Concretização do direito humano de acesso à justiça: imperativo ético do estado democrático de direito

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Concretizao do direito humano de acesso justia. Este o tema central do estudo. Constitui preocupao de todos os povos, em todos os tempos. Inicialmente tratado apenas no plano formal, como a possibilidade universal de acesso justia. Aps, com a consagrao do princpio da igualdade material, o tema passou a ser investigado sob o prisma da possibilidade concreta das populaes terem acesso justia. Insere-se o acesso justia no rol dos direitos humanos prestacionais e examina-se seu contedo, definindo-o de modo bem mais abrangente que o simples acesso jurisdio formal, posto que os mecanismos consensuais de resoluo de conflitos, tais como a conciliao, a mediao e a arbitragem, tambm o integram. Em decorrncia de sua caracterizao como direto social, defende-se a necessidade do desenvolvimento de polticas pblicas e de aes afirmativas de parte do Estado e da sociedade, garantia do acesso material da humanidade a mecanismos de pacificao social. Examina-se os obstculos sua realizao de ordem econmica, cultural, social e legal e, por fim, apresenta-se propostas de aes para a concretizao do direito humano de acesso justia.

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<p>1</p> <p>FUNDAO GETULIO VARGAS Escola de Direito FGV DIREITO RIO Programa de Capacitao em Poder Judicirio Turma 001</p> <p>MARCELO MALIZIA CABRAL</p> <p>CONCRETIZAO DO DIREITO HUMANO DE ACESSO JUSTIA: IMPERATIVO TICO DO ESTADO DEMOCRTICO DE DIREITO</p> <p>Trabalho</p> <p>de</p> <p>Concluso</p> <p>de</p> <p>Curso</p> <p>apresentado ao Programa de Capacitao em Poder Judicirio. FGV DIREITO RIO.</p> <p>Porto Alegre, setembro de 2007</p> <p>2</p> <p>FUNDAO GETULIO VARGAS Escola de Direito FGV DIREITO RIO Programa de Capacitao em Poder Judicirio Turma 001</p> <p>Trabalho de Concluso de Curso</p> <p>Ttulo: Concretizao do Direito Humano de Acesso Justia: Imperativo tico do Estado Democrtico de Direito</p> <p>Elaborado por Marcelo Malizia Cabral</p> <p>Aprovado e aceito como requisito parcial para a obteno do certificado de PsGraduao lato sensu, nvel de especializao, em Poder Judicirio</p> <p>Setembro de 2007</p> <p>Prof. Dr. Rogrio Gesta Leal - Orientador</p> <p>3</p> <p> minha esposa, Anglica, pelo incentivo, pela compreenso, pelo companheirismo, pela luz que coloca em minha trajetria, dedico este trabalho.</p> <p>4</p> <p>Minha gratido aos professores do curso, ao meu orientador, Doutor Rogrio Gesta Leal, Fundao Getlio Vargas, ao Tribunal de Justia do Rio Grande do Sul.</p> <p>5</p> <p>O problema fundamental em relao aos direitos do homem, hoje, no tanto o de justific-los, mas o de proteg-los.1</p> <p>BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. Traduo de Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Campus, 1992, p. 24.</p> <p>1</p> <p>6</p> <p>Resumo Concretizao do direito humano de acesso justia. Este o tema central do estudo. Constitui preocupao de todos os povos, em todos os tempos. Inicialmente tratado apenas no plano formal, como a possibilidade universal de acesso justia. Aps, com a consagrao do princpio da igualdade material, o tema passou a ser investigado sob o prisma da possibilidade concreta das populaes terem acesso justia. Insere-se o acesso justia no rol dos direitos humanos prestacionais. Examina-se seu contedo e define-se-o de modo bem mais abrangente que o simples acesso jurisdio formal, integrando-o, tambm, mecanismos consensuais de resoluo de conflitos, tais como a conciliao, a mediao e a arbitragem. Em decorrncia de sua caracterizao como direto social, defende-se a necessidade do desenvolvimento de polticas pblicas e de aes afirmativas de parte do Estado e da sociedade, garantia do acesso material da humanidade a mecanismos de pacificao social. Examinam-se os obstculos sua realizao de ordem</p> <p>econmica, cultural, social e legal e, por fim, apresentam-se propostas de aes para a concretizao do direito humano de acesso justia. Apregoa-se, ento, a valorizao das ferramentas consensuais de resoluo de conflitos, com a utilizao dos recursos humanos e materiais existentes nas comunidades, reservando-se a jurisdio formal como instrumento subsidirio e complementar realizao da justia. Palavras-Chave Acesso justia; direitos humanos; polticas pblicas; conciliao; mediao; arbitragem.</p> <p>7</p> <p>SUMRIO</p> <p>INTRODUO ............................................................................................................08 1 ANTECEDENTES HISTRICOS DO ACESSO JUSTIA...................................13 1.1 A preocupao com o acesso justia no mundo............................................13 1.2 Origem e desenvolvimento do acesso justia no Brasil .................................17 2 CONTEDO DA EXPRESSO ACESSO JUSTIA............................................20 2.1 A significao brasileira e suas conseqncias ................................................20 2.2 As investigaes do direito comparado.............................................................23 3 CONCEITUAO DE ACESSO JUSTIA...........................................................28 4 O ACESSO JUSTIA COMO DIREITO HUMANO ..............................................37 4.1 Contedo e significao dos direitos humanos ..................................................37 4.2 A consagrao dos direitos humanos prestacionais na ordem</p> <p>constitucional ...........................................................................................................38 4.3 O acesso justia na ordem constitucional e sua natureza de direito</p> <p>humano prestacional .........................................................................................40 4.4 O desafio da concretizao dos direitos humanos............................................43 5 OBSTCULOS CONCRETIZAO DO DIREITO HUMANO DE ACESSO JUSTIA..............................................................................................................45 5.1 bices de natureza econmica.........................................................................45 5.2 bices de natureza cultural e social ................................................................49 5.3 bices de natureza legal...................................................................................54 6 CONCRETIZANDO O DIREITO HUMANO DE ACESSO JUSTIA ....................56 6.1 O papel dos movimentos sociais .......................................................................56 6.2 A necessidade de aes afirmativas e de polticas pblicas ............................59 6.3 Aes para a superao dos obstculos de natureza econmica ....................62 6.4 Aes para a superao dos obstculos de natureza cultural e social ............66 6.5 Aes para a superao dos obstculos de natureza legal ..............................71 REFLEXES FINAIS ..................................................................................................73 REFERNCIAS...........................................................................................................77 ANEXOS .....................................................................................................................80</p> <p>8</p> <p>INTRODUO</p> <p>O acesso justia constitui um dos temas que maior ateno tem despertado nas sociedades contemporneas. A evoluo dos povos tem apontado para um gradativo crescimento das atribuies dos poderes estatais. A insegurana e a incompreenso ocasionadas por uma produo legislativa sem precedentes, aliadas a uma exigncia crescente de aes negativas e positivas do Poder Executivo no respeito s liberdades pblicas e na concretizao de um extenso rol de direitos sociais, culturais e econmicos, tm provocado um crescimento vertiginoso da demanda do Poder Judicirio. Sobre esta hipertrofia do Poder Judicirio, com peculiar clareza manifestou-se o ento Ministro do Supremo Tribunal Federal, Carlos Mrio da Silva Velloso:Eu ouvi, e j mencionei isto por mais de uma vez, de um magistrado carioca radicado em So Paulo, o eminente juiz Amrico Lacombe, no seu discurso de posse na Presidncia do Tribunal Federal da 3 Regio, afirmativa que achei muito interessante. Disse ele que, se os sculos XVIII, este a partir da segunda metade, e XIX, foram os sculos do Poder Legislativo e, se o sculo XX tem sido o sculo do Poder Executivo, o sculo XXI haver de ser o sculo do Poder Judicirio. [...] Vejam os Senhores porque eu penso que isso vai acontecer. As reformas constitucionais que se fazem contemporaneamente, conferem cidadania um novo sentido. As novas Constituies querem o exerccio consciente da cidadania, que se traduz na obrigao de o cidado fiscalizar, cada vez mais, o Poder. O cidado o grande fiscal do Poder, mesmo porque o Poder existe em razo dele e para satisfazer as suas necessidades. Acontece que essa fiscalizao se exerce mediante a ao do Poder Judicirio, vale dizer, mediante medidas judiciais. As reformas constitucionais que se fazem contemporaneamente visam a viabilizar esse desiderato.2</p> <p>Alm dessa novel participao popular na coordenao e na fiscalizao dos atos do Estado, este tem prometido efetivar uma srie de direitos consagrao da cidadania, confiando-se a garantia de sua concretizao, tambm, ao Judicirio.</p> <p>JUSTIA: PROMESSA E REALIDADE: o acesso justia em pases ibero-americanos. Organizao Associao dos Magistrados Brasileiros, AMB; traduo Carola Andra Saavedra Hurtado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996, p. 14-15.</p> <p>2</p> <p>9</p> <p> a emergncia mundial do Estado social, o welfare state, a expandir os poderes e as competncias dos rgos legislativo e executivo, reclamando o pronto controle judicirio da atividade do Estado.3</p> <p>Ao lado das exigncias decorrentes do crescimento da atividade do Estado, o mundo contemporneo inaugurou a massificao da economia, dos negcios, da informao e, conseqentemente, das relaes sociais. Com esse fenmeno, como adverte Cappelletti, sempre mais</p> <p>freqentemente, at uma s ao humana pode ser prejudicial a vastos grupos ou categorias de pessoas, com a conseqncia de mostrar-se totalmente inadequado o esquema tradicional do processo judicirio, como litgio entre duas partes.4 Demonstrao do crescimento da procura da sociedade pelo Poder Judicirio consta de criterioso estudo coordenado por Maria Tereza Sadek5, dando conta do aumento da deduo de pretenses perante a justia brasileira no perodo de 1990 a 1998, na ordem de 106,44%, enquanto a populao, no mesmo perodo, aumentou em apenas 11,33%. Esse extraordinrio crescimento da procura dos povos pelo Judicirio verificado no Brasil e em todo o mundo neste ltimo sculo levou os atores da cena judiciria perplexidade, ocasionando, igualmente, um importante</p> <p>congestionamento desse poder estatal. Despertou, assim, a sociedade, para a necessidade de se criarem mecanismos ao acolhimento e ao pronto processamento dessa demanda. Identifica-se, ento, uma das faces do tema acesso justia, aquela concernente eficincia da prestao do servio ofertado sociedade pelo Judicirio, qual seja, a soluo dos litgios que lhe so apresentados individual ou coletivamente, em tempo razovel, com qualidade e eficincia. A incapacidade do Judicirio brasileiro em administrar esse crescimento da procura por seus servios tem levado a sociedade ao descrdito e insatisfao,</p> <p>Da o fato de que o mbito do processo cresceu bem alm dos limites tradicionais da lide essencialmente privada, envolvendo esta apenas sujeitos privados; estendendo-se muito seguidamente a lides comprometedoras dos poderes polticos do Estado. Justia administrativa e Justia constitucional tornaram-se, assim, componentes sempre mais importantes do fenmeno jurisdicional, freqentemente confiadas a novas e altamente criativas cortes administrativas e constitucionais (CAPPELLETTI, Mauro. Juzes Irresponsveis? Traduzido por Carlos Alberto lvaro de Oliveira. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor, 1989, p. 21-22). 4 Ibidem, p. 23. 5 SADEK, Maria Tereza (Org.). Acesso Justia. So Paulo: Fundao Konrad Adenauer, 2001, p. 15.</p> <p>3</p> <p>10</p> <p>especialmente em razo da necessidade de longa espera entre o ajuizamento dos pedidos e seu julgamento.6 Realizar-se-, deste modo, ainda que brevemente, um mapeamento dos fatores que ocasionam a morosidade do Judicirio, em especial diante do incremento de sua demanda, apontando-se, ao depois, algumas medidas para reduzir o tempo de tramitao dos processos, acenando-se, assim, para a possibilidade da oferta de uma soluo mais clere aos litgios, o que resultaria no aumento da eficincia do Poder Judicirio e na conseqente qualificao do acesso justia. Importa sublinhar-se, de outro lado, nessas palavras iniciais, que o crescimento da procura pelo Judicirio em proporo superior ao aumento populacional verificado nas ltimas dcadas, no significa a ampliao do acesso justia ou, ainda, que a sociedade tenha alcance materialmente igual a esse servio pblico. Interessante apresentar-se, nesse ponto, outro elemento investigado por Sadek, a demonstrar que o crescimento da procura pelo Judicirio reflete a desigualdade da sociedade brasileira quanto acessibilidade a bens e servios:Os IDHs no decorrer do perodo revelam que o pas experimentou alguma melhoria entre 1990 e 1998, no que se refere esperana de vida, educao e renda. O ndice apresentou um crescimento de 0,7804 em 1990 para 0,8345 em 1998. A evoluo positiva foi constante, no se verificando em nenhum ano sequer a estagnao, quer pioras em relao ao ano anterior. No que se refere aos efeitos do IDH na procura pelo Judicirio, possvel afirmar que melhoras nesse ndice possuem correlao positiva com o aumento no nmero de processos entrados na Justia (correlao de Spearman de 0,7333). Isto , aumentos nos nveis de escolaridade, de renda e na longevidade contribuem para o crescimento na demanda por servios judiciais. No que se refere s regies, o IDH permite-nos afirmar que o Nordeste e o Norte renem os mais baixos indicadores socioeconmicos do pas, durante todo o perodo. Em contraste, o Sul, o Sudeste e o Centro-Oeste apresentam as melhores condies no que diz respeito s dimenses captadas pelo IDH. notvel como quanto mais alto o IDH, melhor a relao entre processos entrados e populao. Ou seja, acentuadamente maior a utilizao do Judicirio nas regies que apresentam ndices mais altos de desenvolvimento humano.7Para que se tenha uma idia, em pesquisa recentemente realizada pela CNT em conjunto com a Vox Populi, 89% das pessoas entrevistadas consideram a justia demorada, lenta, enquanto 67% acham que ela s favorece os ricos, e 50% no confiam nela. (Pesquisa publicada no jornal O Globo, de 07 de abril de 1999, 2. ed., p. 5, apud CARNEIRO, Paulo Cezar Pinheiro. Acesso Justia. Juizados Especiais Cveis e Ao Civil Pblica. Rio de Janeiro: Editora Forense, 2000, p. 80). 7 SADEK, Maria Tereza (Org.), op. cit., p. 20-21.6</p> <p>11</p> <p>O que se constata, assim, que as populaes que esto demandando cada vez mais o Judicirio so aquelas situadas em posies privilegiadas do extrato social, quedando-se a esmagadora maioria da sociedade brasileira ao longe da possibilidade de resolver seus conflitos individuais ou coletivos por intermdio dos mecanismos de pacificao social disponveis ao grupo social, dentre os quais, o Poder Judicirio. Justamente nesse sentido apontou a concluso da investigao cientfica h pouco apresentada8, advertindo-se, ao fim, para o risco ocasionado manuteno do Estado de Direito pela no-assegurao do efetivo acesso justia a expressivo nmero de brasileiros:O que poucos ousam sustentar, completando a primeira afirmao, que, muitas vezes, necessrio que se qualifique de que acesso se fala. Pois a excessiva facilidade para um certo tipo de litigante ou o estmulo litigiosidade podem transformar a Justia em uma Justia no apenas seletiva, mas sobretudo inchada. Isto , repleta de demandas que pouco tm a ver com a garantia de direitos esta sim uma condio indispensvel ao Estado Democrtico de Direito e s liberdades individuais. Desse ponto de vista, qualquer proposta de reforma do Judicirio deve levar em conta que temos hoje uma Justia muito receptiva a um certo tipo de demandas, mas pouco atenta aos pleitos da cidadania.9</p> <p>Esta situao decorre do contentamento das sociedades, durante sculos, com a simples igualdade formal da populao relativamente ao acesso justia. No havia a preocupao com a repercusso das desigualdades sociais no acesso a direitos, realidade modificada no ltimo sculo, quando os povos passaram proclamar a necessidade d...</p>