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Comunicao: Tecnologia e Poltica

Elisabeth Leone Gandini RomeroMestre em Comunicao e Semitica pela PUC-SP

Docente da Universidade Anhembi-Morumbielisabethleone@uol.com.br

Resumo

As mos constituem um texto semitico complexo, pois nelas encontram-se entretecidos os cdigos genticos e os scio-culturais. Todos estes elementos so levados em considerao, pois as mos incorporam tudo que elas alcanam e tudo que as alcana tambm. Desde que as mos tornaram-se livres, houve uma verdadeira revoluo no corpo do ser humano. Liberada a musculatura do aparelho fonador abre-se o caminho para a linguagem verbal que junto s mos livres foram o ponto de partida tanto para a tcnica, o concretizar, quanto para as idias, o abstrair. Se na biologia representamos uma unidade, em nossa comunicao e cultura somos diferentes graas quela dialtica mo-crebro.

Palavras-chave: mos, comunicao ttil, Semitica da Cultura.

Abstract

Hands are a complex semiotic text because the genetic and cultural codes are weaved in them. Hands incorporate all which they can reach and all which can reach them as well, and since they became free, the human body went through a real revo-lution. When the human beings dominated speech, the ways the verbal language had together with the hands determined the starting point for mental concretization and abstraction. If Biology sees us as a unit, when we communicate and live in the culture we are different thanks to hands-brain dialectics.

Key words: hands, tactile communication, Semiotics of the Culture.

Resumen

Las manos constituyen un texto semitico complejo, pues en ellas se encuentran entretejidos los cdigos genticos y los socioculturales. Todos estos elementos se tienen en cuenta, pues las manos incorporan todo que ellas abarcan y todo que las abarca tambin. Desde que las manos se quedaron libres, hubo una verdadera revolucin en el cuerpo del ser humano. Liberada la musculatura del aparato fonador, se abre el camino para el lenguaje verbal, que, junto a las manos libres, fueron el punto de partida tanto para la tcnica, el concretizar, como para las ideas, el abstraer. Si en la biologa representamos una unidad, en nuestra comunicacin y cultura somos diferentes gracias a aquella dialctica mano-cerebro.

Palabras clave: manos, comunicacin tctil, Semitica de la Cultura.

Com que mos eu vou? As mos na comunicao

e na culturaWhich hand shall I use? The hands

in communication and culture

Com que mos eu vou? As mos na comunicao...

40C o m m u n i c a r e

As mos livres

t um certo momento h uma unidade biolgica entre os prima-tas1, pois todos caminham com o

auxlio dos membros anteriores, utilizan-do-os para a locomoo, para subirem nas rvores, para pularem de galho em galho e outras funes. Porm, surge entre os primatas no sul da frica, em meados da era terciria, por volta de 30 milhes de anos, uma diviso em dois grandes troncos: um veio originar o grupo dos ma-cacos antropides (o gibo, o orangotango, o chimpanz e o gorila); o outro veio a originar a srie dos homindeos. Da es-trutura dos ossos do quadril e das pernas,

comprovou-se que os aus-tralopitecos2 comearam a caminhar em posio qua-se ereta e a postura bpede foi o cessar paulatino de uma vida arborcola. Com isso, houve uma enorme transformao, pois do ambiente da floresta para a savana, a vegetao no bastava ao sustento da vida. Escreve o antroplo-go Ashley Montagu que os precursores imediatos do homem teriam sido fora-

dos a completar sua dieta arrebanhando, no incio, animais pequenos, ainda novos e vagarosos. De simples comedores de plantas, viram-se obrigados a adotar um regime onvoro3.

O ficar ereto libera a mo que por sua vez desenvolve o crebro, tudo ocorren-do simultaneamente, em uma perfeita interao e no em uma hierarquia, como at pouco tempo acreditava-se. Para o professor Jacques Ruffi, por esta interao (homem ereto mo li-vre desenvolvimento do crebro) que surge a conscincia reflexiva e graas a seu sistema nervoso central apto a memorizar e a conceber de forma espe-

Acfica (...) graas a suas mos liberadas capazes de executar os programas, os mais delicados, o homem pode acumular suas experincias e, ento, aperfeioar progressivamente sua atividade4.

As mos livres comportam uma verda-deira revoluo no corpo do ser humano e dentre as transformaes h a liberao de toda a musculatura do aparelho fonador: os ossos maxilares no servem mais para apreenso, mas para mastigar; os dentes caninos no se retraem devido atividade agressiva ter sido transferida para as mos, mas teriam diminudo para permitir um movimento mais flexvel do maxilar5.

Quanto comunicao sonora pela es-pcie humana, com a transformao acima ocorrida, passa-se dos grunhidos, que se faziam ouvir distncia, para o desenvol-vimento da palavra, da fala, da linguagem verbal. Graas dialtica crebro-palavra, os grunhidos fizeram-se voz humana, que, por sua vez, revestiu-se de outra funo, ligou-se aos valores psicofisiolgicos, mticos e sociais6.

1 Primata significa primeiro em posio ou ordem. Lmures, tarseiros, macacos, macacos antropides e homens parecem formar um grupo comum, devido a semelhanas fsicas entre eles. Ashley Montagu. Tocar: o significado humano da pele, p. 51.2 Os restos fsseis dos australopitecos, encontrados na frica, datam de mais de 2 milhes de anos. Possuam um crebro com tamanho mdio inferior a 600cc, sendo que o do homem atual de 1350cc. O homem assumiu uma postura ereta antes que seu crebro aumentasse de tamanho e j utilizava os ossos dos membros dos antlopes como instrumentos. Ashley Montagu. Op. cit., p. 52-3.3 Ashley Montagu. Op. cit., 65.4 Grce son systme nerveux central apte mmori-zer et concevoir de manire particulire (), grce ses mains liberes capables dxcuter les programmes les plus dlicats, lhomme peut accumuler ses exprien-ces et, donc, perfectionner progressivement son activit. Trad. da autora. Jacques Ruffi. Le mutant humain in Lunit de lhomme, 128.

5 Michael Chance. Societs hdoniques et societs agonis-tiques chez les primates in Lunit de lhomme, p. 173.

6 Paul Zumthor. A letra e a voz: a literatura medieval. Trad. Amlio Pinheiro (Parte I) e Jerusa Pires Ferreira (Parte II). p. 66-7.

41Volume 6 - N 2 - 2 sem. 2006

Elisabeth Leone Gandini Romero

7 Henri Focillon. A vida das formas: seguido de elogio da mo, p. 110. Trad. Ruy Oliveira.8 La d-spcialization de la main, devenue un vritable Matre Jacques (Howels), a t le point de dpart dune prodigieuse dialetique main-cerveau et cerveau-parole, mre de toutes les techniques et de toutes les ides. Edgar Morin. O mtodo 4, p. 101. Trad. da autora.9 Ivan Bystrina o criador de um sistema da Semitica da Cultura, em meados dos anos 70, na Universidade Livre de Berlim, onde Professor Emrito.10 Ivan Bystrina. Tpicos da semitica da cultura. Trad. Norval Baitello Junior e Sonia Castino. So Paulo, p. 4.11 Henri Focillon. A vida das formas: seguido de elogio da mo, p. 112. Trad. Ruy Oliveira.

12 O leitor pode encontrar nesta obra um captulo inteiro dedicado ao corpo e este texto apia-se no item onde ele escreve sobre a boca, o crebro e a palavra. H 400 mil anos, a laringe transformou-se, o aparelho fonador ficou abobadado, o osso hiide inseriu-se mais abaixo, sobre a coluna cervical, criando assim uma caixa sonora onde a lngua podia movimentar-se melhor. Boris Cyrulnik. Lensorcellement du monde, p. 74. Trad. da autora.

Boca-mo: a ferramenta corporal mais profunda-mente humana

O etlogo e psiquiatra Boris Cyrul-nik escreve que Monsieur Neander-thal12 podia grunhir e exprimir suas emoes com uma dzia de grunhidos significativos, mas no podia cantar. J Monsieur Cro-Magnon aperfeioou a linguagem humana, mas no sabia que seu crebro esquerdo comandava sua boca tanto quanto sua mo e relata que esta dupla, que at agora s tinha sido utilizada para a alimentao, colocou-se a servio da palavra.

As profundas modificaes corporais pelas quais o homem passou foram por ele compensadas com outras articulaes e com uma hipergestualidade do rosto, da boca e das mos e esclarece ainda B. Cyrulnik que a linguagem dos gestos do corpo melhor que dos gestos da boca lhe permitiam exprimir emoes, in-dicar intenes e ensinar as tcnicas de fabricao das ferramentas. Ele podia ento inventar o artifcio do gesto, da so-

As mos livres agem, apropriam-se da matria, apreendem, agarram e aca-riciam. Mas o que vai fazer com que o ser humano se diferencie de seus primos mais prximos no o fato de ter dado liberdade s mos, libertando-as de uma escravido antiga e natural, mas a mo fez o homem7.

A mo inteligente se faz inventiva, junta-se palavra e ento o incio do grande processo antropolgico de trocas entre o homem e o outro, entre o homem e o mundo, comunicao e cultura. Nas palavras de Edgar Morin, a a des-especializao da mo, tornada um verdadeiro Matre Jacques (Howels) foi o ponto de partida de uma prodi-giosa dialtica mo-crebro e crebro palavra, me de todas as tcnicas e de todas as idias8.

O homem foi ento capaz de criar com suas mos e gestos, sons e pala-vras, um mundo simblico, abstrato, imaginrio, o universo cultural. Para o semioticista Iuri Lotman, o universo simblico o espao da semiosfera; para Edgar Morin, o mundo da segunda existncia; para Ivan Bystrina9, o da segunda realidade.

Para o semioticista I. Bystrina, de acordo com a funo predominante no texto, pode-se dividi-lo em trs catego-rias: os textos instrumentais (presentes no mundo animal); os racionais (a tcnica) e os textos criativos e imagina-tivos. Os dois primeiros servem para a sobrevivncia fsica e constituem uma primeira realidade, sendo que os textos imaginativos como os mitos, os rituais etc. so para a sobrevivncia psquica do homem e constituem ento uma se-gunda realidade10.

As mos age

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