consideraÇÕes acerca do uso de mÁquinas elÉtricas no ambiente domÉstico

Download CONSIDERAÇÕES ACERCA DO USO DE MÁQUINAS ELÉTRICAS NO AMBIENTE DOMÉSTICO

Post on 29-Sep-2015

18 views

Category:

Documents

14 download

Embed Size (px)

DESCRIPTION

.

TRANSCRIPT

  • Projeto Histria, So Paulo, n.35, p. 397-412, dez. 2007 367

    CONSIDERAES ACERCA DO USO DE MQUINAS ELTRICAS NO AMBIENTE DOMSTICO*

    Mrcia Bomfi m de Arruda**

    O ambiente domstico de hoje repleto de mquinas eltricas que medem as inme-ras atividades que so realizadas de forma rotineira. As prticas alimentares, de higiene, de descanso, de lazer, de contato com o mundo, de sociabilidade constituem-se, muitas vezes, por meio de aparelhos como: refrigerador, fogo, torradeira, exaustor, ventilador, ar condicionado, mquina de lavar loua, mquina de lavar roupa, microondas, batedeira, liquidifi cador, televiso, telefone, computador, aparelho de som e muitos outros. Mas nem sempre foi assim.

    A familiaridade que temos hoje com esses objetos nos impede, muitas vezes, de pensarmos que existe uma histria da presena e dos usos das mquinas no ambiente do-mstico. Se no ambiente de trabalho, nas fbricas, muita resistncia teve que ser vencida para a incorporao das mquinas no processo de produo, como ter sido sua adoo nas atividades domsticas? Que adaptaes foram necessrias? Ser que houve resistn-cia? Que mudanas de hbitos, comportamentos, pensamentos implicaram na entrada da tecnologia nos lares? De que esses objetos so a materializao?

    No Brasil, enquanto o uso das mquinas no ambiente de trabalho - principalmente na fbrica e no espao pblico (bondes, automveis) - mereceu ateno de inmeros autores, o mesmo no se pode dizer do espao privado. Que investimentos - tcnicos, de design, publicitrio, polticos - foram feitos para que os eletrodomsticos fossem aceitos nos lares brasileiros?

    Muitas respostas surgem para explicar a ampla aceitao desses objetos tcnicos: fa-cilidade, comodidade, conforto, menos trabalho, beleza, modernidade. No entanto, acei-tar estas respostas signifi caria naturalizar a existncia desses objetos, como se eles fossem o resultado bvio de um tipo de desenvolvimento tecnolgico, cujo fi m estaria apenas na satisfao das necessidades humanas. Este , em parte, o discurso que encontramos nas propagandas de eletrodomsticos e que merece ser problematizado. Cada um desses

  • Projeto Histria, So Paulo, n.35, p. 367-382, dez. 2007368

    Mrcia Bomfim de Arruda

    objetos que hoje entendemos como fundamental para nossa vida , de fato, a expresso de necessidades que foram criadas historicamente.

    A inteno aqui no ser a de tentar responder s inmeras interrogaes que surgem ao eleger os eletrodomsticos como objeto de estudo. Essas perguntas tm o propsito de apontar possibilidades de investigao de um tema que ainda no foi muito explorado no campo da histria no Brasil. Portanto, o objetivo ser o de problematizar as idias expres-sas no prprio design dos eletrodomsticos, assim como o discurso da mdia a respeito dos usos desses objetos.

    Encante seu lar com a eletricidade

    Quando se usa o termo eletrodomstico, como o prprio nome diz, imediatamente vem mente a imagem de uma infi nidade de utenslios domsticos movidos eletrici-dade. O dicionrio Aurlio (BUARQUE DE HOLANDA, Aurlio. 1999) defi ne o termo como, aparelhos eltricos de uso caseiro e, para o dicionrio Houaiss,(HOUAISS, Ant-nio e VILLAR, Mauro de Salles. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001) diz-se de ou utenslio ligado eletricidade e usado para proporcionar comodidade, lazer ou auxiliar nas tarefas domsticas. Entretanto, alguns deles podem funcionar movidos por outros meios como querosene, carvo, lenha ou o gs.

    Alguns dos eletrodomsticos que conhecemos hoje foram originalmente criados para funcionar com outros combustveis e, posteriormente, adaptados para a eletricidade. Di-ferente do que se pode pensar, o uso da eletricidade nos equipamentos domsticos no foi resultado meramente de um avano do conhecimento cientfi co ou do progresso, idias que aparecem com freqncia nas histrias da tecnologia.(FORTY, Adrian. Objetos de Desejo - Design e Sociedade desde 1750, So Paulo: Cosac Naify, 2007: 248)

    Na Gr-Bretanha, no fi nal do sculo XIX, diversifi car a demanda por energia eltrica antes utilizada, principalmente, para iluminao, foi uma necessidade das indstrias que produziam esse tipo de energia. A venda de eletricidade apenas para iluminao causava problemas na economia de escala. Como o consumo maior era durante a noite, ao longo do dia a capacidade geradora das usinas fi cava ociosa. No havia como armazenar ele-tricidade gerada fora do pico e, assim, a demanda desigual era um srio problema para a indstria. Para conseguir lucro e cobrir o alto custo da produo, tornava-se necessrio criar outras demandas para a eletricidade que no fossem somente a iluminao e que no ocorresse somente no perodo noturno (Ibid: 249-250).

    No caso da Gr-Bretanha, as empresas de fornecimento de energia fi zeram uso de uma intensa publicidade para convencer as pessoas de que a energia eltrica representava modernidade, progresso, positivando sua imagem atravs da idia de que traria benefcios

  • Projeto Histria, So Paulo, n.35, p. 367-382, dez. 2007 369

    Consideraes acerca do uso de mquinas eltricas no ambiente domstico

    no futuro. As empresas tiveram que enfrentar alguns obstculos nessa caminhada, rumo a um suposto progresso: o alto preo da eletricidade em comparao com outros tipos de combustvel; o fato de que as residncias, quando muito, estavam adaptadas apenas para iluminao e no possuam tomadas; e tambm o medo, j que a idia comum identifi cava a eletricidade a uma fora obscura, invisvel e letal. (Ibid: 255-256)

    Na Gr-Bretanha, se cada consumidor agisse com instintos econmicos racionais, o crescimento da demanda eltrica entre 1920 e 1939 no teria sido to grande quanto foi (Ibid: 260). A eletricidade no era mais efi ciente que o gs para cozinhar e aquecer e, ainda custava mais caro, portanto os consumidores que a escolheram deviam ter sido infl uenciados por outros motivos. Segundo Forty (Ibid), os motivos estavam na publici-dade que foi feita apresentando a eletricidade como uma fonte de energia progressista e libertadora com potencial futuro ilimitado e, tambm, na melhoria do design dos ele-trodomsticos. A eletricidade s pode ser comercializada efetivamente por meio de seus aparelhos e, para atrair consumidores, estes deveriam ser - ou parecer - tecnologicamente avanados. (Ibid: 260)

    No Brasil, nas primeiras dcadas do sculo XX, as empresas de eletricidade tinham controle sobre alguns setores de servios pblicos, como telefones e bondes. Em depoi-mento de Armando de Moraes Samento, que trabalhou na dcada de 1930 no Departa-mento de Promoes das Empresas Eltricas Brasileiras, de propriedade da American Foreign Power, ele afi rma que a empresa era acionista controladora de vrias empresas de utilidade pblica no Brasil, entre elas as do Rio Grande do Sul, da Bahia, de Pernambuco e de empresas de vrias cidades do interior de So Paulo. A funo de Samento era criar demanda para o aumento de consumo de energia eltrica. Na agncia de publicidade que trabalhava, a N. W. Ayer, entre os clientes estava a General Electric e, ento, faziam pro-moo de ferros de engomar e refrigeradores, principalmente. (Samento, 1990: 02)

    No fi nal da dcada de 1930, no Brasil, a empresa Ligth, que atuava na rea de energia eltrica incentivava a colocao de tomadas nas residncias. O que indica que o consumo de equipamentos eltricos no perodo encontrava obstculos de ordem prtica. O anncio da empresa apresentava um desenho onde se podia ver o ambiente de uma sala e um casal procurando tomadas para ligar uma luminria, um ventilador, um aspirador de p, um fongrafo (O Cruzeiro, 16/01/1937: 52). Em 1943, um anncio da Companhia de Carris, Luz e Fora do Rio de Janeiro fazia propaganda de um programa musical de rdio, cha-mado Ondas Musicais. O anncio propunha: Sirva-se da eletricidade e o programa ia ao ar das 13 s 14 horas (Ibid, 22/05/1943, ano XV, n. 30, capa).

    Ao longo do ano de 1946 a General Electric veiculou uma campanha, com v-rios anncios que propunham Encante seu lar com a eletricidade, e aproveitava para

  • Projeto Histria, So Paulo, n.35, p. 367-382, dez. 2007370

    Mrcia Bomfim de Arruda

    oferecer, alm dos materiais para instalao eltrica que a marca produzia, seus apa-relhos domsticos: mquina de lavar pratos, fogo eltrico, cafeteira, assadeira, passa-deira porttil, radiador eltrico (ventilador), ferro de engomar, rdio, aspirador de p, misturador de alimentos (batedeira), cobertor eltrico, torradeira. Um dos anncios tra-zia a frase: Mande os criados eltricos G-E prepararem a primeira refeio da manh (Ibid, 09/03/1946: 87).

    Por esses indcios podemos pensar que tambm no Brasil, nas primeiras dcadas do sculo XX, o consumo de eletricidade nas residncias ainda era, essencialmente, para ilu-minao. O que implicava em prejuzo para as empresas ligadas ao ramo de eletricidade, que necessitavam da diversifi cao nos usos da energia eltrica e da criao de condies concretas para a expanso dos seus negcios, como instalao de tomadas nas casas.

    Os primeiros aparelhos eltricos para uso domstico que chegaram ao Brasil vinham da Europa e dos Estados Unidos. No incio do sculo XX, apesar dos anncios na impren-sa, o consumo ainda era restrito, o preo alto e o custo para a importao, alm das difi -culdades no fornecimento de energia eltrica, contribuam para isso. Outros fatores como a ausncia nas casas de instalaes eltricas, falta de tcnicos especializados no conserto desses equipamentos e ainda, o medo da eletricidade, tambm podem ter infl uenciado. Nos anos 1940 havia nas revistas avisos dirigidos s donas-de-casa para que tomassem certos cuidados com os aparelhos eltricos, pois podiam causar acidentes e at a morte.

    A expanso e a consolidao do uso da eletricidade no espao domstico urbano, a partir dos anos 1920, foi rpida. Na dcada de 1940, nas maiores cidades brasileiras, aproximadamente metade do total das residncias urbanas possuam instalao eltrica. Em boa parte das casas a energia eltrica ante