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  • CONHECENDO

    AS AMIGAS MIDAS

    Mario Tessari

  • CONHECENDO AS AMIGAS MIDAS

    Mario Tessari

    Ilustraes de

    Mateus Teixeira

  • CONHECENDO AS AMIGAS MIDAS

    Mario Tessari

    do texto de Mario Tessari das ilustraes de Mateus Teixeira Jos Halley Winckler idealizou esse projeto de divulgao da meliponicultura. Mario Tessari escreveu o texto. Mateus Teixeira ilustrou. Mario Tessari diagramou o livro e comps a capa. Maria Elisa Ghisi incentivou, apoiou e revisou o texto. Mauro Tessari (CRB-14/002) elaborou a FICHA CATALOGRFICA

    Tessari, Mario. Conhecendo as amigas midas / Mario Tessari; ilustraes de Mateus Teixeira. Jaguaruna : Edio do Autor, 2014. 1. Abelha-sem-ferro - Literatura infanto-juvenil. 2. Melpona Literatura infanto-juvenil. I. Ttulo.

    CDD 028.5 595.799 638.1

  • CONHECENDO AS AMIGAS MIDAS

    Mario Tessari

    ASEFE VOLTA PARA CASA

  • CONHECENDO AS AMIGAS MIDAS

    Mario Tessari

    Quando o av e o neto iniciaram o caminho de volta, o Sol j se debruava sobre a crista da serra, procurando um lugar para

    passar a noite. Cada um deles voltava para casa satisfeito com

  • CONHECENDO AS AMIGAS MIDAS

    Mario Tessari

    os acontecimentos do dia. O av, por ter tido uma tarde de descanso; o neto, por ter colhido um balaio de novidades.

    Depois de uns minutos de silncio contido, Asefe contou para

    Voz todas as maravilhas que viu na montanha de Vomelo: alm de jatas, mandaaias, amarelonas e guaraipos, tem muita floresta, um corguinho de guas muito limpas, flores por toda parte e pssaros voando, trepados nas rvores e, at, andando pelo cho. Muito mais que no pequeno jardim da casa dele, l na cidade.

    Voz sabia de tudo isso, mas considerava muito melhor o stio dele, com lavouras produtivas, vacas de raa, galinhas poedeiras, antena parablica, energia eltrica por toda parte e estrada de fcil acesso. Jamais aceitaria morar no meio do mato, como um ndio.

    -E, se eu pudesse, iria morar na cidade, como minha filha. Perto da Igreja, ao lado do Hospital, com emprego que rende dinheiro todo ms, sem precisar me preocupar.

    -Voz, as coisas no so bem assim. Na cidade, tem emprego e meios para se conseguir quase tudo; mas, todo mundo anda sem tempo, procurando uma vaga para estacionar o carro,

    fechando as portas com muitas chaves, ...

  • CONHECENDO AS AMIGAS MIDAS

    Mario Tessari

    - o que tua V tambm diz; ela detesta o cheiro da cidade. Ela diz que poluio.

    -Na cidade, tem muita poluio e muita iluso. Aqui vocs

    vivem em paz.

  • CONHECENDO AS AMIGAS MIDAS

    Mario Tessari

    Logo que saram do mato, j dava de se ver a casa l embaixo, as vacas aguardando na porta do estbulo, a V e a Me andando ao redor de casa, colocando coisas dentro do carro. Estavam to entretidas que nem perceberam os homens

    chegando.

    Asefe queria mesmo era contar para elas tudo de vez o que viu nesses dois dias. Mas, nem arriscou. A me e a V mal olharam para ele; cuidavam mesmo era das coisas que a V mandava para a cidade, como colocar direitinho a bandeja, que era para

    no quebrar os ovos. Tambm ia leite, mel e at um frango, morto, depenado e pronto para ir para a panela. O pai adorava frango caipira. Para azar do frango.

    Com a me, teria chance de falar no carro, enquanto voltavam. Se ela deixasse, pois tinha sempre medo de se distrair. Preferia ficar atenta estrada.

    A V? A V nem se interessava por essas maluquices de menino. S perguntaria:

    -Esses bichinhos podem ajudar a arrumar a casa? Lavar a roupa? Fazer comida?

    E ela mesma completaria:

    -No. Ento, no quero saber deles.

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    Mario Tessari

    Asefe relevava, pois a V no tinha provado do mel delas e nem sabia que elas no ferroam. Um dia, ainda ela saber, pensava Asefe.

    E a despedida foi como sempre foi. A V tinha esquecido do pano de prato que tinha bordado especialmente para a filha; quase que esquece de entregar a roupa do Asefe, que ela lavou, secou e passou a ferro, mesmo que tenha sido repreendida para no fazer isso.

    Voz tambm, na ltima hora, lembrou

    de entregar umas frutas colhidas naquele dia, mais uma raiz de gengibre que era para acalmar a tosse do genro.

    Foi a que Asefe riu por dentro, porque, quando ele tivesse as jatas dele, o mel acabaria com a tosse do pai e at com as gripes da me. Estava assim divagando, quando percebeu que tinha esquecido uma coisa importante.

    E no era nem o fone de ouvido nem as sandlias; esqueceu foi de pedir para

  • CONHECENDO AS AMIGAS MIDAS

    Mario Tessari

    Vomelo uma colmeia de jata.

    Mas, agora era tarde. Nem adiantava falar isso para o Voz. Ele estava, como a me e a V, com aquela cara de despedida,

    metade alegria, metade tristeza, falando vrias vezes as mesmas coisas, como que para garantir que tudo fosse ouvido e guardado de cor. Melhor ficar quieto. Falaria da

    prxima vez.

    Finalmente, a porta do carro foi fechada pela ltima vez e eles comearam a viagem para casa. A me mandou Asefe virar para trs e acenar para os pais dela, que estavam abraados, sacudindo as mos que

    ficaram livres. E, assim, abanaram e foram abanados at o carro sumir na curva do caminho.

    Demorou comear a conversa. Asefe olhava de canto para ver

    se a me j estava mais calma e pronta para ouvir. Depois de

  • CONHECENDO AS AMIGAS MIDAS

    Mario Tessari

    muita estrada, ela mesma que deu o sinal, perguntando como tinha sido a visita ao stio.

    -Vomelo muito bom e as abelhas so bem calmas.

    -Vomelo? Quem? Voc andou inventando nomes... Foi algum que visitou o V?

    -No. No. O Voz que visitou o Vomelo.

    -Eu levo voc para visitar o av e a av e voc no tem nada para dizer?

    -Sim. A V muito boazinha e o Voz trabalha bastante...

    -S isso. Voc no conversou com eles?

    -Conversei. O Voz at disse que quer morar na cidade, como a gente.

    -Ele disse isso?

    -Disse. Quando a gente estava voltando do Vomelo.

    -Ah! Estou entendendo. Vomelo o seo Melo.

    -. .

    -E o que o V foi fazer l.

    -Voz s me levou l. Ele nem quis ficar conversando...

    -E voc ficou... conversando?

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    Mario Tessari

    -Sim. Fiquei. Conversando com Vomelo. Ele me mostrou as abelhas.

    -Abelhas? Que perigo!!!

    -Me, as abelhas que ele mostrou so as abelhas-sem-ferro; elas no picam.

    -Abelha que no pica!!!

    -Sim. Tem mandaaia, bugia, jata, jandara, guaraipo, ... Ele disse que tem umas outras, na casa de um vizinho.

    -Novidade. Abelha que no ferroa...

    -Elas so bem diferentes. Elas colocam o mel em potes e no em favos.

    -Qualquer pote?

    -No, me. Potes de cera que elas mesmas fazem.

    Parecia que a me no acreditava. Ficou calada, prestando ateno na estrada. Mas, j estava diferente. Dava

    para ver que ficou curiosa.

  • CONHECENDO AS AMIGAS MIDAS

    Mario Tessari

    Asefe calou a boca. Melhor esperar que a curiosidade amadurecesse.

    E no tardou.

  • CONHECENDO AS AMIGAS MIDAS

    Mario Tessari

    -Essas abelhas no so abelhas domsticas? So abelhas do mato?

    -, me. Toda abelha silvestre; tem a casa delas, mas no

    vive presa. Podem estar em apirio ou meliponrio, mas so livres para voar, coletar plen e nctar.

    -Eu quis dizer que criada para fazer mel...

    -Acho que a senhora est pensando em abelha africana.

    -Isso mesmo: abelha

    africana.

    -. Essa ferroa. Por isso mesmo, no domstica; no pode ser colocada perto de casa.

    -Donde o seo Melo arranjou

    essas abelhas diferentes?

    -Na mata, onde tem bastante rvore e nenhum veneno.

    -Ento, vocs foram andar

    pelo mato?

  • CONHECENDO AS AMIGAS MIDAS

    Mario Tessari

    -Tambm. Mas, as jatas moram na varanda e as mandaaias, logo ao lado da casa. No tem perigo.

    -Parece.

    E mais uma vez, a me apertava os lbios, sinal que estava pensativa. Que tal arriscar a pergunta que passeava na cabea dele? E perguntou:

    -Me, voc compra uma jata para mim?

    -Como, meu filho? L em casa nem tem rvore.

    -Mas, tem flor. Tem a varanda, com bastante sombra e pouco vento.

    -Abelha na varanda? Mas, voc no disse que elas so silvestres?

    - que a jata aprendeu a viver na cidade. Em qualquer

    cantinho.

    -E para que criar jata?

    -Porque so lindas e bem divertidas; porque fazem um mel-remdio, bom para tosse, para dor de garganta, para gripe e at para os olhos.

    -Tudo isso?

  • CONHECENDO AS AMIGAS MIDAS

    Mario Tessari

    -Sim. E de graa. Elas mesmas que trabalham para ganhar o-que-comer.

    Asefe prestou bem ateno e concluiu que a me tambm j

    estava interessada na jata. Ah! Por que ele no pediu uma para o Vomelo? Se bem que, antes, precisava convencer tambm o pai. Era ele que sabia parafusar uma prateleira na parede da varanda para colocar a caixa.

    E entraram na cidade. Agora, era muita sinaleira, muita buzina e adeus conversa. Precisava mesmo era

    falar com o pai. Ele era mais ligado nessas coisas de natureza. E, naquela noite mesmo, contou toda a aventura de visitar Vomelo e de conhecer as abelhas-sem-ferro.

    Claro que precisou esperar acabar o futebol que rolava na TV. Durante o jogo, o filho ficaria papagaiando e o pai responderia apenas uhhhhmmmm, uhhhhmmmm.

    Demorou, mas o jogo acabou e o pai, finalmente, olhou para Asefe:

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    Mario Tessari

    -Fala, filho,