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59Ano 50 Nmero 198 abr./jun. 2013

Sumrio

1. Introduo. 2. Origens histricas do direito francs. 3. A Revoluo Francesa e as mudanas jurdicas. 4. O Code Napolon. 5. Algumas caractersticas do Code Civil. 6. Os demais cdigos napolenicos. 7. A circulao do modelo jurdico francs. 7.1. Blgica e Luxemburgo. 7.2. Holanda. 7.3. Alemanha. 7.4. Sua. 7.5. Itlia. 7.6. Espanha. 7.7. Portugal. 7.8. Amrica Latina. 7.9. frica e Oriente Mdio. 7.10. Louisiana. 7.11. Qubec. 7.12. Japo. 8. Consideraes finais.

Eugnio Facchini Neto doutor em Direito Comparado (Universidade de Florena, Itlia), mestre em Direito Civil (USP), professor titular nos cursos de graduao, mestrado e doutorado em Direito da PUC/RS, professor e ex-diretor da Escola Superior da Magistratura/RS e desembargador no Tribunal de Justia do Rio Grande do Sul.

EUGNIO FACCHINI NETO

Code civil francsGnese e difuso de um modelo

1. Introduo

O presente artigo analisa as origens histricas do direito francs at chegar ao Code Civil de 1804. Nele, detenho-me a referir suas origens, fontes, vicissitudes de sua elaborao, para, na sequncia, analisar a cir-culao desse modelo pela Europa, inicialmente, e depois pela Amrica Latina, frica e Oriente Mdio, Amrica do Norte e Japo.

A ideia subjacente utilizar as vicissitudes do Cdigo Civil francs como um notvel exemplo de circulao dos modelos jurdicos que na tradio da common law, a partir de clebre trabalho de Allan Watson (1984), costuma ser denominado de legal transplants , indicando as razes pelas quais instituies e institutos jurdicos circulam de um pas a outro.

O estudo do destino do Cdigo Civil francs um dos temas clssicos do Direito Comparado. Tal tema exige uma abordagem interdisciplinar, em que Direito, Histria e Poltica se interseccionam, influenciando-se reciprocamente.

2. Origens histricas do direito francs

Ainda que seja o resultado da simbiose dos ideais da Revoluo Fran-cesa, do Iluminismo e do Jusnaturalismo esclarecido do sculo XVIII, o

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Direito francs moderno, especialmente o Direito Civil, como obra cultu-ral que inevitavelmente , reflete tambm uma longa evoluo histrica. Houve rupturas importantes, bem verdade, mas h tambm uma grande continuidade com um passado que se perde nas brumas da histria.

Sem medo de errar, pode-se dizer que o direito civil francs foi o feliz resultado da combinao do droit crit do sul da Frana, de origem romanista, com o droit coutumier no norte francs, baseado nos costumes germnicos. Tal simbiose somente se explica luz da histria.

Segundo a sinttica reconstruo histrica feita por Zweigert e Ktz (1992, p. 94), mesmo aps a queda do Imprio Romano (que abrangia tambm a Glia, atual Frana), em 476, o direito romano1 permaneceu vigendo, em razo do princpio da personalidade das leis ento vigorante, como direito aplicvel aos sditos de origem no germnica, especialmen-te nos reinos dos visigodos e dos burgndios, na parte meridional euro-peia. Em 506, o rei visigodo Alarico II promulgou a famosa Lex Romana Wisigothorum, tambm conhecida como Breviarium Alaricianum. Essa lei retomava substancialmente o Codex Theodosianus2 e era destinada a reger as relaes jurdicas dos ex-sditos romanos que habitavam o reino visigodo, no sul da Frana. Isso fez com que o conhecimento do direito romano, adaptado e vulgarizado, no se perdesse de todo no sul da Frana. Assim, a partir do final do sculo XI e ao longo do sculo XII, quando os estudos jurdicos foram retomados na Itlia setentrional, com a fundao das primeiras universidades (com a primazia de Bologna3), aplicando--se o mtodo escolstico para a anlise do texto do Digesto justinianeu, rapidamente esse novo mtodo acadmico de ensino do direito romano pode se espalhar tambm pelo sul da Frana, onde, j no sculo XII, foram fundadas as Universidades de Montpellier e Toulouse. Essa rea geogrfica correspondente ao sul da Frana (conhecida como Le Midi), que abrangia cerca de duas quintas partes do territrio francs, passou ento a ser conhecida como pays de droit crit, em razo dos textos escri-tos do antigo direito romano que ali ainda eram conhecidos e aplicados.

1 Na verdade, no era propriamente todo o direito romano clssico que remanescia no sul da Frana, tampouco o direito justinianeu, que somente foi redescoberto na Eu-ropa somente muitos sculos depois, por volta do sculo XI, no norte da Itlia. O direito romano que permaneceu em vigor, aplicvel que era aos sditos de origem romana dos novos reinos brbaros, era essencialmente aquele incorporado no Cdigo Teodosiano (LEGEAIS, 2008, p. 28).

2 O Cdigo Teodosiano, mandado elaborar pelo Imperador Teodsio II, do Imprio Romano do Oriente, em 438, inspirou-se nos anteriores Cdigos Gregoriano e Hermoge-niano, e buscava compilar as leis romanas desde o Imperador Constantino, ordenando-as por livros e ttulos. Sobre essa obra, ver Paricio e Barreiro (1997, p. 157).

3 A Universidade de Bologna, fundada em 1088, tornara-se o centro de estudos ju-rdicos mais importante da Europa; os estudantes reuniam-se e contratavam um mestre pelo perodo de um ano; viviam uma espcie de experincia comunitria, pois discpulos e professores compartilhavam cada momento de suas vidas (MONATERI, 1996, p. 29).

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No norte de Frana (uma regio geogrfica que abrangia aproxima-damente trs quintas partes do solo francs) vigia o direito costumeiro de origem germnica (especialmente o dos francos), fundado substan-cialmente na chamada Lex Salica4. Essa regio passou a ser conhecida, em razo disso, como pays de droit coutumier5.

No se tratava de uma diviso rigorosa, porm, porque costumes ger-mnicos tambm no eram desconhecidos no sul da Frana (Bordeaux e Toulouse, por exemplo, tambm tinham seus Coutumes), ao passo que no norte francs no era raro invocar-se o direito romano nas hipteses de lacunas e omisses do direito costumeiro, o que era muito comum em algumas matrias, especialmente no direito dos contratos. Entendia-se que o direito romano podia ser aplicado non ratione imperii, sed imperio ratio-

4 Lex Salica o nome dado a uma compilao de costumes germnicos, elaborada entre o incio do sculo IV e o sculo V, para os povos francos (tambm ditos slios que cons-tituam uma das duas confederaes de povos francos e que habitavam as margens do rio Issel, originalmente chamado Isala. Para os povos francos situados s margens do rio Reno, aplicava-se a Lei Ripuria). Sobre isso, veja-se Bart (2002, p. 8). A Lei Slica buscava regular todos os aspectos da vida em sociedade, cobrindo matrias que hoje seriam denominadas de direito penal, tributrio e civil, embora com notveis lacunas e de forma assistemtica. Uma das matrias tratadas, de grande influncia na Idade Mdia, foi a disciplina da herana bem como as regras de sucesso dinstica. Ao final do medievo e incio da Idade Moderna, a expresso lei slica passa a designar as regras de sucesso do trono da Frana regras que posteriormente foram imitadas por outras monarquias europeias.

5 Ao longo do sculo XIII, vrios desses costumes locais ou regionais foram reduzidos a escrito, em forma de compilaes. Referimo-nos aos Coutumes de Orlans, Coutumes de Beauvaisis (redigido pelo clebre Philippe de Beaumanoir), o Grand Coutumier de la Normandie (compilao de costumes normandos), dentre outros. Mas tal obra de compi-lao, normalmente feita de forma particular por algum jurista ou magistrado da regio, no afasta o fato de que a maioria dos costumes permanecia sob tradio oral. Caso o magistrado encarregado de resolver um litgio tivesse dvidas sobre qual o teor do direito consuetudinrio aplicvel na localidade, ele dava incio enqute par turbe, reunindo um certo nmero de notveis da regio, normalmente ancies, para que eles referissem qual o costume aplicvel. Sobre as enqutes par turbe, veja-se Allorant e Tanchoux (2010, p. 64). Mais tarde, em 1454, o rei francs Carlos VII, buscando sistematizar o direito consuetudin-rio, a fim de implementar os valores de segurana e previsibilidade, promulgou a ordenao Montils-les-Tours, ordenando que os diversos coutumes regionais fossem reduzidos a escrito e submetidos aprovao rgia. Em cada regio, pessoas conhecedoras do costume vigente, auxiliados por peritos rgios, deveriam reduzir a escrito tais costumes. Esse esforo compilatrio prosseguiu tambm durante boa parte do sculo XVI. Segundo Zweigert e Ktz (1992, p. 96), ao findar o sculo XVI, praticamente todos os costumes regionais ha-viam sido reduzido a escrito, o que permitiu a preservao do direito costumeiro vigente na regio norte da Frana. s vsperas da Revoluo Francesa, ainda estavam em vigor cerca de 60 costumes de vasta aplicao (costumes gerais) e no menos de 300 costumes locais. Vrios juristas franceses dos sculos XVI e XVII especializaram-se no estudo desses direitos costumeiros, destacando-se Dumoulin e Loysel. Dentre os costumes que foram reduzidos a escrito, de notvel importncia foi o Coutume de Paris, redigido em 1510. Como o Parlement de Paris o Tribunal de Justia de Paris, instalado em 1250, pelo Rei Lus IX tinha uma vasta jurisdio de segundo grau, cobrindo a maior parte do pays de droit coutumier, esse importante rgo jurisdicional, ao se deparar com lacunas e omisses do direito costumeiro a aplicar e lacunas no faltavam supria tais lacunas com a aplica-o do Coutume de Paris, interpretando-o e fazendo aplicaes analgicas ou expansivas. Tamanha foi a importncia dessa atividade jurisprudencial, que na segunda edio do Coutume de Paris, em 1580, foi includo um compndio de jurisprudncia do Parlement sobre questions gnrales. Lentamente o Coutume de Paris comeou a ser considerado aplicvel antes mesmo do direito romano sempre que o direito consuetudinrio local se revelasse lacunoso (ZWEIGERT; KTZ, 1992, p. 97).

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nis (no em razo do imprio, mas pelo imprio da razo). Ou