Cristiano Benedito Ottoni - A Emancipação Dos Escravos

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Cristiano Benedito Ottoni - A Emancipao Dos Escravos

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<ul><li><p>Ie ne fay rien sans </p><p>Gayet (Montaigne, Des livres) </p><p>Ex Libris Jos Mindlin </p></li><li><p>) </p><p>tsw&gt; </p><p>/ </p><p>A EMANCIPAO DOS </p><p>PARECER </p><p>C. B. Ottoni. </p><p>M? </p><p>0% </p><p>BIO DE J A N E I R O . </p><p>TypographiaPEESEVEKANArua rio Hospici, n. 91. </p><p> 8 7 4 . </p><p>&gt;6l ,@J </p></li><li><p>( I </p><p>A EMANCIPAO </p><p>DOS </p><p>PARECER </p><p>1)E </p><p>C. B. Ottoni. </p><p>RIO DE JANEIRO. ' </p><p>TypographiaPERSEVEBANA,rua do Hospioio a. 91. </p><p>1871 . </p></li><li><p>ADVERTNCIA. </p><p>As opinies affirmadas neste escripto teem sido por mim sustentadas, bem que mais succinta-mente, em correspondncias de jornaes. </p><p>Em to grave questo parece-me que ningum deve furtar-se responsabilidade do que diz ou escreve. Essa responsabilidade, eu a assumo presentemente. </p><p>Rio de Janeiro, 15 de Julho de 1871. </p><p>om. </p></li><li><p>[. </p><p>H A / A O HE OHOEM. </p><p>Uma injustia do Sr. Conselheiro Sayo Lo-bato Ministro da Justia compellio-me a exter-nar meu parecer sobre a questo do dia ; e d'ahi a necessidade de publicar esta memria. </p><p>S. Ex. pretendendo conciliar a sua posio ac-tual de emancipador com as proposies absolu-tas que avanara em 1867 em defesa da escra-vido , declarou em dous discursos que n'a-quella primeira epocha a sua voz se unira dos liberaes que faziam opposio ao gabinete ds 3 de Agosto ; que como elles S. Ex. s nega-ra ento a opportunidade em relao guerra; e que esse motivo cessou presentemente. </p></li><li><p> 6 </p><p>S. Ex. no concluio, mas em suas premis-sas se contm a concluso, que os taes liberaes que um concurso desgraado de circumstancias collocara a seu lado, esto hoje condemnados a apoiar o seu ministrio. </p><p>Um d'esses condemnados sou eu, que venho appellar da sentena. </p><p>No verdade que o Sr. Conselheiro Sayo Lobato combatesse a ida emancipadora somen-te pela inopportunidade em relao guerra: leiam-se os seus discursos. S. Ex. pedia sesso secreta, na qual a ssembla protestaria que nunca havia de desfechar sobre a lavoura se-melhante golpe. S. Ex. fez sua a opinio do Visconde de Cayr que dizia : Nenhum esforo humano curar este mal; s da Divina Providen-cia pde vir o remdio. </p><p>No tambm verdade que a opposio libe-ral acompanhasse a S. Ex. em taes manifes-taes. </p><p>Minha censura recahia unicamente na pre-cipitao com que em to grave matria, no estudada, no debatida, no iniciada entre ns, o Governo Imperial assumira perante o estran-geiro compromissos solemnes. Nunca me pro-nunciei contra a ida em si, como o Sr. Con-selheiro Sayo Lobato. </p></li><li><p>Como S. Ex. eu tinha n'esse tempo a aspi-rao a uma cadeira no Senado: mas no me sorria conquistal-a cortejando o obscurantismo, lisongeando cegamente o interesse dos senhores de escravos, liberaes e conservadores. </p><p>N'essa occasio, como em outras , exhibi provas de que no sacrificava minhas opinies, nem meu caracter a aspiraes pessoaes. </p><p>E tendo sabido em todas as situaes conser-var-me, graas a Deus, n'esta attitude, de-me que o Sr. Ministro da Justia me quizesse per-filar a seu lado. </p><p>V^nho, pois, imprensa com as minhas opinies de 1867 e 1868, desenvolvidas pelo estudo posterior, venho com a emoo que as circumstancias presentes determinam, venho com a dedicao que professo ao futuro do meu paiz, venho pronunciar-me em votao no-minal a respeito da questo do dia. </p></li><li><p>II. </p><p>A P O L T I C A D A COROA. </p><p>Esta publicao tambm um protesto. A observao do modo porque tem cor-</p><p>rido os debates relativos emanciparo of-ferece a cada momento novas demonstraes da inconvenincia da interveno direcla e ini-ciativa do Imperador. </p><p>Que se ponha a questo nestes termos nin-gum o deve extranhar depois que o Sr. Vis-conde de Itaborahy, presidente do conselho de ministros, disse no levado que Sua Magestade Imperial reina, governa e administra. </p><p>Esta palavra foi proferida em aparte e nunca depois desenvolvida ou commentada por S. Ex. </p><p>E' palavra digna de srio estudo. </p></li><li><p>Fallaria S. Ex. como publicista, porque julgasse harmnica a doutrina com o systema do governo ou porque enchergasse a faculdade na lei fundamental? Isto no se pde suppr de sua illustrao: se pretendesse S. Ex. esta-belecer direito, replicaria quando o Sr. Visconde de S. Vicente refutou o administra. </p><p>Seria um dito leviano e mal pensado ! Crl-o fora injustia a seu caracter. </p><p>Ponderem e meditem o aparte do Sr. Vis-conde de Itaborahy, e s lhe acharo este sentido razovel foi um grito de angustia. Monarchis-ta de convico S. Ex. receiou explcando-se prejudicar o prestigio da Instituio: mas es-pirito recto, tolhido em sua aco, vendo j a esterilidade do seu ministrio, quiz repartir a responsabilidade moral com quem de direito! </p><p>Reina, governa c administra ! Ha pouco recordou o Sr. Conselheiro Paulino </p><p>de Souza a attitude do seu ministrio em 1870 na questo do elemento servil. Apresentado o Pa-recer da Commisso especial, S. Ex. declarara por si e por seus collegas que o Governo acei-tava a ida do arrolamento dos escravos e a faculdade para libertar os da Nao. Nada mais sensato: passassem estas duas medidas, fossem executadas com firmeza, e teramos </p></li><li><p>- 10 </p><p>hoje a questo adiantada e esclarecida. Porque pois o ministrio que tinha Cmara unanime, que n'esta mesma questo teve grande maioria, no cuidou de realizar a sua ida? donde lhe veio a falta de fora? </p><p>E' da maior notoriedade : regeitando o projec-to da Commisso, os ministros cahiram da graa, e nas altas regies fugia-lhes o terreno embaixo dos ps. </p><p>Hoje um membro do 16 de Julho traz o mesmissimo projecto da Commisso do anno passado : mas para que uma proposta nova, se a ida fundamental a mesma e a accessorias se podiam emendar na discusso ? E' que no se quer a iniciativa da Cmara, sim a do Mor-narcha, para que se continue a dizer na Fu-ropa que Sua Magestade Imperial o nico brasileiro inimigo da escravido! </p><p>Se do lado do poder #se pe assim a </p><p>questo, no podem extranhar que n'esse ter-reno a aceitemos. </p><p>As discusses da imprensa, depois da pro-posta do Governo, offerecem observaes an-logas : quem as tem acompanhado, lhes ter reconhecido estas duas feies carecteriscas. </p><p>1." Ningum defende a escravido: reconhe-cem hoje todos a necessidade de medidas que </p></li><li><p>- 11 1 dentro de um prazo mais ou menos limitado extirpem o cancro social: versa a divergncia </p><p>' sobre a escolha dos meios mais ou menos di-1 rectos, mais ou menos eficazes, mais ou menos perigosos. </p><p>2.* Paira sobre todos os estudos um prejul-gamento, uma coao moral c politica que tolhe e constvange o livre exame, c que bem pde viciar a soluo. </p><p>Um ou outro protesto que surge pela simples conservao do statu quo, so excepes que no refutam a minha primeira assero ; e d'esses no me occuparei, limitando-me a p^dir a Deus que os esclarea. Entretanto, o que pre-tende a grande maioria dos interessados que reclamam contra o projecto ministerial ? Que-rem garantias de segurana para s suas fa-mlias, de ordem e de paz para seus estabele-cimentos ruaes, de^espeito propriedade, em-bora illigitima, adquirida em boa f e con-sagrada pela legislao. </p><p>Em frente d'estes interesses toma a palavra na imprensa o gabinete, representado pelo pseudnimo Guarda constitucional. </p><p>Ha, sem duvida, alguma cousa de grotesco na posio do ministrio a defender-se em pu-blicaes a pedido no Jornal do Commercio, </p></li><li><p> 12 </p><p>disfarando-se com um pseudnimo; mas os artigos da Guarda constitucional tem o cunho semi-official to patente, que cumpre aceitar o facto. </p><p>No lano insinuaes ao escriptor a que me refiro: se algum chamou assalariada a sua hbil penna, certo no farei minha a in-juria. Presumo, ao contrario, que quem es-creve o prprio ministrio ou algum seu amigo, que o sustenta pelos mais nobres mo-tivos : o que somente claro, o que ningum ignora que sahe o dinheiro para as publica-es dos fundos secretos. </p><p>Accusado por abuso igual, o Sr. Conselheiro Zacarias, disse r ' Sempre assim se fez ; a nica difierena que ns confessamos e os outros negavam. " </p><p>Esto hoje no poder os que negavam, mas igora provavelmente ho de rir-se da minha ingnua censura, e no afirmar nem negar... </p><p>Pois sim, fiquemos n'isso. Volto these principal d'este capitulo, a coac-</p><p>o que tolhe o livre exame. E seja voz oficial ' a que assignale o facto : em artigo ministerial li, alis sem sorpresa, estas palavras dirigidas aos deputados dissidentes do ministrio : </p><p>- Se querem permanecer conservadores, no </p></li><li><p> 13 -</p><p> continuando a excitar os mos imundos revo-lucionrios e o desrespeito " coroa. Ainda mesmo que o Imperante tenha opinio definitiva a res-peito da questo, no sentido da soluo proposta, entende-se sempre que a tem por conselho e sob a responsabilidade de seus ministros. E demais, o Imperante no um autmato ; sua misso summamente elevada ; apreciando a opinio feita no paiz, frma e profere um juizo, e realmente n'esse juizo que consiste a pol-tica imparcial da coroa. " </p><p>E' notrio que o problema da emancipao foi estudado e debatido no Conselho d'estado por iniciativa de Sua Magestade o Imperador. Estudo que conduzio ao projecto apresentado s cmaras pelo ministrio actual, baseado sobre a ida da libertao dos nascidos desde a data da lei. </p><p>Mas esses pareceres do Conselho d'estado se conservam em rigoroso segredo, bem que no haja no paiz outros estudos officiaes ! E' anomalia que com razo extranhou um corres-pondente da Reforma nos seguintes termos : "Questo social de tanto alcance no para ser resolvida entre os resposteiros de palcio, e imposta a soluo ao paiz, por mais santo que seja o principio." </p></li><li><p> 14 </p><p>Uma cmara unanimemente ministerial requi-sitou do governo, por officio do 1. de Junho de 1870, remessa de cpias dos projectos qut sobre a questo houvessem sido submeltidos ao Conselho d'estado nos annos de 1867 e 1868. </p><p>E em resposta disse o Ministro da Justia em officio da mesma data, o do Imprio em 28 do mesmo mez, que em seus archivos no existia trabalho ou projeclo algum sobre semelhant matria. </p><p>Entretanto aquelles debates secretos foram impressos s escondidas, como contrabando, e a alguns poucos deputados, mais do peito, se tem feito presente de um exemplar. </p><p>A Gommisso especial da Cmara, relator o Sr. Conselheiro Teixeira Jnior, disse em seu parecer de 15 de Agosto de 1870 : </p><p>" . . . sob caracter confidencial e com recom-mendao reiterada da maior reserva (os griphos so do parecer) foi mostrada commisso por um dos dignos membros da gabinete uma c-pia de quatro actas das sesses do Conselho d'estado, e do ultimo projecto alli examinado. </p><p>" N'estas condies, pois a commisso no pde revellar nenhuma das opinies exaradas n'esses documentos. </p><p>" Nem ella daria esta explicao, se no oc-</p></li><li><p> 15 </p><p>corresse o facto de haver-se declarado cmara em sesso de 21 de Julho que taes documentos j lhe tinham sido remettidos." </p><p>O ultimo gripho do author d'esta memria que edifica o paiz, accrescentando a seguinte informao: at hoje os trabalhos do Conselho atestado no foram publicados nem remettidos s cmaras l! I </p><p>E somos uma nao livre, dizem, regida por um governo representativo ! </p><p>Tomando Sua Magestade Imperial a iniciativa sob a responsabilidade de seus ministros, como disse no Senado o Sr. Conselheiro Zacarias, fi-xou logo a opportunidade em que devia agi-tar-se a questo (depois da guerra), e annun-eiou a sua deciso aos paizes estrangeiros. </p><p>E' j manifesto que d'este pronunciamento resultou coaco moral para a nao, que na-turalmente no deseja passar por uma horda selvagem, incapaz de acompanhar as idas ge-nerosas do seu bemfeitor 1 </p><p>E todavia at ento nem mesmo o Conselho d'estado linha sido ouvido ! </p><p>A questo da opportunidade est hoje preju-dicada, porque, no ponto a que chegaram as cousas, se faz necessrio resolver o problema; mas fique consignado que a deciso partio do </p></li><li><p> 10 </p><p>poder absoluto, que nos rege sem nenhum cor-rectivo real e efficaz; v a quem toca a gloria ou a responsabilidade moral (a esta ningum se subtrahe) da audaz iniciativa. </p><p>Ouvido em segredo o Conselho d'estado, ficou resolvido nas altas regies, no j a opportu-nidade, mas o modo, liberdade dos ventres. </p><p>Diz o inspirado escriptor ministerial e no-trio, que Sua Magestade Imperial tem opinio definitiva a respeito da questo, no sentido da soluo proposta. Que o Imperante apreciando a opinio feita no paiz forma e profere um juizo, e realmente viesse juizo que consiste a poltica da Coroa. </p><p>Assim com effeito suecedeu, mas com uma differena ; as opinies que Sua Magestade Im-perial ouvio e apreciou para proferir um juizo que a politica da coroa, no foram as opi-nies do paiz, e somente as do Conselho dis-tado, que no a nao. </p><p>Se esta agora chamada a pronunciar-se como lhe negam conhecimento dos estudos offi-ciaes cm que se basea a soluo proposta? </p><p>Que a questo da opportunidade, hoje pre-judicada, fosse discutida em segredo pelos con-selheiros da coroa, comprehende-se, por isso mesmo que a bulha e publicidade a prejudi-</p></li><li><p> 17 </p><p>cariam; o abuso foi o annuncio prvio para a Europa. </p><p>Mas quanto soluo prefervel, no devia haver poltica da coroa, emquanto o parlamento no se pronunciasse. Entretanto Sua Magestade Im-perial partio para a Europa, nos diz o minis-trio, tendo proferido o seu juizo, firmado a sua politica, que uma opinio definitiva a res-peito da questo no sentido da soluo proposta. </p><p>Tal o prejulgamento e coaco moral de que fallei. </p><p>Negar-se-ha coaco? Pretender-se-ha que os partidos estudam e consultam livremente? </p><p>No faam disto questo politica, diz o mi-nistrio,, uma reforma social. Mas como, se a politica da coroa, que tudo a ella subor-dina ? Como, se o partido conservador sabe que ha de largar o poder se lhe resistir ? </p><p>No me refiro a ambies mesquinhas e in-dividuaes; supponho uma ida que confia, con-tinuando no poder, fazer prosperar o paiz, mas que tem de retirar-se diante de uma politica da coroa, formulada entre os reposteiros, sem ter ouvido os representantes da nao. </p><p> claramente esta a situao. O ministrio de 16 de Julho foi demittido porque resistio, ainda que s com a inrcia, politica da coroa ; o de 29 </p><p>2 </p></li><li><p>- 18 </p><p>de Setembro cahio porque no soube realizal-a; o actual ahi est ameaando a cmara conser-servadora com um programma liberal : submet-tei-vos ; seno, muda-se a politica! </p><p>Que no tem outro valor os liberalismos mi-nisteriaes, basta para proval-o a nomeao do Sr. Sayo Lobato, e a sua attitude na discusso da reforma judiciaria : nem isto argumento ai hominem, S. Ex. um Jiomem-principio : cha-mal-o para executar serio programma liberal, fora insulto ao senso commum. S. Ex., porm, subio ao ministrio, porque e s porque, depois de senador e conselheiro d'estado, converteu-se para a politica emancipadora formulada entre os resposteiros: esta a tristssima e patentis-sima verdade. </p><p>Por outra parte os dissidentes, os fieis do 16 de Julho, esto ou no coactos? Querem resistir, mas hesitam diante da ameaa de uma politica liberal, e desfazem-se em protestos de adheso politica a um Gabinete, no qual no tm e no podem ter confiana alguma. </p><p>Porque todas estas anomalias ? porque o Governo no disse s cmaras " Estudae a op-portunidade, e resolvei sobre o melhor meio de abolir a escravido. " </p><p>Diz-lhe: "J se estudou c dentro dos reps-</p></li><li><p> 19 </p><p>teiros; votai a liberdade dos ventres, com ser-vio forado at 21 annos, ou uma pequena indemnisao. " </p><p>Mas se um deputado, se um cidado, se uma associao lembrar systema diverso e preferivel, assentado em outra bas...</p></li></ul>