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  • 381 Anais do IV SIMP: Memria, patrimnio e tradio

    Fortins e fazendas: patrimnio ibero-americano sulino. Jaguaro. RS

    Ester Judite Bendjouya Gutierrez

    Resumo Esta pesquisa trata de trs fortins, quer dizer, pequenos fortes. O primeiro, El Fortin de la Laguna, erguido em 1792, pelo cartgrafo espanhol Joaquim Gudim, na margem norte do rio Jaguaro, deu origem atual cidade de Jaguaro. Os dois ltimos permaneceram junto s fazendas do Juncal e So Joo, situadas no mesmo municpio. Por um lado, o foco neste territrio revelou significativo emprego da mo-de-obra escravizada nos campos e na cidade da fronteira e, por outro, apontou uma especificidade, uma originalidade da arquitetura e da paisagem histrico-cultural ibero-americana meridional, que o fortim. Em especial, estas minsculas fortalezas lembram as disputas ibricas, fornecem sinais das lutas entre as parcialidades regionais e podem dar indcios da resistncia dos escravizados. Talvez, seja pioneiro em apresentar o fortim na valorizao do patrimnio arquitetnico do pampa. Palavras-chave: Patrimnio, arquitetura e escravido. Introduo

    Em 2009, coordenado pelos historiadores Mrio Maestri e Maria do Carmo Brazil (MAESTRI E

    BRAZIL, 2009) o livro Pees, vaqueiros & cativos campeiros: estudos sobre a economia pastoril

    no Brasil apresentou o artigo Estncias fortificadas (GUTIERREZ, 2009). Este texto

    acompanhou a publicao do resultado de pesquisa sobre do processo da produo pastoril

    nos estados do Piau, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul, sobretudo do caso bovino, de

    1780 a 1930. O texto Fortins e fazendas: patrimnio ibero-americano sulino, agora exposto,

    tem outro foco. Como diz o ttulo, o patrimnio histrico e artstico o recorte. Aponta e

    analisa trs fortins, El Fortin de la Laguna e os fortins das fazendas do Juncal e So Joo.

    Ambos trabalhos Estncias fortificadas e Fortins e fazendas justificam-se pelo

    reconhecimento da importncia da economia criatria histria social e econmica do Brasil.

    Alm disso, este ltimo relato mostra uma especificidade, a originalidade da arquitetura ibero-

    americana meridional. Possivelmente, seja pioneiro em apresentar os fortins como elementos

    de valorizao do patrimnio arquitetnico e da paisagem histrico-cultural do pampa.

    Os fortins ou torres se constituam em construes que se sobressaam no conjunto.

    Possibilitavam a visualizao ampla do terreno sua volta. Eram marcados pelas seteiras,

    aberturas nas paredes que serviam para, inicialmente, atirar setas, a seguir foi espingardeiro.

    O fortim podia fazer parte da organizao ou ser um elemento agregado ao grupo de

    edificaes. Enfim, um fortim conformava um pequeno forte (CORONA e LEMOS, 1972).

    Possivelmente, as fazendas em cujas sedes permaneceram os fortins se constituram em um

    dos espaos caractersticos da regio da fronteira sulina e assumiram formas to slidas e

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    impenetrveis como uma maneira de compensar o precrio sistema de fortificaes do Rio

    Grande do Sul (PEREIRA da CRUZ, 1994). Os fortins foram construdos por castelhanos e por

    lusos, por brasileiros e por uruguaios, e erguidos para as guardas de ambas as coroas e

    tambm junto s sedes das fazendas. Primeiro, serviram nas lutas entre os ibricos e, em

    muitos casos, deram origem a atuais centros e/ou conjuntos histricos; depois, talvez, nas

    propriedades particulares, tenham sido utilizados nas desavenas entre as elites nacionais e ou

    regionais. Assim, por exemplo, no relato de viagens de 1903, o jornalista uruguaio Jos Virginio

    Diaz, sobre a estncia do coronel Ciriaco Sosa, localizada no Departamento de Durazno, no

    Uruguai, escreveu que:

    [...] era muy raro y contado el forastero que llegase a aquella residncia, que constitua

    un fortin en medio del campo.

    Nesta visita, quando o coronel foi perguntado:

    - Qu me cuenta, coronel, de los blancos?...

    Com actitud resulta contesto Sosa:

    - Y alo v, siempre estoy prevenido contra esa sabandija [rpteis ou insetos].

    - Parece replico Pedro que em Nico Prez se reunieron unos cuantos... A la cuenta,

    segn cuentan, eran como unos 14.000 hombres, com 30.000 caballos...(DIAZ, 1903, p. 50-1)

    A conta poderia ou no ser exagerada. Apesar do territrio atual do pas fronteiro no fazer

    parte do recorte fsico-espacial desse trabalho, interessou assinalar a presena de um fortim

    na Campanha Oriental, e saber que este fortim serviu nas desavenas entre os dois maiores

    partidos daquela poca na nao vizinha, o partido dos Blancos e o dos Colorados, no qual o

    coronel Ciriaco Sosa, literalmente, lutava. Uma das lacunas que deve ser apontada na presente

    exposio a de no contar as lutas travadas nos trs fortins a seguir apresentados. Este texto

    inicia falando do fortim que deu origem cidade de Jaguaro, situada na margem norte do rio

    de mesmo nome, onde perto desgua na lagoa Mirim e define o atual limite do norte do

    Uruguai com o do sul do Brasil. Por fim, termina apresentando sedes de duas fazendas

    situadas no municpio de Jaguaro, onde at a atualidade permanecem os seus fortins. A

    metodologia e a documentao utilizada foi diversa. Inventrios, relatos de viajantes,

    processos de doaes de sesmarias, estatsticas, mapas e plantas antigos e visitas tcnicas aos

    locais foram as mais utilizadas. Os quadros estatsticos e os inventrios revelaram a forte

    presena da mo-de-obra cativa na cidade e nos campos de Jaguaro. Apesar de ainda no ter

    sido feita busca nas fontes que poderiam informar sobre revoltas dos escravizados, a hiptese

    do uso do fortim pelos senhores contra a resistncia dos cativos no pode ser descartada.

    Independente de terem acontecido ou no insurgncias organizadas, o fortim daria segurana

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    aos senhores e suas extensas famlias, rodeadas por contingente de maioria de jovens negros

    trabalhadores escravizados que, logicamente, queriam a liberdade.

    El Fortin de la Laguna

    A cidade de Jaguaro, situada no Rio Grande do Sul, na fronteira com o Uruguai, teve origem

    em uma guarda espanhola fundada em 1792, na margem norte ou esquerda do rio Jaguaro,

    no lugar conhecido como Cerrito de Echenique ou do Juncal. Provavelmente seja o atual

    Cerro da Plvora, localizado na atual rea urbana de Jaguaro. Nesta mesma elevao, em

    1880, foi erguida a Enfermaria Militar. De incio, a guarda foi denominada Fortin de la

    Laguna. Tambm a chamaram de Fortin del Cerrito. Tinha a funo de conter o avano luso-

    brasileiro. Teve como autor de seu projeto o alferes de fragata e cartgrafo espanhol Joaquim

    Gudim, que fazia parte da comisso espanhola que tratava de marcar os limites entre Espanha

    e Portugal no sul do continente americano, definidos pelo tratado de Santo Idelfonso, em

    1777.

    Castelhanos e lusos no chegavam a um acordo sobre a demarcao territorial no extremo sul,

    da a rea localizada entre os rios Jaguaro e Piratini ter sido lugar de muitas contendas. Por

    um lado, os espanhis instalavam guardas; por outro, com o objetivo de expandir a linha

    demarcatria, os portugueses usavam a ttica do uti possidetis, concedendo terras (REICHEL,

    2006).

    Tomado pelos portugueses em 1802, o Fortin de la Laguna passou a chamar-se Guarda da

    Lagoa e do Cerrito (ALEJO, 1992). Coincidentemente, no mesmo ano, nas nascentes do rio

    Jaguaro, os lusitanos iniciaram as distribuies de sesmarias. Em 1812, em uma rea plana,

    nas margens, prxima foz do rio com a lagoa Mirim, foi instalada a freguesia do Esprito

    Santo do Cerrito de Jaguaro. Na segunda dcada do sculo XIX, as doaes situavam-se no

    entorno das casas e da guarda. Localizaram-se, a leste, no encontro do rio com a lagoa Mirim at

    encontrar o arroio Grande e, a oeste, nas orlas do arroio do Telho. A partir de 1814, ocorreram

    doaes de chcaras e de terrenos urbanos. As chcaras, mais prximas rea povoada, protegeram

    e reforaram a ocupao no entorno da recm criada freguesia do Esprito Santo do Serrito de

    Jaguaro e na volta das instalaes militares (Cadastro de Sesmarias, Registro de Terras e

    Terrenos, Livro de Datas de Terras e Livro de Registro de Sesmarias de Terras).

    A Estncia Real do Serrito

    Em 1803, as terras e os animais da estncia do Serrito, que foram conquistados dos

    castelhanos, foram postos em arrematao pela Junta da Real Fazenda da colnia lusa. A rea

    arrematada pelo portugus Jos Pereira da Fonseca estava limitada ao sul pelo rio Jaguaro,

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    ao norte pelo arroio Juncal, ao leste pela lagoa Mirim e ao oeste pelo arroio Telho. Neste

    perodo, o Comando da Fronteira no permitia qualquer fixao. Tolerava os fornecedores de

    vveres aos militares, os chamados viandeiros. Porm, o nmero de negociantes aumentou

    (FRANCO, 1980).

    Em 1811, na Guarda do Serrito, iniciaram as doaes de terrenos urbanos. Na mesma data

    ocorreu a campanha do Exrcito de Pacificao, que se estendeu at 1812. Com a desculpa

    de ajudar os espanhis contra as guerras de independncia das provncias do Rio da Prata, o

    governador da Capitnia do Sul, dom Diogo de Souza, entrou no territrio situado na margem

    direita, ou sul, do rio Jaguaro. No mesmo ano as doaes acabaram, pois em 1809 toda a

    Estncia Real do Serrito tinha sido presenteada pelo prncipe Regente baronesa, aps

    viscondessa, de Mag. Diligncias foram tomadas para a posse da terra arrendada (MARTINS,

    2002).