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Comunicao: Tecnologia e Poltica

Elisabeth Leone Gandini RomeroMestre em Comunicao e Semitica pela PUC-SP

Docente da Universidade Anhembi-Morumbielisabethleone@uol.com.br

Resumo

As mos constituem um texto semitico complexo, pois nelas encontram-se entretecidos os cdigos genticos e os scio-culturais. Todos estes elementos so levados em considerao, pois as mos incorporam tudo que elas alcanam e tudo que as alcana tambm. Desde que as mos tornaram-se livres, houve uma verdadeira revoluo no corpo do ser humano. Liberada a musculatura do aparelho fonador abre-se o caminho para a linguagem verbal que junto s mos livres foram o ponto de partida tanto para a tcnica, o concretizar, quanto para as idias, o abstrair. Se na biologia representamos uma unidade, em nossa comunicao e cultura somos diferentes graas quela dialtica mo-crebro.

Palavras-chave: mos, comunicao ttil, Semitica da Cultura.

Abstract

Hands are a complex semiotic text because the genetic and cultural codes are weaved in them. Hands incorporate all which they can reach and all which can reach them as well, and since they became free, the human body went through a real revo-lution. When the human beings dominated speech, the ways the verbal language had together with the hands determined the starting point for mental concretization and abstraction. If Biology sees us as a unit, when we communicate and live in the culture we are different thanks to hands-brain dialectics.

Key words: hands, tactile communication, Semiotics of the Culture.

Resumen

Las manos constituyen un texto semitico complejo, pues en ellas se encuentran entretejidos los cdigos genticos y los socioculturales. Todos estos elementos se tienen en cuenta, pues las manos incorporan todo que ellas abarcan y todo que las abarca tambin. Desde que las manos se quedaron libres, hubo una verdadera revolucin en el cuerpo del ser humano. Liberada la musculatura del aparato fonador, se abre el camino para el lenguaje verbal, que, junto a las manos libres, fueron el punto de partida tanto para la tcnica, el concretizar, como para las ideas, el abstraer. Si en la biologa representamos una unidad, en nuestra comunicacin y cultura somos diferentes gracias a aquella dialctica mano-cerebro.

Palabras clave: manos, comunicacin tctil, Semitica de la Cultura.

Com que mos eu vou? As mos na comunicao

e na culturaWhich hand shall I use? The hands

in communication and culture

Com que mos eu vou? As mos na comunicao...

40C o m m u n i c a r e

As mos livres

t um certo momento h uma unidade biolgica entre os prima-tas1, pois todos caminham com o

auxlio dos membros anteriores, utilizan-do-os para a locomoo, para subirem nas rvores, para pularem de galho em galho e outras funes. Porm, surge entre os primatas no sul da frica, em meados da era terciria, por volta de 30 milhes de anos, uma diviso em dois grandes troncos: um veio originar o grupo dos ma-cacos antropides (o gibo, o orangotango, o chimpanz e o gorila); o outro veio a originar a srie dos homindeos. Da es-trutura dos ossos do quadril e das pernas,

comprovou-se que os aus-tralopitecos2 comearam a caminhar em posio qua-se ereta e a postura bpede foi o cessar paulatino de uma vida arborcola. Com isso, houve uma enorme transformao, pois do ambiente da floresta para a savana, a vegetao no bastava ao sustento da vida. Escreve o antroplo-go Ashley Montagu que os precursores imediatos do homem teriam sido fora-

dos a completar sua dieta arrebanhando, no incio, animais pequenos, ainda novos e vagarosos. De simples comedores de plantas, viram-se obrigados a adotar um regime onvoro3.

O ficar ereto libera a mo que por sua vez desenvolve o crebro, tudo ocorren-do simultaneamente, em uma perfeita interao e no em uma hierarquia, como at pouco tempo acreditava-se. Para o professor Jacques Ruffi, por esta interao (homem ereto mo li-vre desenvolvimento do crebro) que surge a conscincia reflexiva e graas a seu sistema nervoso central apto a memorizar e a conceber de forma espe-

Acfica (...) graas a suas mos liberadas capazes de executar os programas, os mais delicados, o homem pode acumular suas experincias e, ento, aperfeioar progressivamente sua atividade4.

As mos livres comportam uma verda-deira revoluo no corpo do ser humano e dentre as transformaes h a liberao de toda a musculatura do aparelho fonador: os ossos maxilares no servem mais para apreenso, mas para mastigar; os dentes caninos no se retraem devido atividade agressiva ter sido transferida para as mos, mas teriam diminudo para permitir um movimento mais flexvel do maxilar5.

Quanto comunicao sonora pela es-pcie humana, com a transformao acima ocorrida, passa-se dos grunhidos, que se faziam ouvir distncia, para o desenvol-vimento da palavra, da fala, da linguagem verbal. Graas dialtica crebro-palavra, os grunhidos fizeram-se voz humana, que, por sua vez, revestiu-se de outra funo, ligou-se aos valores psicofisiolgicos, mticos e sociais6.

1 Primata significa primeiro em posio ou ordem. Lmures, tarseiros, macacos, macacos antropides e homens parecem formar um grupo comum, devido a semelhanas fsicas entre eles. Ashley Montagu. Tocar: o significado humano da pele, p. 51.2 Os restos fsseis dos australopitecos, encontrados na frica, datam de mais de 2 milhes de anos. Possuam um crebro com tamanho mdio inferior a 600cc, sendo que o do homem atual de 1350cc. O homem assumiu uma postura ereta antes que seu crebro aumentasse de tamanho e j utilizava os ossos dos membros dos antlopes como instrumentos. Ashley Montagu. Op. cit., p. 52-3.3 Ashley Montagu. Op. cit., 65.4 Grce son systme nerveux central apte mmori-zer et concevoir de manire particulire (), grce ses mains liberes capables dxcuter les programmes les plus dlicats, lhomme peut accumuler ses exprien-ces et, donc, perfectionner progressivement son activit. Trad. da autora. Jacques Ruffi. Le mutant humain in Lunit de lhomme, 128.

5 Michael Chance. Societs hdoniques et societs agonis-tiques chez les primates in Lunit de lhomme, p. 173.

6 Paul Zumthor. A letra e a voz: a literatura medieval. Trad. Amlio Pinheiro (Parte I) e Jerusa Pires Ferreira (Parte II). p. 66-7.

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7 Henri Focillon. A vida das formas: seguido de elogio da mo, p. 110. Trad. Ruy Oliveira.8 La d-spcialization de la main, devenue un vritable Matre Jacques (Howels), a t le point de dpart dune prodigieuse dialetique main-cerveau et cerveau-parole, mre de toutes les techniques et de toutes les ides. Edgar Morin. O mtodo 4, p. 101. Trad. da autora.9 Ivan Bystrina o criador de um sistema da Semitica da Cultura, em meados dos anos 70, na Universidade Livre de Berlim, onde Professor Emrito.10 Ivan Bystrina. Tpicos da semitica da cultura. Trad. Norval Baitello Junior e Sonia Castino. So Paulo, p. 4.11 Henri Focillon. A vida das formas: seguido de elogio da mo, p. 112. Trad. Ruy Oliveira.

12 O leitor pode encontrar nesta obra um captulo inteiro dedicado ao corpo e este texto apia-se no item onde ele escreve sobre a boca, o crebro e a palavra. H 400 mil anos, a laringe transformou-se, o aparelho fonador ficou abobadado, o osso hiide inseriu-se mais abaixo, sobre a coluna cervical, criando assim uma caixa sonora onde a lngua podia movimentar-se melhor. Boris Cyrulnik. Lensorcellement du monde, p. 74. Trad. da autora.

Boca-mo: a ferramenta corporal mais profunda-mente humana

O etlogo e psiquiatra Boris Cyrul-nik escreve que Monsieur Neander-thal12 podia grunhir e exprimir suas emoes com uma dzia de grunhidos significativos, mas no podia cantar. J Monsieur Cro-Magnon aperfeioou a linguagem humana, mas no sabia que seu crebro esquerdo comandava sua boca tanto quanto sua mo e relata que esta dupla, que at agora s tinha sido utilizada para a alimentao, colocou-se a servio da palavra.

As profundas modificaes corporais pelas quais o homem passou foram por ele compensadas com outras articulaes e com uma hipergestualidade do rosto, da boca e das mos e esclarece ainda B. Cyrulnik que a linguagem dos gestos do corpo melhor que dos gestos da boca lhe permitiam exprimir emoes, in-dicar intenes e ensinar as tcnicas de fabricao das ferramentas. Ele podia ento inventar o artifcio do gesto, da so-

As mos livres agem, apropriam-se da matria, apreendem, agarram e aca-riciam. Mas o que vai fazer com que o ser humano se diferencie de seus primos mais prximos no o fato de ter dado liberdade s mos, libertando-as de uma escravido antiga e natural, mas a mo fez o homem7.

A mo inteligente se faz inventiva, junta-se palavra e ento o incio do grande processo antropolgico de trocas entre o homem e o outro, entre o homem e o mundo, comunicao e cultura. Nas palavras de Edgar Morin, a a des-especializao da mo, tornada um verdadeiro Matre Jacques (Howels) foi o ponto de partida de uma prodi-giosa dialtica mo-crebro e crebro palavra, me de todas as tcnicas e de todas as idias8.

O homem foi ento capaz de criar com suas mos e gestos, sons e pala-vras, um mundo simblico, abstrato, imaginrio, o universo cultural. Para o semioticista Iuri Lotman, o universo simblico o espao da semiosfera; para Edgar Morin, o mundo da segunda existncia; para Ivan Bystrina9, o da segunda realidade.

Para o semioticista I. Bystrina, de acordo com a funo predominante no texto, pode-se dividi-lo em trs catego-rias: os textos instrumentais (presentes no mundo animal); os racionais (a tcnica) e os textos criativos e imagina-tivos. Os dois primeiros servem para a sobrevivncia fsica e constituem uma primeira realidade, sendo que os textos imaginativos como os mitos, os rituais etc. so para a sobrevivncia psquica do homem e constituem ento uma se-gunda realidade10.

As mos agem nas trs categorias e sendo mudas entrelaam-se com a boca para surgirem ao e verbo, mos e voz esto unidos nos mesmos incios11.

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noridade e do objeto que j lhe permitia habitar um mundo cultural13.

O primeiro meio de comunicao do homem o seu corpo que percebe o mundo e comunica-se por meio dos sen-tidos e na dana das ordens sensoriais, os sentidos de proximidade so o tato, o olfato e o paladar; os de distncia so a audio e a viso. H ainda o sentido da propriocepo, o sentido do prprio corpo. A afirmao que o conjunto boca-mo constitui o utenslio corporal o mais profundamente humano do autor acima que a justifica esclarecendo que todas as transformaes mecnicas do toque, da palavra e da carcia convergem em dire-o ao lugar que, sobre o crtex humano,

recolhe as percepes e as ordens motoras consagra-das boca e mo14.

Pensar a mo-mdia imediatamente associ-la ao sentido do tato, primei-ramente. O tato o sentido vital de nosso corpo, todo recoberto de pele, roupa-gem contnua e flexvel, o tato a origem de nossos olhos, ouvidos, nariz e garganta15.

No caso do homem, lemos que a repartio do

tato idntica dos outros vertebrados: cada dcimo de milmetro de superfcie dos lbios sensvel de 5 a 6 miligramas, enquanto que o valor correspondente ponta dos dedos de 30 a 40; o resto do corpo dispe de uma sensibilidade varivel, mas consideravelmente mais reduzida16.

O tato labial relaciona-se mais com o comportamento nutritivo ou afetivo do que com os comportamentos que conduzem esttica figurativa. A vi-so e a audio, comprometidas com a linguagem semelhana da mo, so os nicos elementos do sistema de emisso e de recepo que tornam

possveis a troca de smbolos figurati-vos. O olfato e o paladar, estticas sem linguagens, esto margem das belas artes, mas presentes na cultura, em seu nvel mais profundo. , Llogo, oO gos-to, o cheiro, a consistncia, constituem teoricamente a base real desta esttica sem linguagem17.

Todos os bebs do mundo possuem o mesmo repertrio de gostos e mmicas, at mesmo antes de nascer. Ainda no tero, a palavra da me chega como uma carcia e o som de sua voz faz com que o beb ponha suas mos na boca, como se a degustasse quando a escuta18.

Ambos, pequeno animal ou filhote de homem, chegam ao mundo com suas promessas genticas e as realizaro, pior ou melhor, conforme a estrutura do mundo onde desembarcam.

Essa estrutura ecolgica e social, mas sobretudo semntica: as palavras consti-tuem as estrelas, as frases desenham as constelaes e as idias conformam os sentimentos e as aes. Para o homenzi-nho, tentar a aventura da fala, antes de mais nada, uma maneira de encontrar, uma maneira de fazer gestos, mmicas e vocalizaes que lhe permitam amar, trocar afeto e agir sobre a pessoa amada. Adquirir uma lngua implica aprender um cdigo, mas sobretudo, ocupar um lugar afetivo em uma cultura j estruturada por esta lngua19.

O primeiro meio de comunicao do homem o seu corpo

13 Cette forme de langage, symbolise par les gestes du corps, mieux que par les gestes de la bouche, lui permettait dj dexprimer des motions, dindiquer des intentions et denseigner les techniques de fabri-cation das outils. Il pouvait donc inventer lartifice du geste, de la sonorit et de lobjet qui lui permettait dj dhabiter un monde culturel. Idem.

14 Boris Cyrulnik. Lensorcellement du monde, p. 154.15 Ashley Montagu. Tocar: o significado humano da pele, p. 21.16 Andr Leroi-Gourham. O gesto e a palavra, p. 102.

17 Andr Leroi-Gourham. Op. cit., p. 98-9.18 Boris Cyrulnik. Lensorcellement du monde, p. 17. Trad. da autora.19 Boris Cyrulnik. Os alimentos do afeto, p. 69.

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20 Observer les invariants que peuvent prsenter ces deux groupes danimaux conduira donc vraisem-blablement suggrer des tendances hrditaires susceptibles de se retrouver chez lhomme. Michael Chance. Societs hdoniques et societs agonistiques chez les primates in Lunit de lhomme, p. 85. Trad. da autora.21 Agonismo o termo utilizado para descrever a tenso que surge entre a fuga e a espera, ou entre a fuga e a agresso, em uma sociedade onde todos os membros devem permanecer juntos a fim de se beneficiarem da proteo do macho dominante, at porque ele mesmo a fonte da ameaa. Michael Chance. Op. cit., p. 88.22 Certes, embrasser, toucher, toucher la main, serrer la main, teindre, et ainsi de suite, vont souvent de pair avec tous les types dintraction sociale. Michael Chance. Op. cit., p. 89.

23 (...) that kissing as a form of peacemaking is a characte-ristic that we share with the chimpanzee. Trad. da autora. Frans de Waal. Peacemaking among primates, p. 43.

Mos herdeiras

Vimos que o homem pertence ordem dos primatas e ao estudar a comunicao humana afirmam alguns pesquisadores que encontram alguns fatores invariveis no grupo dos assim chamados macacos grandes, o chimpanz e o gorila; no dos menores, o babuno e o rhesus; e no homem, no que diz respeito ao compor-tamento gestual. Afirma Michael Chance, professor de Etologia, que observar os invariveis que podem apresentar estes dois grupos de animais conduzir por semelhana a sugerir as tendncias hereditrias suscetveis de encontrarem-se no homem20. Os macacos fabricam instrumentos tcnicos que os ajudam na sobrevivncia fsica e no importa a que grupo pertenam. Por exemplo, para atingirem os cupins no cupinzeiro, eles pegam um galho de bambu, tiram as folhas e com a vareta lisa enfiam-na no buraco do cupinzeiro, para trazerem at suas bocas uma maior quantidade de alimento e se protegerem dos ataques.

Quanto s interaes da comunica-o social, principalmente na ordem hierrquica entre os macacos machos, M. Chance salienta uma diferena fundamental: entre os babunos,: obser-va-se um comportamento agonstico21, agressivo; entre os macacos grandes, os chimpanzs, observa-se um compor-tamento de modo hednico (hedonismo como busca de prazer) a saber, procuram o contato. Com certeza, abraar, tocar, tocar a mo, apertar a mo, estender e assim por diante, vai com freqncia junto com todos os tipos de interao social22.

Parece que ns nos parecemos muito mais com os chimpanzs do que gostar-amos. O dilogo amplia-se e outros et-logos, em relevantes pesquisas tambm com os macacos, como Frans de Waal e Eibl-Eibesfeldt, aportam suas contribui-es para as Cincias da Comunicao.

Frans de Waal, em seu livro Pea-cemaking among Primates, dedica um captulo aos chimpanzs e suas formas de comunicao gestuais, em que as mos (no caso os membros anteriores) tm o papel principal. Os chimpanzs se abraam mutuamente e se beijam, como a nossa espcie para estabele-cerem relaes de amizade e ternura, posto que beijar como uma maneira de reconciliao uma caracterstica que compartilhamos com os chimpanzs23. Em uma seqncia tirada de seu livro, vemos as imagens de chimpanzs que, para aplacar a ira do agressor, oferecem a mo aberta para um hand kiss.

O pesquisador Eibl-Eibesfeldt, no pr-logo de seu livro El hombre preprograma-do, esclarece que h trs possibilidades a serem adotadas no que diz respeito aquisio de aprendizado. A primeira reza que o homem chega ao mundo como uma pgina em branco, e somente por meio de um processo de aprendizagem, em seu meio ambiente, adquire seus modos de comportamento.

A segunda fundamentada por al-guns investigadores do comportamen-to humano, tambm orientados para

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a teoria do meio ambiente, mas que apregoam a necessidade de conformar o homem para sua sobrevivncia. Esta teoria oferece a tcnica do condiciona-mento, por meio do estmulo do castigo e da recompensa, normas deduzidas de maneira funcional.

As duas acima negam qualquer auto-nomia ao homem, pois ele controlado, seja por seu meio ambiente, seja por seus semelhantes. A terceira afirma que existem pr-programaes nas esferas perfeitamente determinveis do compor-tamento, adaptaes que se desenvolve-ram na histria da espcie24.

Os animais chegam ao mundo dota-dos de um repertrio de movimentos,

reagem ante determinados estmulos-chave, pois es-to dotados de mquinas fisiolgicas que, como im-pulsos, pem em movimen-to o animal. Eles trazem consigo capacidades inatas de aprendizagem, que as-seguram que ele aprenda o oportuno no momen-to oportuno; em resumo, que modifique seu com-portamento de maneira adaptativamente.

Estes conhecimentos tm uma significao especial para os estudos do homem, pois a formula-se a pergunta: o comportamento humano no se encontra tambm pr-programado, em determinadas esferas, mediante adapta-es filogenticas?

O autor defende a idia que foi o meio ambiente que conformou, em ltima instncia, o homem, mas ao longo de um processo de adaptao filogentica no desenvolvimento da espcie, no ao longo do crescimento individual. Isso significaria que no pode ser conforma-do com igual facilidade em todas as dire-es pelas influncias do meio ambiente, seno por sua prpria construo, ope

mutabilidade certas resistncias.Disto resulta que os programas edu-

cativos que se orientam, exclusivamente, por ideologias que ignoram a natureza humana, podem ser completamente inu-manos, porque exigem constantemente demasiado dele25.

Para comprovar sua hiptese, Eibes-feldt faz experincias com macacos, com surdos-cegos e com diferentes culturas. Entre chimpanzs, h o gesto conhecido de dar a mo, muito utilizado para con-vidar ao contato. Os de situao inferior pedem contato, apresentando aos de situao superior a mo estendida com a palma da mo dirigida para cima. O do-minador coloca sua mo em cima, sinal que tranqiliza o companheiro. Autores inclinam-se em ver neste comportamento as razes do ato de dar as mos26.

Estender as mos para dar alimentos criar laos. Observa-se que o dar ou repartir alimentos tambm estabele-cer vnculos e favorece a aproximao com estranhos. Consumir alimentos em comum tambm fortalece as ligaes, como o banquete, as ceias etc. Criam-se vnculos mediante a comida em comum e o mesmo ocorre em povos primitivos. O que est claro que as crianas desde cedo, sem ter a orientao especfica para isto, tratam espontaneamente de criar vnculos com os estranhos mediante ofertas de alimentos, onde se pode ver a ao de uma disposio inata27.

Eibesfeldt utiliza uma filmadora para registrar a mmica silenciosa do corpo. O estudo junto aos surdos-cegos de nascimento, serve para comprovar que h comporta-mentos universais. Por exemplo, Sabine, de

Estender as mos para dar alimentos criar laos

24 Eibl Eibesfeldt. El hombre preprogramado: lo here-ditrio como fator determinante en el comportamiento humano, p. 14.

25 Eibl Eibesfeldt. Op. cit., p. 15.26 Eibl Eibesfeldt. Op. cit , p. 206.

27 Eibl Eibesfeldt. Op. cit., p. 246.

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H surpreendentes coincidncias34 que se observam nos mais diversos nveis entre os textos. Por exemplo, o gesto de abrir a mo ao chegar e abrir a mo ao se despedir, padro de comportamento que se observa tanto junto a nativos quanto a europeus. Em seu livro o etlogo relata que entre os kukukuku (papuas) lhe chamou ateno um cumprimento com caracters-ticas iguais na Itlia, pois as mulheres que se encontravam trabalhando no campo os cumprimentaram ao passar, lhes estenden-do a mo e fazendo repetidos sinais para uma aproximao, com a palma da mo para cima. Uma delas fez sinal tambm com a palma da mo voltada para baixo, como se quisesse arrast-los para ela. Es-tender a mo com a palma aberta e para cima, como papuas, parece gesto de pedir algo, como esmola, mas era um convite para apertar a mo35.

Eibesfeldt lana uma primeira luz sobre o problema da vinculao regulada por gestos de solicitao e pacificao, gestos inatos, e Edgar Morin ao cit-lo em um de seus livros36, no s compartilha com seu pensamento, como o confirma: (...) podemos

28 Eibl Eibesfeldt. El hombre preprogramado: lo hereditrio como fator determinante en el compor-tamiento humano, p. 24.29 Eibl Eibesfeldt. Op. cit., p. 30.30 Eibl Eibesfeldt. Op. cit., p. 51.31 Eibl Eibesfeldt. El hombre preprogramado: lo hereditrio como fator determinante en el compor-tamiento humano, p. 54.32 Edgar Morin. O mtodo 4, p. 25. Trad. da autora.33 Iuri Lotman. La semiosfera I, p. 89-90.34 Iuri Lotman, em seu livro La Semiosfera, escreve sobre a construo de uma teoria da interao das culturas, o aspecto semitico, e dedica-se a estudar as coincidncias que ocorrem com os mais diversos textos culturais.35 Eibl Eibesfeldt. Op. cit., p. 206.

36 Ora, exceo do sorriso, do riso e das lgrimas, bem como o gesto da mo estendida, e eyebrow flash e o ritual de flerte entre adolescentes, (Eibesfeldt) esse embasamento instintual progressivamente tragado com o desenvol-vimento e o acionamento das competncias estratgicas/heursticas e da semitica cultural, as quais se amaciam ao mesmo tempo do que a primeira culturizao e, depois, se afirmam de modo decisivo. Edgar Morin e Massimo Piattelli-Palmarini. Lnit de lhomme, p. 124-5.

nove anos, surda-cega de nascimento, sorri quando encontra sua boneca, faz caretas na hora que est aborrecida, franze os lbios, sacode a cabea e mostra os dentes apertados na hora da raiva e quando chateada chora e larga a boneca28.

Em 1972, o autor filmou um menino chins, de dez anos, no Instituto para Ce-gos de Tapei, surdo-cego de nascimento, e constatou que suas mmicas so iguais s de um menino europeu29. Ora, pensa-va-se que os surdos-cegos de nascena orientavam-se com a ajuda do tato sobre a mmica de seus semelhantes e aprendiam seus gestos. No entanto, mediante as obser-vaes realizadas, pode-se constatar como refutada esta hiptese.

Esconder o rosto com as mos mmica de todos os primatas. J ritualizada e perfeitamente imaginvel que a rituali-zao tenha sido aprendida no decorrer do desenvolvimento juvenil. As crianas, quando tmidas, envergonhadas, colocam as mos no rosto, como quem no quer ver nada, nem ser visto um no v nada e se encontra de um certo modo oculto30.

Tambm os cegos de nascimento ocultam o rosto frente a situaes espe-cficas, mas os movimentos so iguais aos dos videntes e se repetem nas diferentes culturas. Isso fortalece a hiptese de que h um conhecimento que independe de aprendizado, est na filognese31.

Por outro lado, h um imprinting cul-tural, como normas, prescries, tabus, interdies, gestos, etc. tudo que o ser no ser humano incorpora, a cultura age e retroage sobre o esprito/crebro para nele modelar as estruturas cognitivas, sendo portanto, sempre ativa como co-produtora de conhecimento32.

A performance gestual, as mos, a mmica do rosto, a vocalidade, etc. no esto isolados e para realizarem uma ati-vidade geradora de sentido, devem estar submergidos na semiosfera, ser um texto em um contexto em interao com outros e com o meio semitico33.

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pensar que, no homo sapiens, h toda uma parte instintual que , sem cessar, desfeita em migalhas.

Logo, h diversos caminhos que as mos podem percorrer. H culturas que mantiveram as mos sossegadas, apoia-ram-se mais na voz; h outras que gesti-cularam muito; outras somaram os dois meios; outras passaram a considerar falta de educao deixar que as mos se expres-sem e as silenciaram; outras ainda deixam as mos livres, como os ndios.

De qualquer forma, mos polivalen-tes so da ao e como toda comunica-o comea no corpo e para ele retorna, relembrando a classificao de Harry Pross37, elas esto presentes nas mdias

primria, secundria e ter-ciria. Para a semioticista Ana Claudia de Oliveira, o homo sapiens, ao ter as mos libertas da locomo-o, assumiu outras tarefas e sua sensibilidade ttil foi enriquecendo-se com o desenvolvimento do cre-bro e, em uma escalada, a fora motriz da mo foi sendo transferida para os instrumentos, como nas sociedades eletro-eletr-nicas38 at assistirmos

mo passar a desencadear um processo programado em mquinas automticas, que no s exteriorizam o utenslio, o gesto e a motricidade, como invadem o domnio da memria e do comporta-mento maquinal39.

Entre a mo polivalente e a viso onipresente

No processo no linear da civiliza-o, os instintos humanos foram sendo domesticados, as emoes civilizadas e as mos controladas. As pessoas procu-raram suprimir em si mesmas todas as caractersticas que julgam animais. De

igual maneira suprimem estas caracters-ticas em seus alimentos40. Suprimem igualmente a nudez e substituem pela vergonha do corpo, pelo pecado, pelo no tocar, no pegar com as mos e como sublinha ainda o mesmo autor:

O sentido do olfato, a tendncia de cheirar o alimento ou outras coisas, veio a ser restringido como algo animal. Aqui temos uma das interconexes atravs da qual um diferente rgo dos sentidos, o olho, assu-me importncia muito especfica na socie-dade civilizada. De maneira semelhante da orelha, e talvez ainda mais, o olho se torna um mediador do prazer precisamen-te porque a satisfao direta do desejo pelo prazer foi circunscrita por grande nmero de barreiras e proibies41.

Ao longo de sculos, tentou-se apa-gar os vestgios animais de nossas mos, control-las, domestic-las, culp-las etc. em um processo de des-corporiza-o das prticas de interao, isto , da ao comunicativa de nossas mos. O comuniclogo Norval Baitello Junior sinaliza que com o desenvolvimento da fala a sincronizao se altera, pois os ritmos so diferentes: Enquanto as mos tinham (e tm) como principal componente de sua linguagem o espao no qual se movem, a fala, produzida por movimentos minimalistas dos rgos

Os telespectadores viram no remake uma oportunidade de interferirem no final

37 Harry Pross, em um clssico de 1971, Medienfors-chung, prope uma classificao dos sistemas de me-diao e os classifica em mdia primria, secundria e terciria. A primeira a comunicao de um corpo para outro corpo com suas linguagens, o tempo o do presente, o aqui e o agora; na secundria, o emissor necessita de um aparato e o receptor apenas seu corpo, como exemplo temos a escrita, as pinturas nas paredes, jornais e revistas, etc. A mdia terciria a da eletrici-dade, emissor e receptor necessitam de aparatos como o celular, a TV ou o computador, mas a mdia primria sempre o incio e o fim de todo processo de comunicao. Norval Baitello Jr. A era da iconofagia, p. 31-34.

38 Ana Cludia Oliveira. Fala gestual, p. 15-16.39 Andr Leroi-Gourham apud Ana Cludia Oliveira. O gesto e a palavra, p. 16.40 Norbert Elias. O processo civilizador, 124.

41 Norbert Elias. Op. cit., 124.

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fonadores, tem como matria-prima os ritmos, ou seja, o tempo42.

O processo de desmaterializao e des-corporizao comunicativa remonta pelo menos ao aparecimento da escrita e chega tecnologia digital. A cultura do dont touch domina a vida ocidental, evita-se o contato fsico desnecessrio, desconhece-se ou procura-se no se dar a devida ateno importncia do tocar e ser tocado, aca-riciado, assim como proibido, em nome da assepsia, pegar com as mos alguns alimentos, cheirar e apalpar uma fruta em um supermercado.

Nossa cultura ocidental vem dando n-fase exagerada viso, sentido masculino e bidimensional, em detrimento do sentido do tato, feminino e tridimensional. No prefcio da a obra Nada Brahma (O mundo som), do musiclogo alemo Joachim-Ernst Berendt, especificamente em seu livro Nada Brahma (O mundo som), Fritjof Capra escreve no prefcio queque nossa atual mudana de paradigma dos olhos para os ouvidos que coincide com a mudana dos valores masculinos para os femininos, do conheci-mento racional para a sabedoria intuitiva, do domnio e da agressividade para a paz43.

Mos so instrumentos da comunica-o e da cultura, que por sua vez so faces da mesma moeda. Comunicao via de mo dupla, emisso e recepo fluem em uma troca de vnculos, muitas mos em muitas direes, diferentemente do que se entende por informao, que via de mo nica e aponta para um s sentido, fornece uma s forma44.

Com o desenvolvimento da sociedade de consumo, com a cultura de massa, com a cincia e a tecnologia, as mos passaram a ser instrudas apenas para funcionarem o mnimo necessrio, em uma economia gestual que se satisfaz com as pontas dos dedos e busca miniaturizar cada vez mais o que deve tocar.

Entretanto, vimos que as mos livres so tambm herdeiras, tato e contato estruturam nosso mundo; e dissemos que elas so cultu-

rais medida que tm histria e memria e as memrias de uma raa humana que no olvidou o privilgio de manusear45.

As estratgias adotadas pela cultura e pela comunicao contemporneas apontam o enorme distanciamento da comunicao ttil, da mdia primria, dos sentidos de proximidade. Privilegia-se o par viso/audio, sentidos da distncia. Quanto mais o homem se distancia da comunicao ttil, de seu corpo, mais distante est de si mesmo, do outro e de sua cultura. Nossa afetividade governada por nossa sensorialidade e como ocorre com nossos irmos inferiores, o chim-panz leva para a esfera das amizades adolescentes as manifestaes de ternura: abraos, protobeijos. A sua mo, tal como no homem (o que se esquece muitas vezes), um instrumento de comunicao afetiva: carcias, aperto de mos (...)46.

Na qualidade de instrumento do tato, a mo o mais informativo de todos os nossos rgos, com a possvel exceo apenas, e oca-sionalmente do crebro47. Apesar disso, pou-cos estudiosos se debruam no tema da mdia primria, o corpo e suas linguagens. De fato, impossvel catalog-la, pois orquestrao mutante, de superposio de gestos, de odo-res, de sabores, de vises e, primordialmente de tatilidades. Tocar , acima de tudo, um ato de comunicao e seria bom lembrarmos que quando voc tocar algum no toque nunca um corpo. No se esquea de que voc toca uma alma com toda sua histria48.

42 Norval Baitello Jr. A era da iconofagia, p. 104.43 Joachim-Ernst Berendt. Nada Brahma: a msica e o universo da conscincia, 13.44 Informar dar forma. Jesus Martn-Barbero. Ofcio de cartgrafo: travesas latinoamericanas de la comu-nicacin en la cultura, p. 79.45 Henri Focillon. A vida das formas: seguido de elogio da mo, p. 117.

46 Edgar Morin. O enigma do homem, p. 49.47 Ashley Montagu. Tocar: o significado humano da pele, p. 131.48 Jean Yves Leloup. Alm da luz e da sombra- Sobre o viver, o morrer e o ser, p. 79.

Com que mos eu vou? As mos na comunicao...

48C o m m u n i c a r e

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