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Cidade Moderna Cidade Mutante - CORE .A cidade moderna, com exce§£o de exemplos can´nicos, n£o
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  • 10 LA CIUDAD

    Cidade ModernaCidade Mutante

    Porto Alegre / Praia de Belas / 1752 / 2016Sergio Marques

    colonial, neoclssico, positivista e moderno, entre outras, em arranjos distintos que pre-valece a circunstncia histrica. Este collage, definido por Rowe e Koetter1, designa os pro-cessos de hibridizao entre marcha histrica, aes urbansticas, tradio cultural, fatores mesolgicos, restries econmicas, vonta-des coletivas e consequncias polticas, mui-tas vezes conflituosas, das quais o espao ur-bano vestgio resultante. A cidade moderna, com exceo de exemplos cannicos, no se imps como projeto unssono e unvoco, mas sim conjunto de aes perpetuadas em seu tempo e dispostas por agentes de categorias multidisciplinares, cujas interaes difundem-se espacialmente. O moderno, como movi-mento artstico, em que pese diferenas qua-litativas na Amrica Latina, granjeou sentido comum, tanto por esprito de modernizao almejado, quanto atributos espaciais e/ou es-tticos representativos, forjados dentre poder e opinio pblica. Porto Alegre, no entanto, entre as cidades brasileiras, perseverou ciclos de urbanizao em que pragmatismo, objeti-vidade no fazer e militncia de abnegados pla-nejadores, adeptos do coletivo, sem rupturas extraordinrias nem monumentalismo exacer-bado, capitalizou certa continuidade de evo-luo urbana e planejamento, at o final dos anos 1970, onde o Movimento Moderno, por vezes, se manifesta como esprito, por vezes em espao urbano e arquitetura de boa qua-lidade mdia. Como em suas outras expres-ses idiossincrticas, esta cidade, margem dos grandes centros de irradiao cultural e econmica brasileiros, apresenta urbanismo moderno pouco espetacular no sentido de paisagem e escala, mas de especial sentido realista, coletivo e factvel; de senso civilizatrio atravs da modernizao urbana qualificadora do espao, no qual qualidade mdia compe conjunto aprecivel, ademais malogros e insu-cessos. A Porto Alegre moderna, assim pen-sada como plano de organizao territorial e intervenes modernas sobre tessitura hist-rica tem na Praia de Belas e no water front seu principal mostrurio do presente e opor-tunidades futuras. Ao longo de sua histria e evoluo, descortinam-se aes, projetos de urbanizao, obras de arquitetura e arte, nas quais o gnio de modernizao encobre nsia de progresso, anseio de espaos modernos e prospecta condio contempornea, oxal, sem descontrole urbano.

    Esturio | Aorianos | Planejamento | Fu-turo

    Viso panormica sobre transformaes da Praia de Belas, mesmo superficial, des-cortina processo que, por menos pr-deter-

    cortina processo que, por menos pr-deter-minado em projeto autoral perfilhado e mais-resultante de somatrio de aes coletivas, no esconde o sentido de modernizao social nem a imagem de espao moderno pretendidos pelas lideranas. Desde que com intuito de colonizar o territrio nacional, o po-der central do imprio intentou o povoamen-to, trazendo sessenta casais aorianos2, que acessaram a regio pela foz do arroio Dilvio na extensa baa formada pelo promontrio da pennsula e Ponta do Dionsio3 - a cidade passou a chamar-se Porto dos Casais e o caminho do sul tornou-se estrada, chamada Praia de Belas - o crescimento de importn-cia da cidade-capital a seguir, propiciou, na parte norte, sucessivos aterros para implan-tao do porto definitivo e acrscimo de al-guns quarteires, cuja ocupao, ao longo do tempo, reforou a vocao comercial, criando a centralidade da futura regio metropolitana e Estado, em razo das funes acumuladas pela cidade-plo. No tardou o aparecimen-to de interesse para ocupao da parte sul, ento para produzir reas habitveis e bons negcios imobilirios: rea de interesse e ex-panso, rea de urbanizao e modernizao, rea de projetos.

    Foto area, Centro de Porto Alegre, 1983. Fonte: PMPA-SPM

    Aterro da Praia de Belas, final da dcada de 1960. Fonte: Acervo Joo Alberto da Fonseca, UniRitter

    Tribunas do Jockey Club do Rio Grande do Sul, Roman Fresnedo Siri, 1954. Fonte: Pierre Fernandez

    Praia de Belas, Gigante da beira Rio, Parque Marinha do Brasil, dcada de 1970. Fonte: PMPA-SPM

    Quatro Planos | Gnese da Cidade Mo-derna

    O Plano de Melhoramentos (1914), co-ordenado pelo Eng. Moreira Maciel, previa conquista de terra sobre o esturio e con-templava a orla, na rea da Praia de Belas, com traado de larga avenida-parque, desde a Ponta da Cadeia4 at a Ponta do Dionsio, formando contorno da cidade junto ao rio, nos lados Oeste e Sul da pennsula e Oeste no desenho da baa. Projetos urbanos do Rio de Janeiro, com aumentos de reas custa dos desmontes dos morros Santo Antnio e Castelo, repercutiam por ali, com estratgia de acrscimos de terras, a partir do desmonte do Morro Santa Tereza. O Plano Gladosh, na dcada de 1940, traou, para o aterro, projeto de Bairro Re-sidencial Modelo, com conjunto expressivo de boulevares arranjados figurativamente, a partir do centro histrico, em pata de ganso axial Av. Borges de Medeiros. O arruamento intersticial acomodaria a geometria radio-con-cntrica, modelando quarteires de edifcios perimetrais gabaritados maneira de Haus-smann. Na borda do rio, a configurao de parque linear, retificando o water front, gerado pelo aterro proposto, j conceito de rea p-blica ajardinada, como posteriormente se rea-lizou, aqui com traado acadmico insinuado. A viso urbana de Gladosh, no entanto, como em suas arquiteturas, ao contrrio da idia de permanncia e consolidao da tradio

    Projeto Praia de Belas, E. Pereira Paiva e Carlos Maximiliano Fayet,1959. Fonte: Plano Diretor de Porto Alegre

    Projeto Praia de Belas, Carlos Maximiliano Fayet e Moacyr Moojen Marques,1961. Fonte: Plano Diretor de Porto Alegre

    C idades americanas concentram he-rana urbanstica plural de passado

  • 11

    UMA CASA | TRS PROJETOS | CINQUENTA ANOS A Casa de Ipanema 1958 / 2008

    Beaux-Arts, revelava-se moderna no sentido de expanso e substituio, sob a luz da ci-dade visionria, desenhada segundo imagem repleta de signos da tradio acadmica e ar-quitetura expressionista. Em 1959, no Plano Paiva5, os urbanis-tas Edvaldo Paiva e Ubatuba de Farias, elabo-raram diretrizes urbansticas e aproveitamen-to da rea, pela primeira vez recomendando aterro mediante dragagem de material do leito do esturio. O traado mostrava aproximao com iderio moderno, afastamento do xadrez sistemtico e continuidade de reas verdes. Algumas propostas de Paiva e Ubatuba ins-piravam-se claramente no Plano Agache para o Rio de Janeiro, como o caso da entrada da cidade, proposta na ponta da pennsula. Neste plano urbanstico, no projeto para um bairro de duzentos mil habitantes, coordena-do por Carlos Maximiliano Fayet e no aterro, tabla rasa conquistada ao rio, descortinou-se a matriz gentica do Movimento Moderno, desdobrando pequenas units dhabitation e cidade jardim, em blocos de escala propor-cionada espaos pblicos celulares distri-budos em ruas locais, armadas entre as ave-nidas radiais, na forma de redents. Os bairros

    de habitao coletiva do Movimento Moder-no, como Toulouse le Mirail, particularizaram-se e adequaram-se ao contexto, atravs de instruo normativa (ato contnuo, validando suas crenas e aposta na nova cidade nova, Fayet, Arajo e Moojen construram na Praia de Belas,o edifcio FAM, pequena unidade ha-bitacional referencia da arquitetura moderna nativa). Diretrizes consolidadas no I PDDU (1979), plano metropolitano e multidisciplinar, coorde-nado por Moacyr Moojen Marques, descapi-talizou a rea do aterro dentre a criao de apreciveis reas pbicas projetadas na orla, como os parque Marinha do Brasil, Mauricio Sirotsky Sobrinho e Harmonia e o Centro Ad-ministrativo, onde a idia de planejamento territorial metropolitano e projeto de espao moderno se encontram.

    Mutaes | Oportunidades | Partici-pao e Tcnica

    Em ambiente globalizado, deslocamentos de centros econmicos e novas emergncias, a incluso de Porto Alegre em cenrios urbanos que merecem alguma ateno - por um lado

    pelas experincias vanguardistas de gesto participativa6, e por outro, pela recobrada co-nexo espacial entre a cidade e o esturio7 - suscita alguma reflexo. Na perspectiva de importantes mutaes conseqentes das ma-cro mudanas mundiais e das transformaes urbanas locais, tendo em vista especificamen-te a Copa do Mundo de 2014 e os jogos olm-picos no Rio de Janeiro, em 2016, projetos, de envergadura expressiva, em marcha, como a renovao do Cais Mau de Jaime Lerner (Curitiba) e b720 (Barcelona) e o complexo es-portivo do Gigante da Beira Rio de Hype Es-tudio e Santini & Rocha (Porto Alegre), se por um lado evocam jbilo pela oportunidade de prosseguimento do acmulo de projetos que fazem cidade, sugerem tambm a retomada de viso tcnica prospectiva, planejada no espao e tempo, cuja ponderao no exclu-dente entre o relativismo da participao po-pular, a ambigidade de aes concertadas pblico-privadas e projetos utpicos autistas, assegure viso disciplinar tcnica, desideolo-gizada e ordenada, necessria construo planejada da Porto Alegre contempornea e futura. Entendimento sem o qual, os vestgios remanescentes da cidade atual sero to

    somente caracteres autnomos em um pa-limpsesto sem sentido.

    1 ROWE, Collin KOETTER, Fred. Ciudad Collage. Gustavo Gili: Barcelona, 1981.2 Chegada em novembro de 1752.3 Local onde esto as instalaes do antigo Estaleiro S, hoje chamado Pontal do Estaleiro.4 Ponta da cadeia o nome popular da extremidade da pennsula onde se encontra o centro histrico, ocupada hoje pela Usina do Gasmetro.5 Plano Diretor de Porto Alegre Lei n.2046 de 1959, subs-tituda pela Lei n.2330, de 1961. Plano geral de desen-volvimento urbano, coordenado pelo Eng. Edvaldo Pereira Paiva, do qual fizeram parte Roberto Felix Veroneze, Carlos M. Fayet e Moacyr Moojen Marques, entre outros.6 Com a pioneira implantao do oramento participativo e a criao do Forum Social Mundial, anlogo a Davos, cuja base poltica corresponde a experincia inicial, em mbito executivo, das ideologias

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