conferencia pierre levy

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Boa noite

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Bloco 1 A inteligncia coletiva nova fonte de potncia 11

Bloco 2 As trs etapas da evoluo 16

Bloco 3 O tringulo da significao 19

Bloco 4 Ecologia de idias 21

Bloco 5 Economia da reproduo 26

Bloco 6 Capital de inteligncia coletiva

Bloco 1 A inteligncia coletiva nova fonte de potncia

Boa noite. Estou muito feliz de estar com vocs esta noite e gostaria de dizer que eu sempre tive uma relao muito especial com o Brasil e com os brasileiros.

Muitas vezes aproveitei minhas passagens pelo Brasil para lanar temas e comear a discutir idias que nunca havia discutido em outro lugar. o que ocorre hoje.

H muito tempo reflito sobre inteligncia coletiva e no sou o nico a faz-lo. Isso tema de inmeras pesquisas em muitos pases do mundo, pesquisas particularmente relacionadas com a utilizao da Internet, de novas tecnologias, de fruns de discusso virtual etc. Eu diria que no apenas o nmero de pessoas interessadas no assunto cresce, mas tambm o objeto de reflexo, que h mais ou menos dez anos vem tendo um crescimento extraordinrio, pois h cada vez mais pessoas que se organizam por intermdio da Internet visando cooperao intelectual. Esse um movimento que se iniciou no domnio cientfico, pois foi a comunidade cientfica que inventou a Internet e que se serviu primeiro dela para trocas de idias, cooperaes etc. Podemos dizer que ela uma das mais antigas praticantes da inteligncia coletiva com suas jornadas cientficas, seminrios, colquios onde cada um comenta o que faz e tentam construir juntos um saber comum, ao mesmo tempo que tm liberdade de propor teorias diferentes. No , pois, de se espantar que ela tenha inventado a Internet, o correio eletrnico, os fruns de discusso e esse imenso hipertexto da web que, no fundo, reproduz a prtica muito antiga da citao, da nota de rodap, da bibliografia etc.

No s na comunidade cientfica que se pratica a inteligncia coletiva, mas tambm e cada vez mais no mundo dos negcios, porque existe a necessidade de empregar pessoas capazes de tomar iniciativas, de coordenar, de inventar novas solues, de resolver problemas e de fazer tudo isso coletivamente, de forma organizada. Evidentemente, essas novas ferramentas de comunicao so as mais adequadas para isso e h todo um movimento no management contemporneo que visa a desenvolver prticas de inteligncia coletiva.

H, tambm, outros campos, por exemplo, o da poltica ou, para falar de uma maneira mais ampla, o da cidadania. Hoje, muitas comunidades locais, muitos governos de vrios pases esto tentando aprofundar os processos de consulta da populao, os processos de democracia deliberativa atravs de fruns de discusso sobre questes de poltica local, permitindo populao deliberar sobre assuntos que lhe concernem diretamente. H, portanto, um campo geral da ciberdemocracia. Acabo de publicar um livro sobre o tema, onde fao muitas referncias a sites que tratam do assunto.

H mais de dez anos pesquisadores em cincias sociais vm refletindo sobre o vnculo social, o capital social e percebemos que uma das condies mais importantes para o desenvolvimento humano so as relaes, os vnculos de trocas, de servios, de conhecimento, de sociabilidade. Isso pode ocorrer na economia, no lazer, no jogo, em trinta e cinco mil coisas diferentes. Sempre se soube disso, mas estamos percebendo hoje a importncia da relao social organizada, inventiva e viva. Quando eu digo organizada no quero dizer por um centro, uma instncia superior, mas auto-organizada, espontnea, de alguma forma.

Eu poderia, assim, listar os campos onde se descobre que a cooperao e, mais particularmente, a troca de idias, a cooperao intelectual algo importante para o desenvolvimento cultural e social. A Internet uma das ferramentas para esse desenvolvimento e por isso que ela tem, em todo o mundo, um tal sucesso. Vocs podero argumentar que apenas 7% dos brasileiros esto conectados Internet. Evidentemente, temos conscincia disso. No entanto, preciso lembrar que isso um processo histrico, uma tendncia que deve ser avaliada em sua dimenso correta. Muitas sculos se passaram desde a inveno do alfabeto at a construo de uma civilizao da escrita. Quando se inventou o alfabeto, por volta do ano 1.000 a.C., no foi imediatamente que as pessoas aprenderam a ler e escrever. H dez anos mais ou menos que a maioria da populao mundial - eu digo a maioria e no a totalidade sabe ler e escrever. Foram necessrios, portanto, trs mil anos para se chegar a essa situao. A web existe h menos de dez anos, portanto no podemos ser impacientes e nos escandalizarmos com o fato de que a maioria da populao no est conectada. O que preciso observar a velocidade com que a curva de conexes aumenta, e isso j notvel.

Ns devemos, cada um a nosso modo, fazer com que o maior nmero de pessoas possvel possam ter acesso a esse novo recurso fundamental da cultura que a comunicao mundial interativa. Aqueles que podem ter acesso sabem at que ponto isso um recurso para o desenvolvimento pessoal, para estreitar laos sociais, para aprender coisas, para aumentar seu grau de liberdade, pois temos muito mais liberdade de expresso do que podamos ter na poca em que havia somente os jornais, o rdio, a televiso etc.

Passando, ento, nossa apresentao, podemos ver na tela um certo nmero de idias que ilustram essa noo de inteligncia coletiva.

Inicialmente, podemos tom-la no sentido simples de partilha das funes cognitivas, pois: o que inteligncia, finalmente? a memria, o aprendizado, a percepo, as funes cognitivas. A partir do momento em que essas funes so aumentadas e transformadas por sistemas tcnicos - algo de objetivo, externo ao organismo humano elas podero ser mais facilmente partilhadas. Melhor dizendo, se alguma coisa escrita, ela j no faz parte da minha memria pessoal, mas faz parte da memria da comunidade qual perteno, e que mantm seus escritos. Hoje a escrita alguma coisa que no est mais s no suporte papel, mas que est no suporte eletrnico e que, por isso, se torna mais acessvel, flexvel e, sobretudo, mais compartilhvel. Estou falando da memria, mas eu poderia falar da percepo. Com a televiso eu posso ver distncia; com o telefone eu posso escutar distncia. Com a Internet no apenas essas coisas so possveis, mas a um nvel de preciso muito maior. Por exemplo, com as webcam eu posso ver exatamente onde eu quero ver. Com os novos sistemas de informtica de imagem digitalizada, que permitem transformar dados complexos em representaes visuais facilmente compreensveis, h uma nova abertura no campo da percepo que, na verdade, a percepo de fenmenos complexos, que to cara a Edgar Morin.

Podemos, talvez, comparar a nossa poca ao sculo XVII, poca em que se inventou o microscpio e o telescpio, onde se descobriu todo um universo do infinitamente pequeno e todo um universo do infinitamente grande. Hoje estamos descobrindo o universo do infinitamente complexo porque temos um meio de represent-lo, de interagir com esse universo justamente por causa da tecnologia intelectual que a informtica. preciso ver, portanto, que se trata de uma abertura do campo do conhecimento possvel porque h tambm uma abertura do campo de percepo, do campo do raciocnio possvel.

Entretanto, a inteligncia coletiva no um tema puramente cognitivo. S pode existir desenvolvimento da inteligncia coletiva se houver o que eu chamo de cooperao competitiva ou competio cooperativa. Retomando o exemplo da comunidade cientfica, podemos dizer que trata-se de um jogo cooperativo, j que acumula-se conhecimentos, h um progresso do saber etc Mas isso s um processo cooperativo e plenamente cooperativo porque tambm um processo competitivo. Se no houvesse a liberdade de propor teorias opostas quelas que so admitidas, evidentemente o progresso nos conhecimentos seria muito menor. Portanto, porque existe essa possibilidade de competio que existe a cooperao. H, pois, dois aspectos: o aspecto da liberdade que o aspecto competio e o aspecto do vnculo social, da amizade que o aspecto cooperao. preciso acostumar-se a pensar nos dois ao mesmo tempo. a partir do equilbrio entre competio e cooperao que nasce a inteligncia coletiva. Evidentemente no a guerra de todos contra todos, nem tampouco uma cooperao obrigatria, regulada, que proibiria as diferenas de idias, as lutas, os conflitos que so naturais e que, sobretudo, permitem ao novo se expressar.

Observemos o comportamento de uma multido. Uma multido menos inteligente do que um indivduo dessa multido. O fato de diversos indivduos estarem reunidos no ajuda muito. Se observarmos uma administrao muito burocrtica, centralizadora, com uma hierarquia rgida, vamos dizer que essa administrao provavelmente mais inteligente do que uma multido porque ela pode fazer muitas operaes e chegar a um certo resultado, mas ela no equivale multiplicao de todas as inteligncias das pessoas que participam dessa hierarquia burocrtica. Provavelmente essa hierarquia burocrtica menos inteligente do que o grupo de dirigentes. O grupo de dirigentes toma decises e as decises so aplicadas de forma cada vez pior medida em que se desce na hierarquia. No se permite, obviamente, que a base tome decises.

H muitas formas de organizao e o desafio inventarmos todos juntos formas de organizao que no sejam nem anrquicas onde no haveria nenhuma forma de cooperao nem demasiadamente rgidas, mas sim as que permitam otimizar a capacidade de inveno das pessoas, suas competncias, suas experincias, suas memrias.

Se eu defendo o desenvolvimento de uma cincia da inteligncia coletiva porque estou certo que este o melhor caminho para se chegar a uma cultura da inteligncia coletiva, ou seja, com a constituio de uma vasta rede de pesquisas a perspectiva avanar em direo a uma transformao cultural que caminhe nesse sentido. Uma transformao e no uma revoluo, que deve ser feita tranquilame