Cuidado com as Velhinhas Carentes e Solitárias

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Nas peas que compem esta coletnea, Mati Visniec consegue, com o tom casual de uma conversa cotidiana, tratar dos mais importantes temas que dizem respeito condio humana: o sentido da vida e da morte, o valor das coisas e das pessoas, a tenso entre indivduo e sociedade. Organizadas em trs grupos Fronteiras, Agorafobias e Deserto , as peas surpreendem por seus desfechos inusitados e pela riqueza de imagens criadas: um fuzil empunhado como um violo; uma sentinela que reduz um humano a um "documento vlido"; um curso prtico de mendicncia; um homem esquecido numa estao de trem abandonada; e outras cenas improvveis. Nestas peas curtas, Visniec nos chama a ateno para o inslito do cotidiano que insistimos em ignorar. Um livro que faz sorrir pensando e pensar sorrindo.

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<ul><li><p>MA</p><p>TI</p><p>VISN</p><p>IECCo leo Dramaturg ia</p></li><li><p>Impresso no Brasil, outubro de 2012</p><p>Ttulo original: Attention aux vieilles dames ronges par la solitudeCopyright Lansman Editeur</p><p>Os direitos desta edio pertencem a Realizaes Editora, Livraria e Distribuidora Ltda.Caixa Postal: 45321 04010 970 So Paulo SPTelefax: (5511) 5572 5363e@erealizacoes.com.br www.erealizacoes.com.br</p><p>Editor Edson Manoel de Oliveira Filho</p><p>Gerente editorial Juliana Rodrigues de Queiroz</p><p>Produo editorial Liliana Cruz William C. Cruz</p><p>Capa e projeto grfico Mauricio Nisi Gonalves / Estdio </p><p>Preparao de texto Marcio Honorio de Godoy</p><p>Reviso Danielle Mendes Sales</p><p>Pr-impresso e impresso Grfica Vida &amp; Conscincia</p><p>Reservados todos os direitos desta obra. Proibida toda e qualquer reproduo desta edio por qualquer meio ou forma, seja ela ele-trnica ou mecnica, fotocpia, gravao ou qualquer outro meio de reproduo, sem permisso expressa do editor.</p></li><li><p>TRADUO: LUIZA JATOB</p><p>Cuidado com as Ve lh i nhasCARENTES </p><p>E SOL ITR IAS</p><p>MATI Visniec</p><p>Teatro da ternura e da loucura cotidianas</p></li><li><p>FRONTEIRAS | 9</p><p>AGORAFOBIAS | 55</p><p>DESERTO | 87</p><p>SUM</p><p>RIO</p></li><li><p>Esta coletnea composta de peas curtas reagrupadas em </p><p>trs temas:</p><p>I. Fronteiras </p><p> Pense que Voc Deus </p><p> Espere o Caloro Passar </p><p> A Blasfmia </p><p> A Volta para Casa</p><p>II. Agorafobias </p><p> Cuidado com as Velhinhas Carentes e Solitrias </p><p> A Ferida </p><p> O Pas Est Consternado </p><p> A Mquina de Pagar Contas </p><p> Aqui Estamos com Milhares de Ces Vindos do Mar</p><p>III. Deserto </p><p> A Alma na Carrocinha </p><p> Carona </p><p> Sanduche de Frango </p><p> No Sou Mais Sua Coelhinha </p><p> Um Caf Longo, um Pouco de Leite Separado e um </p><p> Copo Dgua </p><p> A Grande Ressaca</p><p>O autor deixa aos diretores o cuidado de escolherem e or-</p><p>ganizarem as cenas em funo de suas prprias opes dra-</p><p>matrgicas.</p><p>O primeiro espetculo baseado em alguns textos desta cole-</p><p>tnea foi criado no Teatro Le Ring dAvignon, em maro de </p><p>2004, pela Companhia SALIERI-PAGES, numa encenao </p><p>de Marie Pags. Com Estelle Galarme, Laetitia Mazzoleni, </p><p>Olivier Ranger e Benot Thevenoz.</p></li><li><p>FRON</p><p>TEIR</p><p>AS</p></li><li><p>cuidado com as velhinhas carentes e solitrias | 11 | mati visniec</p><p>PENSE QUE VOC DEUS </p><p>Stanko, muito jovem, por volta de 17 anos, e Vibko, um pouco mais velho. Esto escondidos atrs de uma parede.</p><p>VIBKO: Voc est gripado?</p><p>STANKO: No...</p><p>VIBKO: Voc est todo vermelho. Voc est com frio?</p><p>STANKO: No</p><p>VIBKO: Voc no tem um casaco comprido, alguma coi-sa mais quente?</p><p>STANKO: Tenho.</p><p>VIBKO: Olha aqui Eu sempre trago meu casaco Mesmo quando est quente Voc est vindo de onde?</p><p>STANKO: Venho de Krikov. </p><p>VIBKO: Onde isso?</p><p>STANKO: No muito longe daqui.</p><p>1</p></li><li><p>coleo dramaturgia | 12 | mati visniec cuidado com as velhinhas carentes e solitrias | 13 | mati visniec</p><p>VIBKO: Voc precisa estar mais equipado. Pense que tem momentos em que a gente pode ficar preso num esconderijo durante horas e horas E at dias. Se voc no estiver bem agasalhado, est ferrado. Est acom-panhando meu raciocnio?</p><p>STANKO: Estou.</p><p>VIBKO: No banque o Rambo. Se voc quer fazer um bom trabalho, tem que estar equipado. Aqui , pegue essas luvas. </p><p>STANKO: Mas eu no estou com frio.</p><p>VIBKO: Ponha as luvas, estou falando. Voc tem que proteger seus dedos. As mos so muito importantes.</p><p>STANKO: Obrigado.</p><p>VIBKO: Mais do que qualquer coisa, voc tem que rela-xar No tenha medo Se ficar com medo, voc est ferrado. Voc est medo?</p><p>STANKO (um pouco ansioso): No.</p><p>VIBKO: Deixe eu ver os seus dedos. (Ele olha os dedos de Stanko.) Voc est tremendo um pouco.</p><p>STANKO: Isso no nada, isso passa...</p><p>VIBKO: Seus dedos esto midos. Voc precisa ficar tranquilo e bem agasalhado, mais do que qualquer coisa. Aqui. Pega um cigarro. Sempre acalma.</p><p>STANKO: Tudo bem, mas eu no fumo</p><p>VIBKO: Ah! mesmo? Que idade voc tem mesmo?</p></li><li><p>cuidado com as velhinhas carentes e solitrias | 13 | mati visniec</p><p>STANKO: Dezessete.</p><p>VIBKO: E na escola, voc nunca provou?</p><p>STANKO: Provei, sim, mas toda vez eu vomito.</p><p>VIBKO: Bem, no tem importncia. Voc quer uma lati-nha de cerveja?</p><p>STANKO: Isso sim</p><p>(Vibko abre duas latinhas de cerveja. Os dois bebem.)</p><p>VIBKO: Assim est melhor?</p><p>STANKO: Sim.</p><p>VIBKO: Voc j comeu alguma coisa hoje?</p><p>STANKO: De manh no consigo comer.</p><p>VIBKO: Isso no nada bom.</p><p>STANKO: De manh s consigo tomar um caf.</p><p>VIBKO: Voc tem que comer antes de vir para c, meni-no. Tem que se alimentar bem pela manh para poder trabalhar direito. Voc est me entendendo?</p><p>STANKO: T.</p><p>VIBKO: Esse um trabalho que exige muita concen-trao, est entendendo? A gente no se concentra de barriga vazia.</p><p>STANKO: Mas eu consigo.</p></li><li><p>coleo dramaturgia | 14 | mati visniec cuidado com as velhinhas carentes e solitrias | 15 | mati visniec</p><p>VIBKO: No, no, isso no est certo. Voc tem que tomar um bom caf da manh antes de vir Um caf da manh reforado. De agora em diante o caf da manh deve ser a refeio principal do dia. Estamos entendidos?</p><p>STANKO: Tudo bem.</p><p>VIBKO: uma ordem. Voc tem que comer uma re-feio completa de manh, com carne, po e ovos E tem que beber leite quente</p><p>STANKO: No, leite no vai, no suporto. Me d enjoo.</p><p>VIBKO (passando-lhe um salame): Aqui, pega a... Come.</p><p>STANKO: Obrigado (Comendo.) bom.</p><p>VIBKO: E tem que ter sempre alguma coisa para masti-gar com voc Salame, bolacha, po Esse trabalho no como os outros um trabalho de caador, tem que saber esperar Bom, est se sentindo melhor?</p><p>STANKO: Estou.</p><p>VIBKO: Deixe eu ver sua mo Voc ainda est tremen-do um pouco. Por que voc est tremendo?</p><p>STANKO: No sei. </p><p>VIBKO: a primeira vez que voc faz isso?</p><p>STANKO: No</p><p>VIBKO: Vamos l, em guarda (Stanko saca o fuzil de preciso e se coloca em posio de atirar.) No se apoie </p></li><li><p>cuidado com as velhinhas carentes e solitrias | 15 | mati visniec</p><p>muito na coronha Isso Voc tem que estar calmo, sem qualquer pressa, certo? Pense que voc Deus. Deus nunca est apressado. Voc s atira quando se sentir cal-mo e frio como o gelo E se seu corao estiver batendo normalmente. Primeiro de tudo, tem que escutar os bati-mentos do seu corao. Ele est batendo normalmente?</p><p>STANKO: Est.</p><p>VIBKO: Voc nunca mexeu com msica?</p><p>STANKO: J toquei um pouco de violo.</p><p>VIBKO: T, ento pense que esse fuzil um violo. Um violo, ele faz parte do seu corpo. Quando voc toca o violo, a msica sai do seu corpo. Voc entende, a bala tambm tem que sair, ela tambm, do seu corpo. Se voc tem medo do seu fuzil, voc est ferrado.</p><p>STANKO: No tenho medo.</p><p>VIBKO: Voc j brincou com isso?</p><p>STANKO: J.</p><p>VIBKO: Quero dizer, voc j atirou uma bala de verdade com seu fuzil?</p><p>STANKO: J.</p><p>VIBKO: Mas voc j matou?</p><p>STANKO (riso involuntrio e sincero): Um pombo!</p><p>VIBKO: Ento, hoje voc vai matar o primeiro filho da puta de verdade.</p></li><li><p>coleo dramaturgia | 16 | mati visniec cuidado com as velhinhas carentes e solitrias | 17 | mati visniec</p><p>STANKO: Certo</p><p>VIBKO: Ento, bem, isso vai ser o seu batismo. Vamos l, posicione-se. Agora, me diga o que voc est vendo.</p><p>STANKO: Estou vendo a rua.</p><p>VIBKO: Est vendo o edifcio?</p><p>STANKO: T.</p><p>VIBKO: O posto de gasolina, est vendo?</p><p>STANKO: T. </p><p>VIBKO: Muito bem E agora, o primeiro homem que se mexer seu alvo. </p><p>STANKO: Vejo duas velhinhas Acho que elas foram fazer compras no mercado. </p><p>VIBKO: Voc pode abater uma delas, se quiser.</p><p>STANKO: No, no uma velhinha No posso comear com uma vovozinha.</p><p>VIBKO: De todo jeito, o que interessa para ns obrigar todos esses merdas a ficarem na terra deles Eles tm que saber que so ratos e que no tem rota de escape para eles. Pense nisso quando voc atirar. Estamos ma-tando ratos, voc est me entendendo?</p><p>STANKO: Estou, sim.</p><p>VIBKO: Como voc se chama mesmo?</p><p>STANKO: Stanko.</p></li><li><p>cuidado com as velhinhas carentes e solitrias | 17 | mati visniec</p><p>VIBKO: Eu me chamo Vibko. Voc no tem que ter medo de rato. Eles podem ser jovens, velhos, mulhe-res, homens ou crianas, pouco importa. Eles querem pegar o nosso pas, ento a gente tem de obrig-los a achar buracos onde se esconder. isso a. Essa sua misso. Voc est me entendendo?</p><p>STANKO: Estou, sim.</p><p>VIBKO: Voc j fez o servio militar?</p><p>STANKO: No, ainda no. </p><p>VIBKO: Mas movimente esses olhos Procure com o seu fuzil, no fique a parado No espere que eles passem pela sua linha de mira, procure, procure Vai varrendo toda a rua, as entradas dos prdios, as janelas Vai varrendo as janelas, voc no est ven-do as janelas?</p><p>STANKO: Estou, sim</p><p>VIBKO: As janelas so muito importantes. Os ratos vi-vem escondidos atrs das paredes, atrs das janelas Tudo que se mexe atrs das janelas um alvo.</p><p>STANKO: Estou vendo outra vovozinha que est pondo a roupa pra secar.</p><p>VIBKO: Que merda, voc tambm s v vovozinhas Seja l como for, antes do pr do sol voc vai ter que matar um rato. Se hoje o dia das vovs, escolhe uma e mata. Tem dias assim.</p><p>STANKO: Estou vendo tambm uma menininha brin-cando de boneca.</p></li><li><p>coleo dramaturgia | 18 | mati visniec cuidado com as velhinhas carentes e solitrias | 19 | mati visniec</p><p>VIBKO: Onde?</p><p>STANKO: Na varanda.</p><p>VIBKO: isso a Eu no disse? T tudo coalhado de ratos. Voc no tem que ficar com pena deles, porque no fim quem vai ter as tripas devoradas somos ns. </p><p>STANKO: Tambm no vou matar crianas</p><p>VIBKO: Escuta aqui, faa como se sentir melhor. voc quem decide. Mas, de todo jeito, tem que fazer o tra-balho. Tem que ter pelo menos um morto daqui at a noite nesse setor No se pode dar moleza para eles. </p><p>STANKO: Se assim, ainda prefiro uma vovozinha do que uma garotinha que brinca com a boneca.</p><p>VIBKO: Voc pensa demais, filhinho Mas no tem im-portncia, voc tem o direito de pensar Se bem que eu mesmo sempre me perguntei se Deus, o prprio, se ele pensa? Eu, eu no acredito que Deus pense Deus, ele age, isso (Um tempo.) Ela continua brincando?</p><p>STANKO: Sim.</p><p>VIBKO: A semana passada me mandaram para o ou-tro lado do vale, l, onde tem um pedao do Bulevar Tito que vai at bem longe Eu via todo o ptio do prdio. Como voc, s via velhos saindo e entrando correndo Depois de um tempo, vejo uma garotinha de sete ou oito anos pulando corda. Quero dizer que o dia todo ela pulou corda. Depois de duas horas, j estava de saco cheio e pensei: No possvel, ela faz de propsito, s para tirar sarro da minha cara. Atirei uma vez s para adverti-la, do lado dela, s </p></li><li><p>cuidado com as velhinhas carentes e solitrias | 19 | mati visniec</p><p>para ela se mandar. Ela saiu berrando e se escondeu no prdio. Mas dez minutos depois ela j tinha se es-quecido, a idiota Espero uma hora e l se vai a se-gunda bala Quase que estouro sua corda. Ela foge berrando e fica escondida dez minutos A ela pe o nariz para fora de novo, olha para um lado, para o outro Vejo ela sair bem devagarinho, a idiota, andando na ponta dos ps. Como se tivesse medo de fazer barulho. E tudo recomea. O dia inteiro ela me deixou louco com a sua corda Eu no tinha mui-tas balas, mas atirei uma terceira vez para ela ir em-bora E a idiotinha repete sua ao e sai chorando para voltar dez minutos depois </p><p>STANKO: E depois?</p><p>VIBKO: De todo jeito, um rato um rato. </p><p>STANKO (olha pela mira do seu fuzil): Olha, tem um cara que est andando pelo setor.</p><p>VIBKO: Onde isso?</p><p>STANKO: Perto do posto de gasolina Quer ver?</p><p>VIBKO: No.</p><p>STANKO: O que que eu fao?</p><p>VIBKO: Ele est correndo?</p><p>STANKO: No.</p><p>VIBKO: Bom, ento ele seu. s seguir, mirar e atirar.</p><p>STANKO: Estranho</p></li><li><p>coleo dramaturgia | 20 | mati visniec cuidado com as velhinhas carentes e solitrias | 21 | mati visniec</p><p>VIBKO: O qu?</p><p>STANKO: Por que ele no est com pressa?</p><p>VIBKO: No sei. Isso coisa dele. De todo jeito, isso no interessa. Se ele no est com pressa, no est com pressa e pronto. Assim voc ganha tempo. </p><p>STANKO: Acho que ele est completamente bbado.</p><p>VIBKO: Ele velho?</p><p>STANKO: No, no muito velho Ele ainda pode se inserir</p><p>VIBKO: Pronto, voc vai poder dizer que matou um per-feito filho da puta. Anda, vamos nessa!</p><p>STANKO: Vou deixar ele atravessar a rua.</p><p>VIBKO: Ele atravessou a rua?</p><p>STANKO: Sim Ah, olha s, ele est carregando uma sacola Ele no t nem a, o cara, voc tem razo, ele no est nem um pouquinho apressado. </p><p>VIBKO: Se ele est atravessando a rua porque ele vai at a mercearia.</p><p>STANKO: Onde a mercearia?</p><p>VIBKO: Do lado esquerdo, depois do posto de gasolina. Mas a gente no a v daqui. </p><p>STANKO: Ento vou deixar ele fazer suas compras primeiro.</p></li><li><p>cuidado com as velhinhas carentes e solitrias | 21 | mati visniec</p><p>(Vibko abre mais uma latinha de cerveja.)</p><p>VIBKO: Voc quer uma?</p><p>STANKO: Quero.</p><p>(Bebem.)</p><p>VIBKO: E ento O que o seu homem est fazendo?</p><p>STANKO: Est voltando Comprou leite Trs garra-fas de leite</p><p>VIBKO: E ele continua totalmente sem pressa?</p><p>STANKO: Na mesma.</p><p>VIBKO: Vamos nessa, atire! Esse a t procurando. Ele t tirando um sarro da sua cara. Vai, se joga na gua, uma hora tem que ir, tem que comear, merda! (Stanko atira.) Ento, voc o pegou?</p><p>STANKO: No sei Ele caiu, mas eu no sei Acho que acertei uma de suas garrafas Tem um monte de leite derramado no cho.</p><p>VIBKO: Atira mais uma vez. Voc pode. </p><p>STANKO: No vou conseguir O leite, ele me d um enjoo</p></li><li><p>Blank Page</p></li></ul>