Comparação de métodos de determinação de argila em ... ?· comparaÇÃo de mÉtodos de determinaÇÃo…

Download Comparação de métodos de determinação de argila em ... ?· comparaÇÃo de mÉtodos de determinaÇÃo…

Post on 25-Sep-2018

212 views

Category:

Documents

0 download

TRANSCRIPT

  • GABRIEL OCTVIO DE MELLO CUNHA, JAIME ANTONIO DE ALMEIDA, BETHINA BASTOS BARBOZA, AUGUSTO FRIEDERICHS, CLEBER RECH, DANIEL ALEXANDRE HEBERLE, MARCO ANDR GROHSKOPF

    PESQ. AGROP. GACHA, Porto Alegre, v. 20, ns. 1/2, p. 126-136, 2014.126

    Comparao de mtodos de determinao de argila em diferentes solos brasileiros1

    Gabriel Octvio de Mello Cunha2, Jaime Antonio de Almeida3, Bethina Bastos Barboza4, Augusto Friederichs5, Cleber Rech2, Daniel Alexandre Heberle2, Marco Andr Grohskopf6

    Resumo - A textura do solo refere-se proporo relativa das diversas fraes granulomtricas do solo (< 2 mm de dimetro), a qual expressa pelas classes texturais convencionais, definidas por diferentes combina-es de argila, silte e areia. O trabalho teve como objetivo comparar os teores de argila determinados pelos mtodos da pesagem e do densmetro simplificado com o mtodo da pipeta, tomado como padro (teste-munha). O estudo foi conduzido no Laboratrio de Gnese e Mineralogia do Solo da Universidade do Estado de Santa Catarina, em Lages, SC, sendo utilizadas amostras de dois horizontes (A e B) de doze perfis de solo de cinco estados brasileiros (Acre, Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Sul e Santa Catarina). A disperso das amostras dos solos foi realizada com hidrxido de sdio (NaOH) para a maioria dos solos, e com calgon, para os solos com elevados teores de Ca2+ e Mg2+ e que apresentaram problemas na disperso com NaOH 1 mol L-1. O mtodo do densmetro tendeu a superestimar ligeiramente os teores de argila, principalmente nos horizontes subsuperficiais, enquanto que no da pesagem no houve diferena para a maioria dos solos, principalmente nos horizontes superficiais, quando ambos foram comparados ao mtodo da pipeta.

    Palavras-chave: Anlise granulomtrica. Textura do solo. Dispersantes qumicos.

    Comparing methods for determination of clay contents in different Brazilian soils

    Abstract - Soil texture refers to the relative proportions of various particle sizes of soil (

  • COMPARAO DE MTODOS DE DETERMINAO DE ARGILA EM DIFERENTES SOLOS BRASILEIROS

    PESQ. AGROP. GACHA, Porto Alegre, v. 20, ns. 1/2, p. 126-136, 2014. 127

    Introduo

    A textura do solo representa a distribuio quantitativa das partculas minerais menores que 2 mm, as quais so geralmente divididas em trs fraes: areia, silte e argila. Vrios sis-temas de classificao tm definido diferentes limites para essas fraes (GEE e BAUDER, 1986). Na escala sugerida pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos e adotada no Brasil, a frao areia tem dimetro compreen-dido entre 2,0 e 0,05 mm, o silte entre 0,05 e 0,002 mm e a argila constitui a frao menor do que 0,002 mm.

    O tamanho das partculas do solo interfere diretamente na sua capacidade de reteno de gua e de nutrientes, na dinmica da ade-so e coeso entre as partculas (MINASNY et al., 2007), na condio de drenagem (CHAKRABORTY et al., 2006) e suscetibilidade eroso (KJAERGAARD et al., 2004).

    indispensvel que, independentemente do mtodo de anlise granulomtrica utiliza-do, obtenha-se completa disperso das amos-tras do solo e a manuteno da fase disper-sa, necessitando-se para tal a neutralizao de qualquer agente que interfira na disperso, principalmente aqueles ligados frao argila (EMBRAPA, 1997; VITORINO et al., 2007). As partculas do solo esto agregadas por subs-tncias cimentantes, tais como matria orgni-ca (MO), xidos de ferro e de alumnio e ons floculantes como clcio (Ca2+), magnsio (Mg2+) alumnio (Al3+) e hidrognio (H+) (DONAGEMA et al., 2003; TAVAREZ e MAGALHES, 2008).

    O dispersante mais utilizado para a anlise granulomtrica de solos no Brasil tem sido o hidrxido de sdio (NaOH) 1 mol L-1 (EMBRAPA, 1997). Porm, em solos tropicais e subtropicais brasileiros que apresentam pH mais elevado (> 6,0), podem ocorrer altos teores de ctions flo-culantes como clcio e magnsio (VITORINO et al., 2003), e o predomnio de argilominerais 2:1 de carga permanente na frao argila, como as esmectitas (CUNHA, 2013). Nesse caso, o dispersante mais indicado o hexametafosfato de sdio (EMBRAPA, 1997), tambm conheci-do como calgon. O dispersante qumico a ser utilizado depende do tipo de solo, no podendo ser estabelecido um nico dispersante para ser utilizado na rotina dos laboratrios de fsica do

    solo do pas (VIANA et al., 2010).Os principais mtodos de anlise granulo-

    mtrica para determinao do contedo de argi-la so os mtodos da pipeta e do densmetro (GEE e BAUDER, 1986) e ambos se baseiam no tempo de sedimentao das partculas de diferentes dimenses em meio lquido (KLEIN, 2008; VITORINO et al., 2007), com base na Lei de Stokes (1851), usada para calcular a velocidade em que as partculas de diferentes tamanhos sedimentam em meios lquidos. Aps a disperso e a sedimentao das partculas maiores, a argila determinada pelo mtodo da pipeta ou atravs de densmetro (mtodo hidr-metro), sendo o silte normalmente calculado por diferena (VITORINO et al., 2007).

    Outra maneira de determinar as fraes gra-nulomtricas das amostras de solo (alm dos mtodos do granulmetro ou do NIR), embora no utilizado em rotina por ser bastante demo-rado em relao aos anteriores, consiste em quantificar o total das trs fraes (areia, silte e argila), utilizando o tamisamento mecnico para a separao da areia total e mtodos baseados na velocidade e no tempo de sedimentao das partculas para separao do silte total da argi-la, atravs de sucessivos sinfonamentos da fra-o argila, at sua completa separao do silte. Esse mtodo muito utilizado para o estudo da composio mineral da frao argila, prin-cipalmente por difratometria de raios-X, sendo detalhadamente descrito por Jackson (1965). Aps separar o silte da argila, ambos podem ser quantificados por pesagem do contedo total das fraes na amostra.

    O presente trabalho teve como objetivo ava-liar de forma comparativa a eficincia de dois mtodos, da pesagem e do densmetro simpli-ficado, em relao ao mtodo da pipeta para quantificao da frao argila em amostras de solo de diferentes regies brasileiras, com dife-rentes propriedades qumicas, mineralgicas e granulomtricas, bem como estabelecer as pos-sveis causas das diferenas entre os mtodos.

    Material e Mtodos

    Seleo dos solos

    O estudo foi conduzido no Laboratrio de Gnese e Mineralogia do Solo do Departamento

  • GABRIEL OCTVIO DE MELLO CUNHA, JAIME ANTONIO DE ALMEIDA, BETHINA BASTOS BARBOZA, AUGUSTO FRIEDERICHS, CLEBER RECH, DANIEL ALEXANDRE HEBERLE, MARCO ANDR GROHSKOPF

    PESQ. AGROP. GACHA, Porto Alegre, v. 20, ns. 1/2, p. 126-136, 2014.128

    de Solos e Recursos Naturais da Universidade do Estado de Santa Catarina, em Lages, SC, com amostras de horizontes A e B de cinco solos coletadas nos estados do Acre (perfis AC4, AC6, AC9 e AC11), Bahia (BA), Pernambuco (PE), Santa Catarina (Bom Retiro-SCBR, Rancho Queimado-SCRQ e So Joaquim perfil 8 SC8SJ) e Rio Grande do Sul (Formigueiro-RS11 e Rosrio do Sul-RSRS).

    As amostras de solo foram coletadas em

    locais onde j haviam sido previamente des-critos perfis de solo, cujos resultados foram publicados em trabalhos de pesquisa e disser-taes, sendo sua classificao, de acordo com o Sistema Brasileiro de Classificao de Solos (Embrapa, 2006) e respectivas fontes de refe-rncia, indicadas na Tabela 1. Um resumo dos principais atributos fsicos e qumicos obtidos desses trabalhos originais encontram-se na Tabela 2.

    As amostras de solo, provenientes dos mes-mos locais e horizontes descritos nos trabalhos originais, foram secas em estufa a 60 C por 24 horas, destorroadas, modas e peneiradas, retendo-se a frao com dimetro inferior a 2 mm (TFSA terra fina seca ao ar) para as an-lises (EMBRAPA, 1997).

    Anlises fsicas

    Para os trs mtodos de anlises granulo-mtricas estudadas (densmetro simplificado, pipeta e pesagem), a disperso das amos-tras foi realizada conforme descrito por Day (1965) e Gee e Bauder (1986) e modificado por Camargo et al. (2009), com as seguintes adaptaes: pesaram-se 50 gramas de TFSA,

  • COMPARAO DE MTODOS DE DETERMINAO DE ARGILA EM DIFERENTES SOLOS BRASILEIROS

    PESQ. AGROP. GACHA, Porto Alegre, v. 20, ns. 1/2, p. 126-136, 2014. 129

    adicionando-se 75 mL de gua destilada e 5 ml de NaOH 1 mol L-1 ou calgon (hexametafosfa-to de sdio 0,35 mol L-1 + carbonato de sdio anidro 0,08 mol L-1) e duas esferas (bolitas) de nylon, com cerca de 10 mm de dimetro cada. Aps agitao manual, para homogeneizao do material, as amostras ficaram uma noite em repouso (16 horas). Em seguida, foram disper-sas mecanicamente em um agitador horizontal a 120 rpm por 4 horas, e posteriormente o con-tedo total foi transferido para uma proveta de 1 L, aps separao da frao areia total por peneiramento em malha de 0,053 mm.

    O material retido na peneira (areia total) foi transferido para uma lata de alumnio e seco em estufa (105 C) por 24 horas, sendo posterior-mente pesado. O restante da suspenso, con-tendo as fraes silte e argila, foi recolhido em proveta de 1 L, completando-se o volume com gua destilada. A suspenso foi homogeneiza-da por 30 segundos e ento deixada em repou-so pelo tempo necessrio para permitir a sedi-mentao das vrias fraes, em conformidade com a temperatura da gua, como descrito no

    mtodo.Em cada amostra (aps disperso qumica

    e fsica) a argila foi determinada pelos mto-dos da pipeta, conforme Gee e Bauder (1986), do densmetro simplificado, de acordo com Bouyoucus (1962) e pelo mtodo das pesagens da areia (peneiramento), argila e silte totais aps separao completa do silte na mistura sil-te + argila, de acordo com Jackson (1965).

    No mtodo da pipeta, aps a homogeneiza-o da suspenso, foi calculado um tempo de aproximadamente 4 horas para sedimentao do silte, dependendo da temperatura da gua (GEE e BAUDER, 1986), numa altura de 5 cm da superfcie da suspenso, segundo a Lei de Stokes (1851). Nessa profundidade, coletaram--se com pipeta 50 mL da suspenso contendo a frao argila que foi transferida para bcker de 100 mL, seca em estufa a 105 C por 24 horas e determinada a massa seca das partculas.

    Na anlise granulomtrica pelo mtodo do densmetro simplificado, conforme Bouyoucus (1962), o tempo de sedimentao para leitura da frao argila com o densmetro foi de 2 horas,

  • GABRIEL OCTVIO DE MELLO CUNHA, JAIME ANTONIO DE ALMEIDA, BETHINA BASTOS BARBOZA, AUGUSTO FRIEDERICHS, CLEBER RECH, DANIEL ALEXANDRE HEBERLE, MARCO ANDR GROHSKOPF

    PESQ. AGROP. GACHA, Porto Alegre, v. 20, ns. 1/2, p. 126-136, 2014.130

    aps homogeneizao da suspenso. Utilizou-se o mtodo do densmetro simplificado, ou seja, com leitura da densidade diretamente no volume total da proveta de 1 L, e no o comple-to, cuja leitura feita aps transferir o volume dos 250 mL da poro superior da proveta de 1 L para uma proveta de 250 mL. Anotou-se a temperatura da suspenso para ajuste das lei-turas do densmetro. Aps a quantificao da argila pelos mtodos da pipeta e do densmetro, a frao silte foi obtida por diferena em relao ao total de argila mais areia.

    No mtodo das pesagens, o volume total das mesmas amostras de suspenso do silte e argila, usada conforme os mtodos da pipeta e do densmetro, foi transferido para recipientes plsticos de 1 L, de fundo largo e altura apro-ximada de 10 cm. Com base na Lei de Stokes (1851), calculou-se o tempo (5 horas) necess-rio para que toda a frao silte ultrapassasse uma altura (6 cm) fixada no balde, retirando-se, por sinfonamento, todo volume imediatamente acima da marca dos 6 cm, que foi transferida para outro recipiente. O restante da suspenso contida na poro inferior (6 cm) altura fixada, contendo silte e ainda parte da argila, foi res-suspensa novamente e completado o volume para 1 L, com adio de NaOH ou calgon sufi-ciente para que o pH se mantivesse em torno de 9,0. Novas retiradas (no total de oito) da frao argila foram realizadas at que, aps decorrido o tempo necessrio para sedimentao de todo o silte, no houvesse mais argila em suspen-so. Aps a ltima retirada da argila, a frao silte total contida no fundo do balde sofreu sete lavagens com gua destilada, sendo seca em estufa a 105 C por 24 h e depois pesada. Com base nos teores de areia e silte totais obtidos por pesagem, a argila total foi calculada por diferena.

    Nas amostras do horizonte B de solos do Acre (perfis AC6 e AC11) e da Bahia (BA), cuja disperso com NaOH mostrou-se inadequada, utilizou-se como dispersante o calgon (hexame-tafosfato de sdio 0,35 mol L-1 + carbonato de sdio anidro 0,08 mol L-1), recomendado para solos com altos teores de Ca2+ e Mg2+ (Embrapa, 1997; Camargo et al., 2009).

    Amostras separadas da frao TFSA foram pesadas antes e aps secagem em estufa a 105 C, para clculo da umidade gravimtrica

    e posterior correo dos dados de TFSA para terra fina seca em estufa (TFSE). No foi reali-zado nenhum pr-tratamento para a destruio da MO, de xidos e/ou hidrxidos presentes nas amostras de solo, como sugerido por Embrapa (1997), Donagema et al. (2003), Vitorino et al. (2003), entre outros autores.

    Para interpretao dos dados, foi utilizado o programa SAS 9.2. O delineamento experimen-tal foi inteiramente casualizado, e as mdias foram comparadas pelo teste de Dunnett ao nvel de significncia de 1% (p

  • COMPARAO DE MTODOS DE DETERMINAO DE ARGILA EM DIFERENTES SOLOS BRASILEIROS

    PESQ. AGROP. GACHA, Porto Alegre, v. 20, ns. 1/2, p. 126-136, 2014. 131

    uma proveta de 250 mL, para homogeneiza-o e leitura da densidade. Nessa suspenso, a quantidade de silte deve ser mais baixa. J no mtodo simplificado, a leitura da densida-de realizada diretamente na proveta de 1000 mL (BOUYOUCUS, 1962). Com isso, o dens-metro registra a densidade da suspenso pela presena de argila, mas tambm pelo silte fino, que interfere na regio do bulbo do densmetro, podendo aumentar a densidade.

    Na mesma tabela, observa-se que no h diferena na obteno da argila pelo mtodo da pipeta quando comparado com o mtodo da pesagem, principalmente no horizonte A das amostras dos Argissolos Vermelho Altico (AC6), Vermelho-Amarelo Altico tpico (PE), Vermelho-Amarelo latosslico (SCRQ) e do Vermelho-Amarelo Altico plntico (AC9), e dos Vertissolos: Hplico rtico luvisslico (AC11), e Hplico rtico tpico (BA), mostrando que o

    mtodo da pesagem (apesar da morosidade na obteno dos resultados) foi eficiente na obten-o da frao argila nessas amostras de solo. Isso ocorreu, provavelmente por que os mto-dos tm princpios semelhantes de quantifica-o dos teores de argila, ambos obtidos a partir da pesagem das amostras. No primeiro mto-do a argila obtida pela pesagem de 50 mL da soluo de argila coletada a 5 cm de profundi-dade e no segundo mtodo a partir da pesagem da areia e silte totais (argila obtida subtrain-do-se de 100 a soma das fraes areia e sil-te totais). Ambas as determinaes so feitas aps a secagem do material em estufa a 105 C por um perodo de 24 horas.

    Por outro lado, nesse mesmo horizonte das amostras dos Cambissolos Hmico Altico tpi-co (SCBR), Hplico Altico tpico (SC8SJ), e do Argissolo Bruno-Acinzentado Altico tpico (RSRS) foram obtidos maiores teores de argila

  • GABRIEL OCTVIO DE MELLO CUNHA, JAIME ANTONIO DE ALMEIDA, BETHINA BASTOS BARBOZA, AUGUSTO FRIEDERICHS, CLEBER RECH, DANIEL ALEXANDRE HEBERLE, MARCO ANDR GROHSKOPF

    PESQ. AGROP. GACHA, Porto Alegre, v. 20, ns. 1/2, p. 126-136, 2014.132

    pelo mtodo da pesagem em relao ao da pipe-ta, e no Luvissolo Hipocrmico rtico alumni-co (RS11) o mtodo da pipeta foi maior que o da pesagem. Esse comportamento pode estar relacionado com a impreciso na determinao do silte, uma vez que muito difcil separar o silte da argila (pseudo-silte), pois mesmo que a frao argila seja dispersa vrias vezes, sempre haver contaminao por silte.

    Nos horizontes subsuperficiais das amos-tras dos Argissolos Vermelho Altico tpico (AC4), Vermelho-Amarelo latosslico (SCRQ), e Vermelho-Amarelo Altico plntico (AC9), do Cambissolo Hplico Altico tpico (SC8SJ), do Luvissolo Hipocrmico rtico alumnico (RS11), e do Argissolo Bruno-Acinzentado Altico tpico (RSRS) os teores foram maiores no mtodo da pipeta quando comparados com os da pesa-gem.

    No caso do Argissolo Vermelho Altico (AC6) e dos Vertissolos Hplico rtico luvisslico (AC11) e Hplico rtico tpico (BA), em que os teores de argila pelos mtodos do densmetro e da pipeta foram subestimados em relao ao da pesagem, pode ter ocorrido a floculao das argilas, devido presena de ons floculantes Ca2+, Mg2+, matria orgnica e xidos e hidr-xidos presentes nas amostras (DONAGEMA et al., 2003, MESQUITA, 1992) e com problemas na disperso da argila. Esse comportamento, segundo Camargo et al. (2009) em uma comu-nicao pessoal com Lepsch e Grohmann, concluram que o hidrxido de sdio sem pr--tratamento cido no adequado para disper-sar solos com altos teores de bases trocveis. Opta-se atualmente pela mistura de hidrxido de hexametafosfato de sdio, que vem levando sempre a resultados mais consistentes. Quanto desagregao, usa-se a metodologia preco-nizada por GROHMANN e RAIJ (1973), consis-tindo em agitao lenta por tempo prolongado.

    Nas amostras dos Vertissolos Hplico rtico luvisslico (AC11), Hplico rtico tpico (BA), e do Argissolo Vermelho Altico (AC6), ambos no horizonte B, tambm dispersas com o NaOH 1 mol L-1, os teores de argila obtidos pelos mto-dos do densmetro e da pipeta foram menores quando comparados com os obtidos pelo mto-do da pesagem (Tabela 3). Isso ocorreu com maior discrepncia no mtodo da pipeta, pois esse mtodo tem como possveis limitaes

    (alm de ser considerada como padro): a) dis-perso inadequada (MIYAZAWA e BARBOZA, 2011; DONAGEMA et al., 2003), b) tem-po de agitao das amostras (MIYAZAWA e BARBOZA, 2011) c) tempo de sedimentao das fraes silte e argila e profundidade de coleta da soluo do solo (STOKES, 1851), d) o hidrxido de sdio no se mostrou adequado na disperso das amostras, devido presena de altos teores de ctions floculantes como o clcio e magnsio (VIANA et al., 2010), e) erros na pesagem (MIYAZAWA e BARBOZA, 2011), podendo assim, aumentar os erros na determi-nao da argila por esse mtodo. Vale ressaltar que, no mtodo da pipeta a argila quantifica-da, enquanto que no mtodo do densmetro ela estimada, a partir da densidade da suspen-so. Em contrapartida, o mtodo do densmetro simplificado, embora utilizado pela maioria dos laboratrios de prestao de servios no Brasil, proporciona uma estimativa grosseira da argila, e que muitas vezes chega a valores prximos dos reais, pois o processo de disperso do solo utilizado na prtica nem sempre eficiente, res-tando muito silte e argila floculados que acabam sendo quantificados como argila o que muitas vezes proporciona resultados prximos dos determinados pela pipeta (neste caso s argila).

    Tendo em vista esses problemas e, principal-mente, a dificuldade na disperso das amostras supracitadas, testou-se o emprego do disper-sante calgon (hexametafosfato de sdio 0,35 mol L-1 + carbonato de sdio anidro 0,08 mol L-1) para as amostras, recomendado para solos com altos teores de Ca2+ e Mg2+ (EMBRAPA, 1997). Os resultados, indicados na Tabela 4, eviden-ciaram valores mais representativos, mas com o mesmo comportamento obtido pelo NaOH para a maioria dos solos, ou seja, o densmetro continuou apresentando maiores teores de argi-la quando comparado com os mtodos da pipe-ta e da pesagem, exceto no Vertissolo Hplico rtico luvisslico (AC11) em que no houve diferena em relao pesagem. Mesmo com o uso do calgon os teores de argila pelo mtodo da pipeta foram inferiores quando comparados aos da pesagem.

    Para Miyazawa e Barboza (2011), a matria orgnica do solo interfere na anlise granulo-mtrica em duas etapas: a primeira, subesti-mando os valores das partculas obtidas (argila,

  • COMPARAO DE MTODOS DE DETERMINAO DE ARGILA EM DIFERENTES SOLOS BRASILEIROS

    PESQ. AGROP. GACHA, Porto Alegre, v. 20, ns. 1/2, p. 126-136, 2014. 133

    silte e areia) da TFSA, pois quando se pesa uma amostra de solo para anlise, est includo o peso da MO; e a segunda, quando se pesa a massa de argila da suspenso, est includo

    tambm o peso da matria orgnica, adsorvida na argila, superestimando, consequentemente, os valores da argila.

    Para os mesmos autores, quando se pesa

    uma amostra de solo para anlise, est inclu-do o peso da MO e faz-se necessria a corre-o do peso da mesma. Por outro lado, quan-do se pesa a massa de argila da suspenso, est includa a massa da MO adsorvida argila, superestimando, os valores de argila.

    Apesar de os mtodos subestimarem ou superestimarem os teores de argila, a correla-o do densmetro e da pesagem com o mtodo da pipeta foi alta (exceto na comparao entre o primeiro mtodo e a pipeta no horizonte B), con-siderando os teores de argila obtidos pela dis-perso com NaOH na maioria das amostras dos horizontes A (Figura 1A) e B (Figura 1B), incluin-do os teores de argila obtidos com o calgon nas amostras dos Vertissolos Hplico rtico luvis-slico (AC11) e Hplico rtico tpico (BA); e do Argissolo Vermelho Altico (AC6) do horizonte B, o que indica que ambos os mtodos podem ser empregados na rotina de determinaes de argila em laboratrios, conforme relatado por Bouyoucus (1962) e Day (1965).

    Concluses

    O mtodo do densmetro superestimou os teores de argila, principalmente nos horizontes A e B da maioria dos solos avaliados, enquan-to o mtodo da pesagem subestimou os teo-res principalmente no horizonte B dos solos de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. J nos horizontes superficiais no houve diferena para algumas amostras, quando comparadas ao mtodo da pipeta.

    Apesar da no utilizao do mtodo da

    pesagem na determinao da textura do solo em laboratrios de rotina no Brasil, devido sua morosidade e demora na obteno dos resulta-dos, os teores de argila obtidos por esse mto-do, mostrou-se eficaz para algumas amostras dos horizontes superficiais de alguns solos tes-tados no presente estudo, podendo haver uma subestimao e/ou superestimao quando comparado com o mtodo da pipeta.

    Para solos com altos teores de clcio e mag-nsio e com problemas na disperso das amos-tras de solo, o dispersante qumico calgon foi eficaz para a disperso da argila.

    Ambos os mtodos, da pipeta e do densme-tro, apesar das limitaes inerentes a cada um, estimaram adequadamente os teores de argila dos solos estudados, podendo ser emprega-dos em anlises de rotina. Em contrapartida, devido morosidade e principalmente demo-ra (impraticvel em laboratrios de rotina) na obteno dos resultados, o mtodo da pesagem no adequado (apesar da alta correlao obti-da entre esse mtodo e o da pipeta), em vista da dificuldade na separao da argila e do silte.

    Referncias

    ALMEIDA, J. A. et al. Guia de excurso pedolgica. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CINCIA DO SOLO, 34., Florianpolis. Anais... Sociedade Brasileira de Cincia do Solo, 2013. 56 p.

    BOUYOUCUS, G. J. Hydrometer method improved for making particle size analyses of

  • GABRIEL OCTVIO DE MELLO CUNHA, JAIME ANTONIO DE ALMEIDA, BETHINA BASTOS BARBOZA, AUGUSTO FRIEDERICHS, CLEBER RECH, DANIEL ALEXANDRE HEBERLE, MARCO ANDR GROHSKOPF

    PESQ. AGROP. GACHA, Porto Alegre, v. 20, ns. 1/2, p. 126-136, 2014.134

    soils. Agronomy Journal, v. 54, p. 464-465, 1962.

    CAMARGO, O. A. et al. Mtodos de anlise qumica, mineralogia e fsica de solos do Instituto Agronmico de Campinas. Campinas: IAC, 2009. 77 p. (Boletim Tcnico, 106).

    CHAKRABORTY, D. et al. Prediction of hydrau-lic conductivity of soils from particle-size distri-bution. Current Science, Bangalore, v. 90, n. 11, p. 1526-1531, Jun. 2006.

    CUNHA, G. O. M. Mineralogia e formas de alumnio em solos cidos brasileiros. Universidade do Estado de Santa Catarina, Lages, 2013. 153 p. Dissertao (Mestrado em Cincias do Solo) Programa de Ps-Graduao em Cincia do Solo, Faculdade de Agronomia, Universidade do Estado de Santa

    Catarina, Lages, 2013.

    DAY, P. R. Particle fractionation and particle-size analysis. In: BLACK, C. A. Methods of soil anal-ysis. American Society of Agronomy, v. 1, p. 545-566, 1965.

    DONAGEMA, G. et al. Disperso de Latossolos em resposta utilizao de pr-tratamentos na anlise textural. Revista Brasileira de Cincia do Solo, v. 27, p. 765-772, 2003.

    EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECURIA EMBRAPA. Centro Nacional de Pesquisa de Solos. Manual de mtodos de anlise de solo. 2 ed. Rio de Janeiro, 1997. 212 p.____. ____. In: ANJOS, L. H. C.; SILVA, L. M.; WADT, P. G. S. (Eds.) Solos sedimentares em sistemas amaznicos: potencialidades e demandas de pesquisas. Rio de Janeiro, 2010.

    Figura 1 - Correlao entre os teores de argila obtidos pelos mtodos do densmetro simplificado, pipeta e pesagem nos horizontes A (A); e B (B) dos solos estudados.

  • COMPARAO DE MTODOS DE DETERMINAO DE ARGILA EM DIFERENTES SOLOS BRASILEIROS

    PESQ. AGROP. GACHA, Porto Alegre, v. 20, ns. 1/2, p. 126-136, 2014. 135

    95 p. (Guia de Campo).

    ____. ____. Sistema Brasileiro de Classificao de Solo: projeto solos alticos. Recife, 2011. 63 p.

    ____. ____. Guia de excurso de estudos de solos nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paran. Colombo: Embrapa Florestas, 2000. 222 p.

    ____. ____. Sistema brasileiro de classi-ficao de solo. 2. ed. Braslia: EMBRAPA, Produo de informao; Rio de Janeiro: Embrapa Solos, 2006. 306 p.

    GEE, G. W.; BAUDER J. W. Particle size analy-sis by hydrometer: a simplified method for rou-tine textural analysis and a sensitivity test of measured parameters. Soil Science Society American Journal, Madison, v. 43, n. 5, p. 1004-1007, Sept./Oct. 1986.

    GROHMANN, F.; RAIJ, B. van. Influncia dos mtodos de agitao na disperso da argila do solo. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CINCIA DO SOLO, 14., Santa Maria, 1973. Anais... p. 123-132.

    JACKSON, M. L. Soil chemical analysis. 2. ed. Madison: Department of Soil Science, University of Wisconsin, 1965. 991 p.

    JACOMINE, P. K. T. et al. Levantamento exploratrio: reconhecimento de solos da mar-gem direita do Rio So Francisco Estado da Bahia. Recife: Embrapa/ SNLCS; SUDENE/DRN, 1979. 2 v.

    KJAERGAARD, et al. Water-dispersible col-loids: effects of measurement method, clay con-tent, initial soil matric potential and wetting rate. Vadose Zone Journal, v. 3, p. 403-412, 2004.

    KLEIN, V. A. Fsica do solo. Passo Fundo: Universidade de Passo Fundo, 2008. 212 p.

    MESQUITA, M. G. B. F. Disperso da frao argila e estabilidade de agregados em funo da aplicao de calcrio e gesso agrcola em Latossolos da Regio dos Campos das

    Vertentes (MG), cultivados com Andropogon e Estilosantes. Lavras, Universidade Federal de Lavras, 1992. 112 p. Dissertao (Mestrado em Cincia do Solo) Curso de Ps-Graduao em Cincia do Solo, Universidade Federal de Lavras, Minas Gerais, 1992.

    MILLER, W. P. et al. An historical perspective on the theory and practice of soil mechanical analysis. Journal of Agronomic Education, Madison, v. 17, n. 1, p. 24-28, 1988.

    MINASNY, B. et al. Relationships between field texture and particle-size distribution in Australia and their implications. Australian Journal Soil Research, Collingwood, v. 45, n. 6, p. 428-437, 2007.

    MIYAZAWA, M; BARBOSA, G. M. C. Efeitos da agitao mecnica da matria orgnica na anlise granulomtrica do solo. Revista Brasileira de Engenharia Agrcola e Ambiental, v. 15, n. 7, p. 680-685, 2011.

    PAES SOBRINHO, J. B. Mineralogia da frao argila de solos das serras do leste catarinense. Lages: Universidade do Estado de Santa Catarina, 2005. 100 p. Dissertao (Mestrado em Manejo do Solo) Programa de Ps-Graduao em Cincia do Solo, Faculdade de Agronomia, Universidade do Estado de Santa Catarina, Lages, 2005.

    SANTOS, G. S. Mineralogia, Gnese e relaes pedogeomrficas de solos desenvolvidos de litologias das formaes piramboia, Sanga do Cabral e Guar na regio sudeste do esta-do do Rio Grande do Sul. Lages: Universidade do Estado de Santa Catarina, 2012. Tese (Doutorado em Cincia do Solo). Programa de Ps-Graduao em Cincia do Solo, Faculdade de Agronomia, Universidade do Estado de Santa Catarina, Lages, 2012.

    STOKES, G. G. On the effect of the internal friction of fluids on the motion of pendulums. Transaction of the Cambridge Philosophical Society, Cambridge, v. 9, n. 2, p. 8-106, 1851.

    TAVAREZ FILHO, J.; MAGALHES, F. S. Disperso de amostras de Latossolo Vermelho

  • GABRIEL OCTVIO DE MELLO CUNHA, JAIME ANTONIO DE ALMEIDA, BETHINA BASTOS BARBOZA, AUGUSTO FRIEDERICHS, CLEBER RECH, DANIEL ALEXANDRE HEBERLE, MARCO ANDR GROHSKOPF

    PESQ. AGROP. GACHA, Porto Alegre, v. 20, ns. 1/2, p. 126-136, 2014.136

    Eutrofrrico influenciadas por pr-tratamento para oxidao da matria orgnica e pelo tipo de agitao mecnica. Revista Brasileira de Cincia do Solo, v. 32, p. 1429-1435, 2008.

    TESKE, R. Relaes solo: litologia numa sequncia de solos desenvolvidos de rochas efusivas no Planalto Sul de Santa Catarina. Lages: Universidade do Estado de Santa Catarina, 2010. 121 p. Dissertao (Mestrado em Manejo do Solo) Programa de Ps-Graduao em Cincia do Solo, Faculdade de Agronomia, Universidade do Estado de Santa Catarina, Lages, 2010.

    VIANA, J. H. M. et al. Granulometria dos solos. In: REUNIO BRASILEIRA DE CLASSIFICAO E CORRELAO DE SOLOS: SISTEMAS AMAZNICOS, SOLOS SEDIMENTARES

    EM POTENCIALIDADE E DEMANDA DE PESQUISA, 9., Rio Branco. In: ANJOS, L. H. C.; SILVA, L. M.; WADT, P. G. S. (Eds.). Solos sed-imentares em sistemas amaznicos: poten-cialidades e demandas de pesquisas. Rio de Janeiro, 2010. p. 56-63.

    VITORINO, A. C. T. et al. Mineralogia, qumi-ca e estabilidade de agregados do tamanho de silte de solos da Regio Sudeste do Brasil. Pesquisa Agropecuria Brasileira, v. 38, n. 1, p. 133-141, 2003.

    ____. et al. Uso de energia ultra-snica e tur-bidimetria na anlise textural de pequenas amostras de solo. Revista Cincias Tcnicas Agropecurias, v. 16, p. 43-48, 2007.

Recommended

View more >