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Associao Nacional dos Programas de Ps-Graduao em ComunicaoXXV Encontro Anual da Comps, Universidade Federal de Gois, 07 a 10 de junho de 2016

Trabalho apresentado no GT ESTUDOS DE SOM E MSICA ,no XXV Encontro Anual da Comps, Universidade Federal de Gois, 07 a 10 de junho de 2016

www.compos.org.br / page 1/25 / N Documento: 9A842BFC-E3AA-48ED-8E49-674E59318AE9

Comunicao, Msica e Estilos de Vida agenciados no Baile Black Bom

Communication, Music and Lifestyles agencied in the Baile Black Bom

Micael Herschmann I / Luciana Xavier de Oliveira II

IDoutor, Universidade Federal do Rio de Janeiro. Contato: micaelmh@globo.com

IIDoutora, Universidade Federal Fluminense. Contato: luciana.ufba@gmail.com

Resumo: Tomando como base a pesquisa emprica realizada desde 2013 (construda no s apartir da seleo e anlise de matrias veiculadas na mdia impressa tradicional e materialpostado nas redes sociais da web, mas tambm de observaes de campo e entrevistassemiestruturadas realizadas presencialmente com os atores), esse artigo pretende a partir doestudo de caso do Baile Black Bom realizado especialmente na Pedra do Sal (no Centro do Riode Janeiro) analisar as relevantes interaes entre msicas, estilos de vida e corpos noreagenciamento de uma cena black carioca construda por neotribos locais.

Palavra chave: Comunicao, Msica Black, Ethos, Cidade, Poltica

Abstract: Based on empirical research conducted since 2013 (built not only from the collection,selection and analysis of published material in traditional print media and material posted onsocial networks, but also field observations and semi-structured interviews with the actors) thisarticle aims - from the case study of Baile Black Bom done especially in Pedra do Sal (indowntown, Rio de Janeiro) - analyze the relevant interactions between musics, lifestyles andbodies in the update of a scene carioca black builted by local neotribes.

Keywords: Communication, Black Music, Ethos, City, Politic

1. Introduo

Matrias com grande destaque veiculadas na mdia tradicional (cf. abaixo) passaram a

chamar a ateno de especialistas interessados em repensar o lugar e a vitalidade da cultura

black na vida urbana carioca atual.

Gente bonita, animao e muita msica boa. Essa a receita do Baile Black Bom, evento criado pela banda Conscincia Tranquila(...) que faz muito sucesso na Pedra do Sal, na Gamboa, no Centrodo Rio (...). A banda Conscincia Tranquila promove uma viagempor vrios gneros musicais, com releitura de grandes sucessos da

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dcada de 70 at os dias de hoje. Alm do som, tambm aconteceno mesmo local uma exposio de produtos da redeafro-empreendedores, com venda de camisetas e outros itens. OCentro de Articulao de Populaes Marginalizadas distribuiainda kits de literatura sobre a temtica negra [1].

Tomando como base a pesquisa emprica realizada desde 2013 (construda no s a

partir da coleta, seleo e anlise de matrias veiculadas na mdia impressa tradicional e

material postado nas redes sociais, mas tambm de observaes de campo e entrevistas

semiestruturadas realizadas com os atores), esse artigo pretende a partir do estudo de caso

do Baile Black Bom realizado especialmente na Pedra do Sal (no Centro do Rio de Janeiro)

analisar as interaes entre msicas, estilos de vida e corpos na atualizao de uma

cena (STRAW, 2006) black carioca construda por neotribos (MAFFESOLI, 1987)

locais.

Est se considerando aqui os atores que vo a estes bailes estudados, portanto, como

membros de uma neotribo, isto , seu movimento de agregao social como fazendo parte

de um fenmeno em expanso na sociedade atual: denominado por Maffesoli como

neotribalismo . Alis, a este respeito, Maffesoli afirma que as neotribos se

caracterizariam por uma "unio em pontilhado": movidas pelo desejo de "estar-junto",

produziriam uma espcie de "nebulosa afectual", isto , uma ambincia que:

(...) permite compreender a forma especfica assumida pelasocialidade em nossos dias (...) trata-se antes do ir e vir de umgrupo a outro do que propriamente a agregao a um bando, umafamlia ou a uma comunidade. (...) Ao contrrio do tribalismoclssico, o neotribalismo caracterizado pela fluidez, pelosajuntamentos pontuais e pela disperso. E assim que podemosdescrever o espetculo nas metrpoles modernas (MAFFESOLI,1987, p. 107).

2. Corpos na cidade: afetos, estticas e performances.

Este trabalho privilegiou tambm na sua anlise a vivncia corporal que gravita em

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torno da msica e moda nas cidades, especialmente aquelas nmades, as quais colocam em

cena a experincia da alteridade, que em geral produzem situaes de mobilizao social.

Alis, no h como seguir os atores e acompanhar suas experincias sonoras coletivas e no

ser mobilizado ou, ao menos, afetado corporalmente de alguma forma

(MERLEAU-PONTY, 2004 e 1999) pela sonoridade das territorialidades envolvidas. Nesse

sentido, De Nora sublinha a capacidade da msica em condicionar o corpo, acionando

nossas lembranas e afetando ideias, humores e emoes (DE NORA, 2000). No apenas

a sonoridade dos concertos ao vivo executados, mas tambm as vozes e rudos que ecoam

das ruas, do trfico e das pessoas, que envolvem e conformam o ambiente desses encontros

corporais pesquisados.

No se pode negar que, assim como propem Sennett (1996), a nudez, o calor, os

espaos pblicos, as orientaes geomtricas, o papel da luz, o medo ao contato fsico, ou

as necessidades de circulao so a base para se refletir as cidades em pocas distintas. Na

obra de Sennett o corpo se converte em protagonista principal, na chave para entender o

sentido da morfologia e da organizao urbana, ou seja, os sentidos das cidades emergiriam

nas interaes sensveis entre o corpo e a prpria cidade. A lgica desta reflexo sobre as

bases corporais da percepo conduz a repensar as cidades a partir de sua potncia

sensorial. Portanto, nesse sentido, entende-se que o espao e o corpo comunicantes em

interao demandam a experimentao mtua para que o corpo apreenda o lugar pela ao

in loco ". Essa foi a postura investigativa adotada: a de colocar-se deriva, assumir

percursos com a intencionalidade que busca o que est na experincia da cidade com o

objetivo de encontrar os sentidos imanentes dos lugares.

A proposta de se colocar deriva no aleatria, mas corresponde a uma posio de

estratgia metodolgica conscientemente adotada pelos pesquisadores aqui no intuito de

entender a cidade como um espao dinmico que se atualiza cotidianamente a partir das

interaes inteligveis e sensveis. Em sua extensa obra sobre a configurao territorial,

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cultural e econmica das cidades, Jacobs conhecida pela publicao de Morte e Vida das

Grandes Cidades apresenta frequentemente a ideia de que as cidades, as economias e a

prpria vida se colocam deriva: flutuar, discrio dos mares, ventos ou correntezas;

vaguear, ser levado pelas circunstncias. Para Jacobs (2000), a palavra deriva representa a

concepo de que as cidades so sistemas abertos que se constituem empiricamente, na

medida em que avanam e recebem constantes infuses de matria e energia, deparando-se

tambm com imprevistos ao longo do caminho. Desse modo, a deriva apresenta-se como

uma abordagem no linear, que permite compreender, na configurao comunicativa da

cidade, mltiplos fenmenos de identificao sociocultural. Assim, o que se prope aqui

observar as interaes da cidade no somente como um aparato programado e planejado

pelos urbanistas, mas como um espao de comunicabilidades dinmicas que se dobram e

desdobram infinitamente, construindo espaos comunicantes de diversas, mltiplas ou

inter culturas.

No estudo de caso analisado aqui, a experincia sensria urbana conduziu os

pesquisadores aos arredores da Praa Mau (localizada no Centro da cidade do Rio de

Janeiro), mais especificamente Pedra do Sal. Neste local, com o soar dos primeiros

acordes, h uma transformao profunda do espao: no trabalho de campo realizado

atestou-se que a experincia corporal tensa das grandes cidades ali vai invariavelmente

cedendo gradativamente espao para outras sensaes estsicas sedutoras e poderosas.

No caso do Baile Black Bom, o grupo musical Conscincia Tranquila chama a ateno

pelo cuidado que os integrantes tm com a performance (ZUMTHOR, 2000) dos

concertos. Na realidade, ao longo das apresen