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  • kriterion, Belo Horizonte, n 131, Jun./2015, p. 191-212

    CONSIDERAES SOBRE A PROVA DA EXISTNCIA DE DEUS ELABORADA POR

    HASDAI CRESCAS (1340-1411)

    Alexandre Leone*alexleone29@gmail.com

    RESUMO Neste artigo, exposto e discutido o caminho percorrido por Hasdai Crescas (1340-1411), filsofo judeu medieval que viveu em Barcelona, na elaborao de sua prova para a existncia de Deus, formulada com base em sua crtica s provas apresentadas por Maimnides (1138-1204) no Guia dos Perplexos. A crtica de Crescas parte da formulao de um conceito geral de existncia aplicvel tanto ao ser necessrio quanto aos seres contingentes. Outro aspecto interessante em seu caminho para a elaborao da prova da existncia de Deus a distino que ele faz entre quididade e existncia no ser necessrio, posio nica entre os medievais e que introduz um importante aspecto de imanncia em sua ideia de Deus, distinguindo-a radicalmente daquela defendida por Maimnides.

    Palavras-chave Crescas, Maimnides, existncia, quididade, imanncia, transcendncia.

    ABSTRACT This article presents and discusses the path followed by Hasdai Crescas (1340-1411), medieval Jewish philosopher who lived in

    * Doutor em cultura judaica pela Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas da Universidade de So Paulo (FFLCH-USP), ps-doutorado em filosofia pela mesma instituio, professor do Centro Universitrio Salesiano de So Paulo (UNISAL), professor convidado do Departamento de Letras Orientais (DLO) e pesquisador do Centro de Estudos Judaicos, ambos da USP. Artigo recebido em 10/06/2014 e aprovado em 12/08/2014.

    doi: 10.1590/0100-512X2015n13111al

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    Barcelona for the elaboration of his proof for existence of God, formulated from his critique of the evidence presented by Maimonides (1138-1204) in the Guide of the Perplexed. Crescass critique starts with the formulation of a general concept of existence applicable to both the necessary being as to the contingent beings. Another interesting aspect of his way to formulate his proof is Crescass distinction between existence and quiddity in the necessary being, a unique position among the medieval philosophers that introduces an important aspect of immanence in his idea of God, which radically differs from that advocated by Maimonides.

    Keywords Crescas, Maimonides, existence, quiddity, immanence, trans-cendence.

    Distino entre quididade e existncia em Deus

    na terceira seo do primeiro tratado de or Hashem (Luz de Deus), Hasdai Crescas conclui sua crtica a Maimnides ao completar a anlise das provas para a existncia, a unidade e a incorporeidade de Deus apresentadas no Guia dos Perplexos. Esse caminho chegar ao final do primeiro tratado com sua abordagem do significado do amor divino. Numa retrospectiva da senda trilhada por Crescas ao longo do primeiro tratado de or Hashem, possvel notar que ele segue um caminho dialtico no qual, nesse primeiro tratado, debate com Maimnides e, por extenso, com outros filsofos aristotelizantes medievais rabes e judeus. assim que Crescas, na primeira seo das trs que compem o primeiro tratado de seu livro, expe os argumentos adversrios em prol das 26 proposies e as provas da existncia de Deus tal como entendidas luz dos comentadores avicenianos e averrostas de Maimnides. Crescas debate tanto com a posio aristotelizante elaborada por Avicena, modulada por elementos neoplatnicos, quanto com a de Averris, que se distancia dos elementos neoplatnicos em prol de uma releitura de Aristteles.

    Na segunda seo do primeiro tratado de Or Hashem, so feitas ento a crtica das 26 proposies e a das provas para a existncia divina apresentadas no Guia. O resultado dessas crticas implica a rejeio da fsica aristotlica, tal como recebida na tradio da filosofia medieval rabe e judaica, mas Crescas no debate somente com esses autores, cujas obras estavam disponveis em hebraico em seu tempo, para chegar a essa nova fsica. Alm da relao com a falsafa, o debate antiaristotlico latino ecoa em Crescas. Shlomo Pines e os pesquisadores que seguem sua abordagem veem tambm, em or Hashem,

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    um dilogo e um debate em voz baixa, nas entrelinhas, com diversos filsofos escolsticos latinos, em especial com Duns escoto, Jean Buridan e nicolau Oresme. So esses os latinos cujas obras refletem os ecos das condenaes de Paris de 1277. no campo das literaturas sapienciais judaicas do medievo, h ainda em Crescas a recepo de fontes oriundas da literatura mstica e da talmdica, ambas cultivadas em seu tempo em Arago e na Provena. o dilogo com essas fontes menos velado que aquele travado com os latinos. O interessante que essas tradies sapienciais judaicas no filosficas refletem, como nos escritos de autores do crculo de Girona, elementos de uma recepo ecltica de ideias tanto neoplatnicas quanto estoicas (Freudenthal, 1998). De todo esse complexo caminho emerge a fsica esboada por Crescas, que defende a possibilidade de um universo infinito e eterno formado por mundos finitos, em que o vcuo o lugar geral de todos os corpos. Ao final, as noes aristotlicas de que o meio necessrio para que ocorra o movimento e a de lugar natural para onde os elementos tenderiam tambm so rejeitadas.

    na terceira seo do primeiro tratado, ao concluir seu percurso caracterizado por uma forma de debater que agrega elementos da dialtica talmdica e talvez da disputatio latina, Crescas apresenta finalmente suas provas para a existncia, a unidade e a incorporeidade divinas. essa apresentao das provas foi precedida e est embebida de uma veemente crtica metafsica aristotelizante medieval, cujo resultado, no pensamento de Crescas, esboar, alm daquilo que Wolfson (1971) caracterizou como nova fsica, a prenunciar aquela do Renascimento, tambm uma nova metafsica que entende Deus, sua existncia e unidade, de modo muito diferente do Deus radicalmente transcendente do Guia dos Perplexos e do Mishn tor. A ideia da transcendncia divina era ento tradio havia muito estabelecida nos crculos filosficos judaicos de seu tempo. Na metafsica formulada por Crescas, Deus, apesar de sua quididade ser considerada inefvel, incompreensvel e transcendente, tambm apresenta aspectos de imanncia, como sua presena, existncia e em sua atualidade como causa primeira constante geradora de infinitos efeitos. Deve-se notar que essa metafsica j esboada por Crescas na segunda seo do primeiro tratado, em que Deus apresentado como lugar do universo, que todo preenchido por sua Presena (kavod), e tambm como causa primeira imanente a cada elemento da srie infinita de causas e efeitos. No entanto, na terceira e ltima seo que finalmente so elaboradas as relaes entre quididade e existncia, atualidade e unidade, e tambm a questo de se os atributos essenciais divinos devem ser conhecidos pela via negativa de Maimnides ou por outra via apresentada em suas teses. no auge do debate com Maimnides, Crescas defender a tese em prol dos infinitos atributos

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    essenciais divinos, e ento termina a terceira seo com sua discusso sobre a felicidade e o amor divinos. por essa via que esboa sua teologia divergente daquela elaborada por Maimnides.

    Crescas comea a enfocar o tema da existncia de Deus distinguindo, mas tambm relacionando os conceitos de quididade e existncia. Quididade, a essncia de algo, dita mahut no jargo filosfico hebraico medieval. Nesse mesmo hebraico filosfico medieval, existncia dita metziut. Mahut , como ser explicado de modo mais detalhado adiante, corresponde a um substantivo abstrato derivado da preposio interrogativa mah (o que) em hebraico. Metziut , outro substantivo abstrato, deriva da mesma raiz de matz : encontrar, deparar-se; usualmente, nos textos filosficos hebraicos medievais, significa existncia. O uso dessa raiz para denotar existncia anmalo no hebraico at ento e tem sua origem no decalque do termo usado na filosofia rabe. Outros sinnimos de existncia usados nos textos medievais, como esclarece Wolfson (1916, pp. 186-189, nota 86), so hiut ou ieshut interessante que este ltimo foi tambm comumente usado . e hovnos textos msticos, como no Guinat Egz, de Yossef Gikatila (sc. XIII). Crescas prefere usar o termo metziut, mais comum no vocabulrio filosfico hebraico medieval, bem como tambm aparece nas tradues hebraicas dos escritos de Maimnides.

    nesse momento de sua reflexo que ele enfoca finalmente esse debate clssico medieval. Qual o sentido da afirmao Deus existe? Para responder a essa pergunta, muitos medievais partiam do pressuposto de que, no caso de Deus, sua existncia deve ser considerada idntica sua essncia. esse era quase um lugar-comum aceito ento tanto entre rabes quanto entre judeus e latinos. desse modo que refletir sobre o que deve ser entendido por existncia e por quididade e se tais conceitos so ou no idnticos no ser necessrio precedem a enunciao por parte de Crescas de sua prova para a existncia de Deus em OH 1,3,2. nessa discusso acerca da relao entre quididade e existncia, ambas terminam por ser distinguidas, uma da outra, no apenas nos seres em geral, mas at em Deus. outra discusso empreendida por Crescas antes de enunciar sua prova para a existncia de Deus sobre se o conceito de existncia aplicado ao ser necessrio deve ser to radicalmente distinguido da existncia do conjunto dos seres contingentes. Ser que um atributo como existncia tem, entre Deus e os seres em geral, uma relao de homonmia ou de anfibologia, isto , ser que a existncia predicada a Deus e aos seres de maneiras radicalmente distintas, sem nenhuma relao entre eles, ou, pelo contrrio, a existncia deve ser predicada a Deus e aos seres do mesmo modo, ainda que com diferena de grau ou de prioridade ontolgica? A questo aqui

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    se h um conceito ger