città universitaria mussoliniano - repositório da ...· certame deste tipo antecedente à ii...

Download Città Universitaria mussoliniano - Repositório da ...· certame deste tipo antecedente à II Guerra

Post on 10-Nov-2018

213 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

  • A Cidade do Saber. Estudo do Patrimnio Artstico integrado nos edifcios projectados

    pelo arquitecto Porfrio Pardal Monteiro para a Cidade Universitria de Lisboa (1934-1961)

    ! 103

    Na Roma de Mussolini puderam observar a recente arquitectura italiana, em

    particular a imponente Citt Universitaria (1932-35), cujo plano geral e a Reitoria haviam

    sido traados por Marcello Piacentini (1881-1960)421. A arquitectura sob o fascismo

    mussoliniano pautara-se por um peculiar conflito entre modernidade e tradio

    historicista, vingando em 1931 uma faco ideologicamente unitria liderada por

    Piacentini, o Raggrupamento Architetti Moderni Italiani422. Nesta orientao, emergiram

    no panorama citadino obras inspiradas na Roma Antiga, de feio classicista e de

    pretenso monumentalista, facilmente reproduzveis, que se tornaram elementos

    identificadores da ditadura fascista italiana423. Certamente que os edifcios universitrios

    romanos, almejando uma reinterpretao da retrica clssica, tero imprimido a sua marca

    no imaginrio esttico de Pardal Monteiro e no lhe tero sido indiferentes mesmo que,

    ideologicamente, o arquitecto no se identificasse com os seus cultores. Acresce a

    capacidade dos edifcios, de aspecto majestoso e ordenado, responderem aos intuitos do

    regime em consolidao no territrio portugus. Tipologicamente, ser possvel constatar

    algumas semelhanas entre o complexo de Piacentini e o projecto final de Pardal Monteiro

    para Lisboa, como veremos. Assim, tendo o arquitecto observado de perto o conjunto, no

    podemos concordar inteiramente com a opinio de Sandra Vaz Costa. Na sua dissertao

    de mestrado concernindo a Cidade Universitria de Coimbra, a autora menciona ter sido o

    caso lisboeta inspirado pela Cidade Universitria de Madrid, ao ponto que Roma ter

    exercido influncia sobre os arquitectos de Coimbra424. Compreende-se a sua afirmao

    quanto ao modelo urbanstico de cidade universitria: Lisboa, semelhana de Madrid,

    implanta-se em terrenos livres e desafogados, com possibilidade de acrescentos futuros e

    extenso urbana; j a Universidade coimbr foi inserida no espao citadino, a exgua Alta, !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    cidades: em 1923, data da sua primeira viagem ao estrangeiro, estivera em Itlia; em 1925, visitara a Exposition Internationale des Arts Dcoratifs et Industriels em Paris. 420 Cf. Ana Tostes, Pardal Monteiro. (...), p. 190. 421 Piacentini foi convidado a ser consultor do Plano Geral de Urbanizao para a cidade do Porto, em 1938, na senda do decretado por Duarte Pacheco. O urbanista italiano foi incumbido de realizar, ele prprio, o plano; no se deslocou ao Porto, nem da municipalidade recebeu elementos cartogrficos, mas entregou alguns desenhos. Em 1940 entrou em cena Giovanni Muzio (1893-1983). Cf. Margarida Souza Lbo, Planos de Urbanizao (...), pp. 67-73. 422 Nesse ano, a Unio dos Arquitectos, patrocinada pelo Governo, retirou o seu apoio ao recente Movimento Italiano per lArchitettura Razionale (MIAR), juntando-se a Marcello Piacentini. Cf. Kenneth Frampton, Modern Architecture. A Critical History, 3 ed., Londres, Thames&Hudson, 1992, p. 214 423 O denominado Stile Littorio, que ter tido o seu incio precisamente na obra da Cidade Universitria romana, sendo que Piacentini sofreu influncia da obra inaugural de Muzio, os apartamentos CaBrutta (1919-23). Cf. Idem, Ibidem, p. 215. 424 Cf. Sandra Vaz Costa, A Cidade Universitria de Coimbra. Um Projecto de Modernizao Cultural. Utopia e Realidade, vol. I, Dissertao de Mestrado em Histria da Arte Contempornea, FCSH-UNL, 1998, pp. 122-126.

  • A Cidade do Saber. Estudo do Patrimnio Artstico integrado nos edifcios projectados

    pelo arquitecto Porfrio Pardal Monteiro para a Cidade Universitria de Lisboa (1934-1961)

    ! 104

    onde se encontravam os antigos colgios, tal como o conjunto romano no local das

    preexistentes edificaes universitrias. Em termos arquitectnicos, o cariz rectilneo e os

    elementos de estilizao clssica evidenciam os edifcios que Pardal Monteiro visualizara

    em Roma; a prpria disposio dos edifcios das Faculdades de Letras e de Direito,

    esquerda e direita da Reitoria respectivamente, anloga a Roma [FIG.4]. Em adio, o

    conjunto madrileno, incentivado por Afonso XIII em 1927, sofreu graves destruies

    durante a guerra civil espanhola (1936-39), reerguido nos anos 40 sob poderio franquista,

    exprimindo-se numa gramtica sbria mas de enorme escala, segundo planos [FIG.5] dos

    arquitectos Lpez Otero (1885-1962) e Pedro Murguruza (1893-1952).

    No final da viagem, Duarte Pacheco e Pardal Monteiro rumaram a Paris, onde

    decorria a Exposition Internationale des Arts et Techniques dans la vie moderne, ltimo

    certame deste tipo antecedente II Guerra Mundial425. A Cidade Universitria parisiense

    englobava, exclusivamente, residncias para estudantes [FIG.6], promovendo o convvio e

    o esprito universitrio, imagem do modelo de campus americano426; a sua construo

    foi iniciada em 1923. Mais importante ter sido, no entanto, a visita exposio

    internacional, realizada no Trocadero, local onde se encontraram os membros das

    Runions Internationales dArchitectes (RIA)427, das quais Pardal Monteiro fazia parte.

    entrada da exposio, passando a Torre Eiffel, estavam colocados dois colossais

    pavilhes: o pavilho alemo, do arquitecto hitleriano Albert Speer (1905-1981), defronte

    do pavilho da URSS, da traa de Boris Iofan (1891-1976), exemplos de uma esttica

    ostensiva do poder, prtica comum entre potncias totalitaristas da Europa de ento428.

    Para o arquitecto, as viagens constituam meio de aprendizagem e de troca de

    informaes, sobre as quais lhe cabia reflectir por forma a estimular a arquitectura

    portuguesa.

    !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    425 O Pavilho de Portugal para a Exposio foi concebido por Keil do Amaral (1910-1975). 426 Cf. Jos Ramos Bandeira, Cidades Universitrias. Extracto de uma Conferncia proferida no IV Curso de Frias da Escola de Farmcia da Universidade de Coimbra (5-VIII-1941), Separata de Notcias Farmacuticas, ano IX, vol. II, Alcobaa, Tip. Alcobacense, 1943, pp. 99-100. 427 Fundadas em 1932 pelo francs Pierre Vago (1910-2002). 428 Sobre a exposio de 1937 e os dois pavilhes mencionados, vide, por exemplo, Dawn Ades, Paris 1937: Art and the Power of Nations e Karen A. Fiss, The German Pavillon, Art and Power. Europe under the dictators 1930-45, Londres, Thames&Hudson, 1995, pp. 58-62 e 108-110.

  • A Cidade do Saber. Estudo do Patrimnio Artstico integrado nos edifcios projectados

    pelo arquitecto Porfrio Pardal Monteiro para a Cidade Universitria de Lisboa (1934-1961)

    ! 105

    3.3. Os Ante-Projectos dos Edifcios Universitrios: o impasse das sucessivas

    rectificaes (1938-1945)

    O Governo lanara o programa de obras e melhoramentos (...) para comemorao

    dos Centenrios da Fundao e da Restaurao da Nacionalidade429, que impunha o

    desenvolvimento de diversas obras pblicas, algumas em curso e outras por iniciar. Se na

    nota oficiosa de Salazar, publicada a 27 de Maro de 1938, apenas se inclua a primeira

    fase de construo dos novos Hospitais Escolares, em que se visione pelo menos a

    grandeza da obra430, o decreto de Julho refere, a par dos dois Hospitais, os edifcios

    universitrios de Lisboa. Duarte Pacheco regressara pasta das Obras Pblicas e

    Comunicaes, empenhava-se arduamente nos melhoramentos em Lisboa e,

    concretamente, na materializao da Cidade Universitria.

    Finalmente, em Agosto de 1938, Pardal Monteiro entregou os primeiros esboos

    escala 1/500, representando um programa esquemtico com dez plantas

    individualizadas431, sendo que no faria sentido estar a desenvolver projectos de edifcios

    cuja construo no foi ainda ordenada pelo Governo432 os trs edifcios considerados

    prementes estavam dependentes da reorganizao do ensino universitrio. Duarte Pacheco,

    aps examinao, considerou a remodelao dos estudos apresentados com o duplo

    objectivo de se obter uma composio mais lgica e agradvel e uma estimativa menos

    elevada no conjunto e na unidade433, confiando na capacidade do arquitecto de elaborar

    um projecto cuja construo no ultrapassasse 15.000 contos434. Aps obteno do arranjo

    de urbanizao concebido pela CML, reduzindo a rea total de implantao do conjunto

    para 30.000 m2, enviou-se novo estudo ao Ministro a 19 de Maio de 1939; foi dado aval

    positivo quanto ao partido de distribuio geral e considerado til o avano moderado dos

    !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    429 Decreto-lei n 28797, Dirio do Governo, I srie, n 150, 1 de Julho de 1938, pp. 1044-1045. 430 Dirio de Notcias, 27 de Maro de 1938. 431 So apresentadas reas totais aproximadas de construo Reitoria, com 3 pisos: 10390 m2; Letras, com 4 pisos: 12210 m2; Direito, com 4 pisos, 13920 m2. Calculou-se um valor de 22951 contos. 432 ME-NATCE, MOP/CANIU, CANEU, Processo n 100 Arquitecto Porfrio Pardal Monteiro, Pasta 1. Ofcio de Caeiro da Mata para Vice-Presidente da CANEU, 10 de Agosto de 1938. 433 ME-NATCE, MOP/CANIU, CANEU, Processo n 100 Arquitecto Porfrio Pardal Monteiro, Pasta 1. Relatrio sobre a evoluo do estado actual dos trabalhos relativos aos edifcios universitrios, 29 de Janeiro de 1942, p.6. 434 Curiosamente, j em Maro, antes da apresentao dos esboos, rogara o Eng. Jcome de Castro que o arquitecto considerasse a eventual reduo de aspectos do programa, com vista a que o custo total ficasse dentro da cifra de 15000 contos. ME-NATCE, MOP/CANIU, CANEU, Processo n 100 Arquitecto Porfrio