COMPLEXIDADE E CONHECIMENTO CIENT ? RESUMO Este trabalho tem como objetivo discutir o conceito de

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  • COMPLEXIDADE E CONHECIMENTO CIENTFICO

    Jorge de Albuquerque VieiraPrograma de Ps-Graduao em Comunicao e SemiticaPontifcia Universidade Catlica de So Paulo, Setor de Ps-Graduao. Rua Joo Ramalho 182 - 4 andar, Perdizes. CEP: 05008-000 -So Paulo, SP - BrasilE-mail: jorgeavi451@hotmail.com

    RESUMOEste trabalho tem como objetivo discutir o conceito de Complexidade e como este interfere em problemas

    colocados pela Teoria do Conhecimento durante, principalmente, a elaborao do conhecimento cientfico.Discutiremos tambm os conceitos que parecem mais indicados na tentativa de efetivar uma definio do queseja Complexidade, tendo em vista que a literatura sobre o assunto enfatiza as formas de complexidade, masno ainda uma definio especfica do conceito.Palavras-chave: Complexidade, Teoria do Conhecimento, Semitica, Informao.

    ABSTRACTCOMPLEXITY AND SCIENTIFIC KNOWLEDGEMENT. This paper aims to discuss the concept of

    Complexity and how it interferes with problems presented by the Theory of Knowledge, particularly during thebuilding of scientific knowledge. We discuss the concepts that seem more indicated in the attempt of effectuatinga definition of Complexity, considering that literature on the subject put emphasis on the forms of complexity,but there is still no specific definition of the concept.Key-Words: Complexity, Theory of Knowledge, Semiotics, Information.

    INTRODUO

    Vivemos uma poca caracterizada pela crescenteimportncia da complexidade. Em nosso sculo, apsos sucessos das Mecnicas Clssica e Quntica,enfrentamos problemas complexos gerados no s peloavano do conhecimento, mas tambm (e de formaurgente) pelos fortes processos de transformao sociale degradao em todos os nveis do nosso mundo, oque pode vir a comprometer o futuro prximo de nossaespcie. Os problemas dos sistemas humanos e dosdecorrentes sistemas psicossociais so aqueles ligados nossa dificuldade em lidar com a complexidade. Onosso conhecimento mais clssico no consegue captaros aspectos complexos das novas e, por vezes,incontroladas situaes que tm surgido em todas asnossas atividades.

    Na medida em que lidamos com eficincia com oparadigma newtoniano, desde o final do sculo passadodeparamos com a Termodinmica e os problemas dasperdas, da entropia, da irreversibilidade e da evoluo;mesmo no reduto da Mecnica Clssica, os trabalhos

    de Henri Poincar na Teoria dos Sistemas Dinmicosj apontavam as rotas para o que hoje chamamos caosdeterminista, com as conexes com o que hojeencontramos nas contribuies de Prigogine, de HenriAtlan, entre outros. Assistimos as tentativas de captara complexidade dos sistemas vivos, a proposta de umaTeoria Geral de Sistemas em Bertalanffy (1986) e,cobrindo a transio do sculo, o fechamento do sistemafilosfico e cientfico de Charles S. Peirce (1935), coma elaborao de sua Semitica.

    Nosso sculo prope os problemas mais complexose exige a elaborao das ferramentas adequadas pararesolv-los. Ciberntica e a Teoria da Informao, aTeoria dos Automata, a teoria da percepo de Jakobvon Uexkull e todos os demais movimentos quegeraram, entre outras coisas, o ncleo aindadiversificado das chamadas Cincias Cognitivas,cercam a questo da complexidade; por outro lado,temos assistido nessas elaboraes os traos dopensamento peirceano, tanto em seu edifcio filosficoquanto em algumas propostas, conjecturas e previses.Cada vez mais a Semitica impe-se como uma das

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  • ferramentas, talvez a mais bsica, para consolidar ogrande processo de transformao a que temosassistido.

    Do tratamento metodolgico mais clssico,herdamos a busca da ordem, da periodicidade, daprevisibilidade, da harmonia e da simetria. Mas a partirdo conceito de entropia, da possibilidade de organizaogerada a partir do conceito de entropia e/ou do rudo(Atlan 1992), nos deparamos com uma realidadeorganizada, acima de qualquer critrio de ordem;irregular e por vezes imprevisvel, alm de qualquernvel de periodicidade ou simetria; e, acima de tudo,complexa. inegvel, por exemplo, a diferena entreum cristal e uma clula viva quanto ao parmetroorganizao (Denbigh 1975: 83). O Universo complexo um sistema cuja entropia nem nula (redundnciatotal) e nem mxima (redundncia nula). Vivemosem uma realidade sistmica com redundnciamediana, que um trao ou ndice degramaticalidade.

    A histria universal natural, na maioria das vezes,como uma linguagem natural de redundncia afastadade situaes extremas. O conceito de gramaticalidadetorna-se importante aqui: lembrando a Semiticapeirceana (Peirce 1935), geral o suficiente para contere tentar representar o Universo e no somente odomnio da lingstica humana. Tentamos acessar agramaticalidade do real por meio da atividade cientfica,que acima de tudo indicial, ou seja, consiste na capturae anlise de ndices, signos que indiretamente nos falamdo real (Ransdell 1979). Estes signos fazem a mediaoentre o sujeito e os processos que perturbam a realidade,sendo estes registrados sob a forma de cadeias sgnicas,cadeias de diferenas que so informao, os chamadossinais.

    Do ponto de vista da Teoria Geral do Conhecimento, interessante analisar o que isso implica: utilizamossignos para a representao do real, tal que o queacessamos o semioticamente real (Merrell 1996);mas se admitimos um Universo evolutivo, como ofazemos em maioria hoje em dia (e em particulartambm Peirce, em sua poca, no contexto de seuIdealismo Objetivo, sua doutrina da continuidade e seuTiquismo) encontramos sistemas cognitivos que, atravsde exigncias evolutivas, internalizaram essa mediaode forma eficiente; apesar da limitao aosemioticamente real, estes sistemas, capazes de perceber

    e elaborar informao, conseguem manter um grau decoerncia com o real (sob pena de, em caso contrrio,perecerem) tal que as representaes dependem nosujeito cognoscitivo e suas caractersticas evolutivas(seu Umwelt) mas tambm nos aspectos reais do seuambiente.

    Do ponto de vista ontolgico, como lidar com essacoerncia entre sistemas reais e sistemas sgnicos? Seadmitirmos que a realidade sistmica, como o faz aTeoria Geral de Sistemas (Bunge 1977, 1979), podemosrecorrer aos parmetros sistmicos para conceber avinculao entre os sistemas do real e os sistemas derepresentao. Tais parmetros so: composio,conectividade, estrutura, integralidade,funcionalidade e organizao. Todos eles sopermeados pela complexidade, que atua como umparmetro livre. A importncia, portanto, da adoo deum enfoque ontolgico sistmico, reside na possibilidadede tratar os sinais obtidos na atividade cientfica comosistemas na verdade, sistemas sgnicos organizados,e tentar uma melhor compreenso do conceito deComplexidade.

    A OBJETIVIDADE DO SIGNO

    Nosso trabalho admite como hiptese a admissoda objetividade do signo como um aspecto dadiversidade material, espacial e temporal, do mundo,ou seja, uma diversidade material que contemdiferenciaes ao longo do espao-tempo; e damanifestao desta diversidade de forma sistmica, nocenrio temporal dos processos evolutivos, gerando umahierarquia de restries ou leis que constituem regrasgramaticais naturais, ou seja, desenvolvidas ao longode uma histria. Nesse sentido, lidamos com linguagensnaturais e no otimizadas, variando entre os extremosdo aleatrio quase total s leis quase deterministas, comoestabelecidas pela fsica clssica.

    A cincia apreende o mundo observando eregistrando variaes em seus estados, segundo critriosmetodolgicos que, entre outros, envolvem a escolhade aspectos destes estados considerados relevantes;tcnicas de reduo de dados que so, em maioria,tcnicas de otimizao. Em nosso trabalhoconsideramos a sucesso de estados registrados comouma sucesso de signos que exprimem a gramtica (ougramticas) do mundo. Estamos admitindo, como no

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  • estudo de linguagens formais (Marcus 1978: 561) queuma gramtica basicamente constituda de umalfabeto finito e um conjunto de regras atuantes sobreesse alfabeto (uma sintaxe) e todas as cadeias sgnicasassim geradas constituindo uma linguagem.

    Uma observao cientfica consiste, portanto, noregistrar de um texto, formado pela evoluo dosestados da realidade. nosso problema estabelecercritrios para evidenciar o contedo gramatical domesmo e o estabelecimento da dimenso semntica,esta ltima de forma mais completa e objetiva do quea obtida pela construo de modelos muitosimplificados e tcnicas formais otimizadas (como, porexemplo, o mtodo da mxima entropia). Comosugerido anteriormente, o que implcito nessesobjetivos discutir o parmetro complexidade, muitasvezes justificadamente abandonado no nvel dametodologia mas, que nem por isso, deixa decomparecer (e de forma crescente) no mundo quetentamos conhecer.

    Tendo em vista a distino clssica entre sinal(formalmente uma funo f(t)) e rudo (uma outrafuno, n(t), nada transportando em informao)desejamos mostrar que a expresso simples utilizadano estudo de diversos sinais, na forma g(t) = f(t) +n(t) oculta na verdade toda uma hierarquia de processosditos estocsticos (como a citada por Shannon &Weaver (1975:46) para linguagens naturais humanas)classificveis segundo seus contedos gramaticais, estesltimos diversificados em um espectro variado de vigorgramatical. O estabelecimento de tal espectro exige autilizao de parmetros tpicos da Teoria Geral deSistemas (diversidade, entropia, complexidade,integralidade, grau de organizao, etc.).

    Alguns estudos so conhecidos acerca de possveislinguagens naturais associadas estrutura objetiva domundo. Dentre estes, destacamos os desenvolvidos porSolomon Marcus, quanto a possveis estruturasgramaticais no cdigo gentico, na sintomatologianecessria ao estabelecimento de diagnsticos mdicos,etc. (Marcus & Celan 1973, Marcus 1974); a sugestode evidncias de vnculos gramaticais delineados pelastcnicas aplicadas ao estudo de caos determinista, porPrigogine & Stengers (1990:112) assim como suaformulao da equao de evoluo para estruturasdissipativas, que embasa em termos fsico-qumicos ageneralizao da expresso de g(t), generalizao essa

    que, talvez, possa ser estendida a outros domniosontolgicos, como em Jantsch & Waddington (1976);a sugesto de ser o cdigo gentico um exemplo deobjetividade da informao, nas idias de Ursul (1975)e as conseqncias das mesmas nos estudos citados deMarcus e em desenvolvimentos mais modernos, comoem Atlan (1990).

    Os atuais desenvolvimentos cientficos parecemapontar cada vez mais para um Universoprofundamente gramatical, um Texto Universal escritoao longo do tempo e que tem ocupado a capacidadehumana quanto ao estabelecimento e decifrao decdigos, em tudo o que foi feito sob os nomes deFilosofia e Cincia, sem contar aqui as outras formasde conhecimento. A idia de tal gramaticalidade foipercebida segundo enfoques diversos, sendo o maisconhecido na histria da cincia aquele atribudo aGalileu, que via o livro da natureza escrito emmatemtica (Ibri 1992: 29). Tentaremos, portanto,evidenciar alguns pequenos aspectos dessas questes,que s agora recebem uma ateno adequada segundoa dimenso semitica.

    UMWELT, SIGNO E SEMIOSE

    Para procurar acessar os textos originados pelomundo objetivo, necessitamos realizar observaesmetodologicamente planejadas. Observaes, demaneira geral e em particular as cientficas, colocamgrandes problemas, j demarcados pela Gnosiologia ouTeoria Geral do Conhecimento. Ao longo de nossaevoluo, conseguimos atravs de mecanismos deextrasomatizao expandir o domnio de nossossentidos, ou como diria a Ciberntica, dos nossostransdutores, os dispositivos biolgicos que permitema codificao e mapeamento dos aspectos da realidadeem nosso corpo e, notadamente, crebro, com aconseqente gerao de nosso universo particular(Umwelt) na acepo de Jakob von Uexkull (1992). Seno passado possuamos olhos, ouvidos, nariz, etc., paraa deteco de ondas eletromagnticas, ondas acsticas,molculas em suspenso no ambiente, etc., agora jconseguimos gerar olhos artificiais e otimizados(telescpios, microscpios, detetores de radiaoinfravermelha...), ouvidos (amplificadores,equalizadores...), um tato bem mais sensvel(sismgrafos e at mesmo as atuais tentativas de

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  • construo de antenas gravitacionais...), ou seja,levamos ao mundo todo um corpo e crebroextrasomatizados e adequados deteco demudanas, variaes ou diferenas: diferenas quefazem uma diferena constituem informao(Bateson 1980:110).

    Neste sentido, observar o mundo notar e registrardiferenas, ler as mesmas, utiliz-las como ndices queexprimam o comportamento deste, buscar ento umaadequao a essa leitura que seja eficiente ou pelomenos promissora para garantir nossa permannciacomo sistemas vivos. importante frisar que odesenvolvimento de instrumentos cientficos mais e maissofisticados no nos garante fugir de nossa bolhaparticular, o nosso Umwelt; o real permaneceinacessvel, s podemos trabalhar signos e dessetrabalho que emergem signos cada vez mais complexos,na medida em que mergulham na complexidade sugeridapelos ndices do real.

    Na Gnosiologia (Vita 1964), uma escola, oFiccionalismo, enfatiza essa seqncia de processoscomo o surgimento urgente de uma forma depragmatismo biolgico, a necessidade de adequaodo sistema aberto vivo a um ambiente quase semprehostil, o surgimento da inteligncia sob suas vriasformas e o que importante devido s escalas detempo necessrias para o desenvolvimento deestratgias de permanncia, o emergir no sistema vivoda capacidade de codificar e transcodificar as diferenasregistradas e armazenadas no seu sistema redutorcentral de informao (o sistema nervoso central paraos seres mais evoludos). As diferenas ocorrendo nomundo so de natureza diversa daquelas ocorrendo emnosso sistema nervoso central; o que h de comumentre elas o mapa o conjunto de relaes, quegera estrutura, quando isomrficas (Rosenblueth 1970:57). A noo aqui de isomorfia, , segundo esse autor,aquela de Hermann Weyl. J Uexkull (1992) sugere:uma homomorfia, etc.

    Quanto mais um organismo conseguir gerarmapeamentos razoavelmente isomrficos em relaoao ambiente, mais ele estar prximo dos ideais deobjetividade e mais apto a sobreviver. Nesse sentido,a evoluo da Lgica e, na expanso feita por Peirce,da Semitica, mostra a necessidade do sistema humanode alta complexidade em saber lidar com aspectos deseu ambiente, tambm de alta complexidade, uma

    necessidade que at agora continua a fazer sentido epresso para, pelo menos, alguns de ns. Opragmatismo biolgico, imposto por necessidadesevolutivas, assim o citado Ficcionalismo (ou comodito por Vaihinger, a filosofia do como se...). Parececlaro que o pragmatismo moderno o resultado destaforma arcaica de pragmatismo biolgico.

    Essas idias mostram que o problema doconhecimento e sua conseqncia, a necessidade daobservao, um aspecto da gerao de interfaces entresistemas abertos, ou entre um sistema e seu ambiente.De maneira muito geral, podemos dizer que o domnioda semiose (a ao do signo) humana o domnio onde gerada essa interface. Temos domnios semisicosdo mundo objetivo, do ser vivo como organismo e odessa interface, onde mais tarde prevalecer a semiosecultural. Os posicionamentos atuais quanto concepode semiose encontram-se em debate: a tendnciaidealista, que restringe semiose ao reino do vivo, pareceocupar uma posio mais difundida da maioria. O queobservamos que lentamente nos aproximamos doreconhecimento de processos de semiose em sistemascapazes de auto-organizao (Merrel 1996, Santaella1992), envolvendo assim sistemas no vivos o debate,acreditamos, vir a elucidar com mais clareza aconceituao de idealismo objetivo como citado nostextos peirceanos.

    A conseqncia dos aspectos pragmticos eficcionalistas (a construo de fices, muitas vezesde forma consciente, para acessar a realidade) oemergir do relativismo, perspectivismo efenomenalismo. Escolas tpicas e associadas aoproblema da possibilidade do conhecimento,acompanham toda a atividade cientfica: o relativismodiz que o conhecimento depende das circunstnciasem que buscado e/ou obtido; o perspectivismo tentasuperar o relativismo admitindo que o mundo vistosegundo vrias perspectivas, todas elas necessrias efundamentais (no necessitaramos escolher uma, massim montar o quadro relativo realidade considerandoa importncia de todas); o fenomenalismo diz que stemos acesso ao fenmeno: no podemos saber o queas coisas so, somente como elas se manifestam (parauma apresentao destas escolas, ver o texto citado,Vita 1964).

    O relativismo apresenta vrios nveis como o fsico,o fisiolgico, o psicolgico; o individual e o coletivo; o

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  • antropolgico. Um cientista, sendo um indivduo, umprocessador de conhecimentos imerso emcircunstncias vrias e na maioria das vezes, distintasdaquelas de seus pares. A histria de cada um, ou seja,o plano mundividente individual, j o suficiente paragerar diferentes vises de mundo, consequentementediferentes imagens de mundo. Imerso em sua solidorelativista, resta ao cientista acreditar que a sua viso,tanto quanto a do outro, tem importncia (algo muitomais fcil de dizer do que fazer). Se consegue admitiroutras vises, comea a fazer perspectivismo e a abrircaminho para o chamado experimento intersubjetivo,que na verdade s o que conseguimos fazer na buscada objetividade (a interao entre os Umwelten) acincia torna-se conhecimento pblico, partilhado eapoiado no consenso.

    A questo do fenomenalismo, nitidamente kantiana, um dos aspectos mais fortes na atividade cientfica:observaes nos aproximam de fenmenos associadosa coisas e no a elas mesmas. Sobre isso,transcreveremos a seguir um texto de Bunge (1976:719) que bastante esclarecedor:

    H, desde logo, uma velha questo filosfica a

    respeito: a de se temos acesso a algo que no seja

    fenomnico, ou seja, que no se apresente por si mesmo

    nossa sensibilidade. Se no admite mais planejamento

    que o estritamente emprico, ento bvio que s os

    fenmenos se consideram cognoscveis; tal a tese do

    fenomenismo ou fenomenalismo. Mas se admitimos que

    tambm o pensamento desempenha um papel no

    conhecimento, alm da vista, olfato, tato etc., ento pode

    provar-se uma epistemologia mais ambiciosa, uma

    epistemologia que suponha que a realidade incluindo a

    experiencial cognoscvel, embora s o seja parcial e

    gradualmente: esta a tese das vrias classes de realismo.

    Segundo o fenomenalismo, o objetivo da cincia

    colecionar, descrever e sistematizar de modo econmico

    os fenmenos, sem inventar objetos diafenomnicos ou

    transobservacionais. O realismo, pelo contrrio, sustm

    que tem que explicar-se base de um mundo mais amplo,

    embora s cognoscvel indiretamente: o conjunto de todos

    os existentes. Para o realismo a experincia uma classe

    de fatos: cada experincia singular um acontecimento

    que ocorre no sujeito conhecedor, o qual se considera

    por sua vez um sistema concreto que tem expectativas e

    um acervo de conhecimento com duas conseqncias: a

    deformao e o enriquecimento da experincia.

    Quando lemos ... sem inventar objetos...encontramos uma referncia ao ficcionalismo j citado;quando encontramos os termos deformao eenriquecimento, temos referncia ao problema dascodificaes e mapeamentos, incompletos edependentes das circunstncias, mas tambm ao poderque essas construes e invenes tm em apreenderreflexos da objetividade (a mediao sgnica; para vera viso peirceana de permanncia, existentes, realidadee regras gerais, ver Ibri 1992, cap. 2).

    A postura apresentada por Morin (1986) quanto aoproblema do fenomenalismo um exemplo de umaepistemologia mais ambiciosa: o fenmeno conectadois sistemas, o sujeito e seu ambiente e estes tmtraos isomrficos, traos comuns, como admitido noconceito de evoluo. O ser humano, o sujeito, oobservador, emergiu e evoluiu, afinal, no Universo que,talvez por isso mesmo, tenha que conhecer. Ele umproduto deste Universo e em sua organizao encontra-se, pelo menos, parte ou pistas da organizao universal( nesse domnio que devemos buscar criticar e expandiro conceito de semiose; os textos peirceanos sugeremque tal conceito mais amplo do que sugerido porvrios autores). O que difere o humano do mundo fsicoe inanimado a complexidade.

    Quando um fenmeno emerge no mundo, traz emsi marcas da fonte objetiva de origem; ele percebidoe registrado por um sujeito, que possui em suaorganizao algo destas marcas, uma vinculao decarter indicial. O ambiente foi, de alguma maneira,pelo menos parcialmente mapeado no observador (noestamos usando o termo mapa com o rigormatemtico necessrio). Estudar a estrutura e aorganizao de um fenmeno estudar estrutura eorganizao do objeto e tambm a isomorfia existentecom a estrutura e organizao do sujeito. No osujeito que cria o mundo; ele foi criado pelo mundoe em contrapartida o cria tambm e um ciclo desemiose fechado.

    SOBRE A DEFINIO DE COMPLEXIDADE

    Em toda a discusso feita, fica ntido que no temos,at o presente momento, uma definio do que seja acomplexidade. Encontramos na literatura algumasdefinies, que expressam afinal formas decomplexidade mas no o conceito ontolgico.

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  • Acreditamos que a Ontologia Sistmica (Bunge 1977e 1979) seja o cenrio para a elaborao de taldefinio.

    Uma primeira viso dos parmetros sistmicos,carreadores da complexidade, talvez possa nos dar umapista na definio buscada: na composio vemos quea diversidade um forte ndice de complexidade. Seadmitirmos que os parmetros so interpenetrantes eontologicamente partilhando iso e homomorfias,podemos ver que a noo de diversidade est presenteem todos eles. Assim, na composio, diversidade, naquantidade e nos tipos de elementos constituintes dosistema, aumenta a complexidade; j a conectividade a fonte de conexes ou relaes: sabemos quepodemos ter complexidade no nmero de relaes mastambm na diversidade das mesmas, inclusive em seusgraus de importncia, algo que adiante aparecer demaneira decisiva no conceito de integralidade. Destagrandeza, surgem a estrutura e a coeso, sendo queesta ltima apresenta diversidade exatamente naimportncia das conexes que mantm o sistema coeso.

    A integralidade surge com a emergncia dossubsistemas, uma forma de diversidade estrutural queaumenta a complexidade sistmica. Por outro lado, aintegralidade, ao permitir um determinado subsistemasatisfazendo a definio de Uyemov (1975: 96),permitir tambm a emergncia de uma propriedadepartilhada e, nos vrios subsistemas, uma nova formade diversidade, associada s vrias propriedades oufunes permitidas pela integralidade. Temos assim adiversidade no nmero dos subsistemas, o que gerauma heterogeneidade redutora de entropia e diversidadefuncional. Mais uma vez o sistema total ganha emcomplexidade, tornando-se realmente organizado.

    Ou seja, vemos como a diversidade acompanhatodos os parmetros sistmicos, o que tpico dacomplexidade. Mas falar em diversidade falar emdiferena, a raiz objetiva da informao. Falar emdiferena acarreta a distino entre homogeneidade eheterogeneidade, ou seja, alta e baixa entropia. Vemos,assim, que o parmetro livre complexidade manifesta-se por crescimento e fluxos de informao, assim comopor evoluo do contedo de entropia do sistema. Nessesentido, os autores que associam entropia ecomplexidade chegam bem perto da soluo do

    O que assim sugerido que devemos dizer queno s a composio que exibe quantidade,diversidade, informao e entropia: todos os parmetrossistmicos o fazem e essa a raiz e a portadora dacomplexidade. Uma questo lgica coloca-se ainda: adistino entre propriedades de indivduo daquelas deconjunto. Dizer que um sistema mais complexo doque outro fazer uma comparao por diferena, logopor ensembles. O mero fato de um indivduo exibiralguma forma de diversidade j o caracteriza comocomplexo? A propriedade de indivduo diria que ele complexo; a coletiva ou de ensemble diria o quanto ele complexo.

    COMPLEXIDADE E TEORIA DOCONHECIMENTO

    Uma possvel ajuda em lidar com a complexidadeseria a proposta de Bunge (1963): teramos duas formasde complexidade: a dita ontolgica, que se refere complexidade que existe realmente nas coisas, e asemitica, que consiste na complexidade de nossasrepresentaes das coisas. o que alguns autores tentamdefinir, no contexto das cincias da computao, comosendo o comprimento da lista de instrues de umalgoritmo necessrio na resoluo de um problema.Sabemos que, na programao de computadores, ummesmo problema com uma dificuldade intrnseca podeser resolvido, em termos de sua programao, porprogramas diversos em comprimento e eficcia lgica,o que depende do programador. A linha que tentadefinir complexidade desta maneira est ignorando acomplexidade ontolgica e confundindo uma posturaobjetivista com aquelas subjetivistas ou idealistas.

    Podemos assim distinguir dois problemas iniciais natentativa de definir a complexidade: primeiro, a distinoentre uma complexidade inerente ao observador e umacomplexidade que, ontologicamente, pertence ao mundoobjetivo. O segundo problema segue-se ao primeiro: oser humano pode ter uma capacidade discursiva quefoi evolutivamente desenvolvida para lidar com sistemascomplexos em certo nvel de dificuldade. Pode ser,assim, que a verdadeira complexidade seja percebidapor ns na forma de conhecimento tcito, aquele queno pode ser colocado nos discursos falado e escrito.Como uma definio um movimento intralingstico,ou seja, uma elaborao puramente lingstica onde

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    problema, mas ontologicamente o aspecto maisfundamental o da diversidade.

  • um termo expresso em termos de outros j definidos, possvel que caractersticas complexas dos sistemassejam percebidas e vividas por ns, mas fora do alcancede elaboraes neocorticais.

    De qualquer forma, podemos imaginar, segundo oitem anterior, que a evoluo adaptou nossos crebrosa partir do fluxo de informao, logo de diferenas,logo de diversidade, do ambiente em sua ao sobrens. Ambientes mais ricos em diversidade vo exigirtransdutores semiticos mais sofisticados e finos,criando para os sistemas cognitivos a complexidadesemitica ou subjetiva. A fonte do conhecimento tcitoseria a estratgia, altamente sofisticada, de mapeardiversidade em nossos crebros e mentes; ou seja, otcito seria um cdigo notavelmente complexo quereflete nveis notavelmente complexos de uma realidade.Nesse sentido, se chegamos a construir planos mentaiscomplexos contendo dimenses axiolgicas vrias, almde sentimentos e emoes, porque essasrepresentaes representam algo do mundo objetivo,o que concordante com a semitica de Peirce etambm com sua metafsica ou ontologia.

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