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CONTROLE SOCIAL E PARTICIPAO POLTICA: DESAFIOS DE ONTEM FILOSOFIA DA EDUCAO (POLTICA) DE HOJE OLIVEIRA, Neiva Afonso UFPel OLIVEIRA, Avelino da Rosa UFPel GT-17: Filosofia da Educao Agncia Financiadora: UFRGS e CNPq

1. Instalando o debate: a participao na mira do Estado

Um dos pilares principais sobre o qual assenta o princpio da liberdade na

sociedade liberal moderna o direito participao poltica dos cidados. Calcado na

representao, o exerccio da cidadania poltica encontra-se atualmente centrado, na

maioria das vezes, em aes relativas ao controle social exercido pelos indivduos em

relao a aes e propostas governamentais. Na acepo em que vem sendo usado o

conceito de controle social, trata-se, primeira vista, de um processo de revitalizao da

sociedade civil resultante, por um lado, da sua mobilizao e, por outro, da progressiva

ineficincia do Estado de Direito para promover melhorias na vida dos cidados.

Se desejamos, no entanto, alcanar uma compreenso que supere o imediato

percebido, preciso que se esclarea, desde logo, o que hoje entendido por controle

social. Em linhas bastante gerais, pode-se afirmar que trs ngulos de enfoque foram

historicamente dados ao problema. O primeiro e mais abrangente a compreenso de

controle social como o conjunto de meios atravs dos quais uma dada sociedade

conforma seus membros s regras estabelecidas (GARELLI, 1994). Tratando mais

especificamente da relao Estado-Sociedade, identificam-se duas outras abordagens

clssicas: a do controle do Estado sobre a sociedade, consectria da poltica hobbesiana,

e a do controle da sociedade sobre o Estado, prpria do liberalismo originrio de John

Locke. Seguindo nesta mesma linha, as anlises marxistas demonstraram que nas

sociedades capitalistas as classes dominantes apropriam-se do Estado que exerce o

controle social atravs de instituies da sociedade civil, no sentido de manter a ordem

e difundir sua ideologia (CORREIA, 2004). Assim, nos processos de luta por

transformao radical do modelo socioeconmico dominante, ganhou-se a compreenso

de que somente as estratgias de resistncia poderiam ser efetivas, enquanto as formas

de participao associada, concedidas por um Estado comprometido com as classes

dominantes, acabariam sempre por reforar a dominao. No entanto, especialmente

Trabalho desenvolvido no Grupo de Pesquisa FEPrxiS (Filosofia, Educao e Prxis Social).

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aps a promulgao da Constituio de 1988, o termo controle social foi novamente

trazido ordem do dia, na maioria das vezes sem qualquer contextualizao histrica ou

terica, passando a significar a mobilizao da sociedade civil, especialmente atravs de

conselhos institucionalizados, no sentido de implementar os direitos legalizados pela

Constituio.

Destarte, o que imediatamente aparece como avano no processo de participao

democrtica pode ser enganoso. Na verdade, estamos chegando cada vez mais prximos

de uma situao em que o Estado devolve ao cidado aquelas mesmas prerrogativas que

este lhe havia outorgado. Diante de tal constatao, cabem, de imediato, pelo menos as

seguintes questes: estamos, ento, presenciando um novo contrato social? Estaria o

Estado de Direito disposto a compartilhar suas atribuies com a sociedade civil

organizada para, sobre ela, poder exercer um maior controle? A participao

concedida pelo Estado a sada de mo-nica que o cidado pode tomar a fim de

pensar o mundo e fundamentar suas aes? Mais, e por ltimo, o que tem sido feito da

participao de resistncia que cultivamos no Brasil nos anos 1970 e 80, como

estratgia educativa?

O presente texto no pretende responder em definitivo s questes acima, mas

deseja apontar para uma reflexo em torno da temtica base de argumentos da teoria

poltica hegeliana e da pedagogia freiriana, situando, como elementos centrais, o Estado

e a Sociedade Civil.

Durante o final da dcada de 70 e na primeira metade dos anos 80, vivemos, no

Brasil, tempos e espaos que possibilitaram o aumento de atores em cena, o que se deve

ao reaparecimento da democracia (representativa, lenta e gradual), embora convivendo

com injustia e violncia. Tal contexto possibilita a tematizao do passado para a

compreenso das relaes sociais vividas naquela poca, com a particular meta de

buscar indcios e categorias para pensar experincias educativas. Em tais espaos, as

resistncias e os enfrentamentos foram sendo materializados. O mutiro, a

solidariedade, a organizao para a obteno de servios bsicos que o Estado deveria

desde sempre ter oferecido, eram acompanhados por luta pela democratizao do Brasil,

ou seja, no apenas no campo poltico, mas em todas as dimenses da vida, a luta era

por participao da sociedade civil com pleno poder de deciso. Nas lutas citadas, em

meio a decisivo comportamento solidrio entre os moradores de lugares abandonados

pelo Poder Publico, a luta por moradia qualificada, por exemplo, representava condio

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de reflexo acerca das condies de vida das pessoas do local e, em particular, acerca da

possibilidade de resistncia e de afrontamentos das polticas de opresso e de excluso.

Por isso, o mutiro, por exemplo, foi sendo sinnimo de solidariedade, ao coletiva e

oportunidade para refletir o mundo vivido pelos sujeitos1 participantes. Falamos das

experincias com as quais nos formamos e lutamos a favor de um mundo melhor desde

os anos 70/80. Lembramos os diversos grupos, organizados a partir de projetos eclesiais

ou de movimentos sociais e populares. Recordamos projetos e inseres em trabalhos

de base, desenvolvidos junto s CEBs, Associaes de Bairro e Partido Poltico e

encaminhamentos coletivos. Tambm voltam memria traies, decises individuais e

barganhas geradas na calada da noite, por falsos lderes comunitrios, deixando-nos

sem categorias suficientes para compreender contextos culturais, polticos e econmicos

a partir dos quais lideranas negociavam suas identidades e as identidades dos grupos

que lideravam. Por outro lado, recordamos que havia boa fartura de servios ao bem

comum, produzidos nos movimentos populares, por pessoas comprometidas com a

justia e com a solidariedade, ainda hoje fortemente presentes nas comunidades com as

quais atuamos nos tempos aqui rememorados.

2. Compreendendo o passado com os ps fincados no futuro: pensando

metodologias participativas a servio da relao da filosofia e da educao

Vivemos num pas cuja populao tem sua identidade esfacelada e

multiculturalizada, com aparente equalizao, mas onde brancos tm renda duas vezes e

meio maior que negros. O reconhecimento do multicultural, particularmente para a

institucionalizao de polticas pblicas, no a condio de possibilidade de reunio

de vrias culturas para pensar a constituio da nao, mas, no raro, a instaurao de

novas lutas fratricidas e fragmentadoras a favor da seleo da melhor cultura para que,

enquanto referncia, possa ser tornada hegemnica. A reconstituio de trajetrias

poltico-pedaggicas encharcadas de experincias que cabem, tambm, filosofia da

educao decifrar, vigorosa para pensar prticas de organizao poltica

E foi a partir das experincias aqui refletidas que nos descobrimos, desde os

1 Sujeito, no abstrao, entendido como posto debaixo, que se sujeita vontade de outrem; ou no sentido de ser indivduo que se considera qualificado para a ao. Enganam-se os que afirmam que a noo de sujeito produzida pela modernidade liga-se estreitamente ao sentido guiado to-s pela razo. Da mesma forma, aqui sujeito no entendido como negao ontolgica da autonomia, da capacidade de pensar, falar e produzir. Sujeito aqui tem o sentido de ser social, capaz de aes conscientes: compreenso do mundo e fundamentao das aes que empreende em seu devir histrico.

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anos 70/80, prtica e teoricamente inconformados com as relaes de poder institudas.

Eram manifestaes de indignao que nos levaram a refletir concepes polticas

acerca da impossibilidade da mudana social sem organizao, sem discusso e sem

definio coletiva de normas em cada microrrelao, em cada instncia singular e de

definio de regras, verdades, freqentemente ossificadas inclusive em situaes de

sofrimento e opresso, apostando que o contraditrio, sempre que explicitado,

possibilita a reunio de fragmentos em referncias globais de anlises e instalao de

prticas coletivas.

Nesta meditao, descobrimo-nos pensando a contestao poltica posta nos

ideais da gerao/68, onde houve, sim, uma revoluo, talvez em substituio s

clssicas utopias que at ento amparavam os jogos de resistncia aos regimes polticos

e culturais institudos. Fomos identificando o capitalismo atualizando-se, com seus

apelos ao consumo e s liberdades individuais. Neste panorama, os ideais de sociedade

fraterna pareciam distanciar-se. Embora correta sob o ponto de vista da anlise tica, a

defesa da eliminao das estruturas autoritrias abrigou o esvaziamento de referncias,

decorrente de movimento que no conseguiu impor-se como jeito humano e cultura

poltica de organizao social. A revoluo/68 apresentou novo modo para organizar

relaes sociais, partindo do questionamento radical s normas propostas pelos

aparelhos de Estado, pas

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