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Controvrsias em biotecnologias transgnicas: o laboratrio em rede1

Controversies in transgenic biotechnologies: the laboratory-network

Felipe Vargas

Jalcione Almeida

Resumo: As controvrsias sobre Organismos Geneticamente Modificados (OGMs) foram e so um grande tema no pas. O uso de agrotxicos, a produtividade e a preservao ambiental esto dentre os temas mais polmicos. Porm, como o transgnico pauta as direes que tais assuntos ganharam ao longo dos anos? Como este ganha legitimidade diante destes assuntos? Sugere-se que para minima-mente responder esta questo, se faz necessrio ir nos locais de produo deste artefato. Neste artigo, nos detemos nas atividades de pesquisa realizadas em dois laboratrios de biotecnologia, ambos localizados no sul do Brasil. Problematizamos como uma controvrsia pode ser pensada, nestes locais, em termos pragmticos. Trata-se de como um fazer funcionar os objetivos de uma pesquisa se transfere de dentro para fora do laboratrio. Nesta articulao entre dentro e fora, a produo de dois dispositivos de interessamento est intimamente relacionada com a obteno da autonomia relativa dos laboratrios e do argumento tcnico-gentico. Por intermdio de observaes etnogrficas e entrevistas, descrevemos como os laboratrios operam em nveis distintos aquilo que est no interior e no exterior de suas paredes. A partir disto, os situamos no histrico de algumas das controvrsias mais instigantes que tm envolvido o tema nas ltimas duas dcadas. Palavras-chave: Controvrsias; Transgnicos; Dentro e fora; Dispositivos de interessamento; Autonomia relativa. Abstract: The controversies about Genetic Modified Organisms (GMOs) were and still are a big issue in the country. Pesticides application, productivity and environmental issues are among the most controversial subjects. However, how the GMO establishes the ways in wich these subjects are dis-cussed? How it acquires legitimacy in the face of these subjects? Its suggested that the need to face this question drives us to visit the places where this artefact is produced. In this article, we focused in the activities of research taken place in two laboratories, one of plant genetics and one of biotechnolo-gy, both located in the south of Brazil. We discuss how the concept of controversy can be thought of in terms of its pragmatical approach. The central issue is how, in order to make a research work actions and toughts are transferred from the inside to the outside of the laboratory. In this articulation, the production of two interessement dispositifs are deep connected with the achievement of a relative autonomy by the laboratories and the genetic-type argument. We have conducted ethnographic obser-vations and some interviews that abled us to describe the levels in which operations of in and out of the laboratories space are conducted. The aim is to situate the laboratory in the history of some of the most intriguing controversies that took place around GMOs for the two last decades. Key-words: Controversies; Transgenic crops; In and out; Interssement dispositifs; Relative auton-omy 1 Este artigo derivado de pesquisa j concluda (VARGAS, 2017). Publicado na revista Norus Novos Rumos Sociolgicos, vol. 5, n.8, p, 1-30, 2017.

Introduo

Os Organismos Geneticamente Modificados (OGMs) entraram de maneira clandestina

no Brasil h mais de duas dcadas pela fronteira entre o Rio Grande do Sul e a Argentina,

mediante a introduo de novas cultivares de soja resistentes ao herbicida glifosato. Este

artefato biotecnolgico passou, desde ento, a ocupar uma srie de locais da vida cotidiana,

como as lavouras, os centros de pesquisa, o Congresso Nacional, as instncias judicirias e as

mesas dos consumidores. medida em que estes mesmos locais passaram a compor o grande

espao de discusso sobre transgnicos2, novos cenrios, ao mesmo tempo sociais, tcnicos e

polticos se desenharam, e novas questes emergiram. Modificou-se no s a composio dos

grupos que se engajam no tema como o prprio estatuto do organismo transgnico.

Dentre estes locais, de grande interesse sociolgico o laboratrio.

Primeiramente, se faz importante captar a especificidade deste local, posto que ele

pode ser considerado o locus do nascimento tcnico-material de um OGM. partir de uma

relao cientificamente orientada que este espao e seus produtos so entendidos e estendidos

como os agentes mais relevantes nas controvrsias em biotecnologias transgnicas. Ter um

bom laboratrio como parceiro, ter respaldo cientfico, ter acesso a instrumentos e materiais

de ltima gerao indispensvel quando o assunto em pauta legitimar as verdades sobre

transgnicos. Porm, obter tais recursos depende mais do meio social no qual a cincia se faz

do que na falsa ideia de um descobrimento puramente tecnocientfico.

Disto decorre, em segundo lugar, que o modo por meio do qual o laboratrio irriga a

rede de suas conexes muito particular. Ele se apropria de certas lgicas de atuao, as

ressignifica e as insere nos espaos polticos que vo para alm de suas paredes. Laboratrios

e outros espaos se atualizam reciprocamente. Neste sentido, necessrio captar esta

dinmica de maneira anloga ao funcionamento de um rizoma (DELEUZE; GUATTARI,

1980), isto , dando nfase s suas mltiplas conexes no lineares. Porm, nesta dinmica,

sugerimos, o laboratrio especializado em sobrecodificar a realidade concreta. Isso significa

que o recorte pretendido neste artigo no se d pela instituio de uma anlise filtrada por

domnios especficos. Nos detivemos em acompanhar os deslocamentos realizados por este

local em meio disperso de questes tcnicas, ambientais, polticas, econmicas e jurdicas, 2 O discurso cientfico sobre transgnicos pontua, sob esta categoria, uma srie de organismos diferentes, tais como plantas, insetos, bactrias e vrus que, apesar de passarem pelo mesmo processo de transformao gentica, por meio da tcnica do DNA recombinante, guardam entre si uma srie de particularidades. No escopo deste artigo, o termo transgnico, usualmente utilizado para se referir de maneira geral a qualquer destes organismos se dirige unicamente s plantas.

3

e os sentidos que tais questes assumem quando capturadas pela lgica cientfica e experi-

mental.

Com isso e em terceiro lugar, junto ao que prope Karin Knorr-Cetina (1981), este

local se converteu no locus de poder capaz de reformular problemas sociais. No caso das

plantas transgnicas, temas como a fome do mundo, a produtividade agrcola e a sada huma-

na foram alvos de debate. Partimos do entendimento de que para melhor apreender esta rela-

o de poder imprescindvel que o cientista social se insira no interior dos stios onde o tra-

balho biotecnolgico ocorre.

O recorte geogrfico e temporal obedece proeminncia histrica do Rio Grande do

Sul (RS) e do Paran (PR) neste debate3. Desde 1996 estes estados so palco de uma srie de

seminrios, palestras, manifestaes pblicas e experimentos que deram incio discusso,

ampliando rapidamente o alcance do tema a todo pas. Alguns laboratrios nestes estados,

Lab. 01, Lab. 02, Lab. 03, Lab. 04 e Lab. 05 (assim codificados na pesquisa de origem),

ganharam destaque nas ltimas dcadas, precisamente pela iniciativa em pesquisas inovadoras

- muitas das quais em cooperao - e seus resultados na rea da biologia molecular e da

agronomia. A fim de objetivar a presente discusso, apenas dois so tomados como objeto de

anlise, um no RS e outro no PR.4

No Brasil, a pesquisa em biotecnologia, e em especial o laboratrio, foi alvo de traba-

lhos muito pertinentes por parte das cincias sociais (PREMEBIDA, 2008; TRIGUEIRO,

2008; 2009; MARRAS, 2009). Alguns achados e questes destas pesquisas o modo como as

cincias exercem um papel politico no meio social, como estas ganham sua autonomia e qual

a modalidade de funcionamento do laboratrio - influenciam as discusses que seguem. No

mpeto de contribuir com estes estudos, nosso foco se dirige juno analtica entre a singula-

rizao do laboratrio como local de produo do transgnico e a instncia de modulao das

controvrsias que envolvem o OGM.

Sendo assim, iremos explorar os movimentos que o laboratrio realiza ao buscar se

situar em meio s controvrsias em biotecnologias transgnicas no sul do Brasil e como estes

lhe fornecem condies especficas para se inserirem nestas disputas. Especial ateno dada

3 Ainda que hoje, estados como o Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Bahia, So Paulo e Pernambuco estejam ocupando tambm um lugar de destaque na produo de cultivares geneticamente modificados.O RS e o PR foram estados cujos Governos se declararam, poca, em tom severo, zona livre de transgnico. 4 Dentre os cinco laboratrios mencionados esto o de Gentica Vegetal da Universidade do Rio Grande do Sul (UFRGS), o Laboratrio de Biotecnologia da Universidade de Passo Fundo (UPF), o Laboratrio de Biotecnologia da EMBRAPA-Trigo em Passo Fundo/RS, o Laboratrio da EMBRAPA-Soja do Paran e o La-boratrio de Biotecnologia Vegetal do Instituto Agronmico do Paran (IAPAR).

questo do uso dos agrotxicos e suas derivaes em temas como produtividade e

preservao ambiental.

Obviamente que um laboratrio no se mexe fisicamente; no se desloca tal como o

faz uma pessoa de sua casa para o trabalho, por exemplo. Contudo possvel visualizar as

diversas interseces que este ocupa