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Criminologia e segurana pblicaProf Gesiel Oliveiradrgesiel.blogspot.comFaculdade de Teologia e Cincia Humanas do Amap

Disciplina: Criminologia e Segurana Pblica

Prof Gesiel de Souza Oliveira

www.drgesiel.blogspot.com

@PrGesiel_

Criminologia e Segurana PblicaProf Gesiel de Souza Oliveira1- ABORDAGENS TERICAS EM SOCIOLOGIA DO CRIME E DA VIOLNCIA

A inteno desta disciplina promover um estudo das possveis causas da criminalidade e da reao do Estado a elas. Para isso, este material tratar do desenvolvimento histrico da criminologia (cincia do crime), no decorrer dos sculos XIX e XX , a fim de analisar as principais contribuies de estudiosos para a compreenso do crime.

A Criminologia se divide em trs ramos: a sociologia do direito (que estuda as condies de desenvolvimento das leis penais), a etiologia criminal (que estuda as causas da criminalidade), e a penalogia (que estuda a luta contra a criminalidade), segundo Sutherland (apud Dias e Andrade, 1997). Esta apostila se concentrar nos ramos da etiologia criminal e da penalogia.

Partiremos de algumas noes fundamentais para, em seguida, passarmos ao estudo do crime. Estudaremos as teorias que partem da noo de crime centrada no indivduo e as teorias que partem da noo de crime centrada na sociedade. Complementando o estudo destas ltimas teorias, h um anexo no final da apostila.

Algumas noes preliminares:

Em 1879, h registros de que o antroplogo francs Topinard teria utilizado, pela primeira vez, o termo criminologia e, em 1885, ele apareceu no ttulo da obra de Garfalo, A Criminologia. Em razo de circunstncias como essas, autores tendem a vincular o nascimento da criminologia como cincia, com o nascimento da Escola Positiva. No entanto, conforme explicam Dias e Andrade (1997), embora a criminologia tenha passado a apresentar-se como cincia com o Positivismo, sendo definida como estudo etiolgico-explicativo do crime, a preocupao sistemtica com o problema do crime se deu desde a Escola Clssica. Na verdade, a preocupao com o crime tem uma existncia muito mais antiga, que pode ser percebida j em Plato (As Leis) e Aristteles (tica a Nicmaco).

Segundo Dias e Andrade (1997), a Escola Clssica analisou o problema do crime sob o prisma dos ideais filosficos e polticos do racionalismo moderno. Para eles, essa escola se baseia em dois princpios: o primeiro concernente ao principal objetivo do direito criminal e da cincia criminal que seria previnir os abusos por parte das autoridades, e o segundo seria a viso que se tem do crime, pois ele tido no como uma entidade de fato, mas uma entidade de direito. Nessa perspectiva, destaca-se a obra Dei delitti e delle pene, em 1764, de Cesare Beccaria, que encontrou no contrato social o fundamento legtimo do direito de punir, assim como sua utilidade.

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Disciplina: Criminologia e Segurana PblicaA Escola Positivista, ante o desmoronamento das expectativas trazidas pelo Iluminismo nas reformas penais e penitencirias (ou seja, ao invs de reduzir a dimenso da criminalidade, esta no s havia aumentado como se diversificado, apontando altas taxas de reincidncia), passou a se concentrar na natureza e nas causas do crime. Essa escola, inaugurada com a publicao de LUomo delinquente, em 1876, de Cesare Lombroso, conforme esclarece Dias e Andrade (1997), pauta-se pelos seguintes critrios: negao do livre-arbtrio, determinismo, previsibilidade dos fenmenos humanos que reconduzem s leis, separao entre cincia e moral, neutralidade axiolgica da cincia, mtodo indutivo-quantitativo.

Destaca-se ainda nessa escola as obras de Ferri e Garfalo que, embora tenham sido discpulos de Lombroso, guardam algumas divergncias entre si e quanto ao mestre. Enquanto Lombroso se ateve ao fator antropolgico, Ferri trouxe tona as condicionantes sociolgicas, e Garfalo, o elemento psicolgico.

O sculo XX vem marcando o abandono do antropologismo de Lombroso e o surgimento da sociologia criminal americana, caracterizada por sua organizao, profissionalizao e divulgao, por meio de manuais, revistas e congressos. A sociologia criminal desenvolveu-se juntamente com a prpria sociologia americana que se deu, segundo Dias e Andrade (1997), tanto no plano terico como no emprico, tratando o crime como um comportamento desviante e enquadrando-o no conceito de fato social. O desenvolvimento da sociologia criminal americana apresenta as seguintes etapas: nos anos 20 e 30, a escola ecolgica de Chicago; em seguida, as teorias culturalistas e funcionalistas, as perspectivas interacionistas; e, mais recentemente, as teorias crticas (o labeling approach, a etnometodologia e a criminologia radical).

Essa criminologia rompe com a criminologia tradicional, e essa ruptura tanto metodolgica quanto epistemolgica, marcada, como lembram os referidos autores, pelo abandono da perspectiva etiolgica-determinista e pela substituio do referencial esttico e descontnuo pelo referencial dinmico e contnuo na abordagem do comportamento desviante. Esse rompimento tambm e, sobretudo, evidenciado pela reformulao do problema, ou seja:

As questes centrais da teoria e da prtica criminolgicas deixam de se reportar ao

delinquente ou mesmo ao crime, para se dirigirem, sobretudo, ao prprio sistema de controlo, como conjunto articulado de instncias de produo normativa e de audincias de reaco. Em vez de se perguntar por que que o criminoso comete crimes, passa a indagar-se primacialmente porque que determinadas pessoas so tratadas como criminosos, quais as consequncias desse tratamento e qual a fonte da sua legitimidade.

No so, em sntese, os motivos do delinquente mas antes os critrios (os mecanismos de seleo) das agncias ou instncias de controlo que constituem o campo natural desta nova criminologia (DIAS; ANDRADE, 1997, p. 42-43).

Como se pode perceber nesse breve relato histrico, que ser aprofundado nos prximos tpicos, a diferente perspectiva das escolas criminolgicas evidenciar diferentes perspectivas quanto ao objeto estudado, assim como quanto ao mtodo.

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Disciplina: Criminologia e Segurana Pblica2- Sobre o objeto da Criminologia:

A Criminologia pode ser entendida, segundo Zaffaroni e Pierangeli (2004), como uma disciplina que estuda, sob o aspecto biopsicossocial, a questo criminal. Sendo assim, ela se integra com as cincias da conduta aplicadas s condutas criminais.

Segundo Bleger (apud ZAFFARONI e PIERANGELI, 2004, p. 152):

So chamadas cincias da conduta as que estudam a conduta humana desde o ponto de vista do ser desta conduta. O direito penal determina que condutas so desvaloradas e como se traduz este desvalor em conseqncias jurdicas, mas no se pergunta acerca do ser desta conduta, do que ela representa na biografia do sujeito, da problemtica geral das condutas criminosas na vida social etc. Essas questes correspondem a outras cincias, que so a biologia, a psicologia e a sociologia, ou seja, as cincias que estudam a conduta humana. No se trata de cincias que estudam objetos distintos, e sim de disciplinas que estudam um mesmo objeto (conduta humana) em trs nveis diferentes de complexidade.

Inicialmente, afirmam Zaffaroni e Pierangeli (2004), a criminologia era vista como uma disciplina causal-explicativa do delito, capaz, pelo menos, de esclarecer as causas ou as origens das condutas criminais. Dessa forma, o objeto de estudo da referida disciplina era dado pela lei penal, ou seja, por um ato do poder poltico. Da derivam algumas contradies apresentadas pelos autores em anlise:

Como uma cincia objetiva e assptica ideologicamente podia ter um objeto delimitado pelo poder poltico?

Como a criminologia pode se ater a causas do delito, se este presumido pelo direito penal como resultante de uma capacidade humana de escolha?

Em razo dessas e de outras crticas, buscou-se um conceito sociolgico de crime, que pode ser remontado a Garfalo, com a teoria do delito natural. Essa teoria, pautada por um consenso universal, capaz de evitar a arbitrariedade do poder, como diz Zaffaroni e Pierangeli (2004), corresponderia violao dos sentimentos altrusticos fundamentais, como piedade e probidade. Segundo Dias e Andrade (1997), o delito natural existiria na sociedade independentemente das concepes particulares ou exigncias de determinada

poca, ou seja, ele configuraria a ofensa feita ao senso moral da humanidade civilizada.

Com a teoria sociolgico-criminal, tambm se tentou definir o crime como uma unidade autnoma e anterior definio jurdico-penal. Segundo Dias e Andrade (1997), h na criminologia americana um consenso da ideia de deviance como conceito sociolgico de crime, no entanto, h divergncias quanto definio de deviance.

[] h quem defina a deviance como a violao das expectativas da maioria dos membros duma sociedade (COHEN); outros englobam nela todo o comportamento que provoca reaes negativas de terceiros (WHEELER); outros ainda caracterizam-na pela circunstncia de a maior parte das pessoas duma sociedade entender que se devem aplicar sanes negativas (ERIKSON). (DIAS; ANDRADE, 1997, p. 74).

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Disciplina: Criminologia e Segurana PblicaPara a criminologia radical, a definio de crime deve-se dar a partir dos direitos humanos, logo, crime seria toda violao, individual ou coletiva, aos direitos humanos. Apesar dessa diversidade de conceitos, h entre eles um ncleo comum, como lembram Dias e Andrade (1997), ou seja, ambos trazem uma referncia jurdica e uma referncia sociolgica. como diz Vold (apud DIAS; ANDRADE, 1997, p. 84): O crime implica sempre duas coisas: um comportamento humano, e o julgamento ou a definio desse comportamento por parte de outros homens que o consideram como prprio e permitido, ou imprprio e proibido.