cuadernos de sociomuseologia no 12

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Parámetros en el diseño de un museo de participación social

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CADERNOS DE SOCIOMUSEOLOGIA No 12 - 1998 19 CAPTULO 1MUSEUS: BUSCA DE ADEQUAO REALIDADE POR QUE OS MUSEUS?Quando pensamos em tratar dos objetos museolgicos em nosso trabalho tnhamos em vista a importncia da reconstruo dos significados histricos presentes na cultura material. sabido que, num pas como o Brasil, marcado pelo analfabetismo, os vestgios materiais e a memria oral so ainda mais significativos que quaisquer outros no que toca representao da realidade de uma grande parcela da populao, cuja histria no contemplada pelos documentos oficiais e pelos registros escritos de uma elite alfabetizada. Alm disso, mesmo em caso onde os documentos escritos so abundantes, o suporte material tem possibilitado uma nova leitura que, se muitas vezes corrobora, em outras tantas levanta questes e hipteses inusitadas sobre realidades histricas j analisadas luz das fontes tradicionais.A busca por novas fontes e objetos tem ampliado e renovado significativamente as possibilidades da pesquisa histrica e, no tocante cultura material, tem demonstrado que o objeto cultural pode extrapolar a funo de recurso auxiliar ou ilustrao e ser tratado como realidade singular, fruto das necessidades e da criao de uma sociedade.Trabalhos recentes no Cear tm-se ocupado da anlise da cultura material, enveredando principalmente pelo estudo do patrimnio edificado. As pesquisas tm buscado cada vez mais a cidade, as situaes sociais nela inseridas, o cotidiano das pessoas e sua relao com as representaes concretas da memria, que tm sido cada vez mais discutidas e revalorizadas, embora ainda sem umaCADERNOS DE SOCIOMUSEOLOGIA No 12 - 1998 20 poltica governamental capaz de salvaguard-las e de sistematizar sua proteo, que acaba por ocorrer apenas mediante danos irreparveis ou iminncia de destruio. So esses novos olhares que tm alertado para a preservao do patrimnio, especialmente o arquitetnico e o ambiental, ameaados pela rpida expanso imobiliria.Dentro da vasta gama de bens patrimoniais cuja necessidade de preservao tem permeado o pensamento de diversos segmentos sociais quais sejam a imprensa, a populao em geral ou os tcnicos da rea, vemos numa situao ainda bastante desconfortvel os museus cearenses.Diante de uma realidade de museus precrios ou fechados1, de objetos expostos fora de contexto2, de parca visitao3, de uma viso ainda muito distorcida das funes e do potencial de uma instituio museolgica, pudemos reconhecer a, alm de uma grande carncia de pessoal especializado, a de estudos que demonstrem o quanto estes acervos representam em termos de referncia cultural e de sentido simblico da identidade de uma regio e de uma sociedade. A ausncia de tais informaes tem fragilizado as iniciativas de proteo e deixado de amparar e justificar outras tantas. Assim, esperamos, no decorrer deste trabalho, alertar para este setor ainda muito carente da cultura em nosso estado e, atravs de um estudo de caso sobre o acervo do Museu Dom Jos, de Sobral, demonstrar possveis leituras da memria registrada nos objetos museolgicos e a necessidade de anlises mais profundas nos acervos cearenses.CADERNOS DE SOCIOMUSEOLOGIA No 12 - 1998 21 TRAJETRIA DOS MUSEUS E URGNCIA DE TRANSFORMAOA origem da palavra museu remonta Grcia antiga, onde o Museion era o templo das Musas, para o qual eram enviados oferendas e objetos de valor 4. O museu concebido como um complexo cultural reunindo biblioteca, anfiteatro, observatrio, jardins botnico e zoolgico, existiu j no Palcio de Alexandria, tambm com o nome de Museion.O Renascimento trouxe consigo os locais de reunio de raridades e preciosidades, organizadas para o deleite das corte europias preocupadas em demonstrar seu gosto refinado. O ecletismo permanece como marca fundamental por um longo perodo, onde a quantidade e diversidade de peas o que chama a ateno. Neste contexto, inmeras colees particulares, reunidas nos chamados gabinetes de curiosidades, foram abertas ao pblico, mas com um certo tom palaciano e aristocrtico como ressalta Ma. Clia Santos (1993) estes museus so como ponto de encontro e reunio dos membros dos grupos privados que em regra os criam 5.Em seguida, aliados a uma viso positivista e tecnicista, os gabinetes de curiosidades estabeleceram-se como registro dos avanos da cincia (acervos de paleontologia, botnica, anatomia e arqueologia) e do progresso humano (como o exotismo de culturas atrasadas e objetos artsticos produzidos para a elite). Modelos tridimensionais do conhecimento enciclopdico, estes museus primavam pela abrangncia do acervo e detinham-se nas mnimas informaes necessrias para provocar o espanto do pblico.Levando-se em conta este desinteresse em permitir o acesso generalizado s colees e mesmo em representar a ampla maioria da populao com objetos que lhes digam respeito, a posturaCADERNOS DE SOCIOMUSEOLOGIA No 12 - 1998 22 inerte de alguns museus em relao ao pblico, as exposies pouco atraentes e a existncia de mais normas como no tocar, no fotografar que estmulos, fica estabelecida uma viso desses espaos como espcies de templos, onde resta ao pblico uma atitude contemplativa e no participante. Isto explica, em parte, a pouca visitao e a imagem negativa que tm os museus, especialmente entre jovens.Evidentemente, este quadro j est h muito superado na teoria museolgica e em inmeras experincias prticas, mas outros museus parecem estacionados no estgio gabinete de curiosidades ou so meros depsitos e vitrines de objetos, sem o exerccio completo de suas funes.A compreenso por parte do pblico de significados intrnsecos ao objeto fica dificultada por exposies onde ele aparece descontextualizado. Alheio inteno (se que h, em alguns casos) comunicativa da exposio, o pblico pode acabar por admirar um objeto ensimesmado, destacado por seu valor material ou pelo status de quem o possuiu, no enquanto representao de um valor cultural mais amplo. Atendo-nos s palavras de Giraudy e Bouilhet (1990):(...)assim como necessrio saber escrever de forma clara para os leitores, as palavras se ordenando em frases, da mesma forma os objetos de museu devem articular-se uns aos outros e adquirir sentido no espao das salas que so percorridas como se folheiam as pginas de um livro, o livro da criao humana 6.O sculo XX trouxe, em todo o mundo, a necessidade de repensar o museu e coloc-lo em sintonia com as necessidades da era ps-revoluo industrial. O museu passa a exercer um papel poltico de acordo com o contexto no qual se insere: seja de propaganda doCADERNOS DE SOCIOMUSEOLOGIA No 12 - 1998 23 Estado nazista; seja de reforo da luta de classes e das diferenas sociais nos pases que se tornaram socialistas; seja um posto avanado da dinmica indstria cultural do mundo capitalista 7. Em muitos casos os museus foram introduzidos no mbito da cultura de massa, adaptando-se tambm procura, pelo pblico, de espetculos e super- produes, (...) a idia de um templo com musas foi enterrada, surgindo no lugar um espao hbrido, entre a diverso pblica e uma loja de departamentos 8.Estas demandas fizeram valer a necessidade de potencializar o uso educativo do museu, de apresentar os objetos contextualizados e de dinamiz-lo e torn-lo mais atraente ao pblico, atravs da diversificao de atividades e servios, de mostras itinerantes, etc.Esta nova perspectiva, aliada a uma viso de patrimnio integrado, que acrescenta produo material humana os saberes e vivncias (bens intangveis), alm de sua relao com o meio ambiente, deu origem ao tema do ecomuseu, onde a prpria paisagem passvel de musealizao, includas a populao a instalada e as relaes que nela ocorrem. Realizvel fora do espao institucional tradicional, o ecomuseu parte do pressuposto de que a paisagem percebida pelo homem para o muselogo tambm um dado cultural 9, independente de ser por ele fisicamente transformada. Neste caso, mais cabvel o entendimento do bem cultural como bem dotado pelo homem de significado e valor10, isto , imbudo de uma ao humana sob a forma de processo afetivo/intelectual.So estas novas formas de encarar o patrimnio, o fato de perceb-lo como instrumento ideolgico da construo da identidade e de fomento de aes polticas que no permitem que se aceite para o presente os modelos dos gabinetes de curiosidades,CADERNOS DE SOCIOMUSEOLOGIA No 12 - 1998 24 forjados pelo discurso de neutralidade de um modelo de cincia h muito superado.O DISCURSO DA NEUTRALIDADEA questo da neutralidade ao nosso ver de importncia fundamental pois, ao olhar menos avisado, a exposio no se investe de carter ideolgico e mantm-se na tnue linha da exibio descompromissada dos objetos e cuja interpretao possvel tem como critrios apenas a esttica formal e o valor material.Em visita de estudo ao Museu Paulista, em 1995, chamou-nos a ateno justamente o que a simultaneidade de exposies mais tradicionais com outras recm-elaboradas nos mostravam: a diversidade possvel na explorao do acervo. Isto ficou claro exatamente por vermos, lado a lado, exposies que apenas identificavam o objeto com seu estilo e material; e outras que buscavam o contexto do objeto, sua relao com os outros objetos e com a sociedade que os produziu e utilizou.O discurso que se quer neutro apenas serve para desfocar o objeto e sonegar informaes. Remete ainda aos gabinetes de curiosidades e Histria factual e elitista, contribuindo para a perpetuao de relaes de dominao.A moderna Museologia, porm, privilegia o objeto como registro material da cultura e da histria da sociedade, desencadeando uma crtica s relaes sociais. Ela parte do pressuposto de que no est livre de ideologia e que a exposio exibe, na verdade, uma dimenso interpretativa, onde necessrio deixar clara sua viso a respeito do tema, embora no seja nica ou necessariamente correta. Tambm so abertos questionamentos e o pblico incitado a ter, eleCADERNOS DE SOCIOMUSEOLOGIA No 12 - 1998 25 tambm, sua prpria leitura da exposio. Como bem o disse Huyssen (1994):e, ainda,Nunca houve qualquer exposio de relquias de culturas passadas sem uma media

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