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XXIV Colquio CBHA

Cruzamentos Impuros: conexes, encontros e cruzamentos naconstruo de dispositivos poticos na arte contempornea

Profa. Dra. Sandra ReyDepartamento de Artes Visuais - Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Proponho iniciar esta comunicao com uma contextualizao da pesquisa que desenvolvo e sedenomina Cruzamentos impuros: hibridaes e contaminaes na arte contempornea1. Vou abordaros conceitos-chave com os quais estou trabalhando na anlise de procedimentos da arte contempo-rnea, em aproximao com a produo de alguns artistas mapeados na pesquisa, e tambm de meutrabalho prtico.

Iniciei esta pesquisa em maro do corrente ano2 como desdobramento de pesquisas anteriores,cujo foco estava centrado em questes que problematizavam a construo e a percepo de profundi-dade no espao bidimensional. O eixo problemtico da pesquisa tambm oriundo de um trabalho: atraduo do livro de E. Couchot, As tecnologias na Arte, da fotografia realidade virtual.3

O termo hibridao utilizado por Edmond Couchot4 desde o incio dos anos 80 para designaruma forma de arte e uma tendncia esttica cujo substrato so as tecnolgias fundamentadas noclculo automtico.

Na etimologia do termo hbrido encontramos que foi tomado do latin hibrida, que significabastardo, de sangue mestio; posteriormente foi alterado para hybrida, por aproximao com o grego

1 Esta pesquisa se insere na Linha de Pesquisa de Processos de criao artstica no PPG Artes Visuais, articulando a investigaode procedimentos para a instaurao de um trabalho pessoal, com questes tericas identificadas neste processo e anlises deobras de artistas contemporneos com os quais estabeleo pontos de conexo atravs desses conceitos-chave.2 preciso levar em conta que os dados que ora apresento esto em elaborao e so parciais.3 A traduo do livro de E. Couchot foi um projeto que desenvolvi em colaborao com a Editora da UFRGS. No livro o autor enfocaas relaes que se estabelecem, no domnio das artes visuais, entre os automatismos tcnicos e a subjetividade denominandocomo sujeito-NS, as operaes de um sujeito com um conjunto de tcnicas com as quais vive uma experincia ntima quetransforma a experincia que este sujeito que tem do mundo (experincia tecnestsica) e como sujeito-EU, a expresso de umasubjetividade irredutvel a todos os mecanismos tcnicos. Segundo Couchot toda obra de arte, desde o Renascimento seriaproduto desta negociao Sujeito-EU/Sujeito-NS. A abordagem estratgica do livro de colocar em retrospectiva a arte num-rica, assim denominada por ele a tendncia esttica que faz uso de ferramentas da computao nos processos de criaoartstica retraando um percurso na histria da arte para analisar os perodos em que houve rupturas, devido ao avano dacincia e do conhecimento tcnico, no modus operandi da arte, com consequncias considerveis no campo da produo. Esselivro considerado internacionalmente como uma das melhores contribuies tericas a respeito de questes que envolvem nosomente arte e tecnologia na virada do sculo XXI, mas pela profunda compreenso do autor a respeito da importncia do aparatotcnico e cientfico nos meios de produo artstica.4 Ver COUCHOT. Images, de loptique au numrique. Paris: Hermes, 1988.

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hybris que significa ultraje, excesso, o que ultrapassa a medida. A partir do sculo XIX esse termo empregado para designar o que composto de elementos de natureza diferentes anormalmentereunidos, como o que resulta do cruzamento de espcies ou gneros distintos. Atualmente significaprincipalmente o que provm de duas espcies diferentes; e se insere no universo da biologia paraqualificar o cruzamento gentico de espcies distintas de plantas ou animais.

A arte numrica que tem a capacidade de alterar a natureza dos elementos constituintes daimagem, tornando-a permevel a elementos estranhos a ela tais como o som, o texto ou a algoritmose circuitos eletrnicos , como bem o define Couchot, uma arte hbrida por excelncia, em proximi-dade com os cruzamentos genticos prprios biologia, uma vez que age nvel da morfognese daimagem. Me proponho a investigar, no mbito da pesquisa, outras formas de hibridao na artecontempornea, principalmente aquelas que fazem uso de procedimentos tradicionais cruzando-oscom recursos tecnolgicos avanados. Ou nem tanto, visto que minha inteno verificar comopodemos problematizar o sentido figurado da palavra hbrido, que designa o que composto deelementos disparatados, imprevistos, de uma natureza heterognea em relao aos procedimentosinstauradores realizados pelos artistas durante o processo de criao.

Proponho-me, ento, trabalhar o conceito de hibridao de forma expandida, verificando suaaplicao nas manifestaes que nem sempre fazem recurso direto ao uso do clculo numrico, mascujo processo de criao se d de forma mais ou menos complexa, envolvendo pesquisa de procedi-mentos que cruzam tcnicas, categorias, conceitos e tradies diversas fazendo migrar para o campo daarte, prticas de outras disciplinas. Quando me refiro hibridao no contexto da pesquisa, estou mereferindo s formas artsticas que no se configuram enquanto aplicaes ou exploraes de umatcnica tomada enquanto sistema fechado, constituindo-se enquanto dados preliminares para a criao.

A hibridao, tal como a entendo nos procedimentos da arte contempornea, refere-se s propo-sies que evocam a capacidade de convocar cdigos heterogneos e de operar transversalidadesentre diversos registros. Hibridar, no contexto da pesquisa, significa problematizar a maneira de tirarpartido das especificidades de um medium ou dos materiais, investiga as possibilidades de registrar ouintroduzir desvios na vocao original do aparato tcnico ou tecnolgico nas prticas da arte contempo-rnea. O que est em foco so as invenes e os cruzamentos de procedimentos, as apropriaes ecombinaes diversas, os deslocamentos, desvios e operaes inesperadas introduzidas no aparatotcnico/tecnolgico, realizadas por artistas contemporneos, que podem assumir configuraes comconotaes poticas, ldicas, sociolgicas, filosficas, conceituais, ecolgicas ou polticas, na forma deproposies artsticas.

O termo cruzamentos impuros ento, coloca-se em contracorrente com a pureza de meiospreconizada pelo terico americano Greenberg, no Modernismo, e traduz procedimentos que exploramzonas de coexistncia, encontros, conexes e transversalidades entre diversos registros desde odesenho, a fotografia, pintura, gravura, instalaes, arquitetura, vdeo e objetos, arte numrica e web artou mesmo de elementos estranhos ao campo da arte atravs de um dispositivo potico, especial-mente elaborado. Do ponto de vista terico, interessa-me pesquisar as prticas contemporneas trans-versais onde a impureza assumida deliberadamente e a obra resulta do cruzamento de cdigos,referncias e registros que podem implicar emprstimos, apropriaes e contaminaes, as mais diversas.

E eis o segundo termo-chave da pesquisa: o que est na origem do termo contaminao apalavra contato, que significa originalmente estabelecer uma ligao. Contaminar transmitir por contato,do latim contaminare, manchar, macular, sujar, infectar, poluir, seu significado estende-se a corromper,que no sentido figurado, significa alterar a natureza de algo.

Do ponto de vista dos procedimentos de instaurao observo que nos processos de hibridaoacontece alguma forma de contaminao entre elementos de natureza, s vezes, dispares que, emconexo, se deixam trabalhar de maneira no somente operatria, mas tambm semntica. Desteponto de vista, os procedimentos escolhidos pelos artistas, no so operadores tcnicos neutros ouinocentes, mas so responsveis por operar passagens transversais entre os aspectos formais com osconceituais, entre as formas emergentes e as formas de arte j constitudas; dissolvendo as especifi-cidades de cada uma, induzindo formas de alteridade, proporcionando vivncias e processos perceptivos

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diferenciados. Observamos tambm que a contaminao no se restringe hibridao de procedi-mentos na arte, um dos elementos definidores dos processos de globalizao, da sociedade e dacultura contempornea.

Vemos que, desde esse ponto de vista, as hibridaes no configuram somente as produesque envolvem a arte numrica, mas dizem respeito a um certo modo de fazer que, enquanto faz, vaiinventando os procedimentos. A produo , ao mesmo tempo e indissoluvelmente, inveno. Nosprocessos hbridos, de uma maneira geral, trata-se de colocar problemas, que se constituem nos dadosinformes da experincia e de encontrar, descobrir ou inventar solues desses problemas, levar a acabooperaes, ou seja, produzir realizando, cruzando, efetivando e executando (numa proximidade comalguns aspectos da Teoria da Formatividade de Pareyson) e de concluir o movimento de inveno emuma obra que se esboa e se constri com base em uma lei interna de organizao, enfatizando aimportncia dos aspectos poiticos da obra.

Tendo em vista este referencial gostaria de aproximar a produo de trs artistas contemporneos,para analisar algumas implicaes conceituais dos procedimentos instauradores nas suas produes.

Vou iniciar por William Kentridge, esse artista sul africano, desenhista exmio, pintor e gravador,que tem consagrado ultimamente sua energia em filmes de animao onde cada cena uma espciede plano na seqncia com enquadramento imutvel em que o desenho vai se modificando e transfor-mando a composio pouco a pouco, sob os olhos do espectador, apagando certos detalhes pararedesenh-los e a obra vai se fazendo ento, com seus vacilos, erros, arrependimentos e errncias,aos olhos do espectador. A tcnica do carvo, efmera e voltil, se presta muito bem a esse procedi-mento com o detalhe de deixar subsistir os traos do que foi apagado. O resultado na tela d umaimagem um pouco frgil, cheia de nuances, colocando em evidncia uma obsesso pela idia do traoe da reminiscncia. Esse cruzamento entre o de