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CONTROLE SOCIAL E PARTICIPAO POLTICA: DESAFIOS DE ONTEM FILOSOFIA DA EDUCAO (POLTICA) DE HOJE OLIVEIRA, Neiva Afonso UFPel OLIVEIRA, Avelino da Rosa UFPel GT-17: Filosofia da Educao Agncia Financiadora: UFRGS e CNPq

1. Instalando o debate: a participao na mira do Estado

Um dos pilares principais sobre o qual assenta o princpio da liberdade na

sociedade liberal moderna o direito participao poltica dos cidados. Calcado na

representao, o exerccio da cidadania poltica encontra-se atualmente centrado, na

maioria das vezes, em aes relativas ao controle social exercido pelos indivduos em

relao a aes e propostas governamentais. Na acepo em que vem sendo usado o

conceito de controle social, trata-se, primeira vista, de um processo de revitalizao da

sociedade civil resultante, por um lado, da sua mobilizao e, por outro, da progressiva

ineficincia do Estado de Direito para promover melhorias na vida dos cidados.

Se desejamos, no entanto, alcanar uma compreenso que supere o imediato

percebido, preciso que se esclarea, desde logo, o que hoje entendido por controle

social. Em linhas bastante gerais, pode-se afirmar que trs ngulos de enfoque foram

historicamente dados ao problema. O primeiro e mais abrangente a compreenso de

controle social como o conjunto de meios atravs dos quais uma dada sociedade

conforma seus membros s regras estabelecidas (GARELLI, 1994). Tratando mais

especificamente da relao Estado-Sociedade, identificam-se duas outras abordagens

clssicas: a do controle do Estado sobre a sociedade, consectria da poltica hobbesiana,

e a do controle da sociedade sobre o Estado, prpria do liberalismo originrio de John

Locke. Seguindo nesta mesma linha, as anlises marxistas demonstraram que nas

sociedades capitalistas as classes dominantes apropriam-se do Estado que exerce o

controle social atravs de instituies da sociedade civil, no sentido de manter a ordem

e difundir sua ideologia (CORREIA, 2004). Assim, nos processos de luta por

transformao radical do modelo socioeconmico dominante, ganhou-se a compreenso

de que somente as estratgias de resistncia poderiam ser efetivas, enquanto as formas

de participao associada, concedidas por um Estado comprometido com as classes

dominantes, acabariam sempre por reforar a dominao. No entanto, especialmente

Trabalho desenvolvido no Grupo de Pesquisa FEPrxiS (Filosofia, Educao e Prxis Social).

2

aps a promulgao da Constituio de 1988, o termo controle social foi novamente

trazido ordem do dia, na maioria das vezes sem qualquer contextualizao histrica ou

terica, passando a significar a mobilizao da sociedade civil, especialmente atravs de

conselhos institucionalizados, no sentido de implementar os direitos legalizados pela

Constituio.

Destarte, o que imediatamente aparece como avano no processo de participao

democrtica pode ser enganoso. Na verdade, estamos chegando cada vez mais prximos

de uma situao em que o Estado devolve ao cidado aquelas mesmas prerrogativas que

este lhe havia outorgado. Diante de tal constatao, cabem, de imediato, pelo menos as

seguintes questes: estamos, ento, presenciando um novo contrato social? Estaria o

Estado de Direito disposto a compartilhar suas atribuies com a sociedade civil

organizada para, sobre ela, poder exercer um maior controle? A participao

concedida pelo Estado a sada de mo-nica que o cidado pode tomar a fim de

pensar o mundo e fundamentar suas aes? Mais, e por ltimo, o que tem sido feito da

participao de resistncia que cultivamos no Brasil nos anos 1970 e 80, como

estratgia educativa?

O presente texto no pretende responder em definitivo s questes acima, mas

deseja apontar para uma reflexo em torno da temtica base de argumentos da teoria

poltica hegeliana e da pedagogia freiriana, situando, como elementos centrais, o Estado

e a Sociedade Civil.

Durante o final da dcada de 70 e na primeira metade dos anos 80, vivemos, no

Brasil, tempos e espaos que possibilitaram o aumento de atores em cena, o que se deve

ao reaparecimento da democracia (representativa, lenta e gradual), embora convivendo

com injustia e violncia. Tal contexto possibilita a tematizao do passado para a

compreenso das relaes sociais vividas naquela poca, com a particular meta de

buscar indcios e categorias para pensar experincias educativas. Em tais espaos, as

resistncias e os enfrentamentos foram sendo materializados. O mutiro, a

solidariedade, a organizao para a obteno de servios bsicos que o Estado deveria

desde sempre ter oferecido, eram acompanhados por luta pela democratizao do Brasil,

ou seja, no apenas no campo poltico, mas em todas as dimenses da vida, a luta era

por participao da sociedade civil com pleno poder de deciso. Nas lutas citadas, em

meio a decisivo comportamento solidrio entre os moradores de lugares abandonados

pelo Poder Publico, a luta por moradia qualificada, por exemplo, representava condio

3

de reflexo acerca das condies de vida das pessoas do local e, em particular, acerca da

possibilidade de resistncia e de afrontamentos das polticas de opresso e de excluso.

Por isso, o mutiro, por exemplo, foi sendo sinnimo de solidariedade, ao coletiva e

oportunidade para refletir o mundo vivido pelos sujeitos1 participantes. Falamos das

experincias com as quais nos formamos e lutamos a favor de um mundo melhor desde

os anos 70/80. Lembramos os diversos grupos, organizados a partir de projetos eclesiais

ou de movimentos sociais e populares. Recordamos projetos e inseres em trabalhos

de base, desenvolvidos junto s CEBs, Associaes de Bairro e Partido Poltico e

encaminhamentos coletivos. Tambm voltam memria traies, decises individuais e

barganhas geradas na calada da noite, por falsos lderes comunitrios, deixando-nos

sem categorias suficientes para compreender contextos culturais, polticos e econmicos

a partir dos quais lideranas negociavam suas identidades e as identidades dos grupos

que lideravam. Por outro lado, recordamos que havia boa fartura de servios ao bem

comum, produzidos nos movimentos populares, por pessoas comprometidas com a

justia e com a solidariedade, ainda hoje fortemente presentes nas comunidades com as

quais atuamos nos tempos aqui rememorados.

2. Compreendendo o passado com os ps fincados no futuro: pensando

metodologias participativas a servio da relao da filosofia e da educao

Vivemos num pas cuja populao tem sua identidade esfacelada e

multiculturalizada, com aparente equalizao, mas onde brancos tm renda duas vezes e

meio maior que negros. O reconhecimento do multicultural, particularmente para a

institucionalizao de polticas pblicas, no a condio de possibilidade de reunio

de vrias culturas para pensar a constituio da nao, mas, no raro, a instaurao de

novas lutas fratricidas e fragmentadoras a favor da seleo da melhor cultura para que,

enquanto referncia, possa ser tornada hegemnica. A reconstituio de trajetrias

poltico-pedaggicas encharcadas de experincias que cabem, tambm, filosofia da

educao decifrar, vigorosa para pensar prticas de organizao poltica

E foi a partir das experincias aqui refletidas que nos descobrimos, desde os

1 Sujeito, no abstrao, entendido como posto debaixo, que se sujeita vontade de outrem; ou no sentido de ser indivduo que se considera qualificado para a ao. Enganam-se os que afirmam que a noo de sujeito produzida pela modernidade liga-se estreitamente ao sentido guiado to-s pela razo. Da mesma forma, aqui sujeito no entendido como negao ontolgica da autonomia, da capacidade de pensar, falar e produzir. Sujeito aqui tem o sentido de ser social, capaz de aes conscientes: compreenso do mundo e fundamentao das aes que empreende em seu devir histrico.

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anos 70/80, prtica e teoricamente inconformados com as relaes de poder institudas.

Eram manifestaes de indignao que nos levaram a refletir concepes polticas

acerca da impossibilidade da mudana social sem organizao, sem discusso e sem

definio coletiva de normas em cada microrrelao, em cada instncia singular e de

definio de regras, verdades, freqentemente ossificadas inclusive em situaes de

sofrimento e opresso, apostando que o contraditrio, sempre que explicitado,

possibilita a reunio de fragmentos em referncias globais de anlises e instalao de

prticas coletivas.

Nesta meditao, descobrimo-nos pensando a contestao poltica posta nos

ideais da gerao/68, onde houve, sim, uma revoluo, talvez em substituio s

clssicas utopias que at ento amparavam os jogos de resistncia aos regimes polticos

e culturais institudos. Fomos identificando o capitalismo atualizando-se, com seus

apelos ao consumo e s liberdades individuais. Neste panorama, os ideais de sociedade

fraterna pareciam distanciar-se. Embora correta sob o ponto de vista da anlise tica, a

defesa da eliminao das estruturas autoritrias abrigou o esvaziamento de referncias,

decorrente de movimento que no conseguiu impor-se como jeito humano e cultura

poltica de organizao social. A revoluo/68 apresentou novo modo para organizar

relaes sociais, partindo do questionamento radical s normas propostas pelos

aparelhos de Estado, passando s regulamentaes familiares, moral tradicional e aos

tabus.

Nesse contexto, no suficientemente presente em nossas meditaes, cremos ter

atuado, como professores e militantes, com uma gerao que se queria mais permissiva,

reivindicante de valores mais desconectados das instituies que os sustentavam ou

originavam: Igreja, Estado, Escola e Famlia. Essa, no entanto, pode ter sido uma crtica

de conservadores, justamente dos que objetivavam a manuteno de status quo

garantidor de privilgios a privilegiados. uma gerao que, embora crtica, criou

explicaes definitivas quanto impossibilidade da mudana, partindo de anlises

dogmticas das relaes de poder. E, em que resultou essa gerao quanto a valores

fundantes de novas dinmicas sociais? Como foi ser pai, me, filho, poltico, no

momento histrico anunciado, que sofria conseqncias de ditaduras de direita e de

esquerda? Em que medida tal movimento influenciou as pessoas com as quais atuamos

nos anos 70/80, por exemplo? Qual o poder formativo que se constituiu pelo modelo

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participativo no perodo citado?

Num mundo assim organizado, buscvamos a verdade2, sem poder expressar a

liberdade que Raul Seixas3 cantava, bem representando o momento onde tem origem o

prprio dilema das instituies e da autoridade. Esse o contexto em que conflitos

polticos e de gerao afloram e instauram cenrios a partir dos quais relaes so

revisadas. No de pronto, percebemos que a verdade pode estar na ganga, no erro, no

excludo, no educando, na dimenso que o outro desvela, ao reconhecer que cada

sistema deixa um resduo, que lhe escapa, que lhe resiste, e de onde pode partir uma

resistncia efetiva (prtica) (LEFEBVRE, 1967, p.373). No tempo aqui analisado,

buscvamos (...) detectar os resduos - nles apostar - mostrar nles a preciosa

essncia - reuni-los - organizar suas revoltas e totaliz-los (id, p.375).

Lembrando Marx (1986, Tese III), combatendo posies de Feuerbach, a histria

dos processos de participao nos anos citados est marcada por decises, tomadas em

conjunto com homens e mulheres que faziam parte da existncia e da formao. Era

forte a opo pela intersubjetividade, como na afirmao de Fiori: passei a pensar o

mundo como , um mundo da conscincia, ou a conscincia como conscincia do

mundo. Eu vi que h uma fonte de constituio deste mundo, que no a minha

subjetividade, nem a sua subjetividade, a intersubjetividade, tornando o homem

humano na justa medida de sua capacidade de se intersubjetivar no reconhecimento

das conscincias. A conscincia, isolada em si mesma, no tem quem a reconhea e

s na mediao do reconhecimento que ela se afirma e se faz e se configura como

conscincia humana (FIORI, 1987, p.45).

Diante desse tempo presente, marcado por concesses do Estado ao cidado

(consumidor de direitos e bens, no mais que ddiva caridosa feita aos pobres), a

pergunta pela origem dos gestos solidrios nos processos de resistncia. Muitas das

pessoas com as quais convivamos, enraizadas na cultura rural, traziam consigo

experincias de profundo vnculo solidrio com vizinhos. Ao chegarem cidade,

entretanto, essa conduta vai sendo progressivamente anulada por comportamentos

2 A verdade formal, no perodo citado, posta sob suspeita enquanto possibilidade nica de descobrir e organizar o mundo. 3A letra da msica de Seixas, intitulada Sapato 36, diz: eu calo 37. Meu pai me d 36. Di, mas no dia seguinte eu aperto o meu p outra vez. Pai eu j t crescidinho. (...) j t indo embora. Quero partir sem brigar. J escolhi meu sapato, que no vai mais me apertar (...). Raul Seixas foi um pensador que, como ele mesmo refletia, no conseguia suportar a realidade. Como poucos, soube o sentido do sonho, aquele que sonhado sozinho apenas um sonho, sonhado juntos realidade, quando um mais um mais que dois.

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ensimesmados e a participao ganha novo formato. Mas as aes coletivas que as

organizaes comunitrias passaram a proporcionar, pela participao nos movimentos

reivindicatrios, possibilitaram um retorno s prticas de solidariedade que j haviam

vivenciado: as pessoas voltam a se ajudar; enfrentam as dificuldades juntos; com o

mutiro a gente ajudava a quem precisava e discutia os problemas da comunidade e

rezava todo mundo junto; acho que o pessoal que participou dos projetos da Igreja e

dos mutires at poltica at hoje discute. So falas que pem a exigncia de

compreenso dos citados movimentos. Ou seja, as pessoas, reconhecendo a importncia

do trabalho solidrio e coletivo em suas vidas, falam que hoje tem pouca discusso

conjunta, lamentando interrupes e, mais, apontando para a instalao de mecanismos

de controle estatal que se instituem na medida em que a cultura do direito e da

dobra migalha vai retirando as pessoas dos movimentos de resistncia e

disponibilizando grande parcela da sociedade ao controle exercido pelo Estado atravs

de servios, embora precrios e parciais.

3. Controle social e participao poltica refletindo com a teoria hegeliana.

Para Hegel (com quem vamos tentar discutir os tempos aqui retomados), no h

sociedade civil4, se no existir um Estado que a construa, que a componha e integre suas

partes; no existe povo, no existindo Estado, pois o Estado que funda o povo e no o

contrrio, como preconizava o contratualista clssico, Jean-Jacques Rousseau, terico

por excelncia da democracia participativa.5 Em outras palavras, o que Hegel defende

seria o oposto da concepo rousseauniana, segundo a qual a soberania pertence ao

povo que a exprime no Estado. Diferentemente, Hegel afirma ... que el estado es la

voluntad perfectamente soberana que se determina a s misma, y que a l le compete la

decisin ltima .... (HEGEL, 1988, 279, p.367) Assim, na teoria poltica hegeliana, o

Estado funda o povo e a soberania do Estado; portanto, a sociedade civil incorporada

pelo Estado e, de certa forma, nele est contida. Estado e sociedade civil so distintos

4 Hegel toma por emprstimo a noo de sociedade civil do ingls Ferguson, autor de Ensaio sobre a histria da sociedade civil (publicado em Londres, em 1766). Tomando a expresso original civil society, Hegel a expressa como brgerlische Gesellschaft, isto , sociedade burguesa. De fato, a expresso sociedade burguesa assumiu no uso corrente, depois de Marx, uma significao predominantemente histrica, que serve para designar o tipo de sociedade caracterstica de uma poca, aquela em que a burguesia a classe dominante. 5 Este tema est desenvolvido em mais detalhes por Neiva A. Oliveira em Rousseau e Rawls: contrato em duas vias, principalmente na Primeira Parte. Ver tambm Carole Pateman, Participao e teoria democrtica.

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to-somente como conceitos, pois o filsofo tem uma concepo organicista do Estado

(este, um organismo que abrange tudo). De acordo com Hegel, o Estado tico na

medida em que concretiza e garante o princpio das liberdades individuais, a

inviolabilidade da pessoa e da iniciativa privada.

Frente a las esferas del derecho y el bienestar privados, de la

familia y la sociedad civil, el estado es, por una parte, una

necesidad exterior y el poder superior a cuya naturaleza se

subordinan las leyes y los intereses de aquellas esferas, y de la

cual dependen. Pero, por otra parte, es su fin inmanente y tiene

su fuerza en la unidad de su fin ltimo universal y el inters

particular de los individuos, lo que muestra en el hecho de que

stos tienen deberes frente al estado en la medida en que tienen

derechos (155). (HEGEL, 1988, 261, p.326)

Tomando por base a posio hegeliana em relao existncia e contedo do

Estado, devemos fazer a indagao quanto ao incentivo dado pelo Estado Liberal

contemporneo s instncias de repartio do poder. Pretende este poder reforar a

sociedade civil ou se reveste de uma forma de controle e aniquilamento da sociedade

organizada? Em outros termos, a viso que temos hoje de controle social traduz

realmente a iniciativa da sociedade (dos cidados) de colocar-se como co-participante

da gesto governamental ou est a sociedade civil caindo na armadilha liberal e

simplesmente ratificando uma situao de irresponsabilidade crescente dos

governantes? Nesta linha de indagao, est tambm a preocupao de Nogueira (1999):

Toda essa movimentao traz consigo um conjunto de questes

e indagaes a respeito do Estado e da sociedade civil,

condicionando, em boa medida, a discusso a respeito dos

projetos de reforma e redesenho do Estado. Que papis e

atribuies devem ser reservados ao Estado no novo quadro

histrico-social que se anuncia? Como deve ele ser estruturado,

sobretudo quando visto em sua face mais imediatamente

governamental e administrativa? Que lugar deve ocupar a

sociedade civil na reorganizao das sociedades

contemporneas, na formatao dos modos de convivncia e nas

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funes de governo e gesto? Mas a respeito de qual sociedade

civil devemos nos interrogar? De um espao para a explicitao

de subjetividades polticas ou de um espao para a afirmao de

interesses pouco comunicantes, egostas e corporativos? (p.76)

Para que no corramos o risco de desenhar simploriamente uma perspectiva de

sociedade civil completamente atrelada a ideais burocrticos e egostas de um Estado

liberal de Direito que no contempla a satisfao da materialidade das relaes sociais,

necessrio ter presente a prpria concepo de Estado liberal e prever tambm processos

de capacitao de nossa cidadania. Precisamos estar atentos para o fato de que a

participao associada, colaborativa, e no de resistncia, como tipicamente vem

ocorrendo nos Estados liberais, sob o rtulo de controle social, est mais diretamente

ligada desresponsabilizao do Estado em termos de distribuio de polticas pblicas

do que a um possvel compartilhamento do poder. E a sociedade civil, enquanto

instncia despolitizada, acaba por cumprir um rol de atividades submissas vontade

solitria do Estado, tendendo a submeter-se lgica liberal de respeito s liberdades

civis, sem uma viso crtica a respeito do que isso possa representar em termos de no

atendimento das necessidades bsicas de populaes inteiras. Em outras palavras, o que

visto como um avano em termos de participao poltica dos cidados (controle

social), acaba por tornar-se um atrelamento a um Estado comprometido com o

desenvolvimento individual e com as regras do mercado.

Atendo-nos aqui sistemtica hegeliana de compreenso do existir do Estado e

da sociedade civil, dizemos que h mbitos especficos de atuao de cada uma destas

duas instncias. A falta de comprometimento do Estado com as polticas que so da sua

competncia e a conseqente devoluo sociedade civil das atribuies que esta lhe

outorgou nada tem a ver, ento, com a vontade poltica deste mesmo Estado de delegar

poderes decisrios sociedade civil em questes relativas a programas, recursos, etc.

Pelo contrrio, trata-se de estratgia ligada ao rearranjo neoliberal que permanece

indiferente justia material, contemplando unicamente o resguardo do princpio da

liberdade individual que, no Estado, vem a ser universal. A Filosofia do Direito de

Hegel assim ensina: El estado es la realidad efectiva de la libertad concreta. Por su

parte, la libertad concreta consiste en que la individualidad personal y sus intereses

particulares, por un lado, tengan su total desarrollo y el reconocimiento de su derecho

, y por otro se conviertan por si mismos en inters de lo universal, al que reconozcan

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con su saber y su voluntad como su propio espritu sustancial y tomen como fin ltimo

de su actividad. (HEGEL, 1986, 260, p.325) O direito liberal, portanto, a fim de

garantir a elevao da liberdade individual condio de princpio universal, paga o

preo de ter que abstrair as condies materiais das relaes sociais. Ao esgotar a

compreenso de cidadania no igual tratamento perante a lei, inviabiliza a observncia da

possibilidade de tratar os desiguais ou excludos do modelo liberal. E, de outra sorte,

por estar calcado em princpio garantidor das liberdades individuais, deve ser o guardio

destas mesmas liberdades, as quais levam ao desenvolvimento pleno de habilidades

individuais. No dizer de Flickinger (1998),

... o princpio da legalidade do agir poltico no confere uma

base satisfatria, capaz de legitimar materialmente o agir do

Estado; e, inversamente, a legitimidade material, enraizada no

ideal de justia social, no consegue respeitar o espao legal do

agir dos indivduos que nele buscam o direito de realizar seus

interesses subjetivos. (p.61)

A lgica de flexibilizao do Estado liberal moderno contm a proposta de

maior participao da sociedade civil, atravs de polticas relativas ao controle social,

consectrio irreal de uma proposta de autntica autonomia da sociedade civil. Em outras

palavras, o que a sociedade civil dispe hoje como possibilidade de participao est

atrelada ao consentimento do Estado liberal de direito, que se traduz em concesses de

parcerias com a sociedade civil, cujo embate hodiernamente travado em relao

lgica do mercado. Assim, podemos afirmar que a sociedade civil organizada encontra-

se diante de um caminho ambivalente que se traduz em questionar a agenda liberal de

defesa das liberdades individuais ou adequar-se a uma estrutura de individualismo

possessivo6. A questo que se coloca a seguinte: quais as circunstncias para que as

pessoas participem das regras de mercado? Torna-se fundamental salientar que o

mercado globalizado se restringe queles que controlam o prprio mercado.7

6 Trata-se de uma expresso utilizada pelo socilogo canadense Crawford Brough Macpherson ao tratar, em sua obra A Teoria Poltica do Individualismo Possessivo, do proprietrio individual que se define por essa vocao de defender o bem que propriamente lhe pertence. 7 Segundo o relatrio da ONU-1999, a quinta parte da populao mundial que vive nos pases de maior renda detm 86% dos mercados de exportaes mundiais, 68% do investimento direto estrangeiro e 74% das linhas telefnicas; a quinta parte da populao que vive nos pases mais pobres detm cerca de 1% de

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A idia de controle social s tem sentido a partir da disjuno entre sociedade

civil e estado. Quando esta relao era ainda de parceria, era impensvel qualquer

controle. S mais tarde, quando a sociedade civil passa a ver no Estado o vilo que no

encaminha o atendimento de suas necessidades, surge uma relao dicotmica do tipo

amigo-inimigo. S ento comea a constituir-se o conceito de controle social. Por fim,

este acaba por ser institucionalizado, no caso do Brasil, pela Constituio de 1988,

completando uma trajetria que vai da parceria para o confronto e, finalmente, para a

incorporao no aparato jurdico do Estado.

A constatao da existncia de disputas de poder (presentes tanto nos governos

como nas instituies sociais) leva, por um lado, em direo a uma sada moralista para

a crise, atravs da adoo de metas filantrpicas e de assistncia; ou conduz, por outro

lado, a um caminho mais trabalhoso e suscetvel de embates, apontando para um

horizonte de questionamento do espao poltico a ser ocupado pela sociedade civil, que

se traduziria em resistir conformidade de movimentar-se unicamente no interior dos

espaos concedidos.

4. Da experincia da participao-resistncia esperana: desafios educao

Do exposto, pensamos ser necessrio avanar na sistematizao de experincias

de solidariedade que as pessoas so capazes de praticar, destacando a importncia

educativa da efetiva participao. Se a vida reduz-se competio, luta, destruio

dos mais fracos pelos mais fortes e se o motor da histria to-s a luta de uns contra

outros, onde fica o mistrio da gratuidade e do vigor dos movimentos de participao

popular? Estaria, a humanidade, vivendo uma fase de degenerescncia humana?

Advogar a favor da importncia de operar valores como a solidariedade, praticada por

tantas pessoas que nos anos 70/80 participavam de Movimentos Sociais e Organizao

Popular, no preocupao metafsica de filsofos, santos ou profetas. Convm lembrar

que a resistncia solidria est presente em cientistas que, por exemplo, pesquisando a

evoluo, contestam o darwinismo biolgico e social, mostrando a dimenso da vida

gerada por complexas simbioses. Andreola fala na capacidade revolucionria de grupos

e redes de solidariedade no Chile, por ocasio da ditadura militar. Eram grupos que

acolhiam pessoas desempregadas e perseguidas. Refeies eram dispostas s pessoas

cada um desses. (Apud BATISTA, 1999, p.78)

11

sofridas, organizando-se anis de apoio s necessidades humanas bsicas: o regime

autoritrio no chegou a dar-se conta do processo de conscientizao (...) que estava

acontecendo, nesses grupos de solidariedade. Por isso foi pego de surpresa no

plebiscito em que imaginava consolidar o autoritarismo (1997, p.64). Agentes de

mediao propiciaram condies para que pessoas se juntassem e discutissem poltica,

debates sempre entremeados por relaes pessoais, objetivando formao de cadeias de

conscientizao-ao, visando mudanas sociais. Paulo Freire, diferentemente da crena

hegeliana no poder libertador do Estado, aposta nas pessoas e em sua capacidade

organizativa para resistir cultura de adeso e subservincia ao Estado,

contemporaneamente materializadas em diversas polticas de controle social. Por isso,

Freire referncia para pensar tais processos, lembrando que, se verdade que, sem

liderana, sem disciplina (...), sem objetivos (...) e contas a prestar, no h organizao

e, sem esta, se dilui a ao revolucionria, nada justifica o manejo das massas

populares, a sua coisificao (1982, p.209-10).

As reflexes aqui trazidas e produzidas, a partir e com as pessoas com que

solidariamente estivemos envolvidos em projetos de participao popular nos anos

70/80, remetem-nos a dimenses de vida singulares e ricas em significaes, produzidas

l onde acontece o tempo fundante (FREIRE, 1997), categoria esta a ser pensada no

em funo do fechado cronograma da produo moderna, mas dos ciclos de produo e

reproduo da vida, revitalizado pela organizao e pela participao pelos caminhos da

resistncia, mais do que pela briga individualista por um lugar ao sol.

Sobra, qui, o tempo das indagaes acerca da possibilidade da unificao dos

mltiplos, como lembra Fiori, questionando seu professor de Filosofia, j no

secundrio: neste dilogo, eu perguntava ao mestre como se poderia explicar a

unificao dos mltiplos para que eles no fossem um multiverso, mas constitussem um

universo (1987, p.34). Poderamos, com Fiori, refletir o sentido da histria que faziam

aquelas pessoas: (...) se h sentidos, deve haver um sentido universal da histria. Por

que, se o contexto no fosse significante (...), como que fragmentos da histria, que

ns fazemos, poderiam ter sentido? Seria (...) pensar o absurdo que ns, no no-sentido

da histria, ainda encontrssemos um sentido para o nosso projeto (id, p.50).

Descrever e representar o mundo passou a ser condio de possibilidade que a estrutura

da conscincia permitia-nos, nessa bela aventura fenomenolgica com a qual pudemos

avanar no desvelamento do mundo em que vivamos e na explorao do desconhecido.

Relembrando as pessoas com as quais trabalhvamos, recordamos que so parte

12

da cultura do silncio, do sofrimento, de perdas e aprendizados. No desejamos, porm,

transformar aquele cenrio em quadro de cultura vitimizada ou masoquista, mas de

resistncia e participao em lutas pela sobrevivncia e por espaos culturais. certo

que se tratava de pessoas que eram constantemente reduzidas, expostas ao silncio, ou

submetidos fala de quem detm o poder da fala, da definio de normas

comportamentais e constituio de valores que servem de parmetros para refletir a

vida. Mas constituam-se como seres humanos em inteira dignidade, a partir das lutas

solidrias por espaos de participao de resistncia ao modelo social vigente.

Enfim, as memrias que recuperamos nesta reflexo reavivam a certeza de que,

nos processos de educao dos nossos tempos, precisamos ter muita cautela antes de,

precipitadamente, dar por anacrnicos certos conceitos e procedimentos e, s pressas,

substitu-los por outros mais em voga. Neste sentido, a filosofia da educao, enquanto

saber independente, pode fornecer ferramentas de elucidao conceitual para pensar a

problemtica da poltica e dos graus de envolvimento entre questes como participao

poltica, controle social, estado e cidadania. Por isso, cabe dizer que a filosofia da

educao no est vinculada somente razo instrumental ou razo comunicativa

liberal, mas tem como sua produtora a razo enquanto dimenso humana que escolhe

fins e que, portanto, estabelece e resgata parmetros filosficos, a partir de pensadores

clssicos e contemporneos. Uma tal tarefa da filosofia da educao pode ser o

elemento que nos auxilia no discernimento e na compreenso de momentos polticos

diversos e divergentes, como esses que buscamos resgatar em nosso texto.

Referncias:

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