compre o kit neoliberal para a educação infantil e ganhe grátis os

Download compre o kit neoliberal para a educação infantil e ganhe grátis os

Post on 07-Jan-2017

213 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

  • Educao & Sociedade, ano XXII, n 74, Abril/2001 251

    RESUMO: O objetivo deste artigo contribuir para a reflexo sobrea formao do professor de educao infantil na atualidade. Paratanto parte-se de uma reviso da bibliografia, que tem alertado paraas interfaces do neoliberalismo e do ps-modernismo com as pol-ticas educacionais e, em especial, as polticas de formao de pro-fessores. So analisados, enquanto norteadores da implementaodo iderio neoliberal no campo da formao de professores da edu-cao infantil, os documentos produzidos pelo MEC como Refern-cias tanto para a formao de professores como para delimitar co-nhecimentos a serem trabalhados na educao de 0 a 6. Conclui-se que as tendncias deste processo so o aligeiramento da for-mao de professores, a gradativa perda de controle dos mesmossobre seu exerccio profissional e a transformao das salas deeducao infantil em laboratrios de implementao dos ideriospedaggicos, afinados com o neoliberalismo e o ps-modernismo.

    Palavras-chave: Educao infantil, formao de professores, neo-liberalismo, ps- modernismo, polticas educacionais.

    Este artigo analisa a influncia de postulados neoliberais e ps-modernos nas polticas contemporneas no campo da formao de pro-fessores, procurando apontar os resultados desastrosos que podem advirdessa influncia, em termos de descaracterizao do professor como pro-fissional. Essa anlise volta-se especificamente para a formao do pro-

    COMPRE O KIT NEOLIBERAL PARA A EDUCAOINFANTIL E GANHE GRTIS OS DEZ PASSOS PARA SE

    TORNAR UM PROFESSOR REFLEXIVO

    ALESSANDRA ARCE*

    * Doutoranda do Programa de Ps-Graduao em Educao, rea de concentrao em Edu-cao Escolar, da Unesp/FCL de Araraquara, bolsista do CNPq. E-mail: learce@zipmail.com.br

  • 252 Educao & Sociedade, ano XXII, n 74, Abril/2001

    fessor de Educao Infantil, focalizando dois documentos recentementelanados pelo MEC. O primeiro deles intitula-se Referencial Pedaggi-co-Curricular para a Formao de Professores da Educao Infantil eSries Iniciais do Ensino Fundamental documento preliminar1 (MEC,1997) e o segundo, j na verso final, intitula-se Referencial CurricularNacional para a Educao Infantil (MEC,1998b).

    Para que possamos compreender os desmembramentos educaci-onais das chamadas polticas neoliberais, necessitamos entend-las emsua complexidade. Segundo Gentili (1996), dois economistas precisamser revisitados por serem considerados os mais respeitados representan-tes da inteligncia neoliberal: Friedrich A. Hayek e Milton Friedman, cujosprimeiros textos datam do perodo referente Segunda Guerra Mundial,momento este em que tnhamos o incio da cristalizao, na sociedadeocidental, do modelo keynesiano alicerado no Estado de Bem-EstarSocial. Este modelo foi combatido pelos primeiros neoliberais por fomen-tar um estado intervencionista e coletivista, prdica da social-democra-cia, vista por estes autores como um srio risco para a liberdade indivi-dual, constituindo-se em caminho frutfero para regimes totalitrios.

    Segundo Anderson (1995), os textos que deram origem s ques-tes postas pelo neoliberalismo em oposio ao Estado de Bem-Estaraparecem na obra O caminho da servido, escrita em 1941 por Hayek.Nessa obra, o autor teria, segundo Wainwright (1998), elaborado umateoria para justificar sua luta contra o modelo econmico vigente, teoriaesta que no limitou-se economia e cujo argumento central residia naincapacidade do ser humano de conhecer tudo e todos, bem como navalorizao da particularizao no ato de conhecer. Assim, para Hayek,o conhecimento seria um atributo individual e, segundo Wainwright(1998, p. 51), ele o via quase que como uma caracterstica fsica, comose mente e corpo fossem uma coisa s e o conhecimento do indivduofosse o que ele experimentaria de maneira atomstica e nica. Derivan-do este conceito para a economia, Hayek importava-se em estud-la par-ticularizada, em analisar sucessos particulares de empreendedores iso-lados, pois o individualismo provindo de seu conceito de como o conhe-cimento adquirido pelo homem a sua bandeira.

    Hayek afirma existir um fato indiscutvel que ningum pode esperar alterare que, por si s, a base suficiente para as concluses dos filsofos indi-vidualistas: as limitaes constitucionais do conhecimento e dos interessesdo homem, o fato de que ele no pode saber mais do que uma nfima par-

  • Educao & Sociedade, ano XXII, n 74, Abril/2001 253

    te do todo da sociedade e que, portanto, tudo o que pode participar de seusmotivos so os efeitos imediatos que suas aes tero na esfera que eleconhece. Todas as possveis diferenas nas atitudes morais dos homensresultam em pouca coisa, no que diz respeito ao seu significado para a or-ganizao social, comparadas com o fato de que tudo que a mente do ho-mem pode eficazmente compreender so os fatos do limitado crculo doqual ele o centro. (Wainwright, 1998, p. 51-52)

    Dentro deste corpo de argumentaes, segundo o qual o indivduo incapaz de abarcar a totalidade, o Estado, enquanto rgo que procuratotalizar aes, est fadado ao fracasso e, para que atenda melhor osanseios dos indivduos, sem priv-los da liberdade, deve ser mnimo, re-duzido, deixando que micropoderes localizados exeram sua funo deforma a garantir que cada indivduo tenha o mximo de liberdade paraperseguir seus interesses. Portanto, segundo Wainwright (p. 47), paraHayek o mercado e a economia devem seguir este modelo, pois o livremercado, assim como o indivduo e seu direito liberdade, so produ-tos espontneos da civilizao. Tal fato deveria ser defendido como abandeira moral do neoliberalismo, pois caso ocorra a desigualdade, estano seria considerada como algo no natural, ento seu oposto, tambmse d de maneira natural, pois em uma sociedade os indivduos so di-ferentes, o que os impossibilita de atingirem fins coletivamente. Sem-pre teremos os mais fracos que ficaro para trs, podendo talvez comuma jogada de sorte mudar o rumo de suas vidas: As desigualdades, aoque se presume, so simplesmente os resultados causais da atividadeindividual, que poderiam ser revertidos em seu modelo, por uma novajogada de sorte (idem). Segundo Frigotto (1995, p. 83), para Hayek, aigualdade social, imposta pelo Estado totalitrio, que leva servido,sendo saudvel que em uma sociedade alicerada no individualismoexacerbado tenhamos a desigualdade, que um processo natural. Po-demos afirmar que, para Hayek, o tema luta de classes, a partir do ex-posto, se torna vazio, sem nenhum significado, tendo apenas indivduosque devem ser respeitados quanto s suas diferenas e que tentam vi-ver dignamente dentro dos limites que suas capacidades permitem.

    Todos estes pontos at aqui esboados chocavam-se frontalmentecom o modelo ps-guerra dos anos de 1940 e no obtiveram eco em suapoca; somente aps trs dcadas, as idias que defendiam o capital ba-seado na liberdade do indivduo foram ouvidas e frutificaram, fato este au-xiliado pela decadncia do Estado de Bem-Estar Social e pelas contnuase graves crises econmicas (Gentili, 1996). Iniciadas em 1973, estas crises

  • 254 Educao & Sociedade, ano XXII, n 74, Abril/2001

    apresentavam a frmula que mais tarde seria a ideal para a introduo dasmedidas neoliberais: longa e profunda recesso, seguida de baixas taxasde crescimento e altas taxas de inflao, cujas razes, segundo Hayek, es-tavam localizadas no poder excessivo e nefasto dos sindicatos e, de ma-neira mais geral, do movimento operrio, que havia corrodo as bases deacumulao capitalistas com presso parasitria para que o Estado aumen-tasse cada vez mais os gastos sociais (Anderson, 1995, p. 10).

    O remdio para a cura deste mal passou a ser a receita obrigat-ria de consultores financeiros neoliberais: por um lado, manter o Estadoforte suficiente para acabar com gastos desnecessrios, privatizar em-presas estatais e liquidar os sindicatos e, por outro, diminuir os gastose as intervenes estatais nas questes sociais e econmicas; todas es-tas medidas devem ser administradas de uma s vez, de forma quaseque ditatorial, pois a meta principal de tudo isto a estabilidade mone-tria, que deve ser alcanada a qualquer preo.

    Ressalta-se, no campo das polticas sociais, que o receiturioneoliberal incentiva a desativao dos programas sociais pblicos e o Es-tado deve-se ater somente a programas de auxlio pobreza (Draibe,1993). Dentro desse preceito, a educao eleita como chave mgicapara a erradicao da pobreza, pois, investindo-se no indivduo, dando-lhe a instruo, ele poder ser capaz de buscar seu lugar ao sol. Aliada educao, a segurana aparece como outro investimento social do Esta-do, pois, para que as reformas neoliberais ocorram, a ordem essencial.

    (...) duas reas de ao pblica no campo social se justificam, a de se-gurana e justia por um lado, e a de educao por outro. Na primeira,trata-se de canalizar a autoridade e os recursos estatais para a garantiade estabilidade e da segurana social; na segunda, e de acordo com oiderio liberal, trata-se de igualar as oportunidades, reconhecendo as di-ferenas entre os indivduos, ampliar o campo de oportunidades dos maisdesfavorecidos, de modo a que pudessem competir menos desigualmentecom os demais. Na sua base, a sociedade se organizaria, assim, sob umdado patamar de eqidade. (Draibe, op. cit., p. 93)2

    Exemplos perfeitos deste tipo de remdio neoliberal pairaram pelaprimeira vez sobre o mundo no final da dcada de 1970, nos governos daprimeira ministra da Inglaterra, Margaret Thacher, e do Presidente dos Es-tados Unidos, Ronald Reagan, e em ambos o iderio neoliberal apresen-tou-se como uma alternativa terica, econmica, ideolgica, tico-poltica

  • Educao & Sociedade, ano XXII, n 74, Abril/2001 255

    e educativa crise do capitalismo deste final de sculo. Algumas catego-rias foram eleitas para estabelecer as bases tericas: qualidade total, for-mao abstrata e polivalente, flexibilidade, participao, autonomia,descentralizao, competitividade, eqidade,