Comunicação não violenta e conflitos na área ambiental

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Descrio de modelo de curso na rea de conflitos interpessoais e ambientais. Prof. Dr. M.L. Pelizzoli (www.curadores.com.br)

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<ul><li><p>TICA E RESOLUO DE CONFLITOS NO CONTEXTO DA EDUCAO AMBIENTALMarcelo L. Pelizzoli (www.curadores.com.br)(Do livro Homo Ecologicus Editora da UCS, 2011)</p><p>Entrando num tema de grande importncia hoje, trago ao leitor uma experincia vivida no mbito dos cursos de formao que ministro em parceria com a ONG AMANE1. Trata-se de tema fundamental na questo socioambiental e na vida diria, vivido aqui em cursos que chamo de mdulos os quais visam a mediao, o dilogo e a negociao em contexto de gesto e conflitos ambientais, portanto, em conjuno com processos de educao ambiental concebida ento para alm do verdismo e do conservacionismo.</p><p>Objetivos do mdulo</p><p>* Introduzir terica e praticamente a ferramenta de medio de conflitos, a CNV (Comunicao No-violenta)</p><p>* Como consequncia, promover conscincia, estratgia e dinmica participativa para lidar com pessoas, grupos e disputas em ambientes institucionais e gesto.</p><p>* Como um pano de fundo, promover uma discusso conjunta em torno da tica e nossas motivaes, desde o atual estado da crise socioambiental.</p><p>Quanto ao carter metodolgico da proposta</p><p>O mdulo parte do princpio pedaggico-metodolgico de que cada passo dado pelo professor e as respostas do grupo devem ser percebidos dentro de um quadro interativo entre diferentes, onde a lgica do dilogo e o modo de lidar com o que ocorre so exemplos da prtica da compreenso e resoluo de conflitos, o desafio concreto da tica. O formato em crculo, a abertura a histrias pessoais (a comear pelo professor), a msica cantada em conjunto com violo, como elemento sociopedaggico e ldico, as aes corporais, como a representao teatral de conflitos, o estmulo ao debate a partir de temas polmicos referidos ao ambiente de vida e trabalho, tudo isso mostra-se uma conjuntura muito frtil para trabalhar. Forma-se o palco onde o participante convidado a cada momento a tomar conscincia do que acontece na interao, perceber seu modo de falar, perceber o jogo do conflito, perceber a carga emocional presente, perceber o outro, bem como aquilo que faz aumentar as possibilidades de sucesso ou fracasso na relao, na conversao ou na negociao. </p><p>Em termos metodolgicos do contedo, cada participante recebe antecipadamente um CD com centenas de materiais em documentos dentro da temtica, bibliografias, udios, vdeos, textos e livros digitais do professor, nas reas de sustentabilidade, emoes/psicologia, outras metodologias de resoluo de conflitos e cultura de paz, tica, espiritualidade etc. O professor/facilitador deve estar atento a cada momento de discusso, no sentido de corroborar no apenas o contedo trazido, mas a forma, ou seja, o modo como so estabelecidas as falas e os conflitos explcitos e implcitos no grupo, e principalmente com os exemplos trazidos do contexto de cada um. </p><p>Se fssemos resumir as propostas aqui de mtodos apontaramos o seguinte: Aulas expositivo-reflexivas questionadoras; anlise de conceitos-chave envolvidos na temtica e exemplos do grupo. Anlise de casos. Teatralizaao. Dinmicas apoiadoras das temticas. Msicas </p><p>1 Associao para proteo da Mata Atlntica do Nordeste. www.amane.org.br</p></li><li><p>cantadas com violo. Frum de sntese. </p><p>A acolhida</p><p>O mdulo inicia com a apresentao de um vdeo onde bebes riem constantemente, e tambm com msicas para animar o grupo. O facilitador convida ento reflexo sobre a capacidade de leveza, ludicidade e alegria diante da vida e nos ambientes de convivncia. A musica cantada em conjunto tem uma funo de coeso mais que racional do grupo. A acolhida fundamental nesta proposta pois possibilita a abertura para o trabalho com dilemas ticos, em geral de difcil acesso devido a questes pessoais e emocionais no trabalhadas.</p><p>Apresentao do Professor</p><p>Ainda dentro da acolhida, a apresentao do facilitador estratgica, tomando a iniciativa de relatar um pouco de sua histria, permitindo tocar em questes pessoais e emocionais, mas fundamentalmente uma histria que une a luta ambiental s motivaes, fracassos e sucessos, at chegar ao atual momento de luta ecolgica e seus desafios. Cotejar o vivido com as questes polticas, culturais e sociais da atualidade (com o foco na dimenso ambiental ampla) produtivo, a ponto de muitas vezes o grupo intervir e dar seus exemplos e opinies dentro mesmo do momento da apresentao do facilitador. Tal apresentao tem tambm o carter de quebrar a formalidade e frieza das dimenses puramente tcnicas de contedo, e convidar a pensar e sentir os modos e dilemas humanos que est por trs das interaes e escolhas; trata-se da forma como a coisa feita, mais que do contedo. Mais adiante o grupo ser convidado, na discusso sobre dilemas ticos vividos, a pensar no que gera o conflito, no tanto as diferenas e idias opostas, mas o modo de viv-las, o ambiente emocional em jogo, os jogos sistmicos e os bloqueios herdados e recriados, e assim as impossibilidades ou incapacidades para o Dilogo.</p><p>O que diz pra voc essa disciplina/proposta ? Significado, importncia, finalidade, tendo em vista o trabalho do gestor </p><p>Este o convite metodolgico seguinte, ou seja, coloca-se a pergunta: at onde questes de natureza tica, relacional, conflitivas so essenciais na manuteno de qualquer trabalho coletivo, de qualquer conquista de grupo e luta social. Em geral, o retorno obtido unnime quanto crucialidade do tema para o trabalho, e mais ainda para a vida familiar e social. Alis, este foi um ponto forte nas avaliaes dos grupos quanto proposta, o tema tocou em questes de gesto de grupos ao mesmo tempo que remetendo vida familiar e social das pessoas envolvidas. Mas a que se percebe tambm as dificuldades acopladas distncia entre o ideal e o real e a possibilidade de maior nimo ou desnimo para a luta socioambiental.</p><p>Outro ponto metodolgico que deve ser relatado a apresentao da proposta passo a passo, do programa e dos procedimentos a serem adotados. Isto d um tom participativo, esclarecedor e construtivo do trabalho, ao que os membros podem questionar, sugerir, ao que se sentem mais inteirados e seguros quanto ao que acontecer. Neste tema em particular, da lgica e da desmontagem dos conflitos, importante ter a colaborao e a aprovao do grupo, bem como uma boa introduo proposta, devido resistncias internas sempre presentes. O passo a passo til nestes aspectos, pedindo licena e colaborao para tal. E quando o facilitador sabe criar um clima que propicia o surgimento dos fenmenos latentes, tanto do debate das diferenas quanto de um espao para expresso das insatisfaes, mgoas, relaes humanas no trabalho etc., dimenses de maior intimidade por trs da vida dos grupos, abre-se ento portas para a mediao e para a </p></li><li><p>resoluo. Esta foi a experincia vivida nos cursos da AMANE no Nordeste, onde questes desta natureza foram prementes, pois trabalhamos com instituies governamentais, ONGs, movimentos sociais e comunidade organizada, grupos que conflituam internamente e externamente.</p><p>Discusso sobre tica</p><p>+ O que mais nos incomoda/inquieta nas tuas vivncias, no aspecto da (falta) tica no encontro com a questo ambiental ?</p><p>Esta foi a pergunta que se seguiu apresentao inicial. O que nos incomoda e toca no somente aquilo que racionalmente pensamos sobre o assunto, mas o que refletimos e criticamos devido ao fato de que fere valores pessoais, sociais e ambientais. Na lousa, elencamos ento o que significa tica para cada um (disso, de cada resposta, decorrem outras questes latentes). Esta questo tem a funo no tanto de adotar um conceito de tica de cima para baixo, mas simplesmente incitar discusso e perceber o quanto de dilemas e conflitos morais surgem numa discusso, bem como quantas vises diferentes aparecem. Ou seja, so muitos mundos em jogo, so muitos horizontes culturais e contextos familiares e sociais, alm de psicolgicos, que se esbatem. </p><p>Qual o papel do exemplo prtico na questo tica ? A tica como terica (discurso) e a vida prtica, como est esta relao ou dicotomia ? Por que to grande esta dicotomia entre discurso ambiental e vida real, institucional ? H uma tica universal, para todos ? Ela inata ou adquirida ? dada de forma gentica? Como perceber a dicotomia Certo X Errado, enquanto luta entre meu gueto X o teu, o Bem X Mal ? tica = Moral ? Ethos grego.) Por que algum deve ser tico? Como perceber o mal que projetamos no outro como nossa Sombra ? Aqui tocamos numa questo delicada da tica e dos conflitos, que o mecanismo psicossocial da projeo, unida ao moralismo unilateral que encontra no outro, no diferente, no excludo, no rebelde, no que sofre preconceito, a origem de todo mal. O grupo levado a perceber como est arraigado a noes conservadoras de moral, calcadas em modelos religiosos que separam absolutamente o bem do mal, Deus e o Diabo. E ver como isso se coloca nas concepes de famlia e grupo que se protegem contra os outros, o estranho.</p><p>A dinmica espelho-Sombra. O Bode expiatrio e a Ovelha negra</p><p>Para fazer perceber melhor o problema acima, confrontando-se com sua sombra, os prprios defeitos projetados fora, criamos um pequeno exerccio. Este uma dinmica rpida onde pedimos ao participante para escreverem numa folha 3 ou 4 caractersticas negativas que o incomodam muito no comportamento de outra pessoa. Isto feito, as pessoas so convidadas a relatarem as coisas negativas que lhes transtornam no modo de ser de outra pessoa ou grupo. Ao que o facilitador vai at cada uma e cumprimenta-a apertando a mo e dizendo prazer em lhe conhecer melhor. um procedimento de surpresa e uma pequena confisso em grupo dos defeitos possivelmente escondidos e projetados.</p><p>Segundo C. G. Jung, mas tambm Nietzsche, os comportamentos de outrem que irritam por demais ou tiram fora do srio algum, tem duas implicaes: a primeira, a prpria pessoa tem aquela caracterstica negativa mas a exerce em outro nvel, outra pessoa ou forma mitigada ou implcita; a segunda, a pessoa tocada por aquele comportamento porque no fundo gostaria de fazer algo daquele tipo. Por exemplo: algum muito tmido ficar incomodado com pessoas que chamar de espalhafatosas. </p><p>Tal dinmica novamente um convite reflexo sobre como acusamos os outros daquilo que temos ou que j fizemos, e como difcil entender os outros, bem como a necessidade de </p></li><li><p>buscar entrar um pouco em seu mundo para relacionar-se.Trazemos neste momento a figura do bode expiatrio, mostrando o carter sacrificial dos </p><p>grupos que quase sempre criam bodes para serem sacrificados (humilhados, culpados, tornados rebeldes, pano de fundo de fracassos, mgoas, e neuroses dos grupos). Os grupos criam tambm ovelhas negras, indivduos que so perseguidos e expulsos, ou que se colocam em funo mesmo de rebeldia quanto ordem estabelecida e posies do grupo. </p><p>Estes so elementos que propiciam significativas tomadas de conscincia de como funcionamos como indivduo dentro de um grupo e deste em relao a indivduos isolados e a outros grupos. </p><p>Representao/dramatizao de conflitos</p><p>Um dos pontos altos deste mdulo a representao teatral de situaes de conflito trazidas pelo grupo. Sempre em crculo, traz-se a disposio de personagens na forma de confronto entre partes, que por afinidade se aproximam em grupos diferentes em disputa. Cada um orientado a defender completamente o papel assumido. Em geral, usamos a seguinte configurao inicial: o papel de um Usineiro, empresrio do ramo da cana, que iniciava falando da importncia social e econmica de seu trabalho para a sociedade, para o progresso da cidade e do pas. Diante dele colocamos em geral uma ecologista que defenderia a questo ambiental em reas afetadas correlatas aos usineiros. Estimula-se o dilogo livre, mas dentro do que a funo do personagem exigiria. Ao lado do usineiro colocamos um trabalhador, como que um capataz de fazenda, que tem sua famlia toda dependente daquele trabalho, e que tem a funo de defender o patro a todo custo. Ao lado ainda do usineiro, o prefeito da cidade da usina, defendendo os empregos, os impostos e a dependncia da cidade do progresso. So trs homens (autoridades) ou mais contra uma ecologista. O facilitador pra por um momento a dramatizao para mostrar que a questo ecolgica se pe energeticamente mais ou menos deste modo, o princpio do feminino, do novo, do alternativo, contra o principio do masculino (Yin X Yang, cf. Capra (1980)), da tradio, do patriarcado, do desbravador (empresrio...). Lutar ecologicamente lutar tambm contra o estabelecido, contra uma tradio que se conserva e presente na mente de todos.</p><p>Em determinado momento, chamado um representante da AMANE ou outro ecologista para ajudar a ecologista solitria. Em outro, chamado um representante dos Sem Terra para marcar a questo social em conexo com a ambiental, e acirrar o confronto de interesses e classes no debate. Em geral, a essa altura temos uma dramatizao que esquenta, onde os personagens se animam e vo perdendo o medo inicial. Em seguida, um representante do Ibama ou de Secretarias ambientais locais chamado a participar. Ele se v numa posio intermediria ou ambgua, pois ao mesmo tempo ele fica do lado do governo e do prefeito (e portanto do empresrio) mas tambm pode estar do lado da defesa da Unidade de Conservao e do entorno ambiental etc. Numa outra variao, coloca a comunidade do entorno e sua relao com a UC, os conflitos surgidos na figura de um policial ambiental em conflito com comunidade de caadores ou coletores na floresta. O objetivo sempre trazer a tona, encarnadamente, os conflitos vigentes, e ao mesmo tempo observar o contedo em disputa mas ainda mais a forma como conduzida a fala, a energia para a disputa, o tipo de palavras, as expresses do corpo, e as emoes surgidas. O modo como ocorre a comunicao e as relaes crucial para entender o fracasso da negociao, da mediao e das relaes em geral. Outra variao trazer conflitos internos dos grupos presentes (Ibama, ONGs, movimentos sociais X ONGs etc.). Por vezes, pode-se desde que capacitado para tal colocar elementos de constelaes sistmicas para trazer o sentido de dramas ocultos ou no falados nos grupos e na prpria luta social e ambiental (o livro Nossa vida como Gaia de J. Macy uma excelente referncia para tal, unindo teoria e prtica vivncias de ecopsicologia). Outro personagem freqente um consumidor jovem urbano, que no est nem </p></li><li><p>a para questes sociais e ambientais, que no defende nada nem ningum, apenas o seu consumo e prazer. interessante perceber como ele se coloca ao mesmo tempo na dependncia do sistema de produo e consumo e incide diretamente na problemtica ambiental; tambm o fato de que devemos seguir na luta ambiental para alm de se preocupar se muitas pessoas ou grupos nos acham estranhos, radicais ou no se importam com a destruio do planeta, das pessoas. Uma variante colocar ento um jovem desanimado com tudo, niilista, para retratar talvez o que muitos sentem ou temem. </p><p>Um dos pontos altos da dinmica a troca de papis. O usineiro passa, opostamente, a ser a ecologista e vice-versa. Todos trocam; e surpreendente ao ver certas dificuldades na encarnao do novo papel, ao mesmo tempo que revela mais uma vez que nos arraigamos a papis determinados. O teatro imita a vida. Os alunos so estimulados a...</p></li></ul>

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