Cinema Brasileiro: produção cíclica e mercado

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II Encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho GT: Histria da Mdia Audiovisual Florianpolis, 17 Abril 2004Renato Mrcio Martins de Campos Professor e Pesquisador Centro Universitrio de Araraquara Uniara Universidade de Ribeiro Preto UnaerpHistria do Cinema Brasileiro Os Ciclos de Produo Mais Prximos ao Mercado Trata-se de uma viso da histria do cinema brasileiro atravs de uma abordagem dos ciclos de produo mais prximos realidade de mercado. Alguns destes ciclos so se

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<p>II Encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho GT: Histria da Mdia Audiovisual Florianpolis, 17 Abril 2004</p> <p>Renato Mrcio Martins de Campos Professor e Pesquisador Centro Universitrio de Araraquara Uniara Universidade de Ribeiro Preto UnaerpHistria do Cinema Brasileiro Os Ciclos de Produo Mais Prximos ao Mercado Trata-se de uma viso da histria do cinema brasileiro atravs de uma abordagem dos ciclos de produo mais prximos realidade de mercado. Alguns destes ciclos so selecionados e analisados em termos de penetrao e participao de mercado. As etapas do cinema no Brasil em que se produziu fortemente atrelado ao posicionamento artstico e de autor no foram aqui tratadas, apesar de inegvel importncia, por se distanciar do objeto e delimitao do estudo: os ciclos de produo mais prximos ao mercado. Palavras-chave: Cinema Brasileiro, Histria do Cinema, Cinema e Mercado.</p> <p>1. Origem do Cinema no Brasil Registra-se que a estria do cinema em terras Tupiniquins deu-se atravs de uma mquina chamada Omniographo e ocorreu a Oito de julho de 1896, no Rio de Janeiro, Rua do Ouvidor, 57, s duas horas da tarde (VIANY, 1987: 33). Nota-se a relativa proximidade entre o invento dos irmos Lumire (28/12/1895) e sua chegada ao Brasil, aproximadamente seis meses, preponderando o aspecto de penetrao em diversos mercados, j nesta poca. Paulo Emlio chega a ligar o fato s doenas endmicas de nosso pas:A novidade cinematogrfica chegou cedo ao Brasil, e s no chegou antes devido ao razovel pavor que causava aos viajantes estrangeiros a febre amarela que os aguardava pontualmente cada vero. Os aparelhos de projeo exibidos ao pblico europeu no inverno de 1895-1896 comearam a chegar ao Rio de Janeiro em meio deste ltimo ano, durante o saudvel inverno tropical. No ano seguinte, a novidade foi apresentada inmeras vezes nos centros de diverso da Capital, e em algumas outras cidades (GOMES, 1980: 28).</p> <p>Esta chegada do cinema ao Brasil, quase que imediatamente aps sua criao, no livrou o pas dos grilhes da dependncia das importaes tambm neste setor. A existncia de uma mentalidade importadora abordada por Jean-Claude Bernardet como fruto da dependncia colonial, o qual estabeleceu uma espcie de valorizao da cultura estrangeira, uma preferncia quase que unnime pelo que vem de fora.O Brasil era fundamentalmente um pas exportador de matrias-primas e importador de produtos manufaturados. As decises, principalmente polticas e econmicas, mas tambm culturais, de um pas exportador de matrias-primas, so obrigatoriamente reflexas. Para a opinio pblica, qualquer produto que supusesse uma certa elaborao tinha de ser estrangeiro, quanto mais o cinema. O mesmo se dava com as elites, que tentando superar sua condio de elite de um pas atrasado, procuravam imitar a metrpole. As elites intelectuais, como que vexadas por pertencer a um pas desprovido de tradio cultural e nutridas por cincias e artes vindas de pases mais cultos, s nessas reconheciam a autntica marca de cultura (BERNARDET, 1978: 20).</p> <p>Salvo alguns surtos ou ciclos de produo cinematogrfica, manteve-se este aspecto de mercado dependente da importao, como observaremos a seguir, numa proposta de periodizao sucinta, da cinematografia brasileira, evidenciando os ciclos de produo que apresentaram uma maior proximidade e participao de mercado. A presena estrangeira no cinema brasileiro pode ser notada desde a chegada do Omniographo. No s no aspecto importador, como tambm na produo e exibio locais. A atuao de imigrantes na rea cinematogrfica brasileira notria, como salienta Paulo Emlio Salles Gomes:O quadro tcnico, artstico e comercial do nascente cinema era constitudo de estrangeiros, notadamente italianos cujo fluxo imigratrio foi considervel no final do sculo XIX e nos primrdios do XX. No terreno mais propriamente artstico, os encenadores e intrpretes provinham de elencos dramticos em tourne sul-americana ou de grupos aqui radicados onde predominava o elemento estrangeiro (1980: 28/29).</p> <p>Nestes primrdios da cinematografia nacional Paschoal Segreto, tambm imigrante italiano, exerceu papel fundamental. dele a primeira sala de projeo cinematogrfica: o Salo das Novidades Paris no Rio, inaugurado a 31 de julho de 1897 Rua do Ouvidor, 141 na ento capital federal (FINGUERUT, 1986: 03).</p> <p>Alm de cinema, o Salo Paris no Rio, oferecia grande variedade de divertimentos visuais e mecnicos. Contudo, as vistas animadas constituam a principal atrao e, como havia necessidade de se renovar constantemente o repertrio, emissrios de Paschoal Segreto seguiam com freqncia para Nova York ou Paris, a fim de obter vistas novas e aparelhamento mais aperfeioado. Afonso era em geral o encarregado destas misses (Gomes, 1980: 40).</p> <p>Afonso Segreto, ao retornar da Europa a 19 de junho de 1898, produziu o que talvez seria a primeira pelcula aqui filmada: uma tomada da Baa de Guanabara a bordo do navio francs Brsil (FINGUERUT, 1986: 03). Informao esta no totalmente validada pela indicao de filmes brasileiros produzidos no ano de 1897, como Maxixe, de Vtor de Maio (SIMIS, 1996: 19). Em termos mercadolgicos, vale ressaltar neste perodo, uma caracterstica do aspecto distribuio. Os filmes que aqui chegavam ou eram aqui produzidos ganhavam principalmente dois canais de distribuio: as salas de projeo das grandes cidades ou a possibilidade de exibio ambulante. O cinematgrafo ganhou salas nas grandes cidades do Brasil, mas funcionava tambm como espetculo de feira. Pelo pas afora seguiam cinegrafistas itinerantes registrando coisas e projecionistas exibindo-as, bem como ao material importado de sries de filminhos de diversas provenincias (FINGUERUT, 1986: 03). Da mesma maneira como Melis fizera, utilizando o cinema para espetculos ilusionistas. No Brasil, esta caracterstica tambm se fez presente, e com grande sucesso: Cinematgrafo Edison (sic) do prestidigitador Enrique Moya, o qual, aberto ao pblico das 11 da manh s 9 da noite, atraiu, no curto prazo de dois meses, como nos diz O Pas de 11 de abril de 1897, o aprecivel total de 52.000 pessoas (VIANY, 1987: 34). No aspecto produo, podemos observar os dados apresentados por Anita Simis: neste perodo de dez anos foram produzidos 151 filmes brasileiros, uma mdia de 15 filmes por ano, aproximadamente. Com perodos que chegam a se produzir 24 e 27 filmes como em 1899 e 1900, respectivamente (SIMIS, 1996: 302). Filmes curtos, simples e baratos que atendiam as necessidades dos canais de distribuio acima descritos e que eram exibidos em concomitncia com os filmes estrangeiros. 2. A Fase urea do Cinema Nacional Um cinema itinerante e produtor de curtas fitinhas artesanais predominou no perodo anteriormente apresentado. Atender ao que se chamou de espetculo de feira e estar presente em alguma sala das grandes cidades, talvez fosse a tnica do cinema desta poca. Vincula-se esta falta de opo no item distribuio pela deficincia no fornecimento de energia eltrica em vrias regies do Brasil, como salienta Paulo Emlio Salles Gomes:Os dez primeiros anos de cinema no Brasil so pauprrimos. As salas fixas de projeo so poucas, e praticamente limitadas a Rio e So Paulo, sendo que os numerosos cinemas ambulantes no alteravam muito a fisionomia de um mercado de pouca significao. A justificativa principal para o ritmo extremamente lento com que se desenvolveu o comrcio cinematogrfico de 1896 a 1906 deve ser procurada no atraso brasileiro em matria de eletricidade. A utilizao, em maro de 1907, da energia produzida pela usina Ribeiro das Lages teve conseqncias imediatas para o cinema no Rio de Janeiro. Em poucos meses foram instaladas umas vinte salas de exibio, sendo que boa parte delas na recm construda Avenida Central, que j havia desbancado a velha Rua do Ouvidor como centro comercial, artstico mundano e jornalstico da Capital Federal (1980: 41).</p> <p>Alex Viany apresenta-nos uma estimativa de abertura de salas de projeo no perodo em questo: Basta dizer que, em 1907, somente na capital federal, entre 9 de agosto, data da inaugurao do Cinematgrafo Presidente a 31 de dezembro, 22 salas foram instaladas ou adaptadas para fins exclusivamente cinematogrficos (1987: 36). Talvez seja um tanto fortuito atribuir apenas ao quesito energia eltrica uma situao desprivilegiada para um segmento de produo como o cinema. Porm, ainda citando Paulo Emlio, o comrcio cinematogrfico e a disponibilidade de energia, sem cortes e quedas bruscas, mantm uma tnue relao de reciprocidade. O que possibilitou: A abertura contnua de dezenas de salas no Rio, e logo em So Paulo, animou a importao de filmes estrangeiros, e foi seguido de perto por um promissor desenvolvimento de uma produo cinematogrfica brasileira. Um nmero abundante de curtas-metragens de atualidades abriu caminho para numerosos filmes de fico cada vez mais longos (GOMES, 1980: 28). Esta tendncia das produes nacionais de estarem em consonncia com o crescimento de mercado, e em competio igualitria com as fitas estrangeiras prende-se ao fato dos interesses entre produo, distribuio e exibio estarem vinculados, pelo menos no que tange a este perodo especificamente. Este vnculo acontecia atravs da participao de proprietrios de salas de exibio na rea de produo cinematogrfica.Esses empresrios argutos eram, ao mesmo tempo, produtores, importadores e proprietrios de salas, situao que condicionou ao cinema brasileiro um harmonioso desenvolvimento pelo menos durante poucos anos. Entre 1908 e 1911, o Rio conheceu a idade de ouro do cinema brasileiro, classificao vlida sombra da cinzenta frustrao das dcadas seguintes. Os gneros dramticos e cmicos em voga eram bastante variados. Predominavam inicialmente os filmes que exibiam os crimes, crapulosos ou passionais, que impressionavam a imaginao popular. No fim do ciclo o pblico era sobretudo atrado pela adaptao ao cinema do gnero de revistas musicais com temas de atualidade (GOMES, 1980: 29).</p> <p>Desta poca seria a primeira fita brasileira de fico. Conforme Paulo Emlio, os dados ainda so controversos, alguns apontam Os Estranguladores, outros levantam a hiptese sobre Nh Anastcio Chegou de Viagem. Ambos so de 1908, mas independentemente do qual foi o primeiro, marcam, os dois, gneros distintos e de pleno sucesso dentro da produo nacional o gnero policial e o matuto. Tais gneros seriam repetidos nas produes brasileiras mesmo dcadas adiante. Paulo Emlio traz alguns nmeros sobre a obra de Antnio Leal: Calcula-se que Os Estranguladores foi exibida mais de oitocentas vezes, constituindo-se um empreendimento sem precedentes no cinema brasileiro. Tinha setecentos metros, isto , quase quarenta minutos de projeo e compunha-se de dezessete quadros (GOMES, 1980: 44). Anita Simis refora estes dados: Entre os filmes de grande sucesso temos Os Estranguladores (1908), que alcanou mais de oitocentas exibies em dois meses, e Paz e Amor (1910), exibido mais de novecentas vezes (1996: 72). Interessante que durante este perodo de ascenso do cinema brasileiro no apenas o gnero matuto e policial foram os pontos de referncia e concentrao, muitos outros gneros foram apresentados ao pblico, como: melodramas, histricos, patriticos, religiosos, carnavalescos, comdias, musicais (com artistas atrs da tela sonorizando o filme), e os filmes-revista (GOMES, 1980: 45/47). H um depoimento de Ademar Gonzaga interessantssimo acerca desta produo cinematogrfica:</p> <p>Em 1909/10, fizemos mais de cem filmes cada ano, naturalmente em uma parte. Nesse tempo o cinema brasileiro no temia a concorrncia estrangeira, e nossos filmes realmente atraiam mais ateno do que The Violin Maker of Cremona ou The Lonely Villa, de Griffith. Nosso cinema dava pancada mesmo no que vinha de fora. E Gonzaga fala-nos tambm do que talvez tivesse sido o primeiro estdio cinematogrfico brasileiro situado em pleno centro comercial do Rio de Janeiro, perto da confluncia das ruas do Lavradio e do Riachuelo. Ergueu-o o italiano Giuseppe Labanca, tio do ator Joo Labanca, diz-se que com a bagatela de 30 contos de ris. S ali, no perodo em foco, foram feitos uns cem filmes (GONZAGA Apud VIANY, 1987: 44).</p> <p>Como se percebe a euforia do perodo extravasou para os estdios de produo: se o primeiro (1910) foi o de Labanca, no tardaram em aparecer outros, o de Antnio Leal (1915) era todo de vidro, uma forma de captar luz solar (SIMIS, 1996: 71). Todo este quadro positivo deu-se atravs das 963 produes nacionais registradas no perodo, grande parte destes filmes eram de curta metragem, vrios deles documentrios (768), tomadas de vista, e um quarto de fico (240) (Idem: 72). J a partir de 1912 percebe-se uma queda na produo cinematogrfica brasileira, em parte pela falta de recursos tecnolgicos que incrementem esta produo, em parte pela formao do esquema industrial na produo estrangeira:Essa idade do ouro no poderia durar, pois sua ecloso coincide com a transformao do cinema artesanal em importante indstria nos pases mais adiantados. Em troca do caf que exportava, o Brasil importava at palito e era normal que importasse tambm o entretenimento fabricado nos grandes centros da Europa e da Amrica do Norte. Em alguns meses o cinema nacional eclipsou-se e o mercado cinematogrfico brasileiro, em constante desenvolvimento, ficou inteiramente disposio do filme estrangeiro. Inteiramente margem e quase ignorado pelo pblico, subsistiu contudo um debilssimo cinema brasileiro (GOMES, 1980: 29).</p> <p>Paulo Emlio segue narrando a derrocada do perodo em questo. Enfatiza a sada do pessoal da rea da produo cinematogrfica e ainda, comenta o rompimento do setor de exibio naquela cadeia de interesses homlogos entre produo, distribuio e exibio:Intensifica-se a crise: quase todos aqueles que participavam ativamente da fabricao de filmes nacionais abandonam as lides cinematogrficas. Argumentistas, roteiristas, e diretores de cena que haviam surgido, aos poucos vo retornando s suas origens jornalsticas e teatrais. O desinteresse generalizado atinge tambm os primeiros produtores e deles no escapa nem um Paschoal Segreto, que cada vez mais, se dedicar apenas ao teatro ligeiro. Agrava-se a desero: Labanca abandona definitivamente a profisso cinematogrfica. Permanece Serrador, mas sua frutuosa carreira no cinema apia-se agora exclusivamente no comrcio do filme produzido no estrangeiro. Rompe-se a antiga solidariedade de interesses entre os fabricantes de filmes nacionais e o comrcio local de cinematografia. Os que persistem em fazer filmes nacionais encontram crescente dificuldade em exibi-los (GOMES, 1980: 49).</p> <p>J no livro de Anita Simis encontramos algumas razes mais detalhadas para a verdadeira falncia de um perodo to prdigo. Simis salienta o ano de 1914, incio da primeira guerra mundial, como ponto chave da crise. A dificuldade de se importar fitas virgens, a alta cambial, a crise enfrentada pelos exibidores e produtores e, sobretudo a penetrao mercadolgica imposta pelos norte-americanos: Hollywood j ensaiava a grande revoluo econmica do cinema americano, a qual traria profundas conseqncias para pases como o Brasil (SIMIS, 1996: 73). Houve uma expanso do cinema...</p>