Construção Do Conhecimento Musical Sob Uma Perspectiva Piagetiana

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<ul><li><p>Construo do Conhecimento Musical sob uma Perspectiva Piagetiana: da Imitao Representao </p><p>Marta Deckert1 </p><p>Resumo: A presente pesquisa teve como objetivo investigar a construo do conhecimento musical circunscrito passagem da imitao para a representao, a partir de um contexto de educao musical, em crianas com cinco e sete anos de idade sob uma perspectiva piagetiana. A metodologia utilizada nesta investigao foi a pesquisa quase-experimental. Como principal pressuposto terico foram empregados estudos realizados por Piaget sobre a Imitao (1964). Dentre os resultados encontrados, verificou-se que h uma analogia entre as condutas prprias do processo de imitao no perodo sensrio-motor, em crianas com cinco e sete anos de idade, na educao musical. Tal processo acontece de maneira sucessiva e segundo uma ordem, e neste contexto especfico, inicia-se na segunda fase da imitao, passando por todo o processo, chegando sexta fase, da imitao diferida que precursora da representao. Essa investigao contribuiu para a discusso de questes concernentes imitao no contexto especfico da Educao Musical. </p><p>Enquanto educadores musicais, devemos nos preocupar-se com a educao esttica. Entendo esse conceito como o fazer pedaggico que se preocupa com o ensino dos elementos envolvidos na linguagem musical. </p><p>Dentro dessa perspectiva desenvolveu-se a presente pesquisa. O objetivo foi investigar a construo do conhecimento musical circunscrito passagem da imitao para a representao, a partir de um contexto de educao musical, em crianas com cinco e sete anos de idade sob uma perspectiva piagetiana. A questo que norteou a presente investigao : como se d o processo de imitao representao em contexto especfico da Educao Musical com crianas de cinco e sete anos de idade? </p><p>A investigao foi realizada em uma escola da rede municipal de ensino na cidade de Curitiba/PR com seis sujeitos, trs crianas com cinco anos de idade, e trs crianas com sete anos de idade, que nunca haviam tido educao musical de maneira </p><p>1 Possui Mestrado em Educao pela Universidade Federal do Paran (2006) na rea de Cognio, </p><p>Aprendizagem e Desenvolvimento Humano. Especializao em Educao Musical e Regncia de Coro Infanto-Juvenil pela Escola de Msica e Belas Artes do Paran EMBAP (2003), Bacharelado em Msica pela EMBAP (2003), Licenciatura em Cincias Biolgicas (1993). Trabalha como professora de Educao Musical e Regente de Coro Infantil no Colgio Martinus Porto e Martinus Centro. professora de Artes Educao Musical da Secretaria Municipal de Educao de Curitiba. Ministra palestras e Oficinas para professores da Educao Infantil e Ensino Fundamental. </p></li><li><p>formal. O delineamento dessa investigao a pesquisa quase-experimental, tendo como instrumento para coleta de dados a observao da interveno. </p><p>O referencial terico utilizado foram os estudos sobre Imitao de Jean Piaget, presente em sua obra A Formao do Smbolo na Criana (PIAGET, 1964). </p><p> A gnese da imitao, localizada no perodo sensrio-motor e subdivida em seis etapas distintas, descrita por PIAGET (1964/1975) da seguinte maneira: a imitao na primeira fase ainda no pode ser considerada como uma imitao propriamente dita, mas como um deflagar de uma ao derivada de uma excitao ou provocao externa, que constitui-se como um exerccio reflexo necessrios ao processo de imitao das fases seguintes. Na segunda fase acontece a imitao espordica, os esquemas reflexos comeam a assimilar certos elementos exteriores e ampliam-se, em funo das experincias anteriores adquiridas os esquemas sofrem as reaes circulares pelo uso repetitivo incessante. Na terceira fase a imitao no ter grandes modificaes por no apresentar tentativas de acomodao aos novos modelos, como se observar nas fases seguintes. </p><p>Na primeira etapa da quarta fase, h um relativo progresso quanto construo do espao, objeto e da causalidade, e a constituio de um sistema de indcios que repercutem no processo da imitao. Isso permite a criana assimilar os gestos do outro, mesmo se tais movimentos forem invisveis para ela. A segunda etapa dessa fase, caracterizada pela imitao de sons e gestos novos, o que antes a deixavam indiferente a tais modelos, explicada pelo prprio progresso da inteligncia, a maleabilidade e coordenao dos prprios esquemas. A criana que antes s imitava o que ela prpria sabia executar passa a reproduzir modelos novos. </p><p>Na quinta fase, ocorre a imitao sistemtica de novos modelos inclusive dos movimentos invisveis ao prprio corpo. A criana da presente fase diferencia os diferentes esquemas e tateio-os experimentalmente, a imitao portanto, modifica os esquemas em funo do objeto. capaz de descobrir a propriedade dos objetos formando as reaes circulares tercirias de maneira mais organizada, diferente das fases anteriores que sucediam-se por simples exploraes. Enfim, na sexta-fase a criana capaz de imitar modelos que no esto presentes no momento da reproduo, chamada de imitao diferida, chegando aos primrdios da representao. </p><p>Se fizssemos uma analogia entre a teoria da imitao em Piaget e a imitao no contexto da educao musical talvez pudssemos pensar como o exposto a seguir. </p></li><li><p>A primeira fase da imitao denominada respectivamente por PIAGET (1964/1975) como preparao reflexa no a verifiquei no processo imitativo na educao musical. </p><p>A imitao espordica prpria da segunda fase apresenta caractersticas importantes quanto ao desenvolvimento representativo da criana no contexto da educao musical. Pude constatar que os sons produzidos pela criana despertam o seu interesse, a partir da ela passa a realizar tal exerccio como uma espcie de reao circular. Ela percebe o som que o outro produziu e amplia-o em funo de sua prpria experincia com o objeto sonoro. </p><p>A imitao sistemtica da terceira fase, considerada por PIAGET (1964/1975) como essencialmente conservadora, limitada pelas prprias condies da reao circular, e sem tentativas de acomodao aos novos modelos, fato que acontecer nas fases seguintes. Pude observar no desenvolver das atividades de educao musical, analisando especialmente sob o aspecto rtmico, que a criana no consegue imitar movimentos com vistas produo sonora feita pelo pesquisador se no forem visualmente percebidos por ela. </p><p>Observou-se tambm que a criana no capaz de imitar movimentos em particular, mas somente o conjunto. Por exemplo, se o pesquisador prope criana que execute a seguinte seqncia movimentos: bater duas vezes as mos nas pernas, duas vezes na barriga. Ela o percebe como uma seqncia de movimentos de maneira global. Executa-o apenas se perceber visualmente o todo. No entanto, movimentos particulares como parte de um esquema uma atividade mais complexa, pois a criana precisa perceb-lo como fato isolado. PIAGET (1964/1975, p. 43-44) afirma que so os esquemas fechados sobre si mesmos que do lugar imitao e no os fragmentos de esquemas artificialmente trinchados pelo observador. </p><p>Na primeira etapa da quarta fase, o mesmo autor no diz que h um relativo progresso quanto construo do espao, do objeto e da causalidade, e a constituio de um sistema de indcios repercute no processo da imitao. Observa-se que as crianas, quando envolvidas em atividades musicais, demonstram um grande envolvimento no simples exerccios dos prprios movimentos como, por exemplo, bater as suas mos na capa de caderno ou almofada para produzir percusso semelhante a do tambor (observado por inmeras vezes em uma turma de alunos de quatro e cinco anos, tal exerccio realizado todas as vezes em que as crianas se encontram sem atividades </p></li><li><p>dirigidas). A finalidade desses movimentos o de produzir esquemas e pr tais mecanismos em ao, diga-se os mecanismos de esquemas espontneos explorados pela prpria criana. </p><p>A segunda etapa da quarta fase, caracterizada pela imitao de sons e gestos novos, o que antes a deixava indiferente. Essa imitao explicada pelo prprio progresso da inteligncia e pela maleabilidade e coordenao dos prprios esquemas. Em atividades musicais as crianas comeam a imitar movimentos e sons novos, diferentes das anteriormente realizadas. Nas fases precedentes, observa-se que as crianas imitavam o que fazia parte de seus esquemas, com o progresso da inteligncia abre-se a possibilidade de imitar o som novo, o desconhecido. Por exemplo, numa dada situao, o pesquisador prope um determinado trecho rtmico a que a criana solicitada a imitar, no entanto, ela no imita o movimento-modelo, mas utilizando o mesmo pulso, e faz um outro trecho rtmico semelhante em sua estrutura (pulso), mas novo em sua execuo. Executa, por exemplo, duas colcheias e uma semnima em vez do modelo proposto que so duas semnimas, no percebendo a complexidade da execuo desse novo. A criana que antes s imitava o que ela prpria sabia executar, passa a reproduzir modelos novos. </p><p>A quinta fase caracterizada por PIAGET (1964/1975) por ser uma imitao sistemtica dos novos modelos, incluindo os que correspondem a movimentos invisveis do prprio corpo. Isso d novas possibilidades, se considerada a imitao no processo de educao musical, visto que a imitao torna-se sistemtica e precisa, fato esse decorrente dos progressos da prpria inteligncia da criana. </p><p>As crianas, depois das simples explorao com os objetos sonoros, so capazes, por experimentao ativa de explorar sistematicamente tais objetos. Elas organizam-nos de tal forma que possvel analisar movimentos que se repetem sistematicamente, estruturas e trechos rtmicos que se repetem, sons que se agrupam. </p><p>O princpio da imitao representativa caracterstica da sexta fase denominada por Piaget de imitao diferida. Ela torna-se capaz de reproduzir os mesmos modelos quando eles esto ausentes. Surge aqui a imagem representativa. </p><p>Na educao musical ora proposta, especialmente no que tange a esta investigao, buscou-se fazer com que a criana, atravs da imitao, construa um sistema de conceitos e esquemas mentais relacionados com a representao musical e com o ritmo. Nesse processo a criana, levada a explorar os materiais musicais, partiu </p></li><li><p>das imitaes espordicas, passou para as imitaes sistemticas, promoveu diferenciaes e imitaes de novos modelos, realizou em seguida imitao sem a presena do modelo (diferida), tornando possvel chegar aos primrdios da representao. A partir dessa conquista a criana mostra-se capaz de representar pictricamente os sons que anteriormente havia imitado. </p><p>Justifico o estudo de um processo analisado por Piaget em crianas no estgio sensrio-motor, aplicando-o em crianas maiores no contexto especfico de msica, no que podemos considerar como uma decalagem horizontal. Analisemos comparativamente a linguagem verbal com a musical. BEYER (1988, p. 68) diz que a aquisio da linguagem verbal no simultnea da linguagem musical, e isso suscita uma decalagem, pois a mesma envolve tipos de operaes mas com contedos diferentes. Significa que a criana precisa construir o conhecimento musical, construir operaes com um outro contedo com o qual no havia tido contato anteriormente: a msica. </p><p>Concluses: Os sujeitos com sete anos de idade mostraram durante a interveno que nos </p><p>processos imitativos, reconstroem, a partir das aes derivadas das tarefas solicitadas, desde as relaes mais simples at as mais complexas necessrias construo do conhecimento musical. E esse processo se d de maneira sucessiva e segundo uma ordem. A criana no passa de uma imitao espordica para uma imitao diferida, imediatamente. Ela precisa passar por todas as fases, pois uma condio do engendramento da outra. Observamos que na maioria dos sujeitos h indcios de condutas caractersticas de mais de uma fase da imitao, o que parece indicar que em alguns momentos eles usam os esquemas que j dispem e que desenvolveram no perodo sensrio-motor. </p><p>Foi possvel identificar que h uma semelhana entre as condutas caractersticas de cada fase da imitao descritas por PIAGET (1964/1975) em seu livro A Formao do Smbolo na Criana. Entre os sujeitos de cinco e sete anos h diferena apenas nas representaes dos trechos musicais. </p><p>A partir das atividades imitativas demonstradas pelas crianas durante a interveno foi possvel constatar que elas fazem uma construo musical em </p><p>pensamento, no qual est implicada, sobretudo, a imagem mental do som, antes de </p></li><li><p>passar a represent-la graficamente. Acredito que a linguagem verbal, nesta etapa do desenvolvimento da construo do conhecimento musical, apenas coadjuvante do processo ensino-aprendizagem deste contedo. Assim, o resultado desta pesquisa me mostrou que a criana chega a uma compreenso do significado musical das clulas rtmicas, lanando mo de smbolos concretos e significantes diferenciados antes de chegar ao signo utilizado na musica, a notao musical. </p><p>Nas atividades propostas para imitao pude constatar que devemos utilizar o corpo como primeiro instrumento musical, pois a criana j dispe em seu repertrio de aes de esquemas que lhe do condies para realizar imitaes com vistas produo musical. Esse repertrio de aes no se restringe a fazer as mesmas aes que a criana vem fazendo desde o seu nascimento, mas pr em ao tais esquemas em um processo imitativo. Depois que tais exploraes foram realizadas, passa-se, ento, a utilizao de outros materiais musicais: instrumentos de bandinha rtmica, materiais de sucata, instrumentos musicais ou qualquer outro material que proporcione o fazer </p><p>musical. </p><p>A proposio de atividades musicais deve iniciar sempre pelo fazer. PIAGET (1974/1978, p. 176) descreve o fazer como compreender em ao uma dada situao em grau suficiente para atingir os fins propostos e se trata de coordenar movimentos. Do fazer por tomadas de conscincia a criana passa a compreender que conseguir dominar, em pensamento, as mesmas situaes at poder resolver os problemas por elas levantados, em relao ao porqu e ao como das ligaes constatadas e, por outro lado, utilizadas na ao PIAGET (1974/1978, p. 176). Finalmente, observei o quanto o fazer est vinculado ao processo de construo do conhecimento musical. Constatei que no h construo desse conhecimento musical sem a ao. Deve haver ao antes de haver compreenso para uma construo de conhecimento efetiva do aluno sobre o objeto som, No entanto, esse fazer dever estar acompanhado de um compreender correlativo que leva a construir tal conhecimento. </p><p>Essa investigao contribuiu para discusso de algumas questes concernentes imitao no contexto especfico da Educao Musical. Tal discusso, no entanto, no se encerra em si mesma, mas abre possibilidades para novas investigaes. </p><p>Referncias: </p></li><li><p> BEYER, Esther. A abordagem cognitiva em msica. Uma crtica ao ensino da msica, a partir de Piaget. 1988. Dissertao (Mestrado em Educao). Curso de Ps-Graduao em Educao, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 1988. </p><p>PIAGET, Jean. A Construo do Real na Criana. Traduo de Ramon Amrico Vasques. So Paulo: tica, 1986. </p><p>________. A Formao do Smbolo na Criana. Traduo de lvaro Cabral. Rio de Janeiro: Zahar, 1975. </p><p>________. A Tomada de Conscincia. Traduo de Edson Braga de Souza. So Paulo: Melhoramentos, 1978. </p><p>________. Fazer e Compreender. Traduo de Chistyna La...</p></li></ul>

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