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Download CRNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA -   Crnica de uma morte anunciada Ttulo Original: Crnica de uma muerte anunciada Traduo: Tefilo de Deus Data da Digitalizao: 2004

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  • CRNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA

    - 1983 -

    Gabriel Garca Mrquez

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    W W W . S A B O T A G E M . R E V O L T . O R G

    Autor: Gabriel Garcia Marques Ttulo: Crnica de uma morte anunciada

    Ttulo Original: Crnica de uma muerte anunciada

    Traduo: Tefilo de Deus

    Data da Digitalizao: 2004

    Data Publicao Original: 1983

    Esta obra foi digitalizada, formatada, revisada e liberta das excludentes convenes mercantis pelo Coletivo

    Sabotagem. Ela no possui direitos autorais pode e deve ser reproduzida no todo ou em parte,

    alm de ser liberada a sua distribuio, preservando seu contedo e o nome do autor.

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  • No dia em que iam mat-lo, Santiago Nasar levantou-se s 5 e 30 da manh para esperar o barco em que chegava o bispo. Tinha sonhado que atravessava uma mata de figueiras-bravas, onde caa uma chuva mida e branda, e por instantes foi feliz no sono, mas ao acordar sentiu-se todo borrado de caca de pssaros. "Sonhava sempre com rvores", disse-me a me, Plcida Linero, recordando vinte e sete anos depois os pormenores daquela segunda-feira ingrata. "Na semana anterior tinha sonhado que ia sozinho num avio de papel de estanho que voava sem tropear por entre as amendoeiras", disse-me. Tinha uma reputao bastante bem ganha de intrprete certeira dos sonhos alheios, desde que lhos contassem em jejum, mas no descobrira qualquer augrio aziago nesses dois sonhos do filho, nem nos restantes sonhos com rvores que ele lhe contara nas manhs que precederam a sua morte.

    Santiago Nasar tambm no reconheceu o pressgio. Dormira pouco e mal, sem despir a roupa, e acordou com dores de cabea e com um sedimento de estribo de cobre na boca, e interpretou-os como estragos naturais da farra de casamento que se tinha prolongado at depois da meia-noite. E mais ainda: as muitas pessoas, com quem se encontrou desde que saiu de casa s 6.05 at ser despedaado como um porco uma hora depois, recordavam-no um bocado sonolento mas de bom humor, e a todas comentou de modo fortuito que fazia um dia lindo. Ningum tinha a certeza de ele se referir ao estado do tempo. Muita gente coincidia na recordao de que era uma manh radiante com uma brisa marinha que chegava por entre os bananais, como era de admitir que assim fosse num bom Fevereiro daquela poca. Mas a maioria estava de acordo em que fazia um tempo fnebre, com um cu turvo e baixo e um cheiro intenso a guas paradas, e que no preciso instante da desgraa caa uma chuva mida como a que Santiago Nasar vira no bosque do sonho. Eu estava a recompor-me da pndega do casamento no regao apostlico de Maria Alejandrina Cervantes, e quase no acordei com o barulho dos sinos tocando a rebate, porque pensei que os tinham desatado em honra do bispo.

    Santiago Nasar enfiou umas calas e uma camisa de linho branco, ambas por engomar, iguais s que vestira no dia anterior para o casamento. Era roupa janota. No fora a chegada do bispo e teria vestido o fato de caqui e calado as botas de montar com que ia todas as segundas-feiras ao "Divino Rosto", a fazenda de gado que herdara do pai, e que ele administrava com bastante tino, se bem que sem grandes resultados. Quando saa ao monte levava cintura um 357 Magnum, cujas balas blindadas, segundo dizia, podiam rachar um cavalo ao meio. No tempo das perdizes levava tambm os seus apetrechos de falcoaria. No armrio tinha, alm disso, uma espingarda 30.06 Malincher Schonauer, uma espingarda 300 Holland Magnum, uma 22 Hornet com mira telescpica de dois comandos, e uma Winchester de repetio. Dormia sempre como dormiu o pai, com a

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  • arma escondida na fronha do travesseiro, mas antes de sair de casa naquele dia retirou os projteis e p-los na gaveta da mesinha-de-cabeceira. "Nunca a deixava carregada", disse-me a me. Eu sabia disso, e sabia tambm que ele guardava as armas num stio e escondia as munies noutro stio bastante afastado, para que ningum cedesse, nem por acaso, tentao de carreg-las dentro de casa. Era um costume sbio imposto pelo pai desde uma manh em que uma criada sacudiu o travesseiro para tirar a fronha, e a pistola disparou-se ao embater no cho, e a bala escaqueirou o armrio do quarto, atravessou a parede da sala, passou com um estrondo de guerra pela sala de jantar da casa vizinha e converteu em p de gesso um santo em tamanho natural no altar-mor da igreja, do outro lado da praa. Santiago Nasar, ento menino, no esqueceu nunca a lio daquele percalo.

    A ltima imagem que a me guardava dele era a da sua passagem fugaz pelo quarto. Acordara-a, quando tentava encontrar s apalpadelas uma aspirina no armrio do quarto de banho, e ela acendeu a luz e viu-o aparecer na porta com o copo de gua na mo, tal como haveria de record-lo para sempre. Santiago Nasar contou-lhe ento o sonho, mas ela no prestou ateno s rvores.

    -Todos os sonhos com pssaros so de boa sade - disse. Viu-o da mesma rede e na mesma posio em que eu a encontrei

    prostrada pelas ltimas luzes da velhice, quando voltei a esta terra esquecida, tentando reconstituir com tantos estilhaos disperses o espelho quebrado da memria. Mal distinguia as formas em plena luz, e tinha folhas medicinais nas fontes para a eterna dor de cabea que lhe deixou o filho, da ltima vez que passou pelo quarto. Estava de costas, agarrada s cordas do cabeal da rede a ver se se levantava, e havia no escuro o cheiro a baptistrio que me surpreendera na manh do crime.

    Mal eu apareci no vo da porta, confundiu-me com a recordao de Santiago Nasar. "Estava a", disse-me. "Vestia o fato de linho branco lavado s com gua, porque tinha uma pele to delicada que no suportava o estalar da goma." Ficou bastante tempo na rede, mastigando gros de cardamina, at que lhe passou a iluso de que o filho voltara. Ento suspirou: "Foi o homem da minha vida."

    Vi-o na sua memria. Tinha feito 21 anos na ltima semana de Janeiro, e era esbelto e plido, e tinha as plpebras rabes e os cabelos crespos do pai. Era o filho nico de um casamento de convenincia que no teve um s instante de felicidade, mas ele parecia feliz com o pai at este morrer de repente, trs anos antes, e continuou a parec-lo com a me solitria at segunda-feira da sua morte. Dela herdara o instinto. Do pai aprendera desde pequeno o domnio das armas de fogo, o amor aos cavalos e a maestria das aves de presa de alto voo, mas dele aprendera tambm as boas artes da coragem e da prudncia. Falavam rabe entre ambos, mas nunca diante de Plcida Linero para ela se

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  • no sentir posta margem. jamais ningum os viu armados na vila, e a nica vez que trouxeram para a rua os seus falces amestrados foi para fazerem uma demonstrao de altanaria numa quermesse de caridade. A morte do pai forara-o a abandonar os estudos no fim da escola secundria, para tomar conta da fazenda familiar. Pelos seus mritos prprios, Santiago Nasar era alegre e pacfico, e de corao fcil. No dia em que iam mat-lo, a me pensou que ele se tinha enganado na data, quando o viu vestido de branco. "Lembrei-lhe que era segunda-feira", disse-me. Mas o filho explicou-lhe que se tinha vestido de ponto em branco pensando na hiptese de oscular o anel ao bispo. Ela no deu qualquer mostra de interesse.

    - Nem sequer vai descer do barco - disse-lhe. - D uma bno de compromisso, como sempre, e volta por donde veio. Tem dio a esta terra.

    Santiago Nasar sabia que era verdade, mas os fastos da igreja produziam-lhe um fascnio irresistvel. " como o cinema", tinha-me dito uma vez. me, em compensao, a nica coisa que lhe interessava da chegada do bispo era que o filho se no molhasse, pois ouvira-o espirrar enquanto dormia. Aconselhou-o a levar um guarda-chuva, mas ele deu-lhe um adeus com a mo e saiu do quarto. Foi a ltima vez que o viu.

    Victoria Guzmn, a cozinheira, tinha a certeza de que no chovera naquele dia, nem em todo o ms de Fevereiro. "Qual chuva", disse-me ela quando vim v-la, pouco antes de morrer. "O Sol aqueceu mais cedo do que em Agosto." Estava a espostejar trs coelhos para o almoo, rodeada de ces ofegantes, quando Santiago Nasar entrou na cozinha. "Levantava-se sempre com cara de mal dormido", recordava sem amor Victoria Guzmn. A filha, Divina Flor, que comeava ento a florescer, serviu a Santiago Nasar uma almoadeira de caf estreme com um cheiro de aguardente de cana, como todas as segundas-feiras, para ajud-lo a aliviar a ressaca da noite anterior. A cozinha enorme, com o murmulho do lume e as galinhas adormecidas nos poleiros, tinha uma respirao sigilosa. Santiago Nasar mastigou outra aspirina e sentou-se a beber em sorvos lentos a almoadeira de caf, pensando devagar, sem afastar a vista das duas mulheres que estripavam os coelhos na fornalha. Apesar da idade, Victoria Guzmn estava bem conservada. A menina, ainda um bocado montaraz, parecia sufocada pelo mpeto das glndulas. Santiago Nasar agarrou-a por um pulso quando ela vinha buscar a almoadeira vazia.

    -j ests em boa altura de ser desbravada - disse-lhe. Victoria Guzmn mostrou-lhe a faca tinta de sangue. - Larga-a, branco - intimou em tom srio. - Desta gua no

    bebers enquanto eu for viva. Fora seduzida por lbrahim Nasar em plena adolescncia. Ele

    tinha-a amado em segredo durante anos nos estbulos da fazenda, e

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  • levou-a a servir em casa, quando se lhe acabou o afeto. Divina Flor, que era filha de um marido mais recente, sabia-se destinada cama furtiva de Santiago Nasar, e essa idia provocava-lhe uma ansiedade prematura. "No voltou a nascer outro homem como aquele", disse-me, gorda e gasta, e rodeada pelos filhos de outros amores. "Era o pai chapado", replicou Victoria Guzmn. "Um merdas." Mas no pde evitar um lampejo de espanto ao recordar o horror de Santiago Nasar, quando ela arrancou com um saco as entranhas de um coelho e lanou aos ces essas tripas fumegantes.

    - No sejas bruta -

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