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COLEO CARLOS DRUMMOND DE ANDRADECONSELHO EDITORIAL

Antonio Carlos SecchinDavi Arrigucci Jr.Eucana FerrazSamuel Titan Jr.

Sumrio

9 Sentimento do mundo10 Confidncia do itabirano11 Poema da necessidade12 Cano da Moa-Fantasma de Belo Horizonte15 Tristeza do Imprio16 O operrio no mar18 Menino chorando na noite19 Morro da Babilnia20 Congresso Internacional do Medo21 Os mortos de sobrecasaca22 Brinde no Juzo Final23 Privilgio do mar24 Inocentes do Leblon25 Cano de bero27 Indeciso do Mier28 Bolero de Ravel29 La possession du monde30 Ode no cinquentenrio do poeta brasileiro33 Os ombros suportam o mundo34 Mos dadas35 Dentaduras duplas38 Revelao do subrbio39 A noite dissolve os homens41 Madrigal lgubre43 Lembrana do mundo antigo44 Elegia 193845 Mundo grande47 Noturno janela do apartamento49 Posfcio

Desejo de transformao,MURILO MARCONDES DE MOURA

67 Leituras recomendadas68 Cronologia74 Crdito das imagens75 ndice de primeiros versos

SENTIMENTO DO MUNDO

SENTIMENTO DO MUNDO

Tenho apenas duas mose o sentimento do mundo,mas estou cheio de escravos,minhas lembranas escorreme o corpo transigena confluncia do amor.

Quando me levantar, o cuestar morto e saqueado,eu mesmo estarei morto,morto meu desejo, mortoo pntano sem acordes.

Os camaradas no disseramque havia uma guerrae era necessriotrazer fogo e alimento.Sinto-me disperso,anterior a fronteiras,humildemente vos peoque me perdoeis.

Quando os corpos passarem,eu ficarei sozinhodesfiando a recordaodo sineiro, da viva e do microscopistaque habitavam a barracae no foram encontradosao amanhecer

esse amanhecermais noite que a noite.

CONFIDNCIA DO ITABIRANO

Alguns anos vivi em Itabira.Principalmente nasci em Itabira.Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.Noventa por cento de ferro nas caladas.Oitenta por cento de ferro nas almas.E esse alheamento do que na vida porosidade e comunicao.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem

[horizontes.E o hbito de sofrer, que tanto me diverte, doce herana itabirana.

De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereo:esta pedra de ferro, futuro ao do Brasil;este So Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;este couro de anta, estendido no sof da sala de visitas;este orgulho, esta cabea baixa

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.Hoje sou funcionrio pblico.Itabira apenas uma fotografia na parede.Mas como di!

POEMA DA NECESSIDADE

preciso casar Joo, preciso suportar Antnio, preciso odiar Melquades, preciso substituir ns todos.

preciso salvar o pas, preciso crer em Deus, preciso pagar as dvidas, preciso comprar um rdio, preciso esquecer fulana.

preciso estudar volapuque, preciso estar sempre bbedo, preciso ler Baudelaire, preciso colher as floresde que rezam velhos autores.

preciso viver com os homens, preciso no assassin-los, preciso ter mos plidase anunciar o FIM DO MUNDO.

CANO DA MOA-FANTASMADE BELO HORIZONTE

Eu sou a Moa-Fantasmaque espera na Rua do Chumboo carro da madrugada.Eu sou branca e longa e fria,a minha carne um suspirona madrugada da serra.Eu sou a Moa-Fantasma.O meu nome era Maria,Maria-Que-Morreu-Antes.

Sou a vossa namoradaque morreu de apendicite,no desastre de automvelou suicidou-se na praiae seus cabelos ficaramlongos na vossa lembrana.Eu nunca fui deste mundo:Se beijava, minha bocadizia de outros planetasem que os amantes se queimamnum fogo casto e se tornamestrelas, sem ironia.

Morri sem ter tido tempode ser vossa, como as outras.No me conformo com isso,e quando as polcias dormemem mim e fora de mim,meu espectro itinerantedesce a Serra do Curral,vai olhando as casas novas,ronda as hortas amorosas

(Rua Cludio Manuel da Costa),para no Abrigo Cear,no h abrigo. Um perfumeque no conheo me invade:

o cheiro do vosso sonoquente, doce, enrodilhadonos braos das espanholasOh! deixai-me dormir convosco.

E vai, como no encontronenhum dos meus namorados,que as francesas conquistaram,e que beberam todo o usqueexistente no Brasil(agora dormem embriagados),espreito os carros que passamcom choferes que no suspeitamde minha brancura e fogem.Os tmidos guardas-civis,coitados! um quis me prender.Abri-lhe os braos Incrdulo,me apalpou. No tinha carnee por cima do vestidoe por baixo do vestidoera a mesma ausncia branca,um s desespero brancoPodeis ver: o que era corpofoi comido pelo gato.

As moas que ainda esto vivas(ho de morrer, ficai certos)tm medo que eu apareae lhes puxe a perna Engano.Eu fui moa, serei moadeserta, per omnia saecula.No quero saber de moas.Mas os moos me perturbam.

No sei como libertar-me.Se o fantasma no sofresse,se eles ainda me gostasseme o espiritismo consentisse,mas eu sei que proibido,vs sois carne, eu sou vapor.Um vapor que se dissolve

quando o sol rompe na Serra.

Agora estou consolada,disse tudo que queria,subirei quela nuvem,serei lmina gelada,cintilarei sobre os homens.Meu reflexo na piscinada Avenida Parana(estrelas no se compreendem),ningum o compreender.

TRISTEZA DO IMPRIO

Os conselheiros angustiadosante o colo ebrneodas donzelas opulentasque ao piano abemolavambus-co a cam-pi-na se-re-napa-ra li-vre sus-pi-raresqueciam a guerra do Paraguai,o enfado bolorento de So Cristvo,a dor cada vez mais forte dos negrose sorvendo mecnicosuma pitada de rapsonhavam a futura libertao dos instintose ninhos de amor a serem instalados nos arranha-cus

[de Copacabana, com rdio e telefone automtico.

O OPERRIO NO MAR

Na rua passa um operrio. Como vai firme! No tem blusa. No conto, no drama, nodiscurso poltico, a dor do operrio est na sua blusa azul, de pano grosso, nas mosgrossas, nos ps enormes, nos desconfortos enormes. Esse um homem comum, apenasmais escuro que os outros, e com uma significao estranha no corpo, que carregadesgnios e segredos. Para onde vai ele, pisando assim to firme? No sei. A fbrica ficoul atrs. Adiante s o campo, com algumas rvores, o grande anncio de gasolinaamericana e os fios, os fios, os fios. O operrio no lhe sobra tempo de perceber que eleslevam e trazem mensagens, que contam da Rssia, do Araguaia, dos Estados Unidos. Noouve, na Cmara dos Deputados, o lder oposicionista vociferando. Caminha no campo eapenas repara que ali corre gua, que mais adiante faz calor. Para onde vai o operrio?Teria vergonha de cham-lo meu irmo. Ele sabe que no , nunca foi meu irmo, queno nos entenderemos nunca. E me despreza Ou talvez seja eu prprio que me desprezea seus olhos. Tenho vergonha e vontade de encar-lo: uma fascinao quase me obriga apular a janela, a cair em frente dele, sustar-lhe a marcha, pelo menos implorar-lhe quesuste a marcha. Agora est caminhando no mar. Eu pensava que isso fosse privilgio dealguns santos e de navios. Mas no h nenhuma santidade no operrio, e no vejo rodasnem hlices no seu corpo, aparentemente banal. Sinto que o mar se acovardou e deixou-opassar. Onde esto nossos exrcitos que no impediram o milagre? Mas agora vejo que ooperrio est cansado e que se molhou, no muito, mas se molhou, e peixes escorrem desuas mos. Vejo-o que se volta e me dirige um sorriso mido. A palidez e confuso doseu rosto so a prpria tarde que se decompe. Daqui a um minuto ser noite eestaremos irremediavelmente separados pelas circunstncias atmosfricas, eu em terrafirme, ele no meio do mar. nico e precrio agente de ligao entre ns, seu sorriso cadavez mais frio atravessa as grandes massas lquidas, choca-se contra as formaes salinas,as fortalezas da costa, as medusas, atravessa tudo e vem beijar-me o rosto, trazer-me umaesperana de compreenso. Sim, quem sabe se um dia o compreenderei?

MENINO CHORANDO NA NOITE

Na noite lenta e morna, morta noite sem rudo, um menino[chora.O choro atrs da parede, a luz atrs da vidraaperdem-se na sombra dos passos abafados, das vozes extenuadas.E no entanto se ouve at o rumor da gota de remdio caindo

[na colher.

Um menino chora na noite, atrs da parede, atrs da rua,longe um menino chora, em outra cidade talvez,talvez em outro mundo.

E vejo a mo que levanta a colher, enquanto a outra sustenta[a cabea

e vejo o fio oleoso que escorre pelo queixo do menino,escorre pela rua, escorre pela cidade (um fio apenas).E no h ningum mais no mundo a no ser esse menino

[chorando.

MORRO DA BABILNIA

noite, do morrodescem vozes que criam o terror(terror urbano, cinquenta por cento de cinema,e o resto que veio de Luanda ou se perdeu na lngua geral).

Quando houve revoluo, os soldados se espalharam no morro,o quartel pegou fogo, eles no voltaram.Alguns, chumbados, morreram.O morro ficou mais encantado.

Mas as vozes do morrono so propriamente lgubres.H mesmo um cavaquinho bem afinadoque domina os rudos da pedra e da folhageme desce at ns, modesto e recreativo,como uma gentileza do morro.

CONGRESSO INTERNACIONAL DO MEDO

Provisoriamente no cantaremos o amor,que se refugiou mais abaixo dos subterrneos.Cantaremos o medo, que esteriliza os abraos,no cantaremos o dio porque esse no existe,existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,o medo grande dos sertes, dos mares, dos desertos,o medo dos soldados, o medo das mes, o medo das igrejas,cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,depois morreremos de medoe sobre nossos tmulos nascero flores amarelas e medrosas.

OS MORTOS DE SOBRECASACA

Havia a um canto da sala um lbum de fotografias intolerveis,alto de muitos metros e velho de infinitos minutos,em que todos se debruavamna alegria de zombar dos mortos de sobrecasaca.

Um verme principiou a roer as sobrecasacas indiferentese roeu as pginas, as dedicatrias e mesmo a poeira dos retratos.S no roeu o imortal soluo de vida que rebentavaque rebentava daquelas pginas.