Cristandade Oriental: a Igreja Etope na Idade Mdia Oriental ...

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  • Cristandade Oriental: a Igreja Etope na Idade Mdia

    Oriental Christianity: the Ethiopian Church in the Middle Ages Lincoln Etchebhre JUNIOR1

    Thiago Pereira de Sousa LEPINSKI2

    Resumo: O objetivo da presente comunicao apresentar um estudo sobre a Igreja Copta da Etipia, que segundo a tradio, teria nascido j nos tempos apostlicos, com influncia judaizante e monofisita. Ainda segundo as tradies nacionais etopes, esse cristianismo j teria encontrado um povo monoteista, devido converso da Rainha de Sab f mosaica, depois de seu bblico encontro com o rei Salomo. Os descendentes de Salomo e da Rainha de Sab teriam dado origem dinastia Salomnica. O soberano dessa dinastia foi, no sculo XVI, identificado como o lendrio Preste Joo das ndias. Palavras-chave: Etipia; Monofisismo; Tradio Salomnica; Igreja Etope. Abstract: The goal of the present communication is to present a study about the Copt Church of Ethiopia, that according to tradition, was born on apostolic times, with Jewish and monophisist influences. Still according to Ethiopic national traditions, this Christians would already have found a monotheist people, due to the conversion of the Queen of Sabbath to the mosaic faith, after its biblical meeting with King Solomon. The descendants of Solomon and the Queen of Sabbath would have given origin to the Solomon dynasty. The sovereign of this dynasty was, in the sixteenth century, identified as the legendary Priest John of India. Key words: Ethiopia; Monophisism; Solomon Tradition; Ethiopic Church.

    ***

    I. Introduo

    Os coptas de Etipia constituem a maior comunidade crist do Oriente. Formam uma Igreja, surgida no incio do Cristianismo que segundo a tradio nacional foi fundada pelo apstolo So Felipe. Os etopes antes do advento do Cristianismo j sofreram influncia de uma comunidade judaica que l se

    1 Doutor em Histria pela USP; Professor do Mestrado interdisciplinar em Educao, Administrao e Comunicao da Universidade So Marcos, So Paulo, SP. lincoln.e.jr@hotmail.com 2 Bacharel em Direito pela USP; Discente do Curso de Ps-Graduao Lato Sensu em Direito da Escola Superior de Advocacia, So Paulo, SP. thiago.lepinski@gmail.com

  • BUTI JIMNEZ, Julia, e COSTA, Ricardo da (coord.). Mirabilia 9 Aristocracia e nobreza no mundo antigo e medieval

    Aristocracia y nobleza en el mundo antiguo y medieval Aristocracy and nobility in the Ancient and Medieval World

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    fixara desde tempos imemoriais, permanecendo at o sculo XX: os falaschas (ou falaschin). Esta comunidade judaica influenciou no Cristianismo etope, que mantm a circunciso at nossos dias e outras prescries. A Igreja Etope, influenciada pelo judasmo, a partir do sculo VII passou a sofrer ataques do Islamismo e j travava lutas com os galas, povo pago, que posteriormente ho de converter-se ao Isl. Cercados pelos Islmicos conseguiram a duras penas permanecer em sua f e preservar a sua cultura at nossos dias. No sculo XVI tiveram auxlio dos portugueses nesta luta, mas os expulsaram quando da ingerncia dos lusitanos em sua f e cultura. No perodo contemporneo sofreram invaso dos italianos, conseguindo tambm os expulsar, preservando a sua identidade cultural e a sua f, sustentada pela sua Igreja. II. O Cristianismo Sua origem prende-se a Jesus Cristo, nascido em Belm de Jud, situada na Palestina, ento debaixo do domnio romano. Sua existncia foi relatada pelos quatro evangelistas, pelos Atos dos Apstolos, pelas epstolas dos apstolos, livros cannicos, e pelos livros apcrifos. Testemunham ainda, sua existncia histrica os escritores romanos: Tcito (54-119), Suetnio (75-160) e Plnio por volta de 112, e duas testemunhas orientais: o srio Mara em uma carta ao seu filho Serapio, provavelmente, em 73; e o judeu Flvio Josefo.3 No que tange a data do seu nascimento, ela foi fixada pelo monge Dionsio, o Pequeno, aps pacientes investigaes, em 753 da fundao de Roma. Esta data foi tomada como o incio da era crist. Estudos posteriores verificaram que o clculo de Dionsio, o Pequeno, era inexato. A data foi na realidade quatro ou cinco anos antes de 753. Jesus Cristo em sua vida pblica difundiu sua doutrina entre seus conterrneos. Aps sua morte; ressurreio e ascenso aos cus, sua doutrina foi espalhada pelos apstolos e discpulos. Partindo de Jerusalm, aps Pentecostes, dirigiram-se por todas as partes, ento conhecidas do mundo, seguindo assim a orientao de seu Mestre: Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda criatura (Mc. XVI, 15). Em Antioquia da Sria os seguidores de Cristo pela primeira vez foram chamados de cristos4, at ento eram conhecidos por galileus ou nazarenos.

    3 Tcito, XVI, Suetnio, Plnio, livro XX (91-200); Antiquitates Judaice, composto em 94, no qual chama Tiago irmo de Jesus, a quem chamam o Cristo. 4 Os cristos orientais da ndia so conhecidos at nossos dias como nazarenos de So Tom. O termo cristo denominao dada aos catlicos latinos e aos protestantes.

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    Os grandes centros irradiadores do Cristianismo nos primeiros sculos, alm da Palestina, seu bero, foram: Roma, Antioquia, Constantinopla e Alexandria, que tambm foram centros das controvrsias cristolgicas. Uma delas, o monofisismo conquistou Alexandria e por esta atingiu a Etipia. Portanto, j nos primeiros sculos a Cristandade ficou dividida entre cristos ortodoxos, isto , aqueles que aceitavam as decises conciliares, e os heterodoxos que se recusavam a aceit-las. Estes, banidos do Imprio Bizantino, difundiam sua doutrina fora do mesmo, alcanando regies longnquas. Os seguidores de Ario converteram os godos; os seguidores de Nestrio atingiram a China5, atravs da Caldeia: os monofisitas o Egito e a Etipia. Formaram-se igrejas nacionais, algumas ainda reconhecendo a autoridade espiritual de Roma. Nestorianos na Caldia; coptas no Egito e Etipia; melquitas na Sria, Lbano e Egito; malabareses ou cristos de So Tom na ndia; maronitas no Lbano. Estes cristos orientais foram dominados politicamente pelo Isl a partir do sculo VII, com exceo dos cristos da Etipia. A Cristandade greco-latina conservou vagas notcias de comunidades orientais dependentes de Alexandria, no alto Nilo, ou da Sria, na ndia Malabrica, na Prsia e na Armnia. Esta Cristandade sempre procurou contatos com seus irmos do Oriente, desejando romper a barreira imposta pelo Islamismo. Procurava ao mesmo tempo conseguir livrar o Ocidente de suas mos, com uma provvel aliana com o Preste Joo das ndias. Comunidades crists, aps o contato, reuniram-se a Roma, porm, mantiveram seus ritos e disciplinas, ligadas diretamente a Congregao das Igrejas Orientais; outras continuaram autocfalas, como a Igreja Copta. III. A tradio salomnica e o Cristianismo na Etipia A tradio etope afirma que o primeiro imperador da Etipia filho do rei Salomo e da Rainha de Sab, que nasceu no reino de Tigr, numa aldeia chamada Sab. Esta aldeia est situada a quatro lguas de Axum. A rainha tambm conhecida por Negesta Azeb, isto , Rainha do Sul. Ela edificou

    5 Dependentes da Prsia, essas igrejas caram sob a influncia do nestorianismo.`E provvel que o sacerdote Iaballah tivesse levado o Cristianismo at a China (636), e conquistado a proteo do imperador ( Histria Universal da Igreja, v. I,p. 289). Em 1289 Giovanni de Montecorvino, viajou at a China com uma carta do papa Nicolau IV para o catlico Yaballah III (128l-13l7), de origem monglica. Esteve o enviado pontifcio em contato com comunidades nestorianas da China (Oriente Cattolico, 1962, p. 362).

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    uma cidade para sua corte, Dabra Magueda, que se identifica com Axum.6 O rei Salomo, desejando edificar o Templo de Jerusalm, teria enviado mensagem a todos os mercadores do mundo, que lhe trouxessem mercadorias. O mercador Tamarim levou a Jerusalm ouro fino da Arbia, madeira preta, e outras preciosas mercadorias. Regressando Etipia, contou sua rainha as belezas que viu e ouviu junto a Salomo. A soberana manifestou o desejo de conhecer o grande rei. Abalou-se para junto dele, e l permaneceu algum tempo. Regressando a sua terra, levou presentes do soberano, entre eles um anel. Tendo nascido um menino, deram-lhe o nome de Menelik, deturpao de Bem-Ameleh (filho do rei). Visitou seu pai quando estava com 22 anos, juntamente com o mercador Tamarin. Salomo o recebeu com grande alegria e festas, fazendo-o rei da Etipia, com o nome de Davi, como seu pai. Essa troca de nome, deu origem ao costume dos imperadores etopes de trocar o nome de batismo ao ascender ao trono. O filho do rei Salomo e da rainha de Sab ficou conhecido pelo nome de Menelik I, fundando a dinastia salomnica.7 Os etopes afirmam que a partir desse momento passaram a adorar o Deus de Israel. Passados quinhentos anos, este fato foi tema para a composio da obra Kebra Nagast (Glria dos Reis). H em Etipia um grupo tnico que se diz descendente da Casa de Israel, afirmando que sua origem prende-se aos artesos que acompanharam a Rainha de Sab em seu retorno de Jerusalm. So os falashas ou falashim, que significa emigrados. Entretanto, outros autores afirmam que falashas ou falashins significa estranho ou exilado (TELLES, 1940: 5; CASTRO, 1940: 61; GACHE, 1970: 99; AUBERT & CAUWEMBERG, 1960: 210 e GORCE & MORTIER, 1943: 3088) Na Antigidade, o nome Etipia (Aethiopia) era dado a um imenso territrio que se estendia ao sul do Egito. O seu nome de origem grega, Ethipos, que significa rosto queimado. Navegadores portugueses em busca do lendrio Preste Joo, e posteriormente os jesutas, atingiram a regio de Axum no sculo XVI. A partir da surgiram

    6 O padre Pero Paes afirma em sua obra que assim como os reis de Portugal eram senhores dos Algarves de Aqum e Alm mar, a Rainha de Sab era senhora tambm da Arbia. (PAES, Pero, Histria da Etipia, vol. I, p. 24-25, e p. 95) 7 O ltimo soberano desta dinastia foi Hail Selassi, deposto por um golpe comunista chefiado pelo general Haile Marian, em 1974. 8 Segundo a referida obra, havia em Etipia perto de 30.000 falaches.

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    informaes geogrficas mais precisas. A regio de Axum era Etipia-a-alta, ou Abssia, e seus habitantes os Abexins (TELLES, 1040: 17) O termo Etipia nesse momento designava um territrio extenso e vago, at que paulatinamente chegou-se superfcie do antigo Imprio etope, hoje Repblica da Etipia. O cristianismo na Etipia, segundo a tradio nacional, foi introduzido pelo eunuco da rainha Cndace ou Kandake9, que fora a Jerusalm adorar o verdadeiro Deus10, e foi batizado pelo apstolo So Felipe.11 Regressando a seu pas narrou o sucedido a sua rainha, convertendo-a ao cristianismo, bem como os seus familiares. A mesma tradio afirma que passado muito tempo, veio um mercador de Tiro, com dois companheiros, Fremanats e Sydracos. Morrendo o mercador, levaram ao rei da Etipia os dois companheiros, que permaneceram com os filhos del rei. Ficaram alegres os dois, ao ver que os etopes eram cristos, crendo na Trindade, fazendo o sinal da cruz, e ao mesmo tempo ficaram espantados porque no houvera apstolo que pregasse na Etipia. Morrendo el rei, Sydracos regressou a Tiro, e Fremanats foi ao patriarca de Alexandria. Em l chegando, comunicou a existncia de cristos sem pastores, e pediu ao patriarca que enviasse sacerdotes ao pas. O patriarca ordenou-o sacerdote, e sagrou-o bispo da Etipia. Regressando, ordenou sacerdotes e diconos, e batizou os seus habitantes. Ficou conhecido por Abba Salama (Padre da Paz, ou Pacfico), porque trouxe a paz ao pas. Reinavam em Etipia nessa ocasio os irmos Abr e Asbr (PAES, 1946: 9-11). Portanto,

    9 Muito antes do que depois adotaram os modernos expositores, adotaram o nosso Barros na terceira dcada, livro 4, captulo 2, que a Etipia se deve tomar pela ilha de Meroi, no rio Nilo, na parte mais meridional do Egito: e que Candace no era entre aquelas rainhas nome prprio, mas ttulo comum,como o de Fara entre os reis egpcios, Cesar entre os imperadores romanos. (Comentrio sobre a Bblia Sagrada, Vol. 11, p. 194). 10 No templo de Jerusalm havia um lugar destinado aos gentios convertidos, e Salomo ao edific-lo assim dizia: Tambm quando algum estrangeiro que no do teu povo de Israel vier de algum pas remoto por causa do teu nome (porque ouvira a grandeza do teu nome) e a fora de tua mo, e o poder do teu brao (Reis, III, 8, 4). Os Atos de Tom, livro apcrifo, afirma que o mercador Habban, ou Habbanis, foi enviado por Gundafaris, rei das ndias, a Jerusalm contratar um arquiteto ou carpinteiro para construir o seu palcio. Os estudiosos afirmam que provavelmente o mercador foi a Jerusalm adorar o verdadeiro Deus, e simultaneamente atender o desejo de seu rei. 11 Atos dos Apstolos, cap. X, 27-28 e 38-39. So Jeronimo diz que foi batizado o eunuco em uma fonte chamada depois por esta causa do Etope, na tribo de Jud, ao p de um monte vizinho a um povo chamado Bethsur ou Bethsoron, hoje Ain Dinoret (Comentrio sobre a Bblia Sagrada, vol. 11, p. 135).

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    Framanats ou Frumncio, encontrou cristos oriundos da pregao do eunuco, conforme a tradio, e completou a evangelizao do pas. Os historiadores, entretanto so concordes que a introduo do cristianismo na Etipia foi obra de So Frumncio, natural da Sria, no sculo IV. As relaes entre a Etipia e a Sria remontam a tempos imemoriais. Os fencios levavam ao Ocidente produtos da frica Oriental e da Arbia, bem como os da sia Menor e do Extremo Oriente, que embarcaes indianas, atravs das mones, faziam chegar ao estreito de Bab-el-Mandeb. No sculo IV, o nmero de cristos da Sria era grande, e talvez um desses se sentisse com vocao para evangelizar terras distantes. Rufino, em sua Histria Eclesistica, narra a evangelizao do pas por So Frumncio. Sozmeno, Scrates e outros historiadores eclesisticos serviram-se de Rufino como fonte, e da passaram aos sinaxrios gregos, copto-rabes, e atravs dessa via penetrou na Abissnia. A tradio nacional etope est de acordo com a ocidental pela simples razo de procederem de uma mesma fonte (AUBERT & CAUWEMBERG, 1960: 210-211; ALZOG, 1882). So Frumncio, por seu nascimento pertencia ao patriarcado de Antioquia, mas consagrou sua misso ao patriarcado de Alexandria, pois segundo o Canon VI do Conclio de Nicia, o titular da sede de So Marcos (Alexandria), tinha o direito de ordenar pessoalmente todos os bispos do Egito (FUNK, 1924: 33; ALZOG, 1882: 151). Portanto, o cristianismo da Etipia participa da f de Antioquia e de Alexandria. A traduo da Bblia para o Etope foi feita a partir de um texto grego da coleo Antioquenha ou Lucianense, mas aceitando os livros apcrifos, isto , no cannicos. A liturgia tem como base o rito alexandrino (STANLEY & LUFF, 1969: 199), mas com anforas12 do rito antioquino ou antioquenho, bem como termos siracos, como Haymanot, ou seja, f. Uma carta do imperador Constncio datada de 356, dirigida aos reis de Axum Aizanas e Sazanas, confirma a narrao de Rufino, mostrando assim o interesse do Imprio Bizantino pela Igreja Etope. Ao mesmo tempo esta carta corrige um erro geogrfico, no mais confundindo a regio com as ndias (FLICHE & MARTIN, 1945: 525; LLORCA, 1964: 464). Muitos anos aps, conforme o catlogo da Igreja de Axum, reinando Amiamide, vieram homens santos da regio de Rum. Segundo entendiam alguns etopes, Rum era sinnimo de Roma (Bizncio). Outros entendiam por 12 Anfora: nome prprio da Grande Prece Eucarstica, que precede e segue a Consagrao.

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    Rum a terra dominada pelos turcos, razo pela qual a chamavam Rumes. Estando o padre Pero Paes cativo entre os turcos, disseram-lhe estes que para os etopes rumes significava os cristos existentes nos territrios dominados pelo Isl. Na mesma poca da converso do Reino de Axum, o imperador Constncio enviou o monge Tefilo de Dibous ao Reino dos Homeritas (atual Yemn) a fim de obter liberdade de transao comercial e de culto aos mercadores romanos, simultaneamente tinha ainda a finalidade de converter ao Cristianismo aquele reino. O referido monge em seu retorno Bizncio passou por Axum (FLICHE & MARTIN, 1945: 523; ALZOG, 1882: 288). A influncia sria na cristandade etope devida, em parte, a So Frumncio e aos chamados nove santos, que teriam ido de Rum Etipia. Eles foram os introdutores da vida monstica na Etipia do Norte. Alguns construram mosteiros na regio que evangelizaram. Os monges foram Aleph, Sehma, Za-Mikael Aragawi (que fundou o primeiro convento para mulheres), Afs, Garima ou Isaac, Pantalewon, Liganus, Guba e Yamata. Deve-se aos mesmos ou aos seus discpulos a traduo do Novo Testamento em geez. Os evangelhos em geez prendem-se ao texto grego da Sria, muito mais do que os textos gregos espalhados pelo Egito (FLICHE & MARTIN, 1945: 525). Nas inscries de Tazana h um sistema completo de vocalizao que em muitos pontos de vista lembra o sistema voclico siraco. Os historiadores discutem sobre a ortodoxia desses monges. Seriam monofisitas, ou ortodoxos, isto , catlicos? Chegaram da Sria em uma poca em que os monofisitas a deixavam, dirigindo-se principalmente ao Egito e regies vizinhas, chegando assim Etipia (ORIENTE CATTOLICO, 1962: 124; AUBERT & CAUWEMBERG, 1960: 212; GORCE & MORTIER, 1943: 308 e ALZOG, 1882: 289). No comeo do sculo VI, a corte e o Reino de Axum eram inteiramente cristos. Os abissnios aliaram-se aos bizantinos, por serem aqueles tambm inimigos dos persas, tornando-se ambos os protetores dos cristos da Arbia. Os etopes, estimulados pelos bizantinos, bateram os homeritas que se opunham s suas pretenses no Mar Vermelho. O rei axumita possuia o porto de Adulis13, no Mar Vermelho. E, com o auxilio de Bizncio, estendeu seu domnio ao outro lado do mar, desembarcando no Ymen. O soberano axumita, segundo o pensamento do imperador Justino I, serviria de barreira s 13 Adulis, moderna Zula.

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    pretenses persas, interceptando as rotas comerciais, terrestres e martimas. Estabeleceu o Negus da Etipia um vice-reinado e uma guarnio em Safar. Aproximadamente em 523, Dihu Nowas, pertencente antiga famlia real, e de f mosaica, comandou a revolta contra os abissnios. Matou o vice-rei, o clero e a guarnio, matando tambm toda a populao crist, transformando a igreja em sinagoga. O rei axumita Kaleb, ou Elesbas ou Elesbo14, organizou uma expedio contra os revoltosos, apoiado pelo imperador Justino. Dhu Nowas e seus partidrios foram vencidos, pois em vo procuraram uma aliana com os persas contra Constantinopla e Axum. A autoridade axumita foi restabelecida no Yemen, se bem que por pouco tempo (FLICHE & MARTIN, 1945: 526-527; GORCE & MORTIER, 1943: 306; ALZOG, 1882: 288). A dependncia religiosa da Etipia da S de Alexandria ou de So Marcos foi a principal responsvel pela penetrao do monofisismo naquele pas. IV. A S de Alexandria e o Monofisismo na Etipia No sculo V o patriarca Nestrio de Constantinopla afirmava que em Jesus Cristo havia duas pessoas e duas naturezas, a divina e a humana. O Conclio de feso (431), dirigido por So Cirillo de Alexandria, determinou que em Jesus Cristo h um s eu (divino), e duas naturezas (divina e humana). Maria, portanto, Theotokos, me de Deus. Todavia, muitos dos seguidores de Nestrio no aceitaram o Conclio, separando-se da Igreja. Em contraposio ao nestorianismo surgiu o monofisismo, que afirmava haver em Jesus Cristo uma s natureza e uma s pessoa. O grande defensor dessa doutrina foi o arquimandrita Eutiques, condenado pelo snodo de Constantinopla. Eutiques reclamou contra essa deciso sinodal, ganhando os favores da corte e do patriarca Discoro de Alexandria. O imperador Teodsio II convocou um conclio em feso (449), que foi presidido pelo patriarca Discoro. Por imposio deste patriarca, os representantes do papa Leo Magno no puderam ler sua bula enviada ao conclio, e o conclio aprovou a doutrina de Eutiques como ortodoxa. Tal fato passou para a histria como o chamado Latrocnio de feso (MEHLMANN, 1971: 10). Diante deste acontecimento, outros bispos apelaram imperatriz Pulquria, irm do Imperador Teodsio, e novo conclio foi convocado (451), em Calcednia. Compareceram mais de 600 membros, e trs legados papais. O conclio deps Discoro, o exilou juntamente com Eutiques, e rejeitou o

    14 Kaleb, conhecido tambm por Elesbas, isto , o bem-aventurado, aportuguesado para Elesbo, terminou seus dias como monge. Muito venerado no Brasil pela populao de origem africana.

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    nestorianismo e o monofisismo, reafirmando em Cristo uma s pessoa, e duas naturezas. O monofisismo, entretanto, no foi extinto. Motivos polticos explicam a persistncia da heresia. Na Sria e no Egito muitos cristos viam na nova doutrina a expresso de suas tendncias nacionalistas, opostas ao helenismo e ao domnio bizantino. No sculo VII a expanso muulmana agravou a situao ao ocupar a Palestina, a Sria e o Egito, impedindo assim a ao da ortodoxia, ligada a Bizncio. Os monofisitas passaram ento a constituir igrejas nacionais: a Armnia, a Mesopotmica, a Sria, a Egpcia e a Etope. No Egito, os monofisitas passaram a denominar-se coptas, originrios das trs consoantes da palavra grega Aigyptos (G ou K, P e T); so os antigos egipcios. Os ortodoxos so chamados de Melquitas (de Melek, o Imperador), isto , os seguidores da doutrina seguida pelo imperador, que aceitou o conclio de Calcednia. A Igreja Etope, dependendo do patriarcado de Alexandria, fatalmente acabou por abraar o monofisismo, pois Eutiques, sendo anatematizado bem como seus seguidores, encontrou em Discoro, patriarca de Alexandria, um ardoroso defensor. A partir do sculo VII a Etipia, cercada pelos muulmanos e privada de comunicao direta com a Europa, mantinha relaes apenas com a S de Alexandria. Esta enviava um abuna, ou bispo, que ordenava os padres e diconos, ficando a Igreja Etope na dependncia de um prelado estrangeiro e monofisita.15 A Igreja copta celebra festividades anuais em honra ao patriarca Discoro e o considera um santo, enquanto que o Conclio de Calcednia e ao papa Leo I (ou Leo Magno) so considerados herticos. Nos livros Haimanot Abbo e Mazaqueb Haimanot (Tesouro da F) h afirmaes contra o Conclio de Calcednia e sua doutrina, bem como contra o papa Leo (PAES, 1946: 23-24). A Igreja Etope, devido ao seu isolamento, como j afirmamos, possui suas prprias caractersticas, com grande influncia judaica, talvez advinda de quando em Etipia havia grande nmero de judeus, como foram numerosos na Arbia antes do Isl, em particular no Ymen. No sculo X encontramos a judia Judith fazendo o mesmo que fez Dhu Nowas em Himiar no sculo VI,

    15 Tal dependncia permaneceu at 1959, quando o imperador Hail Selassi conseguiu junto ao patriarca copta de Alexandria, que a Etipia tivesse seu prprio patriarca. Em 10 de novembro de 1970 o Imperador Hail Selassi visitou o Papa Paulo VI, e nesta visita o Papa agradeceu-lhe os prstimos feitos Igreja.

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    vencendo os cristos e ascendendo ao trono etope (AUBERT & CAUWEMBERG, 1960: 203). A Igreja Etope era pouco conhecida pela Cristandade Ocidental at a chegada dos portugueses e com eles os jesutas, a partir do sculo XVI. Surgiu ento uma literatura religiosa e com ela uma literatura profana a respeito da etnia, cultura, flora, fauna, hidrografia e cartografia da Etipia. V. A Igreja Etope A suprema autoridade da Igreja estava com o Patriarca de Alexandria, que delegava poderes ao abuna ou bispo etope, sagrado pelo patriarca, que ordenava o clero secular e regular. O sacramento da Ordem era dado a homens adultos, menores e mesmo a crianas de peito. Recebem as ordens menores, ficando o sacerdcio reservado para aqueles que sejam aprovados em um exame feito pelo abuna ou seus auxiliares. O que recebe as ordens menores entrega ao abuna uma pedra e meia de sal e outras vezes duas. Marca-se o dia do recebimento das ordens menores, e faz-se publicar em vrios locais, a fim de acorrerem os que desejarem receb-las. Os abunas nem sempre cumprem a sua palavra, protelando a administrao do sacramento, procurando assim auferir lucros para si. Todos os clrigos so casados, porm casam-se antes com mulher virgem, antes de se ordenarem de missa. Raspam a cabea, deixam crescer a barba, a vestimenta semelhante aos seculares, tendo na cabea barrete redondo ou comprido, de qualquer cor que acham, os ps descalos, mas trazem uma cruz de ferro delgada de madeira preta, de um palmo, o que a trazem tambm as freiras. O clero regular era constitudo por duas ordens religiosas, que segundo a tradio nacional foram introduzidas pelos monges vindos de Rum e do Egito. Seus fundadores foram Tecla Haymamot e Abb Estatus. O primeiro natural da Etipia, cujo nome significa planta da f, tido como santo pela Igreja Etope, e o segundo natural do Egito. Seus hbitos so iguais, usam um escapulrio e uma trancinha de trs tiras de couro ordinrio e vermelho, lanadas ao pescoo, que se rematam em uma argolinha de ferro ou de cobre, que trazem em uma correia. Muitos trazem capelo, barrete ou toca. Boa parte dos que professam vida eremtica vestem peles escodadas, tingidas de amarelo ou pano da mesma cor. Vo ao deserto quando querem e voltam tambm quando querem. Os religiosos possuem suas horas cannicas e fazem suas penitncias. No incio o monacato etope observava a clausura. Com o

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    passar dos tempos, os mosteiros mudaram sua estrutura, parecendo mais uma povoao. No que tange aos sacramentos a Igreja Etope aceita o batismo, a penitncia, a eucaristia, o matrimnio, a ordem, no fazendo da confirmao e da extrema uno. BATISMO Os meninos so batizados aps 40 dias de nascimento, e as meninas 80 dias. As crianas, mesmo em perigo de morte, no se batizam se no forem passados os dias referidos, mesmo que morram. O padre Baltazar Teles (TELLES, 1936: 118) que conheceu vrias frmulas para o batismo: eu te batizo em nome do Esprito Santo; eu te batizo na gua do Jordo; Deus te batize; chegue-te ao batismo, e outras frmulas. Os etopes tambm batizam novamente aquele ou aqueles que se fizeram mouros ou idolatraram, e desejam retornar Igreja. Igualmente aqueles que comeram ou beberam com os gentios. Por ocasio da festa da Epifania do Senhor todos se batizam, batizam tambm as crianas que nunca receberam esse sacramento, havendo batizados tambm nas festas da Ressurreio e da Assuno. PENITNCIA: at os 25 anos ningum se confessa, porque se julgam inocentes, recebendo at aquela idade o nome de meninos e crianas. Quem precisa confessar-se chega ao confessor e diz: Padre, pequei. Solteme q he o mesmo q absolvame (PAES, 1946: 78). As penitncias, so ora leves, ora duras, dependendo do confessor. Os abunas, quando atendem confisso coletiva, do como penitncia levantar o bculo e d-lhe trs ou quatro pancadas s costas, ou determinam o nmero de aoites (PAES, 1946: 81). Outras vezes, os abunas negam-se a ouvir os penitentes em particular, e as confisses em pblico geram demandas judiciais, porque uma das partes prejudicadas poderia estar ali presente (PAES, 1946: 81). EUCARISTIA: Consagram o po fermento, que fazem antes da missa e o vinho tambm o fazem de passas. Os fis recebem o Sacramento nas duas espcies, e de p. Muitos recebem a Eucaristia sem confisso. Outros se confessam, outros passam anos sem confessar, entretanto recebem o sacramento com freqncia. MATRIMNIO: A separao comum, basta para isso irem ao juiz do imperador, e sob qualquer pretexto pedir a anulao do casamento. As

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    Aristocracia y nobleza en el mundo antiguo y medieval Aristocracy and nobility in the Ancient and Medieval World

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    mulheres, se o marido permanecer ausente por mais de trs anos de casa, podem separar-se. O casamento realiza-se na igreja, com a bno, antecipado por uma festa. Terminada a bno os noivos so levados sua casa aos ombros de outros, e se a casa distante, em mulas (PAES, 1946: 121-122). ORDEM: Este sacramento j o mencionamos quando expusemos a respeito do clero etope.16 MISSA: Celebram os sacerdotes etopes missas nos dias de jejum, dizem-na pela manh; quarta-feira e sexta-feira, que jejuam tarde, duas horas antes do por do sol. Fazem oraes sobre as vestimentas que ho de usar para celebrar a divina liturgia. Celebram-na o sacerdote, o dicono e o subdicono. Sem eles no h missa, entretanto pode-se acrescentar outro sacerdote. Enquanto se revestem, um sacerdote vai casinha prxima da igreja e traz o po que se h de consagrar, e o po que se h de dar ao povo como po bento, e o vinho. Tangem uma campainha e entram na igreja. O sacerdote que vai dizer a missa recebe o po, e o cobre com um pano de algodo preto ou vermelho, para verificar se cai nele alguma relquia. O dicono toma o vinho, o subdicono uma candeia na mo esquerda, e o turbulo na direita, comeando a dar volta ao redor do altar, que sempre est ao meio da capela, seguido dos demais sacerdotes, se houver, iniciando as oraes. Fazem a leitura do evangelho do dia, e lem um s evangelista ao ano. Assim, de quatro em quatro anos acabam de ler todos os evangelhos. Os coptas possuem doze missas para as diferentes festas. A mais breve a dos Apstolos, que segundo se afirma foi composta pelos apstolos, porm mesma acrescentam oraes pelos patriarcas e outras intenes (PAES, 1946: 83-93). VI. Influncia judaica na Igreja Etope A circunciso adotada entre eles. O no-circuncisar o mesmo que ser gentio. Injuri-los cham-los de colafa, isto , incircunciso. Quando compram escravos gentios, enquanto no os circuncisam, no comem e nem bebem nos utenslios por eles usados, sem antes benzer um sacerdote, ou lav-los muito bem, porque acreditam que ficou contaminado. Circuncidam os meninos aos oito dias de nascimento, e algumas vezes as meninas, em casa dos pais, geralmente por mulheres (PAES, 1946: 66-67).

    16 Vide p. 10

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    Guardam o sbado, muitos frades o fazem com rigor, comeam a guard-lo pela sexta-feira tarde, como os judeus. Comem carne s sextas-feiras tarde, porque afirmam que j entrou a festa do sbado (PAES, 1946: 68). No comem algumas coisas, porque a lei probe, como a lebre, o coelho, alguns poucos comem porco do mato, e peixe de escama. Os demais, principalmente os frades no os comem (PAES, 1946: 68-69). Probe-se entrar igreja por quarenta dias, a mulher que deu luz um menino. Quando menina, oitenta dias. Probe-se ainda as menstruadas e aos casados que se uniram noite, ao dia seguinte de entrar igreja (PAES, 1946: 68-69). No interior dos templos encontra-se o Tabots, uma caixa de madeira de um cvado de lado, simbolizando a Arca da Aliana. Anualmente saem em procisso, cabea de um sacerdote. VII. Concluso O cristianismo na Etipia, de acordo com a tradio nacional, foi introduzido pelo eunuco da rainha Cndace, batizado pelo apstolo So Felipe. So Frumncio j teria encontrado, portanto uma cristandade sem pastores. A mesma tradio coloca os etopes juntamente com os judeus como os dois nicos povos monotestas da Antiguidade. Entretanto, fontes histricas so favorveis idia da introduo do cristianismo apenas por So Frumncio, no sculo IV. E a crena em um s Deus talvez tivesse sido favorecida pelo grande nmero de judeus existentes em ambas as margens do Mar Vermelho. O monotesmo judaico teria auxiliado a pregao do Cristianismo. A dependncia da S de Alexandria e o isolamento advindo da expanso muulmana foram responsveis pelo distanciamento da Etipia da Cristandade Ocidental e por sua adeso ao monofisismo. As tentativas feitas pelos jesutas e por outras ordens religiosas, e pela coroa portuguesa de colocar a Etipia sob a autoridade da S Romana foram inteis. Esses cristos monofisistas resistiram s investidas muulmanas, aos ataques do galas, que mais tarde converteram-se ao islamismo, e a outros povos pagos. A sua resistncia foi secular. Somente no sculo XVI os abexins foram auxiliados por D. Cristvo da Gama e seus companheiros na luta contra os muulmanos. Naquela ocasio os portugueses ajudaram a manter a independncia da Etipia.

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    A doutrina de Eutiquio um dos empecilhos ao ecumenismo, lanado pelo Papa Joo XXIII. Paulo VI, continuando a buscar as metas de seu antecessor entregou ao Patriarca de Alexandria a cabea de So Marcos que estava em Veneza. Nesta solenidade, a Igreja copta etope fez-se representar, entre outros, pelo Negus Neghst, Hail Selassi. O Negus, em sua visita ao papa Paulo VI afirmou que a Etipia sempre foi fiel Igreja. As tentativas de unio entre as igrejas Catlica e Copta do Egito e Etipia prosseguem, porm lentamente, devido no s s questes teolgicas, mas tambm hierrquicas, administrativas, e disciplinares.

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