conhecimento, ceticismo e justificação

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  • FUNDAMENTO Revista de Pesquisa em Filosofia, n. 4, janjun - 2012

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    Conhecimento, ceticismo e justificao

    Giovanni RollaUniversidade Federal do Rio Grande do Sul

    ResumoArgumentos cticos so, frequentemente, ditos paradoxais: concluses contraintuitivas se-guem-se de premissas primeira vista bastante aceitveis. A pergunta que pretendo responder neste ensaio : qual a atitude correta diante dos argumentos cticos? Para responder a essa pergunta, devemos, primeiramente, determinar quais argumentos esto em jogo. Identifican-do-os, podemos desvelar o que h de profundamente inquietante na posio adotada pelo ctico: o problema no o conhecimento, mas a justificao epistmica. Ao final deste ensaio, ofereo um esboo de soluo ao problema ctico.

    Palavras-chaveCeticismo, epistemologia contempornea, conhecimento, justificao

    AbstractSkeptical arguments are frequently said paradoxical: counterintuitive conclusions follow from premises at first sight clearly acceptable. The question I want to answer in this essay is: which is the correct attitude regarding the skeptical arguments? To answer this, we shall first determine

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    which arguments are in play here. Identifying those arguments, we can show what is deeply disquieting in the position adopted by the skeptic: the problem is not knowledge, but epistemic justification. At the end of this essay, I offer a sketch of solution to the skeptical problem.

    KeywordsSkepticism, contemporary epistemology, knowledge, justification

    Argumentos cticos so, frequentemente, ditos paradoxais: concluses contraintuitivas seguem-se de premissas primeira vista bastante aceitveis. Essa uma razo pela qual eles nos causam tamanha perplexidade e acompanham de perto os nossos inquritos epis-temolgicos desde, pelo menos, a Idade Moderna. Qual a atitude que devemos assumir diante desses argumentos? Para responder a essa pergunta, devemos, primeiramente, deter-minar quais argumentos esto em jogo. Ao identificarmos esses argumentos teremos con-dies de desvelar o que h de profundamente inquietante na posio adotada pelo ctico: o problema no o conhecimento, mas a justificao epistmica.

    1. Princpio de fechamento epistmico e teoria de rastreamento

    O ceticismo, recentemente, reconquistou o centro das atenes na Filosofia contempor-nea, especialmente entre os filsofos da tradio analtica. Durante grande parte da segunda metade do sculo passado, o interesse de maior parte dos epistemlogos esteve nos argumen-tos cticos formulados por meio do Princpio de Fechamento Epistmico (doravante, PFE)1, o que levou a algumas reaes mirabolantes em defesa do nosso suposto conhecimento. O PFE o princpio de que (para qualquer sujeito S e quaisquer proposies P e Q):

    (PFE) Se S sabe que P e S sabe que P implica Q, S sabe que Q

    Notemos que a plausibilidade desse princpio est, pelo menos primeira vista, acima

    1 - Os nomes mais notveis so: Dretske (1970), Nozick (1981) e DeRose (1995) e, naturalmente, a legio de defensores das ideias por eles apresentadas no debate com os cticos.

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    de qualquer suspeita, pois ele descreve o modo como procedemos ao realizarmos uma pro-va por modus ponens em que conhecemos as premissas. Agora, notemos que o caminho de volta desse princpio diz o seguinte:

    (PFE) Se S sabe que P implica Q e S no sabe que Q, S no sabe que P

    Essa formulao nos bastante familiar: ela nos remete diretamente aos argumentos cticos, pois, com um breve exerccio de imaginao, podemos ter em mos uma proposi-o Q que seja, pelo menos primeira vista, incognoscvel. Imaginemos o seguinte cen-rio, que frequentemente descrito pelos filsofos encarregados de dar voz ao ctico (pois, lembremos, no h tantos cticos quanto interessados em serem seus interlocutores). Um indivduo tem seu crnio aberto, seu crebro retirado e transportado a uma cuba em Alfa Centauri, em que mantido vivo com nutrientes. L, seus inputs perceptuais so alimenta-dos por um supercomputador que oferece informaes qualitativamente idnticas s que ns recebemos aqui. Vamos batizar esse cenrio de Hiptese Ctica (HC). importante notar que o sujeito encubado no tem como verificar que HC no o caso isto , todas as evidncias das quais ele dispe, as informaes perceptuais que so oferecidas pelo su-percomputador a que est conectado, so compatveis com a verdade de HC. Assim, pela descrio do cenrio em questo, no h nada que possamos fazer com as evidncias de que dispomos que possa verificar a falsidade de HC, isto , no podemos descobrir que HC falsa. Desse modo, deve ficar claro que, no argumento ctico que opera pelo PFE, HC ocupa o lugar de Q. Com um pouco de raciocnio adicional, qualquer sujeito pode inferir que uma proposio emprica qualquer P, como, aqui est uma mo, implica a falsidade de HC (tal como a concebemos). Ns temos, ento, o seguinte argumento:

    (F1) Se S sabe que P, ento S sabe que HC

    (F2) S no sabe que HC

    Logo, (F3) S no sabe que P

    Essa , em linhas muito gerais, a estratgia mais comumente atribuda aos cticos, fre-quentemente identificada na primeira meditao de Descartes. A reao mirabolante que mencionei acima consiste em negar o PFE, o princpio epistmico que opera nesse argu-

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    mento, como desenvolvida mais notoriamente por Nozick (1981)2. Nozick oferece uma anlise do conceito de conhecimento que tem como consequncia a falsidade do PFE, sal-vando (assim cr Nozick) o nosso suposto conhecimento da ameaa ctica e concedendo ao ctico que h algo de correto no seu argumento, nomeadamente, que no sabemos que as hipteses cticas so falsas (como veremos a seguir). Sua estratgia depende da anlise de conhecimento como crena verdadeira sensvel verdade, a assim chamada Teoria do Rastreamento. Essa teoria seguiu o fluxo torrencial de produo provocado pelos proble-mas de Gettier (1963), que atacavam a suficincia da tradicional anlise de conhecimento em crena verdadeira justificada. Que conhecimento seja crena verdadeira justificada hoje identificado como uma teoria internalista do conhecimento, segundo a qual a posse de uma garantia epistmica inteiramente acessvel do ponto de vista do sujeito cognoscente (a justificao), como evidncias ou razes, condio necessria para o conhecimento. A res-posta externalista surgida no ocaso do internalismo foi negar que a posse de justificao seja sequer condio necessria para o conhecimento o que especialmente claro nas condies (N3) e (N4) a seguir, que constituem a teoria do rastreamento de Nozick3:

    (1) P

    (2) S cr que P

    (N3) Se P fosse falso, S no acreditaria que P

    (N4) Se P fosse verdadeiro, S acreditaria que P4

    As condies (1) e (2) so geralmente tomadas como incontroversas. Para saber que uma proposio P o caso, o sujeito deve ao mnimo acreditar nela e ela deve ser verdadeira. Como bem sabido, apenas essas condies incontroversas so insuficientes para a posse de conhe-cimento, pois elas no excluem que a crena do sujeito seja verdadeira em funo da sorte: tal a moral do exemplo do relgio quebrado5. Imaginemos um relgio de ponteiros que subi-tamente deixa de funcionar digamos, s 12h30 da noite. Os ponteiros, congelados, marcam

    2 - Dretske (1970) tem o mesmo objetivo, mas o faz por outra via, a apresentao de contraexemplos. Gail Stine (1971) argu-mentou satisfatoriamente que os contraexemplos de Dretske ao PFE no so eficazes como ele acreditava que eram.3- Nozick foi precedido, como ele prprio reconhece em tom confessional (1981: 689-90, nota 53), entre outros por Dretske (1971) e por Goldman (1976), que apresentaram anlises externalistas do conceito de conhecimento que contm condicio-nais subjuntivos, a mais famosa das quais o confiabilismo de Goldman.4 - Cf. Nozick (1981: 172-6) para o modo como ele chega s condies que ns estamos chamando de (N3) e (N4). preciso refin-las e introduzir um mtodo por meio do qual a crena obtida, mas isso no relevante aqui para os nossos propsitos.5 - Encontrado em Russell (1975: 140).

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    esse horrio. s 12h30 do dia seguinte, olhamos esse relgio e, sem desconfiarmos do seu funcionamento, adquirimos a crena verdadeira de que so 12h30. Essa crena, apesar de ver-dadeira, obviamente devida sorte e, portanto, no se qualifica ao ttulo de conhecimento. Naturalmente, dizer que uma crena verdadeira em funo da sorte demanda que expli-quemos o que entendemos por sorte. Uma interpretao razovel que um evento devido sorte quando ele ocorre em determinadas circunstncias (digamos, no mundo atual), mas no ocorreria em muitas circunstncias semelhantes. A apropriao desse uso do conceito de sorte para a epistemologia explica que uma crena verdadeira em funo da sorte quando, apesar da sua verdade, muito facilmente ela teria sido falsa se tivssemos olhado o relgio alguns minutos antes ou depois, nossa crena teria sido falsa6.

    Isso sendo dito, podemos notar que as condies da anlise de Nozick so condicionais subjuntivos que, se satisfeitos, evitam que a crena alvo de conhecimento seja verdadeira em funo da sorte. Antes de vermos como funciona a excluso de crenas verdadeiras em funo da sorte, precisamos lanar luz sobre a verificao desses condicionais. Para a verificao de (N3) (se P fosse falsa, eu no acreditaria que P), a sugesto padro que o consequente deva ser verdadeiro no mundo possvel mais prximo (ou nos mundos possveis mais prximos) em que o antecedente o caso. Para facilitar, vamos entender a proximidade entre mundos possveis por meio da noo de semelhana.