comunicado do rabalho doméstico

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    Situao atual das trabalhadoras domsticas no pas 5 de maio de 2011

    N 90

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    Comunicados do Ipea Os Comunicados do Ipea tm por objetivo antecipar estudos e pesquisas mais amplas conduzidas pelo Instituto de Pesquisa Econmica Aplicada, com uma comunicao sinttica e objetiva e sem a pretenso de encerrar o debate sobre os temas que aborda, mas motiv-lo. Em geral, so sucedidos por notas tcnicas, textos para discusso, livros e demais publicaes. Os Comunicados so elaborados pela assessoria tcnica da Presidncia do Instituto e por tcnicos de planejamento e pesquisa de todas as diretorias do Ipea. Desde 2007, mais de cem tcnicos participaram da produo e divulgao de tais documentos, sob os mais variados temas. A partir do nmero 40, eles deixam de ser Comunicados da Presidncia e passam a se chamar Comunicados do Ipea. A nova denominao sintetiza todo o processo produtivo desses estudos e sua institucionalizao em todas as diretorias e reas tcnicas do Ipea.

    Governo Federal Secretaria de Assuntos Estratgicos da Presidncia da Repblica Ministro Wellington Moreira Franco Fundao pblica vinculada Secretaria de Assuntos Estratgicos da Presidncia da Repblica, o Ipea fornece suporte tcnico e institucional s aes governamentais possibilitando a formulao de inmeras polticas pblicas e programas de desenvolvimento brasileiro e disponibiliza, para a sociedade, pesquisas e estudos realizados por seus tcnicos. Presidente Marcio Pochmann Diretor de Desenvolvimento Institucional Fernando Ferreira Diretor de Estudos e Relaes Econmicas e Polticas Internacionais Mrio Lisboa Theodoro Diretor de Estudos e Polticas do Estado, das Instituies e da Democracia Jos Celso Pereira Cardoso Jnior Diretor de Estudos e Polticas Macroeconmicas Joo Sics Diretora de Estudos e Polticas Regionais, Urbanas e Ambientais Liana Maria da Frota Carleial Diretor de Polticas Setoriais de Inovao, Regulao e Infraestrutura Mrcio Wohlers de Almeida Diretor de Estudos e Polticas Sociais Jorge Abraho de Castro Chefe de Gabinete Prsio Marco Antonio Davison Assessor-chefe de Imprensa e Comunicao Daniel Castro URL: http://www.ipea.gov.br Ouvidoria: http://www.ipea.gov.br/ouvidoria

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    Introduo1

    Este texto dedica-se anlise das condies de vida e de trabalho de uma importante parcela das mulheres brasileiras ocupadas: as trabalhadoras domsticas. Apesar de constituir uma realidade para muitas mulheres desde a poca colonial, o trabalho domstico remunerado somente foi reconhecido como profisso em 1972, com a promulgao da Lei 5.859. De acordo com esta legislao, o trabalho domstico passa a ser definido como aquele realizado por pessoa maior de 16 anos que presta servios de natureza contnua e de finalidade no-lucrativa pessoa ou famlia, no mbito residencial destas 2.

    Isso significa, portanto, que at a dcada de 1970, as trabalhadoras domsticas eram desconsideradas como grupo produtor de um trabalho e objeto de direitos trabalhistas e sociais. A Consolidao das Leis do Trabalho (CLT), instituda em 1943, ignorou a existncia desta ocupao profissional que, j naquele momento, empregava um grande contingente de brasileiras, responsveis pelas tarefas de cuidados com casas e famlias de seus/suas patres/patroas.

    Este tratamento desigual foi reafirmado e reforado pela Constituio Federal de 1988 que, apesar de garantir conquistas como o salrio-mnimo, o 13 salrio e a licena-maternidade de 120 dias, deixou de estender s trabalhadoras domsticas o mesmo rol de direitos assegurados aos demais trabalhadores brasileiros. De fato, ao elencar, em seu artigo 7, os direitos dos trabalhadores e trabalhadoras urbanos/as e rurais, a Constituio restringe, por meio da incluso de um pargrafo nico, quais seriam os direitos assegurados categoria das trabalhadoras domsticas.

    Tentativas de reverso desse quadro foram empreendidas, a partir do esforo de mobilizao da categoria, com intuito de equiparao de direitos. Dentre as conquistas alcanadas, destaca-se a Lei n 10.208/20013, que criou o Fundo de Garantia por Tempo de Servio (FGTS) e o seguro-desemprego para a categoria, que so, no entanto, facultativos, a depender da escolha do empregador. Cabe ressaltar, tambm, a Lei 11.324/20064, por meio da qual foram garantidos os direitos a frias de 30 dias (anteriormente estabelecida em 20 dias), estabilidade para gestantes, direito aos feriados civis e religiosos, e proibio de descontos de moradia, alimentao e produtos de higiene pessoal utilizados no local de trabalho, bem como o estabelecimento de incentivo fiscal, possibilitando ao contribuinte o abatimento dos valores devidos Previdncia Social na qualidade de empregador5, medida que vigorar at 2012, ano-calendrio 2011.

    Os esforos empreendidos tambm no campo do Executivo para o aperfeioamento da legislao que rege o trabalho domstico, na direo de ampliao de direitos, melhoria da qualidade da ocupao e reduo das desigualdades, ainda produzem 1 Colaboraram para a elaborao deste texto: Luana Simes Pinheiro, Natlia de Oliveira Fontoura e Cludia Pedrosa. As autoras agradecem a inestimvel colaborao de Cristiane Ala Diniz, responsvel pela produo dos dados. 2 Compem a categoria, na legislao brasileira, as pessoas que trabalham como cozinheiro/a, governanta, bab, lavadeira, faxineiro/a, vigia, motorista particular, jardineiro/a, acompanhante de idosos/as, entre outras. O/a caseiro/a tambm considerado/a empregado/a domstico/a, quando o stio ou local onde exerce a sua atividade no possui finalidade lucrativa. SANCHES (2009, p.880) 3 BRASIL, Lei n. 10.208, de 23 de maro de 2001. 4 BRASIL, Lei n. 11.324, de julho de 2006. 5 BRASIL, Ministrio do Trabalho e Emprego (2007)

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    resultados tmidos que apontam para a necessidade de que sejam pensados, pelo menos, trs aspectos relevantes: i) as especificidades da ocupao que, ao se realizar no domiclio, dificulta, por exemplo, a inspeo pelo Ministrio do Trabalho e Emprego do cumprimento das obrigaes trabalhistas e a organizao das trabalhadoras que desempenham suas atividades de forma isolada; ii) a permanncia de laos pessoais no ambiente de trabalho, influenciado pelas origens patriarcais e escravistas do servio domstico no Brasil e marcando essa ocupao como um espao desvalorizado e desqualificado, pleno de explorao, discriminaes e excluso; e iii) o surgimento de novas formas deste trabalho, a exemplo das diaristas que se, por um lado, podem apontar para uma maior profissionalizao da ocupao, de outro, tambm trazem maiores riscos de desproteo social.

    A idia deste documento apresentar algumas anlises sobre a evoluo do trabalho domstico ao longo da ltima dcada (1999-2009), que permitam identificar movimentos relevantes tanto no que se refere importncia desta ocupao no conjunto da economia, quanto na qualidade e nas condies de trabalho vivenciadas por este grande contingente de mulheres brasileiras. Para esta anlise importante considerar que existem distines internas ao campo do trabalho domstico remunerado que devem ser consideradas. Alm das distines existentes em funo da raa/cor ou da regio de trabalho destas mulheres, sero consideradas as caractersticas inerentes aos diferentes tipos de vnculos estabelecidos entre trabalhadoras e empregadores.

    Perfil geral do trabalho domstico 1999/2009

    O trabalho domstico remunerado empregava, em 2009, cerca de 7,2 milhes de trabalhadores e trabalhadoras, ou 7,8% do total de ocupados no pas. Esta atividade, porm, no tem a mesma importncia para homens e mulheres, ou para negros e brancos. De fato, o trabalho domstico e sempre foi uma ocupao desempenhada majoritariamente por mulheres e negras. O perfil dessa ocupao remonta no s s razes escravistas da sociedade brasileira, mas tambm s tradicionais concepes de gnero, que representam o trabalho domstico como uma habilidade natural das mulheres. O emprego domstico tem, assim, ocupado posio central nas possibilidades de incorporao das mulheres ao mercado de trabalho, particularmente das negras, pobres e sem escolaridade ou qualificao profissional.

    As mulheres correspondem a 93% do total de trabalhadores domsticos proporo que no variou ao longo da dcada e as mulheres negras a 61,6% do total de mulheres ocupadas nesta profisso. A importncia quantitativa do grupo de mulheres negras entre as trabalhadoras domsticas tornou-se maior ao longo dos dez anos aqui analisados, uma vez que, em 1999, este mesmo grupo respondia por 55% do total de trabalhadoras, o que reflete as mudanas na forma de autodeclarao, verificadas para a populao como um todo.

    Do conjunto das mulheres ocupadas em 2009, 17%, ou 6,7 milhes de mulheres, tinham o trabalho domstico como principal fonte de renda, valor que alcana quase 20%

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    entre as ocupadas da regio Centro-Oeste e 18% entre as do Nordeste. Entre os homens, esta proporo no alcanava 1%6 (ver grfico 1).

    Grfico 1 Proporo de ocupados/as que so trabalhadores/as domsticos/as, segundo sexo. Brasil, 1999 a 2009.

    Fonte: Pnad/ IBGE Elaborao: Ipea

    Se, para a populao masculina, o peso do trabalho domstico manteve-se exatamente o mesmo ao longo dos anos, para as mulheres possvel identificar dois movimentos durante o perodo de anlise. Desde 2001, quando a proporo de mulheres ocupadas no trabalho domstico era de aproximadamente 18% podia-se perceber um movimento contnuo de reduo da importncia desta ocupao que, em 2008, respondia por 15,8% do total das ocupadas. No entanto, em 2009, pode-se verificar um movimento que contraria esta tendncia: apenas entre 2008 e 2009, houve uma elevao de 1,2 pontos percentuais na proporo de mulheres que estavam neste tipo de ocupao, valor que alcana 17%. Este movimento foi mais intenso entre as trabalhadoras domsticas das regies Nordeste e Centro-Oeste e menos intenso entre as do Sul e do Sudeste.

    O trabalh