CONSERVAÇÃO DE FORRAGEIRAS NATIVAS E INTRODUZIDAS

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<ul><li><p> 1 </p><p>CONSERVAO DE FORRAGEIRAS NATIVAS E INTRODUZIDAS </p><p>GUILHERME FERREIRA DA COSTA LIMA1, FRANCISCO CANIND MACIEL2 </p><p> 1 Pesquisador Embrapa/EMPARN, Rua Jaguarari, 2192 L. Nova; Natal RN guilhermeemparn@rn.gov.br 2 Pesquisador Embrapa/EMPARN, Rua Jaguarari, 2192 L. Nova Natal RN macielemparn@rn.gov.br </p><p> RESUMO </p><p> A pecuria representa uma das mais importantes atividades para os </p><p>pequenos agricultores familiares do semi-rido brasileiro. Em funo de sua </p><p>menor vulnerabilidade seca quando comparada s exploraes agrcolas, ela </p><p>tem se constitudo num dos principais fatores de fixao do homem terra e de </p><p>gerao de emprego e renda na regio. No entanto, devido marcada </p><p>estacionalidade na disponibilidade dos pastos nativos e a limitada rea dos </p><p>estabelecimentos rurais, o desempenho produtivo dos rebanhos baixo, </p><p>principalmente devido a reduzida oferta de alimentos no perodo seco. Nesse </p><p>cenrio, a produo e a conservao de forrageiras nativas e cultivadas </p><p>surgem como uma alternativa natural para disponibilizar alimentos nos </p><p>perodos de estresse nutricional dos rebanhos. Por outro lado, as barreiras </p><p>culturais, a insuficiente assistncia tcnica, a pequena disponibilidade de </p><p>mquinas e o desconhecimento das prticas de armazenamento de forragens </p><p>determinam um baixo ndice de adoo de tecnologias de formao de </p><p>reservas forrageiras estratgicas. A presente reviso procura apresentar os </p><p>resultados de pesquisa disponveis sobre o assunto, com nfase nas </p><p>tecnologias apropriadas para os produtores com baixa capacidade de </p><p>investimento. Nesse contexto so apontadas opes de prticas simplificadas </p><p>de conservao como a ensilagem e a fenao, utilizao de secadores </p><p>solares e enfardadeiras manuais e formas de armazenar alimentos no seu </p><p>estado natural, como a palma forrageira, o capim elefante irrigado, o sorgo, e </p><p>as leguminosas manejadas como bancos de protena . ainda ressaltada a </p><p>importncia dos resduos da agroindstria na alimentao dos ruminantes com </p><p>sugestes de prticas de manejo, conservao e utilizao. </p></li><li><p> 2 </p><p>ABSTRACT </p><p>Conservation of Native and Introduced Forages </p><p> Animal husbandry is one of the most important activities for the </p><p>smallholders producers of the brazilian semi-arid region. Due to its small </p><p>vulnerability to drought periods, when compared to agriculture, cattle raising has </p><p>been converted on the major factor to maintain smallholders in rural areas, and </p><p>to generate employment and income. On the other hand, due to the strong </p><p>seasonability of the native pastures and the limited areas of the farms, the </p><p>performance of the herds is very low. In this context the production and </p><p>conservation of native and cultivated forages emerge as a natural alternative to </p><p>struggle against nutritional stress of the animals. The low level of technology </p><p>adoption by smallholders is motivated by cultural barriers, lack of technical </p><p>assistance, lack of machinery availability, and low knowledge of practical forage </p><p>conservation methods. This revision try to show the available research results </p><p>about forage conservation with emphasis on appropriate technologies for </p><p>smallholders. In this way several information are pointed out about silage, hay, </p><p>solar driers, manual hay bailing, and other forages like elephant grass, </p><p>sorghum, forage cacti, and legumes managed as protein banks. It is also </p><p>emphasized the importance of agricultural by-products for ruminant nutrition. </p><p> INTRODUO </p><p> Com uma rea aproximada de 882 mil km2, o semi-rido nordestino </p><p>abriga cerca de 18 milhes de habitantes e tem uma densidade demogrfica de </p><p>20/hab/km2 (Duarte, 2001). A presena de cerca de 50% da populao do </p><p>Nordeste e nove milhes de habitantes na zona rural numa regio </p><p>caracterizada por limitaes ambientais, d a dimenso dos desafios existentes </p><p>para a elaborao de polticas governamentais para o desenvolvimento </p><p>regional. Dentre essas limitaes, a restrio da rea dos minifndios torna </p><p>difcil estruturao de suportes alimentares para os sistemas de produo </p><p>pecurios regionais. </p><p>O Nordeste possui 1.570.511 estabelecimentos rurais, dos quais 67,5% </p><p>apresentam rea inferior a 10 ha e 26,0% so maiores que 10 ha e menores </p><p>que 100 ha (IBGE, 1996). </p></li><li><p> 3 </p><p>Guimares Filho e Lopes (2001), afirmam que nas reas mais secas da </p><p>regio so necessrios 200 a 300 ha para manter, em condies semi-</p><p>extensivas, um rebanho caprino ou ovino de corte de 300 matrizes. Para os </p><p>autores, este nmero representa o rebanho mnimo necessrio para viabilizar a </p><p>acumulao de meios de produo de uma famlia. </p><p>A pecuria tem grande expresso econmica e social no Nordeste, </p><p>incluindo-se entre algumas das poucas atividades com possibilidade de </p><p>explorao em sistemas de sequeiro na regio. </p><p>Para Chedly e Lee (2005) a pecuria tem um papel significante para os </p><p>pequenos agricultores dos pases em desenvolvimento, pois ela prov </p><p>elementos essenciais economia, tais como: trao animal, transporte, esterco </p><p>como fertilizante e combustvel, alimento, fibras, couro, poupana e renda, pela </p><p>venda de animais e produtos. </p><p> A frgil estrutura de suporte alimentar dos rebanhos nordestinos reflete </p><p>a baixa capacidade de suporte dos pastos nativos, particularmente das </p><p>caatingas, as secas peridicas e a errtica distribuio das chuvas, a reduzida </p><p>utilizao de pastos cultivados, o alto custo dos concentrados comerciais e a </p><p>ausncia de tradio no armazenamento de forragens nas formas de feno e </p><p>silagem. </p><p>Mesmo nessas condies desfavorveis, estudos recentes da </p><p>EMBRAPA/Semi-rido em 107 municpios situados nas reas secas do </p><p>Nordeste, constataram que cresce a renda dos produtores, medida que se </p><p>eleva a participao da pecuria na unidade produtiva (ARAJO, 2003). </p><p>Com a baixa capacidade de suporte dos pastos nativos e a pequena </p><p>rea dos estabelecimentos rurais e das pastagens cultivadas, so limitadas as </p><p>alternativas para o desenvolvimento de uma pecuria com uma escala de </p><p>produo sustentvel para a agricultura familiar fora da produo intensiva de </p><p>forragens e da utilizao de prticas de armazenamento. </p><p>Dentre as tecnologias capazes de duplicar ou at mesmo triplicar a </p><p>produo de carne e leite no Nordeste brasileiro, Oliveira (1994) relaciona as </p><p>seguintes: produo e conservao de forragens, esquemas de suplementao </p><p>alimentar durante pocas crticas, utilizao de subprodutos e resduos da </p><p>agroindstria, disseminao e uso de forrageiras mais produtivas, recuperao </p><p>de pastagens degradadas e sistemas alternativos de pastejo. </p></li><li><p> 4 </p><p>No existem dvidas que um dos principais impedimentos viabilizao </p><p>de sistemas pecurios no Nordeste a pequena disponibilidade de volumosos </p><p>de qualidade e o manejo inadequado dos recursos forrageiros existentes. </p><p>Quando se considera, a ttulo de exemplo, as necessidades de um </p><p>rebanho de 50 vacas leiteiras no semi-rido, com um perodo de seca de seis </p><p>meses e consumo mdio, por vaca, de 12 kg MS/vaca/dia, estima-se o </p><p>requerimento mnimo de 108 t. MS de forragens armazenadas por ano. Torna-</p><p>se praticamente impossvel, para pequenos criadores, obterem quantidades de </p><p>forragens dessa magnitude, sem contar com o cultivo de forrageiras de alta </p><p>produo. A combinao desses recursos forrageiros, associados a prticas </p><p>de ensilagem, fenao e utilizao de resduos da agroindstria, representa </p><p>uma slida base para edificar sistemas de produo no semi-rido. </p><p>Armazenar forragens de boa qualidade para utilizao no perodo seco </p><p>significa ir de encontro a um dos principais problemas da explorao pecuria </p><p>regional, que a extrema estacionalidade da produo forrageira. (MACIEL et </p><p>al., 2004a). </p><p>Embora o tema solicitado para a palestra resuma-se a conservao de </p><p>forrageiras nativas e exticas, enfocando particularrmente os processos de </p><p>fenao e ensilagem, pretende-se aqui ampliar a discusso sobre o leque de </p><p>alternativas forrageiras com potencial para o armazenamento e utilizao no </p><p>perodo seco do semi-rido nordestino. Dessa forma, sero consideradas </p><p>tambm, as espcies com potencial para armazenamento verde, ou na forma </p><p>natural, como a palma forrageira, o sorgo, o capim elefante irrigado, o capim </p><p>buffel e leguminosas para fenao e utilizao como bancos de protena, alm </p><p>dos resduos da agroindstria, utilizados na forma natural ou conservada. </p><p>Ser ainda abordado o grave problema da reduzida taxa de adoo de </p><p>novas tecnologias pelos agricultores familiares do semi-rido, notadamente na </p><p>rea de armazenamento de forragens, discutindo-se as barreiras existentes, os </p><p>fatores socioeconmicos, polticos e culturais, as ferramentas de combate ao </p><p>problema e o exemplo de um programa desenvolvido h mais de 12 anos pela </p><p>EMPARN Empresa de Pesquisa Agropecuria do Rio Grande do Norte. </p></li><li><p> 5 </p><p>REVISO DE LITERATURA </p><p>CAATINGA Nada melhor para respaldar a necessidade de ampliao de programas </p><p>de produo e conservao de forragens no semi-rido, que uma discusso </p><p>sobre o potencial forrageiro da caatinga nordestina. </p><p>Inicialmente importante ressaltar a existncia de uma diversidade de </p><p>tipos de vegetao de caatinga no semi-rido, onde Silva et al. (1992) </p><p>destacam a presena de 20 unidades de paisagem e 110 unidades </p><p>geoambientais distintas, gerando demandas polticas e tecnolgicas bastante </p><p>diferenciadas. Andrade-Lima (1981), ressaltando o aspecto da associao </p><p>entre espcies, realiza uma classificao com 12 tipos de unidades </p><p>vegetacionais de caatinga no Nordeste. </p><p>Sejam as caatingas ralas ou densas, arbustivas ou arbreas, altas ou </p><p>baixas, a disponibilidade de fitomassa comestvel para os ruminantes no </p><p>perodo seco bastante reduzida. </p><p>Comentando esse problema, Albuquerque (2001) ressalta que a </p><p>caatinga uma pastagem pobre que difere das outras pastagens nativas do </p><p>mundo em alguns aspectos, quais sejam: a alta densidade de arbustos e </p><p>rvores, que dificultam muitas operaes de manejo animal e as folhas do </p><p>estrato arbustivo-arbreo que caem cedo. </p><p>Lima et al. (1998) mensuraram em uma caatinga aberta do Serid </p><p>potiguar, uma disponibilidade mxima de 1,4 t. de MS no ms de abril e mnima </p><p>em dezembro com 0,4 t. Nesse tipo de caatinga, o estrato herbceo participou </p><p>com 74 a 87% da disponibilidade de fitomassa total e o estrato arbustivo com </p><p>13 a 26%. Em caatingas densas arbustivo-arbreas, na regio de Ouricuri-PE, </p><p>Lima (1985) registrou uma disponibilidade total de fitomassa, exceto cactos e </p><p>bromlias, da ordem de 0,5 t. MS/ha no perodo chuvoso, com 91,1% sendo </p><p>representado por folhas e brotos do estrato arbustivo. No perodo seco, nessas </p><p>mesmas reas, 94,8% da fitomassa disponvel eram folhas secas no cho. </p><p>Confirmando a alta variabilidade das unidades de caatinga, Arajo Filho et al. </p><p>(1995), citado por Cndido et al. (2005), indicam uma produo mdia anual </p><p>das forrageiras nativas do semi-rido da ordem de 4,0 t. MS/ha. </p></li><li><p> 6 </p><p>Fica claro que, mesmo possuindo uma grande diversidade de espcies </p><p>nativas, particularmente leguminosas, de alto valor forrageiro, a severa </p><p>estacionalidade na disponibilidade de forragem das caatingas promove </p><p>desempenhos animais bastante modestos. Albuquerque (2001) lista para </p><p>diversas unidades de caatinga do Cear, Paraba e Pernambuco, capacidades </p><p>de suporte de 5 a 15 ha/animal/ano e ganhos de peso de 5 a 49 Kg/ha/ano, em </p><p>sistemas explorando caatingas nativas e manipuladas. </p><p>Estudando formas de pastejo mltiplo nos sertes cearenses, Arajo </p><p>Filho et al. (2002ab) afirmam que as secas peridicas do semi-rido nordestino </p><p>reduzem o ganho de peso dos caprinos criados em caatinga, em cerca de 50% </p><p>e de ovinos criados em caatinga raleada em cerca de 41%. Mesmo utilizando </p><p>prticas de manipulao das caatingas, Arajo (1999) relata ndices de </p><p>capacidade de suporte para pequenos ruminantes de 1,0 ha/cab./ano na </p><p>caatinga rebaixada e de 0,5 a 1,0 ha /cab./ano, quando a caatinga raleada e </p><p>enriquecida. </p><p>Dessa forma, as unidades de vegetao de caatinga no semi-rido, </p><p>apresentam, como caracterstica comum, uma concentrao da produo de </p><p>fitomassa num perodo chuvoso de trs a cinco meses, onde normalmente o </p><p>estrato herbceo apresenta alta qualidade forrageira, mas com uma produo </p><p>efmera, que praticamente desaparece com a chegada do perodo seco. A </p><p>disponibilidade de forragens nos estratos arbustivo e arbreo varia de unidade </p><p>para unidade, mas normalmente baixa, precocemente caduciflia e muitas </p><p>vezes apresentando baixa digestibilidade, em funo da presena de </p><p>compostos anti-nutricionais caractersticos de plantas xerfilas. Por outro lado, </p><p> esse estrato arbustivo/arbreo que melhor representa a adaptao dessas </p><p>espcies ao ambiente, quando em um curto perodo de cerca de 15 dias aps </p><p>as primeiras chuvas, se transforma de arbustos cinzentos secos, sem nenhuma </p><p>folha, em uma exploso de brotos, que saciam a fome dos rebanhos </p><p>castigados pelo longo perodo de seca. </p><p>As limitaes das caatingas do semi-rido no aspecto quantitativo de </p><p>disponibilidade de fitomassa so por outro lado compensadas por uma grande </p><p>diversidade de espcies forrageiras, principalmente leguminosas, de alto valor </p><p>forrageiro e plenamente adaptadas ao ambiente. No entanto, existe uma </p><p>grande demanda no atendida por trabalhos de melhoramento vegetal, </p></li><li><p> 7 </p><p>fisiologia e reproduo dessas espcies forrageiras, para garantir, por exemplo, </p><p>uma maior produo de fitomassa, perodos de manuteno de folhas mais </p><p>extensos, melhor relao folha/caule, maior digestibilidade pela reduo de </p><p>compostos anti-nutricionais e um domnio sobre as melhores condies de </p><p>produo de sementes, cultivo e manejo. Essa carncia de estudos pode ser </p><p>comprovada pelo pequeno nmero de espcies forrageiras nativas do semi-</p><p>rido disponveis comercialmente para serem utilizadas. </p><p>A pequena produo pecuria familiar do semi-rido tem, nas caatingas </p><p>e pastos nativos, seu principal suporte forrageiro. Dessa forma, resta a esses </p><p>produtores, como opo de manejo, utilizar esses pastos at o limite de sua </p><p>capacidade, com rotaes de cercados, enriquecimento do estrato herbceo </p><p>com gramneas como os capins buffel e urocloa e selecionar a melhor </p><p>alternativa de armazenamento de forragens para garantir o alimento dos </p><p>rebanhos no perodo seco. Essas alternativas no se limitam s prticas de </p><p>fenao e ensilagem e podem incluir o cultivo da palma forrageira e sorgo, </p><p>manejo de cactos nativos, uso de resduos agroindustriais, capineiras irrigadas, </p><p>bancos de protena, entre outras. </p><p>FENAO </p><p>O feno a forma mais antiga e de maior importncia de conservar a </p><p>forragem, apesar da dependncia de condies climticas satisfatrias no </p><p>perodo da colheita. Pode ser produzido com equipamentos simples, </p><p>manualmente ou com mecanizao, e, em pequena ou grande escala, </p><p>assegurando alimento volumoso ao gado na estao seca (SUTTIE, 2000). </p><p>Em funo da pequena existncia de gramneas e leguminosas mais </p><p>indicadas para produo de fenos (tifton, coast cross, pangola, alfafa, entre </p><p>outras) no semi-rido, faz-se necessrio difundir a utilizao da fenao de </p><p>espcies forrageiras adaptadas regio, com alto potencial de produo de </p><p>matria seca, mesmo que estas no apresentem as caractersticas </p><p>tradicionalmente mencionadas das espcies recomendadas para a fenao </p><p>(muitas folhas, talos finos) ou requeiram processos alternativos de dessecao. </p><p>Projetos desenvolvidos pel...</p></li></ul>