Crucifixos e Tribunais - Sobre o problema dos símbolos religiosos no espaço público brasileiro

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Artigo que analisa a presena de smbolos religiosos - em especial o crucifixo catlico - em prdios e reparties pblicas no Brasil em face do princpio da laicidade do Estado.

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Departamento de Direito

CRUCIFIXOS E TRIBUNAIS: SOBRE O PROBLEMA DOS SMBOLOS RELIGIOSOS NO ESPAO PBLICO BRASILEIROAluno: Daniel Sternick2 Orientador: Fbio Carvalho Leite1

O mais escandaloso dos escndalos aquele a que nos habituamos Simone de BeauvoirI. Delimitao do tema certo que o estudo das relaes que vinculam Estado e Religio requer a devida compreenso do contexto histrico em que esto inseridas, bem como de uma srie de conceitos que lhes so afetos. Constitui objeto de interesse de mltiplos campos do saber, entre os quais a Teologia, a Sociologia, a Filosofia, a Cincia Poltica e o Direito. Em ltima anlise, visa a definir o modo como as instituies polticas devem se comportar perante o fenmeno religioso e seus estabelecimentos. Nesse cenrio, o princpio da laicidade do Estado paradigma jurdico-filosfico comum grande maioria dos Estados ocidentais contemporneos impe uma estrita separao entre os rgos pblicos e as instituies religiosas, de modo que se estabelea a completa autonomia da esfera pblica em relao s autoridades religiosas, s organizaes confessionais, enfim, ao plano do espiritual. Em linhas gerais, o ncleo do Estado Laico encontra seus fundamentos numa concepo secular e no santificada da poltica. Inserido nesse plano de discusses, o ponto central de investigao do presente trabalho tem por escopo o problema dos smbolos religiosos no espao pblico brasileiro, mais notadamente da presena de crucifixos em salas de Tribunais e de cmaras legislativas1

Este trabalho, desenvolvido durante o primeiro semestre de 2007, foi o resultado de uma linha de pesquisa prpria inserida no tema Estado e Religio. Agradeo aos colegas Celina Beatriz Mendes de Almeida, Lia Daylac, Guilherme Van Hombeeck, Gabriela Palhares Pasalacqua, Vanessa Bluvol, Eduarda Azevedo e Bianca Borges pela troca de idias, sempre de altssimo nvel. Em especial, agradeo ao Prof. Fbio Carvalho Leite, que, com dedicao, semeou as inquietaes que tornaram possvel essa pesquisa. 2 Aluno do 7 perodo da Faculdade de Direito da PUC-RIO. Bolsista do Programa Institucional de Bolsas para a Iniciao Cientfica (PIBIC), na linha de pesquisa Estado e Religio, sob a orientao dos Profs. Fbio Carvalho Leite e Carlos Alberto Plastino. Diretor do Centro Acadmico Eduardo Lustosa (CAEL). Integrante da Comisso Executiva da Coordenao Regional dos Estudantes de Direito/RJ. Integrante de Vieira, Rezende, Barbosa e Guerreiro Advogados.

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no pas, tendo em vista o carter majoritariamente catlico da populao e a forte influncia da Igreja Catlica na gnese do Estado Brasileiro. Convm destacar, neste passo, que apesar do ttulo aparentemente restritivo desta dissertao, vislumbra-se analisar a questo da tensa inter-relao travada por smbolos religiosos e espao pblico em tese, o que significa que a inquirio no se confinar questo dos crucifixos nas paredes dos prdios pblicos no Brasil. De fato, o exame das premissas tericas e do fator social que permeiam a ordem jurdica e seu contato com o fenmeno religioso deve permitir a compreenso do tema de maneira abstrata, de tal sorte que as concluses alcanadas sejam dotadas de um mnimo grau de cientificidade. Para tanto, tentar-se-, de incio, demarcar o contedo semntico do princpio da Laicidade do Estado, a fim de que se possa conceber, com clareza, seu alcance normativo assim entendido como sua capacidade de limitar a atuao estatal diante do elemento religioso. Indispensvel, ainda, perquirir os contornos de sua estreita conexo com os princpios democrtico e republicano, os quais, sem dvida alguma, traduzem valores fundantes da ordem jurdica. Em seguida, far-se- um conciso diagnstico do tratamento constitucional conferido laicidade estatal, ou seja, da forma como a Constituio Federal de 1988 se reporta ao dever-ser do Estado no que tange religio. Com a finalidade de compreender as razes da infiltrao de expresses confessionais3 crists na estrutura do Estado Brasileiro, ser tambm realizada uma abordagem histrica da notvel atuao da Igreja Catlica na sua formao, assim como na cultura e no imaginrio da sociedade para, ento, adentrar-se na polmica da existncia de crucifixos em reparties pblicas brasileiras. Aps, ser feita uma interpretao, a partir do ponto-de-vista semitico, das formas simblicas no campo da religio, com o objetivo de identificar o modo como estes signos expressam a histria e os valores das confisses religiosas a que se referem. O objeto especfico desta pesquisa , justamente, perceber as razes capazes de explicar no somente a presena de smbolos religiosos no espao pblico do pas, mas3

Por confessional, pretende-se remeter idia de um credo religioso especfico, particular, compreendido pela doutrina em que se fundamenta e suas instituies.

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tambm o porqu da importncia desse fato ser frequentemente minimizada, no compondo foco de questionamento vista do dever de absteno do Estado face ao fenmeno religioso. Muito pelo contrrio, a qualquer intentada no sentido da retirada dos smbolos religiosos das paredes do Estado, contrapem-se reaes dos mais diversos estilos: negao da existncia do problema, afirmao do carter religioso da sociedade e associao do smbolo religioso cultura e tradio de determinado grupo social, entre outros.

II. A Laicidade do Estado, a liberdade religiosa e o princpio republicano A separao entre Estado e Igreja foi resultado de um movimento histrico que, gradualmente, afastou as atividades humanas das especulaes teolgicas, transformando profundamente os valores que marcavam, predominantemente, as estruturas sociais e polticas vigentes. Seguramente, o processo de secularizao do aparato jurdico-poltico exerceu influncia determinante na formao das sociedades modernas, sendo possvel identific-lo a partir do Iluminismo quando o Homem racionalizou seu mtodo de pensamento, erodindo o referencial religioso e deslocando sua ateno do plano transcendental lgica emprica e cincia. De fato, o trajeto histrico da formao do Estado Moderno evidencia sua intensa relao com a religio e suas instituies. Importa ressaltar, nesse ponto, que o fundamento de legitimidade do poder poltico residia em concepes sacrossantas, razo pela qual comunidade poltica e estabelecimento religioso mantinham-se unificados por uma necessidade lgica de dar coerncia sistmica s tcnicas de dominao. Essa tnue linha que distingue a evoluo histrica do Estado e das estruturas religiosas se torna ainda mais flagrante na medida em que a tcnica de disciplina da convivncia social adotada pelo primeiro decorrncia da apropriao das teias prescritivas do campo religioso, fenmeno que ocorreu atravs da desmistificao das regras eclesisticas4.4

Vale observar que a prpria arquitetura do Direito, viabilizada pela estrutura binria que divide a norma jurdica entre hiptese e conseqncia, decorrncia direta das formas normativas do Direito Cannico. Cf., nesse sentido, SCHMITT, Carl. Political theology: four chapters on the concept of sovereignty /. Cambridge, Mass.: MIT Press, 1985; e MOREIRA, Luiz. A Constituio como Simulacro. Rio de Janeiro: Editora Lmen Jris, 2007: Do ponto de vista normativo, o Estado moderno ser o herdeiro ftico e simblico daquilo que garantiu a unidade jurdico-poltica do Ocidente. Trata-se da incorporao, por parte do

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possvel afirmar que o princpio da laicidade do Estado traduz um sobrevalor fundamental que caracteriza as organizaes polticas modernas e impe ao Poder Pblico um dever jurdico de neutralidade face ao fenmeno religioso, precisamente, ao restringir a religio vida e conscincia privada. Tal dissociao encontra seu fundamento, em especial, na permanente preocupao com a limitao do exerccio do poder, to cara ao constitucionalismo democrtico. Com efeito, o apartamento entre Estado e religio significa a derrocada do monoplio religioso, havendo-se por conseqncia a extino dos privilgios que a religio majoritria pudesse usufruir em funo de sua aliana poltica com o Poder Pblico. Assim, as diferentes doutrinas e confisses religiosas que emergem do meio social passam a partilhar de um mesmo estatuto jurdico, encontrando-se ao menos no plano formal em uma desejvel condio de igualdade. Conforme essa linha de raciocnio, do advento da modernidade decorre que as instituies religiosas no podem mais aspirar a conduo das sociedades. Suas atividades, nas palavras de DANILE HERVIEU-LGER, no se exercem seno no interior de um campo religioso especializado e no tem abrangncia para alm de um grupo determinado de crentes voluntrios. O sentimento religioso se torna, quando subsiste, um assunto individual. A crena religiosa perde seu papel determinante na formao da identidade individual e coletiva5. Corolrio bsico do princpio da laicidade do Estado, a liberdade religiosa configura garantia individual indispensvel composio democrtica e republicana da comunidade poltica. Ela representa, em ltima anlise, um mecanismo constitucional contramajoritrio que resguarda a esfera do sentimento religioso do indivduo, posto que assegura o livre exerccio de crena, dos cultos e liturgias, fomentando as bases para uma realidade de pluralidade e tolerncia no campo religioso.

Estado, do aparato existente em torno da confisso, segundo a qual as normas externas so incorporadas pela conscincia dos crentes, de modo a permitir-lhes uma unidade prescritiva. 5 HERVIEU-LGER, Danile. Croire en modernit, Au-del des la problmatique des la champs religieux et politique Apud ARRIADA LOREA, Roberto, O controle religioso do Poder Judicirio o uso do crucifixo como smbolo nacional pelo STF, extrado da internet (www.brasilparatodos.org/wp-content/uploads/artigolorea.doc). Acesso em: 15.07.2007.

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Nesse contexto, a anlise atenta dos contornos desse direito fundamental permite notar que seu alcance normativo abrange a faculdade de crer em uma doutrina religiosa especfica, de escolher a maneira pela qual a religio influir na vida privada, bem como a liberdade para no crer atesmo ou agnosticismo , alm da apostasia, assim entendida como o direito a renunciar a uma determinada f. Em linhas gerais, a liberdade religiosa consagra o livre-arbtrio conduo da vida religiosa, abarcando a liberdade para crer, a liberdade de como crer e a liberdade em face do fenmeno religioso6. Conclui-se, assim, que o Poder Pblico tem um dever de no interferncia na esfera religiosa no sentido de no ingerir na forma como os cidados e as instituies religiosas conduzem sua vida espiritual, bem como no dirigir suas aes com fundamento em premissas religiosas ao passo que, por outro lado, tem a obrigao de garantir o livre exerccio do sentimento religioso, protegendo-o de eventuais e ilegtimas restries que possam surgir no meio social7. De acordo com as noes tericas delineadas, v-se que o Estado encontra-se impedido de manifestar sua vontade quando o assunto religio8, j que nada pode em matria puramente espiritual9. De modo anlogo, deve tratar com bastante cautela as possveis influncias das instituies religiosas no dilogo poltico, sendo certo que o papel da religio no espao pblico detm importncia significativamente reduzida. Estabelecidas, ento, as premissas histricas e conceituais necessrias ao adequado prosseguimento do presente estudo, pretende-se avaliar a constitucionalidade, a adequao e a legitimidade da existncia de smbolos religiosos nos prdios e reparties pblicas, uma vez que a conexo entre caracteres confessionais especficos e o espao pblico no parece conformar-se com o dever jurdico do Estado de abster-se do fenmeno religioso, impondo-se-lhe uma posio de neutralidade relativamente s diferentes formas de religiosidade. De fato, este problema se expressa mais comumente no Brasil atravs da manuteno de crucifixos em salas de Tribunais, Assemblias Legislativas e reparties6

O termo em ingls aclara melhor a idia: freedom from religion, a significar a liberdade para no professar nenhuma f e o direito de resguardar seu espao privado da influencia religiosa. 7 certo, no entanto, que existem restries de ordem pblica, inclusive promovidas pelo Estado. Assim que a manifestao da liberdade religiosa no exprime um direito absoluto, mas passvel de ponderao no caso concreto: garante-se, guisa de exemplo, o poder de polcia do Estado. 8 De fato, o Estado no deve manifestar vontade quando o assunto religio. O Estado no pessoa capaz de professar f. Nesse sentido, a sociedade pode ter religio, mas o Estado, no. 9 LOCKE, John. Epistola de tolerantia, 1689.

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pblicas em geral, fato que se deve, certamente, expressiva maioria catlica na populao brasileira, tradio crist que permeou o processo social e determinante influncia da Igreja Catlica Apostlica Romana na gnese do Estado Brasileiro. Passamos, a seguir, a um breve estudo do tratamento constitucional conferido laicidade estatal e liberdade religiosa pela Constituio Brasileira de 1988, para que se possa compreender de que forma o ordenamento jurdico brasileiro dispe sobre a separao entre Estado e religio e como tal disciplina limita a atuao do Poder Pblico no que diz respeito s questes religiosas, especialmente sobre a inter-relao entre signos religiosos e a coisa pblica.

III. O tratamento constitucional da laicidade e da liberdade religiosa De incio, afigura-se necessrio observar que no se vislumbra, aqui, traar um minucioso panorama acerca das disposies constitucionais que dispem sobre a religio e seus pontos de contato com o Estado. Diversamente, objetiva-se to-somente contextualizar o tema apontando, minimamente, o modo pelo qual a ordem jurdica brasileira vigente versa sobre as relaes entre Estado e Religio. A Constituio Federal de 1988 trata de modo singelo o princpio da laicidade do Estado, possivelmente porque seu contedo j se encontra intimamente relacionado com o princpio republicano, edificado como princpio fundamental da Repblica. Com efeito, a forma de governo republicana impe que o Estado seja de todos e exista para todos, sendo a coisa pblica administrada pelo povo, que o detentor ltimo do poder soberano. A res pblica, portanto, no pode ser aprisionada por interesses sectrios e tem como destinatrio legtimo o interesse da coletividade. O princpio da laicidade do Estado expressamente determinado pelo texto constitucional atravs de uma vedao: Art. 19. vedado Unio, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municpios: I estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencion-los, embaraar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relaes de dependncia ou aliana, ressalvada, na forma da lei, a colaborao de interesse pblico; (...) 6

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Do dispositivo constitucional transcrito extrai-se que o Estado brasileiro no pode estabelecer, em sentido amplo, cultos ou instituies religiosas: isso significa que lhe proibido criar religies ou empreender prticas religiosas, ou mesmo atrelar figura do Estado as prticas e instituies religiosas correntes na sociedade. Alm disso, no pode subvencion-los10, ou seja, no se pode admitir que o Estado contribua com dinheiro ou bens ao exerccio de atividades religiosas, quaisquer que sejam, da mesma maneira que so vedadas eventuais relaes de aliana ou dependncia, devendo as relaes entre Estado e instituies religiosas pautar-se por independncia e autonomia. Por fim impondo um dever de no intromisso a Constituio determina que ilegtima qualquer forma de embarao ao exerccio religioso, o qual se traduz por qualquer ao no sentido de proibir, dificultar ou limitar a prtica de atividades religiosas. Com arrimo nessa linha de raciocnio, o artigo 19 da Constituio Federal representa um dever jurdico, imposto ao Estado, de no instituir relaes de dependncia com as expresses do fenmeno religioso e de no obstaculizar o livre desenvolvimento dos atos e sentimentos religiosos. A esse dever jurdico, seguramente, corresponde um direito pblico subjetivo de que dispem os indivduos. Nesse sentido, a liberdade religiosa garantida pela Constituio atravs de dois incisos inseridos no rol de direitos fundamentais estabelecidos pelo artigo 5: Art. 5. Todos so iguais perante a lei, sem distino de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no Pas a inviolabilidade do direito vida, liberdade, igualdade, segurana e propriedade, nos termos seguintes: (...) VI inviolvel a liberdade de conscincia e de crena, sendo assegurado o livre exerccio dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteo aos locais de culto e a suas liturgias; (...) VIII - ningum ser privado de direitos por motivo de crena religiosa ou de convico filosfica ou poltica, salvo se as invocar para eximir-se de10

Cumpre observar que a imunidade tributria conferida aos templos religiosas pelo art. 150, IV, b, da Constituio Federal de 1988 no representa forma de subveno estatal religio. Muito pelo contrrio, sua finalidade justamente evitar que se dificulte o funcionamento de estabelecimentos religiosos pela via financeira, reconhecendo-se, afinal, a sua importncia e finalidade social.

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obrigao legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestao alternativa, fixada em lei; De um modo geral, portanto, a Constituio garante a liberdade ao sentimento religioso e ao livre exerccio dos cultos e liturgias, determinando, implicitamente, a interveno protetiva do Estado quando necessria para assegurar tais direitos. Por outro lado, h que se tecer algumas consideraes a respeito do prembulo da Constituio Brasileira de 1988, o qual faz meno expressa a Deus11. Impe-se esclarecer, nesse passo, que o prembulo um texto introdutrio Constituio, que enuncia o carter do Poder Constituinte Originrio, apresenta o seu posicionamento ideolgico e destaca os principais valores por ele prestigiados. Segundo JOO BARBALHO, o prembulo no uma pea intil ou de mero ornato na construo dela: mas simples palavras que constituem, resumem e proclamam o pensamento primordial e os intuitos dos que a arquitetam12. Nesse contexto parte das eventualmente pertinentes crticas existentes a respeito da adequao da expresso sob a proteo de Deus faz-se necessrio destacar que o prembulo constitucional no possui fora normativa13, tornando-se inequvoco que a meno divindade no dotada de eficcia jurdica. Demais disso, todo o contedo ideolgico contido no texto preambular reafirmado atravs das normas constitucionais, exceto a criticada expresso proteo de Deus. Alis, segundo as lies de HUMBERTO VILA, a referncia no prembulo a Deus constitui hiptese de dispositivo sem norma14. Dessa maneira, torna-se possvel afirmar que a meno preambular a uma entidade divina no descaracteriza a laicidade do Estado, no se confrontando, conseqentemente,

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Ns, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assemblia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrtico, destinado a assegurar o exerccio dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurana, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justia como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a soluo pacfica das controvrsias, promulgamos, sob a proteo de Deus, a seguinte CONSTITUIO DA REPBLICA FEDERATIVA DO BRASIL., grifo meu. 12 Apud FERREIRA, Pinto. Comentrios Constituio Brasileira. 1 ed. V. I, So Paulo: Saraiva, 1989. 13 Este foi o entendimento do Supremo Tribunal Federal no julgamento da ADI n 2.076/AC, Rel. Min. Carlos Velloso. 14 VILA, Humberto. Teoria dos Princpios, Malheiros Editores, 4 ed., p.22: Em outros casos h dispositivo mas no h norma. Qual norma pode ser construda a partir do enunciado constitucional que prev a proteo de deus? Nenhuma.

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com o disposto no art. 19, I, da Constituio Federal. As palavras expressam, exclusivamente, um indcio da religiosidade do Poder Constituinte. A Constituio Brasileira de 1988 concebe, evidentemente, um regime de estrita separao entre instituies pblicas e estabelecimentos religiosos. Consagra, portanto, o produto de uma evoluo poltico-institucional que desatrelou o Estado da legitimao religiosa, fato que foi sacramentado por todas as Constituies brasileiras que se seguiram Constituio Republicana de 1891. Tal evoluo encontra seu marco inicial no Decreto 119-A, de 17 de janeiro de 1890, desde quando o Estado brasileiro ao menos no papel tornou-se indiferente s diversas confisses religiosas existentes em seu seio social. justamente nesse cenrio que se insere a problemtica referente aos smbolos religiosos no espao pblico brasileiro: possvel considerar legtimo que os prdios pblicos do pas ostentem smbolos religiosos de qualquer natureza, ainda que se possa enxergar as razes desse fato na formao histrica do Estado e nas tradies da sociedade? O modelo institucional brasileiro permite que o Estado manifeste sua preferncia por uma ou outra confisso religiosa atravs de seus locais fsicos? O predomnio inconteste da religio catlica capaz, por si s, de justificar a manuteno de crucifixos em salas de Tribunais e de Assemblias Legislativas por todo o pas? Certamente, a resposta a esses questionamentos est condicionada a uma anlise referente natureza dos smbolos religiosos, do significado e dos efeitos de sua confuso com o domnio do Estado Laico, sem embargo de uma investigao a respeito de suas razes, vista da conclusiva influncia da religiosidade na formao da sociedade brasileira e, em particular, da Igreja Catlica Apostlica Romana na formao do Estado brasileiro.

IV. A influncia da Igreja Catlica Apostlica Romana na formao do Estado brasileiro A histria da Igreja Catlica no Brasil confunde-se com a prpria histria da sedimentao do Estado brasileiro15. A miscelnea entre a doutrina e instituies catlicas e a estrutura poltica no Brasil remonta ao seu descobrimento, o que se evidencia, sobretudo,15

CARNEIRO DE ANDRADE, Paulo Fernando. Sistema Poltico Brasileiro: uma introduo / organizadores: Lcia Avelar & Antnio Octvio Cintra. [2. ed.]. Rio de Janeiro: Konrad-Adenauer-Stiftung; So Paulo: Editora Unesp, 2007, p. 387.

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vista de que as prprias misses martimas possuam um vis religioso e catequizador que caracterizaram essa afinidade. de se destacar que mesmo a finalidade da expanso martima era jungida a um papel divinizado, pois era funo do mundo civilizado disseminar os valores e ideais cristos. Nesse sentido, cumpre lembrar que o Brasil Colonial e Imperial foi singularizado pelo regime do padroado fruto de uma concesso da Santa S, conferida atravs de um acordo firmado entre as autoridades catlicas e os Estados segundo o qual Estado e Igreja compunham uma unio indissolvel, reconhecendo-se o catolicismo como nica religio legtima e oficial do Brasil16: Desse modo, a Coroa Portuguesa passou a exercer sobre o Brasil no apenas o governo civil, mas tambm eclesistico, com o direito de cobrar e administrar o dzimo eclesistico, encaminhar a criao de dioceses e parquias, assim como apresentar os nomes dos escolhidos para o episcopado e para o exerccio dos diversos governos diocesanos e paroquiais17

Com efeito, os primeiros sculos do caminho institucional brasileiro foram particularizados pela presena categrica do fator religioso catlico. quela poca, ser brasileiro era ser catlico18, parecendo impossvel entrever o dilogo poltico sem a interveno dominante das entidades catlicas. No havia, por exemplo, significante presena de agentes seculares na poltica, razo pela qual a representao poltica era caracterizada pela intensa participao catlica. Assim, era constante a presena de padres e bispos no exerccio de mandatos polticos nas Cmaras, os quais imprimiam o carter cristo ao ambiente pblico e defendiam os valores e interesses da Igreja. Por essas razes histricas, o regime de interferncia recproca e indiscriminada entre instituio religiosa e ambiente pblico tornou a confessionalidade do Estado em linguagem poltica corrente, concretizando uma cultura de aceitao desse fenmeno. De

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HOORNAERT, E. Et ali. Histria da Igreja no Brasil. Primeira poca. Tomo II. Petrpolis: Vozes, 1979, 2. ed., p. 162. 17 CARNEIRO DE ANDRADE, Paulo Fernando. Op. Cit., p. 387. 18 Idem, p. 388.

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fato, o referencial religioso se solidificou na esfera pblica de tal maneira que o processo republicano no foi capaz de desconstitu-lo por inteiro19. No perodo do Imprio, h que se enfatizar a institucionalizao da Igreja no quadro jurdico-poltico atravs da Constituio Imperial de 1824, que elegeu a religio catlica como a oficial do Imprio e proibiu a manifestao exterior de outras formas religiosas da seguinte maneira: Art. 5. A Religio Catlica Apostlica Romana continuar a ser a religio do Imprio. Todas as outras religies sero permitidas com seu culto domstico ou particular, em casas para isso destinadas, sem forma alguma exterior de templo.

A posterior separao Igreja-Estado, evento operacionalizado pelo advento da Repblica e originado, principalmente, nos constrangimentos gerados pelo episdio conhecido como Questo Religiosa percebendo-se, como pano de fundo, a onda liberal que caracterizava o cenrio internacional extinguiu formalmente o privilgio monopolista da Igreja Catlica. No obstante, as decisivas implicaes da relao entre o catolicismo e a gnese brasileira alm de representar verdadeira cicatriz cultural no espao pblico brasileiro refletem, at hoje, obstculos de difcil superao com vistas devida efetividade do princpio da laicidade do Estado. Sem dvida, a inegvel inspirao catlica que permeou o trajeto institucional do Brasil representa a origem das infiltraes religiosas no espao pblico brasileiro at os dias de hoje. Por certo, a sustentao de crucifixos nas paredes dos estabelecimentos do Estado pretende legitimar-se, exatamente, na histrica conexo entre o Estado brasileiro e a religio catlica, a qual resultou na consolidao de uma tradio pretensamente comum sociedade brasileira. Assim, o fato de o ordenamento jurdico coibir a manifestao de preferncias religiosas usualmente minimizado em virtude daqueles fatores. Alm disso, o carter majoritariamente catlico da populao brasileira (73,8% da sociedade, segundo

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A idia apresentada nesse particular , precisamente, anloga quela que discute a dificuldade relativa efetivao do verdadeiro contedo do princpio republicano. Vale dizer, o processo que culminou no advento da Repblica e os anos que se seguiram no foram capazes de desconstituir as razes histricas responsveis pelos efeitos que lhe so antagnicos. A Repblica e a secularizao do Estado foram eventos determinados por condies histricas conjunturais, tais como a disputa pelo poder e a Questo Religiosa.

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dados do IBGE) explica, em parte, a contnua reproduo do discurso em defesa da permanncia dos smbolos religiosos nos prdios pblicos. A questo dos smbolos religiosos no espao pblico no passvel de ser adequadamente compreendida mediante uma anlise exclusivamente jurdica. Numa palavra, deve-se buscar o significado dos smbolos religiosos e os possveis efeitos de sua representao no espao pblico, de modo que se torne possvel, seno atingir a concluses acerca da sua constitucionalidade luz do princpio da laicidade do Estado, formular os questionamentos mais pertinentes, apropriados ao debate democrtico.

V. O problema dos smbolos religiosos no espao pblico brasileiro

1.Generalidades O tema dos smbolos religiosos no espao pblico de crucial relevncia devida concepo do sentimento de pertena comum dos cidados em relao a uma determinada coletividade poltica20. Sobretudo, porque as expresses simblicas que o Estado ostenta em seus domnios devem traduzir elementos identitrios comuns a todos os membros da respectiva sociedade. Nessa esteira, no plano do Estado laico e republicano impe-se reconhecer que a crena das minorias no se v representada por smbolos confessionais especficos, sendo inequvoco que esses somente mantm um vnculo de legitimidade com relao ao grupo de seguidores que professam tal crena. Por isso, a laicidade do Estado deve assegurar um espao comum neutro e emancipado de expresses desagregadoras, as quais porventura sejam pertinentes s conscincias identitrias de um grupo determinado em detrimento da dos demais 21. Importa esclarecer que o sentimento e a orientao religiosa das minorias devem estar imunes a manifestaes do Estado nesse campo: para ser capaz de respeitar as crenas de todos os20

CASAMASSO, Marco Aurlio Lagreca. Poltica e Religio: o Estado laico e a liberdade religiosa luz do Constitucionalismo Brasileiro. Tese para obteno do ttulo de doutor pela Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo, PUC/SP, Brasil, apresentada em 2006, p.331. 21 Observe-se, quanto idia pontuada, que sempre que h privilgio de qualquer natureza a um grupo religioso determinado, tal se d com a excluso necessria dos demais. Isso porque no h como, a partir do estabelecimento de uma crena religiosa, forjar uma relao de identidade com outra.

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cidados bem como a faculdade que lhes compete para no crer o Estado deve abster-se completamente de proclamar qualquer forma de religiosidade.

2. Uma aproximao semitica e o conceito de crucifixo Com vistas ao bom seguimento do exame a respeito da legitimidade e da constitucionalidade da presena de crucifixos no espao pblico brasileiro, parece indispensvel um estudo a respeito do conceito de smbolo religioso e da significao, em particular, do crucifixo como emblema representativo do discurso da Igreja de Roma. Nesse contexto, de acordo com o ponto-de-vista semitico, smbolo a espcie de signo que funciona como um simulacro livre, construdo pelo conhecimento, com a inteno de dominar o mundo da experincia sensvel e capt-lo como um mundo organizado de acordo com determinadas leis22. Em outras palavras, o smbolo uma forma representativa plenamente artificiosa, estabelecida arbitrariamente, pois no guarda nenhuma relao necessria com o dado material a que pretende remeter23. assim, portanto, com os signos matemticos e com as palavras: em funo de pura conveno epistemolgica, esses smbolos referem-se aos dados sensveis por eles simulados. Com base nessa premissa conceitual, torna-se possvel dizer que o assim designado smbolo religioso , em verdade, um signo no-convencionado. Isso equivale a afirmar que o signo religioso conecta-se atravs de uma relao necessria com a representao mental que pretende produzir (histria, valores e regras da religio a que se refere). H, portanto, uma relao espontnea e, por isso, independente de construes arbitrrias entre significante (realidade material, v.g., o crucifixo) e significado (representao mental produzida, v.g., valores cristos, sofrimento de Cristo, etc.).22

CASSIRER, Ernst. A filosofia das formas simblicas, Primeira Parte; traduo de Marion Fleischer. So Paulo: Martins Fontes, 2001, pp. 30 e ss. Nesse sentido, a anlise acerca do smbolo prossegue: Mas no que respeita aos dados sensveis propriamente ditos, nada corresponde a estes simulacros. Mas, embora no exista tal correspondncia talvez pelo fato de ela no existir -, o mundo conceitual da fsica est completamente fechado em si mesmo. Cada conceito individual, cada simulacro e signo particulares se equiparam palavra articulada de uma linguagem que possui um significado e um sentido em si prpria, e organizada de acordo com regras fixas. 23 Em sentido diverso da tradicional concepo de smbolo, cf. COMTE-SPONVILLE, Andr. Dicionrio Filosfico; traduo de Eduardo Brando. So Paulo: Martins Fontes, 2003, p. 551. Segundo o filsofo francs, o smbolo um signo no arbitrrio, mas tambm no essencialmente convencionado, que tosomente sugere a representao mental a qual pretende aludir.

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No que tange especificamente ao crucifixo signo religioso que protagoniza a problemtica das formas simblicas confessionais no ambiente pblico brasileiro convm ilustrar que ele representa a imagem de Jesus Cristo pregado na cruz, conceito do qual se deve partir. A relao entre o crucifixo e a doutrina catlica provm de uma deduo histrica e de um convencionamento institucional, pois se sabe que a Igreja Catlica fundamenta-se nos ideais e valores construdos a partir da biografia de Cristo, seu sofrimento e sacrifcio. De todo modo, o crucifixo atrai uma conotao simblica por ter sido o smbolo adotado pela Igreja Romana: ele passa a representar, dessa maneira, a espcie catolicismo, e no o gnero cristianismo. Naquele mesmo sentido, a doutrina teolgica aponta a cruz como o signo que reproduz a sntese histrica da vida de Jesus Cristo, quem raiz do pensamento e da f da religio Catlica Apostlica Romana: Em sentido figurado e teolgico, a cruz o resumo da verdadeira vida crist, enquanto essa, em desapego, humilhao e sofrimentos deve ser uma imitao dos sofrimentos e da cruz de Jesus. (...) Assim, a cruz meio e smbolo da unio moral e mstica do homem com Cristo.24

Dessa maneira, verifica-se a conexo histrica da cruz com a morte de Jesus Cristo25, tornando-se indissocivel das idias e valores cristos o seu contedo simblico. Assim, definir o crucifixo pressupe compreender adequadamente a representao de Cristo em seu instrumento de martrio, revelando-se, ento, todo um contedo de doutrina religiosa extrado a partir da. Trata-se, pois, de um signo que no pode ser esvaziado de seu teor religioso sob pena de se esfacelar sua natureza. Em sntese, faz-se necessrio pontuar que o crucifixo um cone dos valores cristos e um smbolo da Igreja Catlica Apostlica Romana. Importa admitir, por outro lado, a estrutura polissemntica do crucifixo, assim como de outros signos religiosos. Ele exterioriza, para alm de seu sentido puramente religioso, valores e concepes que concorreram, ao longo do curso da Histria, para a formao do24

DE FRAINE, J, In: Dicionrio Enciclopdico da Bblia / organizado por A. Van Den Born. 6. ed. Petrpolis, RJ: Vozes, 2004, p. 338. 25 DANILOU, J. In: Dicionrio de Teologia Bblica / organizado por Johannes B. Bauer, Volume I. 3 ed. So Paulo, SP: Edies Loyola, 1984, pp. 240 e ss.

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ser ocidental, seus costumes e fundamentos civilizatrios. A questo que se pe, contudo, pertinente ao propsito pblico de sua exibio nos estabelecimentos oficiais. Com efeito, a busca de um conceito mnimo atribuvel ao crucifixo, com recurso, inclusive, semiologia e doutrina teolgica apresenta especial relevncia na medida em que evidencia a prevalncia de uma inteno confessional a par de um consistente propsito secular em sua reproduo. Por isso, a concluso premente de que quando o Estado ostenta tal signo em seus edifcios oficiais, imediatamente assume como seu o contedo por ele ensejado e expressa sua preferncia pelo catolicismo apenas uma dentre as vrias religies professadas pela sociedade brasileira26. Vale dizer, afixados nas paredes das dependncias pblicas, os crucifixos no representam uma cultura ou tradio, mas uma espcie de referncia ltima para o Estado e para a cidadania, sugerindo haver uma conexo essencial entre o poder estatal e o poder divino, o que inaceitvel para os padres de laicidade27. Para as minorias religiosas e no-crentes, o crucifixo , antes de mais nada, uma representao emblemtica da religio catlica. Sua institucionalizao atravs de exposio onipresente na estrutura pblica traduz-se em prtica excludente porque renega a heterogeneidade de convices religiosas que caracteriza a sociedade brasileira.

3. Smbolos religiosos e espao pblico: uma relao inconstitucional Conforme ressaltado anteriormente, o princpio da laicidade do Estado colabora de modo decisivo para a efetividade do princpio republicano, postando-se como verdadeiro pressuposto sua real concretizao. Sua funo , justamente, garantir um espao livre das diferenas e interesses do sectarismo religioso e assegurar sociedade o pleno exerccio da pluralidade religiosa. Para tanto, deve abster-se de manifestar qualquer inteno de sentido26

Em sentido diametralmente oposto ao aqui defendido, ver ALEZ CORRAL, Benito, Smbolos Religiosos y Derechos Fundamentales en la Relacin Escolar, In: Revista Espaola de Derecho Constitucional, Ao 23, Num. 67, Enero-Abril 2003: Lo mismo cabe decir de la tan aparentemente clara significacin religiosa de un crucifijo en un centro escolar, de la indumentaria que llevan determinados professores en los que concurre la condicin de clrigos, o de un beln navideo realizado durante las actividades escolares. Si cualquiera de estos smbolos es considerado como religioso, y portanto expressivo de una creencia religiosa, su posicin jurdico-constitucional vendr determinada por representar una manifestacin de la liberdad religiosa garantizada en el art. 16 CE. 27 CASAMASSO, Marco Aurlio Lagreca. Op. Cit., pp. 336 e 337.

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religioso, manter-se neutro em face do fenmeno religioso e criar condies para que os cidados sintam-se legitimados pela ordem instituda atravs de laos nacionais, do exerccio da soberania popular e do provimento de polticas sociais de incluso, e no por conta de fatores religiosos. A existncia de smbolos religiosos nas paredes de prdios pblicos brasileiros representa um problema real. Por todo o pas, a estrutura estatal mantm afixados crucifixos em salas de Tribunais, Assemblias Legislativas estaduais, cmaras legislativas municipais, escolas pblicas e reparties da Administrao Pblica direta e indireta, entre outros. Interessante notar que at mesmo no Congresso Nacional e no Supremo Tribunal Federal, rgos institucionais de nvel nacional, mantm crucifixos em suas dependncias. Nesse quadro, a manuteno irrefletida desses signos no espao do Estado exprime a falta de esprito republicano por parte dos administradores e a inexistncia de uma postura ativa por parte da sociedade em torno da questo28, alm de demonstrar uma subliminar aliana entre Estado e instituio religiosa. A bem da verdade, essa situao demonstra uma tentativa regredida de os agentes pblicos e representantes eleitos legitimarem seus atos por intermdio da cumplicidade acobertadora dos dogmas religiosos. Buscam, com os destinatrios de seus atos funcionais, uma empatia fundada no em critrios racionais ou polticos, mas no compartilhamento da crena religiosa hegemnica no contexto social29. Segundo a lio da professora ELISA OLIVITO, a sua exposio sugere, de modo subliminar, uma implcita correspondncia entre ensinamento escolar e verdade da Igreja, entre justia divina e justia terrena, entre poder civil e religio catlica30.

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Dessa situao, so notveis excees o juiz gacho Roberto Arriada Lorea e a ONG Brasil para Todos (www.brasilparatodos.org). 29 De fato, na esfera da teoria psicanaltica, Sigmund Freud considerava a religio como a doena infantil da Humanidade. Cf., como sntese desse pensamento, FREUD, Sigmund. O futuro de uma iluso in Edio Standard Brasileira das Obras Psicolgicas Completas de Sigmund Freud, vol. XXI. Trad. Jos Octvio de Aguiar Abreu Rio de Janeiro: Ed. Imago, 1974. 30 OLIVITO, Elisa. Laicit e Simboli Religiosi nella sfera pubblica: esperienze a confronto. In: Diritto Pubblico, 2004, vol. 2 Scienza e diritto. Profili di inconstituzionalit della legge sulla procreazione assistita. Stato laico e simboli religiosi: il crossifisso e il velo. Autonomia universitria, valutazione e responsabilit. Ed. Il Mulino, p. 564, em traduo livre. No original: La sua esposizione suggerisce, in modo subliminale, uminplicita corrispondenza tra insegnamento della scuola e verit della Chiesa, tra giustizia temporale e giustizia divina, tra potere civile e religione catolica. Ao final da anlise, a autora conclui seu raciocnio: Non resta che uma soluzione: assicurare la neutralit visiva di tutti i luoghi publici.

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Por outro lado, necessrio reafirmar que o art. 19, inciso I, da Constituio Federal veda o estabelecimento de cultos, sua subveno e a formao de relao de aliana e dependncia com entidades religiosas, instaurando um regime de estrita separao entre instituies pblicas e estabelecimentos confessionais. No h, de fato, como ignorar a subveno do sentimento religioso catlico na existncia de crucifixos nas paredes do Estado, alm do estabelecimento de uma aliana mesmo que velada com a Igreja Romana. Acrescente-se, ainda, que o artigo 13, 1, da Constituio31 dispe a bandeira, o hino, as armas e o selo nacionais como nicos smbolos da Repblica, de onde se conclui que no h margem para que o Estado brasileiro seja representado por quaisquer outras formas simblicas32. Demais disso, o direito fundamental liberdade religiosa garantido

constitucionalmente faz surgir um direito pblico subjetivo de se exigir que o Estado se comporte de maneira a respeitar sua conscincia religiosa particular, impondo que no manifeste afinidade com essa ou aquela f em detrimento das outras. No basta, dessa forma, que o Estado assegure o livre exerccio religioso ele no poder, ao mesmo tempo, expressar aliana, mesmo que de modo subliminar, com uma confisso religiosa especfica , sob pena de corromper o sentimento de identidade dos grupos religiosos minoritrios, dos ateus e agnsticos em relao coletividade, a par de arruinar a situao jurdica de igualdade entre as religies. Aparentemente incua no que diz respeito aos seus efeitos, a atrelao do Estado religio mediante a ostentao de signos produz conseqncias simblicas significativas relacionadas aos poderes e aos deveres jurdicos das instituies pblicas33. guisa de exemplo, o Supremo Tribunal Federal corte constitucional brasileira mantm um crucifixo em seu Plenrio, onde so julgadas, muitas vezes, grandes questes polticas e sociais em que a Igreja Catlica interessada e representa seus dogmas e interesses, tais como o reconhecimento civil das unies homoafetivas, a possibilidade de utilizao de31

Art. 13. A lngua portuguesa o idioma oficial da Repblica Federativa do Brasil. 1 - So smbolos da Repblica Federativa do Brasil a bandeira, o hino, as armas e o selo nacionais. A Lei n 5.700/71, com a redao que lhe foi dada pela Lei n 8.421, de 11 de maio de 1992, regulamenta o referido artigo constitucional, tratando sobre o modo como devero ser apresentados os smbolos nacionais. 32 ARRIADA LOREA, Roberto. Op. Cit., p. 7. 33 Segundo o pensamento de ELISA OLIVITO, Op. Cit., a ostentao de crucifixos nos locais fsicos do Estado gera o efeito subjetivo de criar uma sutil e indireta forma de presso e persuaso da conscincia individual e coletiva.

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clulas-tronco embrionrias para pesquisa e a descriminalizao do aborto, alm de muitos outros. Tal circunstncia, claramente, cria uma situao que potencializa a parcialidade do rgo judicirio ao tornar confortvel a utilizao de argumentos de cunho religioso na prolao de sua deciso, embora, no exerccio do seu dever funcional, o magistrado devesse estar restrito discricionariedade conferida pelas regras postas no ordenamento jurdico. Sem embargo, a mesma lgica pode e deve ser aplicada aos demais Tribunais e rgos judicirios. Quando o assunto, por sua vez, a representao popular, a questo adquire contornos distintos, tornando-se, por conseguinte mais delicada. Por certo, no Estado Democrtico de Direito a soberania popular exercida atravs de representantes eleitos, como forma de instrumentao do princpio democrtico. Nesse sentido, essa representao se d a partir de fundamentos e critrios seculares e parece claro que o argumento religioso jamais pode se firmar, licitamente, como fora no dilogo institucional. Ao conservar um crucifixo em suas dependncias, uma casa de representao popular mitiga, simbolicamente, a eficcia democrtica de sua relao com a sociedade, pois estabelece uma conexo identitria com apenas um grupo religioso em detrimento dos demais, excluindo-os daquela necessria relao. Verifica-se, portanto, que alm de afrontar o princpio constitucional da laicidade do Estado e a liberdade religiosa, a manuteno dos crucifixos no espao pblico brasileiro resulta em srias implicaes a respeito da legitimidade dos atos do Poder Pblico, afora as ofensas aos princpios republicano e democrtico. No se sustenta a vinculao substancial entre o poder estatal e o poder sagrado representada pelos smbolos religiosos no ambiente pblico. Nesse, o sagrado e o profano devem se encontrar imperativamente separados.

4. Os fundamentos contra a retirada dos smbolos religiosos das reparties pblicas Em que pese a atuao de uma srie de movimentos em favor da retirada dos smbolos religiosos do espao pblico, alicerados em princpios e valores amparados pela ordem jurdica e partilhados, ao menos teoricamente, pela sociedade, freqente o desempenho de diversas foras interessadas em conservar o atual estado de coisas e constituir empecilho plena secularizao do ambiente pblico.

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Fundamentalmente, essa posio costuma se expressar a partir de trs argumentos principais: (a) os smbolos religiosos confundem-se com a extensa tradio cultural e histrica dos valores cristos no Brasil; (b) certos smbolos religiosos foram secularizados ao adquirirem, tambm, um significado no-religioso; e (c) a veiculao de signos religiosos no espao pblico tornar-se-ia legtima se nele tambm pudessem ser contemplados signos representativos de outras crenas. Quanto ao argumento da tradio, vale ponderar que, de fato, o crucifixo no Brasil possui forte vinculao com a composio da sociedade por representar os ideais e valores que sedimentaram a construo do Estado e representar a religio dominante no mosaico social. Todavia, remarcou-se anteriormente (captulo V, item II, supra) que o crucifixo possui um contedo religioso mnimo indissocivel de sua natureza, ou seja, ainda que seja capaz de agregar outros valores e associar-se ao legado histrico e cultural brasileiro, continuar representando o sentimento religioso de um grupo especfico, excluindo dessa relao os demais. Ademais, o ponto crucial nessa discusso que a veiculao dos crucifixos, padronizadamente, nos edifcios oficiais no possui um propsito secular; pelo contrrio, demonstra a vontade de se associar as instituies pblicas aos fundamentos da doutrina catlica, fato que inaceitvel sob o prisma da laicidade. Com relao possibilidade de um signo religioso adquirir, para alm de seu contedo meramente religioso, tambm um significado secular, vale reafirmar que esses signos tendem a manter, em geral, um considervel ncleo de sentido religioso. No entanto, nada impede que o significado secular compreendido por um determinado modo de exposio de uma forma simblica religiosa prepondere sobre a sua carga religiosa. Em outras palavras, possvel que um smbolo religioso, expressado de uma determinada maneira, tenha sua expresso religiosa superada pelo valor secular que veicula. A ttulo de exemplo, deve-se citar a esttua do Cristo Redentor na cidade do Rio de Janeiro, que representa mais a cidade e sua histria tendo sido, inequivocamente, agregada paisagem que simboliza o lugar do que as idias e valores cristos34.

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Da se percebe que o curso da Histria foi capaz de constitucionalizar o monumento, que, inaugurado em 12 de outubro de 1931, foi um presente da Frana ao Brasil. Desde ento, a construo adquiriu um significado secular majoritrio, simbolizando mais a cidade atravs da sua paisagem do que valores cristos. de se questionar, por outro lado, se o monumento seria constitucional se fosse construdo nos dias atuais.

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No que concerne ao argumento designado como ecumnico, ele visa a eliminar o problema da restrio ligao identitria entre os grupos minoritrios e o Poder Pblico. Entretanto, no se justifica o esforo para incluir as manifestaes religiosas que no fossem contempladas pelo Estado, j que o espao pblico laico no pode ser apropriado por quaisquer que sejam as intenes religiosas. Ele no deve, como um todo, expressar nenhuma forma de religiosidade. A busca pelos motivos pelos quais se manifesta uma tendncia a conservar a influncia da Igreja Catlica no cotidiano da esfera pblica brasileira impe o reconhecimento de que existe, nessa defesa, uma pr-concepo a propsito do tema por parte desses agentes, que, partindo de um pr-juzo, vo em busca dos argumentos necessrios garantia de seu interesse. Se certo, por um lado, que essa pr-compreenso comum a todo intrprete, por outro, quando o sentimento religioso a fora motriz que guia aquela defesa, as razes envolvidas possivelmente transcendero os lindes da racionalidade e no mais podero ser debatidos em face de princpios jurdicos, concepes polticas ou argumentos filosficos e sociolgicos.

5. Casos concretos referenciais Devido ao fato de ser extremamente escassa a discusso judicial a respeito da questo da veiculao de smbolos religiosos no espao pblico, no se pode falar, precisamente, na existncia de uma jurisprudncia sobre o tema no pas. Com efeito, os debates travados pela sociedade civil ainda so incipientes e o Poder Judicirio parece no se sentir suficientemente confortvel para avaliar essa questo com a devida profundidade, configurando-se agente reprodutor da realidade vigente. No obstante, h determinados casos-referncia submetidos ao controle

jurisdicional, representados por raras aes judiciais e alguns procedimentos no mbito da administrao do Poder Judicirio, alm de iniciativas do Ministrio Pblico, os quais sero analisados mais adiante. Antes, porm, se afigura imprescindvel buscar na experincia constitucional norte-americana as bases jurisprudenciais para a apreciao de casos pertinentes presena dos smbolos religiosos no mbito do Estado. Isso porque a Suprema Corte dos Estados Unidos vem sendo acionada, ao longo dos ltimos quarenta anos, no 20

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sentido de avaliar questes inseridas no campo da laicidade estatal e da liberdade religiosa, tendo consolidado uma densa construo pretoriana sobre a matria. Como ponto de partida, o caso Stone v. Graham35 teve por objeto a fiscalizao da constitucionalidade de uma lei do Estado do Kentucky a qual determinou a exibio de uma cpia dos Dez Mandamentos em todas as salas de aula pblicas. Avaliou-se, assim, a legitimidade da influncia de um smbolo religioso no ambiente pblico escolar em face da clusula do no-estabelecimento36 prevista pela Primeira Emenda Constituio norteamericana. A lei, cabe observar, foi questionada por um grupo de pais insatisfeitos com o que entenderam significar excessiva ingerncia religiosa na formao educacional de seus filhos. Em uma deciso por maioria (5 votos a 4), a Suprema Corte entendeu que a lei estadual no passou na primeira etapa do Lemon Test, exame paradigmtico firmado no precedente histrico Lemon v. Kurtzman37. Segundo o juzo majoritrio da corte, a exigncia de se postar cpias dos Dez Mandamentos nas salas escolares no foi capaz de apresentar um propsito secular, em especial porque os mandamentos no se restringem a aspectos seculares e abrangem questes como o culto a Deus e o respeito ao dia de descanso. Observe-se, aqui, a preocupao em perceber a finalidade do elemento religioso a fim de que se possa entender se h ou no envolvimento estatal com a religio e o dissenso entre os magistrados componentes do Tribunal: o carter delicado da questo tornou o entendimento de cada um dos julgadores crucial para o resultado final, sendo notria a influncia dos pr-juzos e das posies ideolgicas condicionantes dos magistrados na apreenso da matria. Outro leading-case referente aos smbolos religiosos no espao pblico o julgado Lynch v. Donnely38, em a Suprema Corte afirmou a constitucionalidade de uma representao natalina, compreendida por um prespio com as figuras de Jesus, Maria e Jos, disposta em um parque municipal da cidade de Pawtucket, no estado de Rhode Island. Mesmo admitindo que o prespio trazia identificao com uma f especfica, a corte no encontrou conflito com a clusula do no-estabelecimento, vista de que sua exposio35 36

449 U.S. 39 (1980). Establishment Clause, no original. 37 403 U.S. 602, 614, 91 S.Ct. 2105, 2112, 29 L.Ed.2d 745 (1971). 38 465 U.S. 668, 104 S.Ct. 1355 (1984).

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pblica estava inserida no contexto das festividades do Natal, celebrao arraigada na cultura ocidental por vinte sculos e no povo americano por dois sculos. Quanto a essa deciso, sua fundamentao residiu basicamente em argumentos que ligaram a responsabilidade do Estado religiosidade do povo, herana cultural e, inclusive, s instituies, tpico da corrente que defende a adoo de vias possveis para a acomodao de elementos religiosos na vida do Estado. Nesse particular, necessrio ressalvar que se trata de uma situao em que um signo religioso foi exposto temporariamente, em funo das festividades natalinas e que no demonstrou uma conexo ntida com o Estado, j que no foi disposto em um prdio oficial. Por isso, esse caso se distingue, flagrantemente, das caractersticas determinantes da questo brasileira, objeto do presente trabalho. Por fim, a matria dos signos religiosos no espao pblico constituiu o objeto de dois casos julgados pela Suprema Corte em 2005. Cabe, aqui, analis-los conjuntamente, uma vez que possuem caractersticas muito semelhantes, julgados e discutidos no mesmo dia, havendo-se, no entanto, atingido resultados antagnicos por conta de um dos justices identificar um elemento distintivo entre os dois. Por um lado, no caso Mcreary County, Kentucky et. al. V. American Civil Liberties Union of Kentucky et. al., a Corte julgou inconstitucional, por 5 votos a 4, a afixao de figuras dos Dez Mandamentos em cortes judiciais locais, por entender que aquela representao no apresentava qualquer propsito secular. Com efeito, o que caracterizou a inconstitucionalidade na viso da corte foi o fato de tais representaes, patrocinadas pelo governo, serem padronizadamente reproduzidas em salas de julgamento e estarem acompanhadas de documentos histricos que continham menes religiosas, razo pela qual as figuras denunciaram uma clara inteno religiosa, no se conformando, assim, com a clusula do no-estabelecimento. Por outro lado, no caso Van Orden v. Perry, o Tribunal, composto pelos mesmos juzes, decidiu pela manuteno de um monumento artstico com a inscrio dos Dez Mandamentos em uma dependncia do Congresso do Estado do Texas, atingindo concluso antagnica anterior. Na deciso, por 5 votos a 4, pesou o voto do Justice Breyer, que encontrou um elemento distintivo entre os dois casos e proferiu voto diverso ao seu

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entendimento anterior: havia, a seu ver, um significado cultural na permanncia daquele smbolo, que havia sido recebido com presente em 1961 e nunca tinha sido objeto de questionamento. Atingiu-se, assim, a concluso de que restava verificado um propsito secular naquele monumento, o qual, sobretudo, fora legitimado pelo tempo. Elaborados os comentrios pertinentes sobre a experincia jurisprudencial norteamericana, cabe agora apontar algumas tentativas emblemticas de impugnao seja pela via judicial, seja pela administrativa da ostentao de crucifixos em paredes de Tribunais e casas legislativas no Brasil. Merece destaque, nesse contexto, o Mandado de Segurana n 13.405-039, impetrado perante o Tribunal de Justia do Estado de So Paulo contra ato do Presidente da Assemblia Legislativa, que determinara a retirada sem oitiva prvia do Plenrio o crucifixo colocado na sala da Presidncia da Assemblia. Importa afirmar que o acrdo no ingressou no mrito do ato, limitando-se a esclarecer ser matria de mbito estritamente administrativo, constituindo, ademais, ato incuo para violar o disposto no inciso VI do artigo 5 da Constituio da Repblica. Em que pese a deciso do Tribunal, interessante atentar para as razes que motivaram o voto vencido do Desembargador FRANCIS DAVIS, o qual ressaltou ser a cruz um predicado do povo de So Paulo, textualmente: O crucifixo existente na Presidncia da Augusta Assemblia Legislativa uma exteriorizao dos caracteres do Povo de So Paulo. a representao de um prembulo da prpria Constituio deste Estado, outorgada com invocao da proteo de deus. , ainda, a exteriorizao de um Povo que, como deve, cultua sua histria, tendo sempre presente que o Brasil, desde o seu descobrimento, o Pas da Cruz. Isto , a Ilha da Vera Cruz, e depois, a Terra de Santa Cruz, indicao, em ltima anlise, de um povo espiritualista, nunca materialista. Cabe ao Senhor deputado impetrante defender, na Casa das Leis, esse smbolo representativo do Povo de So Paulo, que, ao eleg-lo, outorgou-lhe legitimidade bastante para a defesa, na Assemblia, dos predicados e interesses de So Paulo, dentre os quais seus caracteres religiosos (independentemente do credo individual) e histrico.

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RJTJESP 134/370.

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Alm desse, deve-se atentar para quatro pedidos de providncia40 elaborados pela ONG Brasil para Todos e submetidos ao Conselho Nacional de Justia (CNJ), requerendo a retirada de crucifixos de dependncias dos rgos do Poder Judicirio. O relator do processo, conselheiro Paulo Lobo, votou no sentido de se formular uma consulta pblica disponvel na internet visando a aprofundar os debates sobre o assunto. Todavia, o conselheiro Oscar Argollo abriu divergncia para apreciar o mrito da questo e determinar a no proibio dos smbolos religiosos, sendo seguido por todos os demais conselheiros presentes exceo do relator. Assim, mesmo aps provocao, o Poder Judicirio optou por perpetuar a ostentao de crucifixos nas paredes dos seus rgos, conservando uma situao que j comea a integrar os debates sobre republicanismo e democracia.

VI. Concluso O entendimento de que a existncia de crucifixos ou de quaisquer outros smbolos religiosos no espao pblico brasileiro inconstitucional e o movimento pela sua retirada no so atitudes anticlericais. No representam uma tentativa de renegar os valores histricos e culturais partilhados, e tampouco pretendem abrir confronto com o fenmeno religioso e suas instituies. Distintamente, a devida efetivao dos valores republicano e democrtico exige a plena secularizao do espao pblico, tornando-se imperativa a compreenso do real significado do princpio da Laicidade do Estado e sua implementao atravs de dilogo e polticas pblicas agregadoras voltadas ao interesse pblico. Por isso, a minimizao constante do problema relativo apologia, por parte do Estado, de determinada confisso religiosa atravs de elementos simblicos representa uma ofensa ao estabelecimento de uma relao de pertencimento entre os cidados e a coletividade poltica. Ela revela, sem dvidas, a fragilidade do tratamento concedido aos princpios constitucionais e ao interesse republicano pelos agentes do Estado.

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Pedidos de Providncia n 1344, 1345, 1346 e 1362.

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A partir da investigao traada no presente trabalho, a concluso premente que se atinge exprime a inconstitucionalidade da presena do crucifixo nos locais fsicos do Estado brasileiro, em face do regime de estrita separao entre Estado e religio estabelecido pelo art. 19, inciso I, da Constituio Federal de 1988 bem como do direito fundamental liberdade religiosa, garantido pelo seu art. 5, inciso VI. Nota-se, desse modo, que os rudimentos deixados pelo trajeto histrico de formao do Estado, caracterizado pela intensa e indissocivel fora da Igreja Catlica Apostlica Romana, ainda no foram superados aps mais de um sculo de experincia republicana. Essa concluso se evidencia, mais claramente, pela existncia de entraves e resistncias laicizao do espao pblico, atravs dos quais ainda se busca encontrar uma legitimao subliminar aos atos de Estado a partir de elementos transcendentais.

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