construir uma na§£o: ideologias de modernidade da elite .321 ideologias de modernidade da...

Download Construir uma na§£o: ideologias de modernidade da elite .321 Ideologias de modernidade da elite

Post on 07-Feb-2019

213 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

319

Jason Sumich* Anlise Social, vol. XLIII (2.), 2008, 319-345

Construir uma nao: ideologias de modernidadeda elite moambicana

O presente artigo analisa a importncia, para a elite moambicana politicamentedominante, de uma ideologia de modernidade unificadora. Argumento que esta ideo-logia de modernidade constitui uma categoria nativa, sendo utilizada pelas elitespara reivindicarem o seu poder social e legitimarem as suas posies de privilgioperante a sociedade em geral. No se trata de uma ideologia esttica, mas antesprofundamente enraizada nos antecedentes sociais da elite durante o perodo coloniale que acompanhou as transformaes resultantes da independncia do pas. Aquilo quefoi em tempos um projecto autoritrio, mas potencialmente emancipatrio, derecriao da nao, est hoje firmemente confinado s prprias elites e a antiga basedo nacionalismo tornou-se cada vez mais um indicador de estatuto e de diferenasocial.

Palavras-chave: elite; FRELIMO; poder; Moambique e modernidade.

This paper examines the importance of a unifying ideology of modernity for apolitically dominant Mozambican elite, in the capital, Maputo. I argue that thisideology of modernity forms a native category, which elites use as both a claimto social power and as an attempt to legitimise their positions of privilege to thewider society. This is not a static ideology, but one that is deeply intertwined withthe social background of the elite in the colonial period and has transformed withthier changing through independence. What was once an authoritarian, but poten-tially emancipatory, project to recreate the nation is steadily being confined toelites themselves, and the former bedrock of nationalism has increasingly becomean indicator of high status and social difference.

Keywords: elite; FRELIMO; power; Mozambique and modernity.

INTRODUO

Um dia, durante o meu trabalho de campo em Maputo, a capital moam-bicana, tive uma conversa com uma amiga, Josina. Na altura eu investigavaa formao da elite governante de Moambique e os seus modos de auto--reproduo social. Os pais de Josina tinham estado envolvidos na luta pelalibertao, tornando-se membros destacados da FRELIMO aps a indepen-

* LSE, Crisis States Research Centre/Development Studies Institute.

320

Jason Sumich

dncia1. Embora alguns membros da sua famlia tenham militado num mo-vimento revolucionrio socialista, Josina autodefine-se como uma capitalistafervorosa e durante a nossa conversa defendeu reformas neoliberais purase duras para Moambique. Quando exprimi as minhas dvidas de que seme-lhante modelo pudesse ajudar os mais pobres, ou seja, a esmagadora maioriada populao, Josina respondeu que o meu problema era estar profundamen-te equivocado em relao natureza da sociedade moambicana. Na suaopinio, os pobres no tinham falta de oportunidades simplesmente, noestavam interessados nelas:

H aqui uma enorme diferena que tu no compreendes, acho eu.Passas o tempo todo com pessoas como ns, instrudas e ocidentaliza-das. Aqueles que so privilegiados, como ns, tm gostos e desejos queso muito diferentes dos das outras pessoas todas. realmente umaquesto de interesses. A maioria dos moambicanos so camponeses,tm uma machamba [um pequeno lote de terra], vivem da agricultura, e isso que lhes interessa e que os satisfaz. A srio que no precisam deinstruo nem de mais nada, e a verdade que nem sequer a desejam.Por exemplo, o meu pai tem razes pobres, rurais. Gostava de ler, masno estava assim to interessado em continuar a estudar2. Nunca seinteressou por essas coisas at ao momento em que percebeu tudo oque os portugueses tinham, em comparao com o pouco que ele tinha.A maioria das pessoas deste pas no est simplesmente interessada emnada disso. S querem que as deixem cultivar as suas machambas empaz. Ns, os privilegiados, que queremos e precisamos dessas coisas.

Aquilo que me interessou na resposta de Josina foi no apenas a suasemelhana com algumas das antigas justificaes coloniais para a desigual-dade, mas tambm o facto de ser um discurso bastante comum entre aspessoas ligadas elite dominante, baseada no partido da FRELIMO3. Aolongo da minha investigao notei que existia frequentemente entre os mem-bros desta elite o pressuposto implcito de que, por serem instrudos emodernos, eles eram fundamentalmente diferentes da vasta maioria dapopulao do pas. Este sentido de diferena interessou-me, j que era bas-tante comum entre pessoas que deviam a sua posio de privilgio a uma

1 A FRELIMO (Frente de Libertao de Moambique) conduziu uma bem sucedida lutade libertao contra Portugal, o poder colonial, e tem-se mantido continuamente no governodesde a independncia do pas, em 1975.

2 Durante o perodo colonial, a vasta maioria da populao era analfabeta. O facto deo pai de Josina saber ler e ter acesso a livros pode significar que os seus antecedentes erammais privilegiados do que ela supe.

3 Descrevo a formao desta elite na seco seguinte do presente artigo.

321

Ideologias de modernidade da elite moambicana

ligao pessoal ou familiar a um movimento poltico que, no seu perodorevolucionrio, defendera um nacionalismo supostamente igualitrio. Aparen-temente, as noes de modernidade que outrora tinham estado na base deuma ideologia potencialmente emancipatria eram agora indicadores de dife-rena social.

O presente artigo traa as mudanas e continuidades de uma ideologia demodernidade entre uma elite baseada em Maputo desde as suas formulaesiniciais sob o regime revolucionrio de Samora Machel (1975-1986), passan-do pela queda do socialismo, at introduo da democracia neoliberal soba presidncia de Joaquim Chissano (1986-2005). Aps a independncia,Moambique conheceu um turbilho de mudanas polticas e sociais. Em1977, a FRELIMO apresentava-se como um partido marxista-leninista devanguarda; em 1983, durante uma brutal guerra civil, foram introduzidos osprimeiros esforos de uma perestroika moambicana e, a partir de 1989, opartido comeou a evoluir no sentido da democracia neoliberal. Contudo,subjacente a estas mudanas dramticas, tem persistido, ainda que emmudana tambm, uma ideologia de modernidade que se tem revelado centralnos esforos da elite para legitimar o seu papel e o seu estatuto em Moam-bique, tanto dentro do prprio grupo como perante a nao em geral. Baseio--me aqui no trabalho de Ferguson, o qual defendeu que, em frica, amodernidade deve ser entendida como uma categoria local utilizadapelos indivduos como meio de explicarem o seu lugar no mundo e comopoderosa afirmao de igualdade (1999, 2002 e 2006). Em Moambique, asideias so tambm categorias locais utilizadas pelos indivduos para expli-carem o mundo, mas importante sublinhar que h frequentemente mais doque uma nica e incontestada categoria local. Alm disso, no caso deMoambique, esta categoria local tem diversos significados; a ideologia demodernidade da elite baseia-se em ideias de igualdade com o mundo exterior,das quais retira legitimidade, mas constitui tambm um poderoso instrumentopara a criao de desigualdade. A promoo da elite enquanto modelo idealde modernidade e enquanto nico sector social capaz de introduzir essamodernidade na nao constitui, por si s, uma reivindicao de poder.Fornece um plano para a estruturao e implementao de um conjunto decrenas partilhadas e uma justificao para a hierarquia; nesse sentido, servede campo unificador que promove a coeso das elites (v. Gledhill, 2002)4.Para compreendermos adequadamente esta ideologia de modernidade tere-mos de a analisar etnogrfica e historicamente desde a independncia do pasat actualidade.

4 No pretendo afirmar que esta ideologia incontestada os debates so frequentes eacalorados no seio da elite da FRELIMO. Defendo, sim, que esta ideologia fornece as bases dodiscurso utilizado pela elite, bem como muitas das premissas, mesmo para perspectivas rivais.

322

Jason Sumich

Nas pginas seguintes analisarei o modo como esta ideologia se converteuno projecto de uma elite nacionalista para a criao de uma nao indepen-dente. Como veremos, durante o perodo imediatamente posterior indepen-dncia a ideologia de modernidade da elite, na sua forma nacionalista revo-lucionria, exprimiu-se por meio de uma vasta tentativa de redefinio dolugar de Moambique no palco mundial, j que o territrio passara de colniadependente a nao soberana com base na mobilizao massiva da popula-o. Este primeiro esforo fracassou devido crise econmica e a umadevastadora guerra civil que estalou em 1977 e se prolongaria at 1992.O colapso da verso nacionalista revolucionria da modernidade no lanouo descrdito total sobre o ideal; pelo contrrio, conduziu reformulaoconceptual do mesmo. No perodo ps-socialista, a ideologia de modernidadefoi despojada de grande parte da sua antiga nfase sobre a mobilizao demassas. Em vez de redefinirem o lugar de Moambique entre a comunidadeglobal das naes, muitos membros da elite procuram agora integrar-se a siprprios em poderosas redes internacionais. Assim, esta ideologia funcionaactualmente, cada vez mais, como um sinal de status e uma afirmao depoder social por parte da elite. Por um lado, continua a legitimar a posiodas elites ao manter de p a promessa de progresso e, por outro, permitea essas mesmas elites afirmarem-se como as nicas detentoras das compe-tncias e capacidades necessrias ao cumprimento dessa promessa. Na pr-tica, a ideologia de modernidade funciona tambm como um smbolo deafirmaes quotidianas de poder social, as quais, ainda que possam sercontestadas, so normalmente compreendidas pela populao em geral pelo menos em Maputo, a zona que me mais familiar.

Para ilustrar a minha argumentao comearei por examinar as origens eas transformaes sociais da elite em questo e o modo como esse processopermitiu o desenvolvimento da ideologia de modernidade. Passarei de seguidaa analisar o modo como esta ideologia inculcada nas geraes ma