como adolescentes apreendem a ciência e a profissão de ...· ciência e a profissão de cientista?

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  • Estudos Feministas, Florianpolis, 25(2): 562, maio-agosto/2017 829

    Gabriela ReznikUniversidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

    Luisa Medeiros MassaraniMuseu da Vida, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

    Marina RamalhoMuseu da Vida, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

    Maria Ataide MalcherUniversidade Federal do Par, Belm, PA, Brasil

    Luis AmorimMuseu da Vida, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

    Yurij CastelfranchiUniversidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG, Brasil

    http://dx.doi.org/10.1590/1806-9584.2017v25n2p829

    Esta obra est sob licena CreativeCommons.

    Como adolescentes apreendem aComo adolescentes apreendem aComo adolescentes apreendem aComo adolescentes apreendem aComo adolescentes apreendem acincia e a profisso de cientista?cincia e a profisso de cientista?cincia e a profisso de cientista?cincia e a profisso de cientista?cincia e a profisso de cientista?

    Resumo: Resumo: Resumo: Resumo: Resumo: As representaes miditicas exercem importante influncia na percepo de meninassobre o universo cientfico. Neste trabalho, buscamos compreender de que forma mulheresadolescentes enxergam a cincia, as cientistas e os cientistas, a partir de discusses conduzidaspor meio da tcnica de grupos focais, estimuladas pela assistncia de matrias dos programasJornal Nacional e Fantstico, da Rede Globo. Realizamos quatro grupos focais com estudantes do2 ano do Ensino Mdio de escolas pblicas e privadas no Rio de Janeiro. Entre as percepesque emergiram nas discusses com as estudantes sobre a atividade cientfica, destacamos: avinculao da cincia a contedos da disciplina de cincias, oferecida no Ensino Fundamental,e de biologia; a associao da cincia experimentao e descoberta; e a viso de cinciacomo acmulo de conhecimento que tende a um crescimento linear. No identificamos diferenasmarcantes nas percepes das adolescentes de distintas classes sociais. Por utilizar umaabordagem qualitativa pouco explorada em estudos sobre percepo pblica da C&T , este

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    GABRIELA REZNIK ET AL.

    estudo pode contribuir para um entendimento mais aprofundado sobre a percepo deadolescentes sobre a atividade cientfica.Palavras-chave: Palavras-chave: Palavras-chave: Palavras-chave: Palavras-chave: Divulgao cientfica; percepo pblica da cincia; esteretipo do cientista;mulheres; adolescentes.

    IntroduoIntroduoIntroduoIntroduoIntroduo

    As mulheres e a atividade cientficaAs mulheres e a atividade cientficaAs mulheres e a atividade cientficaAs mulheres e a atividade cientficaAs mulheres e a atividade cientfica

    A partir da dcada de 1970, iniciaram-se estudos maissistemticos sobre o papel das mulheres na atividadecientfica e identificou-se a questo de gnero como um fatorcrtico para a insero feminina na academia (Angela MariaFreire de LIMA E SOUZA, 2011). nessa poca em que seobserva uma intensa transformao cultural que impulsionoua entrada das mulheres nas universidades e uma inserofeminina mais acentuada no mercado de trabalho (Moemade Castro GUEDES, 2010). Por meio do cruzamento de dadosdos censos demogrficos de 1970 e 2000 (IBGE), Guedes(2010) mostra uma relao direta entre escolarizao eparticipao feminina no mercado de trabalho. A autoraobserva, ainda, que, dependendo da rea cursada nagraduao, tambm h diferenas salariais. Em carreirasconsideradas tipicamente masculinas, as diferenas salariaisentre homens e mulheres so maiores do que naquelas nasquais as mulheres so maioria.

    No que diz respeito presena das mulheres nasdiferentes reas cientficas, observa-se que, historicamente,existem reas em que as mulheres conseguiram se inserir deforma mais contundente que outras. Em carreiras comoagronomia e todos os tipos de engenharia, o contingente demulheres na graduao no chegava a 30% em 2000. Jem comunicao social e biologia, as mulheres sedestacaram por serem maioria 64% e 76%, respectivamente, nos dados do censo de 2000 do IBGE (GUEDES, 2008).

    No censo de 2010 do Conselho Nacional de Desen-volvimento Cientfico e Tecnolgico (CNPq), o nmero decientistas mulheres j era praticamente o mesmo que o decientistas homens. Observa-se maior contingente de pesqui-sadoras nas reas de cincias humanas e sociais. Na carreirade servio social, por exemplo, as mulheres chegavam a 81%do total de pesquisadores e, na rea de educao, a 67%.H um equilbrio entre homens e mulheres nas reas de sadee biolgicas. J nas cincias exatas ainda predominavampesquisadores homens, principalmente nas engenharias, emque apenas cerca de um quinto do total (22%) era depesquisadoras (CNPq, 2013).

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    COMO ADOLESCENTES APREENDEM A CINCIA E A PROFISSO DE CIENTISTA?

    Ao discutir dados sobre a participao masculina efeminina entre os recursos humanos de cincia e tecnologia(RHCT) e entre os Bolsistas Produtividade do CNPq, Gilda OLINTO(2011) descreve mecanismos que podem contribuir para amanuteno das discriminaes de gnero que colocamprogressivamente em desvantagem as carreiras das mulherespesquisadoras. A passagem do pesquisador pelos diferentesnveis da bolsa de produtividade acontece devido a critriosde desempenho em que a mudana de nvel se d a partirdo cumprimento de requisitos de publicaes e atuaoacadmica como atuao em cargos de chefia e deliderana acadmica. Segundo a autora, h um processode discriminao vertical que se d no momento em que asprofissionais mulheres so mantidas em nveis inferiores dahierarquia da comunidade cientfica em termos de prestgioe financiamento, como visto na concesso de bolsasprodutividade pelo CNPq.

    A autora destaca que, apesar de observarmos,atualmente, uma maior paridade de homens e mulheres nocampo cientfico em alguns pases por exemplo, em Portugale na Itlia j h mais doutoras que doutores , a desigualdadeaumenta medida que se avana nos postos acadmicos.Essa disparidade aparece com maior destaque ao se analisara concesso de bolsas de produtividade em funo do sexodo bolsista: em 2013, 75% das bolsas foram concedidas apesquisadores homens (CNPq, 2013).

    As epistemlogas feministas e, mais em geral, autorasno campo dos estudos de gnero que focaram nos estudossociais de C&T, enfatizaram, desde a dcada de 1970, aimportncia de uma reflexo terica sobre a relao entregnero e cincia, e acumularam evidncias empricas sobrea marcada relao entre sexismo e cincia. Evelyn FOXKELLER, em artigo emblemtico publicado em 1978, jevidenciava e analisava como, desde os primrdios dachamada Revoluo Cientfica e das discusses sobremtodo cientfico, a cincia moderna estaria associada ideia de uma empreitada masculina, orientada dominaoe controle de uma natureza vista como passiva e feminina eretratada por metforas de matrimnio, submisso e, atmesmo, estupro (FOX KELLER, 1987; Willian LEISS, 1972). Cinciae tecnologia, como enfatizado por Sandra HARDING (2007),apesar de se fundarem em um discurso de objetividade,universalidade, impermeabilidade aos valores subjetivos es ideologias, possuem um inconsciente poltico. Uma dasrazes da invisibilidade e da deslegitimao da presenafeminina na cincia estaria, segundo tais autoras, associada construo social de uma definio particular de cincia como objetiva, universal, impessoal, abstrata, e daassociao de tais caractersticas masculinidade, em

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    GABRIELA REZNIK ET AL.

    oposio construo da feminilidade como ligada de formaessencial irracionalidade e emoo, ao cuidado e natureza (FOX KELLER, 1987). Harding (2007), entre outras,aponta como identificar, no interior do trabalho cientfico ede seus critrios de objetividade, interesses sociais e visesracistas ou sexistas: opinies sexistas e racistas, afirma a au-tora, no so invenes de indivduos ou grupos de pesquisa;so suposies amplamente sustentadas por instituies epela sociedade como um todo (HARDING, 2007, p. 165).

    Segundo Maria Teresa CITELI (2000), tal construo daobjetividade estaria, assim, associada a uma definio queserve simultaneamente para demarcar masculino de feminino,cincia de no-cincia e, at mesmo, boa cincia de mcincia (p. 68). Maria Margaret LOPES (2006), analogamente,ao tratar dos estudos de gnero e cincia a partir da tica dahistria das cincias, discorre sobre a crescente discusso eo aprofundamento terico que aconteceram nas ltimasquatro dcadas em torno da sub-representao das mulheresnas cincias, de sua excluso das prticas e das instituiescientficas, focando, tambm, no papel que a representaodo saber cientfico (tratado como objetivo e neutro)desempenha na construo do conceito do que natural/natureza e do que cultural/social.

    Ilana LWY (2000) mostra a importncia da conver-gncia e da interseco entre as evidncias trazidas porhistoriadores e socilogos da cincia que tambm desmisti-ficam a imagem de uma cincia realizada por observadoresneutros e de um conhecimento produzido sem sujeitos eos estudos de gnero, que criticam a forma em que objetivi-dade e universalidade do conhecimento so construdas porgrupos dominantes. nesta relao que se situa a discussosobre a possibilidade de cincia enraizada em prticas econhecimentos parciais e situados:

    Uma cincia situada pode abrir caminho para umaoutra definio de objetivi-dade e de universalidade definio que inclui a paixo, a crtica, acontestao, a solidariedade e a responsabilidade(LWY, 2000, p. 24).1

    Neste contexto, no surpreende a sistemtica hostili-dade reservada s mulheres no passado pelas maiores insti-tuies cientficas. Federico Cesi, fundador da Accademiadei Lincei, por exemplo, proibiu a entrada de mulheres naentidade, considerando que as mulheres representariam umaperigosa distrao do ofcio de desvendar o mundo natural(Mario BIAGIOLI, 1995); a Royal Society

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