Crianças, orçamento participativo e teoria da atividade ... ?· Crianças, orçamento participativo…

Download Crianças, orçamento participativo e teoria da atividade ... ?· Crianças, orçamento participativo…

Post on 12-Dec-2018

212 views

Category:

Documents

0 download

TRANSCRIPT

Melo, L. A., Colao, V. F. R., Pascual, J. G.

58

ARTIGOS

Crianas, oramento participativo e teoria da atividade: algumas reflexes

Lis Albuquerque Melo1

Veriana de Ftima Rodrigues Colao2

Jesus Garcia Pascual3

Crianas, oramento participativo e teoria da atividade: algumas reflexes

Resumo

O direito participao e voz concedido s crianas em uma sociedade cultural e historicamente construda tendo como referncia o adulto e na qual a infncia por vezes concebida como um vir a ser. O presente artigo objetiva problematizar a participao de crianas no oramento participativo de um municpio do Nordeste brasileiro a partir de uma discusso de cunho terico fundamentada na Teoria da Atividade Humana de Leontiev. A atividade humana, compreendida em seu papel de mediao na relao ser humano mundo material , possibilita pensar a participao das crianas relacionando-a atividade que se tenha em conta e, portanto, s aes e operaes empreendidas para o desenvolvimento dessa atividade, considerando sua apropriao por parte das crianas, em contextos culturalmente configurados.

Palavras-chave: Participao de crianas; Oramento participativo; Teoria da atividade humana.

Children, participative budget and the theory of activity: some reflections

Abstract

The right to participation and to be heard is granted to children in a society that is culturally and historically constructed with reference to adults and that also conceives childhood as a "becoming". This paper aims to discuss childrens participation in the participatory budgeting of a Brazilian northeastern municipality, from a theoretical discussion based on Leontievs Human Activity Theory. Human activity, understood in its mediation role in the human being material world relationship , makes it possible to think about childrens participation by relating it to the activity that is taken into account and, hence, to the actions and operations undertaken to develop this activity, considering its appropriation by children within culturally configured contexts.

Crianas, oramento participativo e teoria da atividade: algumas reflexes

59

Arquivos Brasileiros de Psicologia; Rio de Janeiro, 63 (3): 58- 71, 2011

Keywords: Children's participation; Participative budget; Human activity theory.

Nios, presupuesto participativo y teora de la actividad: algunas reflexiones

Resumen

El derecho a la participacin y a la voz se les concede a los nios en una sociedad cultural e histricamente construida con base en el adulto y en la cual la infancia es a veces concebida como un "viene a ser". Este artculo tiene como objetivo discutir la intervencin de los nios en el presupuesto participativo de un municipio en el noreste brasileo a partir de una discusin terica basada en la Teora de la Actividad Humana de Leontiev. La actividad humana, entendida en su papel de mediacin en la relacin ser humano - mundo material, posibilita pensar la participacin de los nios relacionndola con la actividad que se considere y, por lo tanto, a las acciones y operaciones emprendidas para el desarrollo de esta actividad, teniendo en cuenta la adaptacin por parte de los nios, en contextos culturalmente configurados.

Palabras-clave: Participacin de los nios; Presupuesto participativo; Teora de la actividad humana.

Introduo

Das experincias e contatos da primeira autora com a temtica da infncia nas atividades da graduao em Psicologia e na carreira profissional (aes de pesquisa e extenso universitria na rea de promoo e defesa dos direitos e deveres de crianas e adolescentes, desenvolvimento de estgios com crianas nas reas de Psicologia Social e Clnica, alm da atuao em polticas pblicas de desenvolvimento comunitrio e proteo especializada em casos de violao de direitos), surgiram algumas inquietaes que, em estudo aprofundado orientado pelos demais autores, so problematizadas no presente artigo. Discursos e prticas sociais que posicionam a criana como um vir-a-ser (segundo uma viso adultocntrica da realidade) coexistem com perspectivas que lhe conferem direito e voz na participao poltica e social, por a conceberem como sujeito de sua histria. Acompanhando crianas em momentos ditos de participao, em polticas pblicas e atividades institucionais (governamentais e no-governamentais), possvel observar aquelas sendo tratadas como miniaturas de adultos, aparentemente atendendo a planos e expectativas destes, consideradas em parte como objetos de propagandas institucionais. Tomando especificamente a iniciativa da participao infantil no Oramento Participativo (OP) de um determinado municpio do Nordeste brasileiro, tm surgido, entre os delegados adultos do OP, questionamentos e discusses acerca da capacidade de as crianas participarem a elas facultado espao de participao no OP Criana e Adolescente. Os referidos delegados discordam da abertura desse espao, convidando para o debate, entre outros discursos, o da Psicologia.

Implantada em 2005 no municpio em questo, o OP, como poltica pblica de participao popular, tem o intuito de contribuir para a formao cidad e o controle popular da gesto pblica, enfocando a construo de uma democracia

Melo, L. A., Colao, V. F. R., Pascual, J. G.

60

para alm da representao poltica. Tem como principais caractersticas o compartilhamento de decises, recursos, experincias e responsabilidades, sendo marcado pela corresponsabilidade nas decises sobre a cidade (Prefeitura Municipal de Fortaleza, s/d). Conforme esclarece Soares (2009), o OP est organizado para atender populao da cidade nos nveis territorial (local de origem do cidado, organizado a partir das subunidades administrativas do municpio) e segmento social, dentre os quais esto elencados crianas e adolescentes, populao negra, LGBTs (lsbicas, gays, bissexuais e transexuais), idosos e pessoas com deficincia.

O ciclo do OP inclui processos de mobilizao e formao, nos quais os participantes so esclarecidos acerca de questes relativas ao oramento pblico e ao ciclo oramentrio do municpio, alm da prpria questo da participao popular e formao cidad. Reformulado em 2010, esse ciclo tem incio com as assembleias eletivas realizadas em diversos bairros do municpio, nas quais so demandadas propostas de obras e servios a serem desenvolvidos pela Prefeitura. Na sequncia, h as assembleias decisivas. Nestas, so votadas as propostas a serem concretizadas, partindo de uma anlise prvia de sua viabilidade pelo poder pblico. Nesse momento, so eleitos os delegados do OP, que compem ento os Fruns Regionais de Delegados em cada subunidade administrativa, responsabilizando-se por debater e acompanhar o processo de execuo das obras do OP em cada localidade. Ao final, so eleitos pelos delegados os membros do Conselho do Oramento Participativo (COP), do qual fazem parte, tambm, representantes da administrao pblica, com direito voz, mas no ao voto. O COP responsvel por planejar, fiscalizar, discutir, propor e deliberar sobre a pea oramentria anual, alm de tomar decises acerca do prprio processo de organizao do OP (Soares, 2009; Prefeitura Municipal de Fortaleza, s/d).

O ciclo descrito ocorre de maneira anloga para os segmentos sociais, diferenciando-se pelo fato de as assembleias ocorrerem em entidades e instituies que agregam esses segmentos. No caso do segmento crianas e adolescentes, h tanto as assembleias territoriais (realizadas em cada subunidade administrativa) como as escolares (realizadas em uma escola de cada subunidade administrativa). Importante dizer que as crianas e os adolescentes contam com Fruns prprios e tambm elegem seus delegados e representantes para o COP, em um processo totalmente integrado ao OP (Soares, 2009).

O OP Criana e Adolescente (OPCA), seguindo os regimentos internos do OP e do OPCA, fundamenta-se na concepo de crianas como cidads desde o momento atual, enfatizando que o futuro que estaria a elas destinado arquitetar no ser possvel se no houver uma construo desde o presente. Acredita-se que dar s crianas o direito de participao na vida coletiva constitui a melhor forma de proteg-las, incentivando, por sua vez, o protagonismo de suas experincias. Participam do OPCA crianas e adolescentes com idades dos 6 aos 17 anos. As atividades, com mesmo peso de deciso daquelas desenvolvidas com os adultos, so realizadas a partir de metodologias e linguagens especficas, a fim de que as crianas debatam e entendam sua cidade, trazendo ideias e propostas no apenas para o seu segmento, mas para toda a cidade (Prefeitura Municipal de Fortaleza, 2010).

A propsito, Soares (2009) traz diversas indagaes relativas construo da participao popular nas aes do OP municipal, consoantes com as que nos motivam a problematizar a temtica da participao infantil. Ele aponta alguns obstculos culturais participao, questionando se as pessoas sabem participar de uma forma a constituir relaes horizontais ou apenas a partir de velhas formas hierarquizadas que reproduzem uma dicotomia entre algum que manda porque pode e algum que obedece porque tem juzo (p.2).

Crianas, oramento participativo e teoria da atividade: algumas reflexes

61

Arquivos Brasileiros de Psicologia; Rio de Janeiro, 63 (3): 58- 71, 2011

Soares (2009) denuncia a constituio de espaos de participao nos quais esta se torna sinnimo de falar, questionando se [...] eles favorecem a expresso do pensamento dos sujeitos de forma livre e original ou as falas das pessoas que no dispem de uma oratria polida e bem articulada suscitam apenas risinhos irnicos e enfado indisfarado (p.2). Quando se trata das crianas, ento, com suas formas particulares de expresso, raciocnio e linguagem, acrescenta-se ainda a histrica menorizao, seguindo-se o desprezo e ironia por parte dos adultos.

possvel observar, portanto, uma tenso entre a ideia de crianas como sujeitos em condio peculiar de desenvolvimento, fundamentando a necessidade de sua proteo, e a ideia de crianas que participam, que fazem parte da construo de uma realidade social comum, consideradas sujeitos ativos de direitos e possuidores de voz. Isso porque muitas vezes essa proteo, talvez de fato necessria, considerando o contexto brasileiro, pode tambm acabar reforando uma noo de incapacidade e fragilidade absolutas das crianas, enquanto as oportunidades de participao acabam sendo dadas s crianas e no conquistadas nem devidamente apropriadas por estas.

Somando-se a essa tenso, Soares (2009) apresenta-nos que nos falta aprender a participar, considerando que no h um intuito legtimo para esse aprendizado na famlia, na escola e nos demais espaos microssociais. H, sim, atitudes hierarquizadas, autoritrias, sendo a expresso livre de ideias, por vezes, ridicularizada.

Empiricamente, so destacadas questes de maturao, habilidade e capacidade, quando se fala em participao infantil. Em quais circunstncias as crianas so capazes de participar? A resposta para tal questo pode recair sobre a negatividade constituinte a partir da qual a infncia tem sido concebida, recusando, portanto, a possibilidade ou a efetividade dessa participao. possvel, no entanto, buscar respostas a partir de uma perspectiva diferente, considerando a possibilidade do ser criana no presente.

importante deixar claro que estamos falando de participao infantil em uma sociedade eminentemente adultocntrica, na qual as crianas so concebidas como inferiores em um percurso normatizado de desenvolvimento. Compreendemos, portanto, que a infncia se forja nessa sociedade, significando e sendo significada nesse contexto histrico e cultural. Conforme pontuado por Espinar (2002), em estudo realizado sobre participao de crianas, investigar sobre esse tema pode parecer um paradoxo nesse padro societrio, no qual se costuma negar o exerccio completo dos direitos infantis. O que seria de fato confiado s crianas?

O objetivo deste artigo no classificar formas de participao de crianas ou construir tipologias e, desse modo, tecer julgamentos morais sobre as prticas sociais. No pretendemos apresentar frmulas de como proceder para que crianas participem de fato, mas, sim, buscar compreender como essa participao pode acontecer. Para tanto, propomos problematiz-la a partir da Teoria da Atividade de Alexi Leontiev (1903-1979), no sem antes deixarmos claro a que nos referimos quando tratamos de infncia e de participao.

Desenhando a participao

Bordenave (1994) afirma que a participao uma habilidade que se aprende e se aperfeioa (p.46); sendo assim, aponta para a necessidade de os sistemas educativos desenvolverem mentalidades participativas pela prtica constante e refletida. Esse autor discute diversas maneiras de efetuar essa prtica, graus e nveis de participao, destacando a importncia de atentar para o grau de controle

Melo, L. A., Colao, V. F. R., Pascual, J. G.

62

dos membros sobre as decises e a importncia das decises de que se pode participar.

Bordenave (1994) traz a noo de participao como fazer parte, tomar parte ou ter parte, considerando as diferenas dessas expresses:

[...] a prova de fogo da participao no o quanto se toma parte, mas como se toma parte [...] a democracia participativa seria ento aquela em que os cidados sentem que, por fazerem parte da nao, tm parte real na sua conduo e por isso tomam parte cada qual em seu ambiente na construo de uma nova sociedade na qual se sentem parte (p.23).

Esse autor classifica como participao simblica quando os membros de um grupo tm influncia mnima nas decises e nas operaes, mas so mantidos na iluso de que exercem o poder (p.63). Contrapondo-se a essa categorizao, h a participao real, que ocorre quando os membros influenciam em todos os processos da vida institucional (p.63), embora participem de maneiras e em funes e momentos diferentes.

De acordo com Hart (1992), as crianas so os membros da sociedade mais fotografados e menos escutados. Ele incisivo ao denunciar que a participao de crianas muitas vezes se configura como uma performance, o que se deve, segundo ele, tendncia dos adultos de subestimar a competncia das crianas, embora reconheam o poder de influncia destas, usando-as portanto em eventos diversos. Nesse sentido, ele traz uma discusso sobre a capacidade de as crianas participarem, enumerando alguns fatores que afetam a habilidade para essa participao, como seu desenvolvimento social e emocional, a competncia em compreender a perspectiva do outro e as variaes relacionadas s classes sociais e ao gnero.

Compreendendo que h uma diversidade de maneiras de as crianas participarem, possvel questionar se h uma forma ideal de participao infantil. De fato, h uma tendncia em classificar valorativamente essa variedade de formas de participao. No entanto, a partir de uma perspectiva histrico-cultural da constituio do ser humano e da cultura, a participao infantil pode ser compreendida como uma construo, no palco de negociaes que constitui a vida cultural.

Para Hart (1992), a participao infantil na sociedade comea quando a criana entra no mundo e descobre o quo capaz de influenciar eventos com seus choros e movimentos. Esse autor utiliza o termo participao para se referir ao processo de compartilhar decises que afetam a vida de uma pessoa e da comunidade na qual se vive. Trata a participao de crianas como condio para a cidadania dessas, considerando-a como processo para a construo da democracia.

A participao infantil, no entanto, est relacionada, segundo esse autor, a um contexto maior de participao, no variando apenas com o desenvolvimento de motivaes e capacidades da criana, mas tambm com os contextos familiares e culturais. Ou seja, como possvel falar de promoo dessa participao infantil em uma sociedade individualista, na qual os prprios adultos pouco vivenciam essa prtica?

Em estudo realizado com organizaes no governamentais da Amrica Latina, por Espinar (2002), as crianas entrevistadas relacionaram sua participao expresso de ideias, atravs de palavras e aes, bem como expresso de opinies, aos benefcios para o seu desenvolvimento e sua aprendizagem, ajuda na gesto de atividades, aos direitos e s responsabilidades, capacidade de

Crianas, oramento participativo e teoria da atividade: algumas reflexes

63

Arquivos Brasileiros de Psicologia; Rio de Janeiro, 63 (3): 58- 71, 2011

decidir por si mesmas o que querem fazer, ao agir por convico e autonomia. Os adultos que trabalhavam nas instituies visitadas no estudo reconheciam e aceitavam a participao infantil. No entanto, a forma de entender o que melhor para as crianas e como saber, por elas mesmas, o que melhor para si gerava percepes distintas na promoo da participao, caracterizando atitudes desde predominantemente tutelares e protecionistas ao reconhecimento de formas plenas e autnomas de participao.

No referido estudo, a participao de crianas est relacionada ao direito de opinar, com a possibilidade de expressar o que se pensa, ser escutado e levado em conta. A tomada de decises, sem a qual no possvel efetivar-se uma participao real e autntica, requer o acesso informao, o reconhecimento de propostas, a possibilidade de escolha, disponibilidade de tempo e o reconhecimento das decises empreendidas. A participao apresenta, ainda, sujeitos em relao, mediados por discursos e significaes que articulam aes. Trata-se de relaes de poder, possibilidades de dilogo, reconhecimento de direitos, compartilhamento de decises, em um processo no qual crianas e adultos podem caminhar juntos, afirmando-se mutuamente, reconhecendo e respeitando suas diferenas (Espinar, 2002).

A partir dessas afirmaes, possvel compreender a participao como algo que envolve informao e conhecimento sobre os temas que se compartilha, com sentimento de pertena e poder de deciso e de ao. Como afirma Bordenave (1994), trata-se de uma interveno ativa na construo da sociedade, atravs da tomada de decises e das atividades sociais em todos os nveis. fundamental, ainda, entender que a participao est envolvida em relaes de poder. No presente trabalho, utilizaremos a noo de participao compreendida como maneiras possveis de as crianas fazerem parte, tomarem parte e terem parte em situaes nas quais se envolvem em condies decisrias, estando em jogo relaes de poder.

Por uma compreenso de infncias plurais

Compreendemos que ser criana no foi e no da mesma forma em todos os espaos e tempos, em todas as culturas existentes e contextos possveis, sendo a infncia constituda a partir de referncias tnicas, culturais, de gnero e de classe social, entre outras. Os estudos empreendidos por Aris (1975/2006) nos ajudam a compreender a infncia como essa construo social. Considerando que esse autor faz um estudo da Frana do final da Idade Mdia adentrando na Modernidade o que torna invivel fazer generalizaes , interessa-nos atentar para o fato de que, ao analisar as mentalidades de uma poca num determinado espao, Aris nos fala da constituio de um sentimento de infncia forjado em relao direta com as concepes de famlia e de educao estabelecidas ao longo da histria e em decorrncia dos interesses e diferentes configuraes sociais. Esse sentimento de infncia relaciona-se com a conscincia da particularidade infantil, o que tornava possvel a distino entre crianas e adultos. Nem sempre esse sentimento existiu. Na sociedade francesa tradicional, as crianas se juntavam aos adultos logo que superavam um perodo mais frgil de sua sobrevivncia. Adultos e crianas compartilhavam atividades sociais, como jogos, brincadeiras, profisses e armas, de tal forma que a aprendizagem infantil era assegurada na convivncia com os mais velhos, jovens e adultos (Aris, 1975/2006).

Castro (2001) afirma que, na era moderna, a construo da psicologia da infncia esteve intimamente relacionada com a noo de norma, correspondendo o sentido da infncia a uma trajetria a ser percorrida at a idade adulta:

Melo, L. A., Colao, V. F. R., Pascual, J. G.

64

Assim, a compreenso da especificidade da infncia fica por conta de um dbito social e cultural que lhe atribudo frente tarefa de crescer, e se tornar, eventualmente, como um adulto. Frente a este dbito interpem-se as aes educativas e familiares que visam, ento, fazer das crianas, adultos, socializ-las, amadurec-las (p.20).

Desse modo, a autora questiona como possvel compreender a infncia sem que as diferenas entre esta e os adultos recaiam sobre uma lgica desenvolvimentista, segundo a qual a criana posicionada como um sujeito em potencial, marcado pelo vir a ser e no pela competncia no presente, tendo como consequncia sua insero na sociedade afastada do mundo das atividades socialmente reconhecidas.

Brincar e estudar tornaram-se, assim, sintagmticos da infncia, enquanto assimilados numa s referncia: uma identidade, uma natureza infantil. Participar ativamente da sociedade, e ser assim reconhecido, foi postergado para mais tarde, quando a criana se tornaria, enfim, um adulto. Deste modo, a lgica desenvolvimentista favoreceu uma perspectiva de menoridade sobre a infncia, que pe em questo, ou mesmo reduz seus direitos civis e polticos (p.22).

Segundo Castro (2001), aos jovens e s crianas so atribudas posies de incapacidade social, poltica e cultural, que, por vezes, viabilizam a excluso da criana e do jovem da participao plena na vida social. Para contrapor o paradigma desenvolvimentista, essa autora se referencia nas ideias do conceito de ao trazido por Hannah Arendt e Max Weber. Assim, Castro assinala que notvel que adultos e crianas apresentem diferentes inseres nos espaos de convivncia, tendo possibilidades distintas de intervir no mundo e constru-lo. Entretanto, a criana foi alijada de muitos desses espaos, sendo destacados dentre eles o espao pblico e os interesses da vida em comum, desfavorecendo-se em termos de uma participao mais imediata e legitimada, restringindo-se aos espaos de aprendizagem e proteo, enquanto aguardam uma futura posio de participao e responsabilidade.

Tendo como referncia a antropologia filosfica de Walter Benjamim, Kramer (1996) discute proposies tericas de diversos campos do conhecimento voltados infncia, buscando delinear um referencial para o estudo desta, concebendo a criana na sua condio social de ser histrico, poltico, cultural, que verte e subverte a ordem e a vida social. Kramer (1996) destaca a viso predominante sobre a infncia brasileira na dcada de 1970, a qual trazia uma verso marginalizadora e preconceituosa das crianas das classes populares, sustentando as ideias de privao cultural e de compensao de carncias. Entretanto, ao longo da histria, chegando aos dias atuais, a criana deixa de ser algum que no (pelo menos nas discusses acadmicas) e passa condio de cidado (pelo menos na letra da lei). Crescendo como estatuto terico, busca-se forjar outro olhar sobre a infncia, um olhar da criana e no sobre ela. Assim, Kramer (1996) mostra-nos que possvel colaborar para uma concepo da criana no de uma maneira romntica ou ingnua, mas entendendo-a na histria, inserida numa classe social, parte da cultura e produzindo cultura.

Essas discusses sobre a infncia vo ao encontro dos pressupostos da Psicologia Histrico-Cultural, segundo a qual o ser humano se constitui a partir das interaes sociais em um dado contexto, participando de prticas sociais, cultural e historicamente construdas, transformando seu contexto e sendo transformado. A cultura, conforme destacado por Rego (1995), compreendida em seus constantes movimentos de recriao e reinterpretao de informaes, conceitos e significaes. A infncia, nesse sentido, dita e se diz. Dessa forma, Rego (1995) afirma que o desenvolvimento humano no pode ser compreendido como algo previsvel, universal, linear ou gradual, visto que acontece relacionado ao contexto sociocultural e se processa de forma dinmica e dialtica, com rupturas, desequilbrios e constantes reorganizaes.

Crianas, oramento participativo e teoria da atividade: algumas reflexes

65

Arquivos Brasileiros de Psicologia; Rio de Janeiro, 63 (3): 58- 71, 2011

Sendo assim, se partirmos de uma concepo da infncia construda histrica e culturalmente, em oposio infncia fixa e essencialista, podemos pensar a criana como um sujeito que compartilha aes significadas desde o momento presente, a partir das quais (re)constri o mundo no qual vive, ao mesmo tempo em que se subjetiva. nesse sentido que a Teoria da Atividade pode colaborar na discusso sobre a participao de crianas nas atividades do Oramento Participativo do municpio em questo.

As crianas e o oramento participativo

Apresentadas as concepes de participao e de infncia que fundamentam a construo da presente discusso, buscaremos, como definido em nosso objetivo, problematizar a participao de crianas no OP municipal luz da Teoria da Atividade Humana desenvolvida por Leontiev. Conforme apresentado por esse autor, enquanto a atividade dos animais, eminentemente instintiva, permanece nos limites das relaes biolgicas com a natureza, a espcie humana, qualitativamente distinta, inclui em seu desenvolvimento psquico as experincias scio-histricas, das quais se apropria no decurso deste.

No somos constitudos apenas por nossa herana gentica, embora esta tenha um papel fundamental no desenvolvimento das funes psquicas complexas. Isso implica dizer que somos seres em construo, em constantes transformaes de si e do mundo no qual vivemos. Assim, como pontuado, o que denominamos infncia em um determinado contexto histrico e cultural no se manter igual, necessariamente, por todos os tempos e espaos. A infncia pode ser, ento, compreendida como um fenmeno social construdo, assim como sua participao.

Nascida em um mundo material culturalmente constitudo, a criana se torna humana e participa da construo da realidade a partir das relaes sociais que estabelece em seus contextos de vida, sendo sua relao com esse mundo mediada por sua atividade e seus processos de significao. Nessas relaes sociais, apropria-se dos produtos da atividade humana, que encarnam e objetivam as foras e faculdades intelectuais, a histria da cultura material e intelectual e as aptides humanas. A partir de atividades prticas ou cognitivas, o mundo descoberto pela criana, em relaes sempre mediadas por outros seres humanos, pela sociedade.

Essa relao da criana com o mundo dos objetos humanos caracteristicamente ativa, acontecendo no decurso do desenvolvimento das relaes reais do sujeito com o mundo. Relaes estas determinadas pelas condies histricas concretas, sociais, nas quais a criana vive e pela maneira com que sua vida se forma nessas condies. Conforme assinala Leontiev (1959/1978):

Cada gerao comea, portanto, a sua vida num mundo de objetos e de fenmenos criados pelas geraes precedentes. Ela apropria-se das riquezas deste mundo participando no trabalho, na produo e nas diversas formas de atividade social e desenvolvendo assim as aptides especificamente humanas que se cristalizaram, encarnaram nesse mundo (pp. 265-266).

nesse ponto que se faz necessrio destacar novamente algumas condies culturais que caracterizam nosso contexto. Vivemos em uma sociedade na qual o adulto (do sexo masculino, branco, heterossexual, ocidental e pertencente s classes economicamente favorecidas) tomado como centro: de um percurso de desenvolvimento s lgicas socioeconmicas. Historicamente, esse adulto delibera, comanda, define as formas hegemnicas de convivncia e organizao sociais. A criana, concebida como um ser inferior, incompleto em seu processo de desenvolvimento, por vezes tida como incapaz de participar das decises

Melo, L. A., Colao, V. F. R., Pascual, J. G.

66

referentes vida comum, sendo colocada em posies de tutela e proteo. Mas essas posies so compreendidas, a partir de uma perspectiva histrico-cultural, como mutveis, em movimentos que ocorrem no de forma neutra, mas sim a partir de relaes de poder, ideologicamente configuradas.

Entretanto, como j apresentado, a relao da criana com o mundo material, mediada por sua atividade, est imersa na comunicao, tanto prtica como verbal, a partir da qual a criana se apropria ativamente da linguagem, dos conceitos, das ideias, alm de todos os outros produtos materiais e intelectuais resultantes da atividade humana. Ela intervm e transforma seu contexto, ao apropriar-se deste, ao mesmo tempo em que transforma a si prpria.

Leontiev (1959/1978) assinala que o desenvolvimento psquico da criana est relacionado s mudanas da posio real que ela ocupa nas suas relaes e na vida cotidiana com os adultos e com o mundo humano e social que a rodeia. Essas mudanas caracterizam o nvel atingido num dado momento de seu desenvolvimento, mas no o determinam. Cada estgio do desenvolvimento psquico da criana caracterizado por um tipo de relao desta com a realidade e determinado, por sua vez, pelo tipo de atividade dominante para ela. Essa atividade dominante da qual fala Leontiev (1959/1978) aquela que condiciona as principais mudanas nos processos psquicos da criana e as particularidades psicolgicas de sua personalidade em um dado estgio do desenvolvimento.

Assim, Leontiev (1959/1978) mostra que, inicialmente, a criana manipula objetos humanos e se relaciona com os adultos a partir de uma comunicao prtica, mediada por esses objetos e, pouco a pouco, pela palavra. Ao se inserir no mundo dos objetos humanos, na atividade de jogos, por exemplo, a criana se comunica e reproduz aes desse mundo. Suas necessidades vitais so, inicialmente, todas satisfeitas pelos adultos dos quais depende. Quando a criana entra na escola, todo o seu sistema de relaes vitais se reorganiza. Suas obrigaes tornam-se objetivamente relativas sociedade. As relaes com as pessoas de seu crculo ntimo perdem seu papel fundamental, sendo sua comunicao determinada por campos de relaes mais amplos. Dessa forma, no decorrer do seu desenvolvimento psquico, a criana passa a perceber que ela tem possibilidades que ultrapassam a relao direta que estabelece com o mundo, na medida em que suas relaes sociais tornam-se mais complexas. Mas, o desenvolvimento psquico depende, na verdade, dos processos reais da vida da criana, ou seja, de suas atividades, externas e internas. E o contedo dessas atividades depende das condies histricas concretas em que ocorre o desenvolvimento, cada nova gerao encontra prontas certas condies de vida que possibilitam o contedo de determinadas atividades. Sendo assim, Leontiev (1959/1978) mostra-nos que:

Assim se explica que a durao e o contedo do perodo de desenvolvimento que se poderia chamar de preparao do homem para a participao na vida social do trabalho, a durao e o contedo da educao e do ensino, nem sempre tenham sido os mesmos historicamente (p. 294).

essa perspectiva de construo que destacamos quando nos referimos infncia e sua participao como historicamente concebidas. O tempo e o contedo das atividades ditas infantis transformam-se. Atualmente, as crianas passam mais tempo nos bancos escolares do que na poca descrita por Aris (na Frana do final da Idade Mdia e incio da Modernidade). H uma nfase na infncia quando se trata, por exemplo, de fomentar o mercado de consumo. Falamos em direitos e deveres da criana, concebida em sua condio cidad, mas ao mesmo tempo constatamos situaes diversas de explorao, seja atravs do trabalho, seja da violncia sexual ou outras formas de violncia. Podemos considerar, portanto, que a infncia se desenvolve em condies histricas concretas marcadas por tenses

Crianas, oramento participativo e teoria da atividade: algumas reflexes

67

Arquivos Brasileiros de Psicologia; Rio de Janeiro, 63 (3): 58- 71, 2011

entre tutela e autonomia, proclamao de direitos e violao constante destes, proteo e participao. Dessa forma, contando com as breves consideraes tecidas, interessa-nos discutir como a atividade da criana, mediadora de sua relao com o mundo material, pode nos ajudar a compreender a participao infantil no OP municipal.

A atividade humana definida por Leontiev (1959/1978) como um processo que, ao realizar determinada relao do homem com o mundo, responde a uma necessidade particular prpria do homem. Nesse sentido, ele destaca que na atividade humana o seu objeto, aquilo para que tende no seu conjunto, coincide sempre com o seu motivo, o elemento objetivo que incita a atividade. Esse motivo precisa constituir um sentido para aquele que desenvolve a atividade e est associado a sentimentos e emoes.

Seguindo o raciocnio de Leontiev (1959/1978), as aes, partes integrantes de uma atividade, caracterizam-se como processos cujo objeto (ou fim) no coincide com o motivo. Ou seja, para constituir uma atividade necessrio que sejam realizadas algumas aes que, embora tenham um objeto que no coincide com o motivo da atividade, esto ligadas ao conjunto desta pelo sentido que possuem nesse conjunto. como dividir a atividade em vrios pedaos aparentemente independentes, que, porm, quando inter-relacionados, formam a totalidade da atividade.

J as operaes so definidas como os modos de execuo de uma ao. So formadas, inicialmente, como aes associadas a um fim, constituindo processos conscientes. No decorrer de sua formao so, de certa forma, automatizadas e passam a compor as aes que, por sua vez, buscam outros fins. As operaes tornam-se dependentes das condies em que dado o fim das aes.

Retomemos, portanto, a participao de crianas no OP municipal. destacada nesse espao de participao a necessidade constante de momentos de formao e educao de seus membros. H todo um empenho em esclarecer as formas de funcionamento do ciclo oramentrio da cidade e do prprio OP. Em relao ao OPCA, enfatizada a necessidade do emprego de metodologias e linguagens especficas, considerando as diferenas e singularidades dos segmentos infncia e adolescncia. Dessa forma, so priorizadas atividades de carter ldico, incluindo oficinas, dinmicas, jogos, brincadeiras, dramatizaes, revistas e cartilhas. Poderamos inferir que tais iniciativas contribuem para que os temas em questo na participao no OP possam ser acessados e apropriados pelos seus participantes, podendo constituir-se em uma atividade mediadora.

O OP, ao tratar do oramento do municpio, aborda contedos e procedimentos nem sempre presentes no cotidiano de quem participa. So assuntos que parecem fazer parte de um universo adulto, muitas vezes de pouco acesso s crianas. Trata-se, no entanto, de informaes e conhecimentos imprescindveis no processo de participao. Por essa razo, para que a participao seja efetivada, necessrio que haja a apropriao desses conhecimentos. E ainda, como podemos afirmar com Werscht (1999), caracteriza essa atividade mediadora o domnio que se tem sobre o contedo envolvido. Conforme destacado por Bordenave (1994), quando falamos de participao, importante atentar para o grau de controle dos membros sobre as decises empreendidas e a importncia das decises de que se pode participar. possvel que esses aspectos sejam precisamente o que justifica a significativa ateno dispensada aos processos educativos e de formao no OP.

importante tambm assinalar que a atividade empreendida na apropriao dos objetos do mundo material est implicada com a produo de sentidos acerca dessa

Melo, L. A., Colao, V. F. R., Pascual, J. G.

68

atividade. Em outras palavras, a criana no s necessita apropriar-se dos fenmenos em voga na sua atividade participativa como imperativo que essa atividade envolva algum sentido para a criana, sentido este relacionado s suas maneiras de compreender o mundo do qual faz parte. Em que medida os contedos tratados nas discusses do OPCA esto sendo efetivamente apropriados pelas crianas que delas participam e qual o sentido que fazem para elas so questionamentos que se pem a fim de compreender o modo de participao das crianas nesses espaos.

Outro aspecto importante para a nossa reflexo relaciona-se com a construo de espaos de participao centrados eminentemente na fala, como destacado por Soares (2009) e mencionado no incio deste artigo. A exclusividade da fala pode restringir e excluir a participao democrtica. Seu domnio pode ser compreendido, retomando Leontiev (1959/1978), como uma ao necessria realizao da atividade de expor em assembleias opinies e posicionamentos acerca do que est sendo discutido e decidido. Se no h uma apropriao por parte da criana da ao da retrica, sua participao fica comprometida. E ainda, se se trata de temas ainda no acessados pelas crianas, conforme as condies culturais nas quais vivem, as tentativas de participao estaro fadadas ao fracasso. Recairemos na diferenciao que Leontiev (1959/1978) faz entre motivos apenas compreendidos (aqueles que caracterizam uma ao) e motivos que agem realmente (aqueles que incitam uma atividade), quando trata dos motivos que transformam uma ao em atividade.

Nesse sentido, compreendendo o desenvolvimento psquico da criana pela apropriao da experincia acumulada pela humanidade ao longo de sua histria social, em um processo ativo, Leontiev (1959/1978) assinala que:

Para se apropriar de um objeto ou um fenmeno, h que efetuar a atividade correspondente que concretizada no objeto ou fenmeno considerado. Assim, dizemos que uma criana se apropria de um instrumento, isto significa que aprendeu a servir-se dele corretamente e j se formaram nela as aes e operaes motoras e mentais necessrias pra esse efeito (p. 321).

Em outras palavras, a criana precisa aprender a servir-se corretamente dos modos de mediao compartilhados nas prticas sociais de participao, em concordncia com a formao das aes e operaes motoras e mentais necessrias para esse efeito. De outra maneira, as crianas seriam obrigadas a realizar operaes no integradas em aes, que por sua vez no podem ser integradas em atividade, porque o objetivo e o motivo no coincidem. Haveria, portanto, uma participao incua e inqua no que diz respeito relao desta com o processo de subjetivao infantil.

A propsito, parece simples tratar a participao de crianas no OP restringindo-a a uma questo de apropriao. preciso reforar que essa apropriao da produo humana, a partir da atividade mediadora, se d de forma ativa e implicada em contextos culturalmente definidos. Tomemos neste momento a noo de cultura como palco de negociaes, como colocada por Rego (1995). Nesse palco esto em movimento uma diversidade de discursos e prticas sociais constituindo os lugares a serem ocupados por crianas e adultos, lugares estes mediados semitica e axiologicamente. nesse palco em movimento que podemos construir e reconhecer o que ser criana e ser adulto, sendo estes concebidos nas relaes que estabelecem.

Nesse sentido, importante pontuar que a criana se constitui como tal nas interaes sociais mediadas que estabelece no mundo material, simblica e ideologicamente construdo, do qual faz parte. nesse mundo que participa, ou seja, em uma sociedade adultocntrica, sustentada por pilares da racionalidade do

Crianas, oramento participativo e teoria da atividade: algumas reflexes

69

Arquivos Brasileiros de Psicologia; Rio de Janeiro, 63 (3): 58- 71, 2011

homem branco, colonizador, que ento falamos de participao de crianas. No caso das atividades do OP municipal, embora o espao de participao das crianas seja assegurado baseando-se nos princpios do Estatuto da Criana e do Adolescente (ECA) (1990/2005) relativos atribuio de sua condio cidad e sujeito de direitos, as relaes j esto minadas por uma descrena nas capacidades da criana, na medida em que os delegados adultos discordam desse espao em nome de pressupostos psicolgicos que reafirmam a sua inferioridade ou sua no capacidade de julgamento pleno.

Consideraes finais

Destacamos, portanto, nessa tentativa de problematizao, o papel da cultura na construo das prticas sociais. No nos referimos cultura como determinante dessas prticas, mas enfatizamos os entraves e obstculos que podem dela originar na efetivao de atividades como a participao de crianas no OP municipal. Mesmo que s crianas sejam destinados espao e voz nas atividades do OP, sua participao parece ser, por vezes, barrada por questes culturais. Compreendendo a cultura como produo humana, podemos ressaltar possibilidades de construo de novos discursos e prticas, os quais favoream de fato essa participao.

Tal fato pode ser tambm relacionado questo da no efetivao dos direitos concedidos s crianas. A Conveno Internacional dos Direitos da Criana (1989/2009), a Constituio Federal Brasileira (1988/1989) e o ECA (1990/2005) reservam um lugar especial destinado s crianas e ao reconhecimento de seus direitos e deveres. No entanto, como destaca Demartini (2006), h um paradoxo na prpria concepo de infncia, na medida em que existem tantos direitos constitudos legalmente diante de realidades de negao desses mesmos direitos, vividas por tantas crianas. Por que os direitos e deveres de crianas e adolescentes brasileiros, considerados avanados na forma da lei, no se efetivam? Deparamo-nos novamente com questes que vo alm do prescrito, porque precisam ser conectadas com a realidade histrica e sociocultural em que se inscrevem. No basta apenas promover convencionalmente direitos e deveres. H toda uma realidade social na qual esses direitos podem no encontrar espao de repercusso.

Destacamos ainda, como fundamental, que as polticas pblicas sejam realizadas a partir das pessoas que dela se beneficiaro e a constituiro. O desenvolvimento das atividades mediadoras implica nessa produo de sentido: necessrio o reconhecimento das demandas, das dinmicas de organizao, dos obstculos e das formas de convivncia envolvidas no cotidiano das pessoas para quem essas polticas pblicas sero destinadas.

No que tange s crianas, Slon, Costa e Rossetti-Ferreira (2008), referindo-se pesquisa com esse segmento social, do nfase necessidade de reconhecer que as crianas so potencialmente vulnerveis relao de poder desigual entre pesquisador adulto e criana participante, o que leva a crer que necessrio refletir sobre o motivo de considerar a voz da criana, tambm no concernente ao processo de participao em espaos de deciso como o OP. Ou seja, atentar para que a razo de se incluir a criana seja realmente garantir o fortalecimento dos aspectos que iro beneficiar os interesses da prpria criana. Reforam, portanto, que escutar as crianas, ouvi-las e agir sobre o que falam so trs atividades diferentes e que talvez poucas pessoas tenham agido eficientemente sobre o que as crianas tenham dito.

Podemos finalizar, por ora, com a afirmao de que a Teoria da Atividade nos possibilita pensar em uma participao das crianas dependendo da atividade que

Melo, L. A., Colao, V. F. R., Pascual, J. G.

70

se tenha em conta e, portanto, das aes e operaes empreendidas para o desenvolvimento dessa atividade, atentando para os constructos culturais em movimento no contexto da atividade humana. Para isso, necessrio escutar as prprias crianas e reconhecer seus reais interesses e preocupaes. Dessa forma, podemos colocar que a participao infantil possvel quando se trata de aes s quais as crianas possam estar apropriadas ou possam desenvolver essa apropriao. No h, portanto, porque impedir sua participao e, consequentemente, sua contribuio para a construo do mundo humano. At porque, a partir da leitura de mundo discutida neste artigo, ela participar dessa construo de qualquer forma.

Referncias

Constituio da Repblica Federativa do Brasil. (1989). Rio de Janeiro: FAE. (Originalmente publicado em 1988).

Lei Federal n 8.609. (2005). Estatuto da Criana e do Adolescente. Fortaleza: Prefeitura Municipal. (Originalmente publicado em 1990).

Aris, P. (2006). Histria Social da Criana e da Famlia. (2 ed., D. Flaksman, Trad.). Rio de Janeiro: LTC. (Originalmente publicado em 1975).

Bordenave, J. E. D. (2007). O que participao. (4 reimp. da 8 ed.). So Paulo: Brasiliense. (Originalmente publicado em 1983).

Castro, L. R. (2001). Da invisibilidade ao: crianas e jovens na construo da cultura. In L. R. de Castro (Org.), Crianas e jovens na construo da cultura (pp. 19-46). Rio de Janeiro: NAU.

Demartini, P. (2002). Contribuies da sociologia da infncia: focando o olhar. Revista Eletrnica Zero a Seis, 6. Disponvel em http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/zeroseis. Acesso em 25 de fevereiro de 2009.

Espinar, . (2002). El Ejercicio del poder compartido: estdio para la elaboracin de indicadores e instrumentos para analizar el componente de participacin de nios y nias en proyectos sociales. Lima: Escola para el Desarollo e Save The Children Suecia.

Fundo das Naes Unidas para a Infncia (Unicef). (2009). Conveno Internacional dos Direitos da Criana. (2 ed.). Braslia: Frum Nacional Permanente de Entidades No-Governamentais de Defesa dos Direitos da Criana e do Adolescente (Frum Nacional DCA). (Originalmente publicado em 1989).

Hart, R. A. (1992). Childrens participation: from Tokenism to Citizenship. Florence: UNICEF International Child Development Centre.

Kramer, S. (1996). Pesquisando Infncia e educao: um encontro com Walter Benjamin. In S. Kramer, & M. I. Leite (Orgs.), Infncia: fios e desafios da pesquisa (pp. 13-38). Campinas: Papirus.

Leontiev, A. N. (1978). O Desenvolvimento do Psiquismo. Lisboa: Horizonte Universitrio. (Originalmente publicado em 1959).

Crianas, oramento participativo e teoria da atividade: algumas reflexes

71

Arquivos Brasileiros de Psicologia; Rio de Janeiro, 63 (3): 58- 71, 2011

Prefeitura Municipal de Fortaleza. (s/d). OP: Oramento Participativo. Disponvel em http://www.fortaleza.ce.gov.br/op/. Acesso em 7 de dezembro de 2010.

Rego, T. C. (1995). Vigotsky: uma perspectiva histrico-cultural da educao. Petrpolis: Vozes.

Soares, L.B. (2009). Formar uma gerao participativa: a escola como lcus de mudana cultural Disponvel em: http://www.recantodasletras.com.br/. Acesso em 7 de dezembro de 2010.

Solon, L., Costa, N. R. A. & Rossetti-Ferreira, M. C. (2008). Conversando com crianas. In S. H. V. Cruz (Org.), A Criana Fala: A Escuta de Crianas em Pesquisas (pp. 204-224). So Paulo: Cortez.

Werscht, J. (1999). La mente en acin. Buenos Aires: Aique Grupo Editor.

Submetido em: 18/03/2011 Aceito em: 14/11/2011

Endereos para correspondncia

Lis Albuquerque Melo lis.albuquerque@hotmail.com

Veriana de Ftima Rodrigues Colao verianac@uol.com.br

Jesus Garcia Pascual garciapascual2001@yahoo.com.br

1 Mestranda. Programa de Ps-Graduao em Psicologia da Universidade Federal do Cear (UFC). Fortaleza. Cear. Brasil.

2 Docente. Programa de Ps-Graduao em Psicologia da Universidade Federal do Cear (UFC). Fortaleza. Cear. Brasil.

3Docente. Programa de Ps-Graduao em Psicologia da Universidade Federal do Cear (UFC). Fortaleza. Cear. Brasil.