como se tivesse, sei lá, um crime na consciência - .para quê palavras agora, ... eu borradinho

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  • 11/2017: 5-28 - ISBN 978-989-99999-0-9 | 10.21747/9789899999909/fimdomundo9a1

    Como se tivesse, sei l, um crime na conscincia

    Diogo Martins

    CEHUM Universidade do Minho

    Resumo: Tomando o fim do mundo como um fenmeno comummente reconhecvel, a ponto de aquele

    parecer, inclusive, inocular-se quanto ao expectvel efeito de perturbao, pretende-se explorar algumas

    aproximaes temticas entre dois textos literrios O Condmino, de Antnio Gregrio, e Cadernos do

    Subterrneo, de Fidor Dostoivski e dois filmes The Village (2004) e Oslo, 31. August (2011). O

    objetivo principal visa comentar diferentes figuraes do apagamento do sujeito face circunstncia de

    ter de sobreviver, consciente ou inconscientemente, a alguma realizao do abismo, ou revelia da

    prpria existncia enquanto insupervel distopia.

    Palavras-chave: fim do mundo, tempos do fim, linguagem, sujeito

    Abstract: Considering the end of the world as a commonly recognisable phenomenon, even to the extent

    of seeming to inoculate itself against an expectable shocking effect, we aim to explore some thematic

    affiliations between two literary texts Antnio Gregrios O Condmino and Dostoyevskys Notes from

    Underground. The main purpose aims to comment on the different figurations of the subjects erasure due

    to the circumstance of having to survive, consciously or unconsciously, against some form of fulfilment of

    the abyss, or even existence itself as unavoidable dystopia.

    Keywords: end of the world, end times, language, self

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    Para qu palavras agora,

    com a moral da histria inteiramente mostra?

    Manuel Antnio Pina, Os Livros

    H muito tempo que o apocalipse

    devia ter chegado. Mas a mudana de hora

    o tem atrapalhado.

    Golgona Anghel, Nadar na Piscina dos Pequenos

    The final image of solitary Mark at his computer

    has to resonate for a generation of users (the drug

    term seems apt) sitting in front of a glowing screen

    pretending not to be alone.

    Peter Travers, sobre o filme The Social Network

    Foi no final de uma tarde de maio, no dia 3 desse ms, a partir das cinco e meia da

    tarde, que comecei a esboar este texto. Esperava um aluno, a quem daria explicaes, e

    a sua demora, aliada a uma parte da minha ansiedade que j se vinha a arrastar desde h

    alguns meses, deu-me espao e tempo para constatar, o mais secamente possvel, o que

    h de absoluto no seguinte: nasci em 1986, tenho hoje trinta anos e, se abrir o feed de

    notcias do Facebook, tenho que lidar com a ocorrncia da palavra fascismo enquanto

    palavra de ordem para pontuar, aqui e ali, os fenmenos do dia, o ar do tempo, deste

    tempo. De outra maneira: fascismo, com toda a sombra que a palavra produz sua

    volta, como efeito de contgio, deixou de ser aquele significante comodamente

    arrumado em determinados captulos dos meus manuais de Histria, destinado a

    assinalar um conjunto de circunstncias sociais, culturais, econmicas e polticas que

    ditaram, expressivamente, a runa dos projetos iluministas a respeito da suposta

    progressiva perfectibilidade humana; uma ideologia responsvel por atrocidades que

    continuam a desafiar os limites da linguagem, a indizibilidade, a prpria possibilidade de

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    se testemunhar ou de se fazer representar o horror do holocausto. Ou a prpria

    possibilidade de representar, ponto.

    Nessa tarde, abri, ento, a minha conta do Facebook e deparei-me com a

    inquietante sequencializao destes posts: 1) o fenmeno Marine Le Pen, a quatro dias

    de se saber o resultado das presidenciais francesas, pondo na linha da frente o escndalo

    fascizante numa Europa em estado de stio; 2) a circunstncia de ser informado quanto

    pura factualidade de isto fazer parte, em tempo real, do meu tempo de escrita:

    Chechnya police are telling parents to kill their gay sons or theyll do it themselves (a

    partir de uma partilha feita por Vasco Pimentel, qual acrescento o comentrio feito

    pelo prprio: Quando o Hitler ou o Stalin massacravam pessoas aos milhes & milhes

    tambm no havia provas. No haver provas faz parte da operao, ainda no

    aprenderam?1; 3) last but not least, de entre uma mirade de possibilidades facultadas

    pela sensibilidade temperamental do algoritmo, escolhi esta: um fotograma do filme The

    Disappearance of Eleanor Rigby (Ned Bensom 2013-14), com a legenda Sinto que

    estamos a viver um horrvel clich catastrfico.

    Esta condio afunilada que o Facebook nos impe (ou os media, em geral), esta

    viso panormica do mundo (um pantico digital, diria Byung-Chul Han) que ,

    simultaneamente, uma viso filtrada, homogeneizada e cinicamente aditiva de um

    mundo sem surpresa, inscrita naquilo que Peter Sloterdijk qualifica como um

    horizonte mitolgico por oposio a uma tradio herdvel social e culturalmente

    porque [o] mito um mtodo que descreve o mundo de tal maneira que nele nada de

    novo se passa (Sloterdijk 1999: 15)2 , em suma, este modo de assistir a isto (e de me

    saber a assistir a isto) implica-se constitutivamente no meu modo de ler certos livros, de

    pensar certos filmes, de conjugar determinadas aproximaes. No fundo, por fora do

    tempo de vida que me coube viver por acidente de nascimento, como se qualquer

    experincia de leitura acabasse inevitavelmente por ser contaminada pelos miasmas de

    rutura e desagregao que me entram pelos olhos, pelos ouvidos, pelo corpo todo. Como

    uma voz acusmtica, um rudo de fundo cuja fonte emissora deixou de ser possvel

    concretizar, tornando o pnico na medula espiritual da nossa poca (no por acaso,

    penso na Angst sublimada e nas modalizaes cromticas uma intermitente voragem

    escurecedora, como uma luz de non que impede a noite natural de se realizar

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    totalmente que atravessam o filme The Social Network, de David Fincher; eis o pano de

    fundo, elevado a superfcie, musicalmente orquestrado por este nervoso miudinho:

    Hand Covers Bruise, de Trent Reznor e Atticus Ross).3

    Deste modo, num primeiro momento, ocorre-me pr dois livros em relao: o

    clssico Cadernos do Subterrneo, de Fidor Dostoivski, publicado originalmente em

    1864, e O Condmino, de Antnio Gregrio, editado pela Lngua Morta, em 2014.4 A

    leitura que aqui proponho entrev nestas duas obras um enquadramento temtico

    aduzvel ao fim do mundo, ou to-s aproximvel a uma espcie de clima, de ambincia,

    que de forma mais ou menos impressionista (com as pessoalssimas injunes literrias,

    poticas, cinematogrficas, artsticas, etc., que, pelo meio, cada um faz dentro de si) se

    pode idealizar como aquilo que vivvel quando se vive j sobre a navalha do fim do

    mundo. Como tentar imaginar o que teria sido de ns, ocidentais, se Cassandra tivesse

    sido escutada e Troia, enfim, sobrevivesse aos gregos mas sem as pedras inclumes da

    fortaleza troiana poderem proteger-nos a todos de sucumbirmos a uma espcie de azia

    ou nusea constantes, a de sentir que no era suposto ainda c estarmos: isto iria acabar,

    ns iramos desaparecer e, no entanto, eis-nos aqui, neste estado de intermitncia, face

    a face com a ignorncia ontolgica de no saber o que fazer com a condio pstuma de

    sobreviver / a isto, fingir que no, sorrir, para citar Manuel de Freitas num dos seus

    poemas.5

    Retomo, como ponto de partida, a imagem concreta que subjaz a estas

    associaes: o tal filtro pantico que o nosso olhar diante o cataclismo

    hiperinformativo que ser-se ps-moderno. No livro O Condmino, o protagonista vive

    encafuado no seu apartamento, como que num sepulcro, sem nunca sair rua ou

    conviver com os demais. Encena-se uma experincia-limite de constrangimento social,

    de misantropia ad absurdum: o narrador dedica-se a um meticuloso trabalho de

    inexistncia (Gregrio 2014: 10), de pantufas felinas contra os recuos atabalhoados,

    mal equilibrado entre a vontade de fugir, meter-me na cama, no bunker dos cobertores

    at ao fim da cena (26). A dona Lurdes, a espirituosa como ele lhe chama, que preside

    ao condomnio, denomina, inclusive, aquele apartamento como um jazigo (10) e o

    respetivo habitante como sepultado (24), contando aos amigos em noite de copos o

    inslito do caso, chamando-me anormal (32), devindo este indivduo bom pasto para

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    fantasias tristes (ibidem), como esta: uma horda de bbados a esmurrar-me a porta do

    quarto, eu borradinho de medo do outro lado e eles deitando-a abaixo para ver o

    homem-elefante ou algo que o valha (ibidem). Num dilogo com Beatriz, figura indita

    por aqueles lados, e que se punha a distribuir regularmente panfletos e a travar amenas

    conversas apocalpticas (26), a dona Lurdes adianta pormenores que configuram o

    retrato das suas suspeitas acerca do condmino desconhecido, alm de ser um dilogo

    significativo para afinar as vozes desta novela com o rudo de fundo do fim dos tempos

    ou destes tempos do fim,6 segundo a reviso proposta por Slavoj iek (apud Dias

    2016b: 17):

    Esse nem na Pscoa abre o jazigo a dona Lurdes para a Beatriz entretanto reaparecida e de mo

    na testa. [] mas no abre porqu?, pareceu-me ouvir mo