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    Circulaes de conhecimento entre Europa, Brasil e ndia: o caso dos soros e das

    vacinas antipestosas (1895-1910)

    Matheus Alves Duarte da Silva1

    matheus.duarte@ehess.fr

    O aparecimento de casos de peste bubnica no Brasil, em outubro de 1899, e o

    consequente problema da preveno e do tratamento da doena foram os catalisadores

    da criao do Instituto Soroterpico Federal e do Instituto Butant, no Rio de Janeiro e

    em So Paulo, respectivamente (STEPAN, 1976; BENCHIMOL, 1990; BENCHIMOL,

    TEIXEIRA, 1993). O surgimento desses laboratrios foi entendido, por parte dos

    historiadores que se dedicaram a essa temtica, como o incio de uma produo

    moderna em bacteriologia e medicina no pas. Ao analisar esse evento, a maioria dos

    estudos insistiu nas relaes estabelecidas entre as citadas instituies brasileiras e o

    Instituto Pasteur de Paris, compreendido como o modelo de instituio a ser copiado no

    Brasil e como o local de onde a moderna bacteriologia teria se difundido. Essa difuso

    estaria materializada, por exemplo, no soro antipestoso, produto inventado em 1895 por

    Alexandre Yersin e outros pesquisadores do laboratrio francs (YERSIN,

    CALMETTE, BORREL, 1895), cujo conhecimento foi transferido para as duas

    instituies brasileiras a partir de 1900.

    Nesse texto, gostaramos de colocar em questo algumas dessas concluses

    citadas acima. Comearemos apresentando a histria da utilizao do soro de maneira

    mais ampla, analisando a trajetria do produto antes de 1900. Para tanto, abordaremos

    as misses de Yersin e Paul-Louis Simond na ndia, entre 1897 e 1898, momento em

    que o soro francs foi testado em grande escala pela primeira vez. Discutiremos, assim,

    as mudanas ocorridas em sua produo em funo desses testes e a sua posterior

    chegada, transformado, ao Brasil. Em seguida, mostraremos que o soro antipestoso

    francs no era o nico que existia e que soros alternativos, entre eles o dos professores

    italianos Lustig e Galeotti, haviam sido testados na ndia com resultado similar, sem,

    todavia, terem circulado para o Brasil. Por fim, trataremos da entrada de outro produto

    1 Bolsista de Dourado Pleno da Capes (Processo n 99999.001241/2015-00) na cole des Hautes tudes

    en Sciences Sociales (EHESS) sob a orientao dos professores Dominique Pestre e Kapil Raj.

    mailto:matheus.duarte@ehess.fr

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    no Brasil, menos discutido pela historiografia nacional, para fazer frente doena: a

    vacina antipestosa. Ela fora inventada na ndia, em 1896, por Waldemar Haffkine e

    chegara ao Brasil graas ao do mdico italiano Camillo Terni, que a havia

    modificado em 1899. A partir desse outro exemplo, compararemos as circulaes do

    soro e da vacina antipestosa entre Brasil, ndia e Europa.

    Para compreender essa produo cientfica transnacional, a metodologia

    escolhida foi a de seguir os atores envolvidos com a produo de conhecimento sobre a

    cura e/ou a preveno da peste bubnica. Analisaremos artigos, cadernos de campo e

    cartas desses personagens, para alm dos membros do Instituto Pasteur de Paris, que se

    dedicaram ao estudo da doena. Do ponto de vista terico, insistiremos na circulao de

    conhecimento, ao contrrio de uma discusso centrada na transferncia (LOWY, 2006)

    ou na difuso de conhecimento (STEPAN, 1976), conforme fornecida anteriormente

    pela historiografia brasileira dedicada ao tema. Por circulao de conhecimento no

    compreendemos simplesmente o movimento, o deslocamento de uma ideia, prtica,

    pessoa ou objeto cientfico, mas as mudanas que ocorrem nesse processo. Conforme

    teorizado pelo pesquisador Kapil Raj (2013: 343): por circulao ns entendemos no

    a disseminao, transmisso, ou comunicao de ideias, mas o processo de

    encontros, poder e resistncia, negociao, e reconfigurao que ocorre diante de

    interaes culturais. Ainda segundo esse pesquisador (2013: 344), o conceito de

    circulao sugeriria um fluxo mais aberto e especialmente a possibilidade de mutaes

    e reconfiguraes voltando ao ponto de origem.

    Bombaim em tempos de peste

    Ao partir de Paris para Bombaim, em maio de 1897, o mdico Paul-Louis

    Simond sabia que a sua misso, custeada pelo governo francs e pelo Instituto Pasteur

    de Paris, tinha como objetivo principal descobrir qual soro antipestoso funcionaria

    melhor entre os doentes indianos (ROUX, 1897a: 2). O produto havia sido criado dois

    anos antes em Paris e fora testado em humanos pela primeira vez em junho de 1896, na

    China, pelas mos do prprio Yersin (YERSIN, 1896). Esses primeiros testes haviam

    sido bem-sucedidos, o que criara uma esperana entre as autoridades municipais de

    Bombaim quando a peste surgira na cidade, em setembro de 1896. Elas, ento,

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    convidaram Yersin, em dezembro daquele ano, para test-lo de maneira mais larga entre

    os milhares de doentes da cidade (PILINSKI, 1897: 1). Aps os trs meses que ficara na

    ndia, entre maro e junho de 1897, Yersin descobriria, entretanto, que seu soro no era

    to eficaz como pensado anteriormente. Isso porque, na China, o soro havia produzido

    uma taxa de cura de quase 93%, isto , entre os 25 tratados, apenas 2 morreram

    (YERSIN, 1897a: 88). Na ndia, porm, das 147 pessoas tratadas por Yersin, 71

    morreram, gerando um taxa de praticamente 50% de cura (YERSIN, 1897b; 1897c;

    1897d). Diante desses resultados, mudanas se faziam necessrias e seriam esses soros

    modificados, produzidos no Instituto Pasteur, que Simond testaria nos doentes indianos

    durante mais de um ano, at agosto de 1898 (SIMOND, 1898a).

    O soro antipestoso era parte integrante do recente arsenal de cura pasteuriano,

    que inclua, entre outros, a vacina antirrbica. A promessa de sucesso desses produtos

    baseava-se na ideia de que a manipulao e a atenuao de micro-organismos poderiam

    criar remdios capazes de curar ou evitar as doenas por eles causados (LOWY, 2015:

    230-233). A fabricao de um soro obedecia a seguinte lgica: inoculava-se um animal,

    geralmente um cavalo, com uma soluo contendo os micro-organismos responsveis

    pela doena que se desejava curar. O corpo do animal, ento, produzia uma reao,

    desenvolvendo antgenos contra ela. Esses antgenos eram coletados do sangue para

    depois serem usados no tratamento em humanos (YERSIN, CALMETTE, BORREL,

    1895).

    Entretanto, na produo do soro antipestoso, o processo comportava diferentes

    problemas tcnicos, pois no se sabia, por exemplo, se os micro-organismos a serem

    injetados deveriam estar vivos ou mortos, em qual quantidade eles deveriam ser

    inoculados nem a virulncia deles. Por no se conhecer de maneira precisa essas

    questes, mile Roux, sub-diretor do Instituto, enviaria a Simond, ao longo de sua

    estadia na ndia, diferentes tipos de soro, produzidos das mais diversas formas (ROUX,

    1897b: 1). A principal modificao, feita aps os testes iniciais de Yersin e que seria

    testada por Simond, relacionava-se aos micro-organismos inoculados nos cavalos.

    Inicialmente, foram utilizados bacilos vivos atenuados, mas, diante dos perigos de sua

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    manipulao tanto para os animais quanto para os cientistas, comeou-se a utilizar

    bacilos mortos pelo calor.

    Ao se acompanhar a estadia de Simond atravs de suas cartas e seu caderno de

    campo, possvel observar as dificuldades que ele viveu na tentativa de realizar a

    misso a ele confiada. De um lado, ele se confrontaria com as dificuldades impostas

    pela sociedade na qual ele acabava de chegar. Simond no dominava totalmente o ingls

    e nada das lnguas locais (SIMOND, 1898b: 33), a regio de Bombaim vivia uma tenso

    social provocada pelas medidas adotadas pelo Governo Colonial para conter a difuso

    da epidemia (ARNOLD, 1993) e determinados mdicos ingleses ali baseados

    desconfiavam da eficcia do soro antipestoso francs (SIMOND, 1898c: 1-2). De outro

    lado, havia os problemas tcnicos que acabavam alimentando as suspeitas dos ingleses.

    Determinados frascos de soro enviados por Roux no chegavam at Simond, outros

    chegavam estragados (SIMOND, 1898d : 2) e mesmo os que ainda mantinham suas

    propriedades intactas no eram capazes de curar os doentes da maneira como as

    autoridades inglesas haviam imaginado. Por exemplo, entre os mais de 300 doentes

    tratados por Simond at janeiro de 1897, a proporo de curados continuava em 40%

    (SIMOND, 1898d: 1), mesmo com a manipulao de alguns dados feita por ele. 2

    As crticas que determinados mdicos ingleses comeavam a fazer aos franceses

    na ndia, impedindo o trabalho desses ltimos em alguns momentos (SIMOND, 1898c:

    1-2), no eram apenas devido aos resultados pouco animadores do soro do Instituto

    Pasteur, mas tambm comparao desses resultados com o de dois outros produtos

    concorrentes na ndia. O primeiro deles era o soro antipestoso concebido, em abril de

    1897, pelos mdicos italianos da Universidade de Florena, Alessandro Lustig e Gino

    Galeotti. Sua principal diferena que os italianos no utilizavam bacilos vivos, como

    os franceses faziam at aquele momento, mas destruam os bacilos usando calor e cido

    para ento inocular nos cavalos uma soluo contendo ncleo-protedos da doena,

    que seriam a parte das bactrias responsveis pela produo da toxina (LUSTIG,

    GALEOTTI, 1897: 1027-1028). Segundo os italianos, as razes para essa mudana

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