Criminalização da pobreza e a pobreza da ... ?· Criminalização da pobreza e a pobreza da criminalização:…

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Revista Publicum Rio de Janeiro, Nmero 3, 2016, p. 205-253 http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/publicum DOI: 10.12957/publicum.2016.26429

8 ................................................................................................ Criminalizao da pobreza e a pobreza da criminalizao: a abordagem da justia restaurativa para a complexidade do conflito

Brisa Arnoud da Silva Mestre em Cincia Jurdica no Programa de Ps-Graduao stricto sensu em Cincia Jurdica da Universidade do Vale do Itaja (UNIVALI). Especializada em Direito do Estado pela Universidade Anhanguera (UNIDERP). Extenso em Instrumentos de Gesto Ambiental Empresarial pela Fundao Getlio Vargas (FGV). Graduada em Direito pela Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL). Advogada. E-mail: brisa_arnoud@hotmail.com

.................................................................................................

Resumo O presente estudo, que se desenvolveu pela tica da complexidade, tem como objetivo examinar os efeitos reflexos da corrupo e da desigualdade social sob a perspectiva da associao pobreza/criminalidade na modernidade reflexiva, dadas as injustias que se mostram como causas que provocam as ofensas. O problema questiona a legitimidade do carter discriminatrio e seletivo do sistema penal brasileiro, que no intimida, no responsabiliza eficientemente, ou reintegra, mas, ao contrrio, causa mais sofrimento entre os envolvidos nos conflitos. Por fim, apresenta-se a abordagem da justia restaurativa, mostrando um modelo humanizado, participativo e cooperativo, que visa atender aos anseios de todos os envolvidos, comportando a alteridade e o respeito, afastando a resposta essencialmente punitiva. O mtodo utilizado na elaborao desta investigao foi o indutivo, com as tcnicas do referente, categoria, conceitos operacionais, pesquisa bibliogrfica e fichamento.

Palavras-chave Crise poltica; Criminalizao da pobreza; Crise do Direito Penal; Justia Restaurativa.

Criminalization of the poverty and the poverty of the criminalization: the approach of the restorative justice for the complexity of the conflict

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Revista Publicum Rio de Janeiro, Nmero 3, 2016, p. 205-253 http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/publicum DOI: 10.12957/publicum.2016.26429

Resumen El presente estudio, que se desarroll a partir de la perspectiva de la complejidad y la interdisciplinariedad, tiene como objetivo examinar los efectos reflejos de la corrupcin y la desigualdad social desde la perspectiva de la asociacin de la pobreza / criminalidad en la modernidad reflexiva, dadas las injusticias que aparecen como causas que provocan delitos. El problema cuestiona la legitimidad del carcter discriminatorio y selectivo del sistema penal brasileo, que no intimida, no castiga de manera eficiente, ni reintegra, pero en vez provoca ms sufrimiento entre los implicados en el conflicto. Por ltimo, se presenta el enfoque de la justicia restaurativa, mostrando una forma ms humana, participativa y cooperativa, que apunta a satisfacer las necesidades de todos los implicados, incluida la alteridad y respeto, y moviendo la respuesta esencialmente punitiva. El mtodo utilizado en la preparacin de esta investigacin fue el inductivo, con las tcnicas de referente, categora, los conceptos operacionales, la investigacin bibliogrfica y reporte de libro.

Palabras-claves Crisis poltica; Criminalizacin de la pobreza; Crisis del derecho penal; Justicia restaurativa.

Sumrio Introduo; 1. Crise poltica e a corrupo; 2. Desamparo e deteriorao social; 3. Criminalizao da pobreza: estigma, mdia e medo; 4. Crise no sistema penal e a pobreza da criminalizao; 5. Justia Restaurativa: uma abordagem humanizada para a complexidade do conflito; Concluso; Referncias Bibliogrficas

Introduo

Admitindo a articulao da complexidade1 na modernidade reflexiva2, no sentido de que

tudo interfere no todo, e toda ao tem uma reao, vivemos problemas na sociedade

contempornea que se transformam em motriz de outras ofensas. Partindo disso, busca-se

nesse artigo refletir o conflito sob o vis da complexidade e interdisciplinaridade,

justamente, para aprofundar e estender o olhar em um panorama mais extenso sobre as

questes que englobam e desencadeiam a marginalidade e, logo, a violncia. Uma vez que

o estudo da Sociologia se dedica a uma perspectiva mais abrangente da vida, do indivduo

em grupo e sociedade, considera-se que a funo social do Direito no pode ser insensvel

as demandas e dinmicas sociais.

1 FAGNDEZ, Paulo Roney vila. O direito e a hipercomplexidade. So Paulo: LTr, 2003, p. 20: O objetivo da ideia de complexidade fazer com que se pense na vida, nas mltiplas implicaes e, fundamentalmente, na riqueza de contedo que apresenta qualquer drama humano. 2 GIDDENS, Anthony; BECK, Ulrich; LASH, Scott. Modernizao reflexiva: poltica, tradio e esttica na ordem social moderna. Traduo de Magda Lopes. So Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1997, p. 16: modernizao reflexiva significa autoconfrontao com os efeitos da sociedade de risco que no podem ser tratados e assimilados no sistema da sociedade industrial.

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A Sociologia mostra que necessrio adoptar uma perspectiva mais

abrangente do modo como somos e das razes pelas quais agimos.

Ensina-nos que o que consideramos natural, inevitvel, bom ou

verdadeiro pode no o ser, e que o que tomamos como dado nas

nossas vidas fortemente influenciado por foras histricas e sociais.

Compreender as maneiras ao mesmo tempo subtis, complexas e

profundas, pelas quais as nossas vidas individuais reflectem os

contextos da nossa experincia social essencial perspectiva

sociolgica3.

A desigualdade social, a violncia e seus reflexos so graves motivos que

impulsionam a realizao de estudos que buscam contribuir para sua compreenso e

enfrentamento. O contexto de vulnerabilidade socioeconmica submete a vida de grande

parte da populao pobre e marginalizada restries, obstculos e inacessibilidade de

direitos, sujeita violao da dignidade e integridade humana e riscos multidimensionais.

Por sua vez, a corrupo um crculo vicioso e vinculante, que ao impactar uma rea

produz efeitos em outra e assim sucessivamente. Esses reflexos afetam diretamente verbas

pblicas destinadas educao, sade, habitao, segurana, e prejudicam a populao

como um todo, mas, sobretudo, os mais carentes, expropriando-os do acesso aos servios

pblicos, agravando ainda mais a condio de vulnerabilidade, tornando a corrupo um

elo entre a cadeia de condies sociais adversas, insegurana e marginalidade na vida de

um imenso nmero de pessoas.

Em virtude disso, preciso refletir sobre os custos humanos da corrupo, da

desigualdade, do desemprego, que reforam esteretipos e criminalizam a pobreza, e

levam em considerao a relao de poder e dominao, que desresponsabilizam o Estado

do caos sistmico e culpabilizam o indivduo, que passa por necessidades, privaes e

dificuldades na luta diria por sobrevivncia, suscetvel delinquncia e criminalidade.

Quando se percebe a misria humana como efeito reflexo de um sistema opressor,

e a falncia de um modelo penal ultrapassado, ineficiente e custoso, torna-se evidente que

os problemas precisam ser resolvidos de outra maneira. Com a manifesta crise de

legitimidade do sistema penal, se expandem os esforos por alternativas de resoluo de

conflitos e o enfoque restaurativo um tratamento diferenciado, em que participam os

envolvidos, as famlias e a comunidade, na busca por solues, atentos s necessidades

3 GIDDENS, Anthony. Sociologia. 6 ed. Lisboa: Fundao Calouste Gulbenkian. 2008, p. 2.

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legtimas da vtima e do ofensor e ao compartilhamento das responsabilidades e obrigaes

entre as partes, visando superao das causas e consequncias do ocorrido.

No decorrer da pesquisa, lanou-se mo de contedo jornalstico, ainda que

brevemente, no com fim sensacionalista, mas com intuito de evidenciar importantes

temas apontados no texto, para analisar o cenrio atual das problemticas e preocupao

maior, no de descrever essas informaes, mas criar uma ponte com a ferramenta da

justia restaurativa que se apresenta para o enfrentamento da nossa realidade.

Assim, ao tratar da vulnerabilidade social, busca-se transcender a perspectiva

interindividual na anlise dos reflexos da corrupo e da desigualdade para a ordem

transindividual, invocando, ento, o senso comum num grau incomum4 pela luta contra a

corrupo, a injustia social, a discriminao e violncia.

1. Crise poltica e a corrupo

Vivemos uma crise, em recesso e declnio (da humanidade), que no deste ou daquele

setor, mas do prprio modelo de civilizao da modernidade reflexiva, complexa e

multidimensional, que afeta a todos, e se insere em todos os aspectos da vida, na sade,

nos modos de vida, na qualidade do ambiente, nas relaes sociais, na economia,

tecnologia, poltica, impregnando as dimenses morais, espirituais e intelectuais5.

A nossa democracia representativa, carente que est de valores ticos e

desconectada das necessidades da sociedade, assume valores de mercado que acata

estratgias empresariais, que se movem pelo lucro, deixando de lado reivindicaes sociais

e ambientais socioambientais to indispensveis6, inquestionvel a mercantilizao da

4 Samuel Taylor Coleridge, poeta, crtico e ensaista ingls, 1772-1834. 5 CRUZ, Paulo Mrcio; FERRER, Gabriel Real. Crise financeira mundial, o Estado e a democracia econmica. RFD Revista da Faculdade de Direito da UERJ, v.1, n. 29, jul/dez. 2011, p. 15. Disponvel em: . Acesso em: 23 mai. 2016. 6 CRUZ, Paulo Mrcio; FERRER, Gabriel Real. Crise financeira mundial, o Estado e a democracia econmica. RFD Revista da Faculdade de Direito da UERJ, v.1, n. 29, jul/dez. 2011, p. 5-6. Disponvel em: . Acesso em: 23 mai. 2016.

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poltica7, a banalizao da vida8, e a esclerose do prprio mercado, que no resguarda a

vida, no produz liberdade, mas mais desigualdade9.

A insatisfao com os representantes polticos e a sensao de impotncia do

cidado que percebe a interferncia do poder transversal no Estado, que no se manifesta

com objetivos voltados garantia de direitos humanos e sociais, mas de grupos de

interesse, do mercado e economia10, torna o direito de voto e a oportunidade de escolha

dos governantes apenas um momento de democracia formal11.

Na prtica, a pouca cultura democrtica e a descrena no funcionamento das

instituies que ao invs de munir, mina a competncia cvica da sociedade

paulatinamente12; desviando a ateno do cidado dos reais problemas que polticos se

perpetuam no poder13; disseminando insegurana poltica que os prprios eleitores se

transformam em vtimas de governos eleitos14.

7 BORGES, Laryssa; MATTOS, Marcela. Eleies 2016: novas regras elevam risco de doaes ilegais. VEJA.COM. On-line. 10 jan. 2016. Disponvel em: . Acesso em: 13 out. 2016. 8 JERUSALINSKY, Alfredo. Adolescncia e contemporaneidade. In: Conselho regional de Psicologia 7 Regio. Conversando sobre Adolescncia e Contemporaneidade. Porto Alegre: Libretos, 2004. On-line. Disponvel em: . Acesso em: 13 out. 2016. A banalizao da vida quer dizer o desaparecimento da cultura pica, a perda do valor trgico das coisas, uma espcie de normalizao de tudo, um certo estado de indiferena. Morrer tem se transformado quase num dado tcnico. O valor que tm os atos da vida para cada um tem se banalizado. 9 CRUZ, Paulo Mrcio; FERRER, Gabriel Real. Crise financeira mundial, o Estado e a democracia econmica. RFD Revista da Faculdade de Direito da UERJ, v.1, n. 29, jul/dez. 2011, p. 19. Disponvel em: . Acesso em: 23 mai. 2016. 10 PASTANA, Dbora Regina. Cultura do medo e democracia: um paradoxo brasileiro. Revista Mediaes, Londrina, v. 10, n. 2, p. 183-198, Jul./Dez. 2005, p. 194. Disponvel em: . Acesso em: 28 abr. 2015. 11 NUNES, Bruno Fvero Wlter. Percentual de votos nulos, brancos e abstenes aumenta e desperta debate. Folha de S. Paulo. 4 out. 2016. On-line. Disponvel em: . Acesso em: 14 out. 2016. 12 PASTANA, Dbora Regina. Cultura do medo e democracia: um paradoxo brasileiro. Revista Mediaes, Londrina, v. 10, n. 2, p. 183-198, Jul./Dez. 2005, p. 195. Disponvel em: . Acesso em: 28 abr. 2015. 13 FRIZZO, Giovanni; CALHEIROS, Vicente; FILIPPINI, Isabella. Copa do Mundo de 2014: a ofensiva do capital e a violao de direitos humanos e sociais no Brasil. Rev. Bras. Cinc. Esporte, Florianpolis, v. 36, n. 2, supl., p. S603-S616, abr./jun. 2014, p. S605- S608. Disponvel em: . Acesso em: 13 jan. 2017. 14 CUSTDIO, Andr Viana; HAMMES, Leila Viviane Scherer. Quando os descaminhos da corrupo cruzam das crianas e dos adolescentes- percepes, relaes possveis e impactos sociais. Revista do Departamento de Cincias Humanas e do Departamento de Psicologia Barbari, Santa Cruz do Sul, Edio Especial n. 44, jul./dez 2015, p. 106-119, p. 112. Disponvel em: . Acesso em: 17 mai. 2016.

http://veja.abril.com.br/brasil/eleicoes-2016-novas-regras-elevam-risco-de-doacoes-ilegais/http://veja.abril.com.br/brasil/eleicoes-2016-novas-regras-elevam-risco-de-doacoes-ilegais/http://www1.folha.uol.com.br/poder/eleicoes-2016/2016/10/1819619-percentual-de-votos-nulos-brancos-e-abstencoes-aumenta-e-desperta-debate.shtmlhttp://www1.folha.uol.com.br/poder/eleicoes-2016/2016/10/1819619-percentual-de-votos-nulos-brancos-e-abstencoes-aumenta-e-desperta-debate.shtml

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A corrupo um fenmeno mundial que ocorre em variados lugares, mas o Brasil

tem uma histria muita rica de graves prejuzos que revolvem todo o pas15:

Considerando que o objetivo vinculado corrupo a obteno de

vantagens, especialmente pecunirias, o resultado obtido no poderia

ser outro seno aquele que afeta diretamente o cenrio econmico e

suas correlaes com o mercado e com a sociedade16

Desvios de recursos so verdadeiros obstculos ao funcionamento da mquina

pblica, que emperram a prestao de servios de sade, educao, segurana pblica,

infraestrutura, assistncia, previdncia social, entre outros; em detrimento das

necessidades de toda populao, resultando na violao de direitos humanos fundamentais

e dignidade humana17.

Consequncia evidente da corrupo a agresso aos direitos

humanos. Na medida que os recursos pblicos so desviados para

pagamento de propinas, para extorso de servidores, para fraudes,

para compra de conscincias, para liberao acelerada de verbas, para

ganho em licitaes, para no-pagamento de tributos, para

sonegao, enfim, para deturpao de qualquer espcie, o lesado no

o governo, mas o ser humano18.

15 CARVALHO, Mrio Cesar. Brasil lder em ranking de propina nos Estados Unidos. Folha de S. Paulo. 13 jan. 2017. On-line. Disponvel em: . Acesso em: 14 jan. 2017. 16 CUSTDIO, Andr Viana; HAMMES, Leila Viviane Scherer. Quando os descaminhos da corrupo cruzam das crianas e dos adolescentes- percepes, relaes possveis e impactos sociais. Revista do Departamento de Cincias Humanas e do Departamento de Psicologia Barbari, Santa Cruz do Sul, Edio Especial n. 44, jul./dez 2015, p. 106-119, p. 108-110. Disponvel em: . Acesso em: 17 mai. 2016. 17 CUSTDIO, Andr Viana; HAMMES, Leila Viviane Scherer. Quando os descaminhos da corrupo cruzam das crianas e dos adolescentes- percepes, relaes possveis e impactos sociais. Revista do Departamento de Cincias Humanas e do Departamento de Psicologia Barbari, Santa Cruz do Sul, Edio Especial n. 44, jul./dez 2015, p. 106-119, p. 111. Disponvel em: . Acesso em: 17 mai. 2016. 18 OLIVEIRA, Regis Fernandes de. A corrupo como desvio de recursos pblicos: a agresso aos direitos humanos. Revista Brasileira de Estudos Jurdicos, vol.1, n 1, abr. 2005- mar. 2006, p. 9- 18. p. 16. Disponvel em: . Acesso em: 11 out. 2016.

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A corrupo agrava a desigualdade, afetando tudo que d respeitabilidade

populao, gerando insegurana, analfabetismo, fome e injustias sociais que segregam

pessoas e corrompem a democracia19.

Aes lesivas ao sistema no interferem no suprfluo, mas sobretudo no essencial.

No entanto, difcil demonstrar como comprometem as demandas sociais, justamente

porque possvel apurar os dados concretamente perdidos, mas impossvel mensurar os

reflexos e consequncias das irregularidades20. Assim, uma das faces mais perversas da

corrupo que seus efeitos se prolongam ao longo do tempo, especialmente em reas de

grande importncia, como a sade21 e educao22, dentre tantas outras afetadas23.

A corrupo afeta polticas pblicas que visam garantir direitos humanos em geral,

mas prejudica sobremaneira as pessoas mais necessitadas, com escolas sem recursos,

hospitais sem atendimento, com o desemprego, com a degradao ambiental. Na medida

que as pessoas responsveis pelo sustento familiar no tm emprego e sofrem a retrao

econmica, outras necessidades bsicas so sacrificadas, e outros impactos sociais

gravssimos podem suceder, como o trabalho infantil, a mendicncia, explorao sexual, a

induo e aliciao ao crime24.

Essa situao cria armadilhas de pobreza, com amplos setores que

tm os seus destinos praticamente determinados. Famlias cujos filhos

no podem concluir a escola primria ou a secundria no possuem

19 WEISS, Ana. Mais concorrido professor de Harvard, filsofo defende que o Brasil concentre mais esforos na educao bsica que na universidade. ISTO. 17 jun. 2016. n. 2428. On-line. Disponvel em: . Acesso em: 8 nov. 2016. 20 CUSTDIO, Andr Viana; HAMMES, Leila Viviane Scherer. Quando os descaminhos da corrupo cruzam das crianas e dos adolescentes- percepes, relaes possveis e impactos sociais. Revista do Departamento de Cincias Humanas e do Departamento de Psicologia Barbari, Santa Cruz do Sul, Edio Especial n. 44, jul./dez 2015, p. 106-119, p. 112-113. Disponvel em: . Acesso em: 7 mai. 2016. 21 G1. MP denuncia polticos que desviavam dinheiro do SUS para campanhas. G1 Rio. 25 jun. 2016. On-line. Disponvel em: . Acesso em: 12 jan. 2016. 22 TOKARNIA, Mariana. Balano da CGU revela desvios de R$ 2 bilhes da merenda escolar. EBC - Agncia Brasil. 27 jan. 2016. On-line. Disponvel em: . Acesso em: 12 jan. 2016. 23 BIDERMAN, Ciro; AVELINO, George. A Doena da Corrupo: o Desvio de Fundos e a Sade Pblica nos Municpios Brasileiros. 2013. GV pesquisa FGV. On-line. Disponvel em: . Acesso em: 17 out. 2016. 24 MARTINS, Christine Baccarat de Godoy; JORGE, Maria Helena Prado de Mello. Situao de mendicncia, trabalho precoce e prostituio infantil envolvendo crianas e adolescentes em Londrina, Estado do Paran 2008. Acta Scientiarum. Health Sciences. Maring, v. 31, n. 1, p. 23-29, 2009. p. 27. Disponvel em: . Acesso em: 17 out. 2016.

http://istoe.com.br/desigualdade-social-e-base-da-corrupcao/http://gvpesquisa.fgv.br/publicacoes/gvp/corrupcao-prejudica-saude-dos-brasileiros

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saneamento nem acesso sade, entre outras carncias bsicas. Em

tais circunstncias, no conseguiro entrar, quando jovens, na

economia formal, e constituiro famlias quase condenadas a repetir o

mesmo destino, a no ser que haja polticas afirmativas agressivas que

abram novas oportunidades. A pobreza, a desigualdade e a excluso

criam tenses enormes. Inmeros estudos identificaram uma elevada

relao entre desigualdade e violncia25.

Assim, os mais pobres so os mais prejudicados pela corrupo, porque alm de

sofrerem problemas da prpria condio de vulnerabilidade, tambm so privados de

direitos que tiveram verbas desencaminhadas, subtradas, tornando a corrupo num elo

entre precarizao da famlia, da educao, do (des)emprego e a marginalizao26.

Caso a corrupo pudesse ser estancada, como se estanca o sangue

que jorra de um corte profundo, certamente sobrariam mais recursos

(no totalmente suficientes, claro, pois as necessidades

oramentrias so sempre crescentes em todas as reas

governamentais) para dar sustentabilidade ao modelo social

delineado pela Carta Magna de 1988. interessante frisar que a tarefa

de buscar a incluso social das parcelas da populao menos

favorecidas encontra dificuldade na progressiva carncia de recursos

financeiros no s no nosso Pas, como em grandes potncias

mundiais, como os Estados Unidos. Mas no Brasil o problema mais

crnico, haja vista que alm da grande desigualdade social com a qual

convivemos, deparamo-nos com altos ndices de corrupo praticada

25 KLIKSBERG, Bernardo. Como enfrentar o crescimento da insegurana urbana na Amrica Latina? As lgicas em conflito. In SEN, Amartya; Kliksberg, Bernardo. As pessoas em primeiro lugar: a tica do desenvolvimento e os problemas do mundo globalizado. Traduo Bernardo Ajzemberg, Carlos Eduardo Lins da Silva. So Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 259-301. Ttulo original: Primero la gente: uma mirada desde la tica del desarrollo a los principales problemas del mundo globalizado. p. 297. 26 CUSTDIO, Andr Viana; HAMMES, Leila Viviane Scherer. Quando os descaminhos da corrupo cruzam das crianas e dos adolescentes- percepes, relaes possveis e impactos sociais. Revista do Departamento de Cincias Humanas e do Departamento de Psicologia Barbari, Santa Cruz do Sul, Edio Especial n. 44, jul./dez 2015, p. 106-119, p. 114. Disponvel em: . Acesso em: 17 mai. 2016.

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por agentes que deveriam estar a servio da sociedade e no de

interesses pessoais27.

A despeito das condies adversas, prega-se que o empreendedorismo a panaceia

nos tempos de crise. Afirma-se que nesse contexto de recesso e transformaes, de

conteno de tudo e de todos, de crise multidimensional, nos planos poltico, econmico,

social, cultural, educacional, o que preciso sermos empreendedores 28 . Ento,

supostamente, com criatividade e arregaando as mangas 29 a populao conseguiria

passar pela marola que virou onda30. Assim, o grupo mais afetado pela crise, jovens entre

14 a 24 anos, que sofrem com o desemprego, com dficits de qualificao e competncia,

com baixa escolaridade, sem capital e sem disposio de correrem riscos e serem

resilientes 31 , so levados a acreditarem nas oportunidades do limo, no sucesso da

limonada 32 e no crdito para o empreendedorismo 33 . Contudo, esse empreendedor

apresentado como sujeito dono do prprio destino, capaz de controlar a vida com as

prprias mos 34 , desconsiderando a crise sistmica, que no se limita corrupo,

27 PONTES, Ana Cristina Melo de. O custo da corrupo poltica e seu reflexo negativo na efetivao de direitos sociais. Anais do XVII Congresso Nacional do CONPEDI, Braslia DF, 2008. p. 3271-3297. p. 3275. Disponvel em: . Acesso em: 12 jan. 2017. 28 BARBOSA, Ins; FERREIRA, Fernando Ildio. A "mquina do empreendedorismo": Teatro do Oprimido e educao crtica em tempo de crise. Investigar em Educao: Revista da Sociedade Portuguesa de Cincias da Educao - II Srie, Nmero 3, 2015, p. 73. Disponvel em: . Acesso em: 18 out. 2016. 29 Vivo Seu Dinheiro. Veja boas ideias de negcios para desempregados. 30 de jun. 2016. On-line. Disponvel em: . Acesso em: 19 out. 2016. 30 BANDEIRA, Luiza. Crise era marolinha, mas virou onda porque mar no serenou, diz Dilma. BBC Brasil. 11 jun. 2015. On-line. Disponvel em: . Acesso em: 19 out. 2016. 31 DIRIO GACHO. Por que os jovens so os mais afetados pelo desemprego. Saiba o que fazer para no desanimar. 28 mai. 2016. On-line. Disponvel em: . Acesso em: 19 out. 2016. 32 CHADAD, Norberto. Sobre limes e limonadas. CATHO Carreira e Sucesso. On-line. Disponvel em: . Acesso em: 19 out. 2016. 33 SEBRAESP. Semana do MEI: desemprego impacta em aumento de empreendedores. On-line. Disponvel em: < http://www.sebraesp.com.br/index.php/42-noticias/empreendedorismo/18365-semana-do-mei-desemprego-impacta-em-aumento-de-empreendedores>. Acesso em: 20 out. 2016. 34 SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo um humanismo. Traduo de Joo Batista Kreuch. Petrpolis, RJ: Vozes, 2012. Ttulo original: Lexistencialisme est un humanisme, p. 50. Naturalmente, no ousamos opor a significao de liberdade de escolha e engajamento de Sartre, mas, justamente, porque o homem est constantemente projetando-se e perdendo-se fora de si, no sentido em que o homem no se encontra encerrado nele mesmo, mas sempre presente num universo humano, levanta-se, assim como fez Pierre Naville, que a natureza humana tambm se define no quadro social,

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inflao, juros, alta do dlar, retrao de consumo, mas extravasa as desigualdades35. Se

no fossem lamentvel, seriam risveis as inmeras referncias martimas relacionadas

crise como oportunidade36, afinal, nos tempos de mar baixa37, preciso nadar contra a

correnteza, no se afogar e atravessar o mar revolto38, para surfar na onda39 e no morrer

na praia40. Esse discurso de palavras soltas e sem sentido refora a relao hipcrita de

poder e dominao, que desresponsabiliza o Estado do caos poltico e da crise econmica,

e culpabiliza o indivduo41 que sofre necessidades, privaes e dificuldades na luta diria

por sobrevivncia, porque, caso se afogue, foi devido a sua preguia, por covardia, porque

no perseverou, no um lder, no teve garra, determinao, empenho, energia, vontade

de trabalhar e de mudar42.

O estmulo ao empreendedorismo criativo, a exemplo do projeto de vinhetas Al

Brasil, aqui tem educao, televisionada pelo Canal Futura e retransmitido pela emissora

Rede Globo, que substituiu a dinmica investida em educao (menas, o certo do errado,

o errado do certo) e credita dicas de investimento, no suficiente para sair da crise e

onde a desagregao geral dos regimes sociais, das classes, os conflitos que as perpassam fazem com que a realidade humana se manifeste por meio de toda uma srie de condies prprias, cujo sentido dificilmente trilha de outra forma. 35 BARBOSA, Ins; FERREIRA, Fernando Ildio. A "mquina do empreendedorismo": Teatro do Oprimido e educao crtica em tempo de crise. Investigar em Educao: Revista da Sociedade Portuguesa de Cincias da Educao - II Srie, Nmero 3, 2015, p. 70. Disponvel em: . Acesso em: 18 out. 2016. 36 FONSECA, Mariana. Tomar coragem para empreender como aprender a nadar. EXAME. 7 jul. 2015. On-Line. Disponvel em: . Acesso em: 20 out. 2016. 37 SEBRAE. Onde h crise, h oportunidade. On-line. Disponvel em: . Acesso em: 19 out. 2016. 38 ROCHA, Leonel. Doze dicas para sobreviver crise econmica. Congresso em foco. 29 fev. 2016. On-line. Disponvel em: . Acesso em: 21 out. 2016. 39 POCA. Como aproveitar as oportunidades que toda crise oferece. 29 mai. 20015. On-line. Disponvel em: . Acesso em: 20 out. 2016. 40 Blog do Empreendedor. Enxurradas ou tsunamis: haja fora para no morrer na praia. ESTADO PME Pequenas e Mdias Empresas. 4 nov. 2015. On-line. Disponvel em: . Acesso em: 20 out. 2016. 41 BARBOSA, Ins; FERREIRA, Fernando Ildio. A "mquina do empreendedorismo": Teatro do Oprimido e educao crtica em tempo de crise. Investigar em Educao: Revista da Sociedade Portuguesa de Cincias da Educao - II Srie, Nmero 3, 2015, p. 67. Disponvel em: . Acesso em: 18 out. 2016. 42 HERRERO, Monica. Transforme a crise em oportunidade. REVISTA VOC S/A. On-line. Disponvel em: . Acesso em: 19 out. 2016.

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beira irresponsabilidade, mascarando a inadimplncia de milhares de empreendedores

com nome sujo43.

Portanto, preciso refletir sobre os limites desta criatividade e atentar sobre os

custos humanos da corrupo, na pobreza, no desemprego, na perda da qualidade de vida,

formao de habilidades e potenciais, porque essas graves deficincias prejudicam a toda

sociedade44.

Diante do sistema infame, leia-se, grupos de poder, que mais uma vez nos mostram

que jamais legisla contra si mesmos45 , torna-se premente o combate corrupo, de

desvios e lavagens de dinheiro, que representam enorme custo para a concretizao de

polticas e direitos sociais e prejudicam toda a populao brasileira.

2. Desamparo e deteriorao social

O Brasil, signatrio da Conveno Interamericana contra a Corrupo, adotada em Caracas

em 1996 e aprovada e em vigor desde 2002, considera que a corrupo solapa a

legitimidade das instituies pblicas e atenta contra a sociedade, a ordem moral e a justia,

bem como contra o desenvolvimento integral dos povos46.

A corrupo um crculo vicioso, que ao atingir uma rea desencadeia outros

impactos, que se relacionam com outros, e assim infinitamente. Afetam diretamente

polticas pblicas destinadas garantia do mnimo existencial ecolgico, que associa a

proteo social e ambiental para possibilitar condies dignas de vida e o desenvolvimento

humano47, voltadas educao, sade, habitao, saneamento bsico, preservao do

ambiente saudvel, com a falta de merenda escolar, de acesso educao, sade, gua,

medicamentos, atendimento hospitalar, segurana pblica, que refletem, sucessivamente,

43 G1. Mais da metade das empresas esto inadimplentes, diz Serasa. Globo.com. So Paulo. 10 jun. 2016. On-line. Disponvel em: . Acesso em: 21 out. 2016. 44 CARDIA, Nancy. Jovens, violncia fatal, superposio de carncias e mercado de trabalho, p. 4. On-line. Disponvel em: . Acesso em: 10 jun. 2016. 45 CARTA CAPITAL. Cmara aprova pacote anticorrupo sem anistia, mas desafia Lava Jato. 30 nov. 2016. On-line. Disponvel em: . Acesso em: 12 jan. 2017. 46 BRASIL. Decreto n 4.410, de 7 de outubro de 2002. Promulga a Conveno Interamericana contra a Corrupo, de 29 de maro de 1996, com reserva para o art. XI, pargrafo 1o, inciso "c". Disponvel em: . Acesso em: 21 out. 2016. 47 SILVA, Brisa Arnoud da. A interdependncia entre os Direitos Fundamentais e Humanos no Estado Democrtico Socioambiental. I Ciclo Internacional de Direitos Humanos Fundamentais do Curso de Mestrado de Direito Constitucional da Universidade Federal Fluminense UFF (Videoconferncia). Disponvel em: . Acesso em: 14 jan. 2017.

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em crianas, adolescentes, adultos e famlias, e, enfim, na populao como um todo, mas

sobretudo, nos mais dependentes do servio pblico, os mais vulnerveis48.

Com isso no se quer dizer que a causa da pobreza a corrupo. A

pobreza causada por inmeros fatores: polticos, econmicos, scio-

culturais, histricos, entre outros. Mas, que a corrupo aumenta

consideravelmente os ndices de pobreza e atinge diretamente quem

mais necessita49.

A pobreza no deve ser entendida apenas como baixo nvel de renda, mas,

sobretudo, como a privao de capacidades bsicas 50 . A excluso social tambm no

remete somente a pobreza e marginalizao, mas entrelaa as restries que se reverberam

em cadeia, produzindo efeitos nas dimenses social, cultural, econmica/financeira,

jurdica, poltica e ambiental51. E "classe social" igualmente no se limita s vantagens ou

desvantagens de cunho econmico, como propriedade, dinheiro, ou a carncia destes, e

sua transferncia s respectivas futuras geraes.

Jess Souza alerta em A ral brasileira: quem e como vive, a cegueira

economicista da sociedade que no assimila valores imateriais inerentes que fundamentam

determinada classe social, ou seja, a existncia de um capital cultural por trs da produo

do prprio capital material.

Como toda viso superficial e conservadora do mundo, a hegemonia

do economicismo serve ao encobrimento dos conflitos sociais mais

profundos e fundamentais da sociedade brasileira: a sua nunca

percebida e menos ainda discutida diviso de classes. (...). Isso

equivale, na verdade, a esconder e tornar invisvel todos os fatores e

48 SANTOS, Ruth; MENEZES, Renata. A necessidade de realizao de polticas pblicas para a universalizao do direito ao saneamento bsico. Revista Brasileira de Polticas Pblicas (Online), Braslia, v.6, n 2, 2016, p. 257-271, p. 264. Disponvel em: . Acesso em: 7 dez. 2016. 49 CUSTDIO, Andr Viana; HAMMES, Leila Viviane Scherer. Quando os descaminhos da corrupo cruzam das crianas e dos adolescentes- percepes, relaes possveis e impactos sociais. Revista do Departamento de Cincias Humanas e do Departamento de Psicologia Barbari, Santa Cruz do Sul, Edio Especial n. 44, jul./dez 2015, p. 106-119, p. 114. Disponvel em: . Acesso em: 17 mai. 2016. 50 SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade; traduo Laura Teixeira Motta; reviso tcnica Ricardo Doninelli Mendes. So Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 120. 51 CRUZ, Paulo Mrcio; FERRER, Gabriel Real. Crise financeira mundial, o Estado e a democracia econmica. RFD Revista da Faculdade de Direito da UERJ, v.1, n. 29, jul/dez. 2011. p. 12. Disponvel em: . Acesso em: 23 mai. 2016.

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precondies sociais, emocionais, morais e culturais que constituem a

renda diferencial, confundindo, ao fim e ao cabo, causa e efeito.

Esconder os fatores no econmicos da desigualdade , na verdade,

tornar invisvel as duas questes que permitem efetivamente

compreender o fenmeno da desigualdade social: a sua gnese e a

sua reproduo no tempo52.

Isso torna-se tanto mais despercebido porque nas famlias de classe mdia a

aquisio e reproduo de capital cultural, das precondies que iro permitir competir

com mais chances de sucesso nas relaes sociais, se transmite por um processo de

identificao afetiva, de modo invisvel, imperceptvel e cotidiana no mbito familiar. Os

filhos dessa classe se acostumam desde cedo com a leitura, com o aprendizado de idiomas

estrangeiros, com o uso do computador e de novas tecnologias, porque assimilam com

naturalidade hbitos e costumes dos parentes mais prximos, porque absorvem de quem

amam de forma espontnea e inconsciente. No entanto, a viso economicista considera os

privilgios dessa interao comuns todas as classes, como se as condies de vida das

diferentes classes fossem todas semelhantes, ocultando que o processo de socializao

familiar modela e aprimora o indivduo produtividade e competitividade na vida. Assim,

afastando as precondies sociais, emocionais, morais e econmicas, que as adversidades

das classes no privilegiadas so atribudas ao prprio indivduo e se levanta a

meritocracia53.

O esquecimento do social no individual, o que permite a celebrao

do mrito individual, que em ltima anlise justifica e legitima todo

tipo de privilgio em condies modernas. esse mesmo

esquecimento, por outro lado, que permite atribuir culpa individual

queles azarados que nasceram em famlias erradas, as quais s

reproduzem, em sua imensa maioria, a prpria precariedade. Como,

no entanto, o social, tambm nesse caso, desvinculado do individual,

o indivduo fracassado no discriminado e humilhado

cotidianamente como mero azarado, mas como algum que, por

preguia, inpcia ou maldade, por culpa, portanto, escolheu o

52 SOUZA, Jess. A ral brasileira: quem e como vive. Belo Horizonte: UFMG, 2009, p. 17. 53 SOUZA, Jess. A ral brasileira: quem e como vive. Belo Horizonte: UFMG, 2009, p. 18-19.

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fracasso54.

Os pais tm reconhecidamente importncia na criao dos filhos e em seu

desenvolvimento55. A classe mdia orienta seus descendentes como devem se comportar,

ser e existir, oferecendo condies e transmitindo uma perspectiva de mundo que prpria

da classe a que pertencem, com nfase nas habilidades importantes para a vida e no seu

desempenho 56 , o que Anette Lareau denomina de cultivo orquestrado, diferente do

crescimento natural em que pais da classe trabalhadora e pobre acreditam que desde que

provido afeto, comida e teto, seus filhos crescero bem-sucedidos, sem se atentarem para

o desenvolvimento de faculdades especiais dos filhos57. Os recursos parentais da classe

mdia, alm de ensinarem valores de autodisciplina, autocontrole, respeito ao espao

alheio, e pensamento prospectivo, assomam autoconfiana, que encorajam e assistem aos

desafios com estmulo e motivao. Essa combinao de atributos cognitivos e emocionais

tornam-se verdadeiras vantagens invisveis que refletem tanto na escola, quanto no

mercado de trabalho, em relao s classes desfavorecidas. Assim, a renda econmica

que advm desse sucesso , portanto, efeito e no causa das diferenas entre as

classes58

Essas vantagens so invisveis porque construdas na intimidade da famlia de classe

mdia. O senso comum abstrai a importncia das precondies sociais e familiares, atento

somente para o xito, ento, mrito individual. Dentro dessa perspectiva, a desigualdade

e excluso social tambm se tornam invisveis e os marginalizados competem no trato social

como se tivessem as mesmas capacidades e disposio comportamental dos indivduos da

classe mdia. Por conta disso, o privilgio inato das classes mdia e alta transformado em

prejuzo inato de toda classe que se produz e reproduz estigmatizada, tornando esse grupo

suscetvel a perder-se prematuramente pelo abandono para a delinquncia59.

Para Nancy Cardia, no surpreende que a superposio de carncias na classe baixa,

como na educao, sade, moradia, e trabalho, desencadeie outras disparidades,

convergindo, como efeito cascata, em violncia, que se concentra, pois, nas reas onde h

um maior nmero de jovens com baixa escolaridade, baixa renda, e baixos ndices de

54 SOUZA, Jess. A ral brasileira: quem e como vive. Belo Horizonte: UFMG, 2009, p. 42. 55 Art. 5, Conveno sobre Direitos da Criana UNICEF. Disponvel em: . Acesso em: 10 jan. 2017. 56 SOUZA, Jess. A ral brasileira: quem e como vive. Belo Horizonte: UFMG, 2009, p. 44. 57 LAREAU, Annette. A desigualdade invisvel: o papel da classe social na criao dos filhos em famlias negras e brancas. Educao em Revista. Belo Horizonte. n. 46. p. 13-82. Dez. 2007, p. 17. Disponvel: . Acesso: 24 out. 2016. 58 SOUZA, Jess. A ral brasileira: quem e como vive. Belo Horizonte: UFMG, 2009, p. 44-45. 59 SOUZA, Jess. A ral brasileira: quem e como vive. Belo Horizonte: UFMG, 2009, p. 24.

http://www.scielo.br/pdf/edur/n46/a02n46.pdf

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emprego60. A crise no mercado e a reestruturao produtiva extingue vagas de trabalho,

inclusive as que admitiam jovens menos habilitados 61 . A precarizao do trabalho, os

contratos temporrios e outras modalidades semelhantes fazem que o jovem tenha menos

proteo social, menos renda, enfrentando srias dificuldades para sobreviver, afetando

ainda mais o quadro da desigualdade. Com a falta de emprego, famlias com aperto

financeiro se formam precariamente, em contexto de conflito domstico. Altos nveis de

pobreza criam tenses e destroem famlias diariamente na regio. O estresse econmico

trazido pelo desemprego permanente, pela precariedade e pela aglomerao fsica

tencionam ao extremo o clima dentro da famlia 62 . Com o maior adensamento

demogrfico a demanda por servios pblicos como escolas, creches, hospitais,

saneamento, moradia, trabalho, transporte pblico, tambm aumenta. No entanto, o setor

pblico no tem conseguido supri-las e tampouco o setor privado tem interesse em investir

onde a populao no pode pagar63.

A desigualdade social tem efeitos sociais muito negativos, porque sem educao e

qualificao o mercado paga mal e as oportunidades de trabalho so raras, gerando

profunda privao. O desemprego degrada a dignidade das pessoas, adultos perdem sua

credibilidade perante os jovens, desmoronando-se a referncia de exemplo aos mais novos,

no dispondo de meios para convenc-los de que possvel aspirar por uma mobilidade

social decentemente64.

Por conta disso, classe mais baixa inabilitada, com carncias e dificuldade de

insero do mercado formal cada vez mais competitivo e discriminatrio, resta vender-se

como "corpo", com o dispndio de energia muscular, como burro de carga, em trabalhos

desvalorizados, estigmatizados e sem futuro65.

60 CARDIA, Nancy das Graas. Jovens, violncia fatal, superposio de carncias e mercado de trabalho. p. 2. On-line. Disponvel em: . Acesso em: 10 jun. 2016. 61 CARDIA, Nancy das Graas. Jovens, violncia fatal, superposio de carncias e mercado de trabalho. p. 2. On-line. Disponvel em: . Acesso em: 10 jun. 2016. 62 KLIKSBERG, Bernardo. Mitos sobre a juventude latino-americana. In SEN, Amartya; Kliksberg, Bernardo. As pessoas em primeiro lugar: a tica do desenvolvimento e os problemas do mundo globalizado. Traduo Bernardo Ajzemberg, Carlos Eduardo Lins da Silva. So Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 212-258. p. 227. Ttulo original: Primero la gente: uma mirada desde la tica del desarrollo a los principales problemas del mundo globalizado. 63 CARDIA, Nancy das Graas. Jovens, violncia fatal, superposio de carncias e mercado de trabalho. p. 2. On-line. Disponvel em: . Acesso em: 10 jun. 2016. 64 CARDIA, Nancy. Jovens, violncia fatal, superposio de carncias e mercado de trabalho, p. 3-4. On-line. Disponvel em: . Acesso em: 10 jun. 2016. 65 MACIEL, Regina Heloisa et al. Precariedade do trabalho e da vida de catadores de reciclveis em Fortaleza, CE. Arquivos Brasileiros de Psicologia; Rio de Janeiro, 63 (no.spe.): 1-104, 2011, p. 79-80.

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desse modo que essa classe explorada pelas classes mdia e alta:

como corpo vendido a baixo preo, seja no trabalho das empregadas

domsticas, seja como dispndio de energia muscular no trabalho

masculino desqualificado, seja ainda na realizao literal da metfora

do corpo venda, como na prostituio. Os privilgios da classe

mdia e alta advindos da explorao do trabalho desvalorizado dessa

classe so insofismveis66.

Ns, no Ocidente, vivemos numa sociedade dita pacfica, mas nos acostumamos a

uma realidade conturbada, contaminada pela violncia estrutural e passamos a olhar de

uma maneira viciada a crueldade que degrada, empobrece, discrimina e marginaliza, que

refora o esteretipo das minorias e resulta na falta de conhecimento geral67.

Muitos jovens latino-americanos encontram-se, hoje, em verdadeiros

becos sem sada em aspectos essenciais de sua existncia,

transformando-se em problemas para a sociedade. Por trs desses

problemas encontram-se jovens com todo tipo de potencialidade,

mas que a forma de funcionamento de seus contextos nacionais

colocou em situaes muito difceis68.

A classe baixa desprezada e pouco importam seus problemas e amarguras. Nos

dilogos, nas novelas, na mdia, frequentemente so esquecidas pautas to universais como

a condio das pessoas e igualdade de todos, o direito educao, sade, moradia,

alimentao, trabalho, e pobres so considerados o prprio problema, percebidos apenas

como conjunto de reles indivduos perigosos espreita.

Disponvel em: . Acesso em: 27 out. 2016. 66 SOUZA, Jess. A ral brasileira: quem e como vive. Belo Horizonte: UFMG, 2009, p. 23. 67 SALIBA, Marcelo Gonalves. Justia restaurativa e paradigma punitivo. Curitiba- Juru, 2009, p. 15. 68 KLIKSBERG, Bernardo. Mitos sobre a juventude latino-americana. In SEN, Amartya; Kliksberg, Bernardo. As pessoas em primeiro lugar: a tica do desenvolvimento e os problemas do mundo globalizado. Traduo Bernardo Ajzemberg, Carlos Eduardo Lins da Silva. So Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 212-258. Ttulo original: Primero la gente: uma mirada desde la tica del desarrollo a los principales problemas del mundo globalizado, p. 239.

http://seer.psicologia.ufrj.br/index.php/abp/article/view/725

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3. Criminalizao da pobreza: estigma, mdia e medo

A corrupo conspira contra realizao de direitos civis de toda populao, mas a

dominao de classe e a criminalizao da pobreza subjuga os pobres, negros, pessoas com

baixa escolaridade e empregos precrios, com prticas e polticas de represso e controle

social seletivo, adicionando efeitos ainda mais negativos a j to restrita existncia

dos marginalizados.

A linha-dura contm um risco muito grave, que o de resvalar para a

criminalizao da pobreza, considerando suspeitos todos aqueles

que apresentarem sinais de pobreza ou de pertencimento a minorias

tnicas ou raciais, que se encontram afastadas ou excludas da

sociedade. Punir, assim, aquelas que so, na verdade, as vtimas de

sistemas econmico-sociais que no criam oportunidades concretas

para todos. Em vez de se esforar para saber como inclu-los, criam-se

(...) estratgias de governabilidade voltadas para conter e segregar

aqueles que esto sobrando. Criminalizar a pobreza no resolve o

problema, ao contrrio, agrava os j existentes. Gera sociedades com

ndices exacerbados de tenso interna, atuando como um multiplicar

da pobreza69.

O estigma da situao de vulnerabilidade socioeconmica contribui para a

criminalizao da pobreza e a construo social do delinquente. Assim, so os excludos os

mais temidos, os mais acusados e os mais oprimidos pelo sistema.

(...) a discriminao duradoura baseada sempre em informaes

equivocadas, estigmatizando grupos considerados perigosos pela

tradio criminosa associada ora pela etnia, ora pelo local de moradia,

ora pela condio financeira etc. So as clssicas afirmaes de que

negros e pobres so mais propensos ao crime. No caso da violncia

criminal, exatamente como atesta o ILANUD (Instituto Latino-

69 KLIKSBERG, Bernardo. Como enfrentar o crescimento da insegurana urbana na Amrica Latina? As lgicas em conflito. In SEN, Amartya; Kliksberg, Bernardo. As pessoas em primeiro lugar: a tica do desenvolvimento e os problemas do mundo globalizado. Traduo Bernardo Ajzemberg, Carlos Eduardo Lins da Silva. So Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 259-301, p. 275. Ttulo original: Primero la gente: uma mirada desde la tica del desarrollo a los principales problemas del mundo globalizado.

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Americano das Naes Unidas para a Preveno do Delito e

Tratamento do Delinquente) (apud Tulio KAHN, 1998), percebe-se que

os grupos sociais mais vitimizados so aqueles socialmente excludos,

desprovidos dos smbolos que caracterizam o cidado de bem e

revestidos pelos signos da marginalidade (pobreza, juventude, cor

negra, morador da periferia da cidade etc.)70.

A famlia desestruturada, o desemprego, o uso de drogas, so aspectos que sugerem

a naturalizao da prtica de ato infracional. No entanto, sabe-se que esse conjunto de

circunstncias e particularidades no so exclusivas da classe baixa. Por exemplo, um

grande nmero de pessoas da classe mdia e alta usa drogas, naturais e/ou sintticas, com

fins recreativo, medicinal e mesmo religioso, e a elas no se associam drogas com a

potencial prtica de delitos. Contudo, quando jovens e adultos da classe baixa usam,

independente se para recreao ou destruio prpria, so demonizados e tratados como

criminosos, disseminando-se rtulos e estigmas, que, no fundo, desmascaram uma

discriminao de classes arraigada na sociedade71.

A desestruturao familiar continua sendo enxergada por estes

profissionais como o fator causador do delito entre os jovens. Porm,

a desestruturao familiar aparece travestida nos conceitos de risco

social e vulnerabilidade social. A naturalizao da prtica do ato

infracional se d a partir do conceito de risco social, que se define pela

violncia domstica, presena de parentes infratores, ausncia

paterna, (dado presente em quase todos os laudos) desemprego ou

subemprego dos genitores. Estes fatores constituem a cadeia de

efeitos que, na viso destes profissionais, conduziriam os jovens

evaso escolar, ao uso de drogas e finalmente ao crime. (...) A

referncia ao uso de drogas (...), presentes em processos de

adolescentes que sofrem a determinao de cumprimento de medida

socioeducativa um indicativo de que este dado utilizado por estes

70 PASTANA, Dbora Regina. Cultura do medo e democracia: um paradoxo brasileiro. Revista Mediaes Londrina, v. 10, n. 2, p. 183-198, Jul./Dez. 2005. Disponvel em: . Acesso em: 28 abr. 2015, p. 189. 71 ANDRADE, Paulo Roberto. A construo social do delinquente menor de idade na esfera jurdica. Revista tica e Filosofia Poltica, N 15, vol. 1, mai. 2012. p. 86-102. p. 96. Disponvel em: . Acesso em: 4 mai. 2016.

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profissionais como um dos principais elementos que sustentam a

rotulao do comportamento criminoso72.

Um dos delitos que mais enquadra jovens concerne Lei de Entorpecentes, a Lei n

11.343/2006, porm, so os menores das classes mais baixas que so acautelados pelo

cometimento deste tipo de infrao, porque para aqueles que tem mais renda, mais

conhecimento, informao, respaldo familiar, a repreenso e censura da abordagem

policial, a admoestao, vulgo esculacho, menos depreciativa, Enquanto os pobres so

criminalizados e violentados por policiais, os mais ricos so acobertados pela condio

social e raramente acabam punidos73.

Quando as pessoas passam a ser classificadas como criminosas por

usarem drogas ou por se envolverem na economia do trfico, a

sociedade no se sente mais na obrigao de lidar com as condies

sociais ou econmicas que esto por trs disso74.

O tratamento distinto de acordo com a classe, cor e condio social, apesar da

identidade de condutas, denota que jovem rico erra75. Menor pobre comete crime76.

vista disto, torna-se perceptvel que o estigma de jovem delinquente se associa

valorao negativa de sua famlia, o grau de vulnerabilidade, a baixa renda, baixa

escolaridade, o lar desestruturado, com trabalho precrio, moradia na periferia ou favela,

e sua incriminao no decorre apenas do cometimento de um crime, mas ao

pertencimento de certa classe social, sobretudo, porque no existem indicaes que pobres

72 ANDRADE, Paulo Roberto. A construo social do delinquente menor de idade na esfera jurdica. Revista tica e Filosofia Poltica, N 15, vol. 1, mai. 2012, p. 94. Disponvel em: . Acesso em: 4 mai. 2016. 73 SILVA, Jailson de Souza e. Violncia nas comunidades e nas ruas, p. 97-115, p. 99. Disponvel em: . Acesso em: 1 nov. 2016. 74 LEMGRUBER, Julita. A guerra s drogas facilita a criminalizao de pobres e negros. Infoglobo Comunicao e Participaes S.A. 21 jul. 2016. On-line. Disponvel em: . Acesso em: 30 out. 2016. 75 G1. Thor Batista absolvido em caso de morte de ciclista por atropelamento. On-line. Disponvel em: . Acesso em: 22 mar. 2015. 76 SAKAMOTO, Leonardo. Jovem rico erra. Menor pobre comete crime. Blog do Sakamoto UOL Notcias. 4 dez. 2011. On-line. Disponvel em: . Acesso em: 1 nov. 2016.

http://www.ufjf.br/eticaefilosofia/files/2012/05/15_5_pauloroberto5.pdf

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cometam mais crimes que ricos, apenas que aos primeiros mais fcil aplicar esteretipos

e rotul-los como criminosos77.

Assim, a peneira da sociedade, a associao pobreza/criminalidade, facilita a

imposio de regras de controle social, porque os grupos de interesse tem mais poder

poltico e econmico para fazer valer suas regras sobre os demais, mesmo contra a vontade

e consentimento78. Dessa forma, a classe baixa, proletria, estigmatizada, tambm mais

infligida, porque ao mesmo tempo em que o setor privilegiado para recrutamento da

criminalidade tradicional e a principal vtima, ainda o setor mais vitimado pelo aparato

repressivo-punitivo e o menos protegido pelo Judicirio79.

A categorizao de desvio, por exemplo, produzida pela prpria sociedade quando

cria regras e rotula pessoas particulares, o desviado, portanto, torna-se aquele a quem se

aplica este rtulo com xito80.

As qualificaes, as etiquetas, obviamente, so elementos de identificao que

podem ser positivas e negativas e so facilmente absorvidas pelo grupo social. Etiquetas

como ladro, viciado, bbado, maconheiro, drogado, criam na sociedade uma identidade

imaginria para esse indivduo e interferem profundamente na vida do etiquetado,

induzindo o comportamento de acordo com seu contedo, porque a pessoa se converte no

que est representando, percebe a si mesma como os demais a veem, tornando-se visvel

no seu contexto social e invisvel perante sua prpria individualidade, quer dizer, ela

comea a ser tratada como se fosse e com isso acaba sendo81.

As etiquetas generalizam e se estendem alm da conduta ou caracterstica que a

designam. Um deslize, um erro, um pecado, pode desencadear uma etiqueta negativa

vinculante que, por associao, passa de uma pessoa outra, como se o pai alcolatra, o

77 ANDRADE, Paulo Roberto. A construo social do delinquente menor de idade na esfera jurdica. Revista tica e Filosofia Poltica, N 15, vol. 1, mai. 2012, p. 86-102. p. 89. Disponvel em: . Acesso em: 4 mai. 2016. 78 FILHO, Francisco Bissoli. Estigmas da criminalizao: dos antecedentes reincidncia criminal. Editora Obra Jurdica Ltda: Florianpolis, 1998, p. 174. 79 PASTANA, Dbora Regina. Cultura do medo e democracia: um paradoxo brasileiro. Revista Mediaes, Londrina, v. 10, n. 2, p. 183-198, Jul./Dez. 2005. p. 191. Disponvel em: . Acesso em: 28 abr. 2015. 80 Francisco Bissoli Filho explica que este processo se realiza em momentos distintos, primeiramente, com a definio das condutas desviadas a criminalizao primria, e a criminalizao secundria, que compreende a imputao da etiqueta sobre os autores da conduta desviada, atravs de um processo de estigmatizao, fazendo com que o desviado, assim considerado, passe a manipular a prpria identidade, atendendo as expectativas da etiqueta que lhe foi imputada. FILHO, Francisco Bissoli. Estigmas da criminalizao: dos antecedentes reincidncia criminal. Editora Obra Jurdica Ltda: Florianpolis, 1998, p. 171-173. 81 FILHO, Francisco Bissoli. Estigmas da criminalizao: dos antecedentes reincidncia criminal. Editora Obra Jurdica Ltda: Florianpolis, 1998, p. 183-184.

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irmo presidirio, a me usuria de drogas, transmitissem uma doena contagiosa,

direcionando tambm a conduta reativa social em comportamento preventivo. Essas

etiquetas facilitam a formao de grupos marginalizados, afinal, desde nossos ancestrais

nos movemos em tribos, quando o pertencimento a um grupo era basicamente a nica

possibilidade de sobreviver.

Ressalta que muitos dos integrantes desses bandos pertencem aos

setores mais pobres da populao, razo pela qual no tm acesso

educao, alimentao, habitao, sade, segurana pessoal,

proteo familiar e oportunidades de trabalho. Revela que, diante

dessa situao, alguns optam por se incorporar s maras em busca de

proteo, apoio e respeito. Em seguida, tendem a viver juntos, em

comunidades urbanas, com o objetivo declarado de cuidar e se

defender uns aos outros. O relatrio defende, por fim, que este

problema no pode ser visto unicamente a partir da perspectiva da

segurana pblica8283.

Hoje, o conceito e as caractersticas de tribo mudaram, mas segue em nosso crebro

primitivo a necessidade de integrar um grupo social que se cuida e se apoia entre si. Dentro

desses grupos, a identificao como desviante se solidifica e se propaga com os diferentes

tipos de prticas desviantes entre seus membros84.

Portanto, percebe-se que o esteretipo do delinquente alimentado pelo sistema e

direcionado para as camadas menos favorecidas, ao invs de focar na atuao de poderosos

corruptos, que cometem crimes que afetam toda a sociedade. A exemplo do jornalismo,

82 KLIKSBERG, Bernardo. Mitos sobre a juventude latino-americana. In SEN, Amartya; Kliksberg, Bernardo. As pessoas em primeiro lugar: a tica do desenvolvimento e os problemas do mundo globalizado. Traduo Bernardo Ajzemberg, Carlos Eduardo Lins da Silva. So Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 212-258. p. 242. Ttulo original: Primero la gente: uma mirada desde la tica del desarrollo a los principales problemas del mundo globalizado. 83 KLIKSBERG, Bernardo. Mitos sobre a juventude latino-americana. In SEN, Amartya; Kliksberg, Bernardo. As pessoas em primeiro lugar: a tica do desenvolvimento e os problemas do mundo globalizado. Traduo Bernardo Ajzemberg, Carlos Eduardo Lins da Silva. So Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 212-258. p. 241. Ttulo original: Primero la gente: uma mirada desde la tica del desarrollo a los principales problemas del mundo globalizado: Estudos sobre as maras, como so chamados os bandos de delinquentes juvenis que se espalham por diversos pases da Amrica Central, reunindo centenas de milhares de jovens, informam que, quando se lhes pergunta por que ingressaram nesses grupos, onde colocam sua vida em risco, eles costumam responder que o nico lugar, na sociedade, em que so admitidos. 84 FILHO, Francisco Bissoli. Estigmas da criminalizao: dos antecedentes reincidncia criminal. Editora Obra Jurdica Ltda: Florianpolis, 1998, p. 186-187.

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mdia e imprensa, que desempenham importante papel com a disseminao da

criminalizao da pobreza, que atacam quem no pode se defender e manipulam o

imaginrio da sociedade com qualificaes depreciativas e sentenas adiantadas85.

A forma sensacionalista como a violncia tratada e discutida pelos meios de

comunicao, que tm como funo central - vender - a formao de opinio, cria um clima

generalizado de medo e insegurana, alimentado pela fala diria do crime, independente

da possibilidade real dele vir acontecer ou de ter sido vivenciado86.

Essa cultura do medo provoca o estado de alarme social e relaciona crime e violncia

segregao social, quando valoriza a desigualdade e a separao e estigmatiza grupos

considerados perigosos em referncia etnia, ao local de moradia, condio financeira e

presume que negros e pobres so mais propensos ao crime, considerando pobreza,

juventude, raa, moradia em periferia da cidade, prenunciao de marginalidade87.

O medo generalizado tambm gera impacto nos modos de vida da sociedade

contempornea, em todos os grupos sociais e em quase todas as famlias, e provoca

transformaes urbanas provenientes do alarme social, gerando novas estratgias de

proteo, como a construo de espaos de segregao, que passam a ser fechados,

fortificados e monitorados, criados para separarem pessoas, contradizendo ideais de

igualdade:

85 Transcrio do comentrio de Rachel Sheherazade, jornalista ncora do SBT Brasil, a respeito do adolescente de 15 anos, suspeito de cometer assaltos na Zona Sul do Rio de Janeiro, espancado, despido e preso a um poste de luz pelo pescoo, por um cadeado de bicicleta, por justiceiros: O marginalzinho amarrado ao poste era to inocente, que em vez de prestar queixa contra seus agressores, ele preferiu fugir, antes que ele mesmo acabasse preso! que a ficha do sujeito est mais suja do que pau de galinheiro! Num pas que ostenta 26 assassinatos a cada 100.000 habitantes, que arquiva mais de 80% de inquritos de homicdios e sofre de violncia endmica, a atitude dos vingadores at compreensvel! O Estado omisso, a Polcia desmoralizada, a Justia falha, o qu que resta ao cidado de bem, que ainda por cima foi desarmado? Se defender, claro! O contra-ataque aos bandidos o que eu chamo de legtima defesa coletiva de uma sociedade sem Estado, contra um estado de violncia sem limite. E aos defensores dos Direitos Humanos, que se apiedaram do marginalzinho preso ao poste, eu lano uma campanha: Faa um favor ao Brasil, adote um bandido!. Vdeo na ntegra disponvel em: . Acesso em: 2 nov. 2016; GLOBALVOICES. Menor preso a poste: barbrie racial exposta em zona nobre do Rio de Janeiro. 10 fev. 2014. On-line. Disponvel em: . Acesso em: 4 nov. 2016. 86 BAIERL, Luzia Ftima. Medo social: dilemas cotidianos. Ponto-e-vrgula, 3: 138-151, 2008, p. 143. Disponvel em: . Acesso em: 11 out. 2016. 87 PASTANA, Dbora Regina. Cultura do medo e democracia: um paradoxo brasileiro. Revista Mediaes Londrina, v. 10, n. 2, p. 183-198, Jul./Dez. 2005, p. 189. Disponvel em: . Acesso em: 28 abr. 2015.

http://revistas.pucsp.br/index.php/pontoevirgula/article/download/14246/10438

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Podem ser shopping centers, conjuntos comerciais e empresariais ou

condomnios residenciais. Eles atraem aqueles que temem a

heterogeneidade social dos bairros urbanos mais antigos e preferem

abandon-los para os pobres, os marginais, os sem teto. Por serem

espaos fechados cujo acesso controlado privadamente, ainda que

tenham um uso coletivo e semipblico, eles transformam

profundamente o carter do espao pblico88.

Em virtude do shopping center, catedral de adorao ao consumo e homogeneidade,

pregar segurana e bem-estar, recentemente foi proibida a entrada de jovens

desacompanhados de pais ou representantes legais nesses recintos, sob pretexto da

ameaa de rolezinho, fenmeno em que jovens, pobres, negros, moradores da periferia

tambm resolvem passear nos shopping centers.

Processos de interdito proibitrio89 foram realmente judicializados para afastarem o

jovem estereotipado delinquente 90 , o suposto inconveniente e separarem esses

baderneiros dos ordeiros, os diferentes dos iguais, os da periferia dos centrais91 e em alguns

88 PASTANA, Dbora Regina. Cultura do medo e democracia: um paradoxo brasileiro. Revista Mediaes Londrina, v. 10, n. 2, p. 183-198, Jul./Dez. 2005. p. 186. Disponvel em: . Acesso em: 28 abr. 2015. 89 Art. 567, Cdigo de Processo Civil/2015. O possuidor direto ou indireto que tenha justo receio de ser molestado na posse poder requerer ao juiz que o segure da turbao ou esbulho iminente, mediante mandado proibitrio em que se comine ao ru determinada pena pecuniria caso transgrida o preceito. 90 SEVERI, Fabiana Cristina; FRIZZARIM, Nickole Sanchez; BORGES, Saulo Simon. O perfil dos processos judiciais sobre os rolezinhos em So Paulo. In: SEVERI, Fabiana Cristina; FRIZZARIM, Nickole Sanchez. Dossi Rolezinhos: Shopping Centers e violao de Direitos Humanos no Estado de So Paulo. Ribeiro Preto: Faculdade de Direito de Ribeiro Preto FDRP/USP, 2015. p. 07-11. p. 07-08. Disponvel em: . Acesso em: 3 nov. 2016. 91 G1 MT. Dois shoppings probem entrada de adolescente sozinhos em Cuiab: Shopping Trs Amricas restringiu entrada de menores aps tumultos. Para entrar desacompanhado, adolescente precisa de autorizao dos pais. G1 Mato Grosso. 22 jan. 2015. On-line. Disponvel em: . Acesso em: 04 nov. 2016.

http://g1.globo.com/mato-grosso/noticia/2015/01/dois-shoppings-proibem-entrada-de-adolescentes-sozinhos-em-cuiaba.htmlhttp://g1.globo.com/mato-grosso/noticia/2015/01/dois-shoppings-proibem-entrada-de-adolescentes-sozinhos-em-cuiaba.html

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estados92 foram concedidas liminares a essas aes racistas e classistas93 com alegao da

preservao da paz social94.

Distorcer a realidade, desvirtuar eventos, circunstncias e comportamentos, prtica

comungada entre imprensa, polticos e polcia, promove o discurso da lei e da ordem95 e

revela angariar votos, a exemplo do apoio que figuras como Jair Bolsonaro 96 e Donald

Trump97 so capazes de receber, refletindo, por consequncia, em aes, leis e polticas

92ARAJO, Amanda. Adolescentes desacompanhados dos pais so impedidos de entrar em shopping de Fortaleza. O povo online. Fortaleza/CE. 25 jan. 2016. On-line. Disponvel em: . Acesso em: 4 nov. 2016. 93 COSTA, Fernanda da. Entrada de adolescentes barrada em shoppings da Capital: grupos reclamam que no entraram por usar roupas ao estilo rolezinho. ZH Notcias. Porto Alegre/RS. 03 mai. 2014. On-line. Disponvel em: . Acesso em: 04 nov. 2016. 94 MACHADO, Antnio Alberto. O rolezinho e as novas catedrais. In: SEVERI, Fabiana Cristina; FRIZZARIM, Nickole Sanchez. Dossi Rolezinhos: Shopping Centers e violao de Direitos Humanos no Estado de So Paulo. Ribeiro Preto: Faculdade de Direito de Ribeiro Preto FDRP/USP, 2015. p. 13-14. Disponvel em: . Acesso em: 3 nov. 2016. p. 13: O chamado rolezinho, como todos sabemos, uma recente manifestao de pessoas da periferia que ocorre no interior de shopping centers, geralmente combinada por meio das redes sociais, caracterizada pela presena de um grande nmero de jovens que se encontram e provocam alguma barulheira, tanto pelas msicas do gnero funk que costumam cantar nessas ocasies quanto pela algazarra tpica de qualquer encontro juvenil. Pelo que se sabe, o tal rolezinho s isso, nada mais. Ento, por que ser que ele provoca tanta reao e at medo por parte dos proprietrios de Shopping Centers, por parte das autoridades constitudas responsveis pela manuteno da ordem e tambm por parte dos naturais frequentadores desses novos e suntuosos templos do consumismo? 95 TREVISAN, Cludia. Retrica de lei e ordem marca discurso de Trump. ESTADO Internacional. 22 jul. 2016. On-line. Disponvel em: . Acesso em: 05 nov. 2016. 96 Transcrio de trecho do discurso de Jair Bolsonaro, em Sesso Ordinria, a respeito da reduo da maioridade penal, transmisso via TV Cmara, 01min32s a 02min34s Essas pessoas, se elas forem condenadas a no mnimo 12 anos de cadeia, no mximo 30, que o limite do homicdio, em vez de ficar 03 anos fora de atividade, numa FEBEM, ele poder ficar 12 anos fora de atividade e com muita chance de morrer na cadeia, o que seria muito bom para a sociedade se isso viesse acontecer, ou se contaminarem com AIDS, seria muito bom para a sociedade porque esse tipo de raa no presta! E aquelas pessoas que acham que presta deviam ir na porta da FEBEM, nas portas das penitencirias contrat-las. Afinal de contas, ns temos 25 vagas em nossos gabinetes para contratarmos quem ns bem entendermos, independentemente de qualquer critrio, contrate e leve para casa! (Sic). Discurso na ntegra disponvel em: . Acesso em: 11 mar. 2015. 97 Transcrio de trecho do discurso do Anncio Presidencial de Donald Trump, 16 jun. 2016, 07min59s a 8min50s: When Mexico send its people, theyre not sending their best, they are not sending you, they are not sending you, they are sending people that have lots of problems and theyre bringing those problems with us. Theyre bringing drugs, theyre bringing crime, theyre rapists, and some I assume are good people, but I speak to borders guards and they tell us what were getting and it only makes common sense, it only makes common sense, theyre sending us not the right people. And its coming from more than Mexico, its coming from all over South and Latin America, and its coming, probably, probably, from the Middle East. But we dont know because we have no protection and we have no competence, we dont know whats happening and its gotta stop, and its got to stop fast. Traduo nossa: Quando o Mxico envia pessoas, eles no esto enviando o seu melhor, eles no esto enviando voc, eles no esto enviando voc, eles esto enviando pessoas que tm muitos problemas e eles esto trazendo esses problemas para ns. Eles esto trazendo drogas, esto

http://www.opovo.com.br/app/fortaleza/2016/01/25/noticiafortaleza,3566629/adolescentes-sao-impedidos-de-entrar-em-shopping-de-fortaleza.shtmlhttp://www.opovo.com.br/app/fortaleza/2016/01/25/noticiafortaleza,3566629/adolescentes-sao-impedidos-de-entrar-em-shopping-de-fortaleza.shtmlhttp://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2014/05/entrada-de-adolescentes-e-barrada-em-shoppings-da-capital-4491449.htmlhttp://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2014/05/entrada-de-adolescentes-e-barrada-em-shoppings-da-capital-4491449.htmlhttps://www.youtube.com/watch?v=jA9rAiUfKtI

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pblicas igualmente deturpadas, de cunho nitidamente preconceituoso, que repreendem,

violentam, criam dio e desrespeito ainda mais rigorosamente entre os mais vulnerveis,

jovens98, pobres99, negros100, imigrantes101...

Neste contexto paradoxal entre liberdades civis e represso arbitrria

da criminalidade manifesta a dominao das mais variadas formas,

atravs do medo, que legitima atos e discursos polticos contrrios

prpria democracia102.

Com a disseminao da cultura do medo, grande parte da sociedade no se importa

com as barbries cometidas queles que ela considera ameaa, mas as entende como uma

necessidade higienista do social. Assim, percebe-se que o medo e a insegurana no tm

razes diretas na criminalidade, mas, ao contrrio, crescem de uma construo poltica e

ideolgica, que projetando caos e perigo, estimulam conflitos103.

trazendo crime, so estupradores, e alguns, eu suponho, so pessoas boas, mas eu falo com guardas de fronteiras e eles nos dizem o que estamos recebendo, e isso senso comum, isso senso comum, eles no esto nos enviando as pessoas certas. E esto vindo de outros lugares alm do Mxico, esto vindo de toda a Amrica do Sul e Amrica Latina, e vem, provavelmente, provavelmente, do Oriente Mdio. Mas ns no sabemos porque no temos proteo e no temos competncia, no sabemos o que est acontecendo e isso tem que parar, e tem que parar rpido ". Discurso na ntegra disponvel em: . Acesso em: 22 set. 2016. 98 FLOR, Daniela. Brasileira barrada na imigrao est presa nos EUA sem explicao. VEJA.COM. 25 ago. 2016. On-line. Disponvel em: . Acesso em: 05 nov. 2016. 99 OLIVEIRA, Tory. O que se sabe sobre o caso do menino morto pela PM de SP: talo, 10 anos, morreu aps ser baleado na cabea por policiais militares durante uma perseguio em bairro rico da capital. CARTA CAPITAL. 9 jun. 2016. Disponvel em: . Acesso em: 3 out. 2016. 100 FAUS, Joan. As mortes de negros nos EUA colocam a polcia sob os holofotes: Com um ano do caso de Ferguson, se consolidou o debate sobre as prticas policiais. EL PAS. 09 ago. 2015. On-line. Disponvel em: . Acesso em: 05 nov. 2016. 101 NUCCI, Guilherme de Souza. Manual de Direito Penal: parte geral; parte especial, 7. ed. rev., atual, e ampl. So Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2011, p. 397. 102 PASTANA, Dbora Regina. Cultura do medo e democracia: um paradoxo brasileiro. Revista Mediaes, Londrina, v. 10, n. 2, p. 183-198, Jul./Dez. 2005. p. 193. Disponvel em: . Acesso em: 28 abr. 2015. 103 PASTANA, Dbora Regina. Cultura do medo e democracia: um paradoxo brasileiro. Revista Mediaes, Londrina, v. 10, n. 2, p. 183-198, Jul./Dez. 2005, p. 197. Disponvel em: . Acesso em: 28 abr. 2015.

https://www.youtube.com/watch?v=q_q61B-DyPk

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Por isso, para enfrentar a criminalizao da pobreza torna-se importante falar da

pobreza da criminalizao104.

4. Crise no sistema penal e a pobreza da criminalizao

O funcionamento do nosso sistema penal exprime esses profundos ideais discriminatrios,

seletivos e excludentes, cujos esforos se destinam, essencialmente, proteo da

propriedade privada e os interesses das camadas dominantes.

(...) a clientela do sistema penal composta regularmente em todos os

lugares do mundo por pessoas pertencentes aos baixos estratos

sociais, isto indica que h um processo de seleo de pessoas s quais

se qualifica como delinquentes e no, como se pretende, um mero

processo de seleo de condutas qualificadas como tais. (...) desta

forma, resultado de um processo de criminalizao altamente

seletivo e desigual de pessoas dentro da populao total, enquanto a

conduta criminal no , por si s, condio suficiente deste processo.

Pois os grupos poderosos na sociedade possuem a capacidade de

impor ao sistema uma quase que total impunidade das prprias

condutas criminosas. Enquanto a interveno do sistema geralmente

subestima e imuniza as condutas s quais se relaciona produo dos

mais altos, embora mais difusos danos sociais (delitos econmicos,

ecolgicos, aes da criminalidade organizada, graves desviantes dos

rgos estatais) superestima infraes de relativamente menor

danosidade social, embora de maior visibilidade, como delitos contra

o patrimnio, especialmente os que tm como autor indivduos

pertencentes aos estratos sociais mais dbeis e marginalizados105.

O cuidado e preveno de conflitos de ordem privada so importantes e

fundamentais para a vida social e no se est a omitir a existncia da insegurana,

violncia, mortes, traumas e tantos outros mltiplos e profundos reflexos. No entanto,

104 STRECK, Lnio Luiz. Constituio, bem jurdico e controle social: a criminalizao da pobreza ou de como la ley es como la serpiente; solo pica a los descalzos. Revista de Estudos Criminais - PUCRS. Ano VIII, 2008, n 31, p. 94. 105 FILHO, Francisco Bissoli. Estigmas da criminalizao: dos antecedentes reincidncia criminal. Editora Obra Jurdica Ltda: Florianpolis, 1998, p. 182-183.

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preciso ressaltar que a sociedade seria tremendamente beneficiada se, ao tratar-se dos

impactos sociais, transcendesse a perspectiva interindividual para a transindividual. So os

graves problemas sociais e polticos na ordem coletiva que desencadeiam as adversidades,

as dificuldades, os distrbios, o sufoco, a angstia, o embarao, ou seja, os conflitos sociais

que so abafados e silenciados, como se essas condies de vulnerabilidade dramticas

fossem normais.

Afinal, se o patrimnio individual protegido pela Constituio da Repblica

Federativa do Brasil de 1988 CRFB/88, inclusive por meio do Direito Penal, ento, no

resta dvida que a tutela deve ser ainda mais rigorosa quando danos prejudicam toda a

coletividade106, que agridam a consecuo dos objetivos da Repblica107, os direitos da

infncia e juventude108, o direito ao ambiente sadio109.

(...) enquanto a onda de represso da criminalidade a todo custo

persistir e a propaganda miditica de que o culpado pelos males do

mundo o delinquente, a concretizao dos princpios processuais

penais constitucionais continuar to distante quanto hoje110.

Como um modelo de promessas no cumpridas, a crise de legitimidade do sistema

criminal fundamenta-se na sua ineficincia para administrar os conflitos sociais: que no

intimida, no responsabiliza eficazmente, e no ressocializa, mas, pelo contrrio, causa mais

sofrimentos entre os envolvidos nos conflitos111, acompanhado do sentimento de injustia,

106 STRECK, Lnio Luiz. Constituio, bem jurdico e controle social: a criminalizao da pobreza ou de como la ley es como la serpiente; solo pica a los descalzos. Revista de Estudos Criminais - PUCRS. Ano VIII, 2008, n 31, p. 73. 107 CRFB/88, Art. 3. Constituem objetivos fundamentais da Repblica Federativa do Brasil: I - construir uma sociedade livre, justa e solidria; II - garantir o desenvolvimento nacional; III - erradicar a pobreza e a marginalizao e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raa, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminao. 108 CRFB/88, Art. 227. dever da famlia, da sociedade e do Estado assegurar criana, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito vida, sade, alimentao, educao, ao lazer, profissionalizao, cultura, dignidade, ao respeito, liberdade e convivncia familiar e comunitria, alm de coloc-los a salvo de toda forma de negligncia, discriminao, explorao, violncia, crueldade e opresso. 109 CRFB/88, Art. 225. Todos tm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Pblico e coletividade o dever de defend-lo e preserv-lo para as presentes e futuras geraes. 110 ACHUTTI, Daniel. Modelos contemporneos de justia criminal: justia teraputica, instantnea, restaurativa. Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, 2009, p. 57. 111 PALLAMOLLA, Raffaella da Porciuncula. Justia Restaurativa: da teoria prtica. So Paulo: IBCCRIM, 2009, p. 28-30.

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incompreenso, impunidade e insegurana 112 . Assim, o sistema penal est em crise

justamente porque no consegue proteger nem os interesses individuais, tampouco

reprimir a violncia que amedronta toda populao113.

O sistema clssico de justia criminal acha-se, desde sempre, em crise.

Porque absolve ou condena, mas no resolve o problema criminal

(praticamente nada de positivo faz para a soluo verdadeira do

problema). Porque impe suas decises como imperium, mas sem

auctoritas. Porque se preocupa exclusivamente com o castigo do

agente culpvel isto , com a pretenso punitiva do Estado, que s

um dos sujeitos implicados no problema criminal mas no atende s

legtimas expectativas dos restantes: da vtima, da comunidade, do

prprio infrator. A efetiva reparao do dano causado pelo delito, a

preocupao com a reinsero social do delinquente e a pacificao

das relaes interpessoais e sociais afetadas pelo crime no so

consideradas seriamente por aquele, que atua guiado mais por

critrios de eficincia administrativa do que de justia e equidade114.

A interveno penal estatal representa a mais grave medida sobre os direitos

fundamentais, restringindo o mais importante direito, da liberdade individual, de ir e vir, e,

portanto, deve ser a ultima ratio115, quando, indiscutivelmente, se torna indispensvel116.

Desde a infncia, inmeras crianas, jovens e adultos em situao de vulnerabilidade

criam-se praticamente nas ruas e no tm para onde ir, longe da famlia e da escola,

sobrevivendo em condies desfavorveis, e passando por um processo de formao de

112 SANTIAGO, Nestor Eduardo Araruna; MONTE, Mrio Joo Ferreira; BARBOSA, Andr Arajo. Direito penal da reparao: contribuio para um novo paradigma a partir do modelo. Pensar: Revista de Cincia Jurdica, v. 20, n. 3 (2015), p. 941-958. p. 950. Disponvel: . Acesso em: 2 mai. 2016. 113 ACHUTTI, Daniel. Modelos contemporneos de justia criminal: justia teraputica, instantnea, restaurativa. Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, 2009, p. 55. 114 GOMES, Luiz Flvio. Justia conciliatria, restaurativa e negociada. Material da 1 aula da Disciplina Novos Temas de Direito Processual Penal, ministrada no Curso de Ps-Graduao Lato Sensu TeleVirtual em Direito do Estado Universidade Anhanguera - Uniderp IPAN REDE LFG. p. 10. Disponvel em: . Acesso em: 11 jan. 2017. 115 Ultima ratio, ltimo recurso. 116 SANTIAGO, Nestor Eduardo Araruna; MONTE, Mrio Joo Ferreira; BARBOSA, Andr Arajo. Direito penal da reparao: contribuio para um novo paradigma a partir do modelo. Pensar: Revista de Cincia Jurdica, v. 20, n. 3 (2015), p. 941-958. p. 945. Disponvel: . Acesso em: 2 mai. 2016.

http://ojs.unifor.br/index.php/rpen/article/view/3737http://ojs.unifor.br/index.php/rpen/article/view/3737

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identidade sem o mnimo de apoio, que acaba, muitas vezes, na delinquncia 117 .

Marginalizados progressivamente de sua cidadania e do direito de pertencer a uma

sociedade, inserem-se na criminalidade por falta de acesso a outros contextos118. Todos

sabemos que embora o jovem delinquente trabalhe para que outro enriquea, ele quem

vai para a priso, mantendo um sistema de impunidade e mesmo com o risco do efetivo

encarceramento, o crime no diminui, haja vista a superlotao das prises, alm do caro

custo, tanto da permanncia, quanto para a vida do indivduo.

Desde ano passado a presidente do Supremo Tribunal Federal STF e do Conselho

Nacional de Justia CNJ, ministra Crmen Lcia, declarou que um preso custa 13 vezes

mais do que um estudante no Brasil: Um preso no Brasil custa R$ 2,4 mil por ms e um

estudante do ensino mdio custa R$ 2,2 mil por ano119. Dessa grande disparidade nos

investimentos, atenta-se aos parcos recursos para educao e a ineficincia do gasto

prisional, acarreta severos problemas estruturais que emperram o presente e

comprometem o futuro. preciso esclarecer que no se est a criticar o gasto na

manuteno dos presos, de sabida insuficincia, haja vista as pssimas condies,

superlotao e extrema precariedade nas penitencirias brasileiras, mas, notadamente, da

inverso de valores, que coloca em segundo plano a educao, principalmente, porque

atravs do seu fomento se projetam outros direitos e o prprio desenvolvimento do pas,

ou seja, um investimento maior no conjunto dos direitos sociais, e a se inclui a educao,

poderia diminuir a despesa com segurana120.

Desse modo, os conflitos se manifestam em lugares diferentes de onde se originam,

e so tratados em lugares diferentes de onde se manifestam121.

117 KLIKSBERG, Bernardo. Como enfrentar o crescimento da insegurana urbana na Amrica Latina? As lgicas em conflito. In SEN, Amartya; Kliksberg, Bernardo. As pessoas em primeiro lugar: a tica do desenvolvimento e os problemas do mundo globalizado. Traduo Bernardo Ajzemberg, Carlos Eduardo Lins da Silva. So Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 259-301. p. 267. Ttulo original: Primero la gente: uma mirada desde la tica del desarrollo a los principales problemas del mundo globalizado. 118 ONOFRE, Elenice Maria Cammarosano. Escola da priso: espao de construo da identidade do homem aprisionado? UFSCar/SP, p. 1-16, p. 14. Disponvel em: . Acesso em: 3 mai. 2016. 119 ESTADO CONTEDO. Crmen Lcia diz que preso custa 13 vezes mais do que um estudante no Brasil. ZH Notcias. 10 nov. 2016. On-line. Disponvel em: . Acesso em: 12 nov. 2016. 120 DUARTE, Alessandra; BENEVIDES, Carolina. Brasil gasta com presos quase o triplo do custo por aluno: Dados revelam subinvestimento e m gesto na educao e ineficincia do sistema prisional. O GLOBO. 20 nov. 2011. On-line. Disponvel em: . Acesso em: 15 set. 2015. 121 FILHO, Francisco Bissoli. Estigmas da criminalizao: dos antecedentes reincidncia criminal. Editora Obra Jurdica Ltda: Florianpolis, 1998, p. 205.

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Assim, o acontecimento qualificado como crime, desde o incio separado de seu

contexto, retirado da rede real de interaes individuais e coletivas, pressupe um autor

culpvel; o homem presumidamente criminoso 122, esquecendo que a maioria dos presos

faz parte da populao pobre e o desencadeamento da violncia fruto do prprio modelo

econmico excludente, efeito da falta de assistncia, reflexo da corrupo e dos desvios no

setor pblico, resultado da segregao e do desajuste social, da misria e das drogas, do

egosmo e da perda de valores solidrios, que passam por extrema necessidade, privados

de direitos, reduzidos a esteretipos da marginalidade123.

O encarceramento alm de atingir prioritariamente as camadas menos assistidas:

desempregados, temporrios, estrangeiros, , em si mesmo, uma enorme mquina de

pauperizao. A esse respeito, sempre til recordar as condies e os efeitos deletrios

da deteno, no s sobre os prprios presos, mas tambm sobre suas famlias e suas

condutas124.

A priso, como instituio fechada, tem a responsabilidade de aplicar tcnicas

corretivas sobre seus tutelados a fim de recomp-los125. Contudo, a proposta de correo e

ressocializao nesse ambiente absurda 126 e tem efeito contrrio, quando socializa a

marginalidade, a criminalidade, como em uma escola do crime, em que se compartilha o

que tentamos evitar, mais crimes, culminando na reincidncia. Assim, percebe-se que a

funo principal do crcere segregar e estigmatizar127.

O ambiente prisional contraditrio, porque fala de reinsero social, mas comea

afastando, separando, escondendo, o condenado da sociedade, e para que as penas

conseguissem ter efeito preventivo, idealmente deveriam ser reintegradoras, e no

excludentes128. Enquanto a instituio funcionar apenas como instrumento punitivo da

122 PALLAMOLLA, Raffaella da Porciuncula. Justia Restaurativa: da teoria prtica. So Paulo: IBCCRIM, 2009, p. 43. 123 ONOFRE, Elenice Maria Cammarosano. Escola da priso: espao de construo da identidade do homem aprisionado? UFSCar/SP, p. 1-16, p. 1. Disponvel em: . Acesso em: 3 mai. 2016. 124 KLIKSBERG, Bernardo. Como enfrentar o crescimento da insegurana urbana na Amrica Latina? As lgicas em conflito. In SEN, Amartya; Kliksberg, Bernardo. As pessoas em primeiro lugar: a tica do desenvolvimento e os problemas do mundo globalizado. Traduo Bernardo Ajzemberg, Carlos Eduardo Lins da Silva. So Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 259-301. p. 275-276. Ttulo original: Primero la gente: uma mirada desde la tica del desarrollo a los principales problemas del mundo globalizado. 125 ONOFRE, Elenice Maria Cammarosano. Escola da priso: espao de construo da identidade do homem aprisionado? UFSCar/SP, p. 1-16, p. 2. Disponvel em: . Acesso em: 3 mai. 2016. 126 A antessala do inferno, como adjetiva Jair Bolsonaro. Disponvel em: . Acesso em: 11 mar. 2015. 127 SALIBA, Marcelo Gonalves. Justia restaurativa e paradigma punitivo. Curitiba: Juru, 2009. p. 21. 128 PALLAMOLLA, Raffaella da Porciuncula. Justia Restaurativa: da teoria prtica. So Paulo: IBCCRIM, 2009, p. 35.

https://www.youtube.com/watch?v=jA9rAiUfKtI

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justia criminal, dificilmente a priso conseguir compensar carncias e proporcionar

oportunidade de desenvolvimento ao encarcerado, que, ao sair da priso, concorrer em

maior disparidade ainda com as capacidades desenvolvidas pelo homem livre, numa

remotssima competio no mercado129.

O sistema penal um processo de deteriorao do sujeito legalizado, cuja parte mais

importante feita pela priso. Esse estigma acompanha mesmo depois do cumprimento da

pena, fazendo refns de fatos passados, que continuam sendo valorizados nas relaes

sociais, impedindo ou dificultando toda possibilidade de trabalho honesto, quando divulga

o status de criminalizado com os antecedentes (por tempo indeterminado) e reincidncia

(pelo prazo de 05 anos)130. A concluso disso que os estigmas resultantes do processo de

criminalizao podem levar o indivduo estereotipado, altamente vulnervel na seleo do

sistema, a desvios secundrios, em outras palavras, compele o suspeito profissional

carreira criminal131.

Dessa forma, a teoria do desvio secundrio pe em xeque a concepo preventiva e

reeducativa da pena, porque na maioria dos casos acontece uma consolidao da

identidade desviada132.

Quando se pensava que j se havia visto o bastante e que o tom j no era alarmista,

mas de triste constatao 133 , se anunciam mais 134 e mais 135 conflitos que deflagram

brbaras agresses, que, ao fim e ao cabo, revelam o sentimento de planetarizao do mal-

129 ONOFRE, Elenice Maria Cammarosano. Escola da priso: espao de construo da identidade do homem aprisionado? UFSCar/SP, p. 1-16, p. 12-13. Disponvel em: . Acesso em: 3 mai. 2016. 130 PCEGO, Antonio Jos F. de S.; SILVEIRA, Sebastio Srgio da. Antecedentes e reincidncia criminais: necessidade de releitura dos institutos diante dos novos paradigmas do Direito Penal. Conpedi, Curitiba, 2013. p. 4. On-line. Disponvel em: . Acesso em: 7 out. 2016. 131 FILHO, Francisco Bissoli. Estigmas da criminalizao: dos antecedentes reincidncia criminal. Editora Obra Jurdica Ltda: Florianpolis, 1998, p. 214-216. 132 FILHO, Francisco Bissoli. Estigmas da criminalizao: dos antecedentes reincidncia criminal. Editora Obra Jurdica Ltda: Florianpolis, 1998, p. 190. 133 ISTO. Crianas, o smbolo das vtimas da guerra na Sria. On-line. 19 ago. 2016. Disponvel em: . Acesso em: 11 out. 2016. 134 ALESSI, Gil. Massacre em presdio de Manaus deixa 56 detentos mortos. EL PAS. 2 jan. 2017. So Paulo. On-line. Disponvel em: . Acesso em: 14 jan. 2017. 135 BARBOSA, Anderson; CARVALHO, Fred. Rebelio acaba aps mais de 14 horas no RN; h mais de 10 mortos. G1 RN. 15 jan. 2017. On-line. Disponvel em: . Acesso em: 15 jan. 2017.

http://www.publicadireito.com.br/artigos/?cod=297b631a88835f89http://istoe.com.br/criancas-o-simbolo-das-vitimas-da-guerra-na-siria/

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estar 136 na modernidade reflexiva, repercutindo sofrimento e clera, mas tambm a

necessidade de mudana das regras e recursos da estrutura social.

Mesmo que se aumente multiplique ou transforme as prises, a

criminalidade permanece a mesma ou aumenta; a deteno provoca

reincidncia; a priso fabrica delinquentes em razo das condies a

que submete os apenados; a priso favorece a organizao de

delinquentes solidrios entre si e hierarquizados; os que so libertados

da priso esto condenados reincidncia, (...); por fim, a priso

fabrica, indiretamente, delinquncia, pois faz as famlias dos apenados

carem na misria137.

Por isso, a falncia de todo o sistema repressivo est a demandar novas solues

para a consolidao dos direitos humanos e dos laos de solidariedade social138.

5. Justia Restaurativa: uma abordagem humanizada para a

complexidade do conflito

A excluso social e pobreza interferem profundamente na vida de pessoas e comunidades,

com privaes que implicam reais dificuldades de acesso alimentao, ao trabalho,

educao, sade. Essa condio de vulnerabilidade, que em muito agravada pelos

prejuzos provocados pela corrupo, se mostra extremamente nociva grande parcela da

populao, conduzindo a marginalidade e a desigualdade social origem da

criminalidade139. O crime, como se v, pode ser uma violao cometida contra algum por

136 MORIN, Edgar; CIURANA, Emilio-Roger; MOTTA, Ral Domingo. Educar na era planetria: O pensamento complexo como Mtodo de aprendizagem no erro e na incerteza humana. Traduo Sandra Trabucco Valenzuela. Ttulo original: duquer Pour L re Plantaire. La pense complexe comme Mthode dapprentissage dans lerreur et lincertitude humaines, p. 86-87. Perdizes, SP: Cortez Editora, 2003. 137 PALLAMOLLA, Raffaella da Porciuncula. Justia Restaurativa: da teoria prtica. So Paulo: IBCCRIM, 2009, p.31. 138 FILHO, Francisco Bissoli. Estigmas da criminalizao: dos antecedentes reincidncia criminal. Editora Obra Jurdica Ltda: Florianpolis, 1998. 139 KLIKSBERG, Bernardo. Mitos sobre a juventude latino-americana. In SEN, Amartya; Kliksberg, Bernardo. As pessoas em primeiro lugar: a tica do desenvolvimento e os problemas do mundo globalizado. Traduo Bernardo Ajzemberg, Carlos Eduardo Lins da Silva. So Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 212-258. Ttulo original: Primero la gente: uma mirada desde la tica del desarrollo a los principales problemas del mundo globalizado, p. 236.

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um indivduo que, anteriormente, tambm pode ter sido vtima de violaes. Os efeitos

dessas violaes se reverberam, como ondas, atingindo muitos outros indivduos140.

O problema que no nosso sistema penal punitivo e retributivo as circunstncias

por trs do crime ficam ocultas, se restringindo a aplicao de pena como elemento

fundamental na promoo da segurana da sociedade, afastando o processo judicial das

partes, dedicado, apenas, em perscrutar o tipo legal da infrao, tornando as pessoas mais

temerosas, mais insatisfeitas, mais inseguras. Assim, preciso enxergar as partes, os dois

lados dos danos, e no ser indiferente aos crimes que se misturam com outros males e

conflitos, e as injustias que se envolvem s injustias do poder e da riqueza141.

O Conselho Nacional de Justia aprovou a Resoluo de n. 225, de 31 de maio de

2016, que trata a Poltica Nacional de Justia Restaurativa, no mbito do Judicirio,

considerando que o procedimento da justia restaurativa pode promover uma mudana de

valores e prticas institucionais, para a resoluo de conflitos em detrimento do uso

descabido de penas:

(...) diante da complexidade dos fenmenos conflito e violncia, devem

ser considerados no somente os aspectos relacionais individuais, mas

tambm, os comunitrios, institucionais e sociais que contribuem para

seu surgimento, estabelecendo-se fluxos e procedimentos que cuidem

dessas dimenses e promovam mudanas de paradigmas142.

A justia restaurativa uma alternativa para interpretar a estrutura legal, capaz de

alcanar melhores resultados com os princpios da corresponsabilidade, a reparao dos

danos, o atendimento s necessidades dos envolvidos, a informalidade, a voluntariedade,

a imparcialidade, a participao, o empoderamento, a consensualidade, a

140 ZEHR, Howard. Trocando as lentes: um novo foco sobre o crime e a justia. Traduo de Tnia Van Acker. So Paulo: Palas Athena, 2008. Ttulo original: Changing lenses: a new focus for crime and justice, p. 172. 141 SANTANA, Selma Pereira de; MACDO, Sstenes Jesus dos Santos. A justia restaurativa como um novo olhar sobre Justia Juvenil Brasileira. Revista Jurdica FA7, Fortaleza, v. 12, n. 2, p.104-126, jul./dez. 2015, p. 105-107. Disponvel em: . Acesso em: 11 out. 2016. 142 CONSELHO NACIONAL DE JUSTIA. Resoluo 225, de 31 de maio de 2016. Dispe sobre a Poltica Nacional de Justia Restaurativa no mbito do Poder Judicirio e d outras providncias. Disponvel em: . Acesso em: 07 nov. 2017.

http://www.fa7.edu.br/periodicos/index.php/revistajuridica/article/view/36

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confidencialidade, a celeridade e a urbanidade 143 . Assim, a justia restaurativa uma

proposta de soluo de conflitos cabvel em vrias reas, para a resoluo do problema

interrelacional e interpessoal, com vistas a uma resposta concentrada, mais desformalizada

que a tradicional, participada pelas partes.

Desse modo, a justia restaurativa, diferente do processo penal tradicional,

empenha esforos para que as partes, de forma pacfica e dialogada, construam a resoluo

do conflito, permitindo a intercompreenso da situao vivenciada pelo outro e a

sensibilizao e responsabilizao transformadora144.

A oportunidade de aproximao no processo de justia busca valorizar

a participao e o envolvimento das partes. O processo penal como

est estruturado, neutraliza qualquer interveno e/ou participao

de atores externos relao jurdica penal (Estado-Autor). Noutro giro,

a justia restaurativa concede poder decisivo de todos os envolvidos

com a ofensa para a construo de uma resposta restaurativa aos

danos sofridos e vivenciados. Para tanto, o processo de

responsabilizao voluntria do ofensor um elemento importante

para o incio de tomada de decises positivas, a compreenso dos

danos causados e o sentido de alteridade devem ser buscados. A

comunidade visar reinserir o ofensor, apoiar as vtimas e construir um

consenso satisfatrio que leve reparao dos danos145.

Sensibilizar e humanizar atravs do dilogo um meio mais eficiente, benfico,

respeitoso e digno para a conscientizao e reconhecimento de responsabilidades e da

dimenso social do delito146. A justia restaurativa apela intercompreenso do sofrimento

e necessidades da vtima, da comunidade e do ofensor. Muito frequentemente, se

compreendermos correctamente o modo como os outros vivem, adquirimos igualmente

143 Art. 2, Resoluo 225/2016. Disponvel em: . Acesso em: 07 nov. 2017. 144 KONZEN, Afonso Armando. Justia restaurativa e ato infracional: desvelando sentidos no itinerrio da alteridade. Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, 2007, p. 84. 145 SANTANA, Selma Pereira de; MACDO, Sstenes Jesus dos Santos. A justia restaurativa como um novo olhar sobre Justia Juvenil Brasileira. Revista Jurdica FA7, Fortaleza, v. 12, n. 2, p.104-126, jul./dez. 2015. p. 109. Disponvel em: . Acesso em: 11 out. 2016. 146 KONZEN, Afonso Armando. Justia restaurativa e ato infracional: desvelando sentidos no itinerrio da alteridade. Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, 2007, p. 84.

http://www.fa7.edu.br/periodicos/index.php/revistajuridica/article/view/36

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uma melhor compreenso dos seus problemas147. Assumindo as diferenas e dificuldades

de todos envolvidos, participa aos implicados a busca por um acordo restaurador

transformador, que no visa excluir e demonizar o infrator da sociedade, mas, ao contrrio,

a reduo de injustias sociais, e com isso a reduo de delitos148.

Portanto, a justia restaurativa no visa abolir a justia tradicional, mas melhor-la,

revelando a complexidade do conflito, que demanda uma nova racionalidade de respostas

para o fenmeno delitivo149.

Nesse sentido, o procedimento restaurativo visa reunir as partes em um ambiente

no adversarial. Dessa forma, reunindo vtima, comunidade e ofensor, para falarem sobre

o dano e decidirem o que deve ser feito a respeito das consequncias, responsabilidade e

necessidades, atravs de processo participativo, coordenado e cooperativo, oportunizando

todas as partes afetadas e que tm interesse na situao, debaterem o impacto do delito

diretamente com seu responsvel, tendo como objetivo corrigir, no somente os males

provocados s vtimas, como as causas que provocaram a ofensa150, para que, a partir da

soluo obtida, possa ser evitada a recidiva do fato danoso151.

(...) a justia restaurativa se funda no pressuposto de que, como

indivduos, ns estamos todos interligados, e o que fazemos afeta

todas as outras pessoas e vice-versa. Assim, os princpios bsicos da

justia restaurativa constituem orientaes que a maioria de ns

gostaria que regessem o nosso convvio dirio. A justia restaurativa

nos faz lembrar da importncia dos relacionamentos, nos incita a

considerar o impacto de nosso comportamento sobre os outros e as

obrigaes geradas pelas nossas aes. Ela enfatiza a dignidade que

147 GIDDENS, Anthony. Sociologia. 6 ed. Lisboa: Fundao Calouste Gulbenkian, 2008, p. 5. 148 PALLAMOLLA, Raffaella da Porciuncula. Justia Restaurativa: da teoria prtica. So Paulo: IBCCRIM, 2009, p. 106. 149 SANTANA, Selma Pereira de; MACDO, Sstenes Jesus dos Santos. A justia restaurativa como um novo olhar sobre Justia Juvenil Brasileira. Revista Jurdica FA7, Fortaleza, v. 12, n. 2, p.104-126, jul./dez. 2015. p. 123-124. Disponvel em: . Acesso em: 11 out. 2016. 150 ZEHR, Howard. Trocando as lentes: um novo foco sobre o crime e a justia. Traduo de Tnia Van Acker. So Paulo: Palas Athena, 2008. Ttulo original: Changing lenses: a new focus for crime and justice, p. 257-258. 151 Art. 8, Resoluo 225/2016. Disponvel em: . Acesso em: 07 nov. 2017.

http://www.fa7.edu.br/periodicos/index.php/revistajuridica/article/view/36

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todos merecemos. Talvez, portanto, a justia restaurativa de fato

sugira um modo de vida152.

A justia restaurativa, atravs da participao voluntria das partes, visa satisfao

dos envolvidos no processo, resolvendo o conflito de forma diferenciada, atendendo seus

anseios psicolgicos e simblicos, que afasta a resposta essencialmente punitiva e

comporta a alteridade, a equidade e o respeito. Por isso, o entendimento e reconciliao

entre vtima e ofensor um passo importante para a cura das partes, apesar de que nem

sempre isso seja possvel. A justia no pode garantir nem forar que acontea, mas deveria

oferecer a oportunidade para a reconciliao entre os envolvidos. A justia que trancafia o

outro no apazigua o sentimento de perda, de injustia, e o tratamento que se pretende

com a justia restaurativa no significa esquecer ou minimizar a violao, mas uma forma

para se recuperar humanidade e fechar o ciclo, de pr para fora o que sufoca para poder

seguir a diante153.

Para que isso acontea, preciso restituir o papel da vtima, restabelecendo seu

interesse no processo. A vtima submissa est negada no sistema penal tradicional, mas

ela quem clama por justia e respeito dos seus direitos, isso significa que elas devem ser a

pea principal na determinao de quais so suas necessidades, e como e quando devem

ser atendidas154.

Na justia restaurativa, as necessidades das vtimas so o ponto de partida no

tratamento do crime, mas alm disso, no se deve descuidar das necessidades do ofensor

e da prpria comunidade. A comunidade tambm precisa de auxlio, pois o crime que

corrompe, avassala o sentimento de respeito, unidade e pertencimento comunitrio, de

modo que tambm preciso oportunizar o tratamento e esclarecimento da sociedade para

a possvel reintegrao do indivduo155. Da mesma forma, o ofensor precisa ser incentivado

a mudar e a justia restaurativa, quando auxilia no reconhecimento do mal cometido e na

sua correo, humaniza o ofensor - indivduo, supera a concepo errnea de que a prpria

152 ZEHR, Howard. Trocando as lentes: um novo foco sobre o crime e a justia. Traduo de Tnia Van Acker. So Paulo: Palas Athena, 2008. Ttulo original: Changing lenses: a new focus for crime and justice, p. 265. 153 ZEHR, Howard. Trocando as lentes: um novo foco sobre o crime e a justia. Traduo de Tnia Van Acker. So Paulo: Palas Athena, 2008. Ttulo original: Changing lenses: a new focus for crime and justice, p. 176-177. 154 ZEHR, Howard. Trocando as lentes: um novo foco sobre o crime e a justia. Traduo de Tnia Van Acker. So Paulo: Palas Athena, 2008. Ttulo original: Changing lenses: a new focus for crime and justice, p. 183. 155 ZEHR, Howard. Trocando as lentes: um novo foco sobre o crime e a justia. Traduo de Tnia Van Acker. So Paulo: Palas Athena, 2008. Ttulo original: Changing lenses: a new focus for crime and justice, p. 178.

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vtima culpada e o torna merecedor do respeito da comunidade e de si prprio,

implicando uma alternativa para seu futuro, um caminho de volta156.

O enfoque da justia restaurativa uma abordagem diferenciada, que busca

entender a problemtica complexa e atender as necessidades de todas as partes envolvidas

para corrigir a situao, e se apresenta muito diferente da justia que tem como

fundamento a culpa e a punio, a vingana e a dor157.

Concluso

fato que toda a sociedade brasileira quer um pas mais justo e com menos criminalidade,

e para alcanarmos isso preciso buscar meios de melhorar as condies de vida das

populaes com baixa renda, principalmente jovens, crianas e adolescentes. Se eles no

tm educao, sade, habitao, to essenciais para a sobrevivncia e desenvolvimento da

nao, so desassistidos pelo Estado, e tornam-se vulnerveis delinquncia.

As privaes da excluso social e da pobreza interferem profundamente na vida das

pessoas e comunidades carentes, implicando graves problemas estruturais e reais

dificuldades que provocam srios obstculos, que negam possibilidades e levam ao atraso,

ao analfabetismo, consolidao da desigualdade, desencadeando terrveis consequncias

e conflitos socioambientais, que oprimem famlias, adultos, crianas e adolescentes.

A corrupo implica perda para toda sociedade, mas so os mais pobres os mais

afetados, desassistidos, sem servios e atendimentos adequados. Assim, os reflexos da

corrupo mostram-se extremamente nocivos essa grande parcela da populao, muitas

vezes, impelidos pela condio de vulnerabilidade e marginalidade, delinquncia e

criminalidade, comprometido o presente, condenando o futuro.

No entanto, a pobreza pode ser um facilitador, mas no determinante. Creditar

todos os males da sociedade ao esteretipo do delinquente, pobre, negro, morador de

periferia, criminalizando a pobreza, reduz-se pobreza da criminalizao, omitindo srios

agravantes que realmente esto na cadeia da marginalidade, como a corrupo e fraudes,

como o desvio do dinheiro pblico e verbas que no chegam a seu destino, que por

156 ZEHR, Howard. Trocando as lentes: um novo foco sobre o crime e a justia. Traduo de Tnia Van Acker. So Paulo: Palas Athena, 2008. Ttulo original: Changing lenses: a new focus for crime and justice, p. 247. 157 ZEHR, Howard. Trocando as lentes: um novo foco sobre o crime e a justia. Traduo de Tnia Van Acker. So Paulo: Palas Athena, 2008. Ttulo original: Changing lenses: a new focus for crime and justice, p. 199.

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consequncia tornam-se elos entre prejuzos sociais, prejuzos na famlia, no trabalho,

educao, na marginalizao, entre outros.

Prestar ateno na eleio e no seu candidato uma questo fundamental. Permitir

que a intolerncia pretensa assuma a liderana valida aes racistas, classistas, sexistas,

homofbicas e injustas dessas figuras, que nos atrasam dcadas no progresso social, tico

e comercial.

Portanto, diante da nossa realidade social, temos, ao menos, duas opes: ou

reavaliamos o sistema para corrigir no apenas as ofensas, mas as graves causas que

provocam esses males, e nosso sentido de alteridade se intensifica, ao invs de provocar

mais violao, ou nos resta nos refugiarmos em shopping centers, desconfiando uns dos

outros.

Tendo em vista o enorme contingente de encarcerados, as pssimas condies das

penitencirias brasileiras, o alto custo para manuteno dos presos, e, sobretudo, a

ineficincia para administrar os conflitos sociais, que no intimida, no responsabiliza

eficazmente, e no ressocializa, pretende-se, com a justia restaurativa atingir uma nova

racionalidade de respostas para o fenmeno delitivo.

Assim, o modelo restaurativo se prope ir alm do conflito jurdico, buscando a

intercompreenso da complexidade do conflito e de seus reflexos, entender as realidades,

contextos e razes do Outro por trs de dada situao. Atravs do dilogo e respeito

dignidade e a igualdade das pessoas, visa-se atender as necessidades das partes, a

restaurao das vtimas, ofensores e comunidades, comportando, ento, a alteridade, a

reintegrao social, e afastando a proposta exclusivamente punitiva158.

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