cheiro de feijao estrelas e sonhos

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  1. 1. Aquele cheiro de feijocozinhando foi demais paraEduardo. Depois de muito temponas ruas, comendo os restos doque conseguia, ele se deixoulevar pelo aroma daquele feijoe, quando viu, estava batendopalmas naquela casa de ondeprovinha o aroma to marcante.Uma senhora de cabelos brancose com um avental na cintura,tambm branco, atendeu e nose assustou com a roupa dele, jmuito gasta, nem pelos seuscabelos enormes, que h muitono via um corte.
  2. 2. - "Que foi meu jovem, em queposso ajud-lo?".Eduardo ficou mudo diante daquelerosto to bondoso. Sua voz nosaa, e ele gaguejou:- "Bom...bom...bom dia. Sabe, que eu senti o cheiro do feijocozinhando e lembrei me da minhame, lembrei-me da fome eresolvi pedir um pouco, se asenhora puder. Pode ser num copo plstico mesmo, s para eu podermatar a vontade de comer essefeijo to cheiroso.
  3. 3. Dona Benedita ficou surpresa com o desejodaquele menino. Sim, apesar das roupas velhase sujas, do rosto marcado pela sujeira, aquele rapazote no deveria ter mais do que 15 ou16 anos. At hoje ela no sabe o por qudaquele gesto to incomum nos tempos atuais,onde a violncia est em cada esquina. O fato que ela se comoveu com aquele menino e pediu para que entrasse. Eduardo no sabia o que fazer. Nunca algum o convidara para entrar em uma casa. Omximo que faziam era dar uma comidamisturada em latas de goiabada ou emembalagem plstica de sorvete, quenormalmente as pessoas nem queriam de volta,como se ele tivesse alguma doena contagiosa.
  4. 4. Timidamente ele entrou naquele quintal enorme e,seguindo aquela senhora to amvel, entrou em umacozinha muito bonita, simples, com azulejos azuis clarosnas paredes, piso vermelho brilhando, uma mesa e 4cadeiras brancas. Na mesa, uma toalha muito branca e j sobre ela, arroz em uma travessa, gua fresca, pratos e copos."Ah, meu Deus, o paraso deve serassim!", pensou Eduardo.Sem saber o que fazer, ficou ali, na porta, em p,observando aquele ambiente que lhe deu uma pazindescritvel. Ele j estava andando pelas ruas h maisde 4 anos, desde que sua me morreu, l naquele Estado distante, Sem nenhum parente, Eduardolembrava-se apenas da me dizendo que teve umpaizinho muito querido, que morava em So Paulo, l pelas bandas da Vila Maria, que ela amava muito equeria tanto ver.Lembrava da me chorando todas as noites, falando baixinho para ele no acordar, da saudade do pai e da me to amada, que morreu de uma doena nospulmes, sem rever os parentes.
  5. 5. Dona Benedita, voltou de um dos cmodos trazendo uma toalha e algumas roupas usadas mas muito limpas, e foi falando para ele tomarum bom banho e se trocar, enquantoela acabava o feijo. Sem sabermuito o que fazer, Eduardo entrou naquele banheiro e tomou o banhomais gostoso da sua vida. Ele tambmnunca viu tanta gua encardida sair de uma pessoa...
  6. 6. Aos poucos, aquela marca e aquela casca impregnada dasruas foram saindo. Junto iam as dores, as mgoas, e ele sepegou cantando. Quando saiu do banheiro, Dona Beneditaficou parada olhando para aquele rosto, os cabelosligeiramente alourados, cheios de cachos... Dona Benedita imediatamente lembrou-se da sua filha, que sara de casa numa briga com o pai. Ela engravidara de um rapaz que no quis assumir a criana. Seu Vicente, homemdas antigas, no soube entender a filha caula, grvida esem marido, e, num gesto impensado, a mandou embora. Os dois discutiram e moa falou que ela no era mais a sua filha. Ela saiu naquela noite de setembro e nunca mais deunotcias.
  7. 7. Aquilo foi demais para o velho pai, que, apesar do modogrosseiro de tratar os filhos, rude, acostumado somenteao trabalho, amava como louco a sua filha, e todos os dias,depois que ela partiu, saia s ruas atrs de notcias, dealguma pista que o levasse at ela. Arrependido, seuVicente foi definhando, definhando e morreu 4 mesesdepois, sem nunca mais a ver.
  8. 8. E ali estava aquele rapazote, com o rosto parecido com o da filha. Mas, Dona Benedita voltou realidade do feijo na mesa, e o mandou sentar.Quando o rapaz colocou a primeira garfada naboca, grossas lgrimas escorreram pelo seu rosto.Dona Benedita, percebendo a situao, perguntou:"Que foi filho? O feijo t to ruim assim que te fez chorar?".
  9. 9. Eduardo sorriu timidamente e disse que no. Era apenas a lembrana da me que ele amava tanto... Em silncio eles comeram e, notando o apetite do rapaz,ela mesma o serviu mais duas vezes. Depois, ela passou um caf; perguntou o seu nome; quis saber um pouco da suahistria. Ele s falou o nome e saiu agradecendo a sua melhor refeio dos ltimos tempos.
  10. 10. Meia hora depois, com roupas limpas, banho tomado ebarriga forrada, Eduardo acabou descobrindo que j estavana Vila Maria e isso acendeu a sua esperana. Mas, quandoa noite chegou, ele viu, pelas luzes que se acendiam, queaquele lugar era muito grande, e sem maiores detalhes doav e da av que nunca tinha visto, imaginou que seriaimpossvel encontrar os parentes.
  11. 11. Enquanto isso, Dona Benedita, estava no seu quintal, observando a noite. Tem sido assimdesde que a filha sumiu no mundo. Sempreolhando para o cu, ela sempre nota que uma estrela se destaca das outras, para essa estrela que ela se dirige h muitos anos,como se fosse para a prpria filha. Nessanoite, seu corao estava inquieto. Aquelerapaz na cozinha mexeu com ela. Ao olharpara a sua estrela favorita, notou que elaparecia girar, brilhando mais forte. DonaBenedita imediatamente reviu a imagem do Eduardo e ficou pensando...
  12. 12. No dia seguinte, Dona Benedita sai cedo, sem destino. Passou pelas ruas perguntandose algum tinha visto um andarilho,descrevendo-o. Ela precisava tirar uma dvida e no podia perder a chance.Encontrou-o numa praa, sendo abordado por dois policiais, que o agarravam com ares depoucos amigos. Dona Benedita chamou-o pelo nome e, ao olhar para ela, os policiais osoltaram e perguntaram se ela o conhecia.Ela respondeu afirmativamente, o que fez com que o menino fosse liberado.
  13. 13. Assustado, Eduardo agradeceu pela gentileza e Dona Benedita o fez sentar no banco econtar a sua histria. Conforme ele iacontando, a mulher percebia os pontos em comum com a histria da sua filha: o tempodecorrido e a sua idade, os cabelos cacheados e aqueles olhos, que agora ela parecia ver como um espelho, que refletiamos olhos do seu amado marido. Quando ele falou o nome da sua me, Dona Benedita comeou a chorar. Chorou tanto e abraavatanto Eduardo que ele ficou com medo de elamorrer: "Mas, dona, o que foi que eu fiz?...Por favor, me fale... Pare de chorar.
  14. 14. Dona Benedita secou as lgrimas e contou a histria da filha. Ento, Eduardo percebeu que a sua busca tinhaacabado. Ela acabou de encontrar a sua famlia e foi a vezde ele se entregar naquele colo e chorar. O tempo passou...Mais de 12 anos j se passaram desde aquele "reencontro".Eduardo arquiteto de muito prestgio na construtora ondetrabalha. Casou-se e tem dois filhos e, mesmo podendomorar no seu elegante apartamento, preferiu ficar naquelacasa que o abrigou, ao lado da sua av, que sempre fazaquele feijo cheiroso que o conquistou.
  15. 15. Toda noite Dona Benedita ainda sai para o quintal, olha parao cu e fala com a filha, olhando para aquela mesma estrela, que agora, desde o dia em que Eduardo apareceu,tem outra estrela ao lado. Dona Benedita tem certeza que pai e filha se reencontraram no cu, no lugar onde o amorvenceu e sempre vencer. E, se essa histria te parece impossvel, talvez seja por issoque voc ainda sofra com algumas decepes e deixe delutar pelos seus sonhos. Talvez voc tenha esquecido de amar um pouco mais, de dar mais dois passos em direo sua estrela e descobrir que, apesar da noite escura echuvosa, ela jamais deixou de brilhar.