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  • Historia Constitucional

    E-ISSN: 1576-4729

    historiaconstitucional@gmail.com

    Universidad de Oviedo

    Espaa

    Domingues, Jos

    POLIMORFISMO CONSTITUCIONAL DO DIREITO DE RESISTNCIA EM PORTUGAL

    Historia Constitucional, nm. 18, 2017, pp. 195-221

    Universidad de Oviedo

    Oviedo, Espaa

    Disponvel em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=259052486009

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  • POLIMORFISMO CONSTITUCIONAL DO DIREITO DE RESISTNCIA EM PORTUGAL

    CONSTITUTIONAL POLYMORPHISM OF RIGHT TO RESIST IN PORTUGAL

    Jos Domingues Professor auxiliar da faculdade de Direito

    Universidade Lusada Norte (Porto)

    SUMRIO: I. INTRODUO.- II. POLIMORFISMO DO ARTIGO 21 DA CRP.- III. A LINHAGEM PR-CONSTITUCIONAL DA LEGTIMA DEFESA. - IV. POLIMORFISMO DO DIREITO DE RESISTNCIA NA CRP.- V. A GENEALOGIA PR-CONSTITUCIONAL DO DIREITO DE RESISTNCIA COLETIVO.- VI. A GENEALOGIA PR-CONSTITUCIONAL DO DIREITO DE RESISTNCIA INDIVIDUAL.- VII. CONCLUSO.

    Resumo: O atual texto da Constituio da Repblica Portuguesa agrega debaixo da mesma norma jurdica (art. 21) vrias formas de resistncia constitucional. Este artigo, numa perspetiva histrica, vai recuperar algumas das mltiplas formas de manifestao do direito de resistncia em Portugal, v. g., a legtima defesa, o direito de resistncia popular e o direito de resistncia individual. O primeiro objetivo , no sendo aconselhvel uma separao estanque, contribuir para uma possvel diferenciao entre cada uma dessas formas. O segundo objetivo deste trabalho o de combater a tese de que o direito de resistncia popular teria sido transformado, pelo constitucionalismo moderno, num direito de resistncia individual para defesa dos direitos fundamentais consignados na Constituio. Desta forma, o elemento histrico poder ser um contributo para a interpretao do referido preceito constitucional sobre o direito de resistncia.

    Abstract: The present text of the Constitution of the Portuguese Republic adds under the same legal norm (art. 21) various forms of constitutional resistance. This article, from a historical perspective, will recover some of the manifold forms of manifestation of the right of resistance in Portugal, v. g., self-defense, the right of popular resistance and the right of individual resistance. The first objective is, not being advisable a watertight separation, to contribute to a possible differentiation between each of these forms. The second objective of this work is to counter the thesis that the right of popular resistance has been transformed, by modern constitutionalism, into an individual right of resistance to defend the fundamental rights enshrined in the Constitution. In this way, the historical element could be a contribution to the interpretation of the referred constitutional precept on the right of resistance.

    Palavras chave: Direito de Resistncia, Legtima Defesa, Proto Constitucionalismo, Portugal.

    Key Words: Right to Resist, Self-defense, Proto Constitutionalism, Portugal.

    Revista de Historia ConstitucionalISSN 1576-4729, n.18, 2017. http://www.historiaconstitucional.com, pgs. 195-221

  • I. INTRODUO1.

    Os vestgios de um tpico direito de resistncia universal so constante e assiduamente recuados Idade Antiga: no Ocidente Grcia de Sfocles2 e no Oriente China de Confcio e Mcio3. Tendo sido ao longo de muitos sculos o palco de interesse e debate entre os mais conceituados juristas, legistas, canonistas, telogos, politlogos, estadistas, etc., vindo a contagiar de forma indelvel os "American Founders", acabaria por assegurar e evidenciar at hodiernidade o seu papel no seio da Teoria e da Histria Constitucional. Na verdade, o tema da resistncia constitucional continua latejante e arrebatador para o pensamento constitucional, tanto ao nvel do ius como da praxis, da norma como do facto ou da razo como da vontade. Assim, acabou por se converter num atrativo de dois gumes: (i) para o historiador do Direito Constitucional, v. g., pelo seu lastro encanecido por mais de duas dezenas de sculos; (ii) para qualquer jurisperito mais voltado para a atualidade constitucional, v. g., pelo crescente de importncia verificado nos ltimos tempos, sobretudo a partir da segunda metade do sculo passado4, que levou sua consagrao em mais de 20% dos textos constitucionais vigentes que se encontram disseminados por cerca de quarenta e quatro Estados do mundo atual5.

    Este artigo cingir-se-, particularmente, em torno da ndole historicista, num excursus relmpago que vai desde a Baixa Idade Mdia at poca Contempornea, e, sobretudo, dentro do espao geogrfico que Portugal ocupou

    1 Abreviaturas utilizadas: e. g. = exempli gratia (por exemplo) ou v. g. = verbi gratia (por exemplo); i.e. = id est (isto ); OA = Ordenaoens de El-Rey D. Affonso V, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1792 (edio fac-simile da Fundao Calouste Gulbenkian, 1984/1998) [Disponvel em http://www1.ci.uc.pt/ihti/proj/afonsinas/ (consultado a 15 de Janeiro de 2017)]; Dig. = Digesta e Cd. = Codex Iustinianus, Corpus Iuris Civilis, Paul Kruger e Theodor Mommsen (ed.), 1872-1895.

    2 Mario TURCHETTI, Tyrannie et Tyrannicide de lAntiquit nos Jours, Bibliothque de la Renaissance 11, Paris, 2013; Rosana GALLO, La Tirana en la Antigua Grecia. Repercusiones en el Derecho Mercantil y Econmico, Buenos Aires, Dunken, 2014.

    3 Tom GINSBURG, Daniel LANSBERG-RODRIGUEZ e Mila VERSTEEG, When to Overthrow your Government: The Right to Resist in the World's Constitutions, in UCLA Law Review 60, 2013, pp. 1195-1207 [Disponvel em: http://chicagounbound.uchicago.edu/cgi/viewcontent.cgi?article= 5102&context=journal_articles (consultado a 30 de Agosto de 2016)].

    4 Tom GINSBURG, Daniel LANSBERG-RODRIGUEZ e Mila VERSTEEG, When to Overthrow your Government: The Right to Resist in the World's Constitutions, op. cit., pp. 1217-1220: For over a century, a mere 5 percent of all constitutions included the right to resist. It is only in the second part of the twentieth century that the right to resist began to spread more widely, to about 10 percent in the 1980s and about 20 percent today. In April of 2012, Hungary became the latest nation to adopt the right to resist.

    5 Tom GINSBURG, Daniel LANSBERG-RODRIGUEZ e Mila VERSTEEG, When to Overthrow your Government: The Right to Resist in the World's Constitutions, op. cit., pp. 1242-1259. Ao rol apresentado pelos autores acresce, ainda, a Constituio da Repblica Popular da China 1975, art. 55 ( um dever sagrado de todo cidado de la Repblica Popular da China defender a ptria e opor resistncia agresso); e o prembulo da Constituio da Repblica de Angola 2010 (Destacando que a Constituio da Repblica de Angola se filia e enquadra directamente na j longa e persistente luta do povo angolano, primeiro, para resistir ocupao colonizadora, depois para conquistar a independncia e a dignidade de um Estado soberano e, mais tarde, para edificar, em Angola, um Estado democrtico de direito e uma sociedade justa).

    Jos Domingues

    196

  • durante esse lapso de tempo. Tal como proposto em ttulo, ao longo de muitos sculos, o direito de resistncia assumiu vrias formas (polimorfismo constitucional), v. g., resistncia negativa ou positiva, resistncia individual ou coletiva, resistncia ativa ou passiva, resistncia defensiva ou agressiva, etc.6.

    Ora se, por um lado, o instituto jusfundamental da resistncia teve de evoluir mister perene e constante que se impe a qualquer segmento do Direito para se adaptar s vicissitudes ditadas pela realidade constitucional do momento; por outro lado, tudo leva a crer que tenha sido uma evoluo paulatina, ocorrida dentro dos parmetros estabelecidos desde a gnese de cada uma das suas diversas formas jurdicas. Quero com isto dizer que, ao contrrio do que pretende a maioria da doutrina constitucional portuguesa, em momento algum ter existido uma "metamorfose" do direito de resistncia coletivo ou da comunidade poltica para um direito de resistncia individual adjudicado a cada um dos membros dessa comunidade7. Dito de outra forma e avanando com o que ser um dos objetivos fundamentais deste trabalho faz pouco sentido defender que, o constitucionalismo moderno ter ressuscitado o direito medieval de resistncia popular, transformando-o em direito de resistncia individual, atravs duma positivao na Constituio escrita, e reduzindo-o a um mecanismo inorgnico de defesa dos direitos fundamentais.

    Deixando o desenvolvimento desta questo de fundo para o corpo do trabalho, antes de mais, cumpre rever de forma rpida e sucinta o curto aparatus bibliogrfico portugus dedicado ao tema. No final da dcada de oitenta, o status quaestionis ressuma das versadas palavras de Margarida Cordeiro Mesquita: Apesar de, desde muito cedo, ter sido objecto de reflexo na doutrina teolgica, jurdica e poltica portuguesa e no obstante uma larga tradio ao nvel da sua recepo constitucional, a temtica do direito de resistncia no mereceu, neste sculo, entre ns, seno breves referncias por parte de constitucionalistas e penalistas8. Entre as anteriores referncias de maior vulto no se podem esquecer os excelsos contributos de jurishistoriadores como, v. g., Paulo Mrea9,

    6 Cf. Jos Joaquim Gomes CANOTILHO e Vital MOREI

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