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Melo, L. A., Colao, V. F. R., Pascual, J. G.

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ARTIGOS

Crianas, oramento participativo e teoria da atividade: algumas reflexes

Lis Albuquerque Melo1

Veriana de Ftima Rodrigues Colao2

Jesus Garcia Pascual3

Crianas, oramento participativo e teoria da atividade: algumas reflexes

Resumo

O direito participao e voz concedido s crianas em uma sociedade cultural e historicamente construda tendo como referncia o adulto e na qual a infncia por vezes concebida como um vir a ser. O presente artigo objetiva problematizar a participao de crianas no oramento participativo de um municpio do Nordeste brasileiro a partir de uma discusso de cunho terico fundamentada na Teoria da Atividade Humana de Leontiev. A atividade humana, compreendida em seu papel de mediao na relao ser humano mundo material , possibilita pensar a participao das crianas relacionando-a atividade que se tenha em conta e, portanto, s aes e operaes empreendidas para o desenvolvimento dessa atividade, considerando sua apropriao por parte das crianas, em contextos culturalmente configurados.

Palavras-chave: Participao de crianas; Oramento participativo; Teoria da atividade humana.

Children, participative budget and the theory of activity: some reflections

Abstract

The right to participation and to be heard is granted to children in a society that is culturally and historically constructed with reference to adults and that also conceives childhood as a "becoming". This paper aims to discuss childrens participation in the participatory budgeting of a Brazilian northeastern municipality, from a theoretical discussion based on Leontievs Human Activity Theory. Human activity, understood in its mediation role in the human being material world relationship , makes it possible to think about childrens participation by relating it to the activity that is taken into account and, hence, to the actions and operations undertaken to develop this activity, considering its appropriation by children within culturally configured contexts.

Crianas, oramento participativo e teoria da atividade: algumas reflexes

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Arquivos Brasileiros de Psicologia; Rio de Janeiro, 63 (3): 58- 71, 2011

Keywords: Children's participation; Participative budget; Human activity theory.

Nios, presupuesto participativo y teora de la actividad: algunas reflexiones

Resumen

El derecho a la participacin y a la voz se les concede a los nios en una sociedad cultural e histricamente construida con base en el adulto y en la cual la infancia es a veces concebida como un "viene a ser". Este artculo tiene como objetivo discutir la intervencin de los nios en el presupuesto participativo de un municipio en el noreste brasileo a partir de una discusin terica basada en la Teora de la Actividad Humana de Leontiev. La actividad humana, entendida en su papel de mediacin en la relacin ser humano - mundo material, posibilita pensar la participacin de los nios relacionndola con la actividad que se considere y, por lo tanto, a las acciones y operaciones emprendidas para el desarrollo de esta actividad, teniendo en cuenta la adaptacin por parte de los nios, en contextos culturalmente configurados.

Palabras-clave: Participacin de los nios; Presupuesto participativo; Teora de la actividad humana.

Introduo

Das experincias e contatos da primeira autora com a temtica da infncia nas atividades da graduao em Psicologia e na carreira profissional (aes de pesquisa e extenso universitria na rea de promoo e defesa dos direitos e deveres de crianas e adolescentes, desenvolvimento de estgios com crianas nas reas de Psicologia Social e Clnica, alm da atuao em polticas pblicas de desenvolvimento comunitrio e proteo especializada em casos de violao de direitos), surgiram algumas inquietaes que, em estudo aprofundado orientado pelos demais autores, so problematizadas no presente artigo. Discursos e prticas sociais que posicionam a criana como um vir-a-ser (segundo uma viso adultocntrica da realidade) coexistem com perspectivas que lhe conferem direito e voz na participao poltica e social, por a conceberem como sujeito de sua histria. Acompanhando crianas em momentos ditos de participao, em polticas pblicas e atividades institucionais (governamentais e no-governamentais), possvel observar aquelas sendo tratadas como miniaturas de adultos, aparentemente atendendo a planos e expectativas destes, consideradas em parte como objetos de propagandas institucionais. Tomando especificamente a iniciativa da participao infantil no Oramento Participativo (OP) de um determinado municpio do Nordeste brasileiro, tm surgido, entre os delegados adultos do OP, questionamentos e discusses acerca da capacidade de as crianas participarem a elas facultado espao de participao no OP Criana e Adolescente. Os referidos delegados discordam da abertura desse espao, convidando para o debate, entre outros discursos, o da Psicologia.

Implantada em 2005 no municpio em questo, o OP, como poltica pblica de participao popular, tem o intuito de contribuir para a formao cidad e o controle popular da gesto pblica, enfocando a construo de uma democracia

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para alm da representao poltica. Tem como principais caractersticas o compartilhamento de decises, recursos, experincias e responsabilidades, sendo marcado pela corresponsabilidade nas decises sobre a cidade (Prefeitura Municipal de Fortaleza, s/d). Conforme esclarece Soares (2009), o OP est organizado para atender populao da cidade nos nveis territorial (local de origem do cidado, organizado a partir das subunidades administrativas do municpio) e segmento social, dentre os quais esto elencados crianas e adolescentes, populao negra, LGBTs (lsbicas, gays, bissexuais e transexuais), idosos e pessoas com deficincia.

O ciclo do OP inclui processos de mobilizao e formao, nos quais os participantes so esclarecidos acerca de questes relativas ao oramento pblico e ao ciclo oramentrio do municpio, alm da prpria questo da participao popular e formao cidad. Reformulado em 2010, esse ciclo tem incio com as assembleias eletivas realizadas em diversos bairros do municpio, nas quais so demandadas propostas de obras e servios a serem desenvolvidos pela Prefeitura. Na sequncia, h as assembleias decisivas. Nestas, so votadas as propostas a serem concretizadas, partindo de uma anlise prvia de sua viabilidade pelo poder pblico. Nesse momento, so eleitos os delegados do OP, que compem ento os Fruns Regionais de Delegados em cada subunidade administrativa, responsabilizando-se por debater e acompanhar o processo de execuo das obras do OP em cada localidade. Ao final, so eleitos pelos delegados os membros do Conselho do Oramento Participativo (COP), do qual fazem parte, tambm, representantes da administrao pblica, com direito voz, mas no ao voto. O COP responsvel por planejar, fiscalizar, discutir, propor e deliberar sobre a pea oramentria anual, alm de tomar decises acerca do prprio processo de organizao do OP (Soares, 2009; Prefeitura Municipal de Fortaleza, s/d).

O ciclo descrito ocorre de maneira anloga para os segmentos sociais, diferenciando-se pelo fato de as assembleias ocorrerem em entidades e instituies que agregam esses segmentos. No caso do segmento crianas e adolescentes, h tanto as assembleias territoriais (realizadas em cada subunidade administrativa) como as escolares (realizadas em uma escola de cada subunidade administrativa). Importante dizer que as crianas e os adolescentes contam com Fruns prprios e tambm elegem seus delegados e representantes para o COP, em um processo totalmente integrado ao OP (Soares, 2009).

O OP Criana e Adolescente (OPCA), seguindo os regimentos internos do OP e do OPCA, fundamenta-se na concepo de crianas como cidads desde o momento atual, enfatizando que o futuro que estaria a elas destinado arquitetar no ser possvel se no houver uma construo desde o presente. Acredita-se que dar s crianas o direito de participao na vida coletiva constitui a melhor forma de proteg-las, incentivando, por sua vez, o protagonismo de suas experincias. Participam do OPCA crianas e adolescentes com idades dos 6 aos 17 anos. As atividades, com mesmo peso de deciso daquelas desenvolvidas com os adultos, so realizadas a partir de metodologias e linguagens especficas, a fim de que as crianas debatam e entendam sua cidade, trazendo ideias e propostas no apenas para o seu segmento, mas para toda a cidade (Prefeitura Municipal de Fortaleza, 2010).

A propsito, Soares (2009) traz diversas indagaes relativas construo da participao popular nas aes do OP municipal, consoantes com as que nos motivam a problematizar a temtica da participao infantil. Ele aponta alguns obstculos culturais participao, questionando se as pessoas sabem participar de uma forma a constituir relaes horizontais ou apenas a partir de velhas formas hierarquizadas que reproduzem uma dicotomia entre algum que manda porque pode e algum que obedece porque tem juzo (p.2).

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Arquivos Brasileiros de Psicologia; Rio de Janeiro, 63 (3): 58- 71, 2011

Soares (2009) denuncia a constituio de espaos de participao nos quais esta se torna sinnimo de falar, questionando se [...] eles favorecem a expresso do pensamento dos sujeitos de forma livre e original ou as falas das pessoas que no dispem de uma oratria polida e bem articulada suscitam apenas risinhos irnicos e enfado indisfarado (p.2). Quando se trata das crianas, ento, com suas formas particulares de expresso, raciocnio e linguagem, acrescenta-se ainda a histrica menorizao, seguindo-se o desprezo e ironia por parte dos adultos.

possvel observar, portanto, uma tenso entre a ide