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  • 8/6/2019 CIG-002 Cinthia de Almeida Galindo

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    EXPANSO URBANA E ESTRUTURA SOCIOESPACIALEM PAULNIA, SO PAULO, BRASIL

    Cinthia de Almeida Galindo1

    Ederson Nascimento2

    Lindon Fonseca Matias3

    RESUMOO objetivo deste trabalho consistiu em investigar o processo de expanso horizontal urbanano municpio de Paulnia por intermdio de mapeamentos temticos e anlises a respeito dadistribuio espacial dos diversos segmentos populacionais, bem como salientar as principais implicaes sobre a atual configurao socioespacial da cidade. A metodologiautilizada fundamentou-se no emprego de tecnologias de geoprocessamento para elaboraode mapas e subsdio s anlises acerca da estruturao socioespacial. A distribuio dos

    segmentos populacionais foi realizada a partir do tratamento estatstico-espacial de dadossociodemogrficos. Ademais, trabalhos de campo e entrevistas foram realizados com ointento de conhecer e registrar informaes localizadas. Evidenciou-se nos mapas temticoso acelerado processo de expanso urbana. J o padro do espraiamento horizontal da reaurbanizada concatenado distribuio diferencial da populao revelam o modo como vemsendo produzido este espao urbano, o que corrobora na identificao de um cenrio decrescente segregao socioespacial.

    INTRODUO: INDUSTRIALIZAO E EXPANSO URBANA

    A anlise da expanso urbana por meio da incorporao de novas reas aoespao da cidade muito importante para a compreenso da configurao do espaourbano. Tal investigao fornece elementos que permitem caracterizar, entre outrosaspectos, a evoluo da diferenciao espacial interna, com a conformao dosdiferentes espaos de produo econmica e de acumulao do capital, assim comoavaliar a distribuio dos segmentos sociais e, por conseguinte, a prpria reproduo dasrelaes sociais na cidade (CORRA, 1995; LEFEBVRE, 2001).

    No espao urbano, a concentrao espacial de pessoas na forma de fora detrabalho e de mercado consumidor, aliada concentrao dos meios de produo, permite que as foras produtivas alcancem um elevado grau de desenvolvimento,

    1 Mestranda no Programa de Ps-Graduao em Geografia da Universidade Estadual de Campinas, SoPaulo/Brasil. E-mail: [email protected] Professor Assistente de Geografia da Universidade Federal da Fronteira Sul,Campus Chapec, SantaCatarina/Brasil. Doutorando no Programa de Ps-graduao em Geografia da Universidade Estadual deCampinas, So Paulo/Brasil. E-mail: [email protected] Professor Doutor no Departamento de Geografia da Universidade Estadual de Campinas, SoPaulo/Brasil. E-mail: [email protected]

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    acelerando assim a realizao da mais-valia e a reproduo do capital e, ao mesmotempo, levando a uma concentrao populacional ainda maior. Portanto, a urbanizaoreflete a dinmica de acumulao e concentrao do capital na cidade e reproduz aaglomerao ao demandar cada vez mais espao. Mas a cidade, mais do que um local de

    produo e consumo de mercadorias e de habitao, tambm um importante lcus davivncia humana em sua dimenso plena, e seu espao reflete e condiciona as diversasestratgias engendradas pelos diferentes agentes sociais na criao e apropriao dariqueza (produo e comercializao de mercadorias), da reproduo da fora detrabalho e do desenrolar da vida cotidiana como um todo (educao, consumo,atividades culturais, lazer etc.) (SOUZA, 2003).

    As dinmicas de expanso horizontal e estruturao interna do espao dacidade esto vinculadas ao processo mais amplo de (re)produo do espao urbano,

    sendo concretizados a partir de conflitos e contradies no mbito da sociedade,representados, de um lado, pelos diferentes interesses do capital, que apropriam-se doespao da cidade e utilizam-no como fora social produtiva (RIBEIRO, 1997) e, deoutro, pelas necessidades da sociedade em geral, que concebem a cidadefundamentalmente como um [...] meio de consumo coletivo (bens e servios) para areproduo da vida dos homens (CARLOS, 2001, p. 46).

    Neste contexto, as reas urbanizadas, isto , a poro do territrio organizado eutilizado para a implantao de atividades eminentemente urbanas (desenvolvimento de

    atividades produtivas ou a implantao de reas habitacionais e de lazer) estendem-seem direo a terras at ento utilizadas para fins agropecurios, medida que aconverso de seu uso de rural para urbano atenda, de modo satisfatrio, a uma gama deinteresses diversos, muitas vezes conflituosos e contraditrios: a) do capital industrial ecomercial, interessados no uso produtivo que a terra, atravs de sua localizao, podefornecer; b) da populao em geral, na condio de fora de trabalho e de consumidores,interessados nos meios necessrios ao desenvolvimento da vida (oferta de infraestrutura,acessibilidade a bens e servios, conforto, segurana etc.) e; c) dos proprietriosfundirios e do capital imobilirio, os quais veem nesta converso de uso sua prpriafonte de riqueza, atravs do parcelamento e da venda da terra na forma de lotes ou deempreendimentos habitacionais (conjuntos residenciais, condomnios exclusivos etc.).

    As condies que impulsionam essa expanso urbana dependem, porm, do processo geral de urbanizao, resultante da configurao territorial da produoeconmica, promovida pelo capital e mediada pelo Estado. Sendo assim, destacam-se as

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    reas onde a dinmica de industrializao mais acentuada, j que a indstria acaba por acentuar a urbanizao nos pontos do territrio onde esta se desenvolve (SANTOS,1993), atravs da concentrao de infraestrutura (vias de transporte, sistema detelecomunicaes etc.), de atividades econmicas complementares (empresas

    fornecedoras de materiais, prestadoras de servios, parceiras comerciais, financeiras,entre outras) e de populao, na forma de fora de trabalho e de mercado consumidor (CARLOS, 1988).

    A cidade de Paulnia, objeto de estudo neste trabalho, tem se destacado nocenrio de industrializao e urbanizao no estado de So Paulo e no Brasil. Omunicpio, que possui uma populao de 82.150 habitantes e taxa de urbanizao de99,9%4, localiza-se em uma das regies urbano-industriais mais dinmicas do pas,sendo parte do espao metropolitano nucleado por Campinas (municpio vizinho ao

    sudeste) e situado a 115 km da Regio Metropolitana de So Paulo (Figura 1).Paulnia tem se notabilizado devido a um intenso processo de expanso urbana,

    desencadeado a partir da implantao, em seu territrio, da Refinaria de Paulnia(Replan) em 1972. A implantao desta refinaria atraiu a instalao de outras diversasempresas do setor de petrleo e derivados, configurando o que viria a se tornar um dosmais importantes polos petroqumicos da Amrica Latina. Com a prosperidadeeconmica gerada pela economia industrial, a rea urbanizada do municpio passou aser ampliada rpida e continuamente, atravs da interveno do poder pblico com

    ampliaes significativas do permetro urbano municipal, e concretizada principalmente por agentes privados (proprietrios de terras e incorporadoras), na forma de loteamentose reas condominiais voltadas aos segmentos de poder aquisitivo mais elevado.

    Neste trabalho, realiza-se o mapeamento e anlise da expanso urbana ocorridano municpio de Paulnia, abordando as principais condicionantes do processo, assimcomo suas principais implicaes sobre a configurao socioespacial atual da cidade.

    A EVOLUO URBANA DE PAULNIA: BASES HISTRICO-GEOGRFICAS

    Entender a cidade de hoje, apreender quais processos do conformao complexidade de sua organizao [...], exige uma volta s suas origens e a tentativa de

    4 Dados do Censo Demogrfico 2010, do IBGE.

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    recons tru ir, a inda que de forma s int tica, a sua tra jet r ia (SPOSITO, 2000, p. 11). Nocaso de Pau lnia, como j adian tamos, a conf i urao soc ioespac ial atua l da c idademan t m es treita re lao com a d inm ica de urban i ao impu lsionada sobre tudo por suaeconom ia indus tr ial.

    Fi ura 1 : Loca li ao do mun ic pio de Pau lnia.

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    At 1964, Paulnia se manteve parte do territrio do municpio de Campinas, primeiramente como bairro com o nome de So Bento e, a partir de 1944, como distritointitulado Jos Paulino. Apesar da centralidade econmica exercida por Campinas nocontexto regional, caracterstica que se mantm at os dias atuais, j no incio da dcada

    de 1940 a economia do ento bairro j comeara a se destacar, com a implantao, emseu territrio, da primeira grande unidade industrial, a Companhia Qumica RhodiaBrasileira, em 1942 (MLLER; MAZIERO, 2006). A instalao desta indstria elevouconsideravelmente a arrecadao fiscal originada no local, fato este que seria o principalelemento motivador para o crescimento de movimentos em prol da emancipao emrelao a Campinas, ainda mais aps a elevao do bairro categoria de distrito, umavez que este no recebia recursos do distrito-sede na mesma proporo em que propiciava arrecadao (BRITO, 1972).

    A emancipao do municpio viria a se concretizar em 28/02/1964. Porm, onovo municpio ainda tinha a atividade agrcola exercendo participao importante emsua base econmica. De acordo com Matias (2009), em 1964 cerca de um tero daextenso territorial de Paulnia era utilizado para o cultivo da cana-de-acar, sendogrande parte dessa produo processada pela indstria Rhodia para a produo de lcooletlico. Alm da cana de acar, outros 23% do territrio paulinense eram ocupados por culturas agrcolas, com destaque para o caf e o algodo. A populao rural ainda predominava no municpio, sendo em 1969 de aproximadamente 65,5% da populao

    total (SOARES, 2004). Na dcada de 1970, a partir da inaugurao da Replan, a configurao

    econmica e territorial do municpio passa a ser alterada rapidamente de rural-agrcola para urbano-industrial. A implantao da petroqumica foi promovida pelos governos