CHRIS Sobre Douglas

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Mary Douglas

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<ul><li><p>SESSO LIVRE</p></li><li><p>MARGINALIDADE RELATIVA DO AFRICANISMODE MARY DOUGLAS: NARRATIVAS DE UMA ANLISE</p><p>DO CAMPO ACADMICO BRITNICO1</p><p>Christiano K. Tambascia*</p><p>Resumo: A pesquisa etnogrfica de Mary Douglas (1921-2007) no Congo Belga pouco estudada no conjunto de sua obra, ainda que tenha sido crucial para suaformao intelectual. Meu objetivo analisar os problemas enfrentados por Douglasem sua tentativa de insero no campo britnico dos estudos africanistas, entre asdcadas de 1940 e 1960, decorrentes principalmente de sua relao com outrosantroplogos j estabelecidos, como Max Gluckman. Pretendo fornecer elementosque tracem hipteses sobre a forma como as narrativas de marginalidade e osmecanismos de prestgio produziram efeitos na trajetria acadmica da antroploga.</p><p>Palavras-chave: Mary Douglas; Africanismo Britnico; Histria da Antropologia;Max Gluckman.</p><p>Abstract: Mary Douglass (1921-2007) ethnographic research in the Belgian Congois fairly unexplored in the sum of her work, despite being crucial to her intellectualupbringing. My objective is to analyse the struggles faced by Douglas in herefforts to integrate the British field of africanist studies, between the 1940s and the1960s, risen mainly by her relation with other already established anthropologists,such as Max Gluckman. I intend to bring elements that formulate hypothesisconcerning the way the marginality narratives, and the prestige mechanisms producedeffects on the anthropologists academic trajectory.</p><p>Keywords: Mary Douglas, British Africanism; History of Anthropology; Max Gluckman.</p><p>1 Este texto resultado de uma apresentao realizada durantea 27a RBA, em 2010. Agradeo os comentrios de Luciana Hartmann,Vnia Zikn Cardoso, Esther Jean Langdon e os colegas do GT Narrativasem Performance: experincia, subjetivao e etnografia. Sou igualmentegrato CAPES pela bolsa de Estgio de Doutoramento no Exteriorque possibilitou esta pesquisa.* Doutor em Antropologia Social pela Universidade Estadual de Campinas.</p></li><li><p>|160|Marginalidade Relativa do Africanismo de Mary Douglas...</p><p>IntroduoOs trabalhos etnogrficos acerca do continente africano</p><p>produzidos por Mary Douglas (1921-2007), do final da dcada de1940 at meados da dcada de 1960, so relativamente poucoanalisados pelos historiadores da disciplina e pelos estudiososda obra da antroploga britnica. Entretanto, alguns elementosde sua teoria cultural, reconhecida principalmente coma publicao de Pureza e Perigo (Douglas, 1976), em 1966, j podemser vislumbrados em suas reflexes sobre o simbolismo e as formasde racionalidade Lele do Congo Belga, onde fez seu trabalhode campo.</p><p>O objetivo deste texto fornecer alguns elementos quepossibilitem delinear uma anlise das regras de insero, prpriasda academia britnica, ao campo2 de estudos africanistas demeados do sculo passado, de modo a relativizar as narrativas 3</p><p>de uma marginalidade acadmica de Douglas levantadas pelaprpria autora. No final do artigo farei algumas consideraessobre a noo de experincia, que creio poder conciliar este cotejoentre as estruturas objetivas do campo e a subjetividade narrativa mesmo que esta contraposio possa expor aparentescontradies. Pretendo, para tanto, dispor de material de arquivo cartas, manuscritos e documentos das instituies em quea antroploga trabalhou para descrever a trajetria de Douglase sua tentativa de estabelecer interlocues com os autoreafricanistas j estabelecidos, neste perodo4. O estudo deste corpodocumental foi possvel, principalmente, atravs das pesquisas:</p><p>2 Adoto aqui a noo de campo tal como formulada por Bourdieu (2001):um espao relativamente autnomo de estruturas de relaes sociaisobjetivas, em que devem ser compreendidas as produes e as disputassimblicas dos agentes envolvidos, dadas suas posies, decorrentesde trajetrias e capitais simblicos especficos.3 Narrativas, aqui, so consideradas sequncias explicativas construdas,mas relacionadas, a eventos reais.4 Entendo por africanistas britnicos, os estudiosos formados por umatradio antropolgica particular que publicavam anlises sobreo continente africano. Ou, como coloca Fardon, um pesquisador que</p></li><li><p>Idias | Campinas (SP) | n. 3 | nova srie | 2 semestre (2011)</p><p>|161|Christiano K. Tambascia</p><p>dos arquivos do International African Institute contidos na bibliotecada London School Of Economics em Londres e dos arquivosda Universidade de Northwestern, Evanston, onde Douglaslecionou na dcada de 1980 e para onde doou grande partede seus manuscritos e correspondncia.</p><p>Tive a oportunidade de entrevistar, ao longo do anode 2007, alguns colegas e familiares de Mary Douglas, bem comoa prpria antroploga, pouco antes de sua morte aos 86 anos.Isto permitiu discutir algumas das hipteses delineadas por mim,ou por outros pesquisadores da disciplina, sobre os desafiosenfrentados por Douglas em seu desejo de reconhecimentoe interlocuo, ao encarar os discursos sobre seu lugar na literatura antropolgica como indcios das foras institucionaisem jogo. Espero tambm poder fornecer exemplos da importnciade seu trabalho de campo para a produo terica que a consagrouinternacionalmente. Talvez seja possvel ver sob uma nova luza trajetria intelectual da autora, ao assumir que estruturasinstitucionais e redes de colaborao assumem um peso, por vezes,pouco considerado na histria da antropologia.</p><p>fizesse o esperado: produzir anualmente uns dois artigos etnogrficoscaprichados, fazer a resenha da bibliografia referente a sua regio parapublicaes especializadas, terminar sua monografia e partir para estudosregionais comparados (Fardon, 2004, p. 93). claro que pocada pesquisa de campo de Mary Douglas este grupo abarcava a maiorparte dos antroplogos britnicos. Entretanto, h uma conotao empricaao termo, mesclada suposio de que existe um campo especficode estudos focados em temas correlatos. Se Douglas iria utilizar dadosetnogrficos sobre os Lele pelo restante da carreira, pareceser implicitamente aceito que depois da publicao de Pureza e Perigoela no mais foi considerada uma africanista profissional.</p></li><li><p>|162|Marginalidade Relativa do Africanismo de Mary Douglas...</p><p>A pesquisa etnogrfica no CongoA despeito da perspectiva claramente estrutural-</p><p>funcionalista, a etnografia congolesa de Mary Douglas no deixa,entretanto, de demonstrar os interesses da autora pela relaoentre cosmologia, instituies sociais e padres culturais,desenvolvidos principalmente a partir da dcada de 1960.Igualmente, se considerarmos que seus escritos africanistas tocamem alguns pontos caros aos antroplogos da Universidadede Manchester que pesquisaram em territrios prximos aosvisitados por Douglas, e cujas teorias j pareciam superara perspectiva do estudo de uma sociedade africana tradicional,intocada pelo aparato colonial o silncio por parte destes autoresda poca publicao de sua monografia Lele (Douglas, 1963),ignorada pelos primeiros, parece estranho.</p><p>Em entrevista a Peter Fry (Douglas, 1999c), a antroplogafornece alguns indcios para sua explicao deste silncio,aparentemente menos em termos tericos do que por motivospessoais, ao lembrar de forma um tanto amarga da vindade Gluckman e seus escudeiros para Oxford, ainda antesde formarem a escola de antropologia em Manchester. Fardontambm alude s relaes conturbadas entre Douglase Gluckman, estendidas aos seus colaboradores, transformando-as no elemento chave de sua anlise da marginalidade acadmica5,que, segundo o autor, no uma hiptese sua, mas reproduzidadas conversas com sua antiga professora6. Segundo Fardon,o fato de a publicao de Os lele ter passado relativamentedespercebida na antropologia britnica reforou os sentimentosde marginalizao e desvalorizao que Douglas vivenciava,sob vrios aspectos (Fardon, 2004, p. 98).</p><p>Na realidade, Mary Douglas havia dedicado um captulode sua monografia ao impacto europeu na sociedade Lele(Douglas, 1963), em consonncia com as crticas de Gluckman</p><p>5 Marginalidade esta que no importa tanto, aqui, se imaginada ou real,como deixarei claro adiante.6 Comunicao pessoal com o autor.</p></li><li><p>Idias | Campinas (SP) | n. 3 | nova srie | 2 semestre (2011)</p><p>|163|Christiano K. Tambascia</p><p>aos estudos de aculturao, ou aos estudos que abdicavamde uma perspectiva processual e no-esttica. Richard Werbner,antroplogo formado em Manchester, tambm assinaloua importncia da antropologia desta universidade para MaryDouglas, que foi resenhista incansvel das obras dos autores destegrupo. Afirma Werbner, ao tambm tocar na questoda marginalidade:</p><p>Talvez o primeiro reconhecimento externo de queuma nova escola tinha surgido veio em uma resenhade Douglas, uma antroploga treinada em Oxfordfamiliarizada (ainda que marginal) com a reaprincipal e o grupo de trabalho original da Escola(Werbner, 1993, p. 158) 7.</p><p>Entretanto, a despeito da previso de alguns autores 8</p><p>de que a monografia Lele seria um clssico na disciplina, o livronunca foi referncia nos cursos de formao no Reino Unido.</p><p>Talvez seja importante expor rapidamente algunsdos elementos da etnografia Lele, bem como indicar a importnciada experincia etnogrfica no Congo para as publicaesde Douglas que de fato receberam reconhecimento acadmico,antes de continuar a refletir sobre estas narrativas acerca de umamarginalidade. Os dados etnogrficos de suas duas viagensao Congo9 foram utilizados por Douglas em publicaes maistericas (Douglas, 1970 e 1976) e a ajudaram a tecer comparaesentre suas reflexes acerca das regras para a preveno de malefcios(expressas, simbolicamente, nas descries de restriesalimentares e sexuais), com as normas contidas no VelhoTestamento. J em 1953 possvel identificar, na correspondnciada autora, a preocupao com as regras contidas nas Escriturassobre pureza e poluio que sem dvida remete influncia</p><p>7 Traduo livre do autor.8 Vansina (1964a, 1964b) e Kuper (1963).9 No final da dcada de 1940 e comeo da dcada de 1950, e depois, pormais alguns meses, durante 1953.</p></li><li><p>|164|Marginalidade Relativa do Africanismo de Mary Douglas...</p><p>dos estudos sobre tabu de Franz Steiner, que lecionava em Oxfordna mesma poca em que Douglas iniciou sua carreira (Douglas,1999a). Pouco depois de sua volta do Congo, por exemplo,Douglas escreveu para diversas sociedades catlicas pedindoinformaes sobre pureza ritual nos textos sagrados, para quepudesse compar-las com suas observaes sobre a estruturalsocial e a cosmologia Lele10.</p><p>Douglas tambm pediu a opinio de alguns mdicos sobreos rituais de cura e as tcnicas Lele para evitar o perigo,j demonstrando sua preocupao acerca da poluio e a relaoentre o substrato simblico das formas de preveno de riscoe a manuteno da estrutura social. Em 16 de dezembro de 1953,por exemplo, F. M. Day, oficial mdico de sade de Londres, enviouuma carta para Douglas em que explicava que certosprocedimentos rituais primitivos tm certa validade mdica:</p><p>Seu costume de postergar o funeral no um quetenha muita significao mdica. Voc enfatiza queeles consideram matria animal em putrefao comosujeira por excelncia, de modo que claro quecadveres no seriam manuseados exceto demaneira mnima. Odores putrefatos de cadveres,ainda que muito desagradveis para o nariz, e ocadver para os olhos, so deveras inofensivos doponto de vista da doena.11</p><p>Douglas tambm se mostrou interessada na opiniode especialistas em botnica, sobre a possibilidade de algumavalidade cientfica no tratamento Lele, com ervas e plantas, decertas chagas. Mas so em suas cartas para estudiosos da religio,ao indagar sobre as formas de preveno das impurezas rituaistais como descritas no Velho Testamento, que possvel entrever</p><p>10 Ver a este respeito, Northwestern University Archives (doravante NUA),Mary Douglas papers, series 11/3/2/2, box 5, folder 9.11 Day para Douglas, 16 de dezembro de 1953. NUA, Mary Douglas papers,series 11/3/2/2, Box 1, folder 2. Traduo livre do autor.</p></li><li><p>Idias | Campinas (SP) | n. 3 | nova srie | 2 semestre (2011)</p><p>|165|Christiano K. Tambascia</p><p>alguns dos temas desenvolvidos pela antroploga em meadosdcada de 1960 sobre as normas simblicas e sua base sociale institucional. Estava delineado o projeto de uma sociologiado conhecimento que encontrou na teoria cultural de basebastante ambiciosa a possibilidade de uma ferramenta analticaque lidasse com sistemas de conhecimento africanos e ocidentais.</p><p>Em carta de 25 de maro de 1955, o padre ODonovanforneceu uma extensa descrio de comentaristas e estudiosos doVelho Testamento que analisaram as proibies alimentares acercadas ideias de poluio contidas nas Escrituras. Um pequeno trechopermite identificar o interesse de Douglas sobre as noesde impureza, prefigurando a questo sobre a interpretao dasLeis Sagradas pelos grupos que as significam. ODonovan,inclusive, levanta o tema do sentido simblico das normas a autenticidade dos livros do Pentateuco, algo que, paraDouglas, perdia importncia quando contrastado com seusubstrato racional:</p><p>Qualquer considerao sobre a questo da origem(e desenvolvimento?) da Lei Mosaica sobre impurezae o resto como expressa no Levtico nos levaao campo de batalha sangrento sobre a origeme autenticidade do Pentateuco (...) Muito antesdo Ramo de Ouro, escritores cristos estavamcompelidos a buscar uma prova da transcendnciade sua religio. Apologistas pagos do segundosculo encontraram facilmente argumentos contidosno V.T. para justificar suas prticas.12</p><p>Em suas notas de campo, Douglas tambm se mostravaatenta para a simbologia ritual encontrada nos resguardosalimentares e sexuais da sociedade Lele, e sua relao com as formasde evitar os efeitos do perigo da feitiaria, causa dos males</p><p>12 ODonovan para Douglas, 25 de maro de 1955. NUA, Mary Douglaspapers, series 11/3/2/2, Box 5, folder 9. Traduo livre do autor.</p></li><li><p>|166|Marginalidade Relativa do Africanismo de Mary Douglas...</p><p>e das tenses sociais que pareciam reforar uma ordem moralsimbolicamente mediada. Por exemplo, em agosto de 1953,Douglas escreve:</p><p>Adultrio perigoso para uma mulher se doente.Se seu marido est doente, e voc tem relaessexuais com outro homem, ele ficar muito pior.Por exemplo a lepra de Pung, recuperao atrasadapelo abandono de Whahela e indo ficar com outrohomem. No apenas homens, mas mulherese crianas, qualquer pessoa doente, est em perigoe pode morrer se colocada em contato com algumque teve relaes sexuais, mesmo licitas,e igualmente com uma mulher em seu perodomenstrual.13</p><p>Suas anotaes de campo esto recheadas de observaesque deixam entrever as causas atribudas pelos Lele parao infortnio, pela ao mgica. No cabe aqui realizar uma anlisedensa da etnografia de Mary Douglas, mas importante ressaltarque os dados etnogrficos lhe permitiram perceber a importnciada relao entre as faltas sociais e um vocabulrio simblicoreligioso expresso na noo de contaminao e impureza rituaisquando em contraste com a quebra das normas devidas para cadamembro da sociedade. As formas de racionalidade calcadas emcrenas em magia e feitiaria, no mbito da esfera religiosa (masindissocivel da economia e da poltica entre cls e vilas),possibilitou que a relao entre cosmologia e morfologia socialfosse estudada em diferentes sociedades (no mais na perspectivaevolucionista que dissociava o pensamento primitivodo ocidental). Afirma Douglas s...</p></li></ul>