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  • CONSIDERAES SOBRE O BRISE-SOLEIL NA ARQUITETURA MODERNA BRASILEIRA

    Grace Cristina Roel Gutierrez; Lucila Chebel Labaki Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo UNICAMP, Av. Albert Einstein n 951,

    Campinas, 13083-852, So Paulo, Brasil, (19)3788-2384. e-mail: gcgutier@fec.unicamp.br, lucila@fec.unicamp.br

    RESUMO

    A adequao das edificaes ao clima uma condicionante de projeto. Para o Brasil, pas tropical situado entre as latitudes de 5 N 34 S, a influncia da radiao solar sobre as edificaes crtica bem como o clima caracterizado pela grande insolao. Idealizado por Le Corbusier em meados do sculo XX, o brise-soleil um entre vrios tipos de dispositivos de proteo solar. A concepo desse elemento basicamente funcional, porm sua aplicao passa a dialogar com a composio arquitetnica da edificao. O brise-soleil foi adotado, desenvolvido e amplamente utilizado pela arquitetura moderna brasileira em resposta a necessidade de proteo radiao solar excessiva e ao controle da luz natural. Alm de sua funo, esse elemento possui uma expresso formal marcante, e adquire grande importncia caracterizando as obras realizadas entre os anos de 1930 e 1960, marcando profundamente a arquitetura moderna brasileira.

    ABSTRACT

    Design with climate is an important tool for buildings design guidelines. The sun-breaker, a shading device idealized by Le Corbusier in early XX century, has its concept based on functionality, although exceed this characteristics been a significant part of architectural conception and composition. In Brazil, a tropical country located between 5 N to 34 S latitude, the solar radiation influence is critical and also the climate characterized by great insulation. This kind of shading device was adopted by young brasilians architects to control solar heat gain, for guarantee people comfort inside buildings. Developed and intensely used by brasilian modern architecture, the sun-breaker responses to the necessity of solar radiation protection and light control. Besides function, in Brazil it acquires a great importance characterizing the buildings designed between the 1930 and 1960 decades, having a significant aesthetic expression, deeply character the brasilian modern architecture.

    1. INTRODUO

    A adequao das edificaes ao clima uma condicionante de projeto. A produo do abrigo, do espao construdo pelo homem juntamente com parmetros de organizao scio cultural, tem o objetivo de atender as necessidades humanas. Dessa maneira, o programa de necessidades, os materiais e tcnicas construtivas, o clima, e a inteno plstica; formam um conjunto de elementos condicionantes ou determinantes do partido arquitetnico. Desse conjunto de elementos observa-se que a nica condicionante que se mantm constante na histria o clima.

    Para compreender a importncia dos dispositivos de proteo solar conveniente ressaltar a funo primordial deste elemento: a proteo da incidncia direta da radiao solar. Essa funo est ligada necessidade de proteo do homem frente s intempries, e ao abrigo uma das funes essenciais

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  • da arquitetura (CORONA e LEMOS, 1972).

    Para o Brasil, pas tropical situado entre as latitudes de 5 N 34 S, tendo a maior parte de seu territrio localizado entre o equador e o trpico de capricrnio, a influncia da radiao solar sobre as edificaes crtica, bem como o clima caracterizado pela grande insolao, alta umidade relativa e predominncia do perodo quente, na maioria do territrio brasileiro, que segundo Bruand (2002) foi o fator fsico que mais interferiu na arquitetura brasileira.

    Segawa (2001) comenta que em meados do sculo XX j existe um grupo de profissionais que busca proteger as aberturas contra a insolao excessiva. Aqui se inserem as pesquisas de Paulo S, considerado pioneiro na insolao das edificaes. Eduardo Kneese de Melo preocupava-se com o sol excessivo e procurava elementos para proteger o interior das edificaes, como uma orientao adequada, o posicionamento e rea das janelas.

    O emprego de novos materiais e tecnologias construtivas, como o vidro, o concreto e o ao, pela arquitetura moderna, transformou a linguagem de composio, de arranjo espacial e estruturao da edificao. Le Corbusier revoluciona a relao espacial da arquitetura propondo a utilizao dos cinco princpios: o uso de pilotis, a planta livre, o terrao jardim, a estrutura independente e fachada de vidro. Entretanto, Givoni (1981) afirma que a ampla utilizao da pele de vidro nas fachadas das edificaes na arquitetura moderna alterou a relao entre o ambiente interno e o clima, enfatizando o problema do superaquecimento proporcionado por esse material construtivo. Para Bruand (2002) a aplicao desses princpios nos pases de clima quente exigia uma certa adaptao ao meio ambiente e o emprego de alguns dispositivos capazes de combater a insolao e o calor excessivos.

    2. O BRISE-SOLEIL

    O brise-soleil um entre vrios tipos de dispositivos de proteo solar. um elemento construtivo constitudo por lminas geralmente paralelas, externas edificao. Pode ser classificado pela sua tipologia (horizontal, vertical ou combinado), pela mobilidade (mveis ou fixos), e pela sua expresso arquitetnica. A funo primordial desses elementos impedir que a incidncia da radiao solar direta atinja as superfcies verticais da edificao, principalmente as transparentes ou translcidas, interceptando os raios solares. Desta forma, atua no controle e reduo do ganho de calor solar, pois promove o sombreamento das superfcies por eles protegidas, dependendo fundamentalmente da orientao da fachada. Possui tambm funes secundrias como o controle do excesso de luminosidade, caracterstico de regies de climas quentes. Outros aspectos que tambm sofrem influncia desses elementos so a visibilidade para o exterior e a ventilao da edificao.

    Idealizado por Le Corbusier em meados do sculo XX, o brise-soleil tem influncia de elementos construtivos como dispositivos de proteo solar, oriundos de culturas construtivas rabes e asiticas em sua concepo. Segundo Maragno (2000), sua origem pode ser identificada com elementos de arquiteturas tradicionais utilizados para filtragem da radiao solar, da luz e do calor aplicados principalmente na arquitetura rabe. No possuem necessariamente a mesma forma, material ou linguagem, mas o mesmo princpio de atuao: sua funo essencial o controle da radiao solar excessiva em pases de clima quente. Corona & Lemos (1972) comentam sobre a origem desse dispositivo e da originalidade de linguagem: o elemento arquitetnico com funo de quebrar a direo dos raios solares j comparece em muitas arquiteturas, mesmo de pocas mais remotas. Porm, do gnero placas horizontais ou verticais, mveis ou fixas, com o nome especfico de brise-soleil, constitui uma sistematizao criada por Le Corbusier para um de seus projetos de 1933.

    Segundo Fathy (1986), o brise-soleil na verdade uma releitura da persiana, sendo seu desenvolvimento uma questo de escala, pois as dimenses de suas lminas so aumentadas, e sua aplicao foi estendida a toda a rea das aberturas para a proteo de fachadas inteiras. Para Mindlin (2000) embora qualquer tipo de brise-soleil possa ser considerado uma imitao dos velhos e tradicionais mtodos de proteo contra a ofuscao e o calor, sendo possvel identificar reminiscncias e variaes das rtulas e persianas do perodo colonial, a linguagem desse novo elemento extrapola a referncia histrica trazendo base cientfica na sua elaborao, avaliao da necessidade de sombra e luz, passa a compor a estrutura da edificao; sua forma e a multiplicidade de

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  • solues definem texturas, planos, profundidade, ritmo e movimento, enfim, possui uma identidade e esttica prprias.

    Para Maragno (2000), o brise-soleil uma resposta s transformaes arquitetnicas introduzidas pelas possibilidades tecnolgicas e pelos conceitos da arquitetura moderna. Est associado necessidade de proteo solar dos edifcios modernos, que por terem transformando a linguagem de composio, de arranjo espacial e estruturao da edificao, com a intensa utilizao de novas tecnologias e materiais, permitiam grandes panos de vidro na envoltria sendo, porm, extremamente vulnerveis ao ganho de calor solar.

    Baker (1998) explica que a atitude de Le Corbusier com relao superfcie envoltria de seus edifcios mudou quando percebeu os problemas provocados (...) pelo emprego de uma membrana fina com grandes reas envidraadas e comenta que o problema era agudo em pases quentes e a soluo foi o desenvolvimento de uma forma de anteparo solar conhecido como brise-soleil. Para Maragno (2000), Le Corbusier deparou-se com a contradio entre a desejvel visibilidade da paisagem do exterior do edifcio e a necessidade de controle da radiao solar.

    A criao desse elemento construtivo, que foi desenvolvido em resposta s condies climticas, uma caracterstica marcante na expresso formal das edificaes. Segundo Maragno (2000) o brise-soleil constituiu-se em excelente soluo para viabilizar o uso dos abundantes panos de vidro contnuos e transparentes na resoluo das fachadas, por permitir a iluminao natural, a integrao visual do interior com o exterior e evitar a incidncia direta dos raios solares e os ganhos trmicos por ela ocasionados.

    Para Baker (1998), o brise-soleil atua como um filtro, criando uma pelcula permevel ao redor do edifcio que permite a penetrao no espao interno e suaviza o impacto da forma (...). E comenta que esse elemento levou ao abandono do efeito cbico das primeiras casas (...) modernistas.

    A concepo desse elemento basicamente funcional, porm sua aplicao passa a dialogar com a composio arquitetnica da edificao. Assim, tambm se enquadra nos preceitos modernista: a forma segue a funo.

    O brise-soleil foi adotado, desenvolvido e amplamente utilizado pela arquitetura moderna brasileira em resposta necessidade de proteo radiao solar excessiva e controle da luz.