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  • CRIMINALIDADE NO TRINGULO MINEIRO: CRIMES E CRIMINOSOS NA COMARCA DE UBERABA/MG (1890-1920)*

    CRIMINALITY ON TRINGULO MINEIRO: CRIMES AND CRIMINALS IN JUDICIAL DISTRICT OF UBERABA, MINAS GERAIS, BRAZIL, 1890-1920.

    MARCELO DE SOUZA SILVA**

    Resumo O incio da repblica no Brasil um momento privilegiado para se estudar a atuao do Judicirio enquanto uma forma de efetivao de projetos de transformao social. Este artigo uma adaptao de parte da dissertao de mestrado, defendida na Unesp, campus Franca, sob o ttulo A lei e a (des)ordem: criminalidade e prticas da justia na Comarca de Uberaba, 1890-1920. Aqui, so apresentados os resultados da pesquisa realizada no Arquivo Pblico de Uberaba, no que diz respeito quantificao dos processos criminais l encontrados. Constatou-se uma predominncia dos crimes contra a pessoa em todo o perodo estudado e pde-se, ainda, inferir aspectos acerca do funcionamento da justia na comarca uberabense, a qual, contrariando vises do senso comum segundo as quais este poder seria deficitrio em sua atuao repressora mostrou haver uma preocupao em auferir legitimidade da sociedade local atravs de uma atuao cotidiana que parecesse a mais idnea possvel. Por outro lado, enfrentava-se problemas como o da grande extenso territorial da comarca, o que fazia com que os crimes apreciados pelo Judicirio nos locais mais afastados da cidade de Uberaba fossem aqueles cuja represso era considerada mais premente. Por fim, pde-se traar o perfil do criminoso que era julgado na comarca, entendendo, dessa forma, um pouco mais da dinmica social local e suas relaes com o cenrio nacional.

    Abstract The onset of republic in Brazil is a privileged moment to study the action of Judiciary like a mean to perform projects for social transformations. This article is an adaptation from the master dissertation, defended in UNESP/Franca, under the title The Law and the (dis)order: criminality and justice practices in the Judicial District of Uberaba-MG 1890-1920. Here, are presented the research conclusions from the executed work in the Public Archive of Uberaba, concerning the quantification of the criminal lawsuits there found. We confirmed a predominance of the crimes against person in the studied period as a whole, and we could deduce aspects concerning the justice functioning in the Judicial District of Uberaba which, counteracting common sense visions that this

    * Artigo recebido em 15.01.2004 e aprovado em 29.03.2004. ** Mestre em Histria pela Unesp, campus de Franca/SP.

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    power would be deficient in your repressive action showed that there was a preoccupation in receive legitimacy from the local society by means of a quotidian action that had seemed as soundness as possible. On the other hand, thered be problems like the Judicial District large territorial extension, what resulted that the crimes that were appreciated by the Judiciary, in the most asunder places from Uberaba, were the crimes whose the repression were considered urgent. At last, we could describe the outlaw profile that was sentenced in the Judicial District, understanding, so, a little more the local social dynamics and its relations with the national scenery.

    Palavras-chave Criminalidade Histria - Uberaba/MG Judicirio - Repblica

    Key words Criminality History - Uberaba-MG/Brazil Judiciary - Republic

    A progresso normal dos crimes acompanha o crescimento da populao, proveniente dos nascimentos e do concurso de forasteiros estabelecidos aqui, centro comercial, intermedirio de extensa zona do interior. [...] Demais, a posio geogrfica desta comarca, situada em limites de vrios Estados, concorre para a aglomerao desses elementos perniciosos que se vo denunciando pela media crescente da atividade criminosa.

    Felcio Buarque

    O trecho acima pode no despertar a ateno do leitor, principalmente, devido sua

    aparente obviedade: bem sabemos que o ndice de criminalidade est ligado diretamente ao

    aumento populacional e ao crescimento urbano em geral (Fausto, 1984). Contudo, quando estes

    argumentos so tomados em seu contexto histrico original a cidade de Uberaba, em 1904,

    dentro dos momentos iniciais da repblica revela-se um cenrio no qual a preocupao com o

    aumento da prtica criminosa significativamente relevante; isto vem ao encontro daquilo que os

    historiadores desenharam para este perodo, ou seja, a busca por mecanismos que garantissem a

    ordem pblica e, dessa forma, adequassem ou, em outra palavra, disciplinassem a gama de novos

    personagens sociais ex-escravizados, imigrantes que, ento, buscavam insero. Desde o

    incio da repblica brasileira, os conflitos e as condutas anti-sociais eram considerados como

    casos de polcia, logo, eram espao prprio onde a lgica da represso se articulava s outras

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    prticas de controle com o objetivo de manter a ordem pblica e o disciplinamento social.

    (Alves, 1990, p. 4)

    O formato que adquiriu a prtica dos crimes sua distribuio geogrfica, as

    caractersticas dos criminosos o tema deste artigo. Discutir-se-o os dados levantados na

    pesquisa realizada no Arquivo Pblico de Uberaba (doravante, APU), obtidos por meio da

    quantificao dos documentos judiciais. Os nmeros encontrados na pesquisa foram relacionados

    entre si com a ajuda de um programa de computador (o SPSS) e formaram as estatsticas sobre o

    cenrio criminal da comarca de Uberaba entre os anos de 1890 e 1920.1 Assim sendo, muito mais

    que os nmeros sobre a criminalidade regional, pretende-se observar a prtica da justia sob um

    ponto de vista mais amplo, isto , procurando identificar quais suas principais preocupaes

    quem deveria repreender e em que circunstncias de operao o faria e, ainda, por conseguinte,

    desenhar o mapa da criminalidade, cenrio sobre o qual atuava o poder de justia.

    As estatsticas na histria tm funo complementar para a compreenso de determinados

    fatos e processos; no caso da criminalidade, este recurso se mostra assaz importante para

    traarmos o mapa da conduta social do universo considerado (ou pretendido como) marginal,

    isto , com as estatsticas podemos compreender melhor a dimenso daquilo que escapava das

    normas de comportamento social e, com isso, revelar os padres e valores morais de um perodo.

    A utilizao deste recurso est cercada de controvrsias, as quais so constantes alvos de crticas

    por parte dos historiadores e que, aqui, foram levadas em conta tanto na elaborao quanto na

    anlise dos dados levantados.

    1. As estatsticas criminais: histria Em 1902, o presidente do Estado de Minas Gerais, Joaquim Cndido da Costa Sena,

    escreveu que a estatstica era elemento indispensvel boa orientao das administraes

    (Sena, 1902: 25). A busca por uma orientao para a administrao estadual levou o governo a

    criar um servio de estatstica em 1894. Eram coletados dados com indicadores econmicos (da

    produo e dos gastos), do crescimento populacional, da criminalidade, enfim, de todos os ramos

    1 Este perodo foi escolhido com base em, principalmente, dois pontos: em primeiro lugar, est o incio da vigncia do Cdigo Penal da Repblica, em 1890, j que, com este cdigo, iniciou-se a estruturao das dinmicas sociais que se pretendia instalar no pas. Em segundo, temos o fato de que neste perodo, a regio correspondente comarca de Uberaba, passava pelas transformaes caractersticas do final do Imprio e incio da Repblica, comuns aos locais nos quais a historiografia, genericamente, passou considerar inseridos em um processo de efetivao do sistema capitalista. Em outras palavras, a linha da ferrovia foi ali inaugurada (1889), chegaram expressivos contingentes de imigrantes, comeou a se delinear um centro urbano mais desenvolvido, ocorreu o incio do desenvolvimento da pecuria como principal atividade econmica, enfim, houve relevantes mudanas na dinmica poltica, econmica e social, as quais levaram uma conseqente transformao de todo os sistema de convivialidade local. O final do perodo de estudo, 1920, justamente o momento em que h a acomodao de todos esses fatores.

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    que os administradores achassem necessrios para a melhor adequao das polticas pblicas. No

    caso da criminalidade, os resultados numricos teriam por fim planejar as estratgias de atuao

    da polcia e da justia. Pretendemos, aqui, entender um pouco como era tratada esta questo na

    viso, principalmente, dos presidentes do Estado de Minas Gerais e de um dos jurisconsultos de

    Uberaba o qual citamos no incio do artigo Felcio Buarque.

    Os relatrios dos presidentes trazem muitas informaes sobre o ano anterior sua

    redao: o responsvel pela administrao estadual dissertava acerca da produo e do

    desenvolvimento econmico, passando pelo funcionamento das reparties pblicas,

    descrevendo as circunstncias da sade pblica poca e tambm trazia algumas consideraes a

    respeito do funcionamento da justia e da polcia. Os relatrios eram, pois, divididos em tpicos,

    sendo que nos interessam, para este captulo, aqueles que tratam do gabinete de identificao e

    estatstica criminal.

    No mais das vezes, os presidentes relatavam que os servios de estatstica funcionavam

    bem, apesar da falta de conhecimento tcnico dos agentes encarregados de levantar os dados.

    Nada obstante, a inoperncia do sistema de estatstica criminal foi alvo de inmeras crticas por

    parte de quem observava essa situao naquele momento. At mesmo o governo via dificuldades

    em organizar tais dados e suas aes esbarravam, quase sempre, segundo o presidente mineiro

    Francisco Antnio de S