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  • 1 de janeiro de 2006 Edio 1

    Correio da Umbanda

    UMBANDA - COMO RESSURGIU Antes de ocuparmo-nos da Anunciao da Umbanda no plano fsico sob a forma de religio, preciso expor sinteticamente um histrico sobre os precedentes religiosos e culturais que precipita-ram o surgimento, na 1 dcada do sculo XX , da nica e genuna Religio Brasileira. Em 1500, quando os portugueses avistaram o que para eles eram as ndias, em realidade Brasil, ao desembarcarem depararam-se com uma terra de belezas deslumbrantes, e j habitada por nativos. A estes aborgenes os lusitanos, por imaginarem estar nas ndias, denominaram de ndios. Os primeiros contatos entre os dois povos foram, na sua maioria, amistosos, pois os nativos identificaram-se com alguns smbolos que os estrangeiros apresentavam. Porm, o tempo e a convi-vncia se encarregaram em mostrar aos habitantes de Pindorama (nome indgena do Brasil) que os homens brancos estavam al por motivos pouco nobres. O relacionamento, at ento pacfico, come-a a se desmoronar como um castelo de areia. So inescrupulosamente escravizados e forados a trabalhar na nvel lavoura. Reagem, resis-tem, e muitos so ceifados de suas vidas em nome da liberdade. Mais tarde, o escravizador faz de-sembarcar na Bahia os primeiros negros escravos que, sob a gide do chicote, so despejados tam-bm na lavoura. Como os ndios, sofreram toda espcie de castigos fsicos e morais, e at a subtra-o da prpria vida. Desta forma, ndios e negros, unidos pela dor, pelo sofrimento e pela nsia de liberdade, de-sencarnavam e encarnavam nas Terras de Santa Cruz. Ora laborando no plano astral, ora como en-carnados, estes espritos lutavam incessantemente para humanizar o corao do homem branco, e fazer com que seus irmos de raa se livrassem do rancor, do dio, e do sofrimento que lhes eram infligidos. De outra parte, a igreja catlica, preocupada com a expanso de seu domnio religioso, inves-te covardemente para eliminar as religiosidades negra e ndia. Muitas comitivas sacerdotais so envi-adas, com o intuito "nobre" de "salvar" a alma dos nativos e dos africanos. Os anos sucedem-se. Em 1889 assinada a "lei urea". O quadro social dos ex-escravos de total misria. So abandonados prpria sorte, sem um programa governamental de insero social. Na parte religiosa seus cultos so quase que direcionados ao mal, a vingana e a desgraa do ho-mem branco, reflexo do perodo escravocrata. No campo astral, os espritos que tinham tido encarnao como ndios, caboclos (mamelucos), cafuzos e negros, no tinham campo de atuao nos agrupamentos religiosos existentes. O catolicis-mo, religio de predominncia, repudiava a comunicao com os mortos, e o espiritismo (kardecismo) estava preocupado apenas em reverenciar e aceitar como nobres as comunicaes de espritos com o rtulo de "doutores". Os Senhores da Luz (Araxs, Orixs), atentos ao cenrio existente, por ordens diretas do Cristo Planetrio (Jesus) estruturaram aquela que seria uma Corrente Astral aberta a todos os espri-tos de boa vontade, que quizessem praticar a caridade, independentemente das origens terrenas de suas encarnaes, e que pudessem dar um freio ao radicalismo religioso existente no Brasil. Comea a se plasmar, sob a forma de religio, a Corrente Astral de Umbanda, com sua hie-rarquia, bases, funes, atributos e finalidades. Enquanto isto, no plano terreno surge, no ano de 1904, o livro Religies do Rio, elaborado por "Joo do Rio", pseudnimo de Paulo Barreto, membro emrito da Academia Brasileira de Letras. No livro, o autor faz um estudo srio e inequvoco das religies e seitas existentes no Rio de Janeiro, -quela poca, capital federal e centro socio-poltico-cultural do Brasil. O escritor, no intuito de levar ao conhecimento da sociedade os vrios segmentos de religiosidade que se desenvolviam no ento Dis-trito Federal, percorreu igrejas, templos, terreiros de bruxaria, macumbas cariocas, sinagogas, entre-vistando pessoas e testemunhando fatos. No obstante tal obra ter sido pautada em profunda pes-

  • Correio da Umbanda - Edio 1 - Janeiro/2006

    quisa, em nenhuma pgina desta respeitosa edio cita-se o vocbulo Umbanda, pois tal terminologia era desconhecida. Escrever sobre Umbanda sem citarmos Zlio Fernandino de Moraes pratica-mente impossvel. Ele, assim como Allan Kardec, foram os intermedirios escolhidos pelos espritos para divulgar a religio aos homens. Zlio Fernandino de Moraes nasceu no dia 10 de abril de 1891, no distrito de Neves, municpio de So Gonalo - Rio de Janeiro. Aos dezessete anos quando estava se preparando para servir as Foras Armadas atravs da Marinha aconteceu um fato curioso: comeou a falar em tom manso e com um sotaque diferente da sua regio, parecendo um senhor com bastante idade. princpio, a famlia achou que houvesse algum distrbio mental e o encaminhou ao seu tio, Dr. Epaminondas de Moraes, mdico psiquiatra e diretor do Hospcio da Vargem Grande. Aps alguns dias de observao e no encontrando os seus sintomas em nenhuma literatura mdica sugeriu fa-mlia que o encaminhassem a um padre para que fosse feito um ritual de exorcismo, pois desconfiava que seu sobrinho estivesse possudo pelo demnio. Procuraram, ento tambm um padre da famlia que aps fazer ritual de exorcismo no conseguiu nenhum resultado. Tempos depois Zlio foi acometido por uma estranha paralisia, para o qual os mdicos no conseguiram encontrar a cura. Passado algum tempo, num ato surpreendente Zlio ergueu-se do seu leito e declarou: "Amanh estarei curado". No dia seguinte comeou a andar como se nada tivesse acontecido. Nenhum mdico soube explicar como se deu a sua recuperao. Sua me, D. Leonor de Moraes, levou Zlio a uma curandeira chamada D. Cndida, figura co-nhecida na regio onde morava e que incorporava o esprito de um preto velho chamado Tio Antnio. Tio Antnio recebeu o rapaz e fazendo as suas rezas lhe disse que possua o fenmeno da mediunida-de e deveria trabalhar com a caridade. O Pai de Zlio de Moraes Sr. Joaquim Fernandino Costa, apesar de no freqentar nenhum centro esprita, j era um adepto do espiritismo, praticante do hbito da leitura de literatura esprita. No dia 15 de novembro de 1908, por sugesto de um amigo de seu pai, Zlio foi levado a Federao Esprita de Niteri. Chegando na Federao e convidados por Jos de Souza, dirigente daquela Instituio senta-ram-se a mesa. Logo em seguida, contrariando as normas do culto realizado, Zlio levantou-se e dis-se que ali faltava uma flor. Foi at o jardim apanhou uma rosa branca e colocou-a no centro da mesa onde realizava-se o trabalho. Tendo-se iniciado uma estranha confuso no local ele incorporou um esprito e simultanea-mente diversos mdiuns presentes apresentaram incorporaes de caboclos e pretos velhos. Foi ento que o jovem Zlio foi novamente dominado por uma fora estranha, que fez com que ele falasse sem saber o que dizia (de acordo com o depoimento do prprio Zlio revista Selees de Umbanda, em 1975). Advertidos pelo dirigente do trabalho a entidade incorporada no rapaz perguntou: "- Porque repelem a presena dos citados espritos, se nem sequer se dignaram a ouvir suas mensagens. Seria por causa de suas origens sociais e da cor?" Aps um vidente ver a luz que o esprito irradiava perguntou: "- Porque o irmo fala nestes termos, pretendendo que a direo aceite a manifestao de es-pritos que, pelo grau de cultura que tiveram quando encarnados, so claramente atrasados? Por que fala deste modo, se estou vendo que me dirijo neste momento a um jesuta e a sua veste branca re-flete uma aura de luz? E qual o seu nome meu irmo?" Ele responde: "- Se julgam atrasados os espritos de pretos e ndios, devo dizer que amanh estarei na casa deste aparelho, para dar incio a um culto em que estes pretos e ndios podero dar sua mensagem e, assim, cumprir a misso que o plano espiritual lhes confiou. Ser uma religio que falar aos humil-des, simbolizando a igualdade que deve existir entre todos os irmos, encarnados e desencarnados. E se querem saber meu nome que seja este: Caboclo das Sete Encruzilhadas, porque no haver cami-nhos fechados para mim." O vidente ainda pergunta: "- Julga o irmo que algum ir assistir a seu culto?"

    UMBANDA - COMO RESSURGIU (Continuao)

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  • Correio da Umbanda - Edio 1 - Janeiro/2006

    Novamente ele responde: "-Colocarei uma condessa em cada colina que atuar como porta-voz, anunciando o culto que amanh iniciarei." Depois de algum tempo todos ficaram sabendo que o jesuta que o mdium verificou pelos res-qucios de sua veste no esprito, em sua ltima encarnao foi o Padre Gabriel Malagrida. Zlio de Morais contou que no dia seguinte, 16 de novembro, ocorreu o seguinte: "Minha famlia estava apavorada. Eu mesmo no sabia o que se passava comigo. Surpreendia-me haver dialogado com aqueles austeros senhores de cabea branca, em volta da mesa onde se pra-ticava um trabalho para mim desconhecido. Como poderia, aos 17 anos, organizar um culto? No en-tanto eu mesmo falara, sem saber o que dizia e porque dizia. Era uma sensao estranha, uma fora superior que me impelia a fazer e a dizer o que nem sequer passava pelo meu pensamento". No dia 16 de novembro de 1908, na rua Floriano Peixoto, 30 Neves So Gonalo RJ, a-proximando-se das 20:00 horas, estavam presentes os membros da Federao Esprita, parentes, a-migos e vizinhos e do lado de fora uma multido de desconhecidos. Pontualmente as 20:00 horas o Caboclo das Sete Encruzilhadas desceu e usando as seguintes palavras iniciou o culto: "-Aqui inicia-se um novo culto em que os espritos de pretos velhos africanos, que haviam sido escravos e que desencarnaram no encontram campo de ao nos remanescentes das seitas negras, j deturpadas e dirigidas quase que exclusivamente para os trabalhos de feitiaria e os ndios nativos da nossa terra, podero trabalhar em benefcios dos seus irmos encarnados, qualquer que seja a cor, raa, credo ou posio social. A prtica da caridade no sentido do amor fraterno, ser a caracte-rstica

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