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  • Cena em Movimento - Edio n 1 SILVEIRA, Juliana Carvalho Franco da 1

    CONTEXTUALIZAO DA DANA-TEATRO DE PINA BAUSCH

    Juliana Carvalho Franco da Silveira1

    Resumo: Este artigo apresenta uma reviso da histria da dana-teatro, tendo como foco principal sua articulao com a linguagem desenvolvida por Pina Bausch. Este estudo no ir abranger toda a histria da dana-teatro, mas, ao invs disso, ir aproximar o trabalho da diretora alem da teoria e da prtica da dana-teatro. Para isso, sero prioritariamente estudadas questes que dizem respeito ao treinamento dos bailarinos e ao processo de criao na dana-teatro. A linguagem da dana-teatro (Tanztheater) surgiu no mbito da dana moderna alem, que lanava novas bases para a arte da dana no incio do sculo XX. Rudolf von Laban (1879 1958) considerado o pai da dana moderna na Europa. Foi a partir do seu amplo estudo sobre o movimento humano e dos trabalhos de Kurt Jooss (1901 1979), seu discpulo, que o novo gnero dana-teatro surgiu na dcada de 1920. Portanto, sero observadas as transformaes realizadas pela dana moderna, para que se possa situar o contexto do surgimento da dana-teatro.

    Palavras-chave: Dramaturgia; Pina Bausch; Dana-teatro

    Abstract: This article presents review of the history of dance-theater, focused on its articulation with the language developed by Pina Bausch. This reserch makes a connection between the theory and practice of dance-theater and the choices made by German director in the dramaturgical construction of her pieces. Therefore, the questions related to the training and to the creative process of dance-theater will be prioritarily studied. This reserch justifies itself by showing the paths that transformed dance-theater in an independent form of expression that expanded the borders of dance and theater in the XX.

    Key-Words: Dramaturgy; Pina Bausch; Dance-Theater

    ________________________________________

    1. Surgimento da dana moderna na Europa

    De acordo com Garaudy (1980), o incio do sculo XX revelou, com fora

    crescente, o fracasso do modo de vida individualista e a necessidade de

    encontrar formas de vida mais solidrias e com um compromisso maior com a

    comunidade. Esta foi uma poca de forte e crescente industrializao e

    mecanizao do trabalho e da vida. Em nenhum outro momento histrico

    anterior, os artistas tinham se sentido to dissociados da sociedade em que

    viviam. A dana moderna era uma forma de arte que buscava participar da

    1 Mestre em Artes pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais

    UFMG. Bacharel e Licenciada em Filosofia pela UFMG.

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    humanizao da vida, reagindo contra a mecanizao dos processos

    produtivos e das relaes sociais. Isto levou os pioneiros da dana moderna a

    buscar recuperar a relao do homem com seu prprio corpo e de seu corpo

    com o mundo.

    A dana moderna questionava os ideais da dana clssica, na qual os

    elementos visuais e o virtuosismo eram mais importantes que os elementos

    simblicos. A dana clssica era criticada por ser uma forma de arte altamente

    formalizada e distante da realidade do mundo. As noes de nobreza,

    grandeza e virtuosismo eram os valores cultivados, dentro de uma esttica

    visual que procurava a beleza fsica atravs de uma tcnica de refinada

    dificuldade. De acordo com Garaudy

    Ao contrrio do bal clssico, onde os passos e seus encadeamentos obedeciam a uma ordem pr-estabelecida, a dana moderna procurou compor a forma do movimento como expresso de um significado interno. Contra o exclusivo virtuosismo mecnico das pernas, ps o corpo todo para trabalhar, privilegiando, em lugar dos membros, perifricos, o centro gerador de todo o movimento, o tronco (GARAUDY, 1980, p. 48).

    O final do sculo XIX e o incio do sculo XX representaram para a

    Europa fortes mudanas no pensamento e nas artes. Este foi um perodo de

    intensa experimentao nas artes e do surgimento de importantes teorias em

    outras reas. De acordo com Garaudy (1980), nas Artes Visuais, os Cubistas

    deixavam de recorrer s convenes de perspectiva do Renascimento, que

    determinavam um centro nico de referncia, como se o mundo fosse visto por

    um s olho, imvel. O cubismo mostrava a existncia de vrias perspectivas

    diferentes e de ngulos de viso diferentes, nos fazendo tomar conscincia de

    que o olhar um ato e que o mundo real um mundo construdo e que,

    portanto, outros mundos so possveis e somos responsveis pelo seu

    advento. O cubismo revela, ento, que a realidade no est dada, uma

    inveno. Ainda segundo Garaudy (1980), a teoria da Relatividade de Einstein

    estabelecia que os postulados espaciais de Euclides e Newton eram vlidos

    para uma experincia na nossa escala, mas que no nvel dos tomos ou das

    galxias, deixavam de ser operacionais, mostrando, a relatividade do espao e

    do tempo. Antigos dogmas eram postos em questo nas artes, nas cincias,

    nas sociedades e nas religies, por isso, as artes tiveram que descobrir novas

    maneiras de expressar as necessidades e sentimentos de sua prpria poca.

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    A dana moderna buscou novos mtodos de criao artstica. Procurava

    mtodos que dessem ao corpo meios para exprimir novas experincias de vida.

    De acordo com Maribel Portinari,

    Tomando por base a liberdade expressiva do corpo, a dana moderna refletiu o momento histrico que a gerou: a de um mundo governado por mquinas, no qual o ser humano se debate em busca de novas relaes consigo mesmo e com a sociedade (PORTINARI, 1989, p. 133).

    Alm de buscar uma conexo da arte com o seu contexto histrico, a

    dana moderna buscou valorizar a criatividade e a liberdade dos indivduos,

    explorando diferentes formas de expresso e valorizando a experimentao e a

    observao como metodologia de pesquisa de uma nova maneira de se

    movimentar.

    Portinari (1989) e Boucier (1987) consideram o francs Franois

    Delsarte e o suo Jaques-Dalcroze como precursores da dana moderna na

    Europa, por lanarem alguns dos fundamentos importantes, que mais tarde

    seriam incorporados pelos pioneiros da dana moderna. De acordo com

    Boucier (1987), Delsarte concentrou sua reflexo nos mecanismos pelos quais

    o corpo traduz os estados sensveis interiores. Cantor na Opra Comique,

    perdeu a voz aos 23 anos. Acreditava que seus mestres tinham sido os

    responsveis pelo seu problema na voz, pois considerava que o mtodo de

    ensino que eles utilizavam era arbitrrio e que se baseava em tradies cegas

    e no na observao do aluno e na reflexo. De acordo com Portinari (1989),

    depois de perder a voz, Delsarte comeou, ento, a estudar anatomia e a

    relao entre voz e gesto. Observou loucos em asilos, bbados nas ruas e at

    agonizantes em hospitais pblicos. Entre suas observaes, constatou que, de

    um modo geral, a morte se anuncia por uma contrao dos msculos do

    polegar, que se aperta contra a mo. Delsarte estuda as pessoas que conhece

    e tenta estabelecer um catlogo de gestos que correspondam a estados

    emocionais. Alternava exerccios de contrao e relaxamento, partindo da

    posio fetal at a extenso mxima, liberando a emotividade. Aliando esta

    pesquisa a seus conhecimentos musicais, elaborou uma tcnica de expresso

    corporal com o objetivo de aprimorar o treinamento dos artistas cnicos.

    De acordo com Paul Boucier (1987), as consequncias das ideias de

    Delsarte sobre a dana foram imediatas, pois todo o corpo foi mobilizado para

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    a expresso e, principalmente, o torso, que todos os danarinos modernos de

    todas as tendncias consideram a fonte e o motor do gesto. Alm disso,

    Delsarte observa que a expresso obtida pela contrao e relaxamento dos

    msculos: tenso e relaxamento sero as palavras, e, mais tarde, os conceitos

    fundamentais para a dana moderna desenvolvida por Rudolf von Laban e

    outros importantes artistas da dana moderna, como Martha Ghaham. Delsarte

    defendia que todos os sentimentos tm sua prpria traduo corporal. O gesto

    os refora e, por sua vez, eles reforam o gesto. Por exemplo, a extenso do

    corpo estaria ligada ao sentimento de autorrealizao e o sentimento de

    anulao se traduziria pela contrao.

    De acordo com, Bergsohn-Bergsohn (2003), Emile Jaques-Dalcroze

    (1865-1950) foi professor de msica, ensinando leis de harmonia no

    Conservatrio de Genebra quando, em 1910, estabeleceu um instituto de

    dana em Hellerau. A fundao desta nova escola de educao do movimento

    era baseada em ritmos musicais. O mtodo de Dalcroze, conhecido como

    Euritimia, um sistemtico estudo de todos os elementos da linguagem

    musical atravs do ritmo mediado pelo corpo. Para Dalcroze, o

    desenvolvimento do sentido musical passa por todo o corpo. A educao

    auditiva deveria comear pelo senso rtmico, que basicamente muscular.

    Dalcroze observa que a economia de foras musculares suprime os

    movimentos parasitas e torna o gesto mais eficaz. Cria, ento, uma educao

    psicomotora, com base na repetio de ritmos. De acordo com Boucier (1987),

    o mtodo consiste em educar o aluno, fazendo-o praticar um solfejo corporal

    cada vez mais complexo, com movimentos to claros e econmicos quanto

    possvel. Desta forma, Dalcroze desenvolveu uma pedagogia do gesto.

    Segundo Bergsohn-Bergsohn (2003), Rudolf von Laban