Crucifixos e Tribunais - Sobre o problema dos símbolos religiosos no espaço público brasileiro

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Artigo que analisa a presena de smbolos religiosos - em especial o crucifixo catlico - em prdios e reparties pblicas no Brasil em face do princpio da laicidade do Estado.

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Departamento de Direito

CRUCIFIXOS E TRIBUNAIS: SOBRE O PROBLEMA DOS SMBOLOS RELIGIOSOS NO ESPAO PBLICO BRASILEIROAluno: Daniel Sternick2 Orientador: Fbio Carvalho Leite1

O mais escandaloso dos escndalos aquele a que nos habituamos Simone de BeauvoirI. Delimitao do tema certo que o estudo das relaes que vinculam Estado e Religio requer a devida compreenso do contexto histrico em que esto inseridas, bem como de uma srie de conceitos que lhes so afetos. Constitui objeto de interesse de mltiplos campos do saber, entre os quais a Teologia, a Sociologia, a Filosofia, a Cincia Poltica e o Direito. Em ltima anlise, visa a definir o modo como as instituies polticas devem se comportar perante o fenmeno religioso e seus estabelecimentos. Nesse cenrio, o princpio da laicidade do Estado paradigma jurdico-filosfico comum grande maioria dos Estados ocidentais contemporneos impe uma estrita separao entre os rgos pblicos e as instituies religiosas, de modo que se estabelea a completa autonomia da esfera pblica em relao s autoridades religiosas, s organizaes confessionais, enfim, ao plano do espiritual. Em linhas gerais, o ncleo do Estado Laico encontra seus fundamentos numa concepo secular e no santificada da poltica. Inserido nesse plano de discusses, o ponto central de investigao do presente trabalho tem por escopo o problema dos smbolos religiosos no espao pblico brasileiro, mais notadamente da presena de crucifixos em salas de Tribunais e de cmaras legislativas1

Este trabalho, desenvolvido durante o primeiro semestre de 2007, foi o resultado de uma linha de pesquisa prpria inserida no tema Estado e Religio. Agradeo aos colegas Celina Beatriz Mendes de Almeida, Lia Daylac, Guilherme Van Hombeeck, Gabriela Palhares Pasalacqua, Vanessa Bluvol, Eduarda Azevedo e Bianca Borges pela troca de idias, sempre de altssimo nvel. Em especial, agradeo ao Prof. Fbio Carvalho Leite, que, com dedicao, semeou as inquietaes que tornaram possvel essa pesquisa. 2 Aluno do 7 perodo da Faculdade de Direito da PUC-RIO. Bolsista do Programa Institucional de Bolsas para a Iniciao Cientfica (PIBIC), na linha de pesquisa Estado e Religio, sob a orientao dos Profs. Fbio Carvalho Leite e Carlos Alberto Plastino. Diretor do Centro Acadmico Eduardo Lustosa (CAEL). Integrante da Comisso Executiva da Coordenao Regional dos Estudantes de Direito/RJ. Integrante de Vieira, Rezende, Barbosa e Guerreiro Advogados.

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no pas, tendo em vista o carter majoritariamente catlico da populao e a forte influncia da Igreja Catlica na gnese do Estado Brasileiro. Convm destacar, neste passo, que apesar do ttulo aparentemente restritivo desta dissertao, vislumbra-se analisar a questo da tensa inter-relao travada por smbolos religiosos e espao pblico em tese, o que significa que a inquirio no se confinar questo dos crucifixos nas paredes dos prdios pblicos no Brasil. De fato, o exame das premissas tericas e do fator social que permeiam a ordem jurdica e seu contato com o fenmeno religioso deve permitir a compreenso do tema de maneira abstrata, de tal sorte que as concluses alcanadas sejam dotadas de um mnimo grau de cientificidade. Para tanto, tentar-se-, de incio, demarcar o contedo semntico do princpio da Laicidade do Estado, a fim de que se possa conceber, com clareza, seu alcance normativo assim entendido como sua capacidade de limitar a atuao estatal diante do elemento religioso. Indispensvel, ainda, perquirir os contornos de sua estreita conexo com os princpios democrtico e republicano, os quais, sem dvida alguma, traduzem valores fundantes da ordem jurdica. Em seguida, far-se- um conciso diagnstico do tratamento constitucional conferido laicidade estatal, ou seja, da forma como a Constituio Federal de 1988 se reporta ao dever-ser do Estado no que tange religio. Com a finalidade de compreender as razes da infiltrao de expresses confessionais3 crists na estrutura do Estado Brasileiro, ser tambm realizada uma abordagem histrica da notvel atuao da Igreja Catlica na sua formao, assim como na cultura e no imaginrio da sociedade para, ento, adentrar-se na polmica da existncia de crucifixos em reparties pblicas brasileiras. Aps, ser feita uma interpretao, a partir do ponto-de-vista semitico, das formas simblicas no campo da religio, com o objetivo de identificar o modo como estes signos expressam a histria e os valores das confisses religiosas a que se referem. O objeto especfico desta pesquisa , justamente, perceber as razes capazes de explicar no somente a presena de smbolos religiosos no espao pblico do pas, mas3

Por confessional, pretende-se remeter idia de um credo religioso especfico, particular, compreendido pela doutrina em que se fundamenta e suas instituies.

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tambm o porqu da importncia desse fato ser frequentemente minimizada, no compondo foco de questionamento vista do dever de absteno do Estado face ao fenmeno religioso. Muito pelo contrrio, a qualquer intentada no sentido da retirada dos smbolos religiosos das paredes do Estado, contrapem-se reaes dos mais diversos estilos: negao da existncia do problema, afirmao do carter religioso da sociedade e associao do smbolo religioso cultura e tradio de determinado grupo social, entre outros.

II. A Laicidade do Estado, a liberdade religiosa e o princpio republicano A separao entre Estado e Igreja foi resultado de um movimento histrico que, gradualmente, afastou as atividades humanas das especulaes teolgicas, transformando profundamente os valores que marcavam, predominantemente, as estruturas sociais e polticas vigentes. Seguramente, o processo de secularizao do aparato jurdico-poltico exerceu influncia determinante na formao das sociedades modernas, sendo possvel identific-lo a partir do Iluminismo quando o Homem racionalizou seu mtodo de pensamento, erodindo o referencial religioso e deslocando sua ateno do plano transcendental lgica emprica e cincia. De fato, o trajeto histrico da formao do Estado Moderno evidencia sua intensa relao com a religio e suas instituies. Importa ressaltar, nesse ponto, que o fundamento de legitimidade do poder poltico residia em concepes sacrossantas, razo pela qual comunidade poltica e estabelecimento religioso mantinham-se unificados por uma necessidade lgica de dar coerncia sistmica s tcnicas de dominao. Essa tnue linha que distingue a evoluo histrica do Estado e das estruturas religiosas se torna ainda mais flagrante na medida em que a tcnica de disciplina da convivncia social adotada pelo primeiro decorrncia da apropriao das teias prescritivas do campo religioso, fenmeno que ocorreu atravs da desmistificao das regras eclesisticas4.4

Vale observar que a prpria arquitetura do Direito, viabilizada pela estrutura binria que divide a norma jurdica entre hiptese e conseqncia, decorrncia direta das formas normativas do Direito Cannico. Cf., nesse sentido, SCHMITT, Carl. Political theology: four chapters on the concept of sovereignty /. Cambridge, Mass.: MIT Press, 1985; e MOREIRA, Luiz. A Constituio como Simulacro. Rio de Janeiro: Editora Lmen Jris, 2007: Do ponto de vista normativo, o Estado moderno ser o herdeiro ftico e simblico daquilo que garantiu a unidade jurdico-poltica do Ocidente. Trata-se da incorporao, por parte do

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possvel afirmar que o princpio da laicidade do Estado traduz um sobrevalor fundamental que caracteriza as organizaes polticas modernas e impe ao Poder Pblico um dever jurdico de neutralidade face ao fenmeno religioso, precisamente, ao restringir a religio vida e conscincia privada. Tal dissociao encontra seu fundamento, em especial, na permanente preocupao com a limitao do exerccio do poder, to cara ao constitucionalismo democrtico. Com efeito, o apartamento entre Estado e religio significa a derrocada do monoplio religioso, havendo-se por conseqncia a extino dos privilgios que a religio majoritria pudesse usufruir em funo de sua aliana poltica com o Poder Pblico. Assim, as diferentes doutrinas e confisses religiosas que emergem do meio social passam a partilhar de um mesmo estatuto jurdico, encontrando-se ao menos no plano formal em uma desejvel condio de igualdade. Conforme essa linha de raciocnio, do advento da modernidade decorre que as instituies religiosas no podem mais aspirar a conduo das sociedades. Suas atividades, nas palavras de DANILE HERVIEU-LGER, no se exercem seno no interior de um campo religioso especializado e no tem abrangncia para alm de um grupo determinado de crentes voluntrios. O sentimento religioso se torna, quando subsiste, um assunto individual. A crena religiosa perde seu papel determinante na formao da identidade individual e coletiva5. Corolrio bsico do princpio da laicidade do Estado, a liberdade religiosa configura garantia individual indispensvel composio democrtica e republicana da comunidade poltica. Ela representa, em ltima anlise, um mecanismo constitucional contramajoritrio que resguarda a esfera do sentimento religioso do indivduo, posto que assegura o livre exerccio de crena, dos cultos e liturgias, fomentando as bases para uma realidade de pluralidade e tolerncia no campo religioso.

Estado, do aparato existente em torno da confisso, segundo a qual as normas externas so incorporadas pela conscincia dos crentes, de modo a permitir-lhes uma unidade prescritiva. 5 HERVIEU-LGER, Danile. Croire en modernit, Au-del des la problmatique des la champs religieux et politique Apud ARRIADA LOREA, Roberto, O controle religioso do Poder Judicirio o uso do crucifixo como smbolo nacional pelo STF, extrado da internet (www.brasilparatodos.org/wp-content/uploads/artigolorea.doc). Acesso em: 15.07.2007.

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Nesse contexto, a anlise atenta dos contornos desse direito fundamental permite notar que seu alcance normativo abrange a faculdade de crer em uma doutrina religiosa especfica, de escolher a maneira pela qual a religio influir na vida privada, bem como a liberdade para no crer atesmo ou agnosticismo , alm da apostasia, assim entendida como o direito a renunciar a uma determinada f. Em linhas gerais, a liberdade religiosa consagra o livre-arbtrio conduo da vida religiosa, abarcando a liberdade para crer, a liberdade de como crer e a liberdade em face do fenmeno religioso6. Conclui-se, assim, que o Poder Pblico tem um dever de no interferncia na esfera religiosa no sentido de no ingerir na forma como os cidados e as instituies religiosas conduzem sua vida espiritual, bem como no dirigir suas aes com fundamento em premissas religiosas ao passo que, por outro lado, tem a obrigao de garantir o livre exerccio do sentimento religioso, protegendo-o de eventuais e ilegtimas restries que possam surgir no meio social7. De acordo com as noes tericas delineadas, v-se que o Estado encontra-se impedido de manifestar sua vontade quando o assunto religio8, j que nada pode em matria puramente espiritual9. De modo anlogo, deve tratar com bastante cautela as possveis influncias das instituies religiosas no dilogo poltico, sendo certo que o papel da religio no espao pblico detm importncia significativamente reduzida. Estabelecidas, ento, as premissas histricas e conceituais necessrias ao adequado prosseguimento do presente estudo, pretende-se avaliar a constitucionalidade, a adequao e a legitimidade da existncia de smbolos religiosos nos prdios e reparties pblicas, uma vez que a conexo entre caracteres confessionais especficos e o espao pblico no parece conformar-se com o dever jurdico do Estado de abster-se do fenmeno religioso, impondo-se-lhe uma posio de neutralidade relativamente s diferentes formas de religiosidade. De fato, este problema se expressa mais comumente no Brasil atravs da manuteno de crucifixos em salas de Tribunais, Assemblias Legislativas e reparties6

O termo em ingls aclara melhor a idia: freedom from religion, a significar a liberdade para no professar nenhuma f e o direito de resguardar seu espao privado da influencia religiosa. 7 certo, no entanto, que existem restries de ordem pblica, inclusive promovidas pelo Estado. Assim que a manifestao da liberdade religiosa no exprime um direito absoluto, mas passvel de ponderao no caso concreto: garante-se, guisa de exemplo, o poder de polcia do Estado. 8 De fato, o Estado no deve manifestar vontade quando o assunto religio. O Estado no pessoa capaz de professar f. Nesse sentido, a sociedade pode ter religio, mas o Estado, no. 9 LOCKE, John. Epistola de tolerantia, 1689.

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pblicas em geral, fato que se deve, certamente, expressiva maioria catlica na populao brasileira, tradio crist que permeou o processo social e determinante influncia da Igreja Catlica Apostlica Romana na gnese do Estado Brasileiro. Passamos, a seguir, a um breve estudo do tratamento constitucional conferido laicidade estatal e liberdade religiosa pela Constituio Brasileira de 1988, para que se possa compreender de que forma o ordenamento jurdico brasileiro dispe sobre a separao entre Estado e religio e como tal disciplina limita a atuao do Poder Pblico no que diz respeito s questes religiosas, especialmente sobre a inter-relao entre signos religiosos e a coisa pblica.

III. O tratamento constitucional da laicidade e da liberdade religiosa De incio, afigura-se necessrio observar que no se vislumbra, aqui, traar um minucioso panorama acerca das disposies constitucionais que dispem sobre a religio e seus pontos de contato com o Estado. Diversamente, objetiva-se to-somente contextualizar o tema apontando, minimamente, o modo pelo qual a ordem jurdica brasileira vigente versa sobre as relaes entre Estado e Religio. A Constituio Federal de 1988 trata de modo singelo o princpio da laicidade do Estado, possivelmente porque seu contedo j se encontra intimamente relacionado com o princpio republicano, edificado como princpio fundamental da Repblica. Com efeito, a forma de governo republicana impe que o Estado seja de todos e exista para todos, sendo a coisa pblica administrada pelo povo, que o detentor ltimo do poder soberano. A res pblica, portanto, no pode ser aprisionada por interesses sectrios e tem como destinatrio legtimo o interesse da coletividade. O princpio da laicidade do Estado expressamente determinado pelo texto constitucional atravs de uma vedao: Art. 19. vedado Unio, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municpios: I estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencion-los, embaraar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relaes de dependncia ou aliana, ressalvada, na forma da lei, a colaborao de interesse pblico; (...) 6

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Do dispositivo constitucional transcrito extrai-se que o Estado brasileiro no pode estabelecer, em sentido amplo, cultos ou instituies religiosas: isso significa que lhe proibido criar religies ou empreender prticas religiosas, ou mesmo atrelar figura do Estado as prticas e instituies religiosas correntes na sociedade....

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