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    CLAUDIO DE ROSA GUIMARES

    GESTO TERRITORIAL E DESENVOLVIMENTO LOCAL NO PARQUE RESIDENCIAL MARIA APARECIDA PEDROSSIAN

    COM ENFOQUE NA FUNO SOCIAL DA PROPRIEDADE

    UNIVERSIDADE CATLICA DOM BOSCO PR-REITORIA DE PESQUISA E PS-GRADUAO

    PROGRAMA DE PS-GRADUAO EM DESENVOLVIMENTO LOCAL MESTRADO ACADMICO

    CAMPO GRANDE - MS 2012

  • 1

    CLAUDIO DE ROSA GUIMARES

    GESTO TERRITORIAL E DESENVOLVIMENTO LOCAL NO PARQUE RESIDENCIAL MARIA APARECIDA PEDROSSIAN

    COM ENFOQUE NA FUNO SOCIAL DA PROPRIEDADE

    Dissertao apresentada Banca de Exame Geral do Programa de Ps-graduao em Desenvolvimento Local - Mestrado Acadmico, como exigncia parcial para obteno do ttulo de Mestre em Desenvolvimento Local, sob a orientao da Profa. Dra. Cleonice Alexandre Le Bourlegat.

    CAMPO GRANDE - MS 2012

  • 2

    FOLHA DE APROVAO

    Ttulo: GESTO TERRITORIAL E DESENVOLVIMENTO LOCAL NO PARQUE RESIDENCIAL MARIA APARECIDA PEDROSSIAN COM ENFOQUE NA FUNO SOCIAL DA PROPRIEDADE . rea de Concentrao: Desenvolvimento local em contexto de territorialidades. Linha de Pesquisa: Desenvolvimento local: sistemas produtivos, inovao, governana.

    Dissertao submetida Comisso Examinadora, designada pelo Colegiado do Programa de Ps-Graduao em Desenvolvimento Local - Mestrado Acadmico da Universidade Catlica Dom Bosco, como requisito parcial para a obteno do ttulo de Mestre em Desenvolvimento Local.

    Dissertao aprovada em: 28/02/2012

    BANCA EXAMINADORA

    _________________________________________________ Orientadora Profa. Dra. Cleonice Alexandre Le Bourlegat

    Universidade Catlica Dom Bosco

    ______________________________________________ Prof. Dr. Srgio Ricardo Martins

    Universidade Federal de Mato Grosso do Sul

    ______________________________________________ Prof. Dr. Heitor Romero Marques Universidade Catlica Dom Bosco

  • 3

    Dedicatria

    minha amada esposa Tatianna por ter compreendido minhas ausncias diante da tarefa rdua de elaborar esta pesquisa. Aos meus amados filhos Julio Csar e Isabela: fonte de inspirao e de crena num futuro melhor.

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    AGRADECIMENTOS

    To rduo como os estudos e a dedicao para a concluso deste Mestrado foi a tarefa de agradecer s pessoas que de uma forma ou de outra, contriburam para o resultado final almejado.

    De um modo geral, deixo meus agradecimentos aos colegas, professores e pessoas do meu dia a dia no ambiente universitrio.

    Porm, sem receios de se cometer injustias, impossvel no lembrar das lies de metodologia da Prof. Maria Augusta de Castilho, do primeiro contato com o Desenvolvimento local com o Prof. Vicente Fideles de vila e das lies de comunitarizao com o Prof. Josemar de Campos Maciel.

    Mas quero pedir vnia para deixar o agradecimento maior e especial com minha orientadora, Prof. Cleonice Le Bourlegat, profissional notvel, de saber e intelectualidade invejveis, sem a qual no teria eu despertado para minha pesquisa. Devo a esta pessoa, agradecimentos no por apenas ter compreendido minhas limitaes, mas tambm por ter me ensinado a super-las, pois em nenhum momento deixou de acreditar no seu orientando.

    Fora da academia, quero agradecer minha esposa Tatianna, que soube como mulher de professor e pesquisador, compreender minhas ausncias nos perodos de estudo.

    Aos meus filhos Julio Csar e Isabela, que mesmo sem entenderem ainda os desafios da vida, tiveram que suportar a falta do pai, que nada mais faz do que sonhar com um futuro melhor para os dois.

    E por fim, ao mais superior de todos, quele que devemos tudo, um agradecimento especial Deus: obrigado por no me ter tirado no meio de minha caminhada minha amada me, pessoa que ainda reclama nossos merecidos cuidados, to pouco em comparao com o amor que nos devotou.

  • 5

    RESUMO

    A preocupao da presente pesquisa foi verificar a natureza de possveis indcios de mobilizao de moradores do Parque Residencial Maria Aparecida Pedrossian, tendo como pressuposto do protagonismo da populao urbana constituir uma forma de atendimento da funo social da propriedade urbana. O objetivo foi pesquisas, por meio de dados objetivos e subjetivos da realidade local, como os moradores do Parque Maria Aparecida Pedrossian vm se engajando na luta pelo direito cidade de Campo Grande/MS, e em que medida se guiam, pelos princpios de gesto democrtica e desenvolvimento local, no sentido de contribuir com o fortalecimento da funo social da propriedade urbana. Nesse sentido, o referencial terico assentou-se no Direito cidade, no Desenvolvimento local e na Gesto territorial democrtica. Alm da consulta bibliogrfica e documental sobre o local, buscou-se atravs de entrevista semiestruturada, perceber a viso de local dos moradores, para se descobrir atravs de pontos estrategicamente sugeridos, a sua representao social ou imagem construda do territrio vivido. A pesquisa revelou por meio de dados aparentes e subjetivos que, a despeito do fato desse bairro ter sido fruto de planejamento vindo do alto, o mesmo no atendeu os interesses bsicos dos primeiros moradores. Os novos moradores do MAP no fizeram parte do segmento social alvo do planejamento. Estes, para permanecerem no local, acabaram tendo que se mobilizar de forma solidria na satisfao no acesso comum a servios bsicos de infraestrutura, desencadeando uma forma especfica de gesto territorial, com conquistas coletivas de outros mbitos. Esse processo foi revelador da existncia do protagonismo local na luta pela melhoria da vida coletiva na cidade, por meio de uma forma de gesto democrtica capaz de cumprir a funo social da propriedade.

    PALAVRAS-CHAVE: Gesto democrtica. Direito cidade. Desenvolvimento local. Funo social da propriedade

  • 6

    ABSTRACT

    The concern of this research was to determine the nature of possible evidence of mobilization of residents of the Park Residential Pedrossian Maria Aparecida, with theassumption of the role of the urban population constitutes a form of care of the social function of urban property. The objective was to research, through objective and subjective data on the local reality, as the residents of the Park Maria Aparecida Pedrossian are engaging in the fight right to the city of Campo Grande / MS, and to what extent are guided by the principles of management democracy and local development, to contribute to strengthening the social function of urban property. In this sense, the theoretical law sat in the city, the Local Development and Territorial Management democracy. In addition to the bibliographic and documentary about the place, we sought through semi-structured interview, to realize the vision of local residents, to discover through strategic points suggested, its social representation or image constructed from the territory lived. The research revealed through data and subjective apparent that, despite the fact that district have been the result of planning from above, it did not meet the basic interests of the first residents. The new residents of the MAP were not part of the planning target segment of society. These, to remain in place, ended up having to mobilize in solidarity in meeting the common access to basic infrastructure, triggering a specific form of land management, with collective achievements of other areas. This process was revealing the existence of local eadership in the struggle for the betterment of community life in the city, through a form of democratic management able to fulfill the social function of property.

    KEYWORDS:. Democratic management. Right to the city. Local development. Social function of property.

  • 7

    LISTA DE FOTOS

    Foto 1 Parque Residencial Maria Aparecida Pedrossian..................................... 51 Foto 2 Alunos da Escolinha de Futebol- 2008.................................................... 55 Foto 3 Adolescentes em preparao para o trabalho profissional...................... 56 Foto 4 Banda de percusso Dolor Ferreira de Andrade.................................... 57 Foto 5 Escola de Lngua Inglesa na AMAPE..................................................... 58 Foto 6 Equipe feminina Dolar Ferreira de Andrade do Futsal............................ 59 Foto 7 Curso de Dana Enjoy.............................................................................. 60 Foto 8 Grupo do Muay Thay............................................................................... 60 Foto 9 Grupo de Escoteiros na praa................................................................... 61 Foto 10 Grupo de Escoteiros no campo............................................................... . 61 Foto 11 Escola de Jud com crianas................................................................... 61 Foto 12 Alunos do Jiu Jitsu na AMAPE .............................................................. 62 Foto 13 Competio de Jiu Jitsu........................................................................... 62 Foto 14 Aulas de Aerbica com mulheres da coletividade................................... 62 Foto 15 Aulas de pintura com crianas................................................................. 63 Foto 16 Grupo de Terceira Idade Cantinho Feliz.............................................. 63 Foto 17 Escola de dana de salo ........................................................................ 64 Foto 18 A arte vai praa..................................................................................... 64 Foto 19 Lazer na praa.......................................................................................... 64 Foto 20 Passeio na APA....................................................................................... 64 Foto 21 Grupo da Capoeira Quilombinho......................................................... 65 Foto 22 Grupo Ballet & Jazz................................................................................ 65 Foto 23 Ponto de Exibio de Cinema................................................................. 66 Foto 24 Curso de artesanato................................................................................. 66 Foto 25 Curso de assistente administrativo.......................................................... 67 Foto 26 Curso de cabelereiro................................................................................ 67 Foto 27 Curso de assistente administrativo ......................................................... 67 Foto 28 Curso de costura....................................................................................... 67

  • 8

    LISTA DE FIGURAS

    Figura 1 Localizao do Parque Residencial Maria Aparecida Pedrossian na Regio do Bandeira em Campo Grande............................................. 45

    Figura 2 Parque Residencial Maria Aparecida Pedrossian nos limites da APA do Lajeado........................................................................................... 47

    Figura 3 reas Rurais e Urbanas da APA Lajeado........................................... 48 Figura 4 Loteamentos que fazem parte da rea urbana do APA Lajeado,......... 50 Figura 5 Estrutura de arruamento do residencial............................................... 51 Figura 6 Infraestrutura de educao e saneamento bsico................................. 52

  • 9

    SUMRIO

    INTRODUO ............................................................................................................................... 11 1 FUNO SOCIAL DA PROPRIEDADE E GESTO TERRITORIAL

    DEMOCRTICA EM DESENVOLVIMENTO LOCAL NA LUTA PELO DIREITO CIDADE.......................................................................................................

    15

    1.1 FUNO SOCIAL DA PROPRIEDADE NA REFORMA URBANA BRASILEIRA..................................................................................................................... 15

    1.2 DIREITO CIDADE NO PLANEJAMENTO DEMOCRTICO.................................. 181.2.1 Critica ao planejamento tcnico e cientfico de Estado................................................ 191.2.2 Produo social do espao urbano e suas representaes........................................... 201.2.3 A cidade percebida como totalidade.............................................................................. 22

    1.3 TERRITORIALIZAO DA CIDADE: USO E TRANSFORMAO DO ESPAO URBANO.......................................................................................................................... 24

    1.4 GESTO TERRITORIAL DEMOCRTICA.................................................................. 251.4.1 Polticas pblicas de baixo para cima no fortalecimento da sociedade civil.............. 251.4.2 Gesto territorial democrtica na perspectiva autonomista....................................... 25

    1.5 DESENVOLVIMENTO LOCAL..................................................................................... 26 2 METODOLOGIA DA PESQUISA............................................................................... 29

    2.1 NATUREZA E MTODO DE ABORDAGEM DA PESQUISA................................... 292.2 PROCEDIMENTOS METODOLGICOS..................................................................... 31

    2.2.1 Procedimentos de coleta junto a fontes secundrias................................................... 322.2.2 Procedimentos de coleta junto a fontes primrias...................................................... 32

    2.3 MTODO DA ANLISE AMPLIADA......................................................................... 36 3 FUNO SOCIAL DA PROPRIEDADE NA CONSTRUO DO PARQUE

    RESIDENCIAL MARIA APARECIDA PEDROSSIAN NO CONTEXTO TERRITORIAL DE CAMPO GRANDE/MS............................................................

    38

    3.1 ORIGENS DO PARQUE RESIDENCIAL MARIA APARECIDA PEDROSSIAN NO CONTEXTO DA CIDADE DE CAMPO GRANDE E DAS COOPERATIVAS HABITACIONAIS.........................................................................................................

    39

    3.2 PARQUE RESIDENCIAL MARIA APARECIDA PEDROSSIAN COMO PROJETO DO GOVERNO DE MATO GROSSO DO SUL.......................................................... 41

    3.2.1 Espao anterior ao projeto territorial do governo estadual.................................... 413.2.2 Projeto tcnico governamental do conjunto residencial.......................................... 42

    3.3 CARACTERSTICAS TERRITORIAIS ATUAIS DO PARQUE RESIDENCIAL............................................................................................................. 44

    3.3.1 Caractersticas territoriais de localizao................................................................ 45 3.3.2 Iniciativas dos moradores locais na consolidao do territrio e da funo social da

    propriedade................................................................................................................. 53

    4 FUNO SOCIAL DA PROPRIEDADE ESTABELECIDA NA LUTA PELO

    DIREITO AO LOCAL DE MORADIA NA DIMENSO SUBJETIVA DA COLETIVIDADE......................................................................................................

    70

    4.1 MEMRIA DOS MORADORES SOBRE AS ORIGENS DO PARQUE RESIDENCIAL MARIA APARECIDA PEDROSSIAN E AS DETERMINANTES DA FUNO SOCIAL DA PROPRIEDADE.............................................................

    70

    4.1.1 Memria sobre as origens do bairro......................................................................... 70

  • 10

    4.1.2 Mudana do perfil dos moradores............................................................................ 724.1.3 Aspiraes e prticas coletivas na luta pela melhoria da moradia......................... 734.1.4 Primeiras conquistas no suprimento de necessidades coletivas............................ 75 4.1.5 Apoio das instituies locais na luta coletiva pela melhoria das condies de

    moradia no bairro...................................................................................................... 79

    4.2 ORGANIZAO ATUAL DOS MORADORES NA MANUTENO DA FUNO SOCIAL DA PROPRIEDADE.................................................................................... 80

    4.2.1 Associao dos Moradores do Parque Residencial MAP...................................... 814.2.2 Micro organizaes atuantes no Parque residencial MAP.................................... 82

    4.3 POTENCIALIDADES E DIFICULDADES VIVIDAS EM 2012 NA VISO DOS MORADORES............................................................................................................ 84

    CONSIDERAES FINAIS..................................................................................................................... 86 REFERNCIAS.......................................................................................................................................... 90

    APNDICE

  • 11

    INTRODUO

    A tendncia de integrao do municpio na federao brasileira como entidade

    de terceiro grau nasceu desde a poca da Constituio de 1946, alterando o prprio conceito

    de federao pensado em dois nveis federal e estadual - para incorporar um terceiro nvel, o

    municipal. Mas foi efetivamente, a partir da Constituio de 1988, que o Municpio brasileiro

    passou a ser reconhecido como entidade constituinte da federao, dotado tanto de autonomia

    administrativa como poltica.

    A partir de ento, o poder local dos Municpios passou a ser fortalecido, no

    s no sentido de ampliar a eficincia administrativa, como tambm e, sobretudo, para

    estimular a participao democrtica da populao no processo decisrio poltico. Portanto, a

    autonomia local, alm da descentralizao administrativa, passou a implicar em formas de

    democracia participativa, democratizao da gesto pblica, o que significa, muitas vezes,

    impactos nas relaes entre o governo e a sociedade.

    Teve importncia nesse processo de autonomia dos municpios o Movimento

    Nacional pela Reforma Urbana, que havia emergido desde os anos 50 e 60 do sculo XX,

    frente questo da habitao e equipamentos pblicos no Brasil, com o engajamento de vrias

    entidades profissionais e intelectuais brasileiros. O movimento ganhou fora na dcada de 80,

    frente abertura poltica no final dos governos militares. Propunha-se um conjunto de

    princpios e instrumentos que favorecessem a emergncia de um quadro jurdico-institucional

    mais democrtico, que permitisse maior autonomia e poder de gesto s populaes urbanas

    na proposio e gesto dos aspectos que dizem respeito vida cotidiana no local.

    Primeiramente, com o fim dos planejamentos tcnicos, fez-se uma reivindicao em favor do

    princpio do planejamento participativo que implicasse em novas relaes entre o governo e a

    sociedade civil. Em segundo, sugeriu-se o princpio da funo social da propriedade como

    uma forma de uso socialmente justo e ecologicamente equilibrado da propriedade, de modo a

  • 12

    reduzir a hegemonia privada e predadora do solo urbano. Nesse processo, o plano diretor foi

    apontado como instrumento bsico da poltica de desenvolvimento urbano, ordenando o

    desenvolvimento das funes sociais da propriedade. E, para a viabilizao desse processo,

    foram propostos vrios instrumentos jurdicos que propiciassem a reordenao da funo

    social da propriedade urbana.

    A Constituio Federal da Repblica Federativa do Brasil de 1988 contemplou

    vrias dessas reivindicaes, ao incluir um captulo especfico para a poltica urbana, que

    previa uma srie de instrumentos relacionados nos artigos 182 e 183. Por sua vez o Estatuto

    da Cidade veio regulamentar as clusulas previstas nesse sentido embora s aprovada em

    2001 mas como uma proposta de lei federal que servisse de poltica urbana, levando em

    conta os princpios da Reforma Urbana e os principais instrumentos jurdicos de

    desenvolvimento urbano.

    Na prtica, a autonomia municipal trouxe o desafio da relao entre o governo

    e sociedade civil, no sentido de consolidar a democracia participativa no processo de gesto

    da coisa pblica. Isso se deu frente a um governo que tradicionalmente se mostrava

    desinteressado e/ ou incapaz de interagir com a populao, seja na sua maneira de se

    organizar, seja em dinamizar canais de liderana, ou ainda na induo dessa populao a

    formar micro-sociedades a partir de seus crculos de relaes comunitrias. A autonomia

    municipal, em realidade, traz em si os princpios bsicos do desenvolvimento local, na medida

    em que se trata de um processo de desenvolvimento endgeno, no qual a populao

    desenvolve capacidades de agenciar e gerenciar seu prprio desenvolvimento num processo

    compartilhado de aprendizagem e de gesto. Portanto, implica num trabalho coletivo e cujo

    desempenho depende do contexto territorial em que cada coletividade se insere.

    Nessa perspectiva, a propriedade, considerada uma das instituies

    fundamentais da sociedade humana, vem passando por sucessivas transformaes em

    ambientes em que se fazem necessrias as solues de problemas coletivos. Nos dias atuais,

    refletir a questo da funo social da propriedade urbana se faz premente frente ao controle

    das polticas pblicas realizadas por interesses privados hegemnicos que dominou o mundo

    moderno.

    Para lhe outorgar a misso de atendimento aos interesses sociais, no contexto

    da Reforma Urbana brasileira, vrias foram as limitaes sofridas por esse instituto. As

    cidades brasileiras atuais, palco de uma situao de desigualdade social gritante vm

    buscando no chamado direito cidade formas de gesto mais democrtica de participao em

    aes de planejamento urbano, que possam privilegiar as efetivas necessidades percebidas por

  • 13

    quem efetivamente usa a cidade. Essas abordagens vm sendo incorporadas ao conceito de

    desenvolvimento local, como processo de desenvolvimento endgeno, de natureza integrada,

    que induzem o protagonismo dos atores em processos de negociao na deciso e gesto do

    prprio desenvolvimento em bases sustentveis.

    Enquanto a lei federal do Estatuto da Cidade no foi aprovada, alguns

    Municpios brasileiros, movidos por reivindicaes locais, reordenaram-se em acordo aos

    novos princpios e tentaram fazer adotar parte dos instrumentos apontados pela Reforma

    Urbana.

    Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, est entre uma dessas cidades

    pioneiras que tentou incluir tais princpios e instrumentos, quando criou o Conselho

    Municipal de Desenvolvimento e Urbanizao.

    A participao popular nos processos de discusso da poltica urbana no to

    recente. Teve incio em 1987, ano anterior ao da Constituio Federal de 1988, quando foi

    implantado em Campo Grande o Conselho Municipal de Desenvolvimento e Urbanizao

    (CMDU). O Plano Diretor, sancionado por lei complementar em 1995, reforou a importncia

    do papel dos conselhos para o subsdio ao CMDU, no Sistema Municipal de Planejamento.

    Em 2006, foi instituda a poltica de desenvolvimento urbano que alm do CMDU e

    Conselhos Setoriais, criou os Conselhos Regionais de urbanizao e preconizou a utilizao

    de debates, audincias e consultas pblicas, conferncias sobre assuntos de interesse urbano,

    alm de incentivar a iniciativa popular na elaborao de projetos de lei, planos, programas e

    projetos de desenvolvimento urbano. Em 2011, no Municpio de Campo Grande j existia,

    alm do CMDU, 23 Conselhos Setoriais, 8 Conselhos Regionais, 4 comisses, 2 comits e

    uma Mesa de Participao e Negociao Permanente.

    Existem poucos estudos que avancem no sentido de refletir em Campo Grande

    esses novos princpios e instrumentos de ordenamento territorial que vm se inserindo na

    prtica. Mas preciso salientar que o Parque Residencial Maria Aparecida Pedrossian tem se

    constitudo em um dos territrios da cidade que vem ganhando relativa visibilidade pelo

    processo de mobilizao dos moradores no agenciamento e gerenciamento do bairro, na busca

    de melhorias que fazem parte dos anseios coletivos.

    O problema da pesquisa de se constatar ou no o protagonismo dos

    moradores em processos de gesto territorial e desenvolvimento local - diz respeito a como

    efetivamente vem se dando o processo de participao coletiva da populao e suas iniciativas

  • 14

    nesses processos de gesto na soluo dos problemas comuns nas especificidades do cotidiano

    vivido de Campo Grande que impliquem na consolidao da funo social da propriedade.

    O objetivo foi analisar, verificando dados objetivos da realidade sensvel do local

    bem como dados subjetivos mediante a representao dos moradores do lugar em que vivem,

    como os moradores do Parque Maria Aparecida Pedrossian vm se engajando na luta pelo

    direito cidade de Campo Grande, Estado de Mato Grosso do Sul, guiando-se pelos

    princpios de gesto democrtica e desenvolvimento local, no sentido de contribuir com o

    fortalecimento da funo social da propriedade urbana.

    O presente relatrio de pesquisa foi estruturado em quatro captulos. O primeiro

    destina-se reflexo de um referencial terico para explicar as transformaes da propriedade

    urbana e sua funo social na reforma urbana, frente aos problemas de desigualdade social e

    territorial nas cidades, assim como as concepes relacionadas ao direito cidade e os

    princpios de gesto democrtica dos territrios urbanos e de desenvolvimento local. O

    segundo tem como objetivo a apresentao da metodologia utilizada. No terceiro descreve-se

    numa abordagem objetiva, com apoio de dados documentais, a construo social do Parque

    Residencial Maria Aparecida Pedrossian no contexto do territrio da cidade de Campo

    Grande e da poltica habitacional no Brasil e Mato Grosso do Sul, tendo em vista a funo

    social da propriedade. E, por fim, no quarto, com base na escuta dos sujeitos obtida atravs de

    pesquisa de campo, utilizando-se de entrevista semiestrutura, o objetivo relatar como vem

    sendo interpretada pelos moradores, a luta pelo direito cidade, o processo de gesto

    democrtica e as correlaes com o desenvolvimento local.

  • 15

    1 FUNO SOCIAL DA PROPRIEDADE E GESTO TERRITORIAL DEMOCRTICA EM DESENVOLVIMENTO LOCAL NA LUTA PELO DIREITO CIDADE

    O presente captulo teve como objetivo refletir as transformaes da propriedade

    urbana e sua funo social na reforma urbana, frente aos problemas de desigualdade social e

    territorial nas cidades. Pretendeu tambm analisar as concepes existentes a respeito do

    direito cidade e suas correlaes com os princpios de gesto democrtica dos territrios

    urbanos e de desenvolvimento local.

    O direito cidade ganhou ateno no Brasil com a reforma urbana nos idos da

    dcada de 80. Associa-se concepo de gesto territorial democrtica e traz em si a idia do

    uso social justo da cidade, prevalecendo-se o interesse coletivo sobre o individual no uso da

    propriedade urbana. Implica respeito ao direito de quem habita a cidade de participar

    democraticamente - numa ampla coalizo da qual participam agentes e instituies - da

    transformao do territrio vivido, na construo de um futuro comum de bem estar.

    O desenvolvimento local, por seu turno, consiste na organizao e dinamizao

    desse campo de foras coletivas de origem endgena, que envolvem habitantes e instituies

    partcipes do cotidiano vivido, com vistas ao agenciamento e gesto de iniciativas que

    resultem em solues para problemas, necessidades e aspiraes comuns. Os moradores

    deixam de ser meros espectadores das decises pblicas, para se tornarem protagonistas na

    transformao da cidade com vistas e um local melhor para se viver, de forma sustentvel e

    em acordo cultura e potencialidades locais.

    1.1 FUNO SOCIAL DA PROPRIEDADE NA REFORMA URBANA BRASILEIRA

    O fundamento da propriedade privada inseparvel de sua utilizao e finalidade.

    Ela traduz a realidade econmica, poltica e social de cada poca.

  • 16

    A necessidade da propriedade com dupla funo individual e coletiva costuma

    emergir em regime econmico baseado em princpios humanistas, sendo assegurada quando

    se estabelecem os limites de sua utilizao (MONIER apud PAUPRIO, 1992).

    Segundo Guimares, apud Diniz (2010), a propriedade privada tem origens

    remotas e passou por vrias etapas em variados contextos no mundo ocidental. No Brasil, at

    1916 se encontrara sob a vigncia das Ordenaes Filipinas. Mas no primeiro Cdigo Civil de

    1916 ainda predominavam os direitos reais da chamada enfiteuse, uma forma de

    arrendamento perptuo de terrenos pblicos - sesmarias mediante troca de privilgios e

    deveres, instituto que esteve vigente na Europa na Idade Mdia at a Revoluo Francesa.

    Somente com a aprovao do atual Cdigo Civil Brasileiro de 2002 (em vigor em 2003), a

    enfiteuse foi abolida, embora seja bom lembrar que nesse espao de tempo, esse instituto j

    havia passado por vrias transformaes, em relao aos limites da sua utilizao.

    O Iluminismo, as novas correntes do pensamento econmico e a Reforma

    Religiosa trouxeram, frente situao de crise em que se encontrava a Europa da Idade

    Mdia, grandes contribuies s mudanas na ordem jurdica do mundo ocidental, deflagradas

    aps a Revoluo Francesa. A propriedade privada passou a ser tratada como unidade de

    propriedade absoluta no Cdigo Francs de 1804. Nela o proprietrio passou a exercer o papel

    de senhor nico e exclusivo da terra, conceito utilizado no Direito Romano. O conceito de

    propriedade absoluta e exclusiva do homem que lavrava o solo, embora fosse dotado de um

    carter econmico, aparecia nesse contexto de passagem da Idade Mdia para a Modernidade

    como uma forma de libertar o agricultor do dever de pagar foro ao fidalgo que o explorava.

    No Brasil, essa concepo foi contemplada no Cdigo Civil Brasileiro de 1916 no Art. 527 e

    repetida no Art. 1.231 daquele de 2002, que dispe: O domnio presume-se exclusivo e

    ilimitado, at prova em contrrio.

    O conceito de funo social da propriedade tambm tem origens antigas e, de

    acordo com Maluf (1997) quase sempre esteve sob a influncia da Igreja, por meio de

    reivindicaes por uma sociedade mais justa, numa condenao ao abuso do homem detentor

    da propriedade absoluta dos bens. A Doutrina Social da Igreja teria sido um dos principais

    elementos da Igreja Catlica a fornecer suporte teoria da funo social do direito

    (CARVALHO, 2007). A Constituio mexicana de 1917 e a Constituio alem de 1919

    foram precursoras na incorporao dessa concepo a respeito da propriedade.

  • 17

    No Brasil, a funo social da propriedade na cidade teve incio nos anos 60, mas

    ganhou fora com o movimento da Reforma Urbana eclodido no incio dos anos 80 do sculo

    XX. Surgiram organizaes com presso articulada junto Constituio de 1988, das quais

    participava a Igreja Catlica, na proposio de um conjunto de princpios e instrumentos

    nesse sentido. Teve como fim minimizar a segregao e marginalidade urbana, mediante

    reduo dos abusos hegemnicos no controle da propriedade privada do solo urbano e dos

    processos de especulao da terra urbana. Buscou-se atribuir responsabilidade ao

    planejamento urbano em assumir a cidade real, irregular, informal e clandestina. Fizeram

    parte das reivindicaes o fim dos planejamentos tcnicos, nova relao entre o Estado e a

    Sociedade Civil e novos instrumentos de reordenao a funo social da propriedade.

    Ainda que a funo social fizesse parte da Constituio Federal brasileira desde

    1934, foi na Constituio Federal de 1988 que esse princpio encontrou uma definio

    consistente em sua relao com a propriedade (BASSUL, 2002). A Constituio Federal de

    1988 reafirmou no artigo 5 a preponderncia do interesse pblico sobre o particular. E

    contemplou vrias das reivindicaes do movimento do direito cidade e estabeleceu a

    funo social da propriedade nos artigos 182 e 183. Continuou reconhecendo a propriedade

    como direito fundamental, mas criou limitaes ao seu titular no atendimento funo social.

    A funo social apareceu ento, como um princpio jurdico norteador da destinao social,

    poltica e econmica da propriedade privada e pblica (CARVALHO, 2007). E, o plano

    diretor passou a ser considerado instrumento bsico da poltica de desenvolvimento urbano e

    do ordenamento das funes sociais da propriedade.

    Depois da Constituio Federal de 1988, foi proposta uma lei federal para servir

    de poltica urbana, conhecida como Estatuto das Cidades, aprovada em 2001, para

    regulamentar os artigos 182 e 183 da Constituio. Nela procurou-se assegurar o pleno

    exerccio do direito cidade sustentvel, o exerccio pleno da cidadania e dos direitos

    humanos de participar da gesto da cidade, para viv-la com qualidade de vida.

    Nessa perspectiva, o planejamento urbano avanou da simples funo tcnica de

    ordenao da cidade em seus aspectos fsico-territoriais, para um planejamento de natureza

    mais poltica e de cunho participativo. Passou a ter como foco o desenvolvimento do territrio

    municipal na busca de qualidade de vida com justia social. A regularizao de imveis

    ocupados com moradias ou atividades produtivas e a soluo de conflitos urbanos passaram a

  • 18

    fazer parte das estratgias de planejamento, numa concepo de gesto democrtica em seus

    processos decisrios. O Estatuto das Cidades contemplou instrumentos de induo ao

    desenvolvimento urbano e de regularizao fundiria de favelas, loteamentos clandestinos e

    cortios, no cumprimento da promoo da justia e reduo das desigualdades sociais.

    Baseada no princpio da funo social, uma das novidades nessa lei foi o instituto da

    usucapio coletivo, com objetivo de beneficiar coletividades urbanas.

    A funo social da propriedade foi contemplada tambm no Cdigo Civil

    Brasileiro de 2002, especialmente no artigo 1.228 e seus pargrafos, que abrange no s a

    rea urbana como a rural. A propriedade privada passou a ter no s finalidades econmicas

    como sociais. O proprietrio poder usar, gozar, dispor e reivindicar do bem, mas com algumas

    limitaes. O pargrafo 2 trata de limitaes de ordem privada. Nele, o exerccio do direito

    de propriedade cessa quando no implica em comodidade, utilidade ao proprietrio ou

    animado pela inteno de prejudicar terceiros. As limitaes de ordem administrativa

    aparecem no pargrafo 3. Nele, a desapropriao pode ser aplicada quando houver

    necessidade pblica ou interesse social, bem como no de requisio, em caso de perigo

    pblico iminente. Os pargrafos 4 e 5 tratam das limitaes de ordem social. Um dos

    institutos a contemplados foi a usucapio, individual e coletivo. Por meio dela a propriedade

    tem destinatrio especfico desde que se enquadre numa situao social a ser atendida. Essa

    destinao realizada sob justa indenizao ao proprietrio, fixada pelo juiz. Outro instituto

    enquadrado na lei foi a proteo posse-trabalho, uma forma de posse qualificada com

    trabalho criador por quem ocupa o imvel, que pode se concretizar numa habitao,

    investimentos em servios produtivos ou de natureza cultural (DINIZ, 2010).

    1.2 DIREITO CIDADE NO PLANEJAMENTO DEMOCRTICO

    A teoria do Direito Cidade foi elaborada pelo filsofo e socilogo francs desde

    1968, em obra de mesmo nome. Emergiu da crtica ao Planejamento Urbano de natureza

    racionalista deflagrada na Modernidade, que busca solucionar de forma administrativa os

    problemas da cidade, mediante apoio da cincia e da tcnica.

    Para Lefebvre (1991), os problemas de uma cidade no podiam mais ser

    resolvidos por um planejamento de Estado que envolvesse apenas meios instrumentais

    tcnicos e cientficos para ser delineado sobre a prancheta dos planejadores. Essa forma de

  • 19

    planejamento, segundo ele, tomava como referncia apenas uma cidade ideal, abstrata. No

    partia da cidade concretamente vivida e no dava oportunidade para quem vivenciasse essa

    realidade de participar das aes de planejamento.

    O planejamento urbano de Estado na forma como vinha sendo proposto at ento,

    trazia apenas solues padronizadas e por trs delas escondiam formas de vigilncia poltica

    (LEFEBVRE, 1991). Reconhecia que a grande contribuio desse tipo de planejamento se

    dava no atendimento s necessidades materiais dos moradores, tais como moradias,

    transporte, servios de infra-estrutura, que privilegia a cidade como valor de troca. O

    planejamento tcnico trazia importantes solues de natureza tcnica, mas que ignoravam a

    vida cotidiana daqueles que efetivamente usavam a cidade. No se levavam em conta

    necessidades especficas de uma multiplicidade de identidades coletivas que emergem do uso

    da cidade e que podem dar o verdadeiro sentido vida dessas coletividades.

    1.2.1 Critica ao planejamento tcnico e cientfico de Estado

    Na contraposio da perspectiva administrativa da produo da cidade, Lefebvre

    (1991) apregoava que os moradores so cidados com direitos para propor solues que lhes

    permitam usufruir do pleno uso da cidade.

    Para ele, o direito cidade no plenamente atendido quando o Estado constri

    apenas moradias e outros bens materiais. Seria preciso garantir a quem nela vive o direito de

    participar diretamente da criao de uma cidade que proporcionasse verdadeiro sentido sua

    existncia. Essas solues precisariam, segundo ele, estar consoantes s necessidades

    vivenciadas e percebidas por cada coletividade. Visto assim, cidadania na abordagem de

    Lefebvre (1991) implicaria, entre outros, no direito do controle direto sobre a forma de habitar

    a cidade, como construo coletiva. Por meio da obra dos cidados se reconheceria ainda a

    pluralidade de vidas coletivas que compem a complexidade social de uma cidade.

    Na proposio do novo modelo de planejamento no se acabava com o

    planejamento de natureza tcnica. Partia-se da realidade vivida em lugares concretos da

    cidade para s depois se idealizar uma cidade com apoio da cincia e da tcnica. O

    planejamento seria pautado em problemas concretamente vividos, onde se do as relaes

    sociais. S quem vivencia os lugares teria oportunidade da crtica e soluo para novas

  • 20

    possibilidades. Para Lefebvre (1991), o direito cidade seria um direito de todos que habitam

    nela, mesmo que o morador no tivesse o reconhecimento legal como cidado.

    Nessas condies de participao, segundo Lefebvre (1991) dar-se-ia a

    apropriao do espao urbano pelos cidados. Apropriao foi um conceito trazido por ele da

    teoria marxista. No tem a ver propriamente com propriedade, sendo interpretado como uso

    coletivo da cidade na satisfao de necessidades comuns. Nessa nova perspectiva, a

    apropriao ocorreria por meio do processo participativo no planejamento, numa

    transformao da cidade vivida para melhor uso dela. Seria essa forma de apropriao

    coletiva planejada que traria, segundo ele, as verdadeiras condies de apropriao individual.

    Isso se traduziria em uso completo dos lugares, favorecendo o pleno usufruto dos direitos de

    cidado.

    O planejamento urbano resultaria nesse novo urbanismo, proposto por Lefebvre

    (1991), de uma composio entre cincia e tcnica dos planejadores e imaginao criativa das

    coletividades que sonham o futuro de um lugar para melhor nele viver. Nesse processo

    criativo do uso da cidade se combinam imaginao e razo, arte e cincia, criao particular e

    padronizao tcnica.

    1.2.2 Produo social do espao urbano e suas representaes

    Com base nas assertivas anteriores, Lefebvre (1999) elaborou a teoria da produo

    social do espao urbano. O espao social da cidade, segundo ele, produzido por meio de

    relaes sociais, das quais participam atores sociais. Associa-se a uma prtica espacial

    coletiva que se expressa por formas de uso, realizadas por distintas coletividades em seu

    quadro de vida social especfico. Cada coletividade, portanto, produz esse quadro de vida

    social por meio de relaes sociais. E, como produto social, cada quadro de vida construdo

    por uma coletividade contm relaes sociais prprias e est contido nas relaes sociais da

    cidade como um todo.

    Nesse processo, entende-se a estrutura urbana de uma cidade como uma dimenso

    do sistema urbano. Nele se combinam diferentes estruturas, cada uma delas ligada a um

    quadro de vida. Desse modo, o espao social da cidade se traduz num conjunto de

  • 21

    coletividades especficas, que coexistem de forma simultnea, com estruturas de diferentes

    padres (ruas, construes, praas, quarteires, entre outros).

    Cada uma dessas coletividades expressa uma maneira de vivenciar e uma forma

    de representar a vida. Esse processo se associa sua condio social e funcional, sua cultura

    e sua trajetria histrica dentro da cidade.

    A produo social da cidade inclui segundo Lefebvre (1991), no s a construo

    objetiva das obras materiais, como essa construo subjetiva das coletividades a respeito do

    espao que vivenciam. O espao vivido, para Lefebvre (1991) aquele atingido pelo corpo e

    onde se desenvolvem as relaes sociais cotidianas. Essa forma concreta de cidade envolve o

    ambiente natural, a estrutura e funcionamento do ambiente produzido e as inter-relaes

    sociais que ali se estabelecem. Nesse espao concreto de vida, a apropriao se d por

    corporeidade e nas relaes do cotidiano vivido. No cotidiano das sociedades urbanas

    modernas se expressam riquezas e misrias.

    A representao que se constri a respeito do espao vivido revela, por meio da

    subjetividade, a viso de mundo dos sujeitos de cada coletividade (LEFEBVRE, 1991). So

    nesses micromundos subjetivos que se articulam saberes, anseios, memrias e imaginao

    coletiva. Portanto, o espao de representao que emerge diretamente do espao vivenciado

    chave para compreenso das sociedades humanas, uma vez que possibilita apreender suas

    especificidades (LEFEBVRE, 1991).

    No espao de representao, para Lefebvre (1991), reside o potencial de

    transformao desse quadro de vida. O campo de interaes de aes e representaes

    estabelecidas coletivamente constitui o campo de poder de cada localidade. O engajamento

    numa ao transformadora de sua cidade ocorre com base na percepo coletiva do modo de

    vida, das potencialidades e limitaes no territrio vivido. O espao vivido passa a ser

    considerado assim um campo de possibilidades na construo da cidade desejada por cada

    coletividade, em acordo sua percepo associada sua cultura e identidade.

    Num outro vis est o espao concebido, produzido pelo saber tcnico dos

    cientistas e planejadores como os arquitetos, engenheiros e urbanistas. A representao do

    espao nesse caso emerge como saber ideolgico e racionalizado. A representao mental

    elaborada no nvel cognitivo. Nela a cidade se configura como espao geomtrico, reticulado,

  • 22

    sem muita preocupao com o que ocorre na realidade concreta, embora esse modelo

    idealizado tenha como fim sua transformao. Essa representao da cidade privilegia o

    produto materializado, como terrenos, quarteires, ruas, avenidas, obras de construo que

    entram como valor de troca na lgica da sociedade capitalista. A cidade representada por

    idealizao de modelos sempre uma cidade abstrata, portanto, distante do real.

    No espao concebido por modelos idealizados, a cidade captada pelos cientistas

    e planejadores por meio dos sentidos como coisas configuradas. Ela se expressa por meio das

    formas aparentes dos objetos exteriores, como espao em si. No caso de quem vivencia o

    espao da cidade, a representao da cidade no se d apenas pela mente, mas envolve todo o

    corpo, como espao para si. Desse processo, tambm fazem parte o pensamento (memrias,

    lembranas) e os sentimentos. Portanto, nesse processo, a cidade apreendida no apenas em

    suas formas aparentes, mas tambm no sentido que elas apresentam para a vida de quem delas

    se utiliza. Para Lefebvre (1991), que se apoia no pensamento kantiano, o espao vivenciado

    possibilita o melhor conhecimento da cidade para sua transformao e novos usos. No vis do

    planejamento de Estado baseado apenas em modelos abstratos, os planejadores, so simples

    funcionrios de um sistema burocrtico. Eles acabam sendo induzidos a reduzir a realidade

    representada de forma aparente e quantificada imagem de interesse de hegemonias

    econmica e financeira. Nesse caso se privilegia a cidade como valor de troca regido pela

    lgica capitalista, traduzido em valores imobilirios dos terrenos, seja das habitaes, de

    determinados bairros, do entorno de centros e avenidas. O ordenamento maquia por meio de

    solues padronizadas essa lgica perversa, na qual segmentos sociais so jogados para a

    periferia ou no chegam a ter acesso cidade.

    1.2.3 A cidade percebida como totalidade

    A representao mental da cidade expressa como espao concebido das formas

    aparentes (espao em si) e como espao de representao do mundo vivido concretamente

    pelo corpo (espao para si), no podem viver isolados. Devem se conjugar e necessitam ser

    apreendidos pelo cientista como espao percebido.

    J o espao percebido, segundo Lefebvre (1991) constitui uma forma de

    representao do pesquisador que apreende a cidade na interseco do espao concebido e

  • 23

    espao vivido e que lhe permite o conhecimento da cidade como totalidade. Seria uma forma

    de eliminar a distncia entre o espao ideal, dependente de categorias mentais e lgico-

    matemticas, e o espao real associado prtica social. Ele o faz buscando estabelecer os elos

    entre os aspectos externos e aparentes da representao de espao associados aos aspectos

    internos relacionados aos espaos de representao de quem vivencia a concretude da cidade.

    O primeiro aspecto privilegia o valor de troca e o segundo o valor de uso. Implica

    ainda numa associao dialtica entre representao de ordem distante e externa e aquela de

    ordem prxima e interna da realidade concreta da cidade. Essa seria para ele, uma forma de

    pensar a cidade como totalidade - de forma no-fragmentada - e em movimento dialtico entre

    estratgia urbana pensada como modelo e estratgia poltica participativa de seus moradores

    com direito cidade.

    A problemtica urbana seria apreendida por meio de uma reconciliao entre

    conhecimento crtico e prxis1, numa inteligibilidade crtica da ordem que se esconde na

    aparente desordem urbana. Tambm seria uma forma de revalorizao do uso da cidade como

    domnio da liberdade e afirmao de um novo humanismo na apropriao do espao vivido.

    1 O conceito de prxis muito anterior filosofia marxista, com razes no pensamento de Aristteles, mas foi por intermdio do pensador alemo Karl Marx que tal conceito, progressivamente, se aprofundou, passando a ser o elemento central do materialismo histrico. No mbito da filosofia marxista, o conceito de prxis passa por processos de desconstruo e reconstruo, tendo como referncia as teses do filsofo Feuerbach, com as quais Marx estabelece uma interlocuo. Marx concebe a prxis como atividade humana prtico-crtica, que nasce da relao entre o homem e a natureza. A natureza s adquire sentido para o homem medida que modificada por ele, para servir aos fins associados satisfao das necessidades do gnero humano. Para Marx, a natureza compreende todas as coisas materiais de que o homem se apropria, bem como a sociedade em que vive. A prxis medeia essa relao (ou intercmbio) entre o homem e a natureza, que conscientemente transformada no processo produtivo que lhe define a utilidade. A prxis expressa, precisamente, o poder que o homem tem de transformar o ambiente externo, representado, em Marx, pela natureza e pelo meio social em que est inserido (CANCIAN, 2011).

  • 24

    1.3. TERRITORIALIZAO DA CIDADE: USO E TRANSFORMAO DO ESPAO

    URBANO

    As teorias de Henri Lefebvre a respeito do direito cidade e da produo social da

    cidade como espao social tiveram forte repercusso entre os gegrafos. Contriburam para

    uma nova abordagem do conceito de territrio, com base na apropriao coletiva do espao

    social produzido em torno de projetos voltados a um futuro comum.

    A apropriao, nesse caso, abordada no sentido dado por Henri Lefebvre de

    transformao do espao produzido por meio de organizao de projetos coletivos. Raffestin

    (1993) se notabilizou por essa abordagem do territrio na Geografia. Ele passou a identificar o

    espao social produzido como valor de uso que sempre antecede a produo do territrio. O

    territrio se produz por meio de apropriao desse espao para sua transformao e uso, por

    um conjunto de atores envolvidos num projeto comum. O espao social produzido vai ser

    visto pelos atores engajados no projeto de transformao como um local de possibilidades

    (RAFFESTIN, 1993). Para esse autor, a territorializao de um dado espao social pode

    ocorrer tanto por apropriao que envolva coisas concretas do espao vivido ou a simples

    representao desses atores em relao a essas coisas. Para ele, todo projeto j revelaria uma

    imagem desejada de territrio. A produo do territrio parte de um processo de interao

    entre os atores de um espao social e nessa perspectiva se inscreve num campo de poder. Dele

    faz parte um conhecimento e uma prtica com base num conjunto de valores e simbologias

    que os identifica e conduzem seu comportamento.

    No Brasil, Santos (1994) tambm passou a atribuir novo sentido ao territrio dado

    pelo seu uso como quadro de vida. Lembrou que, se em tempos anteriores nem todos os

    territrios de vida eram estatizados, no atual mundo em rede eles j estavam todos

    globalizados. Nessa perspectiva, as sinergias construdas nos territrios de vida serviriam para

    que eles pudessem se impor s intervenes do mundo globalizado. Santos (1994) passou a

    conceber o territrio como espao habitado, transformado por uma nova construo e um

    novo funcionamento. Para ele, o acontecer simultneo no mesmo quadro de vida produz a

    solidariedade por meio de um cotidiano compartilhado e que constitui a fora endgena

    transformadora do territrio. a que a vida se desenvolve em todas as dimenses e se

    manifesta a identidade.

  • 25

    1.4 GESTO TERRITORIAL DEMOCRTICA

    A gesto territorial democrtica tem sido refletida como uma nova relao entre a

    sociedade e o Estado na definio do desenvolvimento, numa adequao s especificidades e

    necessidades sociais em seus territrios de vida, mediante ampla participao social.

    1.4.1 Polticas pblicas de baixo para cima no fortalecimento da sociedade civil

    No lugar de polticas pblicas de governo definidas pelo clssico planejamento

    tcnico-cientfico do Estado regulador, estabelecidas de cima para baixo, a gesto territorial

    democrtica tem centrado ateno em polticas estabelecidas sob forma de governana. So

    polticas estabelecidas de baixo para cima e com envolvimento dos vrios segmentos da

    sociedade civil. O termo governana foi disseminado na economia nos anos 30 do sculo XX

    por Ronaldo Coase, mas ficou mais conhecido nos anos 80, quando a ministra Margareth

    Thatcher redefiniu a relao entre o poder pblico e privado numa coordenao poltica que

    trouxesse melhor desempenho e eficcia s polticas de Estado. A idia de governana

    associa-se a aes de coordenao dessa pluralidade de atores engajados no mesmo projeto,

    num processo de negociao de interesses regidos por lgicas diferenciadas. De acordo com

    Esteve (2009), a governana uma forma de governar em rede, portanto, um governo

    relacional. Ela pode se estruturar tambm nas vrias escalas de organizao do territrio.

    Mas a gesto territorial democrtica, como forma de governana, privilegia a

    escala local e regional e procura tratar de questes de desenvolvimento de forma mais

    abrangente na vida da sociedade, em consonncia s necessidades de cada territrio. Supe

    iniciativas que expressem uma sociedade organizada em seu territrio de vida, para tomar

    decises negociadas a respeito do futuro desejado em comum, num processo de engajamento

    coletivo e solidrio, procurando envolver atores sociais, econmicos e institucionais. Ao

    executar polticas de fortalecimento da sociedade civil e da democracia tambm contribui para

    relativizar a fora das elites.

    1.4.2 Gesto territorial democrtica na perspectiva autonomista

    A governana territorial democrtica tem sido visto como uma forma de avano

    do clssico planejamento regulatrio de Estado que vem se enfraquecendo ao longo do tempo

  • 26

    (SOUZA, 2000). Na viso de Castoriadis (1996), apud Souza (2000) a democracia na

    participao da sociedade seria garantida por processos de conquista de autonomia, de

    natureza coletiva e individual, como faces de mesma moeda. A autonomia coletiva se

    expressa como autogoverno consciente e explcito de uma dada sociedade. Depende de

    garantias poltico-institucionais de acesso transparente informao, com igualdade de

    oportunidades na participao de processos decisrios relevantes. J a autonomia individual

    depende de fatores polticos e materiais na criao de condies aos indivduos para

    realizao de suas escolhas em liberdade, mediante responsabilidade e conhecimento de

    causa, como tambm de condies individuais e psicolgicas (SOUZA, 2000). Desse modo,

    autonomia vista na gesto territorial democrtica como princpio bsico a ser observado em

    estratgias de promoo de desenvolvimento.

    A autonomia amplia a legitimidade no alcance da justia social para uma melhor

    qualidade de vida, quando assumida para si e coletivamente. Para Castoriadis (1996), apud

    Souza (2000), justia social se conquista na esfera pblica. Sociedade justa no implica

    sociedade com leis justas, mas quando a justia da esfera pblica se mantm efetivamente

    aberta interrogao de lei e de seus fundamentos pela sociedade. Portanto, quando oferece

    igualdade de acesso e processo decisrio livre.

    J a qualidade de vida se conquista na esfera privada. Ela emerge da percepo

    individual e coletiva das pessoas a respeito da vida e do territrio em que elas vivem

    (SOUZA, 2000). Seu modelo especfico e nem sempre se enquadra no modelo padronizado

    de uma sociedade. A percepo do que consiste a qualidade de vida pode variar

    individualmente, mesmo que influenciados e condicionados no nvel da sociedade. Portanto,

    os atores dos diversos territrios organizados em escala local necessitam de canais de

    comunicao para ampliar com liberdade de expresso, da esfera privada para a esfera

    pblica, suas necessidades nos planos de desenvolvimento.

    1.5 DESENVOLVIMENTO LOCAL

    O desenvolvimento local, definido por vila (2000), um processo de

    rompimento das amarras que aprisionam as pessoas de mesma identidade e localidade em

    uma comunidade definida, por meio do desenvolvimento de capacidades, competncias e

    habilidades, mediante incremento da solidariedade em seu meio, de modo a poder agenciar e

  • 27

    gerenciar solues para seus problemas, necessidades e aspiraes. Trata-se de um processo

    de desenvolvimento integrado e sustentvel de natureza endgena e emerge no protagonismo

    dos atores em seu espao social de vida. Os cidados so protagonistas de mudanas capazes

    de transformar as cidades em um local com melhores condies de vida e de qualidade de

    servios pblicos.

    De acordo com Pecqueur (2000), o desenvolvimento local uma forma dos atores

    locais engendrarem recursos particulares e solues inditas em seu territrio de vida. E o

    territrio espao de cooperao entre diversos atores com enraizamento no lugar para gerar

    essas solues.

    Como aponta vila (2000), esse processo depende do desenvolvimento de

    capacidades, competncias e habilidades no prprio territrio vivido. A participao supe o

    envolvimento e o poder interativo das pessoas nas tomadas de decises e construo do

    conhecimento que lhes possibilitem implementar seu projeto de futuro para o bairro

    (OLIVEIRA, 2003). Quase sempre, segundo a autora, a coletividade envolve pessoas de

    culturas e histrias diferentes na construo de seus saberes e prticas.

    Pode-se inferir, a partir do exposto que o Brasil criou o aparato institucional

    necessrio com mecanismos de limitao propriedade, na defesa dos chamados interesses

    coletivos e difusos. Mas ele necessita ser devidamente apropriado em processos de gesto

    territorial democrtica que possibilitem o direito cidade. Isto deve se dar, especialmente,

    entre os segmentos sociais de baixa renda e com maior dificuldade de acesso aos servios

    pblicos e de moradia. Mesmo assim tm sido acanhadas as iniciativas nesse sentido.

    O desenvolvimento local, como fora transformadora de natureza endgena

    emerge do campo de foras interativas e sinrgicas que brota de cada territrio de vida. Mas

    s pode ser deflagrado mediante mobilizao participativa dos atores locais para o

    aprendizado dialgico que possibilite discernimento na conduo de prticas que resultem em

    solues criativas na melhoria de qualidade de vida. As iniciativas de desenvolvimento local e

    gesto democrtica dependem de uma cultura pr-ativa, ainda no devidamente impregnada

    nos segmentos sociais em que se faz necessria.

    Verifica-se, no entanto, que a cultura de passividade ainda predominante nas

    cidades brasileiras, especialmente naquelas inseridas em estruturas agrrias tradicionais.

    nesse contexto cultural que grande parte dos moradores de territrios urbanos desassistidos

  • 28

    ainda se contenta em receber benefcios de polticas pblicas sob forma de transferncia de

    renda, como se o problema de desenvolvimento se resumisse apenas nesse aspecto. A questo

    tem sido a de como romper com essas culturas passivas que ainda exercem papel de freio

    sobre mudanas sociais desejadas coletivamente em cada territrio vivido.

  • 29

    2 METODOLOGIA DA PESQUISA

    O presente captulo tem como objetivo descrever a metodologia utilizada na

    pesquisa, entendida como o caminho do pensamento e dos procedimentos sistemticos na

    apreenso da realidade, tendo em vista os objetivos estabelecidos para a pesquisa. Contempla

    a natureza e o mtodo de abordagem da pesquisa, os procedimentos metodolgicos de coleta e

    a organizao dos dados coletados.

    O objetivo da pesquisa aqui relatada foi analisar como os moradores do Parque

    Maria Aparecida Pedrossian vm se engajando na luta pelo direito cidade de Campo

    Grande, Estado de Mato Grosso do Sul, guiando-se pelos princpios de gesto democrtica e

    desenvolvimento local, no sentido de contribuir com o fortalecimento da funo social da

    propriedade urbana.

    2.1 NATUREZA E MTODO DE ABORDAGEM DA PESQUISA

    A pesquisa, de natureza exploratria, se desenvolveu no campo interdisciplinar,

    com mtodo de abordagem sistmico, por meio da observao de um fenmeno concreto com

    abstrao para se modelar o seu objeto. A anlise e interpretao das interaes e

    interdependncias entre os diversos fenmenos, vistos como dimenses da mesma realidade,

    foram fundamentais para se chegar a uma viso integrada do objeto de estudo.

    A partir da verificao da construo histrica da realidade sensvel e aparente do

    local e da compreenso de sua dimenso subjetiva, como representao social ou imagem

    construda do territrio vivido, mediante a combinao destas verificaes, pretendeu-se

    compreender de que forma os moradores esto ou no sendo protagonistas de seu

    desenvolvimento.

    O Parque Residencial Maria Parecida Pedrossian, como territrio, foi estruturado

    como bairro de Campo Grande MS, que como em outros, os moradores vivenciam seu

  • 30

    cotidiano no local, mediante relaes mantidas com moradores locais e como pessoas e

    organizaes da cidade como um todo. Algumas circunstncias, no entanto, indicaram que

    nesse bairro, estivesse ocorrendo experincias de avanos sociais em termos de participao,

    agenciamento e gerenciamento voltadas melhoria do bem-estar social coletivo no bairro.

    Longe de se pretender partir da idia de que o local de fato, seria ou no um

    exemplo de gesto territorial com vistas ao desenvolvimento local, partiu-se da anlise de

    alguns dados e documentos j existentes que pudessem auxiliar na caracterizao histrico-

    territorial em seus aspectos objetivos, mas principalmente, por meio da percepo que seus

    moradores construram a respeito desses possveis avanos, portanto, dos aspectos subjetivos,

    para se chegar a algumas consideraes.

    Em um pensamento sistmico e interdisciplinar tem-se plena conscincia de que

    um territrio, abordado como realidade sistmica, multidimensional e multiescalar, sendo

    submetido a um mundo aleatrio, indeterminado e complexo em pleno movimento, com

    conexes que atingem, desde a moradia, passando pelo bairro, cidade, Estado, at o sistema-

    mundo.

    O territrio objeto de estudo, o Parque Residencial Maria Aparecida Pedrossian,

    visto como produo social de natureza urbana aparece como um dos microcosmos de

    manifestao da vida coletiva no territrio da cidade de Campo Grande. Como tal, nele se

    expressa um quadro de vida social especfico, mas que se insere no conjunto da vida de

    relaes sociais da cidade como um todo, coexistindo de forma simultnea com outros

    territrios de diferentes naturezas e especificidades. Cada bairro expressa uma maneira de

    vivenciar e uma forma de representar a vida, processo intimamente associado sua condio

    social e funcional, sua cultura e sua trajetria histrica dentro da cidade.

    Trabalha-se aqui territrio, na concepo de espao social produzido de Lefebvre

    (1991). Aborda-se, portanto, o territrio do Parque Residencial Maria Aparecida Pedrossian

    como resultante de uma construo social, expressa como materialidade objetiva (ambiente

    natural e obras materiais) e como construo subjetiva, ou seja, como representao coletiva a

    respeito das experincias cotidianamente vividas no lugar.

    A produo social de um territrio, conforme teoriza Raffestin (1993), ocorre

    quando os atores se engajam num projeto comum de apropriao do espao existente. Eles s

    o fazem quando percebem no lugar vivido possibilidades. Essas so detectadas nas

  • 31

    representaes coletivas construdas a respeito desse lugar. Alis, a representao coletiva de

    um cenrio futuro do lugar - como imagem desejada de territrio - j constaria, segundo esse

    autor, de uma primeira forma de apropriao. Essa construo social, seja por representao

    ou por meio de obras concretizadas, resulta da interao entre os atores sociais. Portanto, o

    campo interativo de uma coletividade representa seu campo de poder.

    2.2 PROCEDIMENTOS METODOLGICOS

    Esta etapa constitui-se de um conjunto de tcnicas, ou procedimentos sistemticos

    vinculados a certas normas, que permitem traar caminhos com maiores detalhamentos e

    maior segurana, visando reunir os dados pertinentes ao problema e objetivos estabelecidos

    no incio da pesquisa. A escolha da tcnica e a forma de aplic-la dependem do mtodo de

    abordagem e dos objetivos da pesquisa.

    O territrio, objeto desse estudo, visto como sistema territorial, necessita ser

    apreendido no contexto histrico e territorial em que se manifesta, observando-se suas

    mltiplas conexes.

    Na tentativa de se constatar se o Parque Residencial Maria Parecida Pedrossian se

    constituiu em um lugar onde a participao de seus moradores contribuiu ou no para a

    formao de um processo de gesto territorial, como processo de desenvolvimento local, num

    anseio de acesso ao direito cidade, tornaram-se necessrios tanto os dados quantitativos e

    objetivos da realidade, quanto aqueles de natureza subjetiva.

    O mtodo de anlise utilizado ampliado, vez que combina os dados objetivos e

    subjetivos, com maior ateno ao segundo. Nesse sentido, de um lado, busca-se analisar a

    realidade sensvel e aparente, em termos de estrutura e dinmica da gesto territorial

    historicamente construda do Parque Maria Parecida Pedrossian. Esta vista como dimenso

    objetiva desse sistema territorial. De outro, procura-se compreender a dimenso subjetiva,

    como representao social ou imagem construda a respeito do territrio vivido. Esta deve se

    revelar na fala dos moradores entrevistados.

    Os dados objetivos, portanto, dizem respeito aos aspectos estruturais e aparentes

    do territrio focado. Estes esto sendo obtidos, em grande parte, de fontes secundrias. Parte

  • 32

    desse aspecto objetivo do bairro tem sido detectada no contato fsico com o lugar, seja por

    meio de observao direta, ou como imagem fotografada.

    Por meio do conhecimento subjetivo construdo pelos moradores que vivenciam a

    realidade do bairro, presume-se que ser possvel tambm compreender de que forma eles se

    percebem na contribuio ou no para que o Parque Maria Parecida Pedrossian se constitusse

    no atual ambiente, a avaliao que apresentam do mesmo como quadro de vida, as

    possibilidades e limitaes que foram e ainda esto sendo vislumbradas no lugar, as

    peculiaridades inerentes ao territrio.

    Nessa abordagem, em que interaes e interdependncias so valorizadas, os

    dados quantitativos e qualitativos no se opem. Ao contrrio, se complementam e a viso da

    realidade enfocada se amplia.

    2.2.1 Procedimentos de coleta junto a fontes secundrias

    Alm da reviso bibliogrfica, a preocupao nessa fase, foi a de reunir dados j

    existentes junto a fontes secundrias, ou seja, instituies que detm as informaes

    necessrias e confiveis para a realizao da pesquisa (anlise documental).

    Na reviso bibliogrfica, houve seleo de concepes e categorias conceituais na

    construo do referencial terico utilizado para a presente dissertao, como a obteno de

    informaes especficas a respeito do objeto de estudo. Tambm se buscou entrar em contato

    com o que j se produziu e se registrou sobre o tema e o local selecionado para a pesquisa.

    Foram identificadas obras cientficas, tais como artigos, livros, dissertaes, teses e relatrios

    de pesquisa.

    A pesquisa documental e estatstica foi elaborada com base em documentos

    oficiais, reportagens de jornal, documentos cartogrficos, estatsticos, fotogrficos. Tm

    destaque especial as informaes estatsticas e demogrficas constantes da Prefeitura

    Municipal de Campo Grande, por meio de suas secretarias, com destaque para o PLANURB.

    2.2.2. Procedimentos de coleta junto a fontes primrias

    Diferente da anlise dos dados objetivos, nesse caso, parte-se da perspectiva da

    percepo dos sujeitos envolvidos (moradores do local), num contato direto com os mesmos,

  • 33

    num dilogo entre pesquisador e entrevistado. A fonte primria constituiu-se na coleta de

    campo, feita por meio de entrevistas semi-estruturadas, combinada a observaes diretas do

    pesquisador, mediante incurses realizadas na rea de pesquisa. As entrevistas se constituram

    de um procedimento especfico para se coletar dados no documentados.

    Nessa modalidade tcnica, a coleta de informaes foi obtida no contato direto

    com os moradores do local, com quem se buscou manter uma relao dialgica no ambiente

    da entrevista. Desse modo, entrevistador e entrevistado interagem e se comunicam a respeito

    do conhecimento, em um processo multidirecionado.

    Nessa modalidade de entrevista optou-se pelo uso de uma amostragem no

    probabilstica e intencional por tipicidade. Trabalhou-se com uma amostragem no

    probabilstica na pesquisa, identificando-se os entrevistados atravs de uma escolha

    intencional, fazendo-se opo por determinadas pessoas chave. Foram eleitos informantes-

    chave de vrias categorias de moradores, observando-se ainda os diferentes pontos de

    residncia dentro do MAP. Dessa forma, no houve a preocupao com o tamanho da

    amostra, clculo de erro amostral ou nvel de confiabilidade. No se tratou de uma pesquisa

    que levasse a medidas (quantitativa), mas sim de uma pesquisa qualitativa no qual se buscou

    compreender e interpretar a fala dos sujeitos que vivenciaram ou vivenciam uma realidade

    especfica (o seu contexto), ou seja, subjetividades, de acordo com a questo feita e objetivos

    estipulados para esse captulo.

    Os atores entrevistados foram os moradores do local bem como outras pessoas

    que embora no o habitam, mas o vivenciam. Houve uma seleo prvia dos informantes-

    chave, estabelecendo-se para isso alguns critrios de interesse qualitativo. Mais importante do

    que o nmero de entrevistados foi sua representatividade junto ao universo de moradores que

    se pretendeu ouvir. Nesse caso, houve precauo na escolha de pessoas de quem se pudesse

    contribuir com as informaes mais qualificadas nas diversas formas de representao da

    comunidade focada. Desse modo um dos critrios foi considerar os entrevistados por sua

    participao, procurando-se identificar moradores que atuaram como agentes de determinadas

    iniciativas de mobilizao local na conquista de melhorias para satisfao coletiva. Um

    segundo critrio foi o tempo de moradia, selecionando-se para entrevista tanto morador

    antigo, como aquele que se mudou recentemente para o MAP. Um terceiro critrio foi o local

    de residncia, ouvindo-se tanto um morador prximo da rea central como aquele de rea

    mais perifrica do bairro. Tambm se ouviu representantes de instituies que promovem

  • 34

    processos de convergncia no bairro (de natureza religiosa). Procurou-se escutar informante

    masculino e feminino. E, ainda se optou por ouvir pessoas que no moram, mas vivenciam o

    bairro, como representante de instituio parceira e comerciante.

    A pesquisa desenvolveu-se pela tcnica denominada bola de neve em que cada

    entrevistado foi informando ou dava pistas do prximo a ser o entrevistado. O trmino do

    ciclo de entrevistas de cada categoria se deu por saturao, ou seja, as informaes

    comearam a ficar repetitivas, sem novidade passando cada entrevistado a ratificar as

    informaes prestadas pelos anteriores.

    No universo das entrevistas, houve preocupao em identificar os principais

    espaos de convergncia que se tornaram importantes para o dilogo, tomadas de deciso e

    gesto das prticas sociais no mbito do MAP, que se voltou para o DL.

    Conforme o Apndice do presente trabalho, o formulrio diz respeito a uma

    entrevista semiestruturada, com apoio de alguns itens estruturados, mas com o cuidado de se

    dar abertura para as falas dos entrevistados. Interessante anotar que o importante para a

    pesquisa nesse ponto foi apreender a viso do entrevistado sobre cada questo tratada. Nesse

    sentido, tornou-se fundamental o grau de representatividade dos entrevistados em relao ao

    universo de pesquisa.

    O formulrio contemplou no primeiro item do histrico relacionado vinda e/ou

    da famlia do entrevistado ao residencial, verificando-se se houve alguma motivao

    especfica para a escolha. O segundo item, relacionou-se s melhorias percebidas pelo

    entrevistado no bairro, apontando os responsveis por elas. No terceiro item, estreitamente

    relacionado ao segundo, buscou-se extrair a causa e tipo de envolvimento pessoal em aes de

    melhoria do lugar. No quarto item a ideia foi verificar se os moradores conseguiam definir

    etapas na trajetria de construo coletiva do bairro, capazes de se constituir em marcos

    divisores do desenvolvimento. A preocupao do quinto item foi ouvir a fala do entrevistado a

    respeito de possveis potencialidades e dificuldades locais percebidas que concorreram na

    definio das atuais condies do residencial. Procurou-se destacar no sexto item a percepo

    local a respeitos inovaes recentes introduzidas as formas de soluo consideradas

    fundamentais melhoria ao residencial. O stimo, oitavo e nono itens, abarcaram questes

    sobre a representao dos interesses dos moradores pela associao dos moradores locais.

    Indagou-se a respeito da natureza dessa associao e da cooperao existente. Tambm foram

  • 35

    questionados a respeito das principais organizaes parceiras e os tipos de apoio oferecidos

    melhoria do local, identificao da natureza e papel de governana.

    Privilegiou-se a relao dialgica entre o pesquisador e o sujeito pesquisado, num

    esforo de compreenso do sujeito da pesquisa do ponto. Durante as entrevistas, as falas dos

    entrevistados no necessariamente seguiram a ordem dos itens estruturados. Muitas vezes,

    situaes colocadas na entrevista j acabavam por responder itens ainda no colocados para o

    entrevistado, o que o tornava prejudicado em seu momento. Da mesma forma, sendo

    semiestruturada, a fala livre dos entrevistados diversas vezes revelou aspectos no

    necessariamente pretendidos a sua compreenso pelo pesquisador, mas que com o seu

    surgimento, contriburam para o objeto da pesquisa.

    No se pode ignorar que o pesquisador nesse processo tambm um sujeito

    intencional e que se posiciona como tal nesse dilogo. No caso, interessou diretamente ao

    entrevistador captar nas informaes a realidade vivida pelos moradores do local com vistas a

    identificar processos de participao popular e de formao de gesto territorial.

    O incio da entrevista, na modalidade semiestruturada, foi mediado por um

    formulrio (Apndice A) nas mos do pesquisador. Dividiu-se em tpicos previamente

    preparados e padronizados e questes feitas de forma livre pelo pesquisador. Com as

    primeiras, de respostas objetivas, traou-se um perfil do entrevistado. Com as segundas, a

    inteno do pesquisador foi coletar narrativas do sujeito de forma livre, buscando a

    compreenso da dimenso subjetiva, numa anlise qualitativa.

    Foi acrescentado pesquisa o resultado de um trabalho de pesquisa realizado em

    2009, por um integrante do mestrado em Desenvolvimento Local da UCDB, na disciplina

    Desenvolvimento Local, Comunidade e Comunitarizao, que tambm se apoiou na fala

    dos moradores. Trata-se de trabalho dirigido de observao em comunidade, realizado por

    Francisco Fausto Matto Grosso Pereira.

    Procurou-se interpretar a fala dos entrevistados sobre experincias vividas no seu

    cotidiano no Parque Residencial Maria Aparecida Pedrossian, assim como a memria

    construda coletivamente na trajetria vivida pelos moradores do bairro.

    Partiu-se aqui da perspectiva de cada indivduo entrevistado, de suas estruturas

    subjetivas de significao e de suas intenes especficas, mas com questes direcionadas a

    alguns campos subjetivos de interpretao que interessaram diretamente pesquisa. A ideia

  • 36

    foi obter melhor conhecimento da experincia social vivida pelos moradores, narrada por eles

    mesmos. Portanto, ele aparece na entrevista como sujeito que pensa, tem histria, construiu

    saberes e significados em sua vivncia no processo de formao do local como territrio de

    participao popular no desenvolvimento.

    Nesse sentido, alguns campos de fenmenos foram previamente definidos pelo

    pesquisador, como unidades significativas a serem interpretadas, relacionadas mais

    especificamente com as formas de apropriao territorial e de gesto do territrio,

    desenvolvimento local, funo social da propriedade.

    Para essa modalidade tcnica de coleta, o pesquisador valeu-se de documento com

    questes previamente elaboradas e um gravador.

    2.3 MTODO DE ANLISE AMPLIADA

    Essa etapa da pesquisa teve como finalidade a organizao, anlise e interpretao

    dos dados coletados. Na organizao a preocupao foi a ordenao lgica das informaes

    coletadas, mediante correlaes entre as mesmas.

    Adotou-se o mtodo de anlise ampliada, assim denominada porque leva em conta

    uma anlise combinada dos dados coletados de natureza quantitativa e qualitativa, com base

    na anlise do problema e objetivos estipulados. O mtodo de anlise ampliada tem de um

    lado, a anlise da organizao e anlise dos dados objetivos e de outro a interpretao das

    falas dos atores. Essas precisam convergir de forma sinrgica, de forma a se obter unidade

    relacional entre realidade objetiva e aquela construda no imaginrio de quem a vivencia.

    O empirismo e a quantificao permitem conhecimento objetivo da realidade,

    enquanto interpretao qualitativa da fala dos sujeitos permite o conhecimento da

    subjetividade. A observao direta do pesquisador contribui para apurar a anlise e

    interpretao.

    2.3.1 Organizao dos dados e combinao da anlise dos dados e interpretao das

    falas

    Os dados obtidos de fontes estatsticas, documentais e diretamente por meio da

    entrevista semi-estruturada e preenchimento de formulrio, foram tabulados para melhor

  • 37

    serem descritos, mensurados e analisados no contexto da pesquisa, associados aos dados

    interpretados dos dados de entrevista.

    Buscou-se, de forma combinada, trazer tona a viso dos sujeitos em relao ao

    que est sendo pesquisado, a partir da interpretao que fazem em sua vida cotidiana. Foram

    observados os significados e sentidos que os mesmos atribuem s suas aes por meio das

    narrativas.

    As unidades significativas pr-selecionadas pelo pesquisador, interpretadas pelos

    diferentes sujeitos durante a fase da entrevista, tais como formas de apropriao territorial e

    de gesto do territrio, desenvolvimento local, funo social da propriedade foram

    comparadas, conectadas e sintetizadas. Nessa etapa, foi dado realce aos aspectos descritivos

    dos relatos, buscando-se uma compreenso maior do contedo na perspectiva dos sujeitos.

    Para o investigador essa etapa se revestiu de grande importncia, pois a desconsiderao de

    uma fala poderia acarretar o risco de negao completa da subjetividade humana dos sujeitos

    ou de imposio de seus prprios valores. Nesse caso, os dados foram analisados levando-se

    em considerao os significados atribudos pelo seu sujeito de pesquisa.

    A interpretao mais ampla das representaes do vivido na perspectiva dos

    sujeitos foi efetuada de forma crtica pelo pesquisador, no contexto histrico-territorial do

    Parque Residencial Maria Aparecida Pedrossian, elaborado no terceiro captulo, com apoio de

    observao feita in-loco pelo pesquisador e luz das categorias conceituais eleitas. Nessa

    etapa, buscou-se, portanto, levar em considerao o contexto social e histrico sob o qual

    foram produzidas as interpretaes subjetivas a respeito do territrio.

    Buscou-se chegar assim, a uma sistematizao do relatrio de dissertao,

    combinando-se estrutura e dinmica social do Parque Residencial Maria Aparecida

    Pedrossian com avaliao das representaes construdas a partir de vivncias cotidianas, no

    sentido de melhor aclarar como nesse contexto efetivamente vem sendo interpretada pelos

    moradores, sua participao nos processos de gesto coletiva, na perspectiva do

    desenvolvimento local e da consolidao da funo social da propriedade.

  • 38

    3 FUNO SOCIAL DA PROPRIEDADE NA CONSTRUO DO PARQUE RESIDENCIAL MARIA APARECIDA PEDROSSIAN NO CONTEXTO TERRITORIAL DE CAMPO GRANDE/MS

    O objetivo desse captulo foi averiguar as origens e o processo de construo

    social do Parque Residencial Maria Aparecida Pedrossian no contexto do territrio da cidade

    de Campo Grande e da poltica habitacional no Brasil e Mato Grosso do Sul, tendo em vista a

    funo social da propriedade.

    O territrio visto aqui, como produto do processo de construo social, por meio

    de apropriao do espao anteriormente existente, e que consiste numa sucesso de projetos

    coletivos, propostos na vida de relaes estabelecidas no cotidiano vivido, cada um deles

    revelando a imagem coletiva desejada, em acordo s especificidades locais e do contexto em

    que este territrio se insere. A territorializao se constitui nesse conjunto de projetos

    coletivos elaborados e implantados no processo de construo social do bairro urbano.

    As funes sociais da propriedade no Parque Residencial Maria Aparecida

    Pedrossian passaram assim a ser consideradas, na medida em que o processo de construo

    social desse territrio leva em conta o aproveitamento socialmente justo e racional do solo

    urbano, o uso adequados dos recursos naturais e construdos disponveis, a qualidade do

    ambiente vivido, compatveis com os anseios e perspectivas dos moradores e com as

    especificidades do ambiente local. A funo social da propriedade no implica no

    desaparecimento da propriedade particular, que continua contemplada nos espaos destinados

    s moradias e sim, na socializao de algum tipo de propriedade, visando implementao de

    projetos em que prevalea o princpio da supremacia do Interesse Pblico sobre o Privado na

    busca do bem comum.

    A funo social refletida fruto de mobilizao coletiva na luta pelo Direito

    Cidade no Parque Residencial Maria Aparecida Pedrossian, estabelecida no cotidiano vivido

    por moradores em seu territrio usado como moradia.

  • 39

    3.1 ORIGENS DO PARQUE RESIDENCIAL MARIA APARECIDA PEDROSSIAN NO

    CONTEXTO DA CIDADE DE CAMPO GRANDE E DAS COOPERATIVAS

    HABITACIONAIS

    Em 1977, foi criado no mbito do projeto federal de incentivo frente de

    modernizao agrcola para o Oeste do pas e pela Lei Complementar N 31, de 11 de outubro

    de 1977, o Estado de Mato Grosso do Sul, como rea desmembrada do ento Estado de Mato

    Grosso. Nessa perspectiva, a cidade de Campo Grande, existente desde o final do sculo XIX,

    passou a conhecer um processo de reordenamento e ampliao de sua infraestrutura, mediante

    incentivo de polticas pblicas do governo federal, especialmente aquela considerada

    necessria para que a cidade pudesse exercer o papel de capital. A infraestrutura de moradias

    para abrigar os novos servidores pblicos do aparelho de Estado em instalao tornou-se uma

    das prioridades dessa poltica federal.

    Esse perodo dos governos militares no poder coincidia com as polticas de

    moradia popular, viabilizadas pela criao de cooperativas habitacionais e terrenos de menor

    valor imobilirio, geralmente localizados nas periferias das cidades. Foram estruturadas no

    mbito do Sistema Brasileiro de Habitao (SFH). A captao de fundos era feita por dois

    instrumentos: o Fundo de Garantia do Tempo de Servio (FGTS) e as Cadernetas de

    Poupana. O Fundo de Garantia por Tempo de Servio (FGTS), criado desde 1967, era

    alimentado pela poupana compulsria dos assalariados brasileiros e utilizado como fundo de

    indenizaes trabalhistas. Parte dessa arrecadao do FGTS era destinada concesso de

    crdito habitacional para as famlias de baixa renda e ao financiamento do saneamento bsico

    e da infraestrutura urbana. J as cadernetas captavam a poupana voluntria, integrando o

    Sistema Brasileiro de Poupana e Emprstimo (SBPE) e se destinavam ao financiamento de

    imveis da classe mdia. O Banco Nacional da Habitao (BNH) foi concebido como

    operador do sistema, constituindo-se ento no principal rgo da poltica habitacional. Os

    recursos do BNH eram ainda complementados por uma rede de agentes promotores e

    financeiros, privados e estatais.

    As cooperativas habitacionais, criadas pela Lei n. 5.764, de 16 de dezembro de

    1971, constituam-se como empresas sem fins lucrativos, por grupos de pessoas fsicas, com o

    propsito de adquirir o imvel financiado em longo prazo, por um valor mais baixo. Elas se

    reuniam em grupos para criar a cooperativa, orientadas por organizaes do governo, como o

    Banco Nacional de Habitao (BNH) criado para financiar os imveis e os Institutos de

    Orientao s Cooperativas Habitacionais (INOCOOP) para assessorar a cooperativa. Estes

  • 40

    institutos implantavam os projetos de loteamento urbano, zelavam pelo gerenciamento das

    obras e da administrao de recebveis, alm do ordenamento do espao construdo e

    urbanizado. Em realidade, em tais procedimentos prprios desse momento do regime militar,

    as Cooperativas Habitacionais no eram dotadas de autonomia, no processo de construo e

    financiamento de moradia populao, mas acabavam ficando sob o controle de tais

    organizaes vinculadas ao governo federal. As Companhias de Habitao Popular (COHAB)

    criadas em 1964, integravam o Sistema Financeiro de Habitao, com ao reservada aos

    Estados e Municpios e assistncia de rgos Federais. At os anos 1970, houve instalao de

    companhias de habitao nos Estados e em Municpios de maior densidade populacional.

    Tinham a funo de elaborar planos diretores, projetos e oramentos para a soluo de seus

    problemas habitacionais.

    Com a crise econmica dos anos 1980, na chamada dcada perdida, os rgos de

    financiamento foram sofrendo retrao dos saldos do FGTS e na poupana, com aumento na

    inadimplncia das prestaes de suas dvidas, resultando na queda dos financiamentos. Com o

    fim dos governos militares, em 1986, ocorreu finalmente extino do BNH. Os INOCOOP,

    por seu turno, passaram ao controle de outro agente financeiro, a Caixa Econmica Federal.

    Em Mato Grosso do Sul, a COHAB/MS atuava com o Instituto de Previdncia

    Social de Mato Grosso do Sul (PREVISUL), ambas institudas logo aps entrar em vigor a lei

    que criou o Estado em 1979. O PREVISUL tinha como finalidade assegurar assistncia

    social, previdncia social entre elas a habitacional, dos servidores pblicos do Estado. No

    incio da dcada de 1990, a Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano de Mato

    Grosso do Sul (CDHU/MS) assumiu o papel da COHAB/MS e em 1998, o Instituto de

    Previdncia Social de Mato Grosso do Sul (MS-PREV), substituiu o PREVISUL, no mais

    com polticas de habitao.

    A cidade de Campo Grande, conforme Le Bourlegat (2000), no incio dos anos

    1980, estava sob forte interveno de polticas federais visando facilitar obras destinadas ao

    aparelho de governo, infraestrutura urbana e de moradia e ainda se submetia a um forte xodo

    rural e fluxos migratrios originrios de Estados vizinhos e do Sul do pas. Esses eram

    atrados pelos incentivos governamentais modernizao da agricultura, desde a dcada de

    1970. Desse modo, o primeiro quinqunio da dcada de 1980 tornou-se o perodo em que a

    cidade apresentou os maiores ndices de urbanizao do pas (LE BOURLEGAT, 2000).

    Alm de um corpo de funcionrios pblicos, Campo Grande passou a abrigar proprietrios

    rurais, camadas sociais de renda e grande parte da fora de trabalho desempregada do campo,

    sofrendo um processo de duplicao de sua populao a cada dcada. O censo do IBGE

  • 41

    apontou para a cidade de Campo Grande um salto de 131.110 habitantes em 1970 para

    283.653 habitantes em 1980 e nesse ano com uma taxa de urbanizao de 97,2%.

    O tecido urbano se alargou rapidamente, avanando sobre os espaos rurais de

    entorno. As cooperativas habitacionais contriburam de forma significativa para essa

    periferizao da cidade, uma vez que tendiam a buscar nos espaos de uso rural os preos de

    menor valor no mercado imobilirio (LE BOURLEGAT, 2000).

    3.2 PARQUE RESIDENCIAL MARIA APARECIDA PEDROSSIAN COMO PROJETO DO

    GOVERNO DE MATO GROSSO DO SUL

    O Parque Residencial Maria Parecida Pedrossian no teve sua origem baseada em

    construo social por parte dos usurios. Foi planejado como local destinado moradia pelo

    governo estadual de Mato Grosso do Sul, logo que este foi criado. Ocorreu durante a gesto

    do ento governador Pedro Pedrossian (1980-1982), como parte das estratgias de construo

    de infraestrutura para abrigar o novo aparelho de governo. O conjunto residencial destinava-se

    moradia dos servidores pblicos e nasceu de um projeto elaborado por tcnicos da

    COHAB/MS, no mbito da poltica habitacional do governo federal (UCDB EM FOCO,

    2009)

    3.2.1 Espao anterior ao projeto territorial do governo estadual

    Da antiga fazenda Rancharia, graas sua localizao nas periferias imediatas do

    Leste da cidade, desde a dcada de 1950, segundo Gonalves & Peres (2007), havia sido

    desmembrada parte das terras para fins de loteamento urbano, que ainda no tinha conexo

    com o tecido urbano existente. Os vrios lotes eram administrados por meio de uma

    Imobiliria, cujo nome foi estendido ao atual Bairro Tiradentes. O especulador dessas terras

    destinadas urbanizao, no exerccio da funo de dentista no centro da cidade de Campo

    Grande, conseguiu vislumbrar a possibilidade da cidade, j em pleno dinamismo, expandir

    naquela direo. Na dcada de 1970, quando essa possibilidade ganhou maior contorno frente

    transformao de Campo Grande em capital do novo Estado institudo, o restante da

    Fazenda Rancharia acabou sendo adquirida por esse agente imobilirio (GONALVES &

    PERES, 2007).

    Alm de lugar de descanso e veraneio pela famlia do proprietrio nos finais de

    semana, a fazenda tambm era frequentemente alugada a outros moradores da cidade para

  • 42

    realizao de festas e outros eventos (GONALVES & PERES, 2007). Esse uso era

    facilitado pela relativa proximidade da fazenda cidade e por ser facilmente acessada por um

    dos eixos de circulao na sada da cidade na direo de Trs Lagoas, a BR-262. Na poca em

    que ocorreu a aquisio de parte de suas terras para a construo do conjunto residencial, essa

    rea rural, portanto, j tinha grande parte de seu uso feito por moradores urbanos.

    3.2.2 Projeto Tcnico governamental do Conjunto Residencial

    O projeto que deu origem ao Parque Residencial Maria Aparecida Pedrossian foi

    produzido pelo saber tcnico de natureza ideolgica e racional dos planejadores do rgo

    governamental responsvel. Este saber tinha como referncia o iderio da habitao popular

    materializado na periferia, vigente na poltica habitacional brasileira, vinculado ideia de

    casa prpria. A periferia, segundo Duarte (2011) vinha sendo a alternativa utilizada na

    materializao dos projetos de moradias populares no Brasil, em funo do baixo valor de

    mercado do terreno nesses espaos das cidades. Isso ocorria, diante da preferncia das

    camadas sociais mais favorecidas em procurarem se apropriar de reas urbanas mais nobres e

    servidas por servios urbanos, que costumavam ficar junto ao centro da cidade.

    Esses conjuntos residenciais costumavam ser construdos no Brasil como novos

    bairros da cidade, nem sempre conectados com o tecido da estrutura urbana da cidade, mas

    para onde se buscava levar a infraestrutura necessria (MELO, 2009). Naqueles conjuntos

    compostos por unidades unifamiliares, como o foi o do Parque Residencial Maria Aparecida

    Pedrossian, de modo geral, a residncia aparecia em pequenas unidades isoladas em lotes que

    utilizavam grandes glebas de terra. Segundo Koury et al (2003), como os arquitetos

    estivessem inspirados pela arquitetura moderna, alm das formas geomtricas e reticuladas -

    expressas no traado das ruas, quadras, lotes e unidades habitacionais o desafio do espao

    mnimo e a racionalidade construtiva tambm faziam parte das preocupaes. O que parecia

    estar em jogo era a capacidade de combinar a configurao urbanstica e arquitetnica das

    unidades habitacionais ao melhor aproveitamento dos terrenos e ao baixo custo de construo.

    Era visto como uma forma de favorecer a produo massiva de moradia (KOURY ET AL,

    2003). Portanto, conforme refletia Lefebvre (1991), o planejador dos conjuntos residenciais

    baseava-se na idealizao de modelos de uma cidade abstrata e distante do real, privilegiando

    o produto materializado do projeto, expresso por formas aparentes.

    Nessa perspectiva, a fazenda Rancharia foi escolhida, no s por ser de baixo

    custo, mas tambm por estar prximo do complexo administrativo do Estado- o Parque dos

  • 43

    Poderes- este em plena construo desde 1981. Localizado s margens da BR 262, ficava a 10

    quilmetros do centro da cidade e s a um quilmetro da futura sede do governo.

    Para esse fim, foi criada a Cooperativa Habitacional dos Servidores Pblicos do

    Estado do Mato Grosso do Sul (COONISUL), num convnio com o PREVISUL e Caixa

    Econmica Federal para o financiamento da construo das casas. O projeto de natureza

    tcnica revelava a inteno governamental e de interesse pessoal do governador, inclusive no

    nome, em homenagem sua esposa (VICTORIO, 2011).

    A previso do referido projeto vislumbrou a construo de 1.035 casas, 682

    unidades de dois quartos e 353 unidades de trs quartos, cada residncia numa rea de lotes de

    12 x 30 metros e com rea construda da casa de reduzidos 52 m (com dois quartos).

    O loteamento buscou obedecer Lei 6.766 do parcelamento urbano em glebas

    rurais. Essa lei federal, instituda em 1979 teve como objetivo ordenar o crescimento das

    cidades brasileiras e trazia as principais regras sobre as diretrizes urbansticas, os

    procedimentos administrativos, alm de dispor sobre os direitos e garantias asseguradas aos

    adquirentes dos lotes. Segundo dispunha essa lei, o tamanho do lote mnimo deveria ser 125

    m2 e s poderia ser menor em se tratando de urbanizao e habitao de interesse social. Por

    outro lado, a Lei n. 6.766 previa que pelo menos 20% da rea loteada a ser destinada ao

    espao de circulao, 10% para os equipamentos urbanos e 5% para uso comunitrio e

    espaos livres de uso pblico.

    De acordo com o disposto no Art. 2, 5 da referida Lei, a infra-estrutura bsica

    dos parcelamentos deveria ser constituda pelos equipamentos urbanos de escoamento das

    guas pluviais, iluminao pblica, esgotamento sanitrio, abastecimento de gua potvel,

    energia eltrica pblica e domiciliar e vias de circulao. No projeto executado, reservou-se

    um espao para abrigar a sede da Associao dos Moradores do Parque Residencial Maria

    Aparecida Pedrossian (AMAPE), 1 escola para abrigar 1.600 alunos, 1 creche para 160

    crianas, 1 centro comercial de 432 m e com 13 boxes para serem alugados. Tambm se

    reservou espao para o funcionamento de 1 delegacia, 2 praas, rea de lazer, alm de

    unidade de gua tratada prpria para o bairro.

    Em 1982, foram iniciadas as obras, e j em janeiro de 1983 estavam concludas,

    ocorrendo a entrega das chaves no ms seguinte. Com a concluso do conjunto e o incio da

    entrega das chaves em 1983, a cooperativa COONISUL foi desfeita transferindo-se todos os

    recursos para a AMAPE, associao dos moradores, que desde ento, passou se

    responsabilizar pelo andamento dos projetos relacionados ao bairro (UCDB EM FOCO,

    2009).

  • 44

    Os sorteios das casas, conforme previsto, foram para os funcionrios do Estado

    que haviam feito uma poupana de 12 meses na Caixa Econmica Federal. Mas moradores

    locais que vivenciaram essa poca revelam que houve muita desistncia na entrega das

    chaves, uma vez que o conjunto no correspondia aos seus anseios particulares e nem mesmo

    atendia completamente o projeto divulgado (CARDOZO, 2009). Segundo eles, os novos

    moradores consideraram o local muito distante e de difcil acesso ao centro, que na poca

    concentrava a maioria do comrcio e servios da cidade. Nessa ocasio, o conjunto residencial

    j contava com pavimentao asfltica, iluminao, rede de gua tratada prpria e uma linha

    de nibus, que atendia aos moradores de forma um tanto precria. Um dos problemas

    colocado ainda foi que a casa em exposio durante o processo de adeso cooperativa,

    contava com banheiro e cozinha azulejada, no correspondeu quelas que foram entregues.

    Estas s apresentavam uma massa acrlica na parede, que dava o brilho na cozinha e no

    banheiro e eram cercadas com simples arame farpado. Aps um ano, o conjunto j contava

    com cerca de 40 famlias de moradores (CARDOZO, 2009).

    Neste lapso temporal de inflao galopante, houve inadimplncia por parte dos

    primeiros adquirentes do residencial, o que acarretou venda de casas por parte de seus

    proprietrios ou pela prpria CEF, alterando-se o perfil inicial do que foi projetado para esse

    conjunto territorial. Aos poucos, foi se transformando em abrigo de famlias de baixa renda,

    num processo de periferizao tpica das cidades brasileiras de porte mdio da poca. No

    entanto, iniciativas de mobilizao dos moradores locais puderam reverter essa situao,

    numa luta pelo direito cidade.

    3.3. CARACTERSTICAS TERRITORIAIS ATUAIS DO PARQUE RESIDENCIAL

    Mediante apropriao do bairro pelos moradores, a funo social da propriedade

    foi sendo exercida por meio de projetos coletivos que atriburam novos valores de uso ao

    espao anteriormente construdo pelo governo estadual e que sero aqui apreciados. A

    transformao territorial foi possvel, na medida em que os usurios conseguiram vislumbrar

    um campo de possibilidades, com base na representao que passaram a construir a respeito

    desse novo local de moradia, ajustado imagem desejada de territrio.

    O Parque Residencial Maria Aparecida Pedrossian foi construdo na extrema

    periferia oeste da cidade, atualmente inserido no Bairro de mesmo nome e na Regio Urbana

    do Bandeira (Figura 1).

  • 45

    3.3.1 Caractersticas territoriais de localizao

    O fechamento do Banco Nacional de Habitao (BNH) em 1986, foi

    acompanhado de desmobilizao da burocracia estatal responsvel pelo sistema habitacional,

    desarticulando a poltica pblica de moradias em nvel federal e estadual. Essa situao

    acabou por mobilizar a poltica municipal, particularmente fortalecida aps a Constituio de

    Figura 1 Localizao do Parque Residencial Maria Aparecida Pedrossian na Regio do Bandeira em Campo Grande/MS.

    Fonte: Base cartogrfica do PLANURB, Campo Grande: PMCG, 2007.

  • 46

    1988 e o Estatuto da Cidade. Entre 1991 e 1995 ocorreu paralisao total dos financiamentos

    com recursos do FGTS, forando alguns Municpios a lanarem mo de solues criativas e

    financiamentos alternativos, numa parceria com a sociedade organizada.

    O Municpio de Campo Grande, em pleno processo de urbanizao na dcada de

    1980, tomou as rdeas na implantao de um Sistema Municipal de Planejamento Urbano.

    Iniciou pela implantao do CMDU em 1987 e de outros Conselhos de participao popular,

    passando pela elaborao da Lei de Uso e Ocupao do Solo em 1988 e do Plano Diretor em

    1995, alm de outros mecanismos, como a carta geotcnica e a carta de drenagem. Em 1997

    instituiu a Lei n. 3.429, que criou a Poltica Municipal de Habitao e a Empresa Municipal

    de Habitao (EMHA) destinada a suprir de moradia o segmento social de baixa renda, atual

    Agncia Municipal de Habitao, em Campo Grande. (PLANURB, 2011).

    Somente a partir de 2003, quando o governo federal criou o Ministrio das

    Cidades, se retomou a articulao da poltica urbana em nvel federal. O Municpio de Campo

    Grande instituiu a poltica de desenvolvimento urbano em 2006, criando as 7 Regies

    Urbanas de Planejamento no permetro da cidade, alm de ampliar os canais de participao

    popular. Essa abertura deu-se no que Esteve (2009) chamou de governo municipal no estilo

    gerencial, que busca formas de eficincia e eficcia diante de demanda dos servios pblicos e

    moradia. Nesse estilo de governana, a forma de participao preponderante da populao

    na forma consultiva. Alm de oferecer maior visibilidade s informaes do planejamento

    que ainda continua de natureza tcnica, o Municpio cria mecanismos de consulta populao

    na elaborao dos planos (audincias pblicas, pesquisas de opinio, entre outras). Esse

    processo de consulta no garante a incorporao das opinies populares junto s solues dos

    especialistas do planejamento.

    O Parque Residencial Maria Aparecida Pedrossian e todo bairro de mesmo nome

    se insere na micro bacia do crrego do Lajeado, considerado de grande importncia para a

    cidade, por se tratar do segundo maior sistema de captao e abastecimento da cidade. Como

    a micro bacia tivesse sido objeto de degradao ambiental, diante do desmatamento

    desordenado, ocupao irregular das margens do crrego e recepo de lixo urbano, acabou

    sendo transformada em rea de Proteo Ambiental do Lajeado (APA) (Figura 2) pelo

    Municpio em 2001, que tambm props um Plano de Manejo.

  • 47

    Figura 2 Parque Residencial Maria Aparecida Pedrossian nos limites da APA do Lajeado Fonte: Apa do Lageado Plano de manejo. PMCG. Aguas Guariroba. JGP Consultoria e Participaes Ltda,

    So Paulo, 2008.

    Ao todo, a APA do Lageado ocupa uma rea de 3.500 hectares divididos em reas

    urbanas e rurais (Figura 3).Verifica-se nas reas urbanas o predomnio de loteamentos com

    residncias unifamiliares e mistas.

    Parque Residencial Maria Aparecida Pedrossian

  • 48

    Figura 3 reas Rurais e Urbanas da APA Lajeado Fonte: Apa do Lageado Plano de manejo. PMCG. Aguas Guariroba. JGP Consultoria e Participaes Ltda, So

    Paulo, 2008.

    Parque Residencial Maria Aparecida Pedrossian

  • 49

    A cidade de Campo Grande, de acordo com o censo do IBGE, apresentou em

    2010, um total de 776.242 habitantes em 35.302.82 hectares de rea urbana. A cidade,

    conforme afirma Le Bourlegat (2000), na dcada de 1990 conheceu uma fase de

    fortalecimento da economia de servios e comrcio dentro do Estado, recebeu um

    significativo fluxo de segmento migrante oriundo da camada social de renda mdia, alm de

    abrigar um nmero maior de famlias de baixa renda. O territrio urbano conheceu no mesmo

    perodo reestruturaes em seu modelo de ordenamento, mediante conjugao desses fatores

    econmicos e demogrficos, com melhor articulao das vias de circulao e transporte

    dentro da cidade. A pavimentao asfltica atingiu todas as vias estruturais e perimetrais,

    trajetos de coletivos urbanos, alm de vrias reas residenciais isoladas (LE BOURLEGAT,

    2000). Foi implantado um sistema integrado de transporte coletivo, contribuindo para ampliar

    a fluidez na cidade e o acesso dos moradores do Parque Residencial Maria Aparecida

    Pedrossian ao centro. Essa situao passou a propiciar o surgimento de novas centralidades

    urbanas, mediante surgimento de shoppings centers, e centros especializados de comrcio

    e/ou servios, assim como novos centros residenciais e condomnios fechados em reas mais

    perifricas.

    Isso significou para os moradores do Parque Residencial Maria Aparecida

    Pedrossian, tanto melhoria de acesso aos centros de comrcio e servios, quanto novas formas

    de vizinhanas, tais como os condomnios residenciais de camada social de renda mdia nas

    vizinhanas e tambm reflexos na capacidade de mobilizao dos moradores.

    Em 2010, de acordo com o censo do IBGE, o Bairro Maria Aparecida Pedrossian

    j contava com 9.326 moradores em 3.496 domiclios. Esse bairro, de acordo com o Plano

    Diretor constitudo pelo polgono formado pela Avenida Redentor, BR-262, linha do

    Permetro Urbano (M-14, M-15), trilhos da RFFSA, Anel Rodovirio, Rua Jos Nogueira

    Vieira. Dele fazem parte, o Parque Residencial Maria Aparecida Pedrossian e mais 6

    loteamentos: Jardim Samambaia, Ncleo Panorama, Panorama, Parque Residencial Damha,

    Residencial Oiti, Vivendas do Parque e o Condomnio Fernando Sabino. No mbito da APA,

    o nmero de loteamentos maior (Figura 4). A estrutura de ruas e quadras do Parque

    Residencial Maria Aparecida Pedrossian pode ser tambm apreciada na Figura 5 e Foto 1.

    O bairro Maria Aparecida Pedrossian, em 2010 sofreu uma inflexo no

    aumento populacional apresentado nos ltimos 3 anos. De acordo com os dados do SISGRAN

    da Prefeitura Municipal de Campo Grande, houve acrscimo de 35% de moradores em

    relao quele contingente apresentado em 2007 (6.868 habitantes). Supe-se que tenha sido a

    entrega das casas do ltimo parcelamento: Residencial Oiti.

  • 50

    Figura 4 Loteamentos que fazem parte da rea urbana do APA Lajeado, 2008 Fonte: Apa do Lageado Plano de manejo. PMCG. Aguas Guariroba. JGP Consultoria e Participaes Ltda, So

    Paulo, 2008.

  • 51

    Figura 5 Estrutura de arruamento do residencial

    Fonte: Google Maps, 2011. Disponvel em: http://maps.google.com.br/, acesso em 10/10/2011.

    Foto 1 Parque Residencial Maria Aparecida Pedrossian. Ao fundo o recente Residencial Oiti, Jardim Samambia, Parque Residencial Dahma.

    Foto de: Fernando Skyskrapercity,

  • 52

    O Parque Residencial Maria Aparecida Pedrossian j se encontra com sua

    estrutura de loteamento conectada ao tecido urbano da cidade. Tambm apresenta atualmente

    um relativo adensamento no entorno, frente ao surgimento de novos loteamentos com

    conjuntos habitacionais destinados populao de baixa renda. Dentro do bairro Maria

    Aparecida Pedrossian so os casos de Panorama, Jardim Samambaia, Vivendas do Parque,

    Residencial Oitis, Residencial Fernando Sabino. Mas tambm se avizinha de um grande

    espao reservado s unidades do Parque Residencial Dahma, caracterizadas por conter

    condomnios residenciais de luxo.

    O parque residencial Mara Aparecida Pedrossian conta com um pequeno centro de

    comrcio e servios, inclusive supermercados, alm de uma escola estadual Dolor Ferreira

    de Andrade - e uma Unidade Bsica de Sade (UBS)/Programa de Sade da Famlia (PSF).

    O programa PSF foi institudo no Brasil em 1994, assumido pelo Ministrio da Sade, como

    principal estratgia de organizao de ateno bsica sade do pas. Desde 2001, no entanto,

    a ateno bsica da sade passou a ser competncia do Municpio. A UBS abrigam equipes

    com mdicos (clnicos, pediatras e ginecologista-obstetras), enfermeiros, dentistas, auxiliares

    de enfermagem e pessoal de apoio tcnico. Pode haver outras especialidades. O PSF conta

    com Equipe de Sade da Famlia e priorizam regies urbanas de baixa renda.

    Figura 6 Infraestrutura de educao e saneamento bsico. Fonte: Figura adaptada de Consultoria e Participaes Ltda, So Paulo, 2008.

    Escola Estadual Dolor Ferreira de Andrade UBS/PSF

  • 53

    3.3.2. Iniciativas dos moradores locais na consolidao do territrio e da funo social da

    propriedade

    A Associao dos Moradores do Residencial Maria Aparecida Pedrossian

    (AMAPE), quando assumiu a responsabilidade da gesto do conjunto habitacional, diferente

    de outros conjuntos dessa natureza passou a contar com recursos financeiros, originrios do

    aluguel dos 13 boxes construdos no centro comunitrio. A obrigatoriedade de ser investido

    em obras e servios de interesse do conjunto residencial incentivou o protagonismo local dos

    moradores, cujo processo ser apreciado no capitulo 4.

    Tem chamado ateno, nos dias atuais, o grau de mobilizao e organizao

    atingido pelos moradores desse bairro no exerccio da funo social da propriedade. Ela pode

    ser apreciada no Parque Residencial Maria Aparecida Pedrossian por meio do bem-estar

    social e da qualidade do ambiente urbano j conquistado coletivamente, em direo da

    promoo das condies e da dignidade de vida. Como desdobramento, a mobilizao vem se

    se expandindo no sentido da promoo do ambiente de entorno, que envolve conjuntos

    residenciais vizinhos e toda a rea de Proteo Ambiental do Lajeado, da qual o Parque

    Residencial Maria Aparecida Pedrossian faz parte.

    O protagonismo desses moradores na luta pelo direito cidade e uma gesto mais

    democrtica envolve a cooperao dos moradores entre si, por meio da associao local, como

    tambm com organizaes governamentais, no-governamentais e privadas de fora do bairro,

    em processos de gesto democrtica do bairro.

    A comunicao que marca essa forma solidria de ao coletiva se manifesta, no

    s por meio de espaos de encontro e dilogo dos moradores, j construdos no bairro, como

    de meios estabelecidos para promover uma conectividade de natureza virtual.

    So vrios os projetos coletivos em andamento de iniciativa local, capitaneados e

    coordenados pela AMAPE. Este processo vem sendo interpretado por autores como o

    arquiteto italiano Francesco Indovina (citado por NARCISO, 2009), como apropriao do

    espao pblico. Os projetos de interveno territorial de interesse coletivo acabam por agrupar

    na mesma categoria, reas verdes, praas, caladas e mobilirio urbano na valorizao da

    paisagem. Para esse pensador, alguns espaos pblicos apresentam potencialidade para

    centralizar os projetos de interesse social, de modo que ele se torna o espao de socializao

    de um dado territrio vivido. As prticas de cooperao nos projetos sociais, ao envolverem

  • 54

    organizaes de natureza pblica e privada comprometidas com o mesmo objetivo acabam

    por se fundir nesse processo.

    A Associao dos Moradores do Residencial Maria Aparecida Pedrossian

    (AMAPE) concentrava cerca de 30 projetos de interesse social que envolvem oficinas, cursos

    e outras prticas profissionalizantes, culturais, esportivos e recreativos, assim como

    disponibilizao de alguns servios. Tais projetos contemplam um dos pressupostos da funo

    social da propriedade que a supremacia do interesse pblico para o desenvolvimento das

    funes sociais no territrio vivido.

    Os projetos vm sendo viabilizados pela fora da prpria associao em sinergia

    com um conjunto de parceiros, tais como:

    1- Universidades: Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS),

    UNIDERP/ANHANGUERA;

    2- rgos governamentais do Municpio: Fundao Municipal de Cultura

    (FUNDAC), Fundao Social do Trabalho de Campo Grande (FUNSAT),

    Fundao Municipal de Esporte (FUNESP), Secretaria Municipal de Assistncia

    Social (SAS), Secretaria Municipal de Educao (SEMED);

    3- rgos do governo estadual: Secretaria Estadual do Trabalho e Assistncia Social

    (SETASS), Assembleia Legislativa do Estado, Tribunal de Justia (Justia

    Comunitria), Superintendncia de Proteo e Defesa do Consumidor

    (PROCON/MS);

    4- rgo do governo federal: Ministrio da Cultura (MC);,

    5- Sistema S: Servio de Apoio s Micro e Pequenas Empresas do Mato Grosso do

    Sul (SEBRAE/MS), Servios Social do Comrcio (SESC);

    6- Organizaes No-Governamentais: Instituto de Educao Desenvolvimento

    Humano e Institucional (IEDHI Cidadania), Instituto Sementes do Amanh

    (ISEM), Centro de Documentao e Apoio aos Movimentos Populares

    (CEDAMPO), Associao de Cinema e Vdeo de Mato Grosso do Sul (ACV/MS),

    Sindicato dos Empregados do Comrcio de Campo Grande, Sindicato dos

    Aposentados;

    7- Empresas privadas.

  • 55

    3.3.2.1. Programas Educacionais Extra-Classe na Escola Estadual com apoio da comunidade

    A Escola Estadual Dolor Ferreira de Andrade abriga cerca de 1400 alunos,

    distribudos em 3 turnos. Incluem-se alunos do Ensino Fundamental e Ensino Mdio, alm de

    Educao para Jovens e Adultos.

    Parte das aes educativas apoiadas pela AMAPE realizada em cooperao

    estreita com a Escola Estadual Dolor Ferreira de Andrade e aparecem como atividades

    originrias de projetos educacionais nas reas artsticas, esportivas e de capacitao

    profissional. Dentre alguns desses projetos est a Escolinha de Futebol.

    1. Escolinha de Futebol

    Esse projeto da AMAPE realizado com apoio da Fundao de Esporte

    Municipal (FUNESP). As aulas acontecem trs vezes por semana tanto no perodo vespertino

    quanto no perodo matutino e para poder entrar o aluno necessita ter pelo menos 7 anos e estar

    na escola. Ele s pode permanecer se mantiver bom rendimento escolar, controle mantido

    diretamente entre AMAPE e escola, por meio de Internet. Em 2008, a escolinha j contava

    com 110 alunos (Foto 2)

    Foto 2 Alunos da Escolinha de Futebol, 2008

    A partir dos 14 anos, aps um processo seletivo anterior, podem ser auxiliados a

    realizarem trabalhos profissionais em times de clubes. Recebem, para esse fim, olheiros de

    diversos Estados (Foto 3).

    Foto de: Natalie

    Maluley

    Ml

    l

  • 56

    Foto 3 Adolescentes em preparao para o trabalho profissional, 2008

    2. Projeto Solidrio e Projeto Solidariedade

    A proposta desse projeto pautada na importncia da convivncia solidria. A

    solidariedade ensinada como um objetivo pessoal e coletivo, de modo a se ver nesta forma

    de relacionamento um caminho de transformao cultural na coletividade.

    O projeto foi pensado como meio de praticar a solidariedade humana, de modo

    que alunos, professores, pais e comunidade escolar se sensibilizem com as condies do

    prximo.

    No Projeto Solidrio trabalha-se a identidade pessoal e coletiva. A tradio

    individualista e socialmente irresponsvel muito forte e gera no condicionamento psquico o

    maior obstculo. No projeto solidrio, se criam oportunidades para o aluno desenvolver o

    discernimento de sua situao individualista. Por meio do auto-conhecimento coletivo como

    extenso da auto-percepo individual, buscam-se desenvolver formas de estimular o

    potencial humano no sentido da solidariedade. A cultura da identidade e solidariedade, assim

    como da reflexo a respeito da realidade vivida e do esforo criativo faz parte da prtica

    educativa da escola.

    J o Projeto Solidariedade entra em ao quando famlias passam por situao

    financeira difcil ou o arrimo de famlia perde o emprego. Os alunos so educados no sentido

    de compreender a necessidade no s de aprender a ser solidrio, mas tambm a necessidade

    social de estimular o aprendizado de outrem. Existe uma ao costumeira dos alunos,

    orientados por professores, em realizarem arrecadao no bairro em alimentos e roupas, de

    modo a suprirem a famlia com uma cesta bsica. Engajados com o projeto da escola, os pais

    Foto de: Natalie M

    aluley

  • 57

    de alunos, ao serem informados, tambm se empenham em procurar junto um novo emprego

    ou atividade que venha suprir a perda.

    3. Programa Superao Jovem

    O Programa Superao Jovem tem como objetivo a educao integral, de

    adolescentes e jovens do Ensino Fundamental e Mdio, incentivando o seu protagonismo, na

    aprendizagem colaborativa e na educao por projetos. Em times, eles agem concretamente

    para solucionar problemas de aprendizagem e convvio em sala de aula, alm de idealizarem e

    colocarem em prtica projetos de melhoria da escola e da comunidade.

    No Projeto Superao Jovem os alunos so desafiados a propor solues a

    problemas detectados na coletividade. Alunos acima de 12 anos, identificam problemas e

    coletam sugestes da comunidade e por meio do dilogo na escola, refletem a respeito das

    questes detectadas e se esforam por propor solues criativas e adaptadas realidade e

    anseios de todos.

    4. Banda Musical Dolor Ferreira de Andrade

    A Banda Musical Dolor Ferreira de Andrade, que composta por alunos e ex-

    alunos, acompanhada por um maestro, disponibilizado pela secretaria Municipal de Educao.

    Os ensaios so dirios (Foto 3).

    Foto 4 Banda de percusso Dolor Ferreira de Andrade Fonte: AMAPE, 2011

  • 58

    5. Escola de Lngua Inglesa

    A Escola de Lngua Inglesa funciona aos sbados na Sede da AMAPE, graas ao

    projeto English For All (Ingls ao Alcance de Todos). O objetivo ensinar a lngua inglesa a

    crianas e adolescentes (5 a 13 anos), por meio de mtodos recreativos. Os alunos frequentam

    gratuitamente a escola, embora o requisito sejam as boas notas na escola e recebem todo o

    material necessrio. Os professores so voluntrios e a AMAPE busca apoio para obteno do

    material (Foto 5).

    Foto 5 Escola de Lngua Inglesa na AMAPE Fonte: AMAPE, 2011

    6. Jogos Escolares

    A Prefeitura de Campo Grande por meio da Fundao Municipal de Esportes

    (FUNESP) promove os Jogos Escolares Campo-grandenses, nas modalidades coletivas (futsal

    e voleibol) e individuais (xadrez). Eles remuneram os professores e fornecem as camisetas. A

    AMAPE se responsabiliza pela mobilizao, controle e ambiente. So 100 crianas inscritas

    participando da modalidade (Foto 6)

  • 59

    Foto 6 Equipe feminina Dolar Ferreira de Andrade do Futsal Fonte: PMCG, 2008

    3.3.2.2. Programas Educacionais da AMAPE com apoio da comunidade e parceiros

    Alm das prticas em relacionamento mais estreito com a escola local, a AMAPE

    tambm desenvolve outros com apoio da comunidade e de parceiros de fora do conjunto

    residencial.

    7. Projeto Dana na Rua Enjoy

    O projeto Dana na Rua Enjoy (Street Dance) inclui crianas e adolescentes e tem

    como objetivo a valorizao do desenvolvimento pessoal. As aulas de dana so gratuitas e

    foram idealizadas por uma pessoa de fora da comunidade, que se associou a um danarino

    conhecido para iniciar o trabalho, com apoio financeiro da Fundao de Cultura e Mato

    Grosso do Sul (FUNDAC). Os alunos participam de competies estaduais e nacionais.

    Fazem apresentaes na cidade e fora dela (Foto 7).

  • 60

    Foto 7 Curso de Dana Enjoy Fonte: AMAPE, 2008

    8. Grupo do Muay Thay

    Uma forma de luta originria da Tailndia, cujo grupo se rene 2 vezes por

    semana, sob orientao de professores de uma academia particular. Seu treinamento

    proporciona condicionamento fsico e mental. Ajuda crianas, adolescentes, jovens e adultos

    dos dois sexos a serem dotados de maior poder de concentrao, como tambm a melhorar a

    coordenao motora e o preparo fsico. Aumenta a resistncia cardiovascular, fortalece

    braos, pernas e abdmem e queima de calorias. Alm disso, combate o stress e amplia a

    auto-estima, disposio e serenidade (Foto 8).

    Foto 8 Grupo do Muay Thay Fonte: AMAPE, 2011

    Aline Arajo

  • 61

    9. Grupo Escoteiro Lrio Branco

    O Grupo Escoteiro Lrio Branco, existente desde 1983, constitudo de cerca de

    quase 40 pessoas, entre crianas, adolescentes e jovens (6-21 anos), alm de adultos

    voluntrios. So orientados por um major morador no bairro e sua esposa. Dividem-se em

    patrulhas Chacal e Coruja. Os grupos menores cumprem tarefas dos instrutores. Renem-se

    aos sbados tarde, na praa que marca o incio do bairro. J foram merecedores de vrios

    prmios fora do bairro por seu desempenho (Fotos 9 e 10).

    Foto 9 Grupo de Escoteiros na praa Foto 10 Grupo de escoteiros em campo Fonte: AMAPE, 2011 Fonte: AMAPE, 2011

    10. Escola de Jud

    Esse projeto nascido do projeto Esperana em 2008, com apoio de um deputado

    que fez a doao dos quimonos, funciona em parceria com uma academia de Jud. Atende em

    torno de 160 crianas e adolescentes. Eles participam de torneios. A AMAPE promove

    tambm a doao dos quimonos por parte de quem no o utiliza mais para atender a um

    nmero crescente de interessados (Foto 11).

    Foto 11 Escola de Jud com crianas Fonte: AMAPE, 2011

  • 62

    A escola que conta com trabalho de um professor, bi-campeo em jiu-jitsu vem

    sendo apoiada pela AMAPE. Os alunos, como os do jud tm vencidos torneios dentro do

    Estado (Fotos 12 e 13).

    Foto 12 Alunos do Jiu Jitsu na AMAPE Foto 13 Competio de Jiu Jitsu Fonte: AMAPE, 2009 Fonte: AMAPE, 2009

    11. Escola de Aerbica

    Constitudo por mulheres da comunidade que se renem 2 vezes por semana,

    recebe apoio da Assembleia Legislativa do Estado na remunerao do professor (Foto 14).

    Foto 14 Aulas de Aerbica com mulheres da coletividade Fonte: AMAPE, 2011

    12. Pintura a leo sobre Tela

    Com apoio de um pintor chileno, esse curso teve incio em 2007. Existem crianas

    e adultos e maioria do sexo feminino. A AMAPE promove exposio dos quadros produzidos

    no curso (Foto 15).

  • 63

    Foto 15 Aulas de pintura com crianas Fonte: AMAPE, 2011

    13. Cantinho Feliz

    A AMAPE apoia atividades relacionadas a um grupo de Terceira Idade, que se

    encontra uma vez por semana, apoiado por alunos de universidades. Assistem a palestras,

    realizam prticas de fisioterapia, so atendidas pela equipe da Unidade Bsica e alunos de

    medicina, organizam passeios e recebem cursos de artesanato (Foto 16).

    Foto 16 Grupo de Terceira Idade Cantinho Feliz Fonte: AMAPE, 2011

    3.3.2.3. Programas da AMAPE na promoo do lazer e cultura para a comunidade

    A AMAPE procura desenvolver programas de lazer para a comunidade do

    conjunto residencial, como a escola de dana do salo, dana do ventre, a arte vai praa,

  • 64

    passeios terceira idade, passeios de educao ambiental na APL do Lageado, entre outros

    (Fotos 17-20).

    Foto 17 Escola de dana de salo Foto 18 A arte vai praa Fonte: AMAPE, 2011 Fonte: AMAPE, 2011

    Foto 19 Lazer na praa Foto 20 Passeio na APA Fonte: AMAPE, 2011 Fonte: AMAPE, 2011

    14. Projeto Ponto de Cultura

    O Ponto de Cultura um programa do Ministrio da Cultura, no apoio a

    entidades reconhecidas por desenvolverem aes de impacto scio-cultural em suas

    comunidades. Em Mato Grosso do Sul, os pontos foram selecionados pela Fundao de

    Cultura do Estado de Mato Grosso do Sul. A AMAPE foi selecionada e recebeu recursos

    para desenvolver atividades com capoeira, bal e coral (Fotos 21-23).

  • 65

    Foto 22 Grupo Ballet & Jazz Fonte: AMAPE, 2011

    15. Projeto Ponto de Exibio de Cinema

    Uma vez por semana, so exibidos para a populao (Foto 22), em parceria com a

    Associao de Cinema e Vdeos de Mato Grosso do Sul (ACV/MS), filmes patrocinados pelo

    Ponto de Cultura - Arte e Cidadania do Ministrio da Cultura e pela Fundao para o

    Desenvolvimento das Artes e da Comunicao (FUNDAC).

    Foto 21 Grupo da Capoeira Quilombinho Fonte: AMAPE, 2011

  • 66

    Foto 23 Ponto de Exibio de Cinema

    Fonte: AMAPE, 2011

    3.3.2.4. Programas da AMAPE na promoo de cursos profissionalizantes

    A AMAPE, em parceria com organizaes de apoio, especialmente aquelas do

    Sistema S (Sebrae, Senai, Sesc), tambm vem procurando promover cursos de capacitao

    profissional, de interesse da comunidade, tais como Informtica Bsica, Telemarketing,

    Operador de Caixa, Manuteno de Micro, Assistente Administrativo, entre outros.

    16. Curso de Artesanato

    Esse grupo teve incio em 2003, por iniciativa da Associao de Mulheres do

    Maria Aparecida Pedrossian, como grupo de artesanato, para gerar trabalho e renda, com

    apoio do SEBRAE/MS. Uma vez por semana oferecido um curso de bordado em Chinelos,

    vagonite e crivo, aproveitamento de materiais reciclveis, pintura em tecidos (Foto 24).

    Foto 24 Curso de artesanato

    Fonte: AMAPE, 2011

  • 67

    17. Vrios outros cursos profissionalizantes (Fotos 25-28)

    Foto 25 Curso de assistente administrativo. Foto 26 Curso de cabelereiro. Fonte: AMAPE, 2011

    Foto 27 Curso de assistente administrativo Foto 28 Curso de costura Fonte: AMAPE, 2011 Fonte: AMAPE, 2011

    3.3.2.5. Programas da AMAPE na oferta de servios de interesse coletivo

    Com apoio de organizaes, a AMAPE vem oferecendo servios de interesse

    social da comunidade.

    18. Justia Comunitria

    Mediante apoio do Tribunal da Justia, a AMAPE mantm atendimento de

    segunda sexta pela manh de servio de justia comunitria para realizar casamento,

    divrcio, solucionar questes relacionadas a pequenas dvidas, penso alimentcia, conflitos

    entre vizinhos, guarda de menores, nascimento, bito, emitir vias de certides, entre outros.

  • 68

    19. Atendimento ao Consumidor

    A AMAPE oferece uma vez por semana o servio do PROCON/MS, no

    atendimento a conflitos de compra e venda aos moradores do conjunto residencial.

    Atendimento Sade

    Ainda existe atendimento oferecido por universidades e a UBSF de psicologia,

    fisioterapia e aferio de presso arterial, realizada principalmente com idosos.

    20. Atendimento aos aposentados e pensionistas

    Duas vezes por semana, o rgo parceiro Sindicato Nacional dos Aposentados

    Pensionistas e Idoso (SINDINAPI) realiza atendimento na AMAPE, para orientaes jurdicas

    com advogados, que encaminham as aes de aposentados e pensionistas e outros

    interessados.

    21. Vale Renda

    Projeto do governo estadual, com o objetivo de apoio s famlias de baixa renda.

    A AMAPE disponibiliza uma tarde do ms para as reunies com as famlias cadastradas.

    Estas recebem informaes a respeito dos servios sociais bem como assistida pela equipe

    de governo.

    22. Programa Mesa Brasil

    Trata-se de um programa do SESC de segurana alimentar. A participao pode

    ser feita por meio de doaes de equipamentos, utens-lios, material de consumo e,

    principalmente, pela doao de produtos alimentcios prprios para o consumo. Alimentos so

    distribudos s famlias necessitadas das comunidades adjacentes cadastradas.

    23. Caminho Bibliosesc

    Trata-se de um programa em que a cada 15 dias, um nibus com biblioteca

    volante permanece no bairro para emprestar e recolher livros de leitura.

    Observa-se que os moradores do Parque Residencial Maria Aparecida Pedrossian

    passaram a se reapropriar desse espao produzido pelo governo estadual, por um processo de

  • 69

    construo social. E, a rede de relaes que vem sendo estabelecidas pelos atores engajados

    no projeto de transformao do local veem nele um campo de possibilidades, conforme

    apontado por Raffestin (1993). A produo do territrio se faz por meio de interao entre os

    moradores com apoio de organizaes. E, nessa perspectiva eles se inscrevem num campo de

    poder. Essa apropriao implica numa territorializao que envolve coisas concretas do

    espao vivido ou a simples representao desses atores em relao a essas coisas. Dele faz

    parte um conhecimento e uma prtica com base num conjunto de valores e simbologias que os

    identifica e conduzem seu comportamento.

  • 70

    4 FUNO SOCIAL DA PROPRIEDADE ESTABELECIDA NA LUTA

    PELO DIREITO AO LOCAL DE MORADIA NA DIMENSO

    SUBJETIVA DA COLETIVIDADE

    Este captulo se destina compreenso da dimenso subjetiva construda no

    processo de estabelecimento da funo social da propriedade urbana na luta pelo direito ao

    local de moradia no Parque Residencial Maria Aparecida Pedrossian. Interessa averiguar qual

    a percepo e representao social ou imagem construda a respeito da origem e trajetria do

    bairro, revelada na fala desses moradores por meio da entrevista semiestruturada.

    4.1 MEMRIA DOS MORADORES SOBRE AS ORIGENS DO PARQUE RESIDENCIAL

    MARIA APARECIDA PEDROSSIAN E AS DETERMINANTES DA FUNO SOCIAL

    DA PROPRIEDADE

    A memria dos moradores locais a respeito da construo da funo social da

    propriedade no Parque Residencial Maria Aparecida Pedrossian foi resgatada, verificando-se

    em que momento e de que forma teriam emergido algumas determinantes da funo social da

    propriedade. Procurou-se nesse processo observar em que circunstncias o interesse coletivo

    passou a prevalecer sobre o individual no uso da propriedade urbana, na busca do uso social,

    tendo em vista a melhoria das condies do ambiente de moradia.

    4.1.1 Memria sobre as origens uso do bairro

    Est presente na memria coletiva dos moradores do Parque Residencial MAP a

    projeo inicial feita pelo Poder Executivo Estadual de abrigar o funcionalismo pblico,

    notadamente os servidores estaduais que trabalhariam no ento recm-construdo Parque dos

    Poderes. O projeto trazia como justificativa a proximidade desse local onde se projetava

    concentrar todo o ncleo administrativo do Estado.

  • 71

    Essa memria local e coletiva a respeito das origens do bairro foi possvel de ser

    resgatada por meio da fala de antigos moradores, que passaram a residir no bairro ainda na

    condio de funcionrios pblicos do governo estadual, em atendimento aos objetivos do

    planejamento do bairro. Um dos entrevistados foi servidor pblico estadual e presidente da

    associao de moradores, que reside no bairro desde 1983. Este confirmou que o residencial

    fora criado para servir de moradia aos funcionrios pblicos estaduais. Na sua viso, a

    implantao ocorrera em acordo prtica poltica da poca, quando o ento Governador do

    Estado, havia sido conduzido ao cargo pelos militares. O governador, segundo ele, optou por

    colocar o nome de sua esposa no residencial, que poca, efetuava vrios trabalhos de carter

    social no Estado recm-criado.

    Os primeiros moradores recordam-se do momento inicial de acesso s moradias

    do Parque Residencial. Havia a produo padronizada de moradias, com o mximo

    aproveitamento dos terrenos, visando o baixo custo. A opo de compra era por casa de dois

    ou de trs quartos, sendo estas recebidas por meio de sorteio. Um dos entrevistados relata que

    recebeu sua casa num sorteio ocorrido no Teatro Glauce Rocha, no campus da universidade

    federal.

    Uma das particularidades vistas como positiva para as famlias que decidiram

    ocupar o bairro, segundo os entrevistados, era o fato das mesmas se depararem desde o incio

    com uma infraestrutura de servios considerada rara para os padres da cidade. O Parque

    Residencial MAP foi entregue aos novos moradores com ruas asfaltadas e alguns edifcios

    prontos para funcionarem como escola, prdio da delegacia, unidade de sade, creche e 13

    boxes de unidades comerciais.

    No obstante a infraestrutura interna, o perfil inicial dos moradores, segundo os

    relatos, o Parque Residencial Maria Aparecida Pedrossian (MAP) surgiu com um segmento

    social diferenciado de outros bairros da periferia. A renda familiar era maior, dado ao nmero

    de pessoas com empregos estveis e salrios maiores no funcionalismo pblico.

    Na viso dos entrevistados, o protagonismo dos moradores foi deflagrado por

    meio de manifestao particular das famlias recm-chegadas. Estas, na medida em que foram

    ocupando as casas, tiveram a iniciativa de reform-las, ampliando-as e arrumando suas

    caladas, atribuindo imagem diferenciada a cada residncia dentro do conjunto padronizado.

    A ocupao do bairro, conforme puderam manifestar os sujeitos pesquisados, foi realizada,

    em sua maioria, por casais jovens de renda mais elevada em relao aos moradores

    perifricos. Muitos no tinham filhos ou tinham filhos pequenos e aspiraram no s de maior

    conforto e adequao da casa ao seu modo de vida, como tambm procuravam se diferenciar

  • 72

    socialmente. Iniciativas dessa natureza contriburam para alterao e melhoria do bairro em

    seu conjunto.

    Ainda que relativamente bem estruturado internamente, o Parque Residencial

    MAP, no incio de sua constituio, se apresentava muito isolado em relao estrutura do

    tecido urbano constituda. Isso se traduzia, segundo os moradores entrevistados, em grandes

    dificuldades de acesso virio ao centro urbano de Campo Grande. Essa situao ficava mais

    crtica pelo fato do bairro ser desassistido de servios de transporte coletivo.

    Essas circunstncias dadas pelo isolamento do bairro em relao ao tecido urbano

    e ao centro de comrcio e servios, numa cidade de natureza monocntrica, repercutiram em

    carncia de alguns outros servios coletivos dentro do bairro. Entre eles se destacavam a

    melhor iluminao das ruas e a segurana dos moradores bairro.

    preciso salientar, segundo relato dos atuais moradores, que o sentimento de

    isolamento por parte famlias recm-chegadas em relao ao restante da cidade teve

    repercusses de grande peso no destino do bairro. De um lado, contribuiu para o abandono

    das casas, fato que repercutiu na alterao do perfil inicial social do bairro. De outro, acelerou

    a conscientizao coletiva dos moradores do direito de se mobilizarem de forma coletiva na

    luta pela melhoria de seu local de moradia.

    4.1.2 Mudana do perfil dos moradores

    O Parque Residencial MAP, durante o momento de sua ocupao acabou por

    sofrer alterao de contedo social. Acabou por no se concretizar plenamente o perfil

    esperado de famlias de funcionrios pblicos, frente ao comportamento de grande parte dos

    moradores que havia se proposto a ocupar o bairro.

    A dificuldade de acesso do bairro ao nico centro de comrcio e servios de

    Campo Grande se fez sentir principalmente pela inexistncia de servio de transporte coletivo.

    Segundo relatam os atuais moradores ... muita gente achou que era longe e desistiu da

    casa..., e outros entregaram para a CEF para ...ficar livre e poder fazer inscrio em outro

    local. Por achar o bairro muito longe de tudo, alguns dos proprietrios originais acabaram

    por deixar de honrar com as prestaes do financiamento e abandonaram suas casas. Nessas

    circunstncias, grande parte das casas abandonadas teve que ser reassumida pela Caixa

    Econmica Federal. Esta acabou repassando tais residncias a famlias de outro perfil

    profissional com renda menos elevada.

  • 73

    As novas famlias, conforme se pde escutar de parte dos entrevistados, teriam

    sido recebidas com um relativo estranhamento de carter preconceituoso por parte dos

    moradores originais embora isso tivesse sido uma reao temporria, que em pouco tempo

    desapareceu. Outro segmento de entrevistados afirmou nem ter conhecimento de qualquer

    reao desse tipo por parte de moradores originais. Para este segmento, ... a turma brigava

    por causa de futebol e no por causa de preconceito....

    4.1.3 Aspiraes e prticas coletivas na luta pela melhoria da moradia

    O espao social da cidade, no aporte das ideias de Lefebvre (1999), produzido

    por meio de relaes sociais associadas a uma forma de uso do espao vivido, processo

    gerador de diferentes quadros de vida social. Com efeito, no caso do Parque Residencial

    MAP, as relaes sociais foram construdas no uso de vrios espaos.

    Nos diferentes pontos do bairro, segundo se pde interpretar a partir da fala dos

    entrevistados, os moradores remanescentes e os novos recm-chegados foram construindo

    formas especficas de relacionamento social. Pelo que se pde depreender dos relatos, o perfil

    social do bairro constitudo nos anos 80 e as condies vividas e percebidas em relao

    moradia exerceram peso importante nesse processo. A diversidade de iniciativas locais na

    soluo dos problemas de moradia passou a ter relaes com os diferentes quadros de vida

    constitudos nos bairros.

    No conjunto, os diversos relacionamentos sociais construdos em diferentes

    espaos no MAP favoreceram a construo de um sentimento de vizinhana e de

    pertencimento ao bairro. A identidade comum, na fala dos entrevistados, era ser morador do

    MAP. Esse sentimento, associado s condies de isolamento dessa comunidade em relao

    ao restante da cidade, pelo que se pde interpretar, contribuiu para conscientizao de que o

    acesso cidade e a melhoria de certos aspectos da infraestrutura do bairro precisavam ser

    urgentemente tratados como interesse coletivo, exigindo a mobilizao organizada como fora

    de concretizao.

    Como j se afirmou acima, os relacionamentos de solidariedade social emergiram

    em diversos lugares e situaes dentro do Parque Residencial Maria Aparecida Pedrossian. Na

    memria dos moradores, destacaram as interaes sociais construdas no acesso e uso da

    escola, no campo de futebol, nas residncias de alguns grupos constitudos e no acesso ao

    centro da cidade. Destaque maior relacionado aos relacionamentos que contriburam na luta

  • 74

    coletiva pelo espao de moradia foi atribudo ao pequeno centro de comrcio e servios

    estruturado no espao dos 13 boxes

    Segundo os entrevistados, vrios foram os moradores que fizeram uso da unidade

    escolar do bairro. O entrosamento entre famlias vizinhas foi ocorrendo pela convivncia,

    especialmente por meio de amizade dos filhos, inclusive com revezamento de pais para se

    buscar as crianas na escola.

    A prtica coletiva do lazer foi emergindo espontaneamente, com destaque para o

    futebol, apontado pelos entrevistados como uma dos espaos de convergncia por meio da

    qual os moradores passaram a se enturmar.

    Uma modalidade peculiar de solidariedade emergente no bairro foi o muai, uma

    prtica da cultura japonesa que funciona como uma espcie de poupana programada,

    realizada no circuito de um grupo de pessoas de confiana. Elas serviram especialmente de

    auxlio ao levantamento de capital para as reformas de edifcios de moradia e comrcio. Essa

    prtica foi reveladora do nvel de confiana e de capacidade organizacional que passou a

    emergir entre os moradores ainda no incio de existncia do Parque Residencial MAP.

    No processo inicial de convivncia coletiva, a falta dos servios de transporte

    coletivo passou em parte a ser superada, mediante o aparecimento da prtica da carona

    amiga por parte de quem possua automvel. Essa forma de solidariedade foi mais comum

    entre moradores vizinhos ou amigos do futebol.

    No relato dos moradores locais, espao inicial de convergncia mais importante

    na reflexo das condies vividas e mobilizao coletiva na luta por melhorias dentro do

    bairro tornou-se o centro comercial estruturado nos 13 boxes. Dada a distncia e dificuldade

    de acesso ao centro da cidade, os produtos e servios bsicos dos moradores eram em grande

    parte supridos nesse pequeno centro comercial. Nele funcionavam, entre outros, a padaria,

    aougue, quitanda e a barbearia.

    O pequeno centro de comrcio e servios do bairro, na viso dos entrevistados,

    era o espao que conseguia atrair e aglomerar a maior parte dos moradores, propiciando o

    encontro no bairro. O momento mais significativo costumava ocorrer aos sbados. Como

    local de convergncia proporcionou oportunidade ao estreitamento de laos entre grande parte

    de famlias residentes no bairro que no eram vizinhas imediatas. No momento das compras

    se davam as trocas de ideias e conversas sobre problemas comuns dentro do bairro. Tais

    ocasies favoreceram a configurao de objetivos de melhorias que faziam parte de

    aspiraes coletivas, assim como a passagem de situao da antiga Cooperativa dos

  • 75

    Servidores Pblicos do Estado (COONISUL) e concretizao da Associao de Moradores do

    Parque Residencial Maria Aparecida Pedrossian (AMAPE) em 1984.

    Interessante observar que as primeiras iniciativas de organizao mobilizada no

    Parque Residencial Maria Aparecida Pedrossian emergia concomitante ao momento em que o

    direito cidade tambm ganhava ateno dentro do Brasil. Foi quando o movimento de

    reforma urbana da dcada de 80 conseguiu se expandir e ganhar espao na Constituio

    Federal de 1988. Comeava a prevalecer nas leis brasileiras o interesse coletivo sobre o

    individual no uso da propriedade urbana. Isso significava um maior respeito ao direito de

    quem habita a cidade de participar democraticamente na transformao do territrio vivido,

    visando a construo de um futuro comum de bem estar.

    4.1.4 Primeiras conquistas no suprimento de necessidades coletivas

    Na memria dos moradores locais, observou-se um perodo de mudanas de

    ordem mais coletiva no MAP, a partir de 1984, amparada a partir de ento, pela Associao

    dos Moradores, que desde seu surgimento pde contar com os recursos financeiros gerados

    pelo aluguel dos 13 boxes. No mbito da AMAPE, os relacionamentos secundrios de

    regulao coletivo-societrias exerceram forte peso na organizao inicial dos moradores.

    Mas tambm foi por meio da associao que esprito de comunidade abrangendo a totalidade

    dos moradores foi sendo despertada, afirmando-se como identidade de grupo dentro da

    cidade.

    Pde-se interpretar pela fala dos entrevistados que um cenrio de futuro comum

    foi sendo configurado como imagem coletiva idealizada coletivamente, ao mesmo tempo em

    que se desencadeava um conjunto de iniciativas coletivas de cunho social com vistas a

    melhorias do local para se viver. Nessas circunstncias, a soluo dos problemas de aspirao

    comum dos moradores exigia iniciativas deles prprios, uma vez que os planejadores dos

    rgos governamentais no demonstravam potencialidade para traduzir e se sensibilizar

    adequadamente a elas. As solues de natureza tcnica e financeira padronizadas dentro da

    cidade ignoravam as verdadeiras necessidades que brotavam na vida cotidiana daqueles que

    efetivamente faziam uso do Parque Residencial MAP.

    O plano de mudanas na estrutura e uso social do bairro, portanto, teve que partir

    da sociedade civil, com base na situao concretamente vivida por quem dele faz parte. Isso

    no quer dizer que os moradores no tenham buscado solues junto ao Poder Pblico

    Municipal. Elas foram necessrias e contriburam para as conquistas. Mas foi fundamental

  • 76

    para sua concretizao o protagonismo local dos moradores. Foi lembrado tambm que as

    vrias frustraes na conquista dos recursos solicitados conduziram a iniciativas no processo

    de apropriao de tais recursos, no qual se ignorava ou nada se esperava do Poder Pblico.

    Nesse caso, os moradores se perceberam exercendo um papel de protagonista do seu

    desenvolvimento e no de mero espectador de decises pblicas.

    As iniciativas que conduziram a tais conquistas corroboraram a assertiva de

    Pecqueur (2000) relacionada ao significativo papel do enraizamento do ator no processo de

    desenvolvimento local. Segundo ele, so os atores j enraizados no lugar que se tornam os

    mais comprometidos com o futuro coletivo e se propem a engendrar recursos particulares e

    solues inditas em seu territrio de vida. Os nexos estabelecidos entre os atores enraizados

    tambm propiciam maior esprito de cumplicidade entre si.

    Nas palavras de Martins (2002): grosso modo, as pessoas, consideradas em suas

    distintas possibilidades sociais e econmicas, relacionam-se com as condies de ocupao e

    sobrevivncia do lugar, com ele se identificam, dele se apropriam, nele formam razes.

    A mobilizao inicial dos moradores por meio da associao deu-se especialmente

    na soluo criativa para compensar a ausncia de alguns servios de infraestrutura

    considerados bsicos para os moradores em situao de isolamento.

    Entre os servios considerados relevantes, cuja implantao e melhoria foram

    sendo conquistadas por meio de mobilizao organizada, estiveram aqueles de natureza

    financeira. Um dos exemplos dessas iniciativas mais relevantes relaciona-se emergncia dos

    grupos que se solidarizaram por meio do muai na obteno de recursos financeiros para a

    reforma das casas, envolvendo a calada pblica. Nesse caso, por meio da solidariedade o

    bairro conseguiu suprir com autonomia suas prprias necessidades, ou seja, os recursos

    financeiros passaram a emergir de dentro da prpria coletividade.

    Ficou tambm marcado na representao coletiva dos moradores o cenrio de

    implantao da primeira casa lotrica, de modo a possibilitar o pagamento das contas pblicas

    dentro do prprio bairro.

    A cobrana de servios que deveriam ser realizados por rgos do governo,

    tambm era feita pela associao. A luta avanou at a obteno de parceria com Caixa

    Econmica Federal, na instalao um ponto de caixa eletrnico, possibilitando aos moradores

    pagamentos de contas e saques de importncia, sem sair do bairro.

    Os servios de infraestrutura fsica tambm requisitaram a organizao coletiva do

    bairro por meio da AMAPE, envolvendo lutas significativas, seja para conquista de

    implantao ou de melhoria.

  • 77

    O abastecimento de gua original das casas do bairro teve origem numa fonte de

    gua e uma bomba, tendo sido administrada por longo tempo pela associao dos moradores.

    Os servios de iluminao das ruas deixavam a desejar e colocava a segurana dos

    moradores em risco. Os moradores mencionam que no incio saiam pelo Bairro pintando os

    postes que estavam sem luz. Mediados pela associao de moradores (AMAPE), exigiam

    junto empresa de energia pblica ENERSUL o reparo dos mesmos.

    Os moradores ainda acentuaram em suas lembranas, a manifestao de

    iniciativas coletivas visando garantir a segurana das ruas e de suas casas, mediante

    contratao privada e coletiva de vigias para a ronda do bairro. A mobilizao coletiva em

    torno da segurana do bairro, por meio da AMAPE tambm resultou na conquista da

    implantao da delegacia bairro, no edifcio j construdo para esse fim.

    Outra necessidade considerada premente por parte dos moradores dizia respeito

    aos espaos e servios de lazer. Pelo esforo conjunto das famlias residentes, segundo os

    relatos, foi organizada no espao estruturado do bairro, duas praas pblicas e as atividades de

    lazer.

    Foi por meio da AMAPE que o Transporte Pblico que permitisse o acesso ao

    centro da cidade foi resolvido. Ocorreram reunies constantes na sede da associao para se

    discutir o assunto. Uma das determinantes favorveis na agilizao das tomadas de deciso

    dos organismos de governo nesse aspecto, segundo os relatos, era o fato de vrios moradores

    serem funcionrios pblicos, portanto como melhor acesso s pessoas responsveis por tais

    servios.

    Os moradores se solidarizaram na implantao de uma parquia que favorecesse a

    prtica do servio religioso. Houve mobilizao dos moradores junto Prefeitura, na

    solicitao de doao de terreno, visando construo de um edifcio para abrigar dentro do

    bairro a sede da parquia So Leopoldo Mandic. Ante a impossibilidade do Poder Pblico

    fazer esta doao, a no ser por comodato, recusado pelo Bispo de Campo Grande, a soluo

    encontrada foi a doao de um terreno da prpria associao, onde inclusive, j funcionava

    uma Igreja Evanglica. No incio, as missas eram realizadas na sede da associao com um

    padre que vinha dois domingos por ms da Parquia Nossa Senhora de Ftima, a qual a

    comunidade do MAP ficou vinculada. Os gastos da parquia eram supridos mediante

    iniciativa dos moradores de obteno de fundos por meio de promoo de eventos.

    Alguns servios pblicos para o bairro tambm foram conquistados em parceria

    da AMAPE com os rgos responsveis pelo seu suprimento.

  • 78

    Um caso exemplar foi a parceria realizada entre a AMAPE e a Prefeitura, na

    coleta do lixo dentro do bairro. Recursos foram repassados para que a mesma fosse

    organizada e praticada pelos prprios moradores. O processo se dava por meio da

    formalizao de um cadastro das pessoas interessadas em participar da coleta e ao mesmo

    tempo, a Prefeitura Municipal repassava o pagamento que era transferido ao morador

    participante. Observe-se que a iniciativa envolvia a potencializao de um dos fortes recursos

    dentro do bairro, ou seja, a mo de obra que era mobilizada junto s famlias de baixa renda.

    Essa prtica de mobilizao da mo-de-obra local, segundo os moradores, acabou

    se tornando tradio no Parque Residencial Maria Aparecida Pedrossian.

    O isolamento acabou por favorecer iniciativas de empreendedorismo local mais

    adaptado s necessidades dos moradores e que desde o incio valorizaram a mobilizao da

    mo-de-obra local excedente. At o presente momento, se observa a significativa valorizao

    que os moradores atribuem ao comrcio local e iniciativas de empreendimento local que se

    utiliza da mo-de-obra do bairro.

    Um dos casos exemplares desse tipo de empreendedorismo foi relatado pelo

    proprietrio do supermercado mais importantes do bairro. Seu negcio comercial nasceu na

    prpria casa, com apoio da famlia e da mo-de-obra local. Como morador ele vivenciava o

    problema do horrio de funcionamento do pequeno centro comercial constitudo nos 13

    boxes. O comrcio funcionava entre 7 e 17 horas, de modo que eram muitos os moradores

    que saam para o trabalho antes da abertura e voltavam aps o fechamento sem conseguir

    fazer as compras do cotidiano. A nova mercearia passou a funcionar entre 6 e 22 horas,

    portanto com maior oportunidade aos moradores de fazerem suas compras no bairro. De

    incio, o pequeno comrcio foi tocado apenas pela esposa que combinava esse trabalho com as

    tarefas do lar. Foi curto o perodo em que o empresrio teve que abandonar seu emprego

    para assumir pessoalmente a mercearia com a esposa. Esse morador lembra que na poca, o

    negcio que ocupava apenas um quarto da casa, foi ampliado para a sala, fazendo-se uma

    varanda na frente, onde passou a funcionar tambm uma lanchonete. O dinamismo desse

    estabelecimento foi tal que foi preciso abandonar a casa e construir outra pea nos fundos,

    para morar com sua famlia. Logo em seguida, acabou comprando a casa do vizinho para

    agreg-la ao negcio. Atualmente, proprietrio dos dois supermercados existentes no bairro,

    um deles funciona no antigo centro comercial. E ainda a renda desta locao que mantm as

    atividades da AMAPE.

    Trata-se de um tipo de negcio nascido no lugar por iniciativa de um morador j

    enraizado, portanto com maior sensibilidade para as necessidades do bairro. nesse sentido

  • 79

    que se entende o motivo desse morador em dar preferncia para a mo-de-obra local no

    funcionamento de seu negcio. Desde o incio, o empresrio diz ter optado por isso. No

    momento da entrevista, do total de 86 empregados mobilizados pela empresa, mais de 70%

    era composto por pessoas residentes no Bairro ou em seus arredores. muito comum,

    conforme mencionou, o estabelecimento ser o primeiro emprego dos jovens do local. Segundo

    ele, so as prprias famlias que pedem emprego para seus filhos, famlias estas muitas vezes

    antigas conhecidas do ento morador. O empresrio afirmou utilizar-se dos servios de um

    morador para fazer a propagando de seu negcio no bairro com um carro de som. O mesmo

    confessou que j havia contratado um grupo de pessoas do local para formular uma pesquisa

    sobre a abertura de uma nova loja, em um dos bairros do entorno.

    Na viso dos entrevistados, o atual centro comercial do MAP, inclui os

    supermercados, lojas, lan houses, escritrios de profissionais liberais, dentistas entre outros.

    Ele experimentou um incremento com a construo de outros bairros no entorno e a existncia

    desses consumidores vizinhos tem sido importante para a prpria manuteno desse comercio

    no bairro. Portanto, atua como pequeno polo de atrao para esses moradores dos bairros

    vizinhos que por seu turno, tambm ajuda a mant-lo.

    4.1.5 Apoio das instituies locais na luta coletiva pela melhoria das condies de

    moradia no bairro

    As determinantes do processo inicial de mobilizao contriburam, conforme se

    pde avaliar pela fala de seus habitantes, para a manifestao dos vrios campo de foras

    coletivas envolvendo os moradores na soluo de problemas, necessidades e aspiraes

    comuns. Essas circunstncias, ao proporcionarem fora coletiva aos moradores, tambm

    contriburam para atrair a adeso de outros agentes e instituies na transformao do

    territrio vivido. Na medida em que esse processo foi ocorrendo, aflorava um processo

    endgeno cada vez mais integrado de desenvolvimento, de modo a garantir maior

    sustentabilidade vida do bairro.

    Uma das organizaes que exerceu papel inicial importante no apoio s

    necessidades coletivas, segundo os moradores, teria sido a parquia da Igreja Catlica. Como

    organizao com forte capacidade de convergncia e articulao de grande parte dos

    moradores, seu principal apoio se destinava a amenizar as dificuldades financeiras de algumas

    famlias para seu sustento. Tambm tentava dar apoio manuteno da creche local, de modo

    que as mulheres pudessem se liberar para o trabalho.

  • 80

    Nesse aspecto, as consideraes j feitas por Maluf (1997), a respeito do papel

    que a Igreja Catlica h muito tempo vm exercendo na concretizao da funo social da

    propriedade precisam ser levadas em conta. Segundo ele, sempre foram realizadas por meio

    de reivindicaes por uma sociedade mais justa. Por outro lado, a Igreja Catlica na dcada de

    80 participava do conjunto de organizaes que fazia presso articulada junto Constituio

    de 1988, para o Movimento da Reforma Urbana. Uma das presses da Igreja Catlica, nesse

    sentido, ocorria no sentido de cobrar maior responsabilidade ao planejamento urbano em

    assumir a cidade real, irregular, informal e clandestina.

    Interessante observar nesse aspecto, como se sentia o doador num processo

    coletivo de apoio solidrio dessa natureza dentro do bairro. Um dos entrevistados que

    mantinha negcio no bairro, informou que nunca fez da doao um meio de promover seu

    negcio. Em realidade, preferia que ningum ficasse sabendo de sua ajuda. Para ele, o auxlio

    que prestava se devia, sobretudo ao fato de ser para o local onde venceu com sua famlia, o

    que reflete uma situao de enraizamento.

    As circunstncias de mobilizao coletiva relatada pelos moradores configuram a

    deflagrao de um processo de desenvolvimento local, ocorrido desde suas origens e nas

    condies dadas na poca. Na fala dos moradores se revela a organizao e dinamizao de

    um campo de foras coletivas de origem endgena, que envolvem os residentes e instituies

    de apoio, no agenciamento e gesto de iniciativas para soluo de problemas, necessidades e

    aspiraes comuns.

    Apontando um diferencial do desenvolvimento local, Martins (2002) afrima: O

    verdadeiro diferencial do desenvolvimento local no se encontra em seus objetivos (bem-

    estar, qualidade de vida, endogenia, sinergias etc), mas na postura que atribui e assegura

    comunidade o papel de agente e no apenas de beneficiria do desenvolvimento.

    Como descrito no captulo anterior, os moradores puderam confirmar que

    atualmente so vrios os projetos, viabilizados pela AMAPE, com a participao dos

    moradores e apoio de alguma entidade parceira.

    4.2 ORGANIZAO ATUAL DOS MORADORES NA MANUTENO DA FUNO

    SOCIAL DA PROPRIEDADE

    A pesquisa junto aos moradores tambm se estendeu avaliao que os mesmos

    apresentam de sua organizao atual, interpretada como forma coletiva de se garantir a

    manuteno da funo social da propriedade, por meio uso social justo da terra urbana.

  • 81

    Nesse sentido, foi possvel verificar, por meio da fala dos moradores, que a

    AMAPE ainda tem funcionado como principal espao de convergncia dentro do bairro. Tem

    sido de significativa importncia na reflexo e tomadas de deciso coletiva, no que concerne a

    problemas e aspiraes comuns.

    Ocorreram, no entanto, avanos nesse sentido, na medida em que acabaram por

    se concretizar em escalas menores da comunidade, novos espaos de convergncia, visando

    soluo de problemas mais especficos. Tais espaos organizados ao nvel da microescala,

    pelo que se pode inferir dos relatos, emergiram justamente em localidades que apresentaram

    maior potencialidade para a construo de nexos de solidariedade entre os moradores, tais

    como a escola, espaos de prticas religiosas e de lazer, unidade de sade.

    4.2.1 Associao dos Moradores do Parque Residencial Maria Aparecida Pedrossian

    A Associao de Moradores do Parque Residencial Maria Aparecida Pedrossian

    (AMAPE) ainda exerce, segundo os entrevistados, papel fundamental no protagonismo dos

    moradores do bairro. Ela funciona, de fato, como legtima representante dos interesses

    coletivo dentro do bairro nos principais aes e projetos de melhoria no local. Serve de

    importante ponte entre a coletividade do bairro, o poder pblico e outras organizaes

    parceiras. Nesse sentido, a associao tem sido o espao mais importante da gesto territorial

    democrtica dentro do bairro, na medida em que propicia, conforme aponta Souza (2000),

    uma relao cada vez mais aperfeioada entre a sociedade e o Estado na definio do

    desenvolvimento da coletividade. Trata-se de uma forma de gesto que favorece maior

    adequao s especificidades e necessidades sociais em seus territrios de vida, mediante

    ampla participao social.

    O presidente da Associao se apresenta, por meio de sua fala, como algum que

    procura desempenhar o papel de agente interno de desenvolvimento local. Ele aposentado e

    dedica quase todo seu tempo associao. Quando se mudou para o bairro, j apresentava

    significativa experincia, trazida de prticas organizativas em movimentos sociais, dentro da

    Igreja Catlica e de partido poltico. Tem-se esforado por atender interesses diversificados e

    demonstra grande capacidade de articulao.

    nesse espao de convergncia da sede da AMAPE que hoje se debate sobre a

    maior parte dos problemas identificados no bairro que afetam a coletividade. As decises

    tomadas so disseminadas por meio de um mecanismo de comunicao na forma de jornal,

  • 82

    entregue aos moradores do bairro, como tambm por meio de um site especfico da

    associao, por meio do qual foi criada uma comunidade virtual.

    A propsito, na poca da entrevista, a AMAPE convergia presena macia dos

    moradores para discutir a contratao de um advogado para ingresso com uma ao judicial

    que tivesse por objetivo reaver um valor referente a um seguro pago quando da aquisio das

    casas.

    Problemas que exigem a presena de Polcia, como desordem, questes ligadas ao

    direito de vizinhana e outras, em grande parte, segundo os moradores, so resolvidas pela

    prpria AMAPE. Foi apontado por eles um caso exemplar de problema cotidiano do qual a

    AMAPE costuma se ocupar, que teria ocorrido com novos moradores, msicos de uma banda.

    Como estes ensaiavam no prprio imvel de moradia, os mesmos acabaram por provocar

    perturbao do silncio na coletividade. Aps a reclamao de vizinhos na associao, a

    mesma dirigiu-se at o local para o dilogo. Por meio de um termo de acordo, a questo foi

    resolvida mediante o oferecimento de um salo para os ensaios dentro da prpria associao.

    Observe-se que, alm de solucionar a questo, os novos moradores passaram a se inserir no

    espao coletivo do bairro.

    4.2.2 Micro organizaes atuantes no Parque residencial Maria Aparecida Pedrossian

    So apresentadas nesse trabalho micro organizaes que foram identificadas na

    fala dos moradores do bairro. Pde-se verificar que, alm da Igreja, as unidades de servios

    pblicos de educao e sade tiveram destaque nesse sentido.

    A escola, para onde converge grande parte das crianas e adolescentes do bairro,

    tornou-se um importante espao de reflexo da realidade vivida especificamente para esse

    segmento da coletividade local, com a participao dos pais. Como se pde verificar, a

    Associao de Pais e Mestres e o Colegiado da Escola Dolor de Andrade funcionam como

    organismos de controle social da educao realizada na escola e que aprovam os projetos

    coletivos j apresentados no captulo anterior, que se destinam a cumprir o papel dessa

    unidade educacional dentro do bairro. A escola mantm ainda uma comunidade virtual, da

    qual participam o ex-alunos, processo que demonstra seu nvel de conectividade no processo

    dado ao desenvolvimento humano dentro do bairro.

    Observe-se que o Ensino Fundamental oferecido pela Rede Municipal de Ensino

    foi autorizada a funcionar como Centro de Educao Infantil (CEINF) no Parque Residencial

    Maria Aparecida Pedrossian, desde 2009. O CEINF enquadra-se nas determinaes da

  • 83

    Constituio de 1988, que considera os direitos cidados das crianas, tanto do ponto de vista

    poltico como social (RICARDI, 2008). A CF reconheceu a criana como cidado em

    desenvolvimento, com voz e vez, sendo fundamental oferecer a ela oportunidades de se

    expressar. Cabe escola reconhecer as necessidades especficas das crianas em seu territrio

    de vida e oferecer a ela condies para se tornarem participantes atuantes em prticas sociais

    que resultem em seu prprio desenvolvimento. O Centro de Educao Infantil, nesse sentido,

    visto como espao de reflexo (RICARDI, 2008).Nos espaos de prtica religiosa, foram

    apresentados como de forte convergncia, no s a Parquia So Leopoldo Mandic, que conta

    com uma comunidade virtual para se comunicar com os adeptos, como aqueles ocupados por

    9 igrejas evanglicas e 2 terreiros de candombl. As reflexes e decises ali tomadas como

    prticas coletivas que competem ao desenvolvimento humano refletem a viso de cada seita

    religiosa.

    O grupo de Escoteiros Lrio Branco, existente desde 1983, criado por iniciativa

    de um major militar e sua esposa, na condio de moradores do bairro, tambm tem sido

    muito valorizado como prtica educativa e solidria dos jovens e adolescentes.

    Como espaos convergentes para as prticas artsticas e de lazer foram apontadas

    pelos moradores o time de futebol, o grupo skatista, a banda de percusso e o grupo de festas

    do Ricardo.

    Importante salientar que essas prticas no aparecem desarticuladas da AMAPE,

    que as alimentam e se alimenta delas, num processo sistmico que contribui para ampliar o

    campo interativo de empoderamento da coletividade local.

    A organizao dos moradores, constituda sob a forma de relacionamentos

    secundrios, como se pde apreciar, veio favorecendo o aprofundamento das prticas

    solidrias dentro do bairro, no fortalecimento de relacionamentos de nvel primrio construdo

    ao nvel de micro escala. Esse processo vem ocorrendo numa ao integrada da AMAPE com

    as comunidades menores, onde ocorre o encontro fsico entre pessoas, como tambm

    aprofundando a conectividade dentro do bairro apoio de comunidades virtuais. Esse processo

    ajuda a explicar prticas coletivas peculiares e que ganham visibilidade dentro da cidade em

    relao a outros bairros. Pode-se lembrar aqui do prestgio atribudo ao comrcio e mo-de-

    obra local, como da ampla participao da populao na questo ambiental do entorno, ou

    ainda dos frequentes mutires realizados, seja para limpeza, luta contra dengue, distribuio

    de cesta bsica, entre outros.

  • 84

    Por seu turno, a funo social da propriedade implicou na afirmao da cidadania,

    que na viso de Lefebvre (1991) consiste no controle direto sobre a forma de habitar a cidade,

    como construo coletiva.

    Como aponta Martins (2002) a cidadania, por exemplo, poder no passar de

    figura de retrica se no relacionada com o territrio. Cidado no todo aquele que tm

    direitos e deveres assegurados por lei, mas aquele que efetivamente tem condies de exercer

    esses direitos e deveres..

    O reordenamento do bairro no significou o fim do planejamento tcnico, mas sua

    combinao com necessidades e aspiraes coletivas dos moradores com base na vivncia

    concreta do territrio, onde foram tecidas as relaes sociais com conexes de solidariedade.

    O campo de interaes de aes e representaes estabelecidas coletivamente

    constitui o campo de poder de cada localidade.

    4.3 POTENCIALIDADES E DIFICULDADES VIVIDAS EM 2012 NA VISO DOS

    MORADORES

    O engajamento na ao transformadora, segundo Lefebvre (1991), tem base na

    percepo coletiva do modo de vida, assim como das potencialidades e limitaes no

    territrio vivido.

    Foi possvel conhecer na pesquisa a viso que os moradores apresentam das atuais

    condies vividas no bairro que podem ser atribudas capacidade de se sensibilizar com os

    problemas do bairro e se solidarizarem de forma organizada na soluo de problemas comuns.

    Observa-se por suas falas que esto relativamente satisfeitos com os recursos coletivos dentro

    do bairro e que deixaram de se sentir isolados do conjunto do tecido urbano. Manifestam

    grande satisfao em morar no local.

    A mo de obra tem sido considerada potencialidade ainda bastante valorizada

    pelos moradores. Segundo informaram, existe quase todo o tipo de mo de obra utilizada em

    pequenos servios, como pedreiro, eletricista, encanador, entre outros. Todas elas tm sido

    prestigiadas pelos moradores. Uma experincia peculiar e reveladora dessa preferncia e

    confiana nas pessoas e mo-de-obra do bairro a existncia de um convnio muito peculiar

    com o Tribunal de Justia do Estado. Os rus condenados a cumprir penas alternativas e que

    residam no MAP, o fazem no prprio bairro, prestando servios comunidade. Durante a

  • 85

    ocasio das entrevistas, foi identificada uma expectativa dos moradores para a instalao de

    uma fbrica de bebidas prximo ao bairro, capaz de suprir sua demanda de mo de obra no

    potencial existente dentro do bairro.

    Atualmente, uma dificuldade apontada de forma unnime a questo da

    segurana, que voltou a ser preocupao aps a desativao da Delegacia de Polcia que

    existia no local. Interessante anotar neste ponto, que a retirada desta delegacia se deu por

    iniciativa dos prprios moradores em um perodo em que a mesma abrigava presidirios de

    fora do bairro. Muitos destes escapavam, acabando por cometer crimes dentro do Parque

    Residencial MAP.

    Na anlise feita por Mller (1997) a respeito da gesto territorializada em

    governos subnacionais, ele apontava a necessidade de se observar os efeitos que o Estado

    nacional produz sobre a gesto de governo de estados subnacionais e, de outro, os exerccios

    de reao desses governos em desenvolver capacidades prprias de ao. Em realidade, esse

    intelectual se referiu a um momento vivido naquela dcada de 90 de crise organizacional de

    toda natureza. Para ele, essa crise afetava o Direito Positivo, j que uma das determinantes era

    o aumento da velocidade do processo de diferenciao socioeconmica que ocorria nesses

    subespaos. Esse processo, ao conduzir produo de regras, procedimentos e racionalidades

    prprios de cada escala subnacional, amplia significativamente a complexidade do sistema

    jurdico e dificulta o trabalho de produo normativa, por parte do legislador. Pode-se

    extrapolar essa lgica de pensamento para processos dessa natureza que ocorrem em pequenas

    escalas de organizao social, como essa do Parque Residencial Maria Aparecida Pedrossian.

    Para Mller (1997), frente ao policentrismo caracterstico do mundo globalizado o direito

    positivo enfrenta grandes limitaes estruturais em sua jurisdio. O Estado nacional

    apresenta dificuldades de regular a sociedade apenas com seus instrumentos jurdicos

    tradicionais e acaba por deixar em aberto os papis e as funes de unidades espaciais que

    ampliam sua autonomia e criam regras especficas prprias.

  • 86

    CONSIDERAES FINAIS

    A anlise bibliogrfica e documental do local e da realidade sensvel e aparente

    encontrada, em termos de estrutura e dinmica da gesto territorial historicamente construda

    no local, associada dimenso subjetiva, obtida pela representao social ou imagem

    construda do territrio vivido, revelada pela entrevista semiestruturada, permitiu verificar o

    engajamento dos moradores do Parque Residencial Maria Aparecida Pedrossian na luta pelo

    direito cidade, atribuindo ao bairro a funo social da propriedade. A dinmica social

    endgena, articulada ao dos rgos pblicos e com apoio de vrias organizaes, foi

    guiada por princpios de gesto democrtica, num processo integrado e sustentvel de

    desenvolvimento local.

    O desafio entre o governo e a sociedade civil, pleiteados durante a vigncia da

    Reforma Urbana dos anos 1980 no Brasil foi vivenciado de forma precoce no Parque

    Residencial Maria Aparecida Pedrossian. O fundamento da funo da propriedade, como se

    pde avaliar no presente trabalho, inseparvel de sua utilizao e finalidade e traduz a

    realidade econmica, poltica e social prpria de cada poca e lugar vivido.

    No caso do Parque Residencial Maria Aparecida Pedrossian, o desafio ocorreu

    numa condio especfica de localizao e no contexto socioeconmico e poltico que vivia o

    recm-criado Estado de Mato Grosso do Sul e a cidade eleita para ser sua capital. Em nvel

    nacional, o contexto era favorvel a esse tipo de prtica, constitudo por um conjunto de

    determinantes de natureza democratizante, seja em forma de movimento social ou de normas

    jurdicas. Destaque-se aqui o Movimento da Reforma Urbana que desencadeou mudanas

    significativas na dimenso jurdica do pas, atingindo a Constituio e Federal e o Cdigo

    Civil. Tais determinantes contriburam s iniciativas do exerccio cidado do direito do uso

    sustentvel da cidade e de participao democrtica no seu processo de gesto, de modo a

    viv-la com qualidade de vida e justia social.

  • 87

    Na escala territorial de um Estado recm-constitudo, essa experincia teve origem

    num momento de sua estruturao, na qual a cidade de Campo Grande exercia papel

    fundamental, como capital do novo Estado. Dotada de uma estrutura monocntrica, a cidade

    teve que se reordenar e avanar estrategicamente o tecido urbano sobre os espaos que ainda

    permaneciam vazios, mediante projetos e recursos pblicos da Unio, para construir e

    acomodar os edifcios que abrigariam o aparelho de governo e aqueles que serviriam de

    residncia ao funcionalismo pblico.

    Na escala do territrio da cidade, uma determinante de grande peso foi o

    isolamento a que ficou submetido o recm-construdo Parque Residencial Maria Aparecida

    Pedrossian e seus moradores em relao ao tecido urbano e ao nico centro de comrcio e

    servios. Outras determinantes estiveram associadas a essa, entre elas a dotao de uma

    estrutura fsica que diferenciava o bairro dentro da cidade. A outra foi contedo social original

    baseado em funcionrios pblicos de renda relativamente elevada para os padres do entorno.

    Alm de intelectualizados e informados, estes estavam mais articulados s pessoas de deciso

    junto aos rgos de governo. A dotao oramentria, oriunda do aluguel dos 13 boxes,

    existente desde o incio teve grande peso no funcionamento e consolidao da associao de

    moradores. A alterao do contedo social, mediante abandono de parte dos moradores

    originais e entrada de moradores de baixa renda tambm foi determinante. Os moradores

    originais remanescentes precisaram se adaptar a essa nova condio de viver no bairro.

    Os moradores que permaneceram residindo no bairro foram aqueles que, desde o

    incio, tiveram uma percepo diferenciada. Essas pessoas optaram por participar de forma

    solidria e no ficaram simplesmente esperando que as melhorias requeridas viessem apenas

    de iniciativa do Poder Pblico. Tais famlias vislumbraram um campo de possibilidades com

    base na representao que passaram a construir do local, ajustando imagem desejada do

    territrio, por meio da solidariedade e de projetos de carter social no bairro, como forma de

    apropriao dos recursos disponveis. Conforme foram sendo construdos os laos de

    solidariedade entre elas, estas foram se deparando com a obrigao de cumprir deveres sociais

    no intuito de manter a ordem comunitria, visando conquista dos direitos de satisfao de

    necessidades comuns, vinculadas ao bem viver no local de moradia.

    O processo de engajamento dos moradores acabou por fazer com que o local,

    acabasse por cumprir sua funo social, tanto na dimenso objetiva como subjetiva, em

    conformidade aos princpios estabelecidos pelos tericos do Movimento da Reforma Urbana.

  • 88

    A necessidade de atribuir propriedade a dupla funo individual e coletiva como se pde

    verificar, emergiu em ambiente guiado por princpios de desenvolvimento humano e gesto

    democrtica, visando a melhoria do bem-estar no local de moradia. A funo social da

    propriedade no bairro foi sendo assegurada em consonncia ao estabelecimento dos limites

    para sua utilizao, assegurados no modo de se apropriarem dos recursos disponveis e de

    atriburem os usos sociais nesse territrio de vida, ora de forma autnoma, ora em parceria

    com rgos governamentais e/ou apoio de organizaes.

    Nesse processo, cada morador passou a exercer junto do direito de gozar, dispor e

    reaver sua propriedade, a obrigao de atuar como gerador e gestor de servios no

    atendimento a necessidades coletivas. Como resultado, foi emergindo um bairro com

    melhores condies de moradia, infraestrutura fsica e de servios, num ambiente melhorado

    de bem-estar, segurana e dignidade dos moradores.

    A funo social da propriedade foi sendo estabelecida, concomitante s praticas

    de diminuio da pobreza e desigualdades sociais, e do sentimento de respeito dignidade da

    pessoa humana seja entre moradores originais ou entre aqueles que chegam depois. O respeito

    diferenciado tambm para as crianas, jovens, adultos e idosos. Esta viso e comportamento

    relacionado ficaram enraizados como cultura predominante no bairro. Os projetos atuais

    revelaram solues inditas para problemas sociais, reveladoras de uma capacidade construda

    coletivamente para inovar se adequando s necessidades especficas do bairro e de seus vrios

    segmentos.

    No decorrer das prticas, alm do recurso financeiro originrio do aluguel do

    edifcio que ocupou o lugar dos antigos boxes e daqueles que se originam de investimentos de

    organizaes parceiras e de moradores locais, foram sendo construdos recursos locais de

    outra natureza, que podem atualmente serem considerados integrantes do oramento

    participativo local. Esses recursos constituem parte importante do capital da coletividade e

    estes so representados especialmente pela capacidade organizativa, de participao e

    solidariedade social, de realizao de trabalho voluntrio. No conjunto, constituem um capital

    cognitivo coletivo enraizado no bairro, cujo aprendizado foi construdo na relao entre

    moradores, o bairro, seu entorno, organizaes municipais, estaduais e federais. No processo

    de relao construda entre as famlias residentes - hoje representados pela AMAPE - o Poder

    Pblico e as organizaes de apoio, essas demonstram uma forma diferenciada de interagir,

  • 89

    no esforo de conduzir decises pblicas cada vez mais adequadas s especificidades e

    necessidades do local.

    Atualmente, o Parque Residencial Maria Aparecida Pedrossian considerado o

    resultado de um processo de construo de seus moradores, tanto em seus aspectos aparentes,

    como na perspectiva percebida por tais moradores do local ideal para se viver. Muito mais do

    que um complexo de ruas, casas, praas e comrcio, esse bairro apresenta uma alma,

    constituda como dimenso subjetiva que no pode ser negada. O processo desencadeado h

    29 anos possibilitou a construo de um lugar que reflete a vontade de seus moradores, aberto

    a parcerias e participao nos planos da cidade que os envolvam, garantindo assim um local

    melhor para se viver.

    Os possveis conflitos, a no ser no caso da perda da delegacia, no apareceram

    nas falas dos entrevistados e tambm no ficaram aparentes na pesquisa objetiva do bairro, o

    que leva a crer que existam mecanismos internos para poder super-los.

    Essa a primeira pesquisa acadmica feita ao nvel de dissertao mestrado que se

    tem conhecimento a respeito desse bairro. Evidente que essa realidade suscita o

    aprofundamento de muitas determinantes e dos princpios de estruturao e de dinmica de

    desenvolvimento desse bairro, que fica em aberto para novos pesquisadores.

  • 90

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  • 93

    APNDICE

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    ENTREVISTA SEMIESTRUTURADA APLICADA AOS

    MORADORES DO PARQUE RESIDENCIAL MARIA APARECIDA PEDROSSIAN

    Nmero do questionrio________ Data:___/___/________

    Endereo da residncia: ___________________________________________________________________

    Desde que ano reside no residencial:________________ Local de trabalho:

    1- PERFIL DO MORADOR PESQUISADO

    Nome:

    Sexo: ( ) masculino ( ) feminino Idade: anos

    Estado Civil: ( ) solteiro ( ) casado ( ) outro:______

    Natural de: Municpio Estado: Pas:

    ltimo local de moradia: Bairro: Municpio:

    Tamanho total De sua famlia: membros

    *Escolaridade: 1. ( )analfabeto 2. ( ) fundamental incompleto 3. ( )fundamental completo 4. ( ) mdio incompleto

    5. ( ) mdio completo 6. ( )superior incompleto 7. ( ) superior completo 8. ( )ps-graduao

    Outros cursos. Especifique:

    Itens estruturados da entrevista

    1. Histrico relacionado sua vinda e/ou da famlia ao residencial. Motivo da escolha do residencial para moradia.

    2. Relato das melhorias percebidas no bairro para se viver, apontando os responsveis por elas (poder pblico, moradores, outros)

    3. Tipo de iniciativas feitas em prol do residencial, que partiu dos moradores. 4. Envolvimento pessoal em aes de melhoria do lugar. O que o levou a se envolver. 5. Principais etapas percebidas de maiores avanos na construo e melhoria do residencial. 6. Principais potencialidades e dificuldades locais percebidas na melhoria das condies do residencial,

    como local para se viver. 7. Destacar inovaes recentes introduzidas e que tipo de soluo ainda considera fundamental ser

    trazida ao residencial MAP. 8. Natureza de associao/ cooperao existentes, consideradas fundamentais no dinamismo do

    residencial 9. Principais organizaes parceiras e os tipos de apoio oferecidos melhoria do MAP.

    10. Governana: como so tomadas as principais decises sobre atividades que interessam toda coletividade do residencial.

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