considerações sobre aquisição da linguagem

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considerações sobre aquisição da liguagem

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  • Grolla (2006) - Material didtico desenvolvido para o Curso Letras LIBRAS (UFSC)

    A AQUISIO DA LINGUAGEM

    Elaine Grolla

    1. Propriedades da Aquisio de Linguagem

    Considere as sentenas abaixo, ditas por N., uma criana adquirindo o portugus brasileiro como sua lngua materna, aos 2 anos e oito meses de idade (dados retirados de Grolla (2000)):

    (1) a. Eu vou ver esse daqui. Esse, eu vou ver.

    b. Me: Quem deu a boneca? Criana: A boneca, foi o papai que comprou na loja.

    Notemos a complexidade das sentenas enunciadas pela criana. Em (1a), a criana produz primeiramente uma sentena com a ordem cannica para o portugus brasileiro: sujeito (eu) verbo (vou ver) objeto (esse daqui). Depois, ela modifica esta ordem, produzindo uma estrutura chamada de tpico-comentrio, em que o objeto direto posicionado frente do sujeito. Tal construo perfeita em portugus brasileiro e aos 2 anos e oito meses, N. j produz estruturas como esta com freqncia. Em (1b), N. produz outra estrutura de tpico-comentrio, retomando o tpico da conversa, a boneca, e explica que ela foi dada pelo pai, que a comprou numa loja. Para dar tal explicao, a criana utilizou uma estrutura sinttica chamada de clivada, realada no exemplo acima em negrito. Esta estrutura possui o verbo ser no passado e focaliza o sujeito da ao, neste caso o papai. Neste enunciado, a criana mostra que domina construes complexas de sua lngua, antes mesmo de completar 3 anos de vida.

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    Neste texto, discutiremos como as crianas adquirem uma lngua. Comecemos por observar que todas as crianas adquirem (pelo menos) uma lngua, seja essa uma lngua oral ou manual. Esse fato surpreendente dada a complexidade das lnguas naturais, como veremos mais abaixo. Alm disso, as crianas adquirem uma lngua quando ainda so muito novinhas, numa fase em que elas mal conseguem amarrar os sapatos ou desenhar em crculos. Ou seja, o processo de aquisio de linguagem, alm de ser universal, tambm rpido, uma vez que, por volta dos 4 anos de idade, quase toda a complexidade de uma lngua aprendida. Considerando tal complexidade das lnguas naturais, podemos nos perguntar como todas as crianas adquirem uma lngua, aparentemente sem esforo algum e sem serem explicitamente ensinadas. Neste texto, refletiremos sobre essa questo e apresentaremos uma teoria que se prope a explicar este processo de aquisio postulando que parte do conhecimento lingstico geneticamente determinado. Tambm consideraremos outras teorias que foram propostas ao longo dos anos e discutiremos por que elas no so capazes de explicar tal processo de aquisio. Como mencionado acima, toda criana normal adquire uma lngua natural, sem nenhum treinamento especial e sem um input1 lingstico seqenciado, ou seja, sem nenhuma preocupao com a ordem em que as sentenas so faladas s crianas. Essa propriedade da aquisio de linguagem chamada de universalidade da linguagem (Crain e Lillo-Martin (1999)). Embora as lnguas naturais sejam muito diversas, o curso de aquisio de linguagem o mesmo em qualquer lngua, como tem sido observado translingisticamente. Para explicar o processo de aquisio de linguagem, uma teoria lingstica tem de dar conta dessa universalidade da linguagem e responder o que especial sobre linguagem, e sobre as crianas, que garante que elas iro dominar um sistema de regras rico e complexo num perodo em que elas esto apenas entrando em idade escolar. Outra observao que deve ser ressaltada se relaciona com os dados lingsticos primrios a experincia lingstica da criana e com a qual ela adquire linguagem. Em algumas comunidades, a criana passa bastante tempo com os adultos, que do muita ateno a elas. Se esse fosse sempre o caso, poderamos sugerir que a linguagem ensinada s crianas pelos seus pais ou responsveis. No entanto, encontramos comunidades em que as crianas recebem menos ateno individual dos adultos, mas mesmo assim acabam adquirindo linguagem da mesma forma que aquelas que recebem mais ateno. Existem at mesmo comunidades em que os adultos no conversam diretamente com as crianas, que se

    1 Input designa o que a criana ouve ao seu redor, ou seja, as sentenas da lngua que est adquirindo.

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    comunicam apenas com outras crianas. Apesar dessas grandes diferenas de experincia lingstica, em todos esses casos, as crianas numa comunidade adquirem a lngua daquela comunidade. As consideraes acima nos levam a uma outra caracterstica da aquisio da linguagem: uniformidade. Ou seja, crianas numa mesma comunidade tm experincias lingsticas bastante diversas (com inputs diferentes) e os dados lingsticos primrios que cada criana recebe so diferentes do que as outras recebem; mesmo com essa diversidade no input, todas elas acabam aprendendo a mesma lngua. Outro ponto a ressaltar que algumas crianas aprendem vrias lnguas, apesar de a maioria aprender apenas uma. Em comunidades onde mais de uma lngua falada, as crianas aprendem todas as lnguas da comunidade. Nesse sentido, a aquisio de linguagem uma funo do input. Se uma criana filha de brasileiros levada para a China, ela aprender chins. Se uma criana filha de chineses for levada Frana, ela aprender francs. Assim, a lngua dos pais no determina que lngua a criana falar; o que determina a lngua da criana a lngua que falada ou sinalizada ao seu redor. Assim, toda criana exposta ao ingls falar ingls, toda criana exposta lngua de sinais brasileira sinalizar a lngua de sinais brasileira e assim por diante. Alm de ser universal e uniforme, o processo de aquisio de linguagem tambm muito rpido. Como mencionado acima, quase toda a complexidade de uma lngua adquirida por volta dos 4 anos de idade; ou seja, antes mesmo de as crianas comearem a freqentar a escola. O que elas levam mais tempo aprendendo so as palavras da lngua algo que continua para a vida toda, j que mesmo os adultos esto sempre aprendendo palavras novas. Entretanto, por volta dos 4 anos de idade, as crianas j dominam quase todos os tipos de estruturas usadas na sua lngua. Nessa mesma idade, no entanto, elas esto apenas comeando a contar e muitas vezes nem sabem ainda amarrar os sapatos. Finalmente, a ltima propriedade que notaremos a seqncia de estgios pelos quais as crianas passam ao adquirir uma lngua. Crianas aprendendo uma lngua seguem um padro quase idntico. Elas progridem atravs dos mesmos estgios de aquisio e na mesma ordem, embora a rapidez com que uma criana muda de um estgio para outro seja varivel. Assim sendo, o melhor indicador sobre o nvel de desenvolvimento lingstico de uma criana o estgio em que ela se encontra e no a sua idade. Na seo a seguir, apresentaremos os estgios da aquisio em maior detalhe.

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    2. Os Estgios da Aquisio de Linguagem

    Nessa seo, observaremos os estgios pelos quais as crianas passam em seu desenvolvimento lingstico. Esses estgios foram observados em crianas que foram gravadas periodicamente por meses ou anos (como no estudo apresentado em Brown (1973)). Por isso, os dados aqui reportados so chamados de dados longitudinais. Como as crianas eram livres para dizer o que quisessem e como quisessem, sem serem orientadas a produzir construes especficas, tais dados so tambm chamados de espontneos. Como dito acima, a idade em que tais estgios acontecem pode variar de criana para criana; as idades mencionadas abaixo so apenas as mais comumente observadas. O importante observar que a seqncia de estgios no varia de criana para criana.

    Primeiros meses de vida

    Nos primeiros meses, a criana chora e comea a balbuciar, emitindo sons que no tm nenhum significado. Diversos estudos com bebs muito novos (desde recm-nascidos at bebs com 12 meses de vida) indicam que desde os primeiros dias de vida os bebs mostram uma sensibilidade impressionante s propriedades e estruturas da fonologia das lnguas naturais. Por exemplo, com 4 dias de vida, eles conseguem discriminar uma grande variedade de lnguas, algumas que eles nunca ouviram, ao se basear em seu ritmo. Eles podem distinguir sua lngua nativa de uma lngua estrangeira e at mesmo duas lnguas estrangeiras uma da outra (alguns estudos investigando essa habilidade dos recm-nascidos so: Bosch e Sebastin-Galls (1997); Christophe e Morton (1998); Mehler et al. (1988); Moon, Cooper e Fifer (1993); entre outros).

    Seis meses

    Por volta dos 6 meses de vida, as crianas balbuciam um maior nmero de sons. Elas produzem vrias slabas diferentes, que so repetidas exausto, como ba, ba, ba, bi, bi, bi. Crianas adquirindo lnguas diferentes apresentam o mesmo tipo de balbucio. O fato mais marcante que at mesmo crianas surdas balbuciam neste estgio, embora elas no ouam nenhum input lingstico (Karnopp (1999); Newport e Meier (1986)). Isto indica que o

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    balbucio no uma resposta estimulao externa, mas um comportamento guiado internamente.

    A partir desta idade, os bebs comeam a separar as palavras no fluxo contnuo dos enunciados. Bebs tambm conseguem discriminar uma grande variedade de sons de sua lngua nativa ou de uma lngua estrangeira (Jusczyk (1997)).

    Dez meses

    Aos 10 meses, o balbucio das crianas muda e elas comeam a balbuciar somente os sons que ouvem. As crianas tambm usam o acento e contornos entoacionais de sua lngua. Nesta idade, a criana surda deixa de balbuciar (Petitto e Marentette (1991)). Por volta desta idade, os bebs comeam a mapear som ao significado. Para extrair palavras do fluxo contnuo dos enunciados, os bebs se baseiam em vrias fontes de informao especfica de linguagem: a forma prosdica das palavras, regularidades distribucionais, informao fontica e restries fonotticas. Essas habilidades de percepo de linguagem altamente sofisticadas so cruciais para

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