liberdade e autonomia nos meios rurais, nas fbricas e nas famlias.

    1 Sahil Rizwan, 18 Comments Glorifying Rape

    That Have Been Broadcast In India, Buzzfeed, 4 de

    maro de 2015, acesso em 10 jul. 2015, http://www.

    buzzfeed.com/sahilrizwan/the-r-word#.fuAwvWxo1.

    2 C.P. Chandrasekhar and Jayati Ghosh, The Indian

    economic reform process and the implications

    of the Southeast Asian crisis, International Labor

    Organization 1999, acesso em 10 jul. 2015, http://

    www.oit.org/wcmsp5/groups/public/@ed_emp/

    documents/publication/wcms_120391.pdf.

    NOTAS

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  • VOZESKAVITA KRISHNAN

    SUR 22 - v.12 n.22 263 - 267 | 2015

    Este artigo publicado sob a licena de Creative Commons Noncommercial

    Attribution-Share Alike 4.0 International License

    KAVITA KRISHNAN ndiaKavita Krishnan Secretria-Executiva da All India Progressive Womens Association (AIPWA, na sigla original em ingls). Ela membro do comit executivo do Partido Comunista (Marxista-Leninista) da ndia (CPI-ML, na sigla em ingls), no qual tambm trabalha como editora da Liberation, uma publicao mensal do partido. Kavita uma ativista feminista que tem difundido o problema da violncia contra as mulheres aps o estupro coletivo que ocorreu em Nova Dli em 2012.

    contato: kavitakrish73@gmail.com

    Recebido em maio de 2015.Original em Ingls. Traduzido por Fernando Scir.

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